Capítulo XIV – Grays e Blacks
Ele acordou cedo após uma noite puxada. Saiu tarde do trabalho, e não teve muita chance de fazer outra coisa: chegou em casa, tomou um banho muito rapidamente e foi dormir. E essa situação o deixava atento para um despertar mais dinâmico, era seu relógio biológico, herança, na verdade, dos tempos da faculdade: estava acostumado a acordar cedo.
Mas o que o despertou daquela vez foi um bocejo. Como se puxado de um sonho, aquilo era como melodia aos seus ouvidos e, enquanto acordava, uma longa cabeleira castanha se delineava diante de seus olhos semicerrados. Olhava de costas uma silhueta feminina com costas finas, mas proporcionais a de uma mulher adulta. Um dos braços estava apontado para cima, enquanto outro, para o lado. E, num rápido movimento, a forma girou e se jogou na cama, de modo que ele, ainda sonolento, viu-se fitando aquele par de olhos castanhos.
- Hora de acordar, dorminhoco - ela lhe dá um rápido beijo - seus compromissos o aguardam.
- Só mais cinco minutos, doutora - e falava com uma voz arrastada - ontem eu fiquei até tarde, precisei ajudar uma adolescente em trabalho de parto... nham...
- Não lembro de você ser obstetra - ela passava a mão pelo rosto dele de maneira carinhosa, até que se levanta e começa a andar pelo quarto.
- Nem eu, mas no plantão a gente precisa se virar com o que tem à mão - ele se senta na cama, coçando os olhos - muito trabalho, ontem?
- Muito - ele mal piscara e ela já penteava com uma escova o cabelo, de maneira que ninguém acreditaria que há menos de um minuto ele estava bagunçado. Era um vício, acordar e pentear o cabelo, mesmo que fosse tomar banho logo em seguida - ontem apareceu um garoto que dirigiu bêbado, acredita que queriam enviá-lo para o reformatório?
- Criança aqui, criança acolá... o que houve com essa juventude? Não deviam estar na escola?
- Ah, meu querido, tem coisas que você não precisa de lugar para aprontar - ela terminava de mexer no guarda-roupa, separando um conjunto de terno.
- Ah, volta pra cama - ela não percebeu quando ele se levantou, e agora a abraçava por trás - só mais cinco minutos, por favor...
- Ficou doido? Temos trabalho!
- Vamos fazer um "trabalho" aqui - e o mesmo dava um beijo no seu pescoço - beeeem devagar. Que tal uma ducha? Posso até ficar mais disposto - e roçava o nariz em seu pescoço.
- Hmmm... proposta tentadora. Recebida, analisada e...
Foi quando eles escutaram um barulho. Na verdade, uma batida na porta do quarto.
- Ah, não! Pelos céus, logo cedo!
- Lamento, querido. Mas você devia ter pensado bem antes de contratar uma funcionária.
- Eu? Pelo o que me lembro, essa "empresa" é nossa!
- É verdade - ela ri de leve, enquanto pega algumas roupas e se desvencilha do abraço dele, caminha para uma porta dentro do quarto - Mas, foi o SEU EMPENHO que me convenceu a entrar nessa empreitada, lembre-se!
Pensou em reclamar, mas o barulho do chuveiro abafaria qualquer as vozes. Percebeu que não estava com as roupas mais confortáveis do mundo, pegou uma blusa sem mangas e colocou uma bermuda. Olhou-se brevemente diante do espelho e viu que os hambúrgueres que andou comendo estavam dando sinal de que cobrariam um preço alto.
Primeira coisa da lista: academia.
Segunda: rever aquela regra não escrita de que as atividades pendentes eram de responsabilidade de quem estivesse menos atrasado. Ou ocupado. Ou ambos.
A Vida funciona assim: procuramos metanarrativas, grandes acontecimentos que dão sentido ao que fazemos e orientam nossos caminhos. Muitas vezes, essas histórias são contadas por meio de recortes de outras, menores. Mas isso significa que, geralmente, estamos procurando um significado macro, diante de elementos cotidianos que nem sempre se interligam. Buscamos, às vezes, uma explicação transcendental para eventos que, isoladamente, tem pouca relevância.
Tomemos, como exemplo, a nossa tão esperada "Segunda". Três dias depois da nossa turbulenta sexta, e dois após as reviravoltas do Sábado. Para os alunos, apenas mais um dia, com novas aulas, sono acumulado, mal humor, brigas... enfim, a boa e velha Segunda.
Algum aluno mais atento perceberia que, no salão principal, na mesa dos professores, Madame Pomfrey não estava presente. Esse mesmo aluno poderia supor que as palestras sobre higiene e saúde, ministradas no final de semana, a deixaram cansada. Não era uma inverdade, mas a mesma precisou se movimentar em várias direções para resolver problemas mais urgentes, como preparar as notícias que seriam dadas naquela manhã sobre o baile de arrecadação de fundos; e até mesmo alguns assuntos inesperados, os quais exigiram muito do seu empenho para serem resolvidos. Um deles, em particular, a deixara extremamente esgotada, além de obrigá-la a usar toda a sua capacidade e autoridade para ser executado.
Luna, em sua mesa, não estava no auge da animação. Fora informada de que sua prima tinha sido transferida para o segundo andar do ST. Mungus, em Londres, no final da tarde de Domingo, e não teve sequer a oportunidade de se despedir. Quando chegou na enfermaria, a mesma não estava ali, mas deixou uma carta, avisando que manteria contato. Para piorar, soube por Florinda que seu pai, Mundungus, esteve em Hogwarts no Sábado, à noite, no período em que os estudantes não podiam mais sair, para resolver essa questão. Sua tia devia estar desolada, pensava. Mas, pelo menos, poderia visitar Sarah em Londres, diferente de Luna, a qual não poderia sair dali tão cedo.
Tinha compromissos: estudos, quadribol, Conselho Estudantil de Saúde. Mas, diante daquela situação, aquilo parecia um monte de coisas de menor importância. Estava se sentindo particularmente ácida naquele dia, sem vontade de conversar com ninguém.
Estava triste. As pessoas não falavam para ela, e sabia o porquê: a consideravam muito nova para encarar a realidade de que a doença de sua prima era mais grave do que aparentava. Mas... ela sabia. Por vários momentos, sinais e indícios, sabia. E o que mais a frustrava, era o fato de que todos queriam poupá-la de algo que consideravam ser uma notícia ruim. Isso a chateou, já que seu pai apareceu ali de repente e nem foi falar com ela.
Rony tentou explicar diversas vezes para Hermione o ocorrido em Hogsmeade, mas muitas das informações eram confusas. Sentia como se lacunas inteiras tivessem sumido de sua mente, e ela estava fazendo o seu melhor para entender o que ele dizia. Constantemente terminava em "Hackear o Fidelius", mas não conseguia ir além disso, pois tinha dificuldade para compor em palavras o significado daquilo, e ao que estava associado. Mas a cada três frases, ele repetia a mesma palavra: Black. Parecia uma constante naquele momento.
Aquele final de semana, para Harry, tivera um gosto particularmente amargo: passou boa parte do Sábado ao lado de Sarah. Mas, no Domingo, não pôde entrar na enfermaria, pois Madame Pomfrey e Florinda tinham problemas para resolver e, por isso, precisaram isolar o espaço. Tentou usar "N" argumentos, chegou a apelar para a ajuda de Hermione, chefe dos monitores, e Rony, do corpo de saúde, mas a situação estava irredutível. No fim, entre tantas idas e vindas, descobriu que a moça já não estava mais ali, e nem teve a chance de se despedir.
A única coisa que lhe restava, naquele momento, era a flor que carregava. Embora fosse uma aluna esforçada, a falta de um tutor adequado, de estar presente em sala de aula, afetou um pouco o desenvolvimento de Sarah, de maneira que uma matéria como Transmutação lhe era muito cara. Em meio às suas conversas eles brincaram um pouco, transformando coisas e objetos, e ele observava essas mesmas falhas nas magias que a moça executava, embora se esforçasse. Ao final do dia, ela transmutou a planta, que fora o pivô da aproximação de ambos, em um girassol. A princípio, ficou muito envergonhada - e Harry também, pois achou que não tinha ensinado direito - mas, quando ele foi tentar fazê-la voltar ao normal, Sarah pediu que deixasse do jeito que estava. Que a achou bonita, e que lhe trazia lembranças. Riu um pouco, estava, na verdade, sorridentes como se pudesse voar dali.
Pediu que Harry guardasse a flor. Ainda iria tentar a magia em outro momento, mas achou-a linda e singela. E fora essa mesma flor da qual ele não desgrudou durante todo o Domingo, e que trouxera consigo para o salão principal. Enquanto havia comida farta em sua mesa, o mesmo apenas encarava a flor, como se olhasse para Sarah.
A garota dissera que aquilo a lembrava de uma música de ninar que sua mãe cantava para ela, quando criança. E, por isso, um milhão de melodias passavam pela mente de Harry, tentando lembrar de alguma letra na qual um girassol aparecia. Percebeu, por fim, que não conhecia muitas músicas bruxas, com exceção de algumas bandas, como "As Esquisitonas". Perguntou a Rony, e o mesmo não conseguiu ajudá-lo. Deveria ser uma música da região de onde Sarah viera, o amigo lhe dissera.
A região. De repente, ele se viu tentando divisar a garota em duas: uma, a que tinha uma família composta por mãe, tia, tio e primas, como se habitassem um lugar sem nome, e viviam suas vidas tranquilas. A segunda, a informação de que ela morava em Wiltshire. E isso o lembrava de uma série de coisas que, naquele momento, lhes eram desagradáveis, amargas. Esforçou-se ao máximo, mas era evidente que havia uma certa tristeza em seus olhos. As palavras ditas naquele final de semana eram carregadas de frustração, e pesadas.
Era assim que, dentre trancos e barrancos, o dia começava para os estudantes. Alguns mais avoados, outros, detidos em seus dramas pessoais. Assim, também, começou para muitos, com as corujas despejando as edições do profeta diário nas mesas do salão principal. Mas antes que essa ação se concluísse, é importante delimitar o que acontecia ao redor.
Naquele dia em particular, a professora Minerva também estava ausente, por motivos não explicados. Assim, Dumbledore se ergue, preparando-se para dar os anúncios matinais. Rony, Pansy e Chaz tinham expectativas diante daquilo. Luna, por sua vez, estava dispersa. Seria feito o anúncio do baile do dia dos namorados, com a expectativa de ajudar nos projetos da equipe estudantil de saúde. Outros, claro, tinham suas próprias preocupações.
Uma delas - particularmente, Rony e Pansy - era como isso afetaria o calendário escolar. Havia uma tensão na escola não assumida publicamente, por causa dos NOM´s. Alguns programas de intercâmbio estavam brevemente suspensos por causa das tensões fora de Hogwarts e as movimentações envolvendo o Lorde das Trevas - aliás, uma informação que escapava à compreensão de muitos estudantes. - E, para complementar essa verdadeira "salada", a maneira como afetava a Copa Mundial de Quadribol, com jogos suspensos, times de Quadribol se recusando a jogar em regiões nas quais haviam ocorridos confrontos com Comensais da Morte... o mundo bruxo estava uma verdadeira bagunça. Era por isso que muitos estudantes, em meio à forma como suas vidas estavam, abraçaram com bom grado o retorno à Hogwarts, àquela "rotina salvadora".
Apesar da troca constante de mensagens, muitas informações não chegavam diretamente aos estudantes: nem sempre a rede de corujas era confiável, e os pais, por diversos motivos, tinham suas desconfianças. Houve, então, uma enxurrada de informações durante as duas semanas do recesso de Natal – entre o final de Dezembro e o início de Janeiro -, de maneira que os estudantes voltaram com essa carga toda depois das festas de final de ano. De repente, o mundo já não era tão pequeno. Aquelas informações que tinham acesso por meio de jornais, cartas e comentários no corredor, eram parte da tensão diária, mesmo que seus pais tentassem ocultar esse tipo de coisa.
Exatamente para abordar toda aquela confusão, e tentar dar uma luz aos estudantes sobre como isso afetava o calendário letivo, que aquela manhã era tão importante. Muito seria explicado naquele momento, além, é claro, do Baile, o qual, nesse critério, assumiria uma importância que só depois os responsáveis perceberiam. Seria "O" anúncio do dia.
Seria.
Mas um evento muito específico afetou toda a dinâmica e o grau de dos acontecimentos, e refletiria ao longo daquela semana. Ninguém sequer cogitaria aquilo, tampouco a forma como pegou a todos de surpresa, como na primeira vez em que o ser humano descobriu que poderia destruir uma cidade com uma única bomba.
O Timing foi perfeito: no momento em que o professor Dumbledore se ergueu, as corujas começaram a adentrar no salão principal, despejando as edições do Profeta Diário na mesa de todos os estudantes.
Pegou a todos de surpresa. Surpresa, mesmo. Não apenas com "S" maiúsculo, mas um alfabeto inteiro.
Fazendo justiça, algum aluno ou outro viciado em teorias da conspiração iria dizer um orgulhoso "eu já sabia". Outros, os quais tinham algum grau de percepção dos eventos, ficariam menos surpresos, mas, ainda assim, seria uma surpresas. Assim, para tentar quantificar esse grau de estupefação, é interessante observar algumas reações, naquele momento.
Amanda é um bom exemplo. Sentada na mesa da Grifinória, ela ficou de pé, com as mãos apoiadas na mesa, e olhava desesperadamente para todas as direções, como se tentasse acordar daquilo, tentando descobrir se era uma ilusão. Esse ato fora imitado por Emma, da Sonserina. Ela simplesmente não acreditava no que acabara de ler e, assim como Amanda, estava pasma. E foi além: levantou-se e caminhou até o centro do salão, como se procurasse alguém. Não encontrou, o que a fez retornar para a mesa da Sonserina. E essa reação, de se levantar para tentar procurar algo, ou alguém, fora repetida por diferentes estudantes da Sonserina. E da Grifinória. E da Lufa-Lufa. E, também, da Corvinal, embora os mesmos estavam mais virando o pescoço, como se procurassem de maneira diferentes.
Hermione engasgou com um pedaço de pão, e Rony a ajudou a não sufocar. Harry piscava de maneira intermitente, pois estava tomado por uma lentidão para processar aquela informação. Neville estava assistindo aquilo por alto, e fez a pergunta mais sensata, a qual muitos estavam espantados demais para fazer. Mas, depois a resgataremos, voltemos ao mesmo.
Na mesa da Lufa-Lufa, Luna continuava dispersa, com a cara na mesa. Escutava um burburinho, mas estava preocupada demais com a prima para ligar. Para ela, era tudo um monte de "Ah", "Oh" e "Ué's".
Morgana era outra que estava mais do que surpresa: perguntava-se como aquilo passou despercebido pelo seu nariz. Com seu talento "investigativo", era boa em descobrir coisas pela escola. Mas, AQUILO, era uma descoberta digna de uma Rita Skeeter.
Por sinal, era quem assinava a matéria do Profeta diário.
Rika cuspiu seu suco na cara de James, pega pela surpresa. Julieta teve um pouco de dificuldade para entender o contexto da matéria. Miranda piscou algumas veses, enquanto processava a informação e algumas memórias retornavam, por sinal, o mesmo que acontecia com Carlos, o qual se mantinha impassível. Cho arregalou os olhos, enquanto olhava para todos os lados. Aquilo nem sequer fazia sentido para ela, e olha que seus pais trabalhavam no Ministério da Magia. Padma não perdeu tempo: olhou para a frente, encarando Cassie, a qual mantinha o rosto afundado no jornal, como se tentasse pegar alguns detalhes importantes.
Era um barulho ensurdecedor, e poucas foram as vezes que, quando o diretor começava a falar, os alunos não ficavam em silêncio. Ninguém deu a mínima para ele. O que quer que viesse a dizer, não teria a menor atenção, pois passou a ser um assunto de segunda importância, ou melhor, de décima. A grande notícia da manhã, do dia, do século, era a matéria no Profeta Diário assinada por Rita Skeeter. O resto, fora jogado à total insignificância. Até mesmos os estudantes que, há pouco, estavam perdidos em meio a seus dramas, de repente ignoraram suas dores pessoais - com exceção de Luna, que não dava a mínima para aquilo - e passaram a dar atenção à reportagem.
- Barulhentos e desrespeitosos - uma voz feminina se manifestava, mas ninguém escutava, já que, em suma, todos estavam olhando para o jornal. Adentrando a passos lentos pelo corredor principal do salão, ela estica o braço direito e estala os dedos. E, de repente, tudo ficou em silêncio.
- O quê...? - Hermione tomou um susto, bem como outros estudantes pois, ao seu ver, conseguia escutar a própria voz. Porém, de repente, percebera que não escutava mais a voz de Rony, ou as outras ao seu redor. Ela o encarava, e percebia a surpresa em seu rosto - Rony, pode me ouvir?
- Sim, eu acho.
Daquilo, ela deduziu duas coisas: primeiro, era um uso do feitiço Sonorus. Mas um uso totalmente fora do que aprendera em sala de aula, na verdade, nos próprios livros. E só se tocou disso porque, em primeira mão, viu algo similar dias atrás. Segundo, por algum motivo ela conseguia escutar alguém, quando essa pessoa se dirigia diretamente à ela. Prova disso era que, assim que Rony se dirigiu à Harry, ela não escutou o que conversavam.
Percebeu uma falha em sua teoria quando começou a escutar um barulho. Pequeno, mas crescente. Ritmado. Passos. Seu coração começou a bater mais rápido e, então, teve a certeza de que todos escutavam aquilo. Esticou os olhos procurando a fonte, ato imitado por tantos outros alunos, observando, entrando a passos lentos no salão, uma mulher alta, vestida de preto. Era realmente alta e corpulenta, mas não no sentido de ser musculosa. Era uma roupa preta que em muito lembrava a de Snape, mas as semelhanças paravam por ai. Tinha uma anatomia muito generosa que ficava explícita pelo delineamento da roupa. Andava com um certo requinte. Os que a encaravam tinham uma sensação estranha, como se a visão da mesma bagunçasse a percepção dos seus observadores.
Ainda, o som dos passos. Era como se a ausência de ruído tivesse aberto um vácuo, de tal maneira que não alguns, mas todos a encaravam. O rosto dela parecia, ao mesmo tempo, familiar e novo. Era como se vissem uma conhecida pela primeira vez. Alguns alunos que a olhavam realmente não a conheciam, mas tinham a opção de que já a tinham visto anteriormente. Viriam a descobrir, em alguns instantes, que era o efeito de um estranhamento mágico.
- Cassie, olha! - Padma tentava chamar a colega, com a qual ainda estava brigada. A mesma não deu atenção - Olha!
- Não estou falando com você, Pátil. Eu não...
Foi nisso que Cassie teve um calafrio, na verdade, um choque na espinha. Sentia como se uma serpente estivesse bem atrás dela, fungando no seu cangote. E isso se confirmou quando sentiu a mão de uma pessoa em seu ombro. Era fria, e lhe passava uma sensação muito desagradável, como se estivesse sugando a sua vida.
A mesma que teve quando, em sua visão, fora estrangulada.
- Olá, senhorita Cassandra Beckman - aquela voz igualmente amedrontadora ecoava em seus ouvidos - finalmente nos reencontramos. Vou resolver alguns assuntos, e depois você terá a minha total atenção, conforme prometido.
Ela não teve coragem de se virar. De onde estava, Padma observava aquela mulher loira, de olhos cinzentos, a qual exalava uma presença assustadora.
- Ela parece diferente, mas... o que houve?
A mesma caminha até a mesa dos professores e se senta próxima à Snape.
- Você é muito dócil, Severo - ela tinha um sorriso igualmente requintado e desafiador - o que você faz com esses estudantes nas suas aulas? Dá leite com biscoitos para eles?
- Ora, ora, ora... parece que nós teremos muitas surpresas nesse retorno às aulas. - O mesmo olhava levemente surpreso mas, ao mesmo tempo, curioso com aquela situação - você está trazendo muito ruído e atenção desnecessária para nós, professora...
- Black - ela o interrompia - pode me chamar da maneira que sempre deveriam ter me chamado... Black.
- E eu presumo que seu nome anterior...
- Continua onde ele deve estar.
- São situações como essa que fazem alguns questionarem se devemos confiar em todas as pessoas que o diretor Dumbledore convida para serem professores.
- Concordo. Se Sume fosse docente, já teria sido promovido a professor de Defesa Contra Artes das Trevas – ela alfinetava de maneira bruta. Era o grande sonho de Snape ministrar essa disciplina há anos, e Dumbledore nunca aceitou seu pedido – talvez eu deva me candidatar, o que acha?
- Gentileza se juntar à nós, Lady Black - Dumbledore a olhava, ainda sentindo um traço de perturbação do feitiço Fidelius - mas poderia, por gentileza...?
- Claro - ela estalava o dedo e, naquele momento, os estudantes voltavam a escutar o barulho ao redor. Mas a surpresa fora tão grande, que os mesmos permaneciam em silêncio. Era um silêncio tão estrondoso, que apenas o som de suas respirações e o bater dos corações era escutado. Todos, sem exceção, olhavam para a mesa dos professores, encarando-a. Não sabiam o que os deixava ainda mais aturdidos: aquele silêncio ensurdecedor, ou a mulher recém-chegada que acabara de se sentar na mesa dos professores, e cuja foto estava estampada no Profeta Diário.
O pior de tudo era a sensação vociferante que tinham de que conheciam aquela mulher e, ao mesmo tempo, não.
"Mas não era o namorado da..." – era a pergunta feita antes por Neville ao encarar a foto na capa do jornal, mas isso se perdeu durante a entrada apoteótica de Lady Black.
Nossa querida Morgana olha novamente para o Profeta Diário, como se tentasse provar que seus olhos estavam pregando uma peça. Mas não conseguia. E a notícia ali estampada era tão surreal, que ela sentia como se alguma tivesse rompido um manto de sombras, e trazido luz para a sua percepção.
E aquilo acontecia, naquele momento, em milhares de residências do mundo bruxo, tantas quantas recebiam, naquele momento, a edição do Profeta Diário. O simples título da notícia causou uma ruptura tão singular na estrutura do Feitiço Fidelius que estava por trás do que era noticiado, que o mesmo se rompeu, iluminando a mente de tantos leitores quanto possível.
A notícia?
Ah, sim, eis a notícia: ocupava a primeira página do Profeta Diário uma capa enorme. Na parte de cima, era possível ver a foto de duas pessoas: do lado esquerdo, uma mulher loira, olhando para a esquerda; e do lado direito, um homem com um rosto levemente surrado, mas também com vasta cabeleira e bigode. Quando se desdobra o jornal, era perceptível que, na segunda metade, havia uma figura de corpo completo em pé, vestindo o que lembrava uma roupa azul. Estava de costas, mas os detalhes visuais davam indicações de sobra de quem era: usava o uniforme de quadribol com as Cores da Corvinal e, com a mão esquerda - no caso, do lado direito, já que estava, como dito, de costas -, segurava uma vassoura. E possuía uma cabeleira de tamanho mediana, escura. O Homem que aparecia na primeira metade movia o rosto, de modo que havia um efeito que fazia-o transitar entre um rosto mais jovem, e um mais atual, conhecido de muitos: Sirius Black.
O rosto da mulher não era uma novidade, mas a maior parte dos leitores de Hogwarts não entendiam o que significava aquilo. Pois a mulher loira era extremamente parecida como a professora de História da Magia, Jane Kneen. Na verdade, não conseguiam vê-la como uma pessoa diferente, apenas alguém com o cabelo loiro. Mas, ainda assim, aquela sensação de conhecer desconhecendo. E era um loiro totalmente oposto a cabeleira negra, a qual, por sinal, também parecia natural. Aquele cabelo não parecia uma pintura, mas era extremamente vivo. Os demais professores, na verdade, tinham uma sensação, como se um véu tivesse sido arrancado e, de repente, muita coisa retornasse às suas memórias. Eles conheciam Jane, e tinham uma percepção confusa sobre seu passado, mas aquela notícia estampada no jornal parecia ter arrancado do fundo de suas memórias algo que estava escondido de propósito.
Normalmente havia alguma informação nas primeiras capas do Profeta Diário, mas a combinação de imagens ali era deveras significativa. O conjunto de elementos visuais por si chamaria a atenção de cada um. Além das imagens, havia apenas um título:
"The Rebirth of Black"
E, é claro, ao virar a página, ninguém teria dúvida da autoria da matéria:
"Ora, ora, meus caros leitores... que bons ventos nos trazem as notícias de hoje! E quando todos estavam surpresos com os últimos acontecimentos de Hogwarts, eis que de repente temos novas notícias! E que notícias, meus leitores!
Sim, afinal, Hogwarts nunca nos decepciona! Sempre que o nosso querido mundinho parece ficar chato, é possível encontrar algo de bom naquele lugar! Você está preocupado com você-sabe-quem invadindo sua casa? Preocupados com o aumento das taxas de fabricação de vassoura? Incomodados com a crise nos preços do Pó de Flu? Pois bem, senhores, trazemos aqui notícias que vão tirá-lo do seu mundinho insignificante!
E o que seria? Ora, se você viu a capa, então sabe das novidades! Não é segredo para ninguém que, recentemente, Sirius Black teve a inocência provada após o auror Mundungus Fletcher ter encontrado vivo Pedro Pettigrew. Alguns até diriam que é notícia antiga, já que muita coisa acontece a todo momento. Mas se enganam aqueles que pensam que não tem mais nada de interessante nesse assunto!
Pois bem, senhoras e senhores, por uma incrível coincidência do destino, quem é que resolve dar as caras logo após a inocência desse membro da tão distinta família Black ser provada? SIM, A PRÓPRIA! A INCRÍVEL, VENERÁVEL, HONORÁVEL E FABULOSA LADY BLACK! Seus olhos não os enganam, senhoras e senhores! A lendária Jane Black está de volta, para a incrível surpresa de todos! A polêmica e famosa pesquisadora da magia e da sociedade bruxa torna a dar suas caras! É isso mesmo que vocês escutaram: no exato momento em que Sirius Black se torna um homem inocentado, temos o retorno de sua não menos memorável esposa!
Alguns devem estar se perguntando onde ela esteve durante todos esses anos, meus caros! Essas perguntas, é claro, serão respondidas com o devido tempo! Mas a honorável Lady Black, com suas teorizações polêmicas sobre a relação entre sociedade bruxa e interpretação mágica, está de volta! E, como se isso não fosse ainda mais surpreendente, ela é professora de história da Magia de Hogwarts! É claro que ninguém aqui duvida de suas credenciais: uma aluna dedicada e esforçada, pupila e auxiliar de Minerva Mcgonagall, mesmo sendo uma Sonserina e, ainda, durante os tempos como estudante! Fez carreira com embate faraônicos com Batilda Bagshot e, como muitos já comentavam nos círculos mais íntimos, discípula e protegida de Arcturus Black, avô do seu marido!
É claro que, para todos que se lembram dessa figura importantíssima, refinada e requintada da High Society bruxa, não há dúvida de que não haveria figura melhor para estar lecionando em Hogwarts, diferente das últimas escolhas de Dumbledore, o qual tem o péssimo hábito de contratar pessoas que mal conseguem encerrar um ano letivo, veja só. Jane representa todo o requinte e tradição dos grandes catedráticos da instituição e, justiça seja feita, seria uma indicação melhor para um futuro Diretor da Escola, após a aposentadoria de Dumbledore!
Mas, esperem! Há muito o que ser dito, e muito pano ainda há de surgir! Fechamos essa matéria com uma pergunta que só a nossa querida professora pode responder: Jane, não queremos saber o que você fez durante esse tempo todo em que esteva isolada, afinal, todo mundo precisa de um período sabático. É claro que você tem muitas explicações a dar, e com certeza uma enxurrada de cartas a receber, afinal, como raios você ficou sumida por tanto tempo, e ninguém sabia do seu paradeiro? Mas o que queremos saber é o que você tem a dizer sobre o período que seu MARIDO, Sirius Black, o qual já foi conhecido como o solteirão de olhos cinzas mais bonito do mundo bruxo, ficou foragido após a morte dos Potter e da suposta de Pedro Pettigrew. Teria isso algo a ver com um certo jogador de Quadribol que anda ganhando destaque nos campeonatos de Hogwarts? Só o tempo nos dirá!
Rita Skeeter"
- Bom - Jane terminava de ler a matéria - pelo menos, ela cumpriu o combinado e não mostrou o rosto do meu filho.
- Rita é dócil como sempre, Jane - Dumbledore também fazia o mesmo - quando olho para esses estudantes, fico me perguntando o que cada um deles será no futuro, e lembro ainda mais de quando alguns que já trabalham, como eram nos seus tempos de escola.
Explicar o que acabou de acontecer era complicado, uma vez que tratava de informação a qual muitas pessoas não dominavam. Em verdade, uma geração inteira surgiu sem sequer ter ideia de quem viria a ser Lady Black. Porém, como os bruxos tinham o curioso hábito de viver muito, um número ainda maior, naquele momento, lembrava da informação.
Se você precisasse transmitir um segredo importante, para o maior número de pessoas, como faria? Aquela informação retornava à mente de Rony, o qual passara os últimos dias recapitulando detalhes aleatórios. Porém, a conversa que tivera na casa de Sume o atingia como uma lança pois, de repente, ele se lembrava de tudo. Do glamour da professora Kn... ou melhor, Black; da sua tentativa de assassinato, das aulas de legilimência e oclumência e, principalmente, o Fidelius.
Ele fez um rápido cálculo mental. Não saberia precisar, mas apostava que, tomando como base a suposta idade que Snape deveria ter - afinal, a implicância que ele tinha com Harry era uma herança dos tempos de aluno -, Rita Skeeter deveria ter sido uma amiga dos tempos da professora Kneen, ou melhor, Black, com poucos anos de diferença, no máximo. Ainda teria que se acostumar com isso. Ele não sabia, ainda, se aquela história insana sobre "quebrar um Fidelius defeituoso" era de fato real, mas ele nunca tinha ouvido falar dessa mulher, aliás, quando tomaram ciência da fuga de Sirius de Azkaban, anos atrás, essa informação parecia não existir. Mas se tivesse que abraçar o insano e o surreal, aquela história de "transmitir a posse do segredo" faria todo o sentido se fosse feito para a mais conhecida, irreverente e polêmica repórter da atualidade. Isso, e o fato de que a professora Jane REALMENTE parecia diferente. O rosto era o mesmo, mas era como se a mudança na cor do cabelo fizessem surgir uma nova pessoa. Como, ele ainda iria ter que descobrir.
O que Rony não sabia era que aquilo não era tão simples assim. Por ser a manipulação de um feitiço deveras complicado, os efeitos poderiam ser imprevisíveis. Mas o que Jane fez, era baseado em um princípio muito simples: um segredo não é bom o suficiente quando metade do mundo o conhece. O que aconteceria se, por exemplo, alguém aparecesse na TV, em rede nacional, e contasse o endereço da residência ancestral dos Black? Seria possível quantificar o número de pessoas que saberiam essa informação, mesmo que tivessem que relembrar?
Seria como o Léxico. As pessoas tendem a pensar que o dicionário é o registro dos sentidos. Na verdade, é um registro de um vocabulário sociocultural. Não precisamos lembrar, a cada 5 minutos, o que significa "cadeira", mas quando essa palavra está em uma frase, somos capazes de concatenar novos significados pela forma como ela é utilizada, de maneira que, intuitivamente, pelo contato com essa informação, somos capazes de associar esse sentido com "assento" e "bunda".
Assim, uma vez que o Fidelius protege uma informação, e essa é diluída de tal maneira para um número avassalador da população, o que ocorre? Ele ainda é um segredo?
Dentro de suas respectivas bolhas, ilhados do resto do mundo, os estudantes de Hogwarts não tinham essa percepção, com exceção de um grupo bem seleto, dentro e fora da escola, que era detentor de informações sobre a identidade de Jane. Mas os reflexos daquilo iriam surgir rapidamente. Na escola, vários livros que, antes, apareciam sem títulos, tanto na área de livros acessíveis, quanto restritos, tornam-se visíveis para os estudantes, assinados por Jane Black. No mundo bruxo, como se magicamente, uma série de documentos e publicações, inclusive livros sobre as famílias bruxas, e tratados de transmutação, eram, como se por um passe de mágica, redescobertos, como se sempre tivessem estado em uma prateleira mas, antes, imperceptíveis em meio a uma série de outras obras.
Aquilo iria, obviamente, chamar MUITA atenção e, ao longo da semana, o fluxo das corujas praticamente quintuplicou, com todos tentando receber o máximo de informação de seus filhos sobre o retorno de Lady Black. Infelizmente, os mesmos não tinham a devida percepção de quem ela era, e pouquíssimos davam respostas que iam além de "professora legal" ou "não vejo diferença, pintou o cabelo".
Ocorre que aquele Fidelius, que já era defeituoso, passou a ser uma informação tão coletiva, tão dispersa, que ele não resistiu ao peso da sua diluição, sendo esmigalhado. Era como se o nome "Jane Black" passasse a ser um patrimônio da humanidade, e a magia que manteve esse nome oculto não fosse capaz de resistir ao peso de tentar apagar essa informação da mente de quem não estava pensando nela, por um instante. Porém, como viríamos a descobrir, isso traria um efeito colateral esperado: um grupo ainda mais seleto de pessoas passaria a perceber, naquele momento, que por mais que Rita Skeeter tivesse uma entrevista completa com Jane sobre seus segredos... ainda havia segredos não explícitos, nublados, confusos, como se o Fidelius não tivesse sido destruído por completo.
Ou, pior, como se houvesse ainda um segundo Fidelius. Essas mesmas pessoas já estavam, há algum tempo, e com seus próprios meios, cientes da presença de Jane, como se lutassem paralelamente contra os efeitos do feitiço. E, agora, ela acendera um farol para todos.
Ele só teve tempo de colocar uma bermuda e abrir a porta. Pensou em invadir a ducha, mas sabia que, mais um minuto, e sofreriam um arrombamento. Ao abrir, sentiu uma pesada massa pular em sua direção como um raio e, por pura prática, abriu os braços, de maneira que um pitoco de gente, mas com uma enorme cabeleira castanha, o abraça.
- O senhor não me colocou para dormir ontem! - e berrava com aquela voz estridente. Outra nota mental: aula de canto. - O senhor prometeu! - e olhava para aquela face emburrada, encarando-o, enquanto segurava aquela menininha no colo.
- Minha princesinha, quando papai chegou, você estava dormindo e...
- Sem desculpa! - ela continuava com o rosto emburrado.
Ele se perguntava como uma coisinha de quatro anos poderia ser tão temperamental. Ele olha para a porta que levava para o banheiro dentro do quarto, a tempo de escutar o barulho do chuveiro cessando. Sabia que sua esposa sairia dali há pouco e não teria muito tempo a perder.
- Se papai fizer as panquecas mais deliciosas do mundo no café da manhã, estou perdoado?
- Posso pensar! - e sorria. E era esse sorriso um dos motivos que o fazia se levantar e enfrentar a batalha de um novo dia.
Ele sai do quarto com a menina no colo e caminha até a cozinha. Alguns minutos depois, enquanto estava de frente para o fogão, sente um cheiro deliciosamente familiar, e olha para trás a tempo de ver sua esposa, a qual estava usando uma camisa branca social que delineava a parte de cima do seu corpo, sem ser justa. Usava uma saia reta lápis que tocava nos joelhos, de cor azul marinho. Ela coloca um blazer da mesma cor em uma das cadeiras. E a julgar pelo barulho dos passos, estava usando o scarpin de salto curto, ou seria o Luiz 15? Outro de seus pequenos vícios, mesmo que fosse ficar horas e horas em pé, não abria mão do seu salto, mesmo que pequeno. O inventor do salto devia ter pensado em alguma herança ancestral das mulheres que lhes atribuía mais equilíbrio e coordenação motora do que os homens, só isso, ao seu ver, justificava tê-la visto, em outras situações, correr com saltos ainda maiores, sem perder a pose.
- Você está cheirosa - falava sem se virar, enquanto terminava de preparar a refeição.
- É um perfume novo, chama-se água com sabão, deixa os homens doidos.
- Sei. Dá para explicar para a nossa filha que o papai chegou tarde ontem, e ela estava dormindo?
- O senhor prometeu me colocar pra dormir! Eu fiquei acordada esperando o senhor!
- Harlet - ela passa a mão no cabelo da menina, fazendo um carinho e dando um beijo em sua testa - não se preocupe, papai vai compensar, viu!
- Já estou compensando, panquecas saindo! - e colocava uma pilha sobre a mesa, enquanto a chaleira apitava. Ele derrama um pouco de mel, bem ao gosto da freguesa.
Velho hábito. Gostava de cozinhar, de maneira que não fazia café na cafeteira, embora tivessem uma. Diziam os amigos que ele conquistou Mary pelo estômago. Outros, foi por ele enchê-la com sua ladainha. Ou os dois.
- Hmmmm, esse cheiro está divino - ela sentia aquilo invadindo suas narinas - tem certeza de que não quer largar o emprego no hospital e abrir aquela cafeteria?
- Trocar uma suturação em um bêbado baleado, por advogados que ameaçam me processar por não entregar o café deles no ponto certo? Muito tentador.
Era verdade. O pai de John tinha um palador muito refinado e, de alguma maneira, isso se refletiu no seu sonho de abrir uma cafeteria com diferentes sabores. Mas, por hora, tinha que se contentar em frequentar a Starbucks que ficava perto do Washington Square Park. Ali, em Greenwich Village, havia vasta culinária, o que teria sido um dos principais motivos de escolherem aquele lugar para morar. Isso, e o estado de "semi-isolamento" da região, em Manhattan. Era como se tivesse um pedaço essencial de Nova York em um território proporcionalmente diminuto, sem precisar ir muito longe para encontrar o que quisesse. Gostava da sensação de poder acordar e encontrar água em todas as direções possíveis. E também pela ideia de que poderia estar descansando em um banco de praça onde se sentou John Lennon.
- Então, filhinha, papai hoje vai conversar com a sua professora na escola, viu!
- Hmmm? - Ele se senta e toma um copo de café, enquanto deixava uma jarra de suco de acerola, o favorito de Mary, na mesa. Harlet preferia de acerola e pêssego. Ele, de morango, mas ali era voto vencido - Que história é essa?
- Ah, você não lembra? Hoje tem reunião de pais na escola, e eu tenho compromisso no Fórum agora cedo.
- Espera um pouco - ele termina de ativar seus neurônios depois de um gole - eu tenho que retornar ao hospital na parte da tarde e...
- É coisa rápida, será agora de manhã. Alguns pais querem discutir algumas coisas sobre o currículo escolar dos filhos, não vai demorar.
- Currículo? - ele olhava para a menina que devorava as panquecas como se não houvesse amanhã - mas ela só tem quatro anos! Vão discutir o que? Se o lápis de cor é tóxico?
- Como devemos chamá-la?
Rony se antecipou a todos os presentes, aliás, poucos ali conseguiam reunir a coragem necessária para fazer qualquer tipo de pergunta. No entanto, logo após Jane adentrar na sala para sua aula de História da Magia e cumprimentá-los, a pergunta deslizou da garganta dele como faca quente na manteiga. E era, de fato "A" pergunta. Até mesmo Hermione, Harry e meia dúzia de estudantes da Sonserina o encaravam. Isso porque, embora o cabelo loiro parecesse a única mudança em Jane, para muitos era tão surreal aquela nova informação sobre a professora, que seria, tomadas as devidas proporções, como um trouxa descobrir que havia magia.
- Pode me chamar de professora Black, Ronald. Todos vocês.
- Segunda - e falava isso mais para si, na medida em que muita informação que recebera, como as histórias sobre Arcturus Black, fariam sentido na segunda-feira. E estavam fazendo.
- Professora, com todo o respeito - Draco levanta a mão, um hábito muito cobrado na aula de Jane -, mas a minha mãe nunca me falou sobre a senhora.
Ela deixava escapar um breve sorriso, o qual demonstrava um ar de deboche. Coça o queixo enquanto parece olhar para o lado.
- Professora? - Draco tentava entender o gesto dela, quando a mesma levanta os ombros.
Por um instante ela cogitou um comentário sobre uma velha amiga que amargou merecidamente um tempo em Azkaban, mas lembrou que o jovem Longbottom com certeza ficaria ofendido.
- Mas a tia Druella me amava, jovem Malfoy. Vivia dizendo que eu valia por duas filhas. Hoje, com certeza ela apagaria meu nome da tapeçaria. Mas, na época, aceitei o elogio.
Draco engole a seco o comentário, bem como a maneira tão coloquial que Jane fazia referência à avó, Druella Black.
- Parece que vocês estão muito interessados nos Black, pelo visto - ela retornava para atrás de sua mesa - pois bem, é condizente com a aula de hoje. Nas últimas, abordamos as origens de diversas famílias e, principalmente, seu grau de influência no território que ocupavam. - ela começa a escrever no quadro as palavras "Avery, Black, Bulstrode, Burke" - e como, em algum grau, isso está diretamente relacionado com a história do que chamamos hoje de Grã-Bretanha - a mesma continuava. Formara uma coluna com aqueles quatro nomes, e dava início a outra, na qual estavam os nomes "Carrow, Crouch, Fawley, Flint" -, de maneira que, antes mesmo das instituições contemporâneas que conhecemos, no mundo bruxo e trouxa, essas família estabeleceram suas influências em diversas regiões - nova coluna, com as palavras "Gaunt, Greengrass, Lestrange, Longbottom" - embora, curiosamente, isso não seja um reflexo contemporâneo. É verdade que algumas famílias ainda detém um poderio considerável em relação ao passado - "Macmillan, Malfoy, Nott, Olivaras" - mas, de maneira geral, poucas podem se orgulhar disso - "Parkinson, Prewett, Rosier, Rowle" - E alguém pode me dizer o motivo? - Hermione levanta a mão - Senhorita Granger?
- Professora Kn... digo, Black, é uma consequência do que, no mundo trouxa, é chamado de "divisão do patrimônio". Na medida em que as famílias vão se perpetuando, tendo mais descendentes que chegam à vida adulta, esse patrimônio vai se dividindo em tantos descendentes quanto possível.
- É por isso que todos reconhecem os Weasley de longe – Draco mandava um olhar debochado – já que eles tem mais filhos do que conseguem sustentar!
- Cala a boca, Malfoy! – Harry procurava defender o amigo, embora, para a surpresa de todos ali, Rony estava em silêncio. Acontece que ele não tirou os olhos de Jane desde o momento em que ela adentrou na sala, de modo que o resto não tinha a sua atenção.
- O senhor Malfoy tem um ponto, senhor Potter. E você comprova isso, afinal, de contas.
Como diz um jargão trouxa, Harry "piscou, perdeu" aquela informação. Não entendeu que Jane basicamente simplificou a existência dos Potter: uma família antiga, mas com uma história bem discreta, embora tenha acumulado muitas riquezas. E, no processo, teve um número seleto de descendentes a cada geração, o que refletiu, além da sanha da família de aumentar gradativamente a riqueza, a capacidade para não diluí-la. Harry, por outro lado, só pensou em como o filho da "nova" professora Black dissera que Harry era o responsável por jogar o nome da família no esquecimento. Percebeu, então, que não gostava tanto assim daquela aula.
- Mas o inverso não deu muito certo para os Black, a senhora não concorda?
Jane tinha acabado de se virar para continuar escrevendo no quadro quando escutou aquele comentário. Todos os alunos ali se direcionaram para Rony, o qual ainda fitava a professora. Ela deteve sua ação e, mesmo de costas, virou um pouco o pescoço, olhando para seu estudante de rabo de olho.
- Colocação muito pertinente, senhor Weasley. 10 pontos para a Grifinória. Você também está correta, senhorita Granger - Jane continuava escrevendo no quadro as palavras "Selwyn, Shacklebolt, Shafiq, Slughorn"- a sociedade bruxa cresceu e, obviamente, um dos principais motivos está relacionado ao aumento do número crescente de bruxos de origem trouxa - ela, por fim, escreve em uma última coluna "Travers, Weasley e Yaxley" - e, obviamente, isso tirou o sono de muita gente. Mas não começou hoje. Nem mesmo neste século.
Ignoraram um pouco o que veio depois de "Granger". Na percepção de Jane, Rony analisou de maneira muito educativa os comentários dela, compreendendo-os e, em seguida, aplicou-os em outro contexto. Era um grau de competência que na interpretação dos conteúdos que, no futuro, o levaria para além da média dos estudantes.
- Como assim? - Neville observou a sequência de nomes, formando 7 colunas. Chamou sim sua atenção o fato do nome de sua família estar ali listado mas, ainda, o de alguns conhecidos seus, incluindo estudantes daquela aula.
- O que todos esses nomes possuem em comum, senhorita Parkinson?
Pansy não demorou a se dar conta de que estava em um beco sem saída. Conhecia os procedimentos da professora, e como história das famílias eram uma tacada de dois gumes: ou você ganhava algo, ou perdia. Uma pergunta da professora Jane nunca era apenas uma pergunta, mas um teste de compreensão, análise e aplicação. Ela olhava novamente. Não era exatamente especialista em enigmas, mas tinha boa memória e, recapitulando eventos anteriores, era capaz de propor elementos em comum. Naquela aula, não era apenas o conhecimento, mas a forma como se apresentava, importava.
Havia uma justificativa para a forma como os nomes estavam ordenados. Mas não poderia ser uma mera questão de ordem alfabética. Abbott. Era o nome de uma jogadora do time da Lufa-Lufa, lembrava. Black. Aquela revelação que todos queriam entender, mas passaram a sentir uma certa intimidação por trás do sorriso amável da professora Jane. Será que Rika sabia de alguma coisa?
Crouch. Era um nome familiar, e já escutara seus pais falando-o, mas não lembrava o contexto. Lestrange. Era o sobrenome da tia de Draco, a que escapara da prisão. Malfoy. Explicações desnecessárias. Olivaras. O mesmo que o vendedor de varinhas.
Ela foi analisando vários nomes, pulando alguns que, embora lhe eram familiares, não pareciam, ao seu ver, ter nada de relevante. E tinha os Weasley. Ela realmente não conseguia imaginar algo que os relacionasse, nem de maneira mais longínqua, à família de Draco. Talvez algum laço familiar bem distante, quem sabe?
Lembrou de alguns membros ilustres da sociedade bruxa com aqueles sobrenomes, os quais já atuaram como Ministros da Magia, chefes dos aurores, professores de Hogwarts, incluindo um diretor da família Black. Foi quando percebeu uma coisa: por que a professora perguntou para ela, se quem fez a pergunta fora o Longbotton?
A forma importava. "É compreensível que algumas pessoas errem. Porém, certos assuntos, outros não tem permissão para tal", lembrava das palavras de Jane na sua primeira aula como professora de História da Magia. Qualquer pessoa que errasse aquela pergunta, nada aconteceria. Se acertasse, ganharia pontos. Mas ela, e especificamente ela, se errasse, seria punida. Sua Casa seria castigada por ela não saber responder àquela pergunta. E a julgar pelo silêncio na sala, a professora Jane esperava aquela resposta. Em outras palavras, era uma pergunta direcionada à Pansy, e possuía algum grau de relação com a sua família. Não estava autorizada a errar, segundo os critérios de Jane.
- Os Sagrados Vinte e Oito - foi sua resposta, e embora não estivesse plenamente certa sobre o que falava, por uma série de fatores, intuiu que estava correto.
- Perfeito, senhorita Parkinson. Essa é a nossa pergunta fácil de hoje. Dez pontos para a Sonserina. Senhor Nott - ela se dirige à Theodore -, estou me sentindo particularmente generosa hoje, e seria capaz de dar pontos extras para a Sonserina...
- Sim, pode perguntar, professora!
-... se você me contar o porquê, dentre todos os estudantes presentes, a senhorita Parkinson ser a única que não tinha o direito de errar essa questão.
Aquilo foi apenas um aperitivo. O resto da aula seria um terror de perda de pontos, entre Grifinórios e Sonserinos.
Nott não sabia responder, simplesmente porque não entendia a correlação. É fato que Jane poderia ter indicado a página do livro, mas era uma pergunta tão específica e, ao mesmo tempo, ampla, que qualquer coisa que dissesse poderia estar, ao mesmo tempo, certa ou errada.
- Tsc, tsc... que decepção, senhor Nott. Esperava mais da minha casa - Aquele comentário foi tão "en passant" que muitos nem se tocaram do que ela acabara de dizer - bem que eu falei para o professor Snape que ele deveria estar dando leite com biscoitos para vocês. Alguém? - Ela olha aleatoriamente para alguns alunos da Grifinória, e eles gelam. Era como se o cabelo loiro tivesse substituído a professora anterior por outra - Senhorita Pátil? - Parvati arregalava os olhos - Senhor Simas? - Outra reação, como se ele fosse engasgar com seus pensamentos - Senhorita Granger? - Hermione até ensaiou uma fala, mas freou diante das suas próprias dúvidas - E você, senhorita Greengrass ? – Dafne enrubesceu diante da atenção que acabara de receber - Tudo bem, vou retornar ao princípio - ela faz um círculo enorme no nome "Parkinson" que estava no quadro - comecemos então com uma pergunta simples.
Jane escreve na parte superior do quadro a seguinte frase:
"As pessoas acreditam que a sua capacidade mágica é definida pela linhagem sanguínea?"
Rony piscou três vezes quando viu aquela frase, e na mesma hora percebeu que a professora havia cutucado um vespeiro. Ele leu novamente, e repetiu mais uma vez em voz baixa só para ter certeza de que entendera o enunciado apresentado.
- Pode explicar direito, professora? - Parvati tomava a iniciativa, embora a frase não pudesse ser mais clara.
- O que não entendeu, senhorita Parvati? Quer que eu soletre?
- Não, eu... é que, o que a senhora escreveu, é...
Não escreveu aquilo aleatoriamente. Sabia perfeitamente o peso daquela pergunta diante do atual contexto. Na medida em que alguns se sentiam um pouco incomodados, outros tinham a impressão de que teriam seus pescoços cortados se não escolhessem bem suas palavras. Ela, por outro lado, não se retraiu.
- Conheci uma bruxa, há muito tempo atrás. Esforçada. Dedicada. Determinada. Tinha talento para feitiços. Se estivesse viva, hoje, seria uma das maiores do seu tempo, em nível de capacidade, conhecimento e poder no mundo bruxo. Poderia ter sido uma Amélia Bones da vida, quem sabe. Ela se chamava Joane Evans.
Aquilo definitivamente captou a atenção de Harry. Coincidência?
- Ela foi chefe dos monitores, por sinal. Frequentou o círculo pessoal do professor Slughorn, assim como eu. Foi uma das alunas treinadas pessoalmente pelo professor Flitwick na arte do duelo, o que já é mais do que suficiente para fazer qualquer um pensar duas vezes antes de comprar briga com ela. Entretanto - ela escreve o nome "Joane Evans" no quadro e puxa uma seta para a direita, escrevendo a palavra "TROUXA", com letras grandes -, não procedia de uma família bruxa. Não dos sagrados 28, ou qualquer outra. Apesar de ruiva, definitivamente não era uma Weasley - ela olha de rabo de olho para Rony - então, senhores... façamos um breve experimento de sociologia histórica. Alguém é capaz de me dizer o que ocorre quando uma jovem assim atinge tantas conquistas em um lugar como Hogwarts?
- Como ela conseguiu tudo isso? - Rony tentava direcionar a pergunta.
- Não "como", senhor Weasley. Eu perguntei "O que ocorre", os efeitos, as consequências.
Rony se questionava que tipo de pergunta era aquela. E, então, se vê olhando para Hermione, a qual poderia sim ser personagem daquela história. A namorada, por sua vez, estava com a cabeça um pouco virada, como se tentasse raciocinar acerca da pergunta. Da mesma forma, Harry estava com uma expressão de quem estava prestes a pular na mesa da professora. Devia ser por que a tal da "Joane" tinha o nome de solteiro da sua mãe.
- As pessoas nascidas bruxas deveriam ter vergonha na cara, pois se uma pessoa dessas consegue isso, significa que nós podemos ir muito mais além.
Draco, claro.
- O que quer dizer com "uma pessoa dessas", Malfoy? - Harry o fuzilava com os olhos.
- Ficou ofendidinho, Potter? O que, vai dizer que não percebeu que são as grandes famílias que ocupam o poder no mundo bruxo?
- É fácil falar isso quando se é abençoado com riqueza, Malfoy. Mas tem muita gente acomodada que só tem isso, um nome.
- Blablabá, sempre o mesmo "ai meu Deus, vocês bruxos de famílias nobres são malvados com os de origem trouxas". Potter, conheço um cara que tem uma ladainha mais escorregadia do que a sua, aliás - ele enfatizava essa última parte enquanto dava um sorriso extremamente debochado, apontando para Harry ao perceber que teria uma chance de ouro de provocá-lo, ali, na frente de toda a turma - ele é, ou era, sei lá, um bruxo trouxa melhor do que você, em vários maneiras. Essa tal de Joane tinha o que? Crença? Determinação? É verdade, pode ter algum membro dos sagrados 28 que seja preguiçoso, ou um mal exemplo da família, mas... e daí? Galhos fracos ocasionalmente quebram. É assim que o mundo funciona. Não temos culpa se, em sua maioria, são de origem trouxa.
- Você é muito prepotente, Malfoy. Costuma ter esses papos com seu amiguinho trouxa?
- "Amizade" é um termo muito pesado, Potter. Eu diria que temos interesses em comum. Obviamente não gostamos de você. Mas também não é todo dia que encontro um bruxo sem linhagem, se é que ainda dá para dizer isso, que tem apreço por música clássica. Esse Weasley que você conseguiu para chamar de seu, tem algum gosto musical, pelo menos?
Grande, pensava Hermione. A nova etapa dos bate-bocas inúteis de Harry e Draco, agora, envolvia as habilidades de seus amigos.
- Eu não escolho minhas amizades pelo o que podem oferecer, Malfoy, diferente de você, que só se associa às famílias que julga serem as melhores.
- Troca esse disco, Potter! Você vem com esse papo de que a sua família é a única altruísta, mas até onde eu sei, vocês sempre eram bruxos que ficavam enriquecendo na surdina!
- Como é? Que história é essa? De onde você tirou isso? De onde veio esse conhecimento súbito sobre a minha família? – ele estava levemente surpreso com as palavras de Draco.
- Ah – Draco continuava com seu sorriso. Acabara de perceber que tinha uma vantagem sobre Harry – outro dia eu vi um aluno com um livro que contava a história de um ancestral seu e pedi para dar uma olhada, era sobre um tal de... espera, você sabe muito bem quem era, não é mesmo?
- Claro que não – Hermione dava um tapa na própria testa, não acreditando que Harry não se deu conta do que acabara de fazer.
- Sério? Dez pontos a menos para a Grifinória!
- Não pode tirar pontos, Malfoy! – Hermione tentava interromper aquela discussão que, por sua vez, interrompeu a aula.
- Pena! Mas tudo bem, Potter! Você tem uma chance de ouro por que esse livro nem estava na seção de livros restritos, era do acervo pessoal dele, sabia? Quer que o apresente? – E abria um sorriso enorme diante daquilo.
- Mas de quem vocês estão falando? – Neville tentava tomar o rumo, perdendo-se em meio àquela discussão infantil entre Draco e Harry.
- Vocês dois querem parar com isso? – Rony quebrava o silêncio – estão atrapalhando a aula com essa discussão idiota de vocês.
- Uhhhh! Olha só, falou o Weasley que se acha todo importante porque fica vigiando a sujeira dos...
- Cala a boca, Malfoy. Quer tirar onda de especialista só porque leu um livro, mas aposto que nem saberia diferenciar um Cygnus Black de outro.
- Há, Há, mas é claro que... que...
A turma ficou em silêncio naquele momento. Parte por Draco ter travado por não saber dar uma boa resposta, parte por, na percepção deles, Rony ter praticamente se afirmado como o "especialista em Black´s" da sala.
- Senhores – Jane incentivava constantemente aquelas discussões, pois sabia que, em momentos como aqueles, os alunos sentiam-se mais à vontade para externar suas opiniões e, muitas vezes, acrescentavam mais à aula do que em uma prova. Às vezes – embora a discussão de vocês em alguns pontos corrobore com nossa discussão principal, não devemos perder o foco. Senhor Malfoy, argumento interessante sobre a questão da riqueza. Mas, parece-me um tanto quanto falacioso. Diga-me, tem irmãos?
- Claro que não, professora. Se tiver alguém espalhando essa história por ai, não é um bastardo, mas um mentiroso.
Aquele comentário novamente irritou a Harry.
- O que significa que, atualmente, a linhagem dos Malfoy é bem restrita, não é mesmo? E com o falecimento do professor Septimus, há poucos nas redondezas.
- Conheceu meu avô? - ele ergue a sobrancelha.
- Ele lecionou aqui em Hogwarts durante um tempo. Tinha um pensamento similar ao seu, mas era mais incisivo. Um realista. Assim como você o é. Senhor Malfoy, quantas pessoas, nesta sala, você acha que compartilham do seu ponto de vista?
- Pode ter certeza de que metade dessa sala - ele falava sem hesitar, referindo-se aos sonserinos.
- Tem certeza? Acho que todos aqui concordariam?
- Bom... sempre há pessoas que pensam diferente.
- Digamos que 20 pessoas aqui tenham esse pensamento. Qual o poder dessas pessoas nessa escola - Jane rapidamente passa um olhar pelos estudantes - qual o poder real de influência deles - ele olha novamente para alguns estudantes - talvez, uma auxiliar de medi-bruxaria, quem sabe? - Pansy ficou levemente incomodada com a referência à sua pessoa - ou um jogador de quadribol? Um monitor, talvez? Podemos reduzir esse número para, digamos, 5 pessoas? 5 pessoas influentes que compartilham essa crença, estou correta?
- Sim, acho.
- Então... acha que a crença dessas 5 pessoas, acompanhadas de seu poder limitado na escola, é o suficiente para influenciar todos os mais de mil estudantes de Hogwarts?
Draco, naquele momento, percebeu exatamente aonde ela queria chegar. Teve um vislumbre, como se desenhasse um mapa com uma linha e, a cada espaço, um ponto indicando a linha argumentativa que Jane seguia.
- Professora Kneen, perdão, Black, poder é poder. Não tem a ver com crença. Alguns tem, outros não tem.
- O senhor estava falando agora à pouco sobre famílias poderosas. Esse poder é inerente à determinadas famílias, ou às pessoas que atribuem o poder a outras pessoas?
- Esse poder é inerente às famílias, professora.
Tanto Pansy quanto Hermione, bem como outros alunos, tiveram um estalo naquele momento. Draco estava prestes a ser capturado na teia de Jane.
- Então, o poder que você tem está associado ao que você é, ou ao nome da sua família, senhor Draco Lucius Malfoy?
Ele parecia travado. Isso porque ela jogou não apenas com questões sociais mas, também, pessoais: Draco carregava todo o peso do nome do seu pai, e isso era algo literal, como se nunca pudesse esquecer que era filho de Lucius Malfoy. Aquilo, porém, tornou-se uma sombra pesada e amarga no decorrer dos anos, já que ele era inevitavelmente comparado ao homem que tinha dedos manipulando o próprio Ministério da Magia, diferente de um filho que fracassava em diversos quesitos na escola. Em suma, o poder simbólico associado a Lucius não tinha encontrado um representante à altura. Esse era um sentimento que incomodava, e muito, Draco.
- Conheci um professor – Jane continuou, ao observar a impassibilidade do estudante - Abraxas Septimus Malfoy, o qual pensava da mesma maneira... ele fez grandes coisas, muitas, questionáveis. Porém, ele não tinha o maior poder de todos: o controle da crença das pessoas. Você pode ter muito poder temporal, mas se você não domina o imaginário da população, nada se sustenta, tudo vem a ruir com o tempo.
- Se crenças valem mais do que o poder, professora – Como se retornando daquele estado de anestesia, Draco tenta dar conta daquelas observações. Possuía um certo incômodo, não pelo tema em si, mas pelas reviravoltas daquele dia sobre a professora - então porque essa sua amiga tão talentosa não está viva?
- Por que ela foi morta pelo Lorde das Trevas, Draco. Mas foram exatamente as crenças dela que mantiveram-no longe do mundo por mais de 10 anos.
Se alguns tinham dúvidas, ficara muito explícito a quem ela se referia: Lilian Joane Evans Potter. Até mesmo estudantes da Sonserina fizeram essa correlação, sem precisar olhar para Harry, embora alguns tenham feito.
Ronald, porém, estava muito mais atento ao entrelaçamento dos apontamentos de Jane do que aos demais, como enquanto todos dançavam, só ele prestava atenção à letra da música.
- Desculpe, professora - Rony reunira coragem o suficiente para participar - mas se a senhora é, de fato, uma Black...
- Eu sou uma Black, senhor Weasley, como eu sempre quis ser.
Aquele comentário deu um breve estalo na garganta de vários ali.
- Bem... a senhora não pode falar uma coisa dessas, quer dizer... toda a sociedade Bruxa se espelhava nos Black, por vários motivos. O poder que eles detinham, afinal, era a "honorável e mui antiga família Black".
- Há! Pela primeira vez eu concordo com você, Weasley - Draco ria debochadamente - não tem nenhuma das grandes famílias na atualidade que não tenha relação com os Black!
- Sim, o poderio dos Black - havia um certo deleite na forma como ela pronunciava o nome -. É curiosa a relação, senhor Weasley. Mas o que resta do poder dessa família, na atualidade? Terras? Ouro? Cargos no Ministério da Magia? - ela novamente se vira e começa a escrever no quadro - errado! A proeminente família Black se mantém nas memórias dos indivíduos devido ao seu capital simbólico, essa é a verdade! A sua capacidade de, mesmo tendo ido quase à extinção, influenciar diretamente a percepção da sociedade bruxa - ela escrevia exatamente essas palavras no quadro, "CAPITAL SIMBÓLICO". – E esse capital, meus caros, é mantido no decorrer dos tempos por suas crenças - e puxa uma seta, conectando a palavra que acabara de escrever, à frase anterior que causara um certo incômodo em muitos ali presentes.
Pelo menos metade da turma achava absurda aquela colocação, principalmente por que alguns, com um esforço, começaram a traçar a relação entre poder temporal e simbólico, o que lhes parecia, ainda assim, surreal. Basicamente, ela estava afirmando que as pessoas que detinham o poder, o faziam pelo poder a eles atribuídos pelas crenças alheias. Era como se dissesse que um Crouch só exercia todo o seu prestígio social de ser uma família nobre e proeminente se as pessoas olhassem para essa e acreditassem nisso como se fosse uma verdade, de maneira a autorizá-los a serem superiores aos outros, e agirem de acordo. Como se o poder fosse dado dos inferiores aos superiores, por meio de uma permissão para possuí-lo e exercê-lo. Mais ainda: os desprivilegiados abririam mão de seus direitos, de bom grado, para serem dominados pelos privilegiados.
O problema era que aquilo não fazia sentido algum para muitos alunos presentes, sequer tinha lógica. Principalmente para os sonserinos.
Pansy, por sua vez, não tirava os olhos do quadro. Não conseguia entender qual era a correlação de tudo o que estava sendo escrito, com o de sua família. Porém, as próximas aulas da matéria mais "tranquila e chata" causariam uma revolta, com consequências inesperadas para alguns dos presentes.
Não acreditava que ela tinha feito aquilo.
Na verdade, deveria ter sentido cheiro da artimanha dela à distância.
Ele mal teve tempo de piscar: Mary se levantou, vestiu o blazer que estava na cadeira e foi até a porta enquanto John processava a informação. Quando se deu conta, escutou o barulho do carro e não teve a chance de reclamar.
Ele manda a menina terminar de se arrumar enquanto volta até seu quarto e procura uma roupa mais adequada. Preso em um dos cabides, estava um jaleco passado. Quando retornou, a mesma já vestia seu uniforme, puxando sua mochila com rodinhas, a qual possuía uma estampa do "Fúria da Noite", de "Como Treinar o seu Dragão".
O problema é que Mary saiu com o Sedã - modelo familiar, mas que não perdia a pose - e deixou para ele seu modesto Kia Soul, com o qual teria a tarefa de circular pela cidade. Um terceiro carro estava fora de cogitação, e como ela retornara várias de suas atividades há cerca de um ano, ficavam naquele joguinho de quem saia primeira, pegava o melhor veículo. O Kia Soul fora adquirido por causa de Harlet, mas acabou virando um veículo de trabalho para quem não tivesse a sorte de pegar o Sedã, primeiro. E, no geral, quem tivesse que levar a menina para a escola, usaria aquele veículo pouco sofisticado para o trabalho.
A creche de Harlet ficava na região de Greenwich Village, embora ele precisasse sair da ilha para ir ao hospital. Após estacionar eles descem e, rapidamente, olha para o banco de trás, confirmando que não esquecera do jaleco. Esperava que fosse uma reunião rápida, pois, segundo a esposa, a comissão dos pais se reuniria com a direção para abordar novos critérios a serem colocados na escola. Depois que entrou, despediu-se da filha, a qual foi até uma fila no pátio e, em linha reta, seguiu com as demais crianças. Hora de resolver aquilo, pensava. Quando entrou na sala onde a reunião era realizada, percebeu que estava exatamente na de Harlet, já que as crianças teriam algum tipo de atividade no pátio, naquele dia. Vários adultos estavam acomodados da melhor maneira possível em carteiras de crianças, o que indicava que o sistema de logística daquela instituição precisava de uma séria assessoria.
Ao se sentar da melhor maneira possível – e o mais próximo da porta para não ter dificuldades para sair rapidamente – ele viu uma mulher próximo ao quadro, e a reconheceu como a representante da coordenação. Usa uma roupa com uma combinação florida que lembrava um palhaço de circo, além de uma calça que, na falta de um nome melhor que lhe viesse a mente, passou a chamar de "calça de saco". Era uma moda que percebera há algum tempo entre os professores da creche. Mas a mulher tinha um tom muito amigável em sua voz, e pela forma como falava, ficou claro para ele que ela tinha mais experiência em conversar com crianças, do que com adultos. Mas, até ai, não era esse o motivo de sua filha estudar naquela creche?
Quando ela terminou de fazer as apresentações iniciais, foi rapidamente interrompida pelos pais. John se esforçou sinceramente para compreender toda aquela avalanche de vozes que vinham de todas as direções. Eram uma série de perguntas que não davam sequer tempo para a representante falar, e ele mesmo estava perdido em meio a tantos questionamentos. Em algum momento ele se deu conta de que não estava conseguindo acompanhar quem estava falando o que, de modo que aquele vozeiral parecia ter vida própria, saltando das paredes da sala e atingindo a mulher. Assim, em meio a tudo, e sem entender ou diferenciar quem estava falando o que, ele escutava uma série de perguntas que, se não estivesse na creche, iriam soar absurdamente aleatórias:
O que ele escutou foi mais ou menos isso:
- eu ouvi dizer que a partir do ano que vem vai ter uma hora a menos de Alemão por semana, é verdade isso?
Talvez essa tenha sido a pergunta mais sensata que tinha conseguido captar, em sua humilde opinião. Como pais de primeira viagem, só tinham procurado uma creche para administrar seus compromissos e aumentar o grau de socialização da filha. Nem ligou tanto para as aulas de Alemão, mas achou fofo o fato de sua filha chegar em casa e falar algumas em Francês.
- Sim, a coordenação da escola se reuniu e decidimos que...
- Espera um pouco, como assim, "decidimos"? Foi por causa disso que muitos largaram seus compromissos para estar aqui hoje! Vão fazer o que, ensinar as crianças a jogar bola e mexer com massinha? Não é assim que eles vão pra frente!
Depois daquele comentário, a enxurrada de perguntas seguiu de maneira descontrolada. Era como se todas as vozes se unissem em uma única entidade questionadora e soltasse uma série de questionamentos, como se fosse uma metralhadora de dúvidas:
- Professora, as crianças não precisam brincar na escola, podem fazer isso em casa!
- Concordo! Meu filho está aqui por que eu queria que ele fosse trilíngue, vou precisar chamar meu advogado por quebra de contrato?
-As crianças absorvem qualquer coisa nessa idade, vocês tem que ter isso em mente!
- E dominar os idiomas é a base de todo o conhecimento, sabiam?
- Será que a gente pode assistir às aulas com eles? Na escola da minha amiga os pais podem acompanhar as aulas à distância pelo celular!
- As crianças mais avançadas ficam dispersas se não tem o devido desafio, como é que a minha filha vai se sentir motivada se a única coisa que ele fizer aqui for desenhar linhas?
- Espera, que história é essa que o meu filho não pode usar o celular?
- É, e seu eu precisar contatá-lo em uma emergência?
- As crianças usam esse aparelho como nós usávamos o lápis e a borracha!
- Mas vocês não sabiam? Essa luz azulada que o celular emite atrapalho o ciclo do sono da minha filha!
- Esse é o problema, a senhora ficou sabendo que a escola quer voltar com a "hora da soneca"?
-Como é? Nem pensar! Podem esquecer! Depois vão querer ficar acordados até tarde! Como é que eu vou receber os meus amigos se tiver que ficar cuidando dela?
- Professora, aproveitando, o meu filho tem intolerância à lactose, isso foi informado no histórico médico dele, eu espero que vocês não estejam servindo bolo com leite nas festas escolares ou na cantina!
- Senhor, então...
- Ele fica enjoado até com o cheiro! Vocês fizeram o aniversário de uma criança outro dia, e ele se sentiu excluído por ser a única criança que não comeu o bolo que a mãe da criança trouxe!
- Aquele nosso requerimento sobre retirar da cantina lanches com açúcar foi atendido?
- Porque os uniformes dos meninos e das meninas são diferentes? Vocês tem a pretensão de reforçar estereótipos de gênero com isso?
- Na escola da filha da minha amiga tem um projeto de educação inclusiva, quando vocês vão aderir a isso?
- Por que eu recebi um bilhete para cortar o cabelo do meu filho? Isso faz parte da identidade dele, eu espero um pedido de desculpas formal da escola, pois eu não estou vedo muitos pais afro-americanos aqui, e isso, pra mim, soa como racismo!
- Nesses esportes que estão ensinando às crianças, vocês premiam os vencedores em prol do time que perde?
Estava brevemente aturdido. Pensava que a discussão ali seria sobre algum programa de pré-alfabetização, ou algum curso direcionado para as crianças, ou uma colônia de férias, enfim, de repente, discutir sobre o lápis de cor se tóxico não parecia uma ideia tão distante assim.
As definições de Educação Infantil tinham sido muito atualizadas desde a sua época, e ele sentia como se estivesse olhando para um trem que partia, e tinha ficado parado porque não sabia para onde ia, ou o porquê de ter que correr atrás dele.
- Precisamos conversar.
"Precisamos conversar" era a senha para "eu repensei minhas prioridades", na percepção de Harry. E na de Rony e Hermione também. Não era incomum encontrar os três juntos, na verdade, era o normal. Mas, naquele momento, pareciam particularmente incomodados com a "nova" professora. Harry, em especial, ainda estava com as descobertas, e pensava em várias maneiras de contatar Sirius. Pensando bem, dane-se Sirius, onde estava Lupin quando ele mais precisava? E porque aquela fixação com a sua mãe?
Assim, quando, em meio a um intervalo entre as aulas os três resolveram descansar no salão comunal da Grifinória ao invés de ir até o salão principal, foi uma breve surpresa Amanda aproximar-se deles. Na verdade, todos ali estavam anestesiados de qualquer coisa mais pesada do que a revelação de que Sirius já fora casado. E que poderia ter um filho.
- Só com você, Harry.
Ela caminha até a janela do salão, e Harry olha para seus amigos, como se esperasse algum apoio. O único que veio foi de Hermione, a qual sinalizou com a cabeça para ele ir atrás.
Tempos sombrios, pensava. Já não bastava tudo o que estava acontecendo naquele dia... Sirius... Sarah... e agora, aquilo?
Não era como se não esperasse por tal coisa, na verdade, o time estava praticamente desestruturado desde os resultados do último jogo. E não por acaso. O jogo de estreia fora desastroso, e só serviu para jogar ainda mais tensão em problemas que se desenrolavam. Não estaria surpreso, pois desde os treinos, aquela situação se enrolava, de maneira que andou tendo problemas para marcar treinos com todos os integrantes.
Pensando bem, que time?
A verdade era que ele estava se sentindo uma negação como capitão naquele ano. Sentia-se como se não fosse capaz de controlar suas próprias emoções e, de alguma maneira, aquilo tinha refletido na sua liderança. Rony e Hermione estavam ali, principalmente, para dar apoio. Neville e Anne estavam desatentos aos demais acontecimentos. As demais...
- Eu decidi que vou te dar uma chance.
- Como assim? - foi pego de surpresa, achou que ela iria pedir para sair do time.
- Eu acho que essa nossa situação se arrastou por muito mais tempo do que deveria, e que já passou da hora da gente se entender.
- Ora... é, você tem razão.
- Não me entenda errado, você tem agido como um babaca há um bom tempo. FOI um babaca no baile, e sabe-se lá onde isso poderia ter parado se o meu namorado não tivesse te coberto de porrada naquele dia.
- Sua memória é muito seletiva, sabia?
- A sua também. E você ainda vai ter que prestar contar aos meus amigos, qualquer hora dessas. Quer queira ou não.
- Amanda, olha só... eu estou com muitos problemas no momento, e aqueles dois...
- Eu não quero discutir, Harry. Eu quero ficar de boa com você, ok. Tenho mais dois anos pela frente, e não pretendo passar metade deles brigando por problemas que nem tem a ver comigo. Não quero mais ficar desconversando quando meu irmão envia carta perguntando como você está no time.
- Bem - ele se sentia incomodado com o comentário, às vezes esquecia que ela era irmã de Olívio - Ok, então você quer o que, um pedido de desculpas?
- Seria um bom começo.
- Ok, me desculpe. Eu fui um babaca. Arrastei você para os meus problemas, desculpe.
- É um começo. Mas eu queria uma retratação.
- E isso aqui foi o que?
- Isso foi o mínimo, Harry. Considerando que eu fui literalmente arrastada para os seus problemas, isso seria o certo, ou melhor, o justo.
- Ok, e você quer o que? Que eu faça uma declaração diante do time? Que eu fale com o seu namorado? Ele é meio esquentadinho, sei lá o que ele vai fazer com aqueles pincéis se me ver!
- Mesmo? Quem foi que te deu suporte médico após o jogo?
- O que você quer, então?
- Eu quero que você me dê uma penseira.
- Uma o quê?
- Uma penseira, é um item para colocar as memórias e...
- Eu sei o que é isso! Mas para que você quer uma coisa dessas?
- Olha, digamos que isso vai servir para ajudar o time. Não é um item comum, então preciso que pegue uma para mim.
- Você quer que eu compre para você?
- Quero que me dê!
- É muito cara!
- Para quem estava disposto a gastar uma fortuna durante um leilão de baile, acho que vai sair barato - e cerrava os olhos de maneira debochada - e então?
- E então? Desfalcados? - perguntava Rony.
- Não. Ela queria ficar bem comigo.
- Isso é bom! - Hermione estava mais animada - Que bom que as coisas estão se entendendo!
- Algo assim. Preciso que você envie uma carta para seus irmãos, quero encomendar uma coisa.
- Depois a gente vê isso, Harry - Rony ainda se sentia incomodado - mas que raios de aula foi aquela, Hermione?
- Foi estranha, não é? É como se ela estivesse jogando na cara de todo mundo que questões de sangue são perda de tempo.
- Sim, mas ela é uma Black! Se tem alguém que não pode pisar em um pedestal e exigir moralidade, com certeza é ela!
- Como assim?
- Os Black expulsaram ao longo da história todos os que não se casavam com pessoas de "sangue-puro", Hermione! Minha bisavó, por exemplo.
- Rony, você não escutou o que ela disse sobre Druella Black?
- O que tem?
- Rony... Druella Black é a avó do Draco, não percebeu?
- Sim, eu sei, mas... como você sabe disso? - Hermione puxa um livro sobre história de famílias bruxas, e abre uma página na qual aparecia uma árvore genealógica enorme e, em algum ponto, saindo de Druella Black, três galhos: Andrômeda, Bellatrix e Narcisa. Hermione apontava para esse último nome – Ah, achou o livro, eu tenho que devolvê-lo?
- Você ficou falando direto sobre os Black e não tirava os olhos desse livro que pegou da biblioteca. Não quis interrompê-lo e – Hermione abre na contracapa, na qual havia uma mensagem escrita à mão, desejando bons estudos, o desenho de um coração e uma carinha sorridente (^_^) – peguei na estante da sua irmã. Ele ficou de pesquisar os Back, lembra?
- Sim, é claro que ela teria esse livro. Qual é o problema em dar doces para uma garota?
- Eu não me incomodaria – Era olhava de maneira cínica e debochada para Rony.
- É claro que não. O que tem essas três pessoas? Sei que a Narcisa é a mãe do Draco – já esbarraram com ela na Copa de Quadribol.
- Isso! Narcisa Black, atualmente, Narcisa Malfoy. Tive a impressão de que a professora iria falar alguma coisa, mas se deteve quando olhou para o Neville. Se ela tem um passado com os Black, então conhece - Hermione apontava para o nome de Bellatrix -, que fez parte do grupo que atacou os Longbotton.
- Como sabe disso?
- Lembra que houve uma fuga de Azkaban, ano passado? Pensavam que tinha sido o Sirius o causador, mas foi outra coisa, parece. Uma dessas fugitivas era essa mulher - ela mostrava uma foto de Bellatrix, mas era dos tempos da escola, quando era mais jovem, diferente da imagem que vira nos jornais -, Bellatrix Lestrange*. Pesquisei e descobri isso.
Nota: conforme já dito nos comentários do capítulo 12, nossa história teve como ponto de partida os acontecimentos do livro 4, "Harry Potter e o Cálice de Fogo", de maneira que, aqui, alguns eventos passaram a ter rumos diferentes. Alguns, óbvios, são o fato de Sirius ainda estar vivo. Outros, envolvem como muitas das personagens só terão contato com situações por meio das notícias, ou não tiveram encontro com outros. Assim, Nenhum dos três se encontrou, ainda, com Bellatrix Lestrange, conforme os eventos de "Harry Potter e a Ordem das Fênix". O que não significa que outras coisas não tenham acontecido.
- Que bom que vocês dois gostaram da aula, mas ninguém está estranhando o fato de que, esse tempo todo, o Sirius fora casado, e nunca comentou isso? - Harry se intrometia naquela conversa que não parecia que iria para lugar algum - E isso que a Rita Skeeter diz na capa do profeta diário? - ele ergue o jornal.
- Insinua - Rony o cortava.
- Certo, insinua de maneira MUITO insistente. – E não saia da mente de Harry o fato de que, de repente, Sirius lhe parecia muito familiar ao apanhador da Corvinal, ambos morenos e de olhos cinzas. E como o cabelo loiro da professora Kneen deixava mais evidente como ela e o filho não eram tão parecidos assim.
Naquele momento Rony lembrou que tinha muita coisa para contar para Hermione. Tentara anteriormente, mas agora com o fim do Fidelius, as informações haviam retornado de maneira mais organizada à sua mente. Mas percebeu que contar ali, na frente de Harry, não era a escolha mais sábia.
- Por que esse súbito interesse na vida privada da professora, Harry?
- Nenhum. Mas ela falou de maneira muito veemente da minha mãe, perceberam?
Rony deu uma leve fungada. Estava delineando um padrão no comportamento do amigo. Era como se, de tempos em tempos, ele corresse atrás de algum assunto, o que gerava uma espécie de comportamento obsessivo. Havia, é claro, um elemento em comum: seu cunhado. O mais inteligente seria dar um corte, mudar de assunto. Mas isso não deu muito resultado nos últimos meses. Talvez, se tentasse direcionar aquela preocupação do amigo...
- Bom, vai que é verdade, não é mesmo? Talvez, ela e sua mãe tivessem sido amigas durante os tempos de escola. Para alguém que se dizia da Sonserina, ela fez muitos elogias à uma bruxa trouxa.
- Acho que você tem razão. Lupin fala muito do meu pai, será que ela conhecia mais a minha mãe?
- Quem sabe? Já pensou? O Sirius é seu padrinho, não é? Se o namorado da minha irmã for filho dele, vocês dois seriam o que? Primos?
- Eu nem parei para pensar nisso!
- Pode ser um bom motivo para vocês começarem a se entender – Hermione entra no assunto, aparentemente não percebendo o tom irônico de Harry. Na verdade, Harry também não, até aquele momento.
- Estão tirando uma com a minha cara, não é?
- Imagine! – Rony balançava a cabeça – mas não leve muito a sério essa história de paternidade. Rita Skeeter é muito sensacionalista, você sabe.
- Mas talvez tenha um fundo de verdade - Hermione aponta para o livro, novamente para Druella Black. Seu dedo vai para o lado e se conecta a um indivíduo chamado "Cignus Black". Por uma pesquisa prévia, ela sabia de antemão que aquele era o terceiro do seu nome, já que os Black tinham um hábito de repetir o nome dos seus familiares, ou melhor, utilizar o nome de constelações para nomear suas crianças. Daí o comentário de Rony sobre Draco não saber distinguir um de outro. Foi Assim que acabou descobrindo que o Sirius Black "deles" era, também, o terceiro a receber esse nome.
Enquanto o dedo de Hermione passava pela árvore genealógica, não passou despercebido a Rony e Harry que o nome de solteira da mãe de Cignus era "Irma Crabbe", o que o lembrou rapidamente de alguns acontecimentos no ano anterior relacionados ao ex-namorado de Amanda. Também observaram que o mesmo Cignus era irmão de uma mulher chamada Walburga Black e, ainda seguindo o dedo, Hermione aponta que essa mulher havia se casado com um indivíduo chamado Orion Black. Ela não se deteve muito ali, mas estava claro que ambos eram primos de algum grau. Mas quando o dedo de Hermione desceu de Walburga e Orion e chegou até Sirius - o deles, não outro - e Regulus, outra coisa estalou na mente de Rony.
- Arcturus Black III - Harry e Hermione o encaravam, como se ele dissesse algo inesperado. - o avô paterno de Sirius Black.
- Sim - Antes que Hermione fizesse algo, Rony pega sua mão e direciona seu dedo, retornando a árvore por uma outra via, chegando até Arcturus Black III - esse mesmo. O que tem?
- Nem tudo está nos livros. Às vezes, nem nas entrelinhas. Tem histórias que são cortadas do texto oficial.
- Por exemplo?
- Arcturus Black III era filho de Sirius Black... segundo - Harry piscou rapidamente ao se dar conta da informação, enquanto Rony ainda direcionava o dedo de Hermione pela árvore genealógica da família Black - esse "outro" Sirius era irmão de um sujeito chamado Arcturus Black II, pai da minha bisavó, Cedrella Black, ou melhor, Weasley - E Rony parava seu dedo exatamente em um ponto onde, de Arcturus Black II e sua esposa, Lysandra Black, saiam duas linhas: Callidora Longbotton, e Charis Crouch. Antes que Harry e Hermione começassem a questionar aqueles nomes que estavam diante deles, Rony deu uma batida logo ao lado do nome de Charis - aqui. Era para estar aqui. Todo mundo sabe que os Black expulsam de sua família os que não casam com famílias puro-sangue. Os Black queimam o nome das pessoas consideradas traidoras de sua árvore genealógica, e muitas outras famílias fazem o mesmo. Mas, neste livro, apenas não foi publicado. É como se minha avó Cedrella não existisse oficialmente - Rony pisca novamente, como se uma informação importantíssima tivesse sido finalmente compreendida - como se a informação sobre a pessoa fosse mais importante do que a mesma e... como se apagar um nome, apagasse um histórico. Mas nós, Weasleys, mantivemos essa história. Fosse uma família menos conhecida, talvez, ninguém saberia. Mas Cedrellla Black é um patrimônio da memória cultural da nossa família.
Hermione para um segundo, enquanto Rony segurava sua mão. Parecia que ela estava diante de outra pessoa devido à maneira didática como explicou as relações familiares. Sentia como se pudesse ter dado uma volta pelas linhagens dos Black com aquela explicação do Rony e, mais, como se pudesse traçar diferentes questionamentos relacionados às famílias bruxas. Seu namorado não se limitou à resgatar aquelas informações da memória, ele as analisou e contextualizou.
Ela segurou sua língua por um segundo para não machucar Harry, pois, de repente, o comentário que Rony fizera outro dia sobre crianças bruxas bastardas fazia muito mais sentido, considerando um contexto ainda mais amplo. Mas a memória de Sarah, e o fato dela não estar mais em Hogwarts, ainda era uma memória muito fresca na mente do amigo.
Como um ato automático, ela se vira para Harry e o encara por alguns instantes. Ainda não tiveram tempo de conversar, mas era óbvio que ele estava procurando algo para ocupar a cabeça, algo que tentasse direcionar suas mágoas. E descobrir o passado de Sirius parecia um bom ponto.
- Hmmm? - Harry se dá conta que ela o encarava - o que foi?
- Nada - e tornava a olhar para Rony, como se esperasse que ele completasse um raciocínio.
O Weasley, ainda segurando a mão da moça, faz o caminho inverso que traçou há pouco, retornando ao Sirius deles, o terceiro. E qual não foi a surpresa - de Harry - quando, conectado ao nome de Sirius, estava ninguém mais ninguém menos do que um outro, "Jane Black".
- O problema é que esse nome não estava ai antes - comentava Hermione. Enquanto pesquisava o nome da professora Kneen/Black, chegou até Sirius, mais por curiosidade do que por outra coisa. E, até algum tempo, ele não constava como casado. – pelo menos, até ontem. O nome do Sirius também tinha sido apagado da tapeçaria dos Black, lembram? - e comentava sobre quando, muito rapidamente, passaram na casa dos Black durante as férias, mas não tinham dado tanta atenção a todos os nomes que estavam escritos ali, durante a visita - por que o nome dele está aqui, então?
- Por que ele foi preso. Acusado de ser um espião de Voldemort. Só por isso, os Black não impediram que o nome dele fosse apagado dos livros, embora o tivessem da tapeçaria. Era uma família muito poderosa. Eles tinham esse hábito apagar as informações que eles achassem que, por menor que fosse o motivo, pudesse afetar a "mitologia" da família. Às vezes não apagavam o nome, só omitiam fatos. No seu auge, tinha tanta influência na sociedade bruxa, quanto os Malfoy.
Às vezes, só passamos a entender algo quando pensamos muito naquilo, ou o dizemos em voz alta. Segurando a mão de Hermione, ele voltou mentalmente pelo caminho até Arcturus Black III e, quando o fez, se deteve alguns instantes, como se estivesse processando uma informação nova.
Hesper Black.
Enquanto isso, Harry ergue os olhos, e Hermione ficou em silêncio. Rony dissera... aquele nome? Nenhum dos dois tinha medo, devido aos seus respectivos históricos. Ou melhor, Harry já tinha escutado o amigo fazer isso outro dia, mas com tanta coisa que tinha acontecido, parecia uma memória esquecida.
Muita coisa tinha acontecido naquele período escolar, pensavam. Rony era batedor do time de Quadribol, membro do grupo de estudantes auxiliares medi-bruxos, idealizara um evento para recolher verbas... parecia que estavam diante de outra pessoa, não aquele Rony inseguro do ano interior, ou melhor, de poucos meses atrás.
- Você está diferente - era o melhor que Harry conseguia falar, numa tentativa de expressar tudo o que vinha à sua mente naquele momento.
- Obrigado – e mentalmente também agradecia. Sentia que, se começasse a falar ali o que tinha acabado de descobrir, iriam entrar em uma discussão ainda mais longa. Fazia, de repente, toda aquela baboseira sobre o Fidelius ter algum sentido. Outro hora, talvez. - então, se minha bisavó e todos os Weasleys não aparecem lá - ele aponta rapidamente para a parte da árvore onde antes, supostamente, deveria estar o nome de Cedrella Weasleys -, então, se aqui temos Jane Black, seja lá de onde ela saiu, logo - na parte onde o nome de Sirius e Jane se encontravam, exatamente no meio, Rony desce um pouco o dedo, apontando um espaço vazio, como se indicasse que algo, ou alguém, deveria estar ali - claro, é tudo uma conjectura.
- Foi ele quem te contou isso?
Rony percebeu como o "ele" saiu carregado da boca de Harry. Não deixava de esquecer das palavras de Ariel, sobre a sua responsabilidade. E, enquanto pensava, entendia melhor como era complicado agradar a gregos e troianos. Ainda tinha que buscar uma solução para o "problema" de Harry, mas...
- Conversamos, como amigos. Mas falou pouco sobre os Black, disse mais sobre a mãe. – aquele poderia ser um caminho, se posicionar. – Ele desconversava quando parecia entrar em algo mais profundo sobre os Black.
- E o que ele disse? - Agora era Hermione que estava curiosa com aquela conversa, já que Rony comentara algo anteriormente, mas parecia ter dificuldade para concatenar as ideias.
- Que a mãe era uma refugiada por causa do lorde das trevas - e, de fato, não era uma mentira.
- E...?
- A mãe dele era a protegida do avô do Sirius, e era muito famosa, na época.
- Então isso é mesmo verdade? Por que não nos contou?
- Eu estava tentando, mas ele deu informações tão soltas que algumas coisas não faziam sentido. Mas disse várias vezes que eu entenderia, na Segunda-feira, ou seja, hoje. Quando eu encontrá-lo, irei perguntar se está bem.
- Quer dizer, questioná-lo? - Harry estranhou a escolha de palavras de Rony.
- Não. Ele estava preocupado com isso. Abalado. Aquilo o incomodava há algum tempo, ele não queria que essa notícia vazasse. E, antes do recesso de natal, eu tinha percebido que tinha algo o incomodando. Fiquei aqui com a minha irmã, e ela comentou que ele e a professora Kneen tinham se desentendido. E...acho que ele quer falar com você, Hermione.
- Comigo?
- É... ele não disse explicitamente, mas deu a entender que queria se desculpar pela grosseria.
- Ele não foi grosso...
- Você sabe como ele é... qualquer hora ele aparece ai. Não o vi no café da manhã e... pensando bem, não o vejo desde Sábado! Mas qualquer hora ele aparece atrás da minha irmã, outra sumida.
- Também não vi sua irmã no café da manhã, Rony - ele e Harry olham ao redor da sala, como se procurassem por Amanda -, desde Sexta.
- Devem estar escondidos em algum canto - ele falava alto quase ao acaso -. E não, Harry, não precisa.
- O que?
- Não precisa tentar encontrá-los, uma hora eles aparecem.
- E por que você acha que eu faria isso?
- Vai dizer que não pensou em usar o Mapa do Maroto?
- Eu nem pensei nisso! Por que achou que eu faria isso?
- Deixa pra lá, vamos. A gente ainda tem aula, depois a gente procura saber o que isso significa - e se levanta. Harry olhou para Hermione, a qual deu de ombros. Era claro que Rony não contou para eles nem metade da história, a considerar a maneira como se levantou. A questão era o que aquilo significaria.
- E é por isso, senhoras e senhores, que estamos aqui para evitar uma grande injustiça! Olhem para esse jovem, e olhem bem! É claro que ele cometeu erros, e não tomou as melhores decisões da sua vida. Mas, senhores, senhoras, senhoritas e demais presentes que usam seus próprios tipos de pronomes de tratamento, quero chamar a atenção para o fato de que, aqui, estarão definindo o futuro de um indivíduo. E saliento que esse "um" não é um numeral, tampouco faz referência a um artigo indefinido, embora o seja! Abordamos uma pessoa na sua individualidade, cheia de sonhos, anseios e desejos, os quais, nesse momento, serão plenamente afetados pela decisão de voc...
O barulho da descarga atrapalha seu ensaio. De uma das cabines, sai uma da policiais responsáveis por acompanhar o andamento das sessões, e se dirige até a pia para lavar as mãos, parando ao lado de Mary.
- Desculpe interrompê-la, querida, seu discurso estava ótimo - Mary tentava recuperar a concentração, enquanto olhava para o espelho e tentava recuperar o fio da meada - mas acho que o Júri vai dormir durante a sua explicação gramatical - e sai do banheiro, deixando-a diante de suas observações.
Embora tivesse seus compromissos, aquele era um caso pro Bono no qual estava prestando assistência a um rapaz latino preso por beber embriagado. Não fizesse nada, seria enviado para um reformatório por seis meses, a título de exemplo para a sociedade. Em outros tempos, até pensaria que isso poderia servir como lição para o rapaz, com exceção do tempo de cumprimento da pena. Porém, já aprendera que havia uma série de questões que afetam diretamente os indivíduos quando eles passam a estar sobre a guarda do sistema.
Não era uma defensora do desencarceramento, mas aprendeu que a compreensão das questões sociais fazem parte da maneira como a lei deve ser aplicada. Mais de uma vez presenciara como a letra fria da lei poderia ser capaz de cometer injustiças, mesmo quando aplicada de maneira correta.
Por isso, e em comum acordo com John, deu-se um período de repouso de dois anos, iniciados com o nascimento de Harlet, para curtir mais aquela fase inicial da maternidade. Isso não significou que ficou totalmente ausente de outras atividades: retomou seus estudos, aprofundou-se mais em direito civil e criminal. Estagnaram suas contas durante aquele duênio, em troca de uma qualidade de vida com a filha. Quando consentiram que ela estava em uma idade mais adequada para a creche, dividiram as atividades para não ficarem sobrecarregados e correrem o risco de perderem esses momentos importantes.
Passado tudo isso, ela ainda se sentia uma constitucionalista. Mas passou a conceber que a letra fria da lei tem a função de garantir a ordem em uma sociedade, o que não significa que deva ser aplicada ao custo doloroso daqueles que a formam, os cidadãos.
Isso era mais grave naquele momento em que o promotor público estava querendo se reeleger para um novo mandato, e prender os que eram considerados excluídos da sociedade tinha o péssimo efeito de atrair votos.
- Muito bem, meu rapaz - ela acabara de sair do tribunal com o jovem, puxando-o pelo pescoço - você vai atravessar aquela praça, pegar um ônibus e pedir um emprego para o seu tio na mercearia dele, estamos entendidos?
- Ah, qualé! Quer que eu trabalhe entregando compras? Eu posso...
- Escuta aqui - ela coloca a mão no ombro dele, apertando-o - você teve uma chance, entendeu? UMA CHANCE! Amanhã de manhã, quando o sol raiar, eu vou telefonar para o seu tio para saber se você estava lá quando ele abriu o estabelecimento, entendeu!
Ela apertou um pouco mais o ombro dele. Seja a combinação do tamanho do seu braço, o terno que criava uma imagem imponente, ou seu tom de voz com uma expressão séria, o rapaz não deu um pio e abaixou o rosto.
- E olha para a minha cara quando eu estiver falando com você - ela tira a mão do ombro e puxa o rosto dele, segura-o pelo queixo e ergue a face do rapaz, forçando-o a encará-la. - Se acha durão, não é? Pois, se pelos próximos seis meses, o escritório do procurador não receber um relatório assinado por mim SEMANALMENTE atestando seu bom comportamento, é bom estar preparado para ser durão no reformatório, entendeu?
- S-s-s-i...
- ENTENDEU?
- Sim! Desculpe! - ela o solta, e o mesmo sai em direção à praça, atravessando-a em direção ao ponto de ônibus.
Doutora Gray 1, Sistema 0. Teve que abrir mão de parte dos seus horários para prestar esse tipo de atendimento, o que afetou a renda familiar durante o seu retorno. Mas, pelo menos, ganhou o dia.
Foi quando, olhando para seu relógio de pulso, deu-se conta de que teria que correr como nunca para buscar sua filha.
- Vai ficar me evitando até quando?
- Ah, Padma, não quero falar com você!
- Mas você viu!
- Mas quero desver!
- Ficou doida, Cassie?
- Doida? Viu aquela mulher? Ela me olhava como se esquecesse que eu jantei na casa dela outro dia! Já disse que não tenho essa sanha aventureira, quero paz!
- Mas e o nosso amigo, heim? Ele também não quer paz?
- Ah, não apela! Você mesma viu, não é? Previsão errada, pessoa errada! Não acredito que você confundiu a professora Kneen com a mãe do Malfoy!
- Olha, era uma visão confusa, ok! Eu só vi duas loiras de preto, e quem disse que aquilo não é ainda mais problemático? E a segunda previsão?
- O que tem?
- Não finge que não viu, você olhou na minha bola de cristal!
- O que VOCÊ viu, quer dizer!
- E você viu o que?
- Outra coisa diferente, e não tinha nada a ver com o que você viu, era o contrário!
- Então... você viu, não foi? No que é diferente?
- Não tinha morte nenhuma, para início de conversa! De onde você tirou a ideia de que um mataria o outro? Um salvava o outro, isso sim!
- Mas como você sabe qual a previsão correta? E se nós vimos lados diferentes da mesma coisa?
- Oi? Escuta, a visão foi MINHA, você era apenas uma carona, lembra?
- Mas você me pediu ajuda!
- É porque eu não podia pedir à sua irmã, mas acho que ela seria menos traíra!
- Ainda nisso? Eu fiquei assustada, ok! Pensei que aquilo ia acontecer naquele momento! E você, porque me segurou? Achou o que, se eu não contasse, não aconteceria?
- Claro!
- É por isso que ficou o final de semana inteiro agarrada ao seu namorado?
- Pelo menos eu tenho um para agarrar, não fico atrás do namorado de outra pessoa!
- Cassie - Padma ajeitava o cabelo - a gente é colega de casa, de time... mas isso não me impede de te esgoelar se continuar espalhando calúnias a meu respeito, ouviu!
- É mesmo? E vai fazer o quê? Ah, é, levei a melhor da última vez!
- E se eu espalhar por ai que você brigou com o Maxwell, e que foi descarregar as mágoas no ombro do Chaz?
- Há! Quem você acha que vai acreditar nisso?
- A Amanda, talvez?
- Não me provoque...
- A gente TEM que fazer alguma coisa! Ficar sem fazer nada não vai impedir o futuro!
- Já parou para pensar que se a gente fizer algo, pode ser isso que vai dar naquele futuro?
- E se ele acontecer porque a gente não fez nada?
- Você está se ouvindo? Tem uma mulher atrás de mim, bruxa de preto, risada sinistra, ex-aluna da Sonserina... isso dá conta de todos os requisitos para uma Lady das Trevas!
- E o que você sugere que eu faça? Você andou espalhando mentiras a meu respeito, e está se borrando de medo! A gente tem que dar um jeito de ficar de olho nele! Na sua visão, a qual eu não tive contato, ele salvava o Malfoy, mas, na minha, ele matava o Malfoy!
- É, mas eu... eu... espera um pouco, você só quer ter certeza de que ele está bem, não é?
- É claro! Mas a ruiva deve estar desconfiada de mim por sua causa, agora! Se ela sentir meu cheiro à distância, vou arrumar sérios problemas!
- Então eu conheço a pessoa perfeita para colocar na cola dele, e ninguém vai fazer comentários maldosos.
Algumas profissões nunca são entediantes. Quem acha que a bolsa de valores é o suprassumo da emoção, frequentada por psicopatas, nunca viu uma emergência de hospital após um acidente de trânsito. Ou uma partida do superball.
Embora fosse funcionário do NYU Langone Heath, seus esforços para ser alocado no campus de Manhattan não lograram resultado, anotação essa que nunca saiu da lista: Campus de Manhattan.
Por ser um hospital universitário associado à Universidade de Nova York, possui campis em diferentes lugares, além de algumas especializações, como unidades de internação, o hospital pediátrico, e outros. Infelizmente, ainda precisava atravessar a ponte, do contrário não precisaria sair da ilha para trabalhar. Paciência. E perseverança, claro.
Sua função era dividida entre atendimento como clínico geral e na cirurgia geral, com uma carga horária tão ajustada que era difícil dizer se era um clínico que prestava suporte na cirurgia, ou vice-versa.
Mas sua formação inicial, bem como sua primeira residência, foi em Clínica Médica. Tinha muito interesse em acompanhar a evolução dos pacientes, bem como atuar na prevenção e agravamento de quadros clínicos. Mas, por uma série de movimentos - insanos, segundo seus amigos - isso o aproximou da "ponta da lança", de maneira que realizou uma segunda residência justamente em cirurgia geral.
Em muitos países, médicos só podiam fazer residência em até 2 especializações diferentes, de maneira que uma costumava estar conectada à outra, como Cirurgia Geral e Infantil. Em outros, ele pode ter especializações diferentes, mas só pode atuar ou, no máximo, anunciar, duas. O que os amigos de John salientavam, na verdade, era que o grau de especialização exigido do sistema médicos nos EUA exigiam exatamente isso: um especialista. Mas isso não excluía aquele que muitos não enxergavam, pelo menos por enquanto, como um. Ao seu ver, sua segunda residência era um complemento da primeira, e lhe possibilitava uma visão mais ampla e geral de todo o processo. Claro que era difícil explicar isso aos acadêmicos da NYU, mas sabia que tinha um longo trajeto pela frente.
Mesmo que só precisasse entrar no hospital para pegar algum documento em sua sala, tinha que fazê-lo com extremo cuidado, pois sempre poderia ser requerido, como no dia anterior quando deveria ter dado um plantão "simples". Ocorreu que, quando viram que estava ali, o convocaram para substituir um colega que acabara de ser realocado para uma cirurgia de emergência, de modo que passou boa parte da tarde dando atendimento clínico a diferentes tipos de pacientes.
- Eu já pesquise, doutor! Estou com infecção na laringe, sei que se repousar, amanhã posso voltar ao trabalho! - respondia um dos pacientes. Era impressionante como pessoas que pesquisavam na internet sobre doenças pipocavam nos últimos tempos, como se os médicos só servissem para confirmar suas conclusões.
- Eu vou morrer? - outra frase recorrente. Estaria rico se ganhasse um dólar toda vez que explicasse para os pacientes que nem toda mancha no corpo é um tumor. Ou que espinhas não eram o fim do mundo.
- Mas eu sou virgem, doutor! Não posso estar grávida! A gente só estava brincando, foi nas coxas - talvez ele escrevesse um livro com essas frases. E toda vez que escutava algo assim, tinha vontade de perguntar à Maria como ela convenceu a José que estava grávida do Espírito Santo.
De tempos em tempos as frases mudavam, bem como as desculpas. Algumas eram recorrentes, só trocavam de embalagem.
- Eu não acredito em vacinas, doutor Gray. Minha mãe me entupia de remédios quando eu era pequeno, mas no fim eu nunca peguei nada! - eram pacientes como esse que faziam o último resquício de gentileza de John se esvair - Doenças são uma invenção do mercado farmacêutico para vender remédios e nos deixar mais doentes, isso sim!
- Sabe como curaram a peste negra?
- Não deixavam os doentes isolados?
- E você sabe o que acontecia com eles?
- Hmmm... ficavam bons?
- Morriam.
- Mas e as outras pessoas? Como elas não eram infectadas?
- É por que, em dado momento, em várias cidades, morria tanta gente - ele fazia a expressão mais desprovida de emoção que conhecia - que nem a doença conseguia mais se espalhar. É por isso que tomamos vacinas, para as doenças não saírem do controle de tal maneira, que ninguém sobrevive para contar história.
O paciente saiu do consultório e foi até o setor de vacinas colocar as suas em dia.
Não é que aquilo tenha pego Luna desprevenida, já que, ultimamente, muita gente a procurava quando precisava encontrar alguém. Mas estava em um dia particularmente ruim. Aproveitou um intervalo para passar um tempo na enfermaria e receber aulas extras de preparo de poções medicinais, quando Cassie e Padma a procuraram.
A cara dela estava séria. Não triste, nem irritada, mas séria. E aquilo não combinava com sua personalidade. E quando as duas chegaram, madame Pomfrey praticamente a expulsou da enfermaria, embora as duas não tenham entendido o porquê. Ela, por sua vez, obedeceu e foi atendê-las. Queriam algo simples: que vigiassem um certo apanhador, pois tinham a impressão de que ele estava em perigo. E uma vez que já detectaram a origem de uma das ameaças, precisavam de alguém que poderia acompanhá-lo de longe.
Para a surpresa delas, aquela expressão desmotivada não afetou sua boa vontade. Pelo contrário, começou a andar pelos corredores com as duas.
- Pensei que vocês só tinham treinamento no final da tarde - perguntava aleatoriamente Padma, um pouco preocupada com a forma como Luna andava.
- E tem. Mas é que, ali, eu posso sentir um cheiro bem recente da minha prima. Queria guardar na minha memória, antes que sumisse.
Cassie e Padma se olham. Era uma informação totalmente nova, pois as pessoas não sabiam, de fato, como funcionava a capacidade de Luna para encontrar as pessoas. Já tinham escutado sobre bruxos com habilidades especiais, como virar animais, ou mudar partes do corpo e, raramente, falar a língua das cobras. Mas aquilo era novo.
Também não ignoravam o que tinham escutado, que a prima dela passava muito tempo na enfermaria. Lembravam que ela esteve ali, pelo menos, há pouco. Mas, quando entraram na enfermaria, não existia vivalma além de Luna e Madame Pomfrey.
- Pode sentir o cheiro dele? - Perguntava Cassie.
- Sim – esqueceu momentaneamente que aquilo era um assunto do qual não podia ficar falando, mas a sensação de perder a única pessoa com a qual podia ter esse tipo de conversa, a deixara desligada - posso sentir o rastro dele.
Ambas pensavam que era algum tipo de habilidade mágica, talvez uma espécie limitada de clarividência... mas não que era algo tão "bruto", como se ela fosse uma espécie de cachorro.
Elas não pediram para ela especificamente procurá-lo, mas foi o que basicamente fez. Precisava de algum tipo de distração. Muita gente a via de maneira alegre, dinâmica... mas era uma terceiranista, ainda tinha muita coisa pela frente, e estava aprendendo a enfrentar uma série de barreiras na vida. E embora fosse uma sensação de horas, a ausência da prima estava começando a cobrar seus efeitos. Isso porque o perfume de Sarah, gradativamente, estava se diluindo dos corredores de Hogwarts, como se sua presença estivesse sendo levada pelo vento.
Foi por isso que, enquanto todos estavam dispersos com as notícias do jornal, ficou concentrada no Potter. Não apenas o perfume de sua prima tinha o mesmo cheiro que o dele, mas conseguia sentir muito do cheiro de Sarah nele.
Em algum momento, Cassie e Padma acharam que Luna estava brincando com as mesmas, pois ela praticamente andou uma boa parte do castelo e passou duas vezes pelo mesmo lugar, chegando, inclusive, a sair e entrar da construção. E, quando perceberam, estavam diante do portão da torre da Corvinal. A garota, como dito, ainda estava no modo automático: bateu no portão, e a águia dourada que ornamentava a entrada fez uma pergunta:
- O que é o que é: tenho em excesso, mas ainda assim sinto falta.
- Saudade - Respondeu Luna brilhantemente, deixando as outras impressionadas quando o portão da Torre se abriu. Era um truque especial, pois não era incomum, em alguns casos, diferentes estudantes se reunirem para resolver um enigma. E ela respondera assim, de cara, sem dar chance às duas corvinas de responder.
Entraram. Luna parou no salão, no qual vários alunos estudavam. Olhou para um lado e ergueu a sobrancelha. Estaria certa?
- Ele foi por ali - apontava para o alto da escada, no qual terminava o dormitório feminino - tenho certeza.
- Como é? - Padma piscava duas vezes - como assim? Nenhum menino entra ali!
- não sei, só sei que entrou - e continuava - mas depois saiu. Passou pelo campo.
- E por que estamos aqui, então? - Cassie não entendia.
- O rastro dele seguiu vários caminhos, queria confirmar se terminava aqui, ou não. Às vezes algumas coisas atrapalham, como o vento, a chuva - ela caminha para fora - ou alguém - e aponta para uma área externa, onde havia um banco - ele estava ali, sentado.
Embora ela tivesse informações prévias que não convinham explicar às suas colegas, Luna entendeu que havia um cheiro forte relacionado ao apanhador; e outros, de pessoas que, pelo cheiro em si, tiveram algum contato com ele. Foi assim que ele identificou o cheiro de Miranda e Rika mesclado ao do seu alvo. Muito mesclado, na verdade, meio o cheiro que a Weasley carregava pelos cantos da escola. Mas, enquanto alguns estavam mais dispersos, um deles era mais forte, e era o de Ariel.
Elas caminharam até o local, e Luna parecia olhar para os lados, como se confusa, ou melhor, como se algo atrapalhasse seus sentidos.
- O que foi, Luna? - Era agora Padma a agoniada - alguma coisa?
- Ele foi para lá - e caminha rapidamente. As duas não estavam mais aguentando aquele jogo de gato e rato - Aqui termina o rastro dele - ela aponta para a área de embarque das carruagens - depois, fica mais distante, mas vai naquela direção - e aponta para a estrada que levava para...
- Hogsmeade? Ele está em Hogsmeade? - Padma não acreditava - era por isso que eu não o encontrava!
- Ele foi para Hogsmeade - completava - mas tem um cheiro fraco dele pela escola, deve ter parado aqui e embarcado.
- Fim da linha, então - Cassie tentava lembrar de algo importante - não o vi hoje no café da manhã, será que faltou à aula para não passar por aquela confusão toda?
- Quem pode te responder é o Ronald Weasley - Luna olhava para Cassie - o cheiro dele estava próximo desde aquele banco - e olhava para Padma - ou para a Ariel. Antes do Weasley, o cheio dos dois estava muito entranhado por toda a escola.
Elas se olhavam, como se tentassem entender o ocorrido. Mas, agora, sabiam a quem buscar por respostas.
- Padma, Padma... deveria ser mais discreta. O que vão pensar se alguém escutar você perguntando pelo namorado de outra pessoa pelos corredores, em voz alta?
Padma contava os segundos para pular nas costas de Cassie, depois daquele comentário de Ariel, a qual almoçava no salão principal. A filha do prefeito de Hogsmeade aparentava seu amor de sempre, mas aquela fala foi particularmente ácida.
- Amiga, você sabe que eu tenho um carinho enorme por você - e, enquanto falava, olhava de rabo de olho para Cassie -. Entramos juntas, você me incentivou a aceitar o cargo de monitora, eu te dei a maior força com o Fred... mas isso está ficando chato, viu! Eu não estou a fim do...
- Eieiei, só estou dizendo o que as pessoas andam dizendo por ai, ok! Não precisa ficar irritada comigo!
-É mesmo? E o que você escutou?
- Sei lá... alguém ai percebeu que você andava sendo muito amiga... muito preocupada com os outros... olhando de maneira apaixonada por cima dos ombros e...
- O QUÊ? Cassie, foi você que espalhou isso para a Ariel e a escola?
- Eu? Eu sou uma santa! Não tenho culpa se você não sabe ser discreta! E você tem esse tique nervoso!
- Que tique nervoso?
- Esse, de falar o nome de alguém e olhar na mesma hora! O Chaz me contou que você comentou algo no jogo da Grifinória, e teve a impressão de que você estava olhando para uma CERTA pessoa! E você faz essa cara de quem está sonhando quando fala de algo que gosta, essa mesma que está fazendo agora!
- Eu vou esganar o Chaz!
- Não, ele é muito desligado pra isso!
- Ah, e não é nem um pouco suspeito você ficar andando de mãos dadas com ele, não é?
- A gente FAZIA isso, mas olha só, ATÉ ELE arrumou namorada!
Padma bufa pesadamente. Aquela história não terminaria tão cedo.
- Ok, use seus poderes para descobrir quem está espalhando isso, anda!
- Não é assim que funciona! E VOCÊ – ela apontava um dedo acusador – JÁ ME PEDIU ISSO ANTES! E estou com problemas até agora por causa disso! Aliás, você me pediu para eu espionar...
- Chega – ela cobre a boca de Cassie antes que a mesma revelasse algo comprometedor - Ariel, o que ele estava fazendo no dormitório feminino?
- Nossa, isso é uma acusação muito séria, senhora monitora. Pode dar expulsão, sabiam? Fico espantada por você levantar essa afirmação. Eu, por exemplo, se visse algum menino no dormitório feminino, gritaria na mesma hora - e parava para beber um pouco de suco.
- Acho que ela está tirando um sarro com a nossa cara - Padma olha para Cassie.
- Também acho - e, como num passe de mágica, parte da birra entre ambas se esvaia.
- Não dá pra usar esse seu poder ai para descobrir isso?
- Já não disse? São visões, não um detector de mentiras! Não é assim que funciona, e não é como se eu pudesse ativar toda hora! Se desse, eu nem teria te procurado, pra início de conversar.
- Eu estou escutando vocês duas, sabiam? Vocês estão procurando por ele, não é? Da última vez que o vi, estava com a Weasley em Hogsmeade.
- Quando foi isso? - Cassie olha de maneira torta para Ariel.
- Tipo... Sábado?
- Sábado? - Padma não acreditava naquilo - Sábado? - ela balançava a cabeça - perai, como assim, Sábado? Eu passei todo o Domingo atrás dele, e nem sombra! - ela se toca do que acabara de dizer, enquanto encarava o olhar debochado de Ariel - não, espera, não foi isso que eu quis dizer! Era para alguém ter dado pela falta dele, tipo, alguém do dormitório dos meninos e... eu teria perguntado mais, mas alguém aqui andou espalhando algumas coisas e... ah, quer saber? Ariel, a Cassie teve uma visão, nós duas tivemos, e nosso amigo está em perigo!
- Tipo, que nem aquela visão na qual a Cassie jurava que o Snape iria faltar, e de repente ele apareceu aplicando uma prova surpresa?
- Opa, eu confundi o meu sonho com a visão, pois tinha comido demais no dia anterior, ok!
- Cassie! - Padma estava irritada - que história é essa?
- Nada importante!
- E aquela na qual você disse que o Maxwell iria cruzar o caminho do nosso time novamente, e acabou que vocês viraram namorados?
- A previsão se concretizou, não foi?
- Espera um pouco, Cassie. Está dizendo que suas previsões não são tão precisas assim? Como é que você consegue tirar uma nota tão boa na aula da professora Sibila?
- Ah, sabe... a professora acha que qualquer coisa que eu falo, está correta. Foi ela quem apareceu lá em casa para falar com os meus pais na época em que recebi a carta de Hogwarts. Meio que eu sou "a vidente que ela encontrou", mas... – e abaixa a voz – não sou muito estudiosa com essa matéria, por que acha que te pedi ajuda?
- É um caso perdido – Padma coloca a mão na cabeça - Ariel, ajude-nos, é sério!
- Sério? Olha só, eu até ajudaria, mas tem um carinha ai de olhos acinzentados provavelmente querendo ficar no canto dele por que, de repente, a mãe dele virou o centro das atenções. Mas isso é fácil de resolver, encontra a ruiva, encontre o moreno, simples assim.
- Aff - Padma estava jogando a toalha, pois não queria ter que transformar isso em uma maratona coletiva. - Você não vai nos ajudar, não é?
- Do jeito que você fala, até parece que estou agindo de má vontade. Olha só, o pessoal do quinto ano não tem aula de Defesa contra as Artes das Trevas com a Grifinória, tipo... agora, depois do almoço? - e aquilo fez com que Padma e Cassie se encarassem, como se tivessem se dado conta do óbvio.
Gostava daquele lugar. Gostavam.
É verdade que, durante a faculdade, alimentavam o sonho americano da "Marcha para o Oeste", de modo que queriam se mudar para São Francisco. Isso, antes de descobrirem a efervescência cultural de Greenwich Village. As fotos de Harlet no seu primeiro Halloween, recém-nascida, eram memoráveis.
Durante seu tempo de resguardo, passou a descobrir mais os encantos da região. No começo gostava de andar de carro para todos os cantos, até que se acostumou a fazer longas caminhadas, e descobrir que algumas distâncias não eram tão "distantes" quanto pensava. Como a que fazia, naquele momento, do Washington Square Park até sua casa.
Na verdade, descobriu o espaço enquanto tentava se localizar até chegar à Universidade de Nova York. Muito de sua rotina era entrar e sair da ilha de Manhattan, e à medida que a vida social do casal passou a transitar por aquele espaço, ela começou a descobrir suas vantagens, a exemplo da comodidade de uma Universidade de renome não muito longe de sua casa. Isso foi muito cômodo quando aproveitou o resguardo para retomar seus estudos. E, embora John não trabalhasse especificamente naquela região, era associado à grupos de pesquisa da instituição.
É verdade que são Francisco tinha suas vantagens, mas aquele sentimento cosmopolita que sempre buscavam, de morar em um lugar que era uma reflexo do mundo, também estava presente naquela região. E era um bom espaço para criar sua filha, com o parque, áreas para crianças, e facilidade para investirem em diferentes aspectos de suas vidas, como o lado econômico, social, familiar e sentimental.
Parou um pouco e se sentou na grande fonte que fica dentro do parque, enquanto sua filha corria atrás de alguns pombos. Mary ajeita o cabelo e observa a pequena correndo. Lembrava que ela e John passaram por bons momentos desde que Harlet chegou em suas vidas, e, também, discussões. Muitas tinham como pano de fundo o fato de que a chegada dela modificou a vida conjugal deles de maneira que não podiam conceber, enquanto não passassem pela experiência: noites mal dormidas, excesso de trabalho para compensar a diminuição da renda, idas e vindas ao médico, dificuldade para conseguir, na maioria das vezes, alguém que cuidasse da criança para terem um momento para si, divisão do leito por que uma certa "funcionária" estava com medo de dormir sozinha...
Ainda assim, evitaram enviá-la para a creche pelo máximo de tempo possível. Não queriam apenas dar uma vida de qualidade para ela, mas queriam se dar, diante de toda a correria de suas vidas, o direito de aproveitarem aqueles momentos como pais. Tiveram que se adaptar, descobrir pontos fracos e fortes que nunca estiveram explícitos. Descobriram novos gostos, precisaram deixar em segundo plano alguns objetivos mais imediatos. Até mesmo agora se sentiam um pouco estranhos, retornando gradativamente a um ritmo de vida que seguiam no passado.
Ela toca em sua barriga. Apesar de todos os percalços, sentia saudades. Um sentimento maternal de pensar que estava abandonando sua filha, embora soubesse que seria bom para sua socialização um maior contato com outras crianças. E, mesmo que as escolhas do casal refletissem o desejo de darem mais atenção à família, ela era tomada, de tempos em tempos, por uma desejo nostálgico de estar grávida, de carregar uma vida dentro de si. De, acima de tudo, não estar carregando apenas um filho, mas uma expectativa de futuro.
Queria falar sobre isso com John, mas sentia que ainda era muito cedo. Mas precisava. Isso porque, de tempos em tempos, era tomada por um desejo meio doido de deixar as coisas acontecerem, e aparecer com uma surpresa, como se tivesse acontecido por acidente.
Pensando bem, seu marido era novo demais para ter um infarto. Mas seu sogro iria vibrar.
Ou não tão óbvio assim.
Estavam todos ali. Dos mais próximos, Julieta e Chaz. E, obviamente, Amanda. Tinha também alguns outros rostos conhecidos, mas se tocou que seu grupo de conhecidos na Grifinória era realmente restrito, tipo, reduzido à DUAS pessoas.
Mas seu amigo não estava ali. Na verdade, coincidentemente o casal não estava ali. Não o encontrou nas primeiras aulas da parte da manhã, o que era deveras grave. Será mesmo que ele resolveu tirar um dia sabático? Não era do seu feitio!
Ela quase foi até Amanda, mas lembrou que, tecnicamente falando, ela é quem deveria saber, por serem da mesma casa. E que, talvez, outras pessoas não tenham se dado conta daquela ausência, não da maneira como ela percebera e, se continuasse fazendo perguntas, chamaria atenção ainda mais indesejada.
E, a julgar pela forma como o professor Lupin entrou na sala, ela estava certa, visto que o mesmo, do momento em que passou pela porta até o momento em que chegou à sua mesa, parecia olhar para todos os cantos da sala, como se procurasse alguém específico.
Por que será que ela ainda estava com uma sensação ruim de que algo iria feder?
Naquela manhã, Julieta estava bem ansiosa: teria um treino extra com Cho e Rika. Como James havia se recusado a auxiliá-la com o treino de sincronia e rotação, precisou apelar para outros meios. O namorado se negava a auxiliá-la no que julgou ser uma ideia insana, motivo de terem ficado sem se falar na parte da manhã. Mas estava treinando não há meses, mas anos, desde seu jogo de estreia. Não iria recuar. Sabia que o próximo jogo definiria o tipo de pessoa que ela se propunha a ser. Estava determinada a subjugar os balaços de Thor, e nada a faria mudar de ideia.
Chaz tinha uma sensação parecida, mas como se apontasse para outro caminho. Não era tão bom com palavras com outros colegas, por isso não soube explicar para Amanda, anteriormente, que se sentia... estagnado. Tinha a percepção de que esbarrara em uma muralha e não sabia como superá-la. E não é que não havia meios, mas o caminho que ele seguia desde que pisara em Hogwarts havia o levado para um beco sem saída. Arte e magia. Para ele, era tudo a mesma coisa. E sentia que estava estagnado. Não fosse as notícias daquele dia, muitos teria percebido que, no café da manhã, ele não estava com seu kit de desenho.
Ele levantou a mão esquerda, olhando para seus dedos, como se tentasse olhar através deles. Passou metade da aula assim, até que Amanda estalou o dedo na sua frente, tirando-o de seu mundo de divagações. Ele pisca quando ela levanta a sobrancelha, como se perguntasse se estava tudo bem. Não sabia responder. Não sabia fazer uma cara diferente para fingir um sorriso, mas também não aparentava tristeza. Apenas balançou a cabeça positivamente.
Seria aquele o seu limite? Sua conexão com a magia era assim, tão... limitada?
Cassie percebeu a dispersão de Chaz, mas como Amanda tinha sido mais rápida, preferiu não perturbá-lo. Já tinha visto aquela expressão antes, e aparentemente seu amigo tinha problemas mais sérios do que a possibilidade de uma visão aleatória.
Olfato e audição. Dois sentidos que aprendera a detectar como forma de felicidade, quando combinados. Da rua, Mary e Harlet sentiam o cheiro, um indicativo de que John estava cozinhando o jantar. Adoravam o fato de que a região, por também incluir muitas opções, era um polo gastronômico e, uma vez por semana, jantavam fora. Mas Mary adorava o fato de ter um marido que cozinhava como terapia. E quando John estava cheio das maiores besteiras, esquisitices e doideiras que tinha que enfrentar no hospital, era garantido um jantar delicioso. E, ao abrirem à porta, podiam escutar o som do seu assovio. Olfato e audição.
Embora muitas vezes as crianças americanas não tivessem o hábito de tomar banho todos os dias, o pai de Harlet era particularmente chato no quesito higiene. Mary leva a menina para a banheira do quarto deles e prepara a banheira. Minutos depois, a garota está se divertindo com seus brinquedos, enquanto a mãe lavava seu cabelo. Era quase uma cópia da mãe. Mas os olhos eram do pai.
De onde estava, John continuava assoviando, enquanto cortava a salada. Escutou brevemente um grito de Mary reclamando da filha que a derrubou na banheira. Cinco minutos depois, a menina corria pela sala, liga a tv e começa a ver um programa musical.
Ele sente novamente aquele cheiro delicioso que entupiu suas narinas mais cedo e, como se envolvido por uma sereia, vê Mary saindo do quarto do casal com uma bermuda e uma de suas(dele) camisas sociais.
- Nem vem - ela dava língua enquanto piscava um dos olhos - SUA FILHA molhou minhas roupas e espalhou água pelo quarto, peguei uma das suas blusas. Mas já arrumei a bagunça - ela dava um beijo nele bem rapidamente, enquanto puxa uma cadeira - dia puxado?
- O de sempre - ele coloca uma travessa sobre a mesa com uma salada que Mary identifica como uma caesar - sabia que nossos ancestrais abriram mão da felicidade de enfrentar um tigre dentes-de-sabre para conseguir um pedaço de carne, quando inventaram a agricultura e o sedentarismo?
- Outro paciente que não acredita em vacinas?
- Não, o pai de um dos coleguinhas da nossa filha. Disse que tinha o sonho de viver longe da cidade grande, no meio do mato, dependendo só daquilo que a natureza lhe desse.
- Na próxima, explique para ele que antibiótico não dá em árvore.
- E o que houve com aqueles país? Teve uma hora que uma das mães disse que a filha de uma amiga estava em uma creche onde aprendia três línguas na mesma série, tipo... ano passado a Harlet ainda fazia questão de comer a torrada com pasta de amendoim e uma esfregadinha no chão!
- Hihihi, acho que meu dia foi mais fácil que o seu, só precisei evitar que um adolescente que se achava o cara mais perigoso do mundo porque dirigiu bêbado, fosse preso. Depois que livrei a barra dele, meio que tive que explicar que a decisão mais difícil que teria na vida, dali por diante, era se iria tomar o café da manhã em casa, ou na cadeira.
- Mas ele por acaso perguntou se o pão da cadeia tinha glúten?
- Dramático!
- Sério, eu sai dali me questionando se eu sou um bom pai! Eu estava com vontade de correr para uma mesa de cirurgia e operar alguém que brigou com facas, parecia mais simples!
- Por isso que eu comprei aquele dicionário pedagógico para não ficar perdida – ela aponta para a estante da sala e, quando olha, havia um espaço vazio para onde apontava.
- Eu sei – ela se deu conta de que o mesmo estava sobre a mesa da cozinha e, ao se aproximar, percebe que estava aberto em uma parte com palavras começando com a letra "E", e estava sublinhado, à caneta, a palavra "estereótipo". – Ampliaram a explicação, já viu isso? Eu sei que eu deveria saber sobre isso, mas fiquei um pouco confuso quando fui ler as novas definições de "gênero"! Lembra quando isso era só uma questão gramatical?
- Não vamos discutir isso agora, ok. Já tomei meu banho, seu jantar está com um cheiro ótimo e eu ainda quero beber algo. Depois de um ou dois goles, talvez eu esteja mais disposta a te explicar como, onde eu trabalho, os pronomes pessoais se tornaram ainda mais pessoais...
Durante o jantar ela insistiu tanto, mas tanto, que eles cederam. Mas, antes, foram escovar os dentes. Pararam os três no banheiro, diante do espelho, com a pequena imitando os gestos dos pais, de maneira cadenciada. Depois, colocaram seu pijama. Com Harlet no meio, e os pais ao seu lado, foram assistir, pela 55ª vez, "Como treinar o seu dragão". E, quando o filme estava na metade, a garota já tinha despencado no sono.
John a pega no colo e vai até seu quarto, ajeitando-a na cama. Quando vai se virar, descobre que sua noite não iria terminar tão cedo.
- Ei, o senhor tem que me colocar pra dormir! - e, enrolada no seu cobertor, a mesma reclama.
- Ok, o que temos pra hoje?
- "How to Twist a Dragon´s Tale"!
Cowell era a escritora favorita de sua filha. E embora a mesma adore o primeiro filme dos dragões, estavam "maratonando" os livros da série, aos poucos. A mesma até reconhecia algumas palavras, e torcia para que, um dia, todos os livros fossem adaptados para o cinema. Preferiu não estragar suas expectativas ao não explicar sobre como os filmes tomaram uma série de licenças poéticas ao adaptar a obra da escritora.
A vida parecia tão simples naquele momento. Se conheceram, casaram, adquiriram um imóvel. Planejaram uma criança, se mudaram, tiveram uma criança. Passaram por problemas de adaptação, a criança cresceu e estava agora na creche, começavam a retomar sua rotina, com ajustes. Mas a sensação que tinha, particularmente em relação à filha, era como se tivesse dormido durante a faculdade e, quando acordou, descobriu que o mundo era totalmente novo, principalmente para se criar uma criança.
Não é que ele pensava que "tempos bons eram aqueles nos quais a maior dor de cabeça era uma adolescentes grávida". É que para John e Mary algumas coisas só passaram a ser problematizadas, a ser uma questão, conforme eles foram vivenciado aquilo. E em vários momentos, eram uma sensação assustadora, pois se deram conta de que a expressão "marinheiros de primeira viagem" poderia ter um significado diferente, ainda mais considerando como as configurações familiares se apresentavam naqueles dias, muitas delas diferentes dos exemplos que John presenciara quando criança.
Todavia, era um susto positivo. Afinal, era um mundo plural. Sempre fora, apenas não era tão perceptível quanto agora. E embora ninguém tivesse lhe dito isso, intuía que parte do que significava serem bons pais, terem papel ativo na formação de um indivíduo nos tempos atuais, ela entender e ajudar a compreender o que significava aquela pluralidade.
Deve ter sido por isso que gostavam tanto de Greenwich Village.
Não tardou e a menina apagou de vez. Ele lhe dera um beijo de boa noite e saiu do quarto. Sua esposa estava na sala, sentada em frente à mesa do jantar, lendo alguns documentos.
- Admita, você quer comprar uma vaga no céu - ele ria, apontando para o documento. Não precisava pensar muito, sabia que, provavelmente, deveria ser outro pro Bono.
- Sabe como dizem, "Jesus no céu, advogados na terra".
- Eu escutei isso antes!
- Devo estar meio bêbada, provavelmente.
- Mas você não bebeu!
- E o que estamos esperando? - aquela camisa social dele ficava larga no corpo dela, simulando uma camisola. Quando ela desabotoa a parte mais ao topo, ele caminha até a estante e pega uma garrafa de vinho, e duas taças. Ele lhe serve uma dose, enquanto ela passa a mão no pescoço.
- Cozinhei pensando em você.
- Claro - ela sorri - você diz isso para todas, não é?
- Sim - ele dá a volta, ficando atrás dela, de pé, segurando em seus ombros - depois dos meus três plantões, preparo a comida das minhas 4 esposas e 7 filhos.
- Debochado - ela mexia o pescoço enquanto ele massageava seus ombros - assim, bom, como é gostoso.
- Você está muito tensa, precisa relaxar - ele continuava com o movimento, indo para frente e para trás, até que pega o dedo indicador direito e o dobra, tocando no topo da coluna cervical. Vai descendo em linha reta, pressionando-a, em um movimento de ida e vinda, enquanto a mão passa pelas suas costas.
- E você, claro, sempre se preocupando com o meu bem-estar, Dr. Gray. Quanto altruísmo - ela virava um pouco mais o pescoço, abrindo espaço para ele colocar a mão no mesmo, enquanto seguia com o movimento com o dedo que friccionava a coluna dela.
- Sou a Florence Nightingale de Lower Manhattan - ele se aproxima e roça seu nariz no pescoço dela, deixando seus pelos arrepiados. À medida que as mãos dele desciam pelos ombros de Mary, ela sentia a quentura do movimento eriçar seus pelos e arrepiar seu corpo.
- Isso é sedução, sabia? Não vê que eu estou praticamente bêbada? Não estou totalmente consciente dos meus atos - ela joga um dos braços para trás e acaricia os cabelos dele, enquanto também joga a cabeça para sentir o seu cheiro - querendo abusar de uma advogada, doutor Gray?
- Posso baixar um desses aplicativos de celular onde você preenche um contrato de consentimento, doutora Gray... e até onde sei, isso é um caso claro de conflito de interesses no qual a advogada está muito envolvida com o cliente... ou acusado, caso prefira - ele dá uma roçada com o nariz na orelha dela, e, de leve, dá uma mordida.
- Hmmm - ela fica com os bicos dos seios eriçados quando, por cima da blusa, sente uma das mãos dele apertando-os - cuidado, doutor Gray. Isso soa como caso premeditado. Antes que se coloque em uma situação perigosa, devo avisá-lo que... ahhhh... tem direito de ficar calado... tudo o que di-disser pode e será usado contra você. Mas se disser aas coisas corretas, posso aliviar sua barra - ela joga a outra mão por trás, assim como o pescoço. Enquanto ele beijava seu pescoço, continua acariciando o cabelo dele.
- E quais são as coisas corretas, doutora Gray?
- Diz aquela palavrinha... ah... - que você adora dizer no meu ouvido quando quer se dar bem, doutor Gray... bem devagar... caliente... no meu ouvidinho...
- Aquela, é?
- É... daquele jeitinho que me deixa louca e doida pra passar por uma colonoscopia...
Era ele quem ficou arrepiado, naquele momento. Afasta-se um pouco, enquanto ela fungava, até normalizar a respiração. Deu um passo para trás, enquanto a observava. A blusa estava um pouco amassada, e Mary olhava-o de rabo de olho, como se esperasse um movimento seu.
John tinha aquela mania de andar na ponta dos pés, de maneira que se aproxima dela sem fazer barulho. Mary apenas sente a respiração do mesmo, seguida de uma leve mordida na orelha direita. Após, a mesma se abraça quando sente a língua dele, por trás, entrando em sua orelha, de maneira muito ritmada. Quando se dá conta, de sua posição, ele a envolvia por trás, prendendo-a, impedindo seus movimentos. Torna a esfregar o nariz em seu pescoço, deixando-a inebriada com a sensação. Foi assim, nessa situação na qual ela perdia paulatinamente o controle do seu corpo, sentindo eu hálito quente, que o escutou sussurrar algo, bem baixo e ardente, como se procurasse levá-la à loucura.
- ... Gina...
Ela se vira por completo mas, antes que pudesse fazer qualquer coisa, dá-se conta que, de frente para ele, tinha os braços pesos pelas suas mãos. Ele a beija no pescoço, de maneira lasciva e, meio segundo depois, estão ambos rolando no chão da cozinha.
Ainda estavam se atracando no chão enquanto ele passava a mão naquela cabeleira ruiva. Prendia-a com as pernas, enquanto suas mãos, acima, a tocavam de maneira suava mas, abaixo, com força, como se não a quisesse soltar.
Ele passa o braço esquerdo por trás do pescoço dela, o aproxima e a puxa, puxando para si. Com o direito, segurava em sua cocha, como se fosse um gancho subindo e descendo pelas suas pernas. E foi assim que, em determinado momento, ela tentava ora afastá-lo, ora segurá-lo, como se em um embate entre os desejos do corpo, e às suas respectivas convenções sociais.
- Ahhhh! - ela toma folego mas, diferente de outras vezes, não fala nada, retoma o beijo, apertando-o igualmente. Dessa vez, ela passa o dedo pelo seu pescoço, na nuca, e o puxa de maneira envolvente. Sentia o descontrole corporal, enquanto ele a tocava. Permitiu a ousadia quando as mãos dele subiam e desciam pelas suas coxas, acariciando seus glúteos. Foi num misto de necessidade de ar, e outros reflexos, que ela começou a passar as unhas pelo corpo dele. Primeiro, de maneira leve, no peito. Depois, na orelha. Por fim, enquanto ele estava em cima dela, a mesma passa a mão pelas suas costas, enfia a mão nas suas vestes, uma blusa coberta por um suéter e, do máximo que consegue alcançar, vem arranhando enquanto descia. Foi só quando tocou no seu quadril que ele tomou um susto, na verdade, sentiu uma fisgada que o tirou por completo daquele transe erógeno.
- AAAAAAAAAAAI! - ele toma um breve susto, mais pela surpresa do que outra coisa. E ali, naquele momento, abre os olhos, encarando aquela ruiva de rosto sardento que mordia os lábios enquanto o encarava – O quê? Espera... Gina?
- Que foi? Machuquei você?
- Não, eu, quer dizer... ainda dói um pouco aqui e... perai, o que estamos fazendo?
- Ué, você veio pra cima de mim e...
- Não, perai... eu estava... quer dizer, eu acho que estava... sonhando? - ele se dá conta de que estava em cima da ruiva, e seus corpos estavam generosamente próximos. Se afasta um pouco e se senta, ao passo que ela faz o mesmo, embora continuassem no chão.
- Interessante esse seu sonho, vai me contar, ou vou ficar chupando dedo? - e ela passa o polegar direito na própria boca, mordendo-o.
- Eu acho que... estava sonhando... com o que estávamos fazendo – ele observa enquanto, ainda naquela mesmo posição, ela fecha um dos botões da blusa e, em seguida, ajeita a gravata do seu uniforme - e acho que acordei e... pensei que estava sonhando e... hã... acho que eu pulei em cima de você...?
- Eu sei - ela se levanta brevemente e ajeita a saia, a qual estava bagunçada - estava com uma cara muito tranquila. – e lhe estica a mão para se levantar.
- E... por que não me parou...?
- Estava bom - ela respondia assim, de maneira despreocupada, pelo menos era como isso soava, o que o deixava com o rosto vermelho - que foi?
- Nada, é...
- Você é tão fofo quando fica com essa cara de envergonhado! Mas adoro quando você sabe o momento certo de não ter nenhuma vergonha! - e mordia novamente os lábios, o que o deixou ainda mais vermelho.
- Quer parar? - ele olha ao redor, enquanto lentamente começa a se lembrar do que aconteceu, como foram parar ali e, principalmente, onde era ali – Não estamos sozinhos!
- Não parecia ser um problema para você, há pouco - ela se aproxima dele lentamente, quase sem fazer barulho. Quando Yoh se dá conta, ela o abraçava por trás, e roçava o nariz em sua orelha -, meu gray.
- A gente não pode fazer isso aqui dentro! Vamos para outro lugar, aqui não é seguro, não agora - e ele se esforça para se desvencilhar do abraço dela, ou melhor, virá-la e abraçá-la de frente - e eu não quero nenhuma carona indesejada no nosso "lance"!
- Chato!
Uma porta se abre em frente à parede, de maneira que uma moça ruiva e um rapaz moreno passam pela mesma, a qual, em seguida, fecha-se.
Em outro momento ele se perguntaria como poderia existir uma sala secreta tão cómoda como a Sala Precisa. Na verdade, salas e passagens secretas eram uma das especialidades de Hogwarts. Conhecia as histórias de várias, mas poderia contar, nos dedos, as que realmente encontrou, como a passagem para a Casa dos Gritos. Como uma sala para alguém que realmente precisa, e aproveitando do conhecimento conjunto de ambos, a mesma se materializou diante de seus olhos quando mais precisavam, no sétimo andar, no corredor esquerdo.
Na verdade, a sala aparecera para ambos, em um primeiro momento, por motivos que não envolviam suas necessidades imediatas. Mas não abriram mão da oportunidade, de maneira que, depois de uma série de ações durante o final de semana que iriam guiar os rumos que seguiriam dali em diante, passaram boa parte da Segunda-feira ali dentro, procurando evitar a discussão da notícia de Rita Skeeter.
Yoh, em particular. Embora tivessem conversado sobe muita coisa, ainda era uma situação dolorosa. Dizer que está mais apto para enfrentar uma situação, e enfrentá-la, de fato, não era a mesma coisa. Foi por isso que, uma vez lá dentro, Gina o deixou dormir.
Na verdade, foi assim que aconteceu: devido a uma série de coisas que fizeram no final de semana – podemos, até, chamar isso de "projeto em busca da felicidade" -, foram parar naquele lugar. Mas essas coisas serão melhor explicadas no seu devido tempo. Devido a um incidente totalmente aleatório em meio a tudo o que tinham experimentado nos últimos dias, precisaram remanejar toda a sua "agenda", o que acabou por gerar uma situação nova e complicada e, como consequência mais imediata, viraram a noite naquela sala para que ele pudesse se restabelecer antes de retomarem seus planos. Uma vez que estavam ali, decidiu que permaneceria na sala até o final do dia. Gina recusou-se terminantemente a deixa-lo sozinho.
Mais: lançou lhe um feitiço de relaxamento, de maneira que, quando ele encostou a cabeça no colo dela, na parte da manhã, o mesmo cochilou e aquilo se tornou um sono prolongada, fazendo-o ficar totalmente absorto do resto dos acontecimentos do dia. Quando acordou, era o final da tarde, de modo que o sol da tarde ainda era visível.
Tinha sido um sonho tão lindo e lúcido, como se realmente tivesse acontecido. As coisas ali pareciam tão simples, e a sua maior preocupação seria a cor do uniforme de sua filha.
Ele se pegou pensando naquilo pela primeira vez. Apesar da proposta de Gina, ele realmente não tinha concebido como seria uma criança. E a menina, tirando a cor do cabelo e das sardas, era idêntica à mãe.
De alguma maneira, seu subconsciente criara uma versão feliz daquele dia para lhe dar o direito de encarar aquela situação. E, embora fossem um pouco diferentes, reconhecia-se, e à Gina, nos Gray. Só ai entendeu o que, antes, pensou que era uma pronúncia equivocada da parte dela. Fazia todo o sentido sua "esposa" se chamar Mary. Mas era um tapa na cara violento sua versão "dos sonhos" se chamar John.
E foi assim, como em uma versão reversa do beijo do amor verdadeiro que acorda a princesa encantada que, do lado de fora, ele, encostado em uma parede, trocava um beijo doce com Gina, abraçando-a carinhosamente. Passava a mão pelo rosto da ruiva, acariciando-a. Olhava-a com aquele mesmos olhos de sempre, ela diria. Seus dedos dobrados acariciavam o nariz dela.
- O que acontece agora? - ela falava. Seus rostos estavam colados um no outro, apenas separados pelas suas testas. Ao longo do dia, furtivamente tinha conseguido uma edição do Profeta Diário. Ou melhor, trouxeram para ela.
- O primeiro Fidelius foi quebrado. Não resistiu à pressão de todo o mundo mágico conhecê-lo. Minha mãe voltou a ser, publicamente, a pessoa que sempre quis ser: uma Black.
- E você?
- Estou triste com ela.
- Ainda?
- Mentir para que, não é?
- E o seu pai?
- Também. Amo os dois, mas não dá mais para deixar as coisas do jeito que estão. Ou eu nunca vou conseguir perdoá-los.
- Eu sei, lindinho. Mas uma vez que já fizemos nossa escolha, precisamos ir até o fim.
- Eu sei - ele segura o rosto dela e dá um beijo no seu rosto - tem que começar por algum lugar, não é?
- A proposta do professor Flitwick é muito tentadora. E o seu tio foi bem enfático. Mas acha que consegue convencer o Snape?
- Eu sei o que ele quer - quando ela olha para o lado, ele segue o movimento, como se observassem o corredor vazio -. Dá trabalho, mas dá para fazer.
- Só para deixar claro, você entendeu que nem seu tio, e nem sua mãe, vão gostar da gente mancomunando com o Snape, certo?
- Depois do que a gente vai fazer, essa vai ser a menor das nossas preocupações. Minha mãe vai descobrir que não vai gostar do que pediu. E o tio Sume, bem, você viu que ele pode ser "um pouco" rancoroso, então, precisamos de um plano de contingência. Receosa?
- Nós somos doidos, isso sim – ela fecha os olhos enquanto sorri.
- Quer comer alguma coisa? Estou morrendo de fome!
Ele caminha um pouco enquanto estavam de mãos dadas, e leva a mão livre à parte de trás do quadril, mais ou menos na altura em que Gina tocara, anteriormente. Isso trouxe à ruiva, que o observava por trás, uma série de memórias, e como parecia que tinham experimentado uma vida inteira em apenas dois dias, a julgar pela quantidade de coisas que fizeram. Enquanto Yoh tocava naquela região, sentia o curativo ainda intacto, uma lembrança dos problemas nos quais se envolveram. Um olhar mais atento perceberia como ele andava com muito cuidado, de maneira que o passo dado pela perna direita era mais comedido, evitando movimentos bruscos. Na verdade não era uma dor, e sim um incômodo. No mundo trouxa ficaria com esse incômodo por certa de uma semana mas, com o devido tratamento, já conseguia andar e, amanhã, no máximo, já se sentiria melhor.
- Claro - ela não o questionou se seria o melhor momento, se não seria cedo, se não era melhor deixar para dar as caras no dia seguinte, quando a euforia inicial já teria sido dispersa. Apenas seguiram pelo corredor de mãos dadas. - mas... - e ela caminha lentamente, fazendo-o diminuir o passo – e então, senhor Kneen, quando vai assumir suas responsabilidades?
- Como é?
- Até quando pretende me enrolar?
- Quem, eu? Estamos juntos, não estamos?
- Não se faça de desentendido! Aquilo que você me deu só pode significar uma coisa!
- Ah, não! Espera, eu devia ter dado aquilo antes, não expliquei?
- Mas, e agora?
- Moranguinho, aquilo é um presente que significa "compromisso".
- É? E o que a gente tinha antes era o que? Estávamos ficando esse tempo todo?
- Está tirando uma com a minha cara, não é?
- Claro que não! – Ela piscava rapidamente para ele.
- Eu sei, eu devia ter tem dado isso antes, ok! Desculpe! Mas é um símbolo de namoro.
- Na minha terra, quando você dá um presente desses para uma garota, tem outro sentido. Sabia que meus pais foram pegos passeando por Hogwarts que nem a gente, fora do horário? Imagina só o que eles deviam estar fazendo.
- Eu prefiro não pensar...
- Sabia que eles se casaram logo depois da formatura?
- Não tinha sido um pouco depois?
- Mero detalhe. Significa...
- Significa... – ele não teve tempo de imaginar onde aquela conversa iria dar.
- Que você tem dois anos! – ela dava um pulo na frente dele, ainda segurando a sua mão – não vai mudar de ideia, viu!
- O que? Espera um pouco, você entendeu tudo...
- Errado? Por que? Pretende colocar isso aqui – ela levanta a mão direita, na qual havia um anel prateado, muito discreto, no anelar da mão direita – na mão de outras pessoas? Não vi nenhum amigo seu com uma dessas! – ela tinha um sorriso enorme no rosto.
- Moranguinho, espera! – ela ia na frente dele, saltitando – isso é um símbolo do primeiro passo para...
- Lá, lá, lá! Primeiro passo? Tenho certeza que meu pai vai saber explicar isso, mas não vai ficar me enrolando, viu! – ela para, se empina toda na direção dele, apontando-lhe o dedo – Nada de enrolação, tem dois anos para marcar a data, viu!
- Dois anos? Mas eu... espera, seu pai? Ele vai me esgoelar!
- Claro que não, lindinho! Mas se te deixa mais tranquilo, eu conto para o Rony primeiro, ok!
- Ele vai me esgoelar!
- Deixa de drama, não disse que estão se dando bem? Ai, meu Deus, Amanda e Mione vão morrer de inveja! – ela continua saltitando diante dele, até que para e acaricia o anel que estava no dedo. Fica um tempo andando, ainda à frente dele, enquanto ele a seguia, olhando intensamente para a joia, quando para de andar. O brilho do item lembrava os olhos dele.
- O que foi?
- Todo fim, tem um começo, não é mesmo? Até para esquecer de algo, temos que fazer opções, e... se vamos fazer isso, eu quero saber por você.
- Depois de tudo o que fizemos esse final de semana? - havia uma risada muito leve em sua voz.
- Eu sei... mas eu não quero saber das coisas por terceiros, ou por meio de feitiços quebrados.
Ele caminha um pouco e passa à frente de Gina. Ao parar, sente outra fisgada. Estava à distância de um braço esticado dela.
- Agora? - ele é pego levemente de surpresa, mas não muita, considerando o problemão que arrumou pela forma como ela interpretou aquele anel que lhe dera de presente - Aqui?
Ela levanta o rosto, encarando-o de uma maneira, ao mesmo tempo, doce e determinada.
- Lindinho... enquanto a decisão está nas nossas mãos - ela dava um sorriso amável -. Sua mãe fez sua jogada, mas nós também já demos início à nossa. Se isso vai definir o nosso futuro, então devemos fazer isso como se só existisse o amanhã.
- Você quer queimar pontes.
- A gente constrói outras - ela aponta com o dedo anelar esquerdo, girando-o - para seguir em frente.
- Teremos que aproveitar melhor as oportunidades que surgirem. Manipular algumas, até. Seu irmão e Hermione talvez fiquem chateados com a gente.
- E sua mãe vai me odiar depois de tudo, não vai querer ver a minha cara pintada de ouro. E com certeza não vai rolar aquela ideia de comemorar o aniversário do meu pai no restaurante do seu. Mas eu já me decidi: vou ser a bruxa poderosa que precisa que eu seja, e agora descobri o como. Vou te proteger. – ela observa o brilho de um anel similar ao dela, o qual estava no anelar direito dele.
- Quem vai te proteger sou eu - diminuía a distância e mexia em seu cabelo - Você é o fogo do meu vento, e quando estamos juntos, queimamos de maneira incontrolável. E agora que descobrimos essa nossa sincronia, eu sinto que podemos evocar um milagre!
- Yoh... vamos começar aqui. Foi divertido o final de semana, e quero ter outros com você. Eu amei te conhecer melhor, só achei uma pena ter que observar seu pai à distância.
- Eu vou fazer, é só que... queria aproveitar melhor esse novo momento com você.
- Já estamos aproveitando, não estamos? Mas quero ir além, aproveitar mais. "O espírito sem limites é o maior tesouro do homem", não é o que vocês dizem? Então vamos dar esse passo, fazer conforme combinamos. Mas não vamos esperar um dia, uma semana, um mês... façamos agora, neste momento. Conta pra mim, Yoh... qual é o seu verdadeiro nome?
- Você já sabe o meu nome.
- Mas eu quero ouvi-lo. Quero senti-lo. Quero que, juntos, possamos dar o primeiro passo para quebrar esse Fidelius. Não importa como ele soe, eu vou aceitá-lo, qualquer que seja, independente de como soe. Não me interessa o sobrenome, tudo o que eu quero é o meu "Yoh". Mas eu ainda quero escutá-lo.
- Yoh Kneen.
- Mas e o "M"?
- Ele não significa nada.
- como assim?
- Não significa nada, mesmo. Nos meus documentos trouxas, você só irá ver "Yoh Kneen". Minha mãe abriu mão de qualquer nome bruxo em seu registro trouxa. Mas ela nunca aceitou isso. Não podia acrescentar na minha certidão um "Black", obviamente. E sabia que seria muito chamativo escrever o nome de sua família de origem. Por isso que ficou a vida toda insistindo que eu deveria escrever esse "M", como se quisesse que eu lembrasse de algo. Como se quisesse mostrar algo para o mundo bruxo. Mas você lembra que, quando estávamos no quarto ano, eu nunca escrevi meu nome assim? Eu nem ao menos me apresentei para você com ele. A primeira vez que você escutou, foi quando fui na sua casa e... bom, foi um ato falho, pois estava diante dos seus pais. Mas passamos a maior parte do quinto ano sem eu sequer assiná-lo.
- Agora eu me confundi!
- É uma porta bem pequena, muito estreita. Eu tenho que querer passá-la, então... não basta apenas eu me afirmar, eu tenho que romper todas as minhas travas e aceitar isso por completo. Mas a minha mãe é uma discípula de Gamp, lembra? Ela manipulou o feitiço para que só eu pudesse rompê-lo, mas, ao romper o outro Fidelius, o que revelava que ela é Jane Black, criou uma situação que vai me colocar gradativamente contra a parede. Quando eu conseguir pronunciar meu verdadeiro nome, você saberá que o segundo Fidelius não existe mais.
- Por isso que eu disse que precisamos tomar a dianteira. E nós dois já realizamos algumas jogadas antes que sua mãe terminasse às dela. Por enquanto, todos estão olhando para Jane Black. Ninguém ainda se deu conta de quem é Yoh Kneen!
- Isso não é verdade. Tem uma pessoa que está de olho em mim há algum tempo, lembra? Eu e minha mãe desconfiamos depois de fazer uma vistoria geral na Firebolt e no Karasu. Mas isso ficou explícito quando ele esteve em Hogsmeade há um tempo atrás. Tio Sume explicou uma teoria de como aquele sujeito deve ter ficado interessado em mim, mas tem algo que está incompleto: não era para ele se lembrar da minha mãe, ou qualquer coisa a ela associada. De qualquer forma, esse feitiço vai ser rompido em etapas. Quando mais eu aceitar a verdade, mas certas coisas ficarão evidentes.
- E qual é a verdade, meu gray?
- Para quebrar esse Fidelius, eu preciso gradativamente aceitar quem eu sou. E a cada passo, estarei mais perto de expor toda a verdade - ele respira fundo - mas, você está certa. Palavras tem poder. Para garantir o nosso futuro, eu preciso aceitar o que eu realmente sou. - ele dá alguns passos à frente - e isso não pode ser negado - ele para e de costas, ergue a cabeça. Um vento circulou pelo corredor mas, longe de apagar as lamparinas, aumentou ainda mais a intensidade de suas chamas.
- Yoh? – Ela o observa enquanto ele mantém a postura. Ele estava fazendo algo, naquele momento. Ela sabia o que era. Mas "saber" e "presenciar" eram coisas diferentes. Seu namorado estava criando um cisma no segundo Fidélius, o qual, com o tempo, iria se romper por completo.
- É, meu pai, como sempre, tem razão: melhor fazer algo nós mesmos, antes que outro o faça. Antes que não tenhamos mais nenhuma opção. – Ele vira brevemente a cabeça, olhando para Gina por cima do ombro - I am Yoh Kneen – ele a olha firmemente com aqueles olhos acinzentados - Je suis un Malefoy.
Aquilo não foi apenas dito mas, também, internalizado. Não foi apenas a primeira vez que ele disse isso para Gina de maneira explícita, mas a pegou desprevenida. Ela conhecia aqueles traços de verdade, mas a ruptura do efeito mágico ainda era surpreendente.
Por sinal, naquele momento, algo mais se rompeu. Como um pequeno risco no vidro quase imperceptível, mas que causa uma perturbação. Por ser a primeira vez que escutou aquelas palavras, e não por uma série de conexões que se realizaram, tampouco pela forma como eles pareciam entender melhor seus sentimentos e emoções... uma série de outras informações se interligaram. Não é que ela não soubesse ou não tenha tido acesso quando conseguiu ler através dele, mas informações anteriores passavam a ter mais sentido.
Ela não fora a única a perceber isso. Na verdade, todas as pessoas que em algum momento olharam para Yoh e tiveram a impressão de que havia algo estranho nele, de repente se deram como algumas coisas pareciam ser mais do que mera coincidência.
Como Hermione, naquele dia em que viu Yoh brigar pela posse de uma carta.
Ou Lupin, que nunca entendeu como um estudante mestiço convencera Draco a não brigar com Harry.
Ou Morgana, que tinha um ranking dos alunos mais gatos de Hogwarts, e nele Yoh e Draco ocupavam a mesma posição.
Ou Pansy, que desde que começara a frequentar a mesa da Corvinal, nota um detalhe ou outro em Yoh, por exemplo, alguns comportamentos dele que pareciam ser alguns costumes bruxos quase que disfarçados. E não eram os de um bruxo de uma família menor, mas de uma das grandes.
E, obviamente, um homem que uma vez, durante o jogo, olhou muito rapidamente para Yoh e teve uma sensação muito estranha, como se aquele jovem apanhador lembrasse um velho conhecido. Quando retornou para casa, seus mecanismos mágicos trouxeram à tona uma memória antiga, o que o levou a fazer suas próprias pesquisas. Isso trouxe um conhecimento que ele tomou providências para, de tempos em tempos, se lembrar. Também tivera contato com o Profeta Diário, naquela manhã, confirmando suas suspeitas. Jane estava viva, de maneira inquestionável. Como, o tempo dirá. Mas aquele movimento feito por Yoh teve, para o corvinal, um efeito propositalmente esperado.
Do seu escritório, ele se ergue. Caminha até uma parte da sala na qual havia uma lareira, na qual, no topo, havia o rosto de um homem carrancudo que transmitia toda uma imponência, seu pai. Puxa sua varinha e, em seguida, a lareira se move, revelando uma sala secreta. Ao entrar, ele observava o que parecia um verdadeiro cofre, com joias, livros, roupas e, principalmente, quadros. Um observador mais atento reconheceria como, em várias, havia um jovem homem loiro de pele branca em várias pinturas, vestido com o uniforme da Sonserina. A prepotência inerente da sua face, bem como os olhos cinzentos, eram um indicativo de quem era. Mas, em várias daquelas fotos, ele não estava sozinho: havia uma mulher ao seu lado, com uma face que não era exatamente igual a sua, mas possuíam traços em comum. Tinha cabelos loiros opulentos, e o mesmo olhar presunçoso, mas acrescido de um sentimento de segurança. Também vestia o uniforme da Sonserina.
E haviam vários quadros com essas imagens. E, como os quadros bruxos, neles a mulher se movia. Era como um cinebiografia, no qual era possível ver a vida de uma pessoa passando por ali, a cada momento: em um deles, a mulher carregava livros pelo corredor; em outros, estava em pé em uma sala, diante do quadro, como se substituísse algum professor; outro quadro, e a mostrava diante de uma população enorme ao fundo, segurando um livro. Ai ele lembrou que fora um dos primeiros dos que ela escrevera. Em outro, estava vestida de noiva e, ao fundo, a residência deles em Wiltshire. Estava dado braços a um homem de cabelo longos, moreno e olhos cinzas, e sua expressão era de nervosismo, totalmente diferente do seu espírito de agitador. No quadro, os noivos se ajoelhavam diante daquele homem que, pela sua procedência, liderança e título de nobreza, tinha total autoridade para realizar, seja leis mágicas, seja pelas bruxas, aquele casamento: o lorde Malfoy, à época.
Aqueles quadros contavam a vida daquela mulher. E, durante anos, de tempos em tempos, ele resgatava à memória aquelas informações. Mesmo com o feitiço que seu pai lançara, nunca se esquecera da irmã. E mesmo quando o mesmo morrera e teve a impressão de que ela seria esquecida para sempre, reuniu o máximo de coisas que fora capaz de recolher. Mesmo quando o nome dela havia desaparecido de documentos e livros, conseguiu preservá-los em um quarto especial. Era impossível se lembrar de alguém que não conhecia, e descobriu que aquele feitiço ousado que seu pai lançara para protegê-lo, tinha suas falhas. Era assim que, sempre que entrava ali, de tempos em tempos, mantinha a memória da sua irmã. Mesmo nunca tendo entendido o porquê, após a morte do patriarca, não tinha se tornado o novo Fiel do Segredo.
A mensagem no jornal confirmou sua suspeitas. Mas ele tinha a impressão de que havia uma segunda trava no feitiço, embora não tivesse ideia dos detalhes. Era como se ninguém conseguisse, além dele, lembrar de quem Jane era antes de ser uma Black.
Com todos os últimos acontecimentos, bem como os confrontos entre os Comensais da Morte e a Ordem da Fênix, aquele assunto era um tema menor, deixado em segundo plano. Até o passado de Jane como uma Black era algo que carecia de observação, mas não uma mudança total dos seus objetivos.
Isso porque ele sentiu que algo tinha acontecido, embora não soubesse explicar o que. E por não ter tantas informações disponíveis, apenas tinha pequenos lampejos, como se sua mente estivesse se esforçando para criar novas memórias à partir de outras que não se conectavam. Mas a única coisa recorrente em sua mente era como aquele rapaz era muito parecido com seu pai.
Não sabia todos os detalhes, mas de algo tinha certeza: aquilo com certeza era um resquício do Fidelius, mas com um grau de sofisticação diferente, mas o suficiente para bloquear sua plena ruptura.
Definitivamente o Lorde das Trevas, bem como outros de seus associados, estavam, naquele momento, voltando suas atenções para Jane. Ele teria pouco tempo para se movimentar e, dessa vez, proteger sua irmã. Era a oportunidade perfeita para corrigir seu maior arrependimento. Pelo seu conhecimento da magia, ele precisava assumir o que ainda restava do Fidelius e, para tanto, deveria lidar com aquele mestiço imundo.
A partir daquele momento, Yoh passou a ter a total atenção de Lucius Malfoy.
- Você está perdido? – havia um ar de deboche na sua pergunta para o loiro que se sentava à sua frente.
Foi assim que aconteceu: parte dos estudantes estava nas respectivas aulas, na parte da tarde. Outros, em suas torres. Na biblioteca, no campo e, outros, nos corredores. E vários comentando sobre a novidade do dia. Mas quando viram Yoh e Gina, havia um burburinho crescente. Alguns até se encheram de coragem para tentar perguntar algo, mas a cara de poucos amigos de Gina, a qual ia na frente de Yoh, desestimulada qualquer um.
Antes de tudo, passaram na sala do professor Flitwick resolver algumas pendências. Os três saíram dali, sedo que o professor fora direto para o corujal, enquanto o casal, ao salão principal.
- Nem pensar – eles tinham acabado de entrar no salão, o qual estava vazio. Faltavam ainda duas horas para o término do dia e, conforme Amanda também comprovara, era um excelente espaço para ocupar as horas vagas, de maneira que nem os professores estavam ali, ainda. – aqui, não – e puxava Yoh para que ele não se sentasse naquele espaço exato onde ela e Amanda costumavam ficar – hoje você fica aqui, ok – e o empurrava para a mesa da Corvinal, no seu lugar de sempre – Eu já volto, viu! Vê se não apronta, vou buscar o meu irmão e já volto!
Ele estava sentado no banco que dava para o corredor principal. Dois minutos depois que Gina saiu, quem é que se senta ao seu lado? Draco.
- Acho que vou passar a frequentar esse lugar mais vezes, é mais silencioso do que o salão da minha torre, sabia.
- É só avisar, eu trago um tabuleiro de xadrez da próxima vez.
- Posso trazer uma toalha de piquenique para forrarmos no campo se quiser, Kneen. Posso pedir para a minha mãe mandar alguma comida que os servos comem, se preferir.
- Eu posso pedir pra minha preparar um bolo se você quiser, mas pela sua cara você não deve querer vê-la nem pintada de ouro pelos próximos dias.
- Aff, que houve com a sua mãe? Gostava dela morena, era mais engraçado implicar com o Weasley!
- Qual Weasley?
- O meu, é claro!
- Ah, agora você tem um Weasley só para você?
- Não comece, Kneen! – Draco dava uma olhava mortífera para Yoh – quem tem Weasley de estimação é... é... – foi ai que Draco, ao se virar, se dá conta do que Yoh vestia – é piada?
- O que? Foi presente de natal – e aponta para "Suéter Weasley", com os dizeres "I Love Yoh" – é de coração!
- Você surtou? Está escrito "POBRE" em cada pedaço disso! Ninguém pode me ver sentado ao lado de alguém que usa uma coisa dessas!
- Ai, ninguém te convidou, viu! Que excesso de gente é esse aqui que não tem espaço na mesa da sua casa?
- É mesmo? E como é que eu vou explicar que perdi um leilão para um cara que usa uma roupa dessas? Os empregados lá de casa tem roupas melhores! Pombas, o pano de chão dos nossos banheiros é feito de um tecido melhor do que isso ai!
- E não esquece que eu te venci com uma vassoura inferior, contou isso na sua casa, também?
- Você trapaceou, isso sim!
- Pela dama do lago, muda esse disco! Não venceu o Potter outro dia?
- Heim? O que disse?
- Que você venceu o...
- Não repete de novo, a forma como você disse "Potter".
- O que? Potter?
- Não, daquele jeito, como alguém que está irritado, querendo arrebentar a cara do sujeito!
- Besteira!
- Ahá! Mas eu escutei, com certeza! Finalmente se estressou, né! Isso eu quero ver!
- O que minha mãe fez?
- Ela disse umas besteiras na sala, veio com uma história de poder simbólico e sei lá o que, acho que disse algo sobre o amor vir do amor verdadeiro, ou alguma baboseira assim!
- Aff! Eu não tenho paciência pra isso, ela vem com essa história tem algum tempo. Poder é poder, você pode até originá-lo de alguma coisa, mas no fim, alguns o tem, e outros não tem.
- É isso que eu disse! Mas aqueles bundões ficaram com medo de responde-la! Ela perguntou quem concordava comigo, eu disse que um monte de gente, e quando ela olhou para a sala, aquela bando de traidores me deixou na mão!
- Discussão entre trouxas talentosos e bruxos preguiçosos?
- Foi você quem preparou a aula?
- Eu fico escutando isso direto nos últimos anos! É a mesma ladainha de sempre, cheio de blábláblá, a gente até já discutiu por causa disso e ficamos uma semana brigados por que ninguém dava o braço a torcer! Ela sempre colocou os Black num pedestal, e fala como se a família tivesse sido unida pelos céus e isso justificasse o poderio deles!
- Espera um pouco, repete isso que você disse.
- As pessoas pensam que o glamour é algo pronto, mas ele é um reflexo de algo anterior e...
- Espera um pouco – Yoh fica irritado quando Draco interrompe sua explicação – depois me fala mais sobre isso. Você não é filho do Sirius Black, não é? Não parece nada com ele, aliás, minha mãe é uma Black, e você não tem nenhum traço dela!
- Ficaria mais feliz se eu fosse? Espera... está chateado? – ele abria um sorriso enorme – O que, ficou triste por que a gente não é primo?
- Black ou não, essa sua ladainha não muda! Me avisa quando decidir se é um Black ou não, eu conheço umas garotas de famílias importantes que vieram me perguntar sobre você.
- Você sabe que eu tenho namorada, não é?
- Aiai, Kneen... sério mesmo que você gosta da Weasley? Tudo bem, admito que ela tem uma senhora comitiva de frente – Draco gesticulava na altura do peito – mas se você continuar com essa gente, vai dar no que? Vai ter que pedir empréstimos para pagar o material escolar dos filhos! E já imaginou como seriam as crianças?
- Eu posso imaginar uma bela menininha ruiva, sardenta e com olhos acinzentados...
- Bleargh! Por Mordred! Você tem algum talento com seu violino, eu consigo te arrumar coisa melhor!
- Draco Malfoy, conselheiro sentimental e cupido. Escuta, ficou sabendo que vai ter um baile no mês que vem?
- É isso que dá esse bando de trouxa entrando aqui, mais um costume pra bagunçar a escola!
- Eu acho que isso é uma excelente oportunidade para mostrar para esses alunos um pouco da cultura bruxa, sabia. A maioria não conhece direito as grandes famílias, para ele é só um nome e um monte de gente rica.
- Hmmm, fale-me mais um pouco. O que tem em mente?
- O que acha de um show de música clássica? Você toca piano, não é?
- Ohohoho, eu não vou passar vergonha na frente de um monte de bruxos trouxas analfabetos, ok!
- E se você produzir o show, o que acha? Eu posso cuidar da parte técnica, e você, da parte administrativa e financeira. Seria o nosso mecenas! Se preferir, a gente até coloca uma plaquinha dizendo "Uma produção Draco Malfoy", vai fazer sucesso!
- Você está tramando alguma coisa – Draco levanta o dedo, quase encostando na cara de Yoh – não sei o que é, mas sei que está tramando algo, Kneen. E tem algo diferente em você, sei lá o que, você vem com essa ladainha me bajulando, puxando meu saco... ai tem, vai ganhar o que com isso? Quer fazer eu tirar onda na frente de todo mundo para eu ficar grato e te apresentar à minha mãe? Já disse pra não ficar tendo ideias, ok! Se você sabe o que é um Black, e tenho certeza que sim, então já imagina que ela não conceberia que eu a apresentasse a um bruxo mes... – ele interrompe sua fala – aham, que não é de família totalmente bruxa! E que namora uma Weasley!
- E um amigo, você apresentaria?
Durou meio segundo, entre o tempo da pergunta, e a reação de Draco, o qual não sabia o que responder.
- Eu te deixo sozinha alguns segundos, e você já se mete com más companhias? – A voz de Gina chega de maneira providencial.
- Se eu estivesse sentado na mesa da Grifinória, com certeza ele não se sentaria – ele olha para Draco, lembrando de um episódio que provava a falha de seu argumento – ou será que não?
- Nem pensar! – ela coloca o dedo no nariz dela – olha só, à partir de hoje você não se senta mais ali, ok! Está proibido até eu deixar, ficou claro!
- E se eu quiser falar com a Amanda?
- Eu trago ela aqui. E quem mais você quiser! Se eu te ver lá, te arrasto pela orelha viu!
- Eu acho que enfrentar a sua mãe é mais fácil – Draco se levanta – depois a gente se fala, Kneen. Me conta melhor essa sua maquinação musical! – e levanta a mão, despedindo-se e indo para o salão a mesa da Sonserina, enquanto alguns alunos chegavam no salão.
- Ele se sentou a menos de um metro de você.
- Você viu, não peça para eu explicar.
- O que foi isso? – Ela olhava de olhos semicerrados para Yoh.
- Oportunidade.
- Vai desconversar, é? Ok, meu irmão já está vindo para conversar com você.
- É? O que você foi falar com ele?
- Só o importante. De qualquer maneira – ela sorria – agora, sim, ele quer te esgoelar.
E o dia ainda não havia terminado. E ainda tinha que falar com o Snape. E enviar uma carta para o Vincent. E pensar no que diria ao Rony. Não necessariamente nessa ordem.
Notas do autor:
Finalmente o quarto capítulo depois dessa retomada! Estou muito animado, pois, como disse antes, foi preciso todo um trabalho de releitura para continuar a fic e resolver questões pendentes.
Esse capítulo ficou mais curto do que os demais, mas a tendência é que tenham esse tamanho, já que, nos dois anterior, tinha muita coisa para contar!
Estou, aos poucos, procurando resolver certos arcos, e questões pendentes que foram sendo abordadas ao longo dos capítulos anteriores. Embora a fanfic acabe tendo um contexto, tenho abordado um pouco de cada um desses assuntos paulatinamente.
Por favor, deixem seus comentários! Adoraria saber o que estão achando da história! À medida que forem perguntando, gostaria de criar, nos próximos capítulos, uma área para comentar essas dúvidas de vocês, ok!
Lexas
