Capítulo 16 – Confissões
Em casa.
Gina lhe dissera isso quando vieram para o Chalé das Conchas há quase uma semana, e possivelmente se sentiria assim se fosse em outra circunstância. Estar rodeada de Weasleys e membros da ex Ordem da Fênix que agora começava a ressurgir deveria aquecer seu coração a fazendo estar feliz por estar com aquelas pessoas. Gina era a sua melhor amiga e estava ao seu lado em todos os instantes sempre garantindo que estava bem e lhe informando sobre tudo que estava acontecendo já que a resistência estava se erguendo e muitas engrenagens eram movidas. A senhora Weasley lhe deu aquele abraço que apenas ela poderia dar, cheio de amor e carinho, o abraço materno que há tanto tempo não tinha, nem queria pensar em seus pais, não era hora. A matriarca agora estava o tempo todo ali deixando-a confortável e de estomago cheio, Hermione chegou até mesmo a engordar um ou dois quilos naquela semana. George por vezes aparecia no meio do dia para fazer companhia e como sempre alegrava o ambiente. Gui e Fleur era ótimos anfitriões. O senhor Weasley e Percy apareceram apenas uma vez, ambos estavam viajando e contatando antigos aliados para uma nova aliança.
Ninguém comentava sobre Fred, Rony ou Harry, a dor da perda deles ainda era muito grande e recente, um pouco menor agora que sabiam que Hermione estava viva e de volta em casa.
Em casa.
Era assim que ela deveria se sentir, em casa, com aquelas pessoas maravilhosas que considerava sua família, mas no fundo ela sabia que não era dessa forma que se sentia quando estava no quarto que dividia com Gina ou quando ia para frente da casa e observava o mar formar ondas na beira da areia. Faltava algo e ela sabia disso, entendia mais do que queria que era ele que faltava. Era o cheiro de ervas dele, sua presença tão intensa, seus olhares profundos e sua voz sedosa. O Chalé das Conchas era lindo, confortável e quente, e ainda assim não era onde queria estar. O mais perto que chegava dele era quando esfriava e o vento balançava seus cabelos, era quase como se sentisse que ele lhe acarinhava. E quando seu corpo arrepiava lembrava-se dos dedos dele passando por seu braço e pernas enquanto os lábios beijavam os seus. A falta que sentia dele era muito forte e fazia o possível para esconder isso de todos os presentes naquela casa, eles não entenderiam, jamais compreenderiam os sentimentos que tinha por ele, diriam que era errado e que não passava de lavagem cerebral que ele fizera em si a deixando dependente de si. Mas ela sabia que no fundo não era isso, não era síndrome de Estocolmo, pois não fora ele a tratar daquela forma que a fizera o amar e sim quando tudo mudou e mais ainda quando descobriu a verdade por trás de cada ato e o sacrifício que ele faria.
- Oi. – Hermione, que estivera sentada em sua cama com o livro de Romeu e Julieta na mão enquanto pensava na falta que sentia ele, levantou a cabeça e viu Gina entrando no quarto com uma bandeja na mão.
- Oi Gina. Eu ia descer para o almoço.
- Bom, na verdade, o almoço já acabou. Você demorou a descer depois que avisei e eu imaginei que quisesse ficar sozinha um pouco, então depois mamãe fez esse prato e pediu para te trazer. Está quente ainda devido o feitiço que mantem quentinho, então se não quiser comer agora, pode comer depois.
- Obrigada, eu queria ficar sozinha mesmo.
- Tudo bem. Eu vou descer então. – Disse a ruiva após colocar a bandeja na mesa próxima.
- Não, Gina, eu estava falando de antes, pode ficar. Talvez seja melhor eu ter uma companhia.
Gina trancou a porta do quarto e se sentou na cama ao lado a de Hermione, por um momento ficou em silêncio e então o quebrou com uma pergunta que Hermione não esperava ouvir de ninguém, muito menos de Gina.
- Você sente falta dele não é? Do Snape.
- O que? – Os olhos de Hermione estavam arregalados e seus dedos soltaram o livro que caiu aberto no chão. Rapidamente levantou-se da cama e o recolheu antes de olhar para a amiga e a ver com olhos nada surpresos. – Do que está falando?
- Sabe, uma das coisas boas de se dividir o quarto com outra pessoa é que dependendo de quem for, você se diverte e conta segredos. Mas uma das coisas ruins de se dividir o quarto com alguém é que esse alguém descobre todos os seus segredos, de um jeito ou de outro.
- De novo, do que está falando?
- Hermione, você fala dormindo. Fala muito.
- Não falo não. – Disse Hermione sentindo o peito bater mais forte com aquela revelação, agora temia o que falara enquanto tinha os sonhos mais profundos e tristes e alguns bem quentes com ele.
- Ahh, você fala sim! – Exclamou Gina dando um sorriso travesso para a amiga fazendo-a levar a mão até a testa e gemer de vergonha. – Mione, você não nos contou o que ele fez com você, eu sei que você não contou tudo, conheço você e sei quando está guardando algo que não quer contar e tudo bem, é seu direito. Mas me preocupa você amá-lo, pois exatamente não sei o que ele fez com você, então não sei se seu amor é certo e se ele merece.
Hermione sentou-se de volta na cama puxando as pernas para cima, colocou o livro ao lado com cuidado e por um momento ficou olhando para o chão sem saber o que falar para a amiga até entender que poderia dizer tudo, pelo menos para ela, a ruiva de olhos firmes jamais a julgaria ou contaria suas palavras, sabia disso. Talvez se contasse conseguiria tirar de seu peito aquele aperto.
- Ele me quebrou, Gina. – Começou sentindo a dificuldade de dizer aquelas palavras em voz alta, mas sentindo também que ao sair de seus lábios saia também a angústia e ficava a clareza. – Ele me pediu como presente para Você-Sabe-Quem, me incumbiu de fazer poções que eram levadas para o Ministério e no começo era só isso que eu fazia, ele mal falava comigo. Eu tinha um quarto velho e simples e fiquei assim por um tempo, o pouco que ele falava comigo era bom, era apenas o nosso rabugento professor de poções, mas até que era educado e até mesmo gentil. Ele me levou para jantares com os comensais, pessoas seguidoras e admiradoras daquele louco e com Você-Sabe-Quem também.
- Meu Merlin! E como foi estar diante dele? Acho que eu o mataria.
- Eu queria muito, mas estava sem varinha e era apenas uma serva de Snape que me obrigou a ficar calada e me conter, ele teve que usar uma Imperius em mim para que eu seguisse a risca tudo que ele mandava, segundo ele isso me deixaria viva no final da noite. E deixou. Teve um dia que Snape chegou na casa e eu juro que era outra pessoa no corpo dele, era tão diferente. Eu estava diante do comensal da Morte Snape, ele tinha olhos vazios e afiados, quando chegava perto de mim eu sentia a energia ruim dele e isso me deixava com medo. Eu quis enfrenta-lo, mas ele me venceu, me humilhou, me tratou da pior maneira possível.
- Mione, ele fez...
- Não, ele nunca encostou em mim com esse intuito, na verdade ele matou um comensal que tentou me violentar quando fui capturada. Ele matou com as próprias mãos e era isso que eu tinha medo que ele fizesse comigo, depois de um tempo eu me senti como um nada, eu me perdi em mim, não sabia mais quem eu era e então eu tentei me matar.
- Não! Mione! – Exclamou Gina levando as mãos a boca, seus olhos lacrimosos. – Como pode gostar de alguém que te deixou chegar nesse ponto? Eu não entendo.
- É porque depois disso, quando ele me encontrou bebendo o veneno que me mataria, ele se tornou outra pessoa. Não era mais o comensal, mas não era o nosso professor de poções. Eu acredito que a partir do dia que ele salvou minha vida, eu vi o verdadeiro Snape. Ele cuidou de mim, velou meu sono. Me ajudou a cada segundo, se preocupou e aos poucos enquanto conversava comigo como nunca tínhamos conversado eu vi a verdade nele e foi essa verdade que me chamou para ele. Eu não sei quando exatamente comecei a sentir isso, mas em algum momento eu soube que gostava dele. Então ele me contou toda a verdade. Que tudo que ele fizera desde o momento em que olhou pra mim era parte de um plano para fazer com que a resistência existisse e acordasse. Que as pessoas me olhassem como um símbolo, uma do trio ainda estava viva. E no final deu certo.
- Sim, a sua aparição no Beco Diagonal meses atrás foi a fagulha que precisávamos para começar algo, de lá para cá muitas pessoas se juntaram a causa e agora mais pessoas ainda estão juntas nessa luta.
- Exato, o plano dele deu certo, ele queria isso e quando conseguiu, foi quando eu tentei me matar. Ele não precisava mais de mim para o plano e por isso pode ser ele mesmo e fui assim que esse sentimento nasceu em mim e nele.
- Acha que ele está apaixonado por você?
- Eu vi, dentro dele, eu vi que ele estava e foi isso que o levou a me liberar. Não estava nos planos dele que eu fosse liberta.
- Está dizendo que seu resgate no Beco Diagonal foi armado?
- Possivelmente, ele não me falou nada, mas quando nos beijamos...
- Vocês se beijaram?!
- Sim, e foi tão intenso Gina, tão entregue. Eu o senti por completo ali comigo e senti a tristeza dele, ele estava me deixando. Eu tinha pedido minha liberdade e ele dissera que me daria no momento certo e eu soube quando pisei no Beco Diagonal que aquele era o momento certo. Ele estava me devolvendo para vocês. Ele arriscou tudo para me libertar.
- Como assim arriscou tudo?
- Gina, Você-Sabe-Quem vai matá-lo por achar que ele me liberou de propósito.
- Snape não se entregaria, ele fugiria.
- Não. – Disse Hermione se levantando e indo até a janela. – Fugir seria covarde, e ele não é covarde. O plano dele deu certo, a resistência está mais viva do que nunca e eu estou segura. Ele não tem porque viver, eu sei que nesse momento ele acha que pode morrer, pois seus objetivos estão completos.
- Mione. Quão forte é seu sentimento por ele?
- Eu não sei Gina, nunca senti algo assim, só sei que dentro de mim falta algo e que eu não consigo parar de pensar nele, mais ainda, não consigo parar de pensar se ele está vivo ou morto. Quando o beijei, eu me senti tão completa.
- É maior do que o que sentia por Rony?
Hermione não esperava aquela pergunta e ela veio como uma facada em seu peito. Rony sempre seria seu primeiro amor, mas o que sentia pelo antigo namorado não se comparava com o que sentia por Snape. O que tivera com Rony fora um amor puro, inocente e lindo. O que sentia agora era intenso e imperfeito, por isso era tão forte.
- Gina, eu não esqueci o Rony, ele era meu melhor amigo e meu namorado. Eu ainda o amo, não sabe como o amo. Ele sempre estará dentro do meu coração e nas minhas memórias. Mas não posso mentir para você, o que sinto agora por Snape é muito mais intenso e eu não sei por que, eu não entendo ao certo, só sei que é. E eu nem sei se ele está vivo ou se também morreu como Rony. Isso está me matando.
Gina respirou fundo e deu um singelo sorriso para Hermione que deixava escapar por seus olhos as lágrimas do peso do que sentia. A ruiva assentiu com a cabeça e sem falar nada se aproximou abraçando Hermione com força. Por um breve tempo permaneceram dessa forma, apenas abraçadas sem nada dizer até que Gina respirou fundo novamente, se afastou um pouco e novamente surpreendeu a amiga com suas palavras.
- Bom, então vamos ter que descobrir se esse seu namorado idiota está vivo.
Vivo.
Era assim que Snape estava ao abrir os olhos para mais um dia dentro daquela cela nas masmorras da mansão Malfoy. No entanto não era vivo a forma que se sentia e nem como queria estar. Seus olhos prenderam-se no teto escuro da cela enquanto sentia as dores no corpo por dormir naquele chão duro e sujo. A bem da verdade queria estar morto. A morte era preferível do que ficar vivo e não pelo lugar onde se encontrava, ou as torturas que passara nas mãos de Voldemort após voltar do Beco Diagonal, poderia suportar tudo aquilo, mas era insuportável o vazio que sentia dentro de si. Era ilógico sentir o que sentia pela menina, sendo que não poderiam ficar juntos e mais ainda por ela provavelmente estar agora esquecendo-se de tudo que passara e principalmente dele que fora seu algoz, mas ele sentia, sonhava com ela tanto dormindo como acordado chegando a fechar os olhos para se recordar do cheiro dos cabelos volumosos e da textura dos lábios macios.
Hermione.
A menina que vira crescer como uma sabe tudo irritante era agora a irritante lembrança de um sentimento que jamais imaginou sentir com tamanha intensidade superando os sentimentos que tivera com Lilian quando criança. Ela estivera em suas mãos, colada em seu corpo, entregando-se em seu beijo e agora estava longe e jamais voltaria, sendo assim, por que viver?
Mas o Lord tinha outros planos para ele e lhe dissera pessoalmente após lhe atacar com tantos cruciatos que as paredes que erguera em sua mente desabaram podendo ser acessadas com o legilimente, havia um limite que poderia aguentar e Voldemort o atacou até conseguir ultrapassar esse limite quase o levando a loucura tal qual os Longbottom. E então as imagens que tanto trabalhou para guardar vieram à tona. Voldemort viu o seu plano desde o início e viu o amor por Hermione nascer, um amor que o fez rir.
- Você é um tolo Severus. O amor o fez um tolo, acreditou mesmo que poderia ficar com aquela sangue ruim? Eu sempre descubro a verdade meu caro, e essa verdade que estou vendo agora vai lhe custar muito. – Dissera o Lord enquanto Snape gemia de dor e tinha sangue escorrendo por sua boca e nariz. Seu corpo e mente estavam esgotados, foram horas aguentando o poder de Voldemort sobre seu corpo e Voldemort se aproveitara disso para rir de si. Antes de desmaiar sentiu a mão do Lord segurar seu rosto ensanguentado e seus olhos cravarem-se nos seus. Uma risada grotesca saiu da garganta de seu mestre. – Eu lhe prometo que poderá vê-la antes de morrer Severus, eu o deixarei vivo até lá, deixarei, pois quero que você veja o que farei com ela. Você não a possuiu, mas eu a possuirei, a farei minha antes de torturá-la de formas cruéis, a morte dela não será breve e você assistirá a cada segundo e então eu te deixarei sentir sua morte por alguns minutos antes de o matar.
Snape desmaiara alguns segundos depois e seu corpo caiu ao chão balbuciando palavras que fizeram o Lord rir de seu ex fiel servo por seu tolo sentimento de amor.
"Hermione, eu te amo"
