Capítulo 18 – O fim de tudo

Ele não queria abrir os olhos, não queria ver o que o Lord das Trevas o obrigaria a ver, a vida deixando Hermione. Não, isso era demais. Lembrou-se do momento em que andou pela casa destruída dos Potters, seus pés caminhando devagar entre os destroços, passando ao lado do corpo inerte de Thiago e então quase parando ao aproximar-se do quarto da criança, recordava-se nitidamente de seu coração batendo em desespero dentro do peito com a imagem que estava prestes a ver, sabia o que encontraria, entretanto não parou um único passo e apenas adentrou ao aposento. Sua mente se recordava nitidamente de tudo e agora com os olhos fechados era como se estivesse lá novamente, diante do corpo morto de Lilian Evans. Fora uma dor tão forte olhar em seus olhos vazios e ver que o verde se perdera no nada, ainda podia sentir em seus dedos a pele fria. Era como morrer, era pior na verdade, pois morrer o levaria para o nada, mas ele estava ali, vivo, seu coração batia ao contrário dela e isso lhe fazia sofrer tanto. Ele sentia tudo aquilo ainda, tantos anos depois e ele ainda era capaz de sentir como era no momento em que a perdeu para a morte.

Não queria ter aquela dor de novo, não queria ver novamente a mulher que amava morta a sua frente. Queria ficar ali de olhos fechados e apenas se lembrando dela viva, com as bochechas vermelhas pelo sangue que corria por suas veias a deixando ruborizada ao chegar perto. O sorriso, não podia perder a imagem daquele sorriso tão lindo e profundo para a imagem de lábios frios e fechados. Não poderia abrir os olhos, nunca mais. Ficaria daquela forma para sempre, até que alguém tivesse a piedade de matá-lo, assim poderia morrer com a imagem de Hermione viva em sua memória e jamais com a lembrança de seu corpo vazio.

Devagar soltou o corpo no chão sentindo o gelado tocar-lhe o peito ao mesmo tempo que lágrimas saíram por de trás das pálpebras fechadas. Agora era esperar, Voldemort o mataria em poucos minutos e então estaria livre de tudo. Sabia que sua alma não descansaria jamais, que seus crimes e ruindades teriam que ser pagas de alguma forma, mas pelo menos ele estaria com a imagem dela em seus olhos. Ela viveria para sempre como sua Hermione.

Sua, apenas sua, como queria que pudessem ter tido tempo para que fossem um do outro como seus corações e corpos desejavam. Que tolo, achar que fosse tão inteligente e esperto a ponto de fazer com que existisse uma resistência capaz de derrotar o Lord das Trevas. Sentia-se até mesmo com vergonha por essa idiotice. Merecia morrer mesmo pelas mortes dos inocentes que tentaram em vão derrotar aquele bruxo. Todos eles estariam agora em sua conta. Uma conta grande que não poderia jamais pagar.

- Hermione. – Sussurrou deixando o corpo relaxar enquanto usava suas últimas forças para que em sua mente tudo que existisse fosse Hermione.

Poderia ser um idiota, mas não podia negar que era forte, pois conseguira então fazer-se acreditar que ela estava ao seu lado, podia sentir as mãos dela tocando em seu braço o puxando para se sentar. Era delicioso o toque queria sentir mais, colocou sua mão sobre a dela e a levou a boca sentindo a maciez em seus lábios. Que lembrança deliciosa ouvir a voz dela o chamando, queria responder, mas era preferível apenas a ouvir falando seu nome, e então os dedos arrumando seus cabelos e limpando as lágrimas. Até arriscou um sorriso quando sentiu os lábios dela nos seus. Que lembrança poderosa. Era uma ótima forma de morrer, não podia pedir outra forma, com ela ali, beijando-o de uma forma que jamais imaginou ser possível, com amor.

- Severus.

A voz dela era angelical, doce e perfeita, não queria atender, queria ouvi-la até gravar em seus tímpanos cada nota de suas palavras, seu timbre, sua entonação.

- Abra os olhos.

Não, não podia fazer isso. Por que sua lembrança estava pedindo tal absurdo? Tudo que queria era se prender na imagem dela, se abrisse os olhos ela sumiria. Devagar balançou a cabeça negativamente, não poderia sair daquele lugar em que se colocara, pois voltaria a realidade e Hermione estaria caída sem vida do outro lado da grade.

- Por favor, abra os olhos, Severus.

O pedido era tão suplicante, podia ver seu rosto diante de si, as sardas em seu nariz, os olhos ambares, grandes e lindos. Ela estava segurando sua mão, sentia seu aperto, podia vê-la e era perfeito.

- Por mim, abra os olhos.

Por ela, por pedido dela, apenas por ela.

E então seus olhos se abriram e os negros encontraram os ambares. Ela estava diante de si, assim como fizera sua mente acreditar. Seus cabelos estavam bagunçados e haviam cortes em seu rosto, assim como poeira em sua roupa, ela estava chorando e seus lábios tremiam, no entanto estava tão linda como estivera em sua cabeça. A lembrança que tanto queria ter em sua morte estava diante de si e agora sorria em meio ao choro passando a mão em seu rosto e afastando seus negros cabelos que grudaram no rosto. Arriscando por tudo a perder caso fosse apenas uma ilusão, levou seus dedos ao rosto dela e tocou em sua bochecha de uma forma tão delicada que a fizera fechar os olhos.

- Abra os olhos.

Ela abriu e então ele se viu no reflexo e entendeu que ela estava realmente ali, aquilo não era uma ilusão, não era trabalho de sua mente para amenizar a dor do fim. Hermione estava diante de si, olhando em seus olhos e acariciando seu rosto. Aquela imagem, aquele entender eram tudo que ele precisava para que seu corpo, que estivera desistindo de viver, voltasse a vida e então em um desespero que jamais sentira antes a puxara para si tomando-lhe em um beijo intenso. Precisava senti-la, tê-la em seus lábios, tocar-lhe a nuca com seus dedos entrenhados nos cabelos volumosos, trazer o corpo dela ao seu e sentir o coração pulsando fortemente tal qual aquele que batia dentro de si. Em um pequeno momento afastou-se alguns míseros centímetros apenas para encostar a testa junto a dela e respirar o mesmo ar que ela respirava. A menina abraçou seu pescoço e sorriu.

- Você está aqui. – Sussurrou Snape. – Você está aqui.

- Estou, Severus, eu estou. Meu amor, eu estou aqui com você.

- Hermione. – Chamou Snape afastando um pouco a cabeça para olhá-la novamente.

- Sim.

E então, aquele homem tão taciturno e amargo, o comensal que imaginara nunca conseguir amar e ser amado estava ali olhando para a mulher linda que era Hermione e sentindo dentro de si um sentimento que nunca entendera, mas que agora sabia muito bem identificar. Tudo que queria fazer era dizer a ela, dizer as palavras que ela tanto queria e merecia ouvir. As palavras que ele não queria levar para o tumulo, palavras que sabia que eram apenas para ela. Unicamente para ela.

- Eu te amo.

Quase não se podia ouvir o que ele dissera, mas ela vira as palavras em seus lábios e principalmente em seus olhos e para ela isso bastava. Hermione sorriu antes de o puxar novamente para um beijo, dessa vez um pouco mais calmo.

Alguns minutos se passaram e então um pigarro foi ouvido em algum lugar próximo. Snape se afastou alguns centímetros de Hermione e olhou ao redor. Não havia reparado que não estavam sozinhos. Estavam ali perto apenas esperando, Gina Weasley e sua mãe Molly, Malfoy pai e filho e Minerva McGonagall.

- Nós poderíamos lhe dar mais espaço meu amigo, mas o Ministério está chegando, acredito que seria constrangedor ver essa cena. – Disse Lucius se aproximando e dando a mão para ajudar Hermione a se levantar. – Senhorita Granger.

- É, mas tava da hora, apostamos até onde vocês iriam, mas papai estragou nosso barato. – Disse Draco dando uma moeda para Gina Weasley e se aproximando para junto ao pai, ajudar Snape a se levantar. Snape lançou um olhar assassino para Draco que apenas se afastou um pouco e deixou que o pai ajudasse a escorar o homem.

- Precisamos cuidar de seus ferimentos, Severus. – Disse McGonagall se aproximando, seu olhar era baixo, Snape via a culpa e arrependimento em seus passos. – Severus, eu queria te pedir desculpas.

- Não precisa Minerva. – Respondeu Snape respirando fundo sentindo que o corpo começava a doer agora que a adrenalina de ver Hermione estava passando. – Não esperava outro comportamento de você. Só quero que me expliquem. – Olhou para Hermione a sua frente. – Como? Eu vi o feitiço sair da varinha do Lord. Eu vi atingir você.

Hermione apenas o olhou e ergueu as sobrancelhas.

- Eu não sei Severus, eu estava pronta para morrer, eu não fiz nada. Apenas fechei os olhos, senti uma pressão enorme no peito e quando abri os olhos de novo o encontrei morto.

- Se Dumbledore estivesse aqui, com certeza diria que é obra do amor. – Disse Minerva. – E possivelmente é, algo assim é inexplicável. Voldemort caiu novamente no mesmo erro, mas desta vez para sempre.

A menina aprontou para o corpo inerte de Voldemort há poucos metros da cela que estava. Precisando ver com seus próprios olhos o mestre de poções deu passos lentos, escorado por Malfoy sênior e Hermione que o levaram até diante do corpo do Lord. O bruxo parecia carbonizado, mas ainda era possível ver seu rosto.

- O Ministério chegará daqui a pouco para confirmar que é ele. – Disse Molly. – Arthur está vindo com o ministro em pessoa.

- É ele. É ele.

E então a exaustão junto com o alívio de não ter mais as garras de seu mestre em seus ombros o consumiram. Tudo escureceu e Severus Snape caiu.

- Oi. – Ouviu ao longe quando seus olhos começaram a abrir.

A claridade o incomodava, piscou algumas vezes até que abriu seus olhos por completo e viu a imagem tão bela de Hermione a sua frente lhe sorrindo.

- Oi. – Respondeu sentindo a mão da menina acariciar seu rosto. – Estou em St'Mungus, não estou?

- Sim, como sabe?

- O mais lógico era me trazer para cá. – Disse tentando se sentar e agradecendo mentalmente as poções e magias curativas da medibruxaria que o deixaram bem o suficiente para isso. – Imagino que meu corpo estivesse exausto devido a tortura.

- Sim, você desmaiou, estava muito machucado, precisava de cuidados imediatos então o senhor Malfoy e a senhora Weasley o trouxeram aqui para ser examinado.

- Acho que preciso agradecer Lucius, não imaginei que ele se envolveria mais do que o que pedi a ele.

- Acho que o senhor Malfoy quis mostrar que ele mudou. Ele lutou com os comensais antes de nos alcançar nas masmorras.

- Que bom, isso garantirá que ele retome a mansão e suas fortunas, ele poderá ser o mesmo arrogante de antes.

- Sorte que ele conhecia muitas entradas secretas daquela mansão, George disse que foi isso que os ajudou, o efeito surpresa. Pena que não chegamos a tempo, queria ter impedido aquele monstro de te ferir. - Disse Hermione fazendo uma careta e segurando sua mão. – Só de pensar o que você passou.

Snape nada disse, tortura era algo que estava acostumado, já passara por tantas durante os anos de espião, mais uma cicatriz ou uma dor era só algo que vinha junto com o trabalho.

- Não foi nada.

- Severus, aquele homem torturou você, te causou dor, tirou seu sangue, você tem mais uma cicatriz.

- Nada diferente das outras. O importante é que deu certo.

- Eu espero conseguir um dia.

- Conseguir o que?

- Te fazer entender que você importa, que sua dor importa.

Snape sentiu um rumo de agradecimento dentro de si pelas palavras dela, mas agora que estava bem, que seu corpo e sua mente estavam enfim normais, era difícil dizer o que sentia. Era complicado fazê-la entender que para si era difícil compreender que fosse importante além do que precisava fazer.

Em silêncio se levantou, foi ao banheiro e voltou já trocado com calça preta, camisa branca e um sobretudo por cima, suas vestes de sempre. Era como uma segunda pele e sentia-se até mesmo estranho quando não as vestia.

- O medibruxo disse que você tem que ficar mais dois dias de observação.

- Não será necessário. – Disse arrumando os cabelos negros com a mão e abotoando o sobretudo até o pescoço. Hermione olhava novamente para seu professor de poções. O homem estava de volta, mesmo não recuperado totalmente, Severus Snape estava ali. – Vamos para casa.

E então ele estendeu a mão para ela que a pegou sentindo-o a puxar para perto. Os corpos se colaram e ela queria não ter ficado três dias com a mesma roupa enquanto o velava. Estava horrível, com olheiras e cabelos impossíveis, no entanto ele a olhava como se nunca mais fosse vê-la. Era um olhar tão quente que sentiu-se derreter em suas mãos. Agradeceu a Merlin que não tivesse nenhuma outra pessoa naquele quarto, assim ninguém mais poderia ver seus olhos revirarem quando Snape aproximou-se de seu ouvido, beijou-lhe o lóbulo da orelha e sussurrou com a voz grossa e aveludada.

- Quero você pra mim, Hermione.

Os olhos negros estavam queimando e sua urgência podia ser sentida, Snape precisava dela e ela precisava dele.

- Eu sou sua.

- Vamos para casa.

A volta para casa era algo que Hermione não sabia que estava aguardando. A última vez que pisara naquele recinto fora quando Snape a buscou para irem ao Beco Diagonal e então fora resgatada de onde não queria sair, do lado dele.

Ao abrir a porta e ver novamente a sala de estar com a lareira, o sofá confortável e poltrona Hermione respirou fundo.

- Está tudo bem? – Perguntou Snape após trancar a porta com um feitiço feito com a varinha que recuperara nos aposentos usado por Voldemort.

- Está sim. É só que esse lugar foi muitas coisas para mim nesse tempo todo. – Comentou a menina passando a mão pelo encosto do sofá enquanto Snape iluminava o local. – Agora eu sei que aqui é nossa casa.

- Tem certeza? - Questionou Snape se aproximando. – Certeza de que quer ficar aqui e comigo?

- Tenho a mais absoluta certeza Severus Snape, de que quero estar com você para sempre e que aqui é onde devemos estar, passamos muitas coisas aqui é verdade e sei que muitas lembranças ruins minhas foram criadas nesse local, mas também foram criados os sentimentos que sinto por você. Minha história está aqui, nossa história está aqui.

Snape assentiu aproximando-se e postando a mão na cintura da menina, a puxando para perto de si.

- Vamos iniciar um novo capítulo hoje. Um do nosso jeito.

- Que é qual?

- Vamos descobrir juntos.

- Sim. Juntos.

Um sorriso brotou no rosto de ambos antes de se beijarem com calma sabendo que nada mais estaria entre eles. Enfim, a última esperança do mundo bruxo trouxera a paz que precisavam, a paz que agora reinava naquele mundo, a paz que Snape sentia em sua alma e que Hermione carregava em seu coração. Não haveria mais guerras, nem dor, luto ou servidão.

Estavam enfim livres.