Não te entregues a dor...


Capítulo 51 – Como um só

Naquela noite estavam na cama, House começou a se aninhar com ela e Cuddy não estava no clima.

"Preciso te dizer uma coisa". Ela começou séria.

"Você quer o divórcio?". House falou com uma voz dramática.

"Hoje eu notei uma dor na região do baixo ventre e sangue no canal vaginal, mas eu não estou no meu período menstrual. Fui para uma consulta com Phillips e ele viu uma ferida no colo do meu útero, fez uma biopsia".

House olhou para ela sério e sem palavras.

"Você não vai dizer nada?". Cuddy perguntou trazendo seu marido de volta à realidade.

"Não há de ser nada". Era tudo o que ele podia dizer nesse momento, até para convencer a si mesmo.

"Você não sabe disso". Cuddy respondeu desanimada.

"Você não confia em mim?".

"Você é Deus por acaso?". Ela falou com um sorriso sarcástico.

"Sou melhor que Deus, pois sou real". Ele disse divertido desanuviando um pouco o clima.

Cuddy não queria desmoronar na frente do marido e nem dos filhos. Ela sorriu e repetiu: "não há de ser nada".

Naquela noite eles dormiram abraçados.


No dia seguinte as crianças a mantiveram ocupadas, durante o dia era tanta atividade que ela mal tinha tempo de pensar, isso era ótimo. Mas quando a noite chegava e o silencio na casa pesava, ela sentia um aperto enorme no peito de medo, muito medo.

Em muitas noites ela ia chorar no banheiro quando House dormia, mas ele sabia.

"Você quer que eu olhe o seu colo do útero?". House notou sua esposa dispersa e ofereceu seus serviços profissionais.

"Não!". Ela rejeitou rapidamente.

"Eu sou um bom médico, você sabe disso".

"Você é meu marido, eu não quero que meu marido olhe o colo do meu útero". Ela disse.

"Você quer que eu faça coisas mais desagradáveis com o colo do seu útero?". Ele disse se aproximando dela.

"House não. Não estou com cabeça". Ela recusou as investidas do marido.

"Você quer que Wilson olhe... ele é um oncologista".

"Quero que você pare de falar nisso e assista a um filme comigo". Ela disse.

House a abraçou pelas costas e assistiram a um filme juntos, agarradinhos. Na verdade, nem ele e nem ela prestavam muita atenção ao filme. House plantava beijos na cabeça, orelha e pescoço dela de tempos em tempos e ela se aninhava nele.

House estava apavorado sem ter nenhum detalhe, ele não podia pensar em perdê-la. Mas a vida que ele tinha era mais do que ele merecia, será que o universo acertaria suas contas e traria a miséria novamente para ele. Afinal, era o que ele sempre mereceu.

"Não quero perder vocês". Cuddy sussurrou, mas ele a ouviu.

"Ninguém vai perder ninguém". House respondeu beijando a cabeça de sua esposa.


No dia seguinte House ligou para o amigo e contou sobre Cuddy.

"Preciso que você descubra o que puder sobre o exame". House pediu.

"Não!". Wilson se recusou.

"Wilson?".

"Não farei isso pelas costas dela".

"Mas é para mim, o marido dela. Para que eu possa ajudá-la".

"Você pode. Espere com ela, fique ao lado dela. É isso o que ela espera de você agora".


Mais tarde Cuddy estava olhando a estante de fotos que ficava sobre a lareira de sua casa. Haviam muitas fotos: uma em que ela era bebê com sua família, outra de House bebê com Blythe, ainda uma outra com ela grávida dos gêmeos e House durante a cerimônia de casamento, a primeira foto dela e de House com os gêmeos ainda na sala de parto, ela e Rachel bebê, a primeira foto dos pais com Gael, outra de House e Rachel na praia no dia em que ela divulgou a notícia da gravidez para ele, uma outra com todos os filhos juntos e felizes tirada em Punta Cana, Wilson e Mandy junto com sua família, e a que ela mais amava e foi tirada recentemente: Todos eles juntos. Essa foto era tão bonita porque capturou a essência de cada um. House com um sorriso debochado olhando para ela, Cuddy olhando para ele e rindo enquanto o abraçava, Tommy com os olhos arregalados e sorriso bobo prestes a correr dali, Bella toda meiga com seu ursinho de pelúcia em mãos, Gael e sua covinha fofa, Rachel posando para a foto com a cabeça inclinada.

Uma lágrima escorria por seus olhos e Gael se aproximou. O menino era muito sensível.

"Mamãe triste?".

Ela riu entre lágrimas. "Mamãe está preocupada, meu pequeno". Ela falou se ajoelhado para ficar na altura do filho.

Ele fez carinho no cabelo da mãe e a beijou na bochecha.

"Tocar pra você". O menino disse pegando seu pequeno piano e tocando para sua mãe.

"Eu te amo filho".

Naquele mesmo momento House estava na cozinha preparando a janta.

"Papai". Bella o chamou.

"O que foi filha?".

"Minhas bonecas vão se casar".

Nesse momento Cuddy entrou.

"Veja Cuddy, as bonecas de Bella vão se casar". House disse tentando alegrar a esposa quando percebeu que ela havia chorado.

"É filha?". Cuddy perguntou.

"Sim, elas vão se casar como você e papai".

House sorriu.

"Eles são iguais a vocês". A menina explicava.

"Como?". Cuddy perguntou.

"Bonitos e felizes". A menina disse.

Cuddy começou a chorar novamente e beijou a filha. "Eu te amo, meu amorzinho".

Depois levantou-se e abraçou House.

"Você é o amor da minha vida, nunca se esqueça disso. Nunca!". Ela sussurrou no ouvido dele.

"Você não me deixará esquecer nenhum só dia". Ele respondeu.


Os dias passavam e a angústia de Cuddy aumentava, ela tentava se distrair, mas estava ficando mais difícil a cada dia.

Tommy era uma boa fonte de distração. O menino arrancou o fio do telefone para usar na sua última invenção que incluía peças de Lego, o fio do telefone, uma almofado e um bicho de pelúcia de Bella. Depois ele pegou um batom da mãe e desenhou por toda a parede de seu quarto. Por último, ele pegou um pudim de leite da geladeira e comeu mais do que devia vomitando por toda a sala.

Mãe e filho foram ao supermercado mais cedo e um homem veio conversar com Cuddy.

"Lisa?". O homem a chamou.

"Pete?". Ela disse surpresa.

"Oh meu Deus, é você. Continua linda". Ele falou cumprimentando e a olhando de cima a baixo.

"Você também está... bem". Ela mentiu, pois ele não estava mais como ela se lembrava. Tinha engordado e envelhecido muito mal.

"Seu filho?". Ele apontou para Tommy.

"Sim, esse é Tommy". Cuddy o apresentou.

"Ele não se parece muito com você". O homem desagradável disse.

"Ele é a cara do pai". Cuddy apontou.

"Que pena, seria ótimo uma criança como a mãe". O homem estava gentil demais para o gosto dela.

"Minha filha e meu outro filho são mais parecidos comigo". Ela respondeu gentil.

"Uau! Três filhos?".

"Quatro".

"Nossa! Surpreendente".

"Por que?". Ela perguntou já começando a se irritar.

"Porque eu não pensei que um homem poderia domar você, ou... talvez alguns homens diferentes...".

"Pete, eu não fui domada, eu estou casada e isso quer dizer outra coisa". Ela disse. "Também não ando por ai em um desfile de homens. Agora preciso ir, com licença".

"Espere!" Ele pegou no braço dela. "Me dê o seu telefone". O homem insistiu.

Nesse momento Tommy deu um grito de guerra, imitando seu pai, e uma joelhada nos testículos de Pete.

"Tommy!". Cuddy gritou.

"Fique longe dela". Ele falou ainda imitando seu pai.

"Thomas". Cuddy falou envergonhada.

Pete estava sem ar e Cuddy não sabia o que fazer. Então ela decidiu que o melhor era puxar Tommy e ir embora de lá. Foi o que ela fez.

"O que é isso Tommy? Por que você fez isso?". Ela perguntou para ele quando entraram no carro.

"Eu tenho que te proteger". O menino respondeu.

"Quem te disse isso?".

"Papai".

"Eu o mato!". Cuddy pensou.

Quando chegaram em casa Cuddy foi direto procurar seu marido, antes mesmo de levar as compras para dentro. Ela contou tudo o que aconteceu para ele.

"Quem é Pete?". House perguntou curioso.

"É isso tudo o que você tem a me dizer? Nosso filho agride um homem e você tem só isso para me dizer?". Cuddy estava descrente.

"Eu falei para Tommy cuidar de você sim, somos os homens da casa. Gael não tem sangue nos olhos como eu e Tommy, ele é mais... paz e amor. Preciso de um aliado para cuidar de minhas mulheres. Agora, quem é Pete?".

Cuddy não respondeu e subir bufando. No fundo ela gostou do cuidado de House, mas nunca poderia admitir.


Naquela tarde o menino estava manhoso, não queria sair de perto da mãe.

"Tommy, o que você tem meu filho? Está doente? Sente alguma dor?". Cuddy perguntou.

Tommy balançou a cabeça negativamente e ela o beijou.

"Mamãe te ama, sabia?".

Ele fez que sim com a cabeça.

"Quer que mamãe faça algo para você comer?". Ela perguntou atenciosa e o menino aceitou mas antes abraçou forte sua mãe.

Naquele dia mais cedo Rachel entregou uma flor para a mãe.

"Oh querida, obrigada!". Cuddy disse beijando a filha. "Onde você pegou isso?".

"Eu comprei com o meu dinheiro. Papai me levou até a loja na volta da escola".

Rachel ganhava dinheiro mensalmente para comprar pequenas coisas e aprender a gerenciar as finanças.

Cuddy abraçou e beijou a filha e também declarou seu amor por ela.

Mais tarde a família toda estava na sala assistindo a televisão. Tommy manhoso queria ficar agarrado com a mãe. Bella estava no colo de seu pai. Gael distraído vendo o desenho e Rachel estava brincando em seu Ipad.

"Mamãe quero isso". Tommy apontou para a pipoca e sua mãe estendeu para ele.

"O que essas crianças têm?". Cuddy perguntou baixo para seu marido.

"Por que?".

"Parece que todos estão percebendo algo". Cuddy falou.

"Com certeza eles estão". House respondeu com bastante confiança.

"Como?". Cuddy perguntou confusa.

"Somos uma família". House respondeu.


"Como estão as coisas aí?". Wilson perguntou por telefone.

"Tenso". House respondeu.

"Como ela está?".

"Tensa".

"E as crianças? Tensas?".

"Sensíveis".

"House, aguente firme. Por eles".

"Eu estou tentando".


Era véspera da data em que os resultados dos exames estariam disponíveis, e Cuddy estava se preparando para uma conferência que faria via internet. Ela não achava sua aliança de casamento e anel de noivado. Ela estava desesperada à procura.

"House!". Ela o chamou e ele a atendeu rapidamente.

"Você viu meus anéis? Eu os tirei para limpar e não os acho mais. Tenho certeza de que estavam aqui". Ela falou apontando para o seu criado mudo.

"Não. Eu nem tiro a minha para limpar, nem sabia que precisava". Ele falou com bom humor.

"Oh meu Deus, aonde foram parar?".

Cuddy procurou por toda a parte e nada... Ela começou a ficar desesperada, começou a chorar muito.

"Calma Cuddy! Esse não é o fim do mundo". House disse preocupado.

"É sim. É o fim do mundo. Eu preciso achar". Sua esposa estava em prantos e House percebeu que havia muito mais por trás daquilo.

"Eu comprarei outros para você se não acharmos esses...". Ele foi interrompido.

"Você não entende, não é? Esses anéis representam você, representam minha família. E se eu os perder... Eu não quero perder vocês. Eu não posso... Não...". Cuddy caiu no chão encostada na parede de seu quarto aos prantos.

House sentou-se ao lado dela e a abraçou forte. O pescoço dele ficou molhado pelas lágrimas da esposa e ele chorou também, ele chorou porque a dor dela era também a dele, chorou porque eram um só.