Tudo muda... ou mudará?

O mundo está em constante transformação, das pequenas as grandes coisas...

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Capítulo 56 – A grande muralha

Ele ligou o rádio e parou no farol que cruzava a avenida. Quando o verde acendeu, ele acelerou, mas a van que cruzava não parou...

O impacto foi violento e House bateu a cabeça desmaiando em seguida.


OOOOOO

Ele acordou, o tempo havia passado, ele não sabia ao certo quanto tempo... Ele estava confuso, sentiu sua barba crescida, no mínimo alguns dias. Mas quando Cuddy entrou ele notou que muito mais tempo havia transcorrido desde o acidente.

"Graças a Deus você acordou". Ela falou se aproximando e passando a mão pelo rosto do marido.

"Cuddy, o que é isso?". Ele falou apontando para a barriga dela.

"Estou grávida. Seis meses". Ela falou.

"O que?". Ele assustou.

"É uma menina". Cuddy falou feliz.

Os batimentos cardíacos de House aumentaram, seu médico entrou e pediu para Cuddy se retirar.

"Não, ela fica!". Ele tentava dizer em vão, as enfermeiras a arrastaram para fora do quarto e aplicaram uma medicação em House.

Ele dormiu.

Horas depois ele acordou, deu de cara com seus filhos. Eles eram maiores, muito maiores do que ele lembrava.

"Papai!". Rachel correu até ele. "Finalmente você acordou".

"Rachel... Tommy... Bella... Aonde está Gael?".

"Ele não quis vir, ele está com Richard". Rachel disse.

"Quem é Richard?". House perguntou confuso.

"O novo amigo de mamãe!". Tommy respondeu.

"Novo amigo?". Ele estava confuso, sua vida estava toda virada de cabeça para baixo.

"Ele vai lá em casa todos os dias, as vezes dorme lá... Ele me leva na natação, ele me deu até um kit de natação irado". Tommy falou.

"Gael não quer desgrudar dele". Rachel disse. "Na verdade, ele é muito legal. Rick: a grande muralha".

"Ele me ensina tanta coisa, eu amo papai Rick". Bella disse para o desespero de House.

"Crianças chamem sua mãe para mim". O coração de House batia descompassado.

Eles saíram, Cuddy não entrava. Quem entrou foi Wilson.

"Ei... Finalmente você resolveu acordar!". Wilson falou.

"Você está... gordo". House disse notando o aumento na silhueta de seu amigo, um aumento muito evidente.

"Eu... eu me casei... você sabe como são as coisas quando se está casado". Ele disse.

"Você se casou com quem?". House perguntou confuso.

"Com Vicky. Quem mais?". Wilson respondeu. "Ah, você não estava presente quando começamos a nos envolver em um relacionamento sério".

"Wilson...". Ele ia dizendo, mas foi cortado.

"Não se preocupe, Cuddy e o Muralha foram ao meu casamento". Wilson disse e os batimentos de House voltaram a aumentar. "Ele foi meu padrinho, inclusive".

"Muralha?".

"Richard". Wilson esclareceu. "O apelido dele é Muralha".

House precisou ser sedado novamente.

Horas depois...

"Ei". Cuddy falou quando House acordou.

"Cuddy... de quem é esse bebê?".

"Como assim, é sua filha". Ela respondeu com cara de surpresa.

"Eu fiz vasectomia".

"Mas eu falei com um urologista e ele disse que deve ter ocorrido a recanalização de seu canal deferente, então você estava liberando espermatozoides". Cuddy justificou.

"A chance de isso acontecer é de 1%". House pontuou.

"Não somos um casal normal, lembra? O House que eu conheci se gabaria e diria que é uma raça superiora e por isso a natureza fez a reversão naturalmente da cirurgia, para povoar o mundo com seres mais evoluídos geneticamente". Cuddy dizia com um sorriso.

"E se não for isso? Há chances de esse bebê ser de outro homem?". House perguntou sem rodeios.

"Deve ter ocorrido...". Cuddy ia dizendo quando foi cortada.

"Deve ter ocorrido? Qual seria a outra opção? Richard?". House falou irritado.

"House, acalme-se". Cuddy falou se aproximando.

"Quem é Richard? O que ele é seu?".

Novamente House ficou nervoso e precisou ser sedado.

No dia seguinte ele acordou. Queria sair daquele quarto e ir para casa, um médico entrou.

"Sou Dr. Clay. Seu neurologista".

"Ótimo, assine minha alta". House exigiu.

"Você teve traumatismo craniano e ficou inconsciente por cinco meses, a última coisa que farei é assinar uma alta". Ele disse, mas House tentou se levantar e caiu. Quando ele olhou, ele entrou em pânico, faltava uma perna.

"O que vocês fizeram com minha perna?". House praticamente gritou.

"Tivemos que amputá-la, você sofreu esmagamento no acidente, era isso ou você morreria".

"Não! Não!". House chorava com raiva.

"Filho!". Blythe apareceu. "Oh meu filho!". Ela o abraçou.

"Mãe... Minha vida... Minha esposa... Minha perna... Meus filhos... Tudo acabou!".

"Não, nada acabou, as coisas só mudaram um pouco, mas com você de volta tenho certeza de que tudo se ajustará".

"Como?". Ele quase gritou. "Quem é Richard?".

Blythe gelou. "É um homem muito gentil que tem cuidado de sua família".

"Eu não preciso que ninguém cuide de minha família". House gritou dessa vez.

"Lisa estava sozinha...".

"Por cinco meses? Ela não pode ficar sozinha pela porra de cinco meses?".

"Você não sabe como são as necessidades femininas, ela estava sozinha...".

Cuddy entrou.

"House!".

"Me solte, vá atrás de Richard, mas deixe meus filhos. Não é justo". Ele disse.

"O que não é justo é eu ficar sozinha chorando e cuidando de quatro crianças, Richard me ajudou. Ele apareceu e me ajudou com tudo".

"Tenho certeza de que sim, ele deve ter te ajudado a fazer esse bebê, e depois te ajudado a manter minha cama quente".

"House, cale-se, você não sabe o que diz". Cuddy falava chorando. "Sabe o que é viver tudo isso sozinha? E ouvir seus filhos perguntando pelo pai que nunca acorda? Richard serviu de pai para eles...".

"E de marido para você". Ele completou e Cuddy saiu chorosa. "Porque foi culpa minha que um carro atravessou o farol vermelho e bateu no meu quando eu estava levando aquela porra para vender seguindo suas recomendações".

"Filho, não faça isso... Ela é uma mulher com necessidades e desejos". Blythe disse.

"Saiam todos!". Ele gritou indignado.

Era melhor que ele tivesse morrido, era o que House pensava nesse momento. Que decepção! Em um dia ele tinha uma família linda e no outro só destroços. Seus filhos o substituíram por esse tal de Richard. Seu amigo também e até sua esposa que, provavelmente esperava um filho desse sujeito.

House chamou Chase, e descobriu que ele voltou para a Austrália. Então ele chamou Dr. Phillips.

"Eu sei que você é ginecologista e obstetra, mas preciso de um favor. Preciso que faça um ultrassom de meus testículos para verificar se houve recanalização dos canais deferentes". Ele pediu e Dr. Phillips aceitou.

Exame feito.

"Olha Dr. House, não vejo nenhuma recanalização, mas para garantir teríamos que fazer um espermograma". Ele falou.

House não tinha nenhuma vontade de pensar em nada erótico, não... Ele não tinha cabeça para se masturbar, no mais, era evidente pela imagem que não haveria meios de que espermatozoides dele tivessem sido liberados e fecundado um óvulo.

Ele resolveu sair do hospital a qualquer custo. De madrugada ele conseguiu escapar, trocou sua roupa e foi para a casa em uma cadeira de rodas, ele pediu pela compaixão alheia e conseguiu um taxista para o ajudar, a ferida na perna ainda não estava totalmente cicatrizada e doía. Chegando em casa ele não sabia como entrar, estava sem chave, não tinha nada com ele. House ficou esperando uma oportunidade, já estava amanhecendo.

Marina saiu com as crianças para a escola, eles foram felizes e sorridentes, aparentemente nem se lembravam mais dele, cinco meses é tempo demais na vida de uma criança, ele pensou.

House continuou à espreita, e minutos depois quando Marina voltou, ele apareceu na porta de casa.

"Sentiu minha falta?". Ele falou e Marina quase morreu.

Ela não queria deixá-lo entrar, mas House a forçou. "Essa é minha casa".

Ele entrou.

Estava tudo igual, mas tão diferente. As fotos dele haviam sumido de cima da lareira, foram substituídas por...

"O que você faz aqui?". Era Cuddy enrolada no lençol.

"Esse é minha casa". Ele respondeu.

"Esse é Richard? Ou melhor, O Muralha?". House apontou para a foto, um homem corpulento, que devia viver na academia.

"Sou eu sim!". Richard apareceu nu.

House arregalou os olhos. "Como você ousa?". Ele falou para Cuddy.

"Richard suba!". Ela disse.

House estava a ponto de ter um ataque cardíaco.

"House, ouça!". Ela ordenou.

"Não!". Ele gritou.

"Eu preciso me explicar". Cuddy falava.

"Sei que esse filho não é meu". Ele falou apontando para a barriga dela.

"Eu saí com Vicky um dia, só um dia... Bebi demais e acabei fazendo uma besteira". Cuddy confessou.

"Dormiu com Richard? Pensei que se algum disse você fosse me trair seria com alguém mais bem dotado". House falou.

"Não... eu dormi com Wilson". Ela disse.

"O que?".

"Nós duas dormimos com Wilson, foi um Ménage à trois". Ela justificou.

House não tinha mais forças.

"Eu estou gravida de Wilson, mas ele não sabe disso, ele pensa que é de você".

House não tinha palavras.

"Richard apareceu depois, dois meses depois do seu acidente, eu estava muito sozinha e tinha as crianças. Ele é frentista em um posto de gasolina aqui na avenida principal, eu fui abastecer e chorei enquanto isso, ele me consola desde então".

House riu de nervoso.

"Vamos nos casar, preciso que assine o papel do divórcio. As crianças o amam e o chamam de pai. Acho melhor se você... se afastar e nos deixar viver como uma família normal, será menos traumático para todos".

House levantou-se e saiu... Mas antes Madonna tentou atacá-lo, nem o seu cão, que dizem ser amigo fiel, lembrava mais dele.

Tudo o que ele queria era sumir e nunca mais aparecer, a vida para ele havia acabado. Não havia mais nenhum sentido.

Ele estava vagando perdido, seus filhos o substituíram, sua esposa o traiu, seu melhor amigo o enganou, sua mãe era conivente. Nada fazia sentido. Ele foi então atrás de Richard no posto de gasolina.

Lá estava o sujeito, ele ficou observando.

No rádio do posto de gasolina começou a tocar uma música em português.

Agora, que faço eu da vida sem você?
Você não me ensinou a te esquecer
Você só me ensinou a te querer
E te querendo eu vou tentando te encontrar

Vou me perdendo
Buscando em outros braços seus abraços
Perdido no vazio de outros passos
Do abismo em que você se retirou
E me atirou e me deixou aqui sozinho

Agora, que faço eu da vida sem você?
Você não me ensinou a te esquecer
Você só me ensinou a te querer
E te querendo eu vou tentando me encontrar

E nesse desespero em que me vejo
Já cheguei a tal ponto
De me trocar diversas vezes por você
Só pra ver se te encontro

(...)

Richard deu em cima de pelo menos três mulheres enquanto House esteve a espreita. "Que babaca". House pensou. "Ela merece isso".

House notou cartazes pelo posto, fotos de Richard sem camisa exibindo sua musculatura desenvolvida e data e hora de um evento de halterofilismo.

Depois de algum tempo ele notou que as horas não estavam passando, ele já devia estar lá há tempos e ainda era dia. Nada fazia nenhum sentido. A música em português, Richard, a gravidez, o ménage à trois, seus filhos...

Foi quando ele teve uma epifania. Cuddy jamais faria isso com ele, ou ele não conhecia a mulher que amava? "Tenho que resolver isso!".

Ele foi até Richard e pegou a mangueira que liberava a gasolina da bomba.

"Ei, Richard, do pênis pequeno". Ele gritou.

Então ele começou a atear gasolina por todo o local, por sobre os carros, pelo chão.

Richard veio correndo e gritando "Não!".

House pegou um fósforo que surgiu magicamente em seu bolso, acendeu-o e o jogou. A explosão foi tamanha que fez tudo apagar.

OOOOOO

Ele abriu os olhos. Ele estava no hospital, com certeza, já que não havia nenhum sinal do posto de combustível. Ele olhou atentamente com medo de virar a cabeça e do que podia encontrar. Ele respirou fundo, criou coragem e olhou para o lado só com o canto do olho.

Cuddy dormia na poltrona coberta por uma manta, algo do tipo. Ele não podia ver mais do que isso. Ela estava grávida? Não era possível dizer.

Ele tentava entender quanto tempo havia passado, mas o tempo já não fazia sentido, tudo estava embaralhado em sua mente.

Ele ficou calado, com medo de que Cuddy acordasse, de que tudo fosse verdade, de que ele a tivesse perdido, de que seus filhos não o amavam mais. Ele ficou assim por horas, olhando para o teto, cogitando as possibilidades, guardando a esperança de que nada havia mudado. Olhou sua perna, estava lá, intacta. Bom sinal!

De repente uma enfermeira entrou.

"Dr. House, o senhor está acordado. Consegue me ouvir?". A enfermeira falou alto para a irritação dele.

Nesse momento Cuddy acorda. "Oh meu Deus! House!". Ela já foi para cima dele e beijou a testa do marido. "Eu quase morri esses dias. Você está bem?".

Ele estava com medo de falar, mas respirou fundo.

"Por quanto tempo eu dormi?".

"Dois dias, dois longos dias". Ela sorriu, mas ele ainda estava sério.

"Você sente alguma coisa? Alguma dor?". Cuddy perguntou.

"Onde está Richard, ou melhor, O Muralha?". Ele perguntou. "E de quanto tempo você está grávida?"

Continua...


Música do capítulo: Você Não Me Ensinou a Te Esquecer - Caetano Veloso