Capítulo 60 – Leãozinho

"Ele vai ficar bem?". Bella perguntou assustada.

"Infecção intestinal?". Cuddy perguntou para o marido.

"Não!". House respondeu. "Apendicite".


Cuddy arregalou os olhos em choque. "Apendicite?".

"Sim". House respondeu.

"O que é isso?". Bella perguntou.

"Significa que o seu irmão está com uma inflamação no apêndice, é como uma bolsinha localizada no intestino". House explicou. "Uma bolsinha de cocô".

"Legal!". Tommy disse.

"Legal, Tommy? Seu irmão está com uma inflamação e você acha legal?". Cuddy perguntou nervosa.

"Ele é só um garoto, Cuddy". House disse. Ele entendia Tommy, ele pensava igual quando tinha a idade dele e se deparava com casos médicos.

"Senhores, algum problema?". Finalmente uma comissária de bordo chegou.

"Meu filho está com apendicite". Cuddy disse.

"O que? Como você sabe?". A comissão perguntou.

"Somos médicos". House respondeu.

"E agora?". A comissária estava assustada.

"Temos que chegar à Nova Iorque e ir direto para um hospital, se puderem alertar as autoridades para providenciarem uma ambulância assim que pousarmos". House disse e a comissária correu para a cabine.

"Gael vai morrer?". Tommy perguntou.

"Não Tommy, ele vai para o hospital e ficará bem". House falou rápido antes que Cuddy surtasse com a pergunta do filho.

"É grave o que ele tem?". Rachel perguntou preocupada.

"Eu vou ter que tomar injeção?". Gael estava tenso.

"Fique calmo Gael, vamos ficar com você e você ficará bem". Cuddy falou massageando a cabeça de seu filho.

House deu para Gael um medicamento para reduzir a dor, eles precisavam aguentar mais algumas horas até chegarem em Nova Iorque.

Marina tentou ajudar com as crianças como podia, mas o que ela fez mesmo foi rezar. Ela levava seu pequeno rosário para toda a parte, então resolveu se apegar a sua fé.

Cuddy estava pálida e não saia de perto de seu filho.

House foi acalmar seus outros filhos, explicou que Gael precisaria de cuidados médicos e que eles tinham que confiar e manter a calma, pois sua mãe precisaria deles bem. Depois ele foi trocar a roupa que estava vomitada.

Foram horas tensas. Cuddy tentando distrair Gael e House olhava para eles de tempos em tempos trocando olhares com sua esposa, ambos sabiam que ele precisaria de cirurgia, mas não queriam comentar ainda com seus filhos.

Assim que pousaram os comissários de bordos deixaram a família sair antes dos demais, dada à urgência. A ambulância já estava esperando por eles na pista de pouso do aeroporto.

"Cuddy, vai com Gael que eu vou atrás com as crianças". House disse.

"Não, vai comigo, por favor!". Cuddy pediu insegura. Ela precisava do marido com ela.

"E o que faremos com as crianças?". House perguntou.

"Então você vai com Gael e eu vou com as crianças logo atrás". Ela disse.

"Quero mamãe". Gael chorava.

"Ele quer você, Cuddy. Você é a mãe dele, nessas horas as crianças só querem estar perto da mãe. Vai com ele e prometo que chegarei logo atrás". Ele disse, deu um selinho na esposa e foram.

Na ambulância Gael só perguntava se iria tomar injeção e Cuddy acariciava sua testa e dizia que tudo ia ficar bem. No carro House tentava acalmar seus filhos que estavam assustados. Marina estava com eles.

"Gael terá que passar por cirurgia para remover o apêndice. Mas é uma cirurgia simples, logo ele estará brincando com vocês novamente".

"Cirurgia, tipo... abrir a barriga dele?" Tommy perguntou curioso.

"Eles farão uns furinhos para retirar essa bolsinha que está inflamada e fica no intestino". House explicou.

"Ele pode morrer?". Rachel perguntou culpada, pois sentiu vergonha do irmão no avião quando Gael vomitou.

"Não... ele ficará bem e com uma cicatriz bem legal". House disse.

"Wow, que legal! Ele vai poder mostrar para todos, que nem essa que eu tenho aqui". Tommy apontou para seu supercilio onde havia levado pontos anos atrás, era uma cicatriz muito suave, mas o menino se orgulhava dela.

"Tommy, você é muito bobo". Rachel falou.

"Boba é você!". Ele respondeu.

"Ei... ei... ei... parou". House disse.

"Eles são uns trogloditas". Bella disse e surpreendeu House.

"Como você aprendeu essa palavra?". O pai perguntou curioso.

"Em um livro". A menina respondeu.

"O que é troglodita? Ela está nos xingando?". Tommy perguntou para Rachel.

"Não faço ideia". A irmã respondeu.

"Vamos focar em Gael, tudo bem?". House tentou mudar de assunto.

Quando chegaram ao hospital, House entrou com os filhos e foi atrás de Gael.

"O senhor não pode entrar aí". Uma recepcionista o barrou.

"Meu filho, Gael Matthew House, está na emergência com apendicite, preciso vê-lo, sou médico também".

"O senhor não pode entrar, precisa aguardar".

"House!". Cuddy o chamou.

"Cuddy, onde está Gael?".

"Estão fazendo exames".

"Exames? Eles precisam fazer cirurgia!". House estava indignado.

"Eu estava com ele e vim te procurar, vou voltar". Cuddy falou.

"Eu vou com você! Marina fica com as crianças?". House perguntou.

"Claro".

Foram.

"Papai". Gael disse quando o viu.

"Ei, leãozinho! Estamos aqui e tudo vai sair bem". House falou alisando o cabelo de seu filho.

"O que você está fazendo?". House perguntou para o médico.

"Ultrassom, exame de sangue...".

"Você é burro ou o que?". House perguntou para o médico.

"House!". Cuddy chamou a atenção do marido.

"O exame clínico é típico de apendicite, eu fiz isso em um avião sem nenhum recurso. Ele precisa de cirurgia, ou você está esperando o apêndice romper?". Ele falou com voz irritada.

"É procedimento...". O médico ia dizendo quando foi interrompido.

"Foda-se o procedimento, eu estou dizendo que é apendicite porque é".

O médico foi chamar o supervisor, mas House o segurou.

"Você quer ver? É isso o que você quer?". House falou e Cuddy estava preocupada, poucas vezes ela o viu assim.

"House, por favor, isso só vai atrasar mais". Cuddy tentava convencer seu marido.

"Olha aqui então". Ele pegou o aparelho de ultrassom e passou pelo abdômen de seu filho atestando que havia uma grande inflamação no apêndice. "Isso está bom para você ou você quer que o apêndice rompa? Talvez só assim você irá se convencer...".

"Tudo bem, vamos preparar a cirurgia". O médico disse saindo.

"O que é cirurgia?". Gael perguntou assustado.

"Significa que eles vão precisar tirar um pedacinho do seu intestino que está dodói". Cuddy explicou.

"Como eles vão tirar?". O menino perguntou.

"Eles farão uns furinhos na sua barriga". A mãe explicou.

"Isso dói?". O menino estava preocupado.

"Não querido, você vai tomar um remedinho e vai dormir o tempo todo, quando acordar já vai ter terminado". Ela disse acariciando os cabelos dele.

"Você vai ficar com uma cicatriz bem legal, vai poder se exibir para os outros meninos na escola". House falou.

"Vocês vão ficar comigo?". Ele perguntou e Cuddy olhou para House.

"Nós vamos sim, até você dormir e depois quando você acordar estaremos aqui". House disse.

E assim foi. Prepararam Gael para a cirurgia, seus pais ficaram com ele até a anestesia fazer efeito. House e Cuddy descobriram quem faria a cirurgia e pesquisaram tudo a respeito do médico, ficaram mais aliviados quando concluíram que ele era um bom profissional.

"Dorme bem, querido. Mamãe te ama e estará aqui quando você acordar". Cuddy disse. Assim que seu filho dormiu, ela caiu no choro, House previa isso. Ele a levou para a sala de espera.

"Ninguém devia passar por isso, ver seu bebê passar por uma cirurgia". Ela dizia abraçada ao marido.

"Eu sei".

"Ele é tão pequeno".

"Ele vai ficar bem, logo terminará isso". House a consolou. Ele estava também muito abalado, mas tentava ser forte por ela, por eles.

Depois de alguns minutos, Cuddy se recompôs e foram encontrar as crianças e Marina.

"Marina, você pode ir pra casa se precisar". Cuddy falou.

"Imagina senhora, eu não arredo o pé daqui até terminar a cirurgia". Marina respondeu.

Cuddy não conseguia parar sentada, mas assustaria seus filhos se ela andasse para cima e para baixo, então ela sentou-se e apertou a mão do marido. Era reconfortante saber que House era o pai de Gael, que ele estava ao lado dela, tão preocupado quanto ela, mesmo que tentando manter-se forte. Cuddy não imaginava como seria passar por isso sozinha, sem ele.

"Eu vou pegar um café, alguém quer alguma coisa?". Marina perguntou, mas ninguém queria nada.

"A cirurgia vai demorar?". Bella perguntou.

"Não filha, mais alguns minutos só". House respondeu.

Tommy estava quieto, estranhamento quieto.

"Tudo bem, filho?". Cuddy perguntou passando a mão pelos cabelos do menino.

"Estou preocupado com meu irmão". Ele respondeu e Cuddy não conseguiu segurar as lágrimas.

"Mamãe... não queria fazer você chorar". Tommy falou.

"Você não fez nada de errado, Tommy. Sua mãe está sensível, vamos abraçá-la todo mundo?". House propôs.

"Vamos!". Todos concordaram e fizeram um abraço coletivo.

Ficaram algum tempo abraçados e Cuddy sentiu-se tão fortalecida.

"Logo Gael estará aqui também". House falou e ela sorriu entre lágrimas.

"Eu amo todos vocês". Cuddy disse.

Dez minutos depois o cirurgião veio ao encontro deles.

"Tudo certo, terminamos". O médico disse, mas House e Cuddy não estavam aliviado, eles queriam ver seu filho.

"Podemos vê-lo?". Cuddy perguntou.

"Sim, mas só os pais por enquanto".

Marina chegou e ficou com as crianças. House e Cuddy entraram e ficaram ao lado de Gael até ele acordar.

"Ei, bebê". Cuddy disse.

"Já acabou?". Gael perguntou.

"Já sim, você está livre daquele saco de cocô". Seu pai respondeu e Gael riu.

"Era um saco de cocô?". O menino perguntou ainda sonolento pela anestesia.

"Era um saco com muito cocô, e eles tiraram tudo". House falou.

"Credo, devia estar fedido". Gael falou e os pais riram aliviados.

Naquela noite, House foi até um hotel próximo com os filhos, e chamou um taxi para levar Marina para casa.

"Gael não vai voltar para casa?". Bella perguntou.

"Não hoje, talvez amanhã ou depois de amanhã". Ele respondeu. "Mas mamãe vai passar a noite com ele".

Dormiram todos juntos com House em uma cama de casal, eles só queriam estar perto uns dos outros.


No dia seguinte a família toda pode ver Gael. House chegou e Cuddy foi para o hotel tomar um banho.

"Ei, leãozinho. Como passou a noite?". House perguntou.

"Tudo bem, meio chato ficar aqui". Gael respondeu.

"Me deixa ver sua cicatriz?". Tommy pediu.

"Ainda não dá para ver, tem que cicatrizar primeiro. Agora está coberto com remédio e curativo". House disse.

"Doeu?". Bella perguntou.

"Eu dormi e quando acordei tinha acabado, acho que foi um minuto". O menino disse fazendo o pai rir.

"Não, demorou bastante, não acabava mais". Rachel disse.

"Eu trouxe para você". Bella deu um ursinho de pelúcia para ele. "É para te fazer companhia. Depois você me devolve, tudo bem?".

House estava aliviado, ele amava aquela família.


Gael ficou mais um dia e depois recebeu alta, a família voltou para Nova Jersey, todos ficaram felizes por chegar em casa.

"Eu vou tocar uma música para você leãozinho". House falou pegando o violão.

"Oba!". Gael falou feliz.

House começou a tocar uma música em português, Gael entendia bem português e espanhol, devido as conversas com seu pai e com Marina nesses idiomas. Rachel gostava muito de falar Frances, mas entendia também outros idiomas. Tommy entendia praticamente todos os idiomas que seu pai falava: Frances, Português, Espanhol, Japonês, Mandarim, etc..

Gosto muito de te ver, leãozinho
Caminhando sob o sol
Gosto muito de você, leãozinho
Para desentristecer, leãozinho
O meu coração tão só
Basta eu encontrar você no caminho.

Um filhote de leão, raio da manhã
Arrastando o meu olhar como um ímã
O meu coração é o sol, pai de toda cor
Quando ele lhe doura a pele ao léu.

Gosto de te ver ao sol, leãozinho
De ter ver entrar no mar
Tua pele, tua luz, tua juba
Gosto de ficar ao sol, leãozinho
De molhar minha juba
De estar perto de você e entrar numa.

Um filhote de leão, raio da manhã
Arrastando o meu olhar como um ímã
O meu coração é o sol, pai de toda cor
Quando ele lhe doura a pele ao léu.

Gosto de te ver ao sol, leãozinho
De ter ver entrar no mar
Tua pele, tua luz, tua juba
Gosto de ficar ao sol, leãozinho
De molhar minha juba
De estar perto de você e entrar numa.

O menino começou a cantar juntos à medida que aprendia a letra.

Cuddy, que estava olhando da porta da cozinha, tinha lágrimas rolando em seu rosto e um sorriso em seus lábios. Ela não precisava entender a letra para sentir a emoção que emanava daquele ambiente.


Nos próximos dias Gael foi muito mimado, por seus pais, por seus avós e até por seus irmãos. Wilson também foi vê-lo e levou presentes.

"Eu quero fazer cirurgia e tirar meu saco de cocô também se for para ganhar tantos presentes". Tommy disse.

"Nem fale isso menino". Cuddy o repreendeu.

House riu.


Meses passaram...

"House vai buscar Rachel, por favor?". Cuddy pediu, pois ela estava enrolada com a arrumação da casa.

"Casa de Deb?".

"Isso!". Ela respondeu e ele foi.

"Papai, vou com você". Tommy falou se juntando ao pai.

House chegou à casa de Deb e quando ia sair do carro para chamar pela filha ele viu algo aterrorizante. Uma das cenas mais terríveis que ele já havia presenciado: Sua filha de doze anos estava beijando um menino. Na boca!

Continua...


Música do capítulo: O leãozinho – Caetano Veloso