Disclaimer: Personagens não me pertencem, apenas a imaginação fértil. Slash/Drarry: Leia apenas se gostar do gênero. Estão avisados e podem prosseguir por sua conta e risco. Já sabem: Juro solenemente não fazer nada de bom!

1.A assinatura

Poderia ser só uma manhã quente de junho, ou um dia de trabalho no quartel dos Aurores. Mas era também o dia em que eles finalmente assinariam os papeis. Enquanto tomava seu café preto no quarto de hotel da Londres trouxa onde estivera vivendo desde o início da separação, Harry chegava a conclusão de que a vida que todos esperavam do herói do mundo mágico definitivamente tinha ido por água abaixo.

Não que estivesse tudo bem antes. Ao menos, pensou ele, não de verdade. Mas a imprensa e a comunidade bruxa pareciam compartilhar uma admiração pelo agora 'homem-que-sobreviveu-novamente' que extrapolava a derrota de um terrível bruxo das trevas. O homem era considerado o verdadeiro exemplo de tudo que um bruxo deveria ser, ter e almejar: seu físico, sua casa, seu casamento, suas habilidades, sua coragem e, claro, sua índole.

Terminando o café, Harry ponderou o que teria ruído primeiro: seu casamento, de dentro para fora, ou sua índole, de fora para dentro. Agora os problemas já estavam emaranhados demais e sua vida parecia novamente o seu quarto ano em Hogwarts, com artigos afiados sendo publicados no Profeta Diário em quase todas as edições.

Harry terminou de se vestir e aparatou para o Ministério, indo na direção oposta ao quartel, onde ficava a sala designada para a audiência da assinatura mágica dos papéis de divórcio. Durante todo o caminho, andava completamente distraído, mal notando os bruxos e bruxas que o cumprimentavam no caminho. Na realidade sua maior preocupação no momento não era a separação, mas a confusão que estava metido na imprensa e como isso afetava uma decisão muito importante que seria tomada em breve: quem assumiria o cargo de Auror Chefe.

A vantagem era que ele ainda era o herói do mundo bruxo. O problema era a competição que teria que enfrentar para conseguir a vaga: Ginny Potter, que em alguns minutos seria Ginny Weasley novamente. E essa era boa parte da campanha do Profeta Diário nas últimas semanas, que havia defendido a moça "que certamente já estava bastante abalada e ainda seria forçada a se subordinar ao ex-marido caso ele fosse nomeado para a posição", nas palavras do jornal.

O mais sensato, obviamente, seria nomear uma terceira pessoa e colocá-los em times separados. Mas o Ministério sempre teve sua queda por atenção da mídia. E Harry sempre fora uma ameaça. Ele mal queria admitir, mas sabia para onde aquilo estava indo.

"Harry, vai ficar aí parado? Já está quase começando a audiência" Hermione o esperava dentro da sala, ao lado de Ron, ambos com um sorriso amigável. O casal havia feito um extraordinário esforço para não tomar partido na separação dos dois, assim como o restante da família Weasley e outros amigos de Hogwarts. A verdade era que compartilhavam tanto que, pela família, não podiam simplesmente começar a terceira guerra bruxa por causa do fim de um casamento. Ainda assim, achava difícil que ele e Ginny conseguissem chegar a um relacionamento próximo de algo considerado amistoso, já que não eram assim nem no próprio casamento há alguns anos.

Harry sorriu fraco para os amigos e entrou na sala, cumprimentando Arthur e Ginny com um aceno, além dos dois representantes do Ministério que fariam a formalização do divórcio. A ruiva sequer fez contato visual ao acenar de volta...

Não ouviu muito das palavras lidas de um longo pergaminho por um dos representantes. Já sabia como seria. Com o final da leitura assinaram o contrato mágico e um feitiço acompanhado de um rebuscado movimento por parte da bruxa mais velha fez aparecer a fina linha dourada que havia se formado em sua mão no dia de seu casamento. Pouco depois a linha se tornou azul, rompeu-se e apagou por completo. Era isso. Finalmente uma última página para aqueles anos de discussões, frustração e medo que Harry havia sentido. Conforme via Ginny saindo da sala, percebeu que não tinha ideia de qual era o próximo passo. Seu olhar perdido parecia ter denunciado sua preocupação, porque logo os amigos se aproximaram.

"Tudo bem, cara? Você parece que foi estuporado antes de chegar aqui. Não falou uma palavra" Hermione olhou Ron com sua conhecida expressão de descrença pela falta de tato do marido.

"Ron, ele está preocupado com o quartel, a situação toda já era delicada, e com as complicações que o Profeta vem causando, provavelmente Ginny é quem vai assumir o cargo" Explicou a morena.

"É... " Foi tudo que Harry conseguiu dizer antes de uma voz arrastada ser ouvida na porta.

"Potter, precisamos conversar. "

Não precisavam virar para reconhecer aquela voz. Ron resmungou irritado, mas, curiosamente, Harry sorriu divertido.

"Malfoy, você sabe que já conversei com McGonagall. E já sabe minha resposta. Não é possível que ela ache que você pode me convencer só porque fomos flagrados bêbados juntos e agora o Profeta Diário acha que somos grandes amigos" Malfoy sorriu de lado ao ouvir a resposta debochada.

"Parece que nossa conversa não serviu de nada, Potter. Ou, talvez, prefira fingir que não lembra de nada do que falamos" O loiro falou num tom malicioso.

Hermione observava a interação com a atenção de uma águia, enquanto segurava o pulso do marido para contê-lo dentro do possível. Aquele era um velho hábito do marido ainda mais difícil de mudar do que sua falta de tato: odiar Draco Malfoy. Era um hobby, quase que um elemento obrigatório para ser Ronald Weasley.

"Eu repito para refrescar sua memória, Potter: sei conseguir o que quero. E nesse momento sua melhor saída é aceitar a oportunidade e declinar a posição para um dia, quem sabe, poder ser nomeado Chefe dos Aurores. Se a Weasley for escolhida e você não, além de ser humilhado, não que eu me oponha, sua escolha vai parecer uma grande fuga. Se você pedir para sair, volta às boas com a opinião pública que vai achar que você decidiu favorecê-la e pode ser o garoto de ouro bonzinho novamente"

"Não sabemos se ela será escolhida, Malfoy" Draco ia abrir a boca, mas foi interrompido por Hermione.

"Harry, sinto muito, mas já está decidido. O Ministro deve fazer a declaração ao final da tarde. Sinceramente, Malfoy tem razão. Além disso, como acha que pode ser sustentável vocês dois trabalhando juntos? Vocês já quase se matavam casados, imagine agora"

"Então quando você disse 'provavelmente' mais cedo, quis dizer 'com certeza'? " Harry estava um pouco irritado com a falta de transparência da amiga. Ela trabalhava diretamente com o Ministro, talvez soubesse há dias sobre a decisão.

Hermione olhou para os pés com o rosto levemente corado, sabia que o amigo odiava que não compartilhassem informações do tipo com ele. Principalmente quando ele era o principal envolvido. Bom, quem poderia culpá-lo? Essa tinha sido a sina de sua vida: ser privado do conhecimento de sua própria história.

"Desculpe, Harry. Sabe que não estamos numa situação fácil. Por Merlin, ela é minha cunhada" Harry suspirou resignado. Estava cansado de confrontos. Sabia que eles estavam no meio do duelo fazendo de tudo para manter a situação amigável com todos.

"Então vocês acham que eu deveria aceitar? " Perguntou o moreno hesitante.

"Acho que nada pode ser tão bom pra você agora quanto mudar de ares. Ah, e sair daquele hotel, é claro ".

"Por favor, Harry, se você sair do Hotel o assunto finalmente vai ter fim " Disse Rony num tom de brincadeira, no que os três riram. Hermione não falava em outra coisa desde que ele saíra de casa.

Antes que Harry pudesse dizer qualquer coisa, Malfoy se aproximou e segurou seu braço, arrastando ele para fora da sala.

"Vamos, Potter, hora da grande cena para o Ministro da Magia".

Harry se deixou ser arrastado, murmurando um "Até amanhã" para os amigos que olhavam a cena com diferentes sentimentos: uma mistura de curiosidade feminina e ódio milenar.

Mais tarde naquele dia, quando assinou o documento de afastamento por tempo indeterminado de seu cargo no Ministério para assumir como Professor de Defesa Contra as Artes das Trevas em Hogwarts, Harry teve certeza de que estava certo mais cedo: não tinha a menor ideia do próximo passo.