Há vários minutos ela se perguntava quanto tempo mais deveria permanecer ali para que sua saída não fosse considerada um desrespeito.
A confraternização ocupava várias mesas do restaurante e a conversa era regada a muito soju. O lugar era conhecido pela carne de qualidade.
"Parece mesmo muito saborosa." Shunrei olhava a churrasqueira em cima da mesa, sem nenhuma vontade de comer. "Só preciso aguentar mais um pouco."
Ela não soubera da extensão da situação até que chegara ali mais cedo e a realidade se manifestara na forma do solene desprezo à sua pessoa. Durante as duas últimas semanas, ela estivera tão envolvida com seus pacientes e os ajustes com sua futura equipe que mal aparecera no refeitório do hospital.
- Prove pelo menos um pouco. – Moon Cha Young colocou uma tira de carne em seu prato, ao lado da tigela com o caldo praticamente intocado. – Você não pode dar essa satisfação a eles.
A tela do celular sobre a mesa se iluminou.
# Shiryu S2 Suiyama: Como está o encontro? Viemos jogar videogame com o pessoal. – foto de Shiryu, Shun e Seiya sentados no chão e Hyoga, Ryuho e Aiolia em cima da cama fazendo "V". Eiri fazia o coraçãozinho com polegar e indicador.
O sorriso de Shunrei não conseguiu chegar aos olhos. Mostrou a imagem a Cha Young.
- Me surpreende que vocês estejam juntos e eu esteja cozinhando para eles. O meu vizinho sempre foi tão discreto. – a amiga sorriu. – Vocês merecem ser felizes. E não se importe com mais nada. Nenhum deles paga suas contas. – piscou para Shunrei, tentando animá-la um pouco.
# Shunrei Nishi S2: Essa jogatina vai longe! Logo irei para casa. Amanhã tenho uma cirurgia logo cedo. (vários emoji mandando beijos de coração.)
# Shiryu S2 Suiyama: Mais duas semanas e você poderá descansar de verdade. Quando estiver saindo por favor me avise. Amo você. (emoji de coração pulsando.)
- Por que ela veio? Será que não percebe o nosso constrangimento? – ouviu o sussurro não tão baixo.
Exigira que Park A-ha e Moon Cha Young contassem as fofocas. Ninguém se dignara a cumprimentá-la ou se sentar com ela. Os olhares e os comentários de reprovação eram bastante claros.
- As enfermeiras, dra. Nishi. – Cha Young contara, a expressão contrariada. – Apesar das chefes terem proibido, não conseguimos segurar os dedos delas... O beijo no quarto de Ryuho.
- E houve alguns médicos que começaram a falar sobre como o sr. Solo estava se sentindo mal e o quanto ele foi paciente e correto com a senhorita. – Park A-ha emendara.
As duas eram as únicas ali com ela e Shunrei se esforçou o quanto pôde para manter a coluna ereta e o queixo erguido. Seu alento foi que o dr. Lee Kang, chegando e percebendo a estranha divisão, juntou-se a elas.
o.o – 0.0 – o.o – 0.0 – o.o
- Pode esperar um pouco, sr. Suiyama? – uma das professoras o chamou, quando Ryuho correu para sua carteira. Ele assentiu, aguardando ela dar orientações para a outra professora. – É um assunto um pouco delicado.
Shiryu franziu levemente a testa ao ver o embaraço da mulher, a mais experiente das duas educadoras. Ela o conduziu para a sala dos professores, vazia àquela hora.
- Bem, não sei como abordar o assunto de outra maneira, então serei direta. – ela mordeu os lábios e seu olhar era de pesar. – Vamos precisar trocar Ryuho de sala. – Shiryu piscou seguidas vezes, sem entender.
- Qual o motivo? Nunca me disseram que ele estava com problemas na sala. Ao contrário, ele gosta muito dos coleguinhas. – viu a mulher respirar fundo.
- Houve reclamações à diretora sobre a... sobre a situação da família de Ryuho. – ele ergueu as sobrancelhas. – Alguns pais sugeriram que ele não teria o acompanhamento necessário em casa e poderia atrasar a turma.
- Que absurdo! E a diretora aceitou essa falácia? – Shiryu tentou manter o tom da voz normal.
- Claro que não! – a professora balançou a cabeça. – Ryuho é um excelente aluno e nós gostamos muito dele. Apenas pensamos que, talvez, seja melhor ir para uma turma onde não haja predisposição contra ele.
Shiryu engoliu em seco, sem acreditar no que estava ouvindo. Começou a andar de um lado para o outro.
- Nos últimos dias, tivemos trabalho em equipe e duas crianças disseram que não poderiam tê-lo no grupo.
"Eu pensei que demoraria mais tempo dessa vez." Ele respirou fundo.
Nas duas escolas anteriores eles enfrentaram movimentos parecidos e Shiryu até imaginava os pais dizendo aos diretores que não queriam seus filhos perto da "energia do fracasso". Assim que descobriam que Ryuho vivia apenas com o pai começavam, sutilmente, a deixá-lo de lado.
- Eu me propus a mudar de turma com ele, sr. Suiyama. – a professora, a mesma que acompanhara o filho na ambulância, informou. "Isso é inédito." – Faremos de um jeito como se eu o estivesse levando. – ela sorriu brevemente.
- É muita gentileza da senhora. – a expressão de Shiryu deve ter denunciado o espanto.
- Como eu disse, nós gostamos muito de Ryuho e eu presenciei o seu cuidado com ele. – ela pensou um pouco antes de continuar. – Ele não merece sofrer por algo que não é sua responsabilidade. A partir de amanhã, ele irá para a outra turma comigo.
Shiryu percebeu a insinuação da professora, mas preferiu não brigar para não prejudicar o filho. Agradeceu novamente a disponibilidade e saiu pensando nas opções que tinha.
o.o – 0.0 – o.o – 0.0 – o.o
- Olá, meu pequenino. – Shunrei se ajoelhou para receber o abraço. – Como foi a sua semana?
- Eu fiz um sistema solar. – Ryuho contou, orgulhoso. – E tinha Saturno e os anéis e Júpiter bem grandão.
- Você trouxe o desenho para me mostrar? – ele assentiu, virando-se para pegar a mochila trazida pelo pai.
- Você consegue segurar? Leve até o sofá para procurar a pasta com os desenhos.
Ela se levantou para ajudar Shiryu com as sacolas com a encomenda de comida para o final de semana. Ficaram vigiando quando Ryuho estava distraído para trocar beijinhos rápidos.
- Papai, você vai machucar a srta. Shunrei. – porque os beijinhos se transformaram em beijo e o garotinho a viu imprensada entre a bancada da cozinha e o pai.
Shunrei ficou vermelha como um pimentão e rapidamente se desvencilhou, indo mexer nos potes enviados por Moon Cha Young. Shiryu a segurou, sinalizando para irem até Ryuho.
- Filho, preciso conversar com você. – sentaram um de cada lado da mochila. – Você sabe que a srta. Shunrei e eu somos muito amigos, não sabe? – Ryuho assentiu, sério. – Na verdade, nós somos mais que amigos, somos namorados. – ele arregalou os olhinhos. – E os namorados não se machucam. Eles se gostam muito, então querem ficar perto um do outro. Como eu e você. – ele colocou a mãozinha dentro da boca, olhando de um adulto para o outro. Shunrei queria apertá-lo de tanta fofura. – Não precisa se preocupar, que o papai nunca vai machucar a srta. Shunrei.
- Eu também gosto dela. – Ryuho confessou baixinho, olhando para o chão. – Quer dizer que nós três vamos ficar juntos agora?
Era a pergunta que Shiryu temia. Não esperava que o filho fizesse essa conexão tão rápido. Queria apenas que ele começasse a pensar na aproximação física como natural.
"Tenho que parar de subestimá-lo."
Shunrei viu a hesitação do pai.
- Ryuho, você quer que nós três fiquemos juntos? – o garotinho confirmou, um sorriso tímido aparecendo. – Nós estamos juntos agora. – ela segurou a mãozinha não babada dele. – Porque é o que as pessoas que se gostam fazem. – como o silêncio durou mais do que ela esperava, piscou para ele e levantou. – Agora, vocês podem ir se organizar que eu vou esquentar o jantar.
o.o – 0.0 – o.o – 0.0 – o.o
Os dois recuperavam a respiração, os lábios inchados e ainda não cansados dos beijos impetuosos de momentos atrás. Os narizes se tocando enquanto as mãos passeavam despreocupadas nos corpos que apertaram com prazer há instantes.
- Estamos ficando bons nisso. – Shunrei engoliu para umedecer a garganta seca. Sentia os músculos dele relaxarem sob seu toque, o corpo quente atraindo-a inevitavelmente.
- Eu advogo que a prática leva à perfeição. – Shiryu beijou-lhe o pescoço, fazendo-a rir. Adorava o cheiro dela naquela região, mistura de perfume com produtos para cabelo.
Ela o abraçou, acomodando-se para dormir.
- Como foi a confraternização? – "Ele não vai mesmo deixar para lá?" – Você não quis contar perto de Ryuho.
- Foi... – ela suspirou. – Foi como devia ter sido.
Agora quem suspirou foi Shiryu.
- Não gosto disso. Não sou namorado apenas nos bons momentos. – ele acariciava os cabelos dela, seus braços apertando-a.
- Não queria trazer isso para a nossa cama... Não vai durar muito. Logo encontrarão fofocas mais interessantes.
- Vai me contar se ficar pesado demais? – ela assentiu, ouvindo o coração dele bater. À medida que as semanas se sucediam com eles se vendo poucas vezes, as noites que passava sozinha pareciam mais e mais penosas.
- Ryuho tem feito muitas perguntas?
- Acredito que ele esteja tentando se adaptar. Muitas vezes, ele me pede para gravar vídeos para te enviar. Outras vezes, ele reclama que passo muito tempo conversando no celular... – Shiryu parou no meio da respiração e Shunrei o incentivou a continuar. – Ele foi trocado de turma na escola. Já havia acontecido antes, mas parece que dessa vez ele está sentindo mais. – ela se lembrou de uma das vezes em que ela própria fora trocada de turma duas vezes, até que o sr. Kido interviera no colégio e os demais responsáveis tiveram que aturar a chinesa órfã interagindo com seus filhos.
- Por isso ele quer que fiquemos juntos. – Shiryu percebeu pelo tom de voz que ela entendera a extensão do problema. Ryuho era gentil e carinhoso e se apegava rápido às pessoas. As separações bruscas o machucavam e confundiam. O pai temia que o ferimento fosse profundo demais.
- Sim.
No silêncio, as palavras flutuaram pelo quarto.
- Quer vir morar comigo?
- Não quero que se sinta responsável.
Os dois disseram ao mesmo tempo.
- Acho que podemos tentar.
- Não quero pressionar você.
Continuaram falando juntos.
- Vir morar com você?
- Não me sinto pressionada.
Responderam em coro. Riram juntos.
- Me disseram que vocês Cavaleiros são rápidos. Já estamos juntos há quase dois meses e nada. Me sinto desprestigiada.
- Não quero apressar as coisas com você. Quero muito que dê certo entre nós.
- Que tal se voltarmos a conversar depois da ida a Jeju? – Shunrei sugeriu, ajeitando a cabeça no travesseiro, vendo o rosto dele fracamente iluminado pela claridade externa.
Shiryu segurou a mão que ela mantivera sobre seu peito.
- Não há como persuadir você? – ela negou.
o.o – 0.0 – o.o – 0.0 – o.o
Saori simplesmente ergueu as sobrancelhas e tomou mais um gole de chá. Shunrei aguardava, as duas sentadas no café a meio caminho dos respectivos edifícios.
- Há menos de três meses, você estava furiosa porque alguém queria se casar com você. E agora está confusa porque alguém não vai correndo morar com você? É isso mesmo?
- Não entendo porque ele não quer!
- Talvez porque ele entenda melhor do que você o que está em jogo aqui, Shunrei. – diante do olhar revoltado da amiga, Saori resolver explicar. – Eu soube da espécie de boicote que vários dos seus colegas têm feito à sua presença. Você acredita que isso vai parar se o seu namorado, que eles pensam ser o pivô do término com Julian, for simplesmente morar com você?
- Você acha que eu me importo?
- Deveria se importar, afinal, você passa a maior parte do seu tempo no hospital e o seu trabalho depende da cooperação entre vocês. Se isso não for suficiente, pensemos em Ryuho. – Saori ergueu o dedo quando ela foi protestar. – Fofo demais, eu sei. Duas coisas sobre ele: você não é a mãe dele e você não é a mãe dele.
- Eu posso ser! – Shunrei respondeu, desafiadora. Saori cruzou as mãos na mesa.
- Então seja. Abandone o lugar de acompanhante do pai dele e seja mãe dele. Saia do lugar de vítima dos desocupados daquele hospital e mostre quem é que manda na sua vida.
- O que mais você quer que eu faça?
- Quem tem que querer é você! – Saori recostou-se na cadeira. – Estou me sentindo o Grilo Falante do Pinóquio... Shunrei, você me disse que quer amar o Shiryu como mulher, mas está agindo como uma adolescente que não tem seu desejo satisfeito. Basta olhar para ver que ele está completamente apaixonado por você. Trate-o com respeito, coloque-o na sua vida, não no seu apartamento no final de semana. Nessa questão, eu estou totalmente do lado dele.
o.o – 0.0 – o.o – 0.0 – o.o
Estranharam Shiryu ter aparecido em um treino reservado à equipe. Notaram que os outros atletas ficaram incomodados, embora não tivessem coragem de reclamar, por enquanto. Ele entrou, vestiu o quimono e começou a se aquecer sozinho, falando apenas com Marin para acertar sua posição na fila para o tatami.
- Tempestade à vista, hein? – Aiolia falou com ela, que emitiu um dos seus raros xingamentos.
- Cadê o irresponsável do Dohko numa hora dessas?
- O que aconteceu?
- Ele não quer falar. Só pediu para colocá-lo no treino.
- Parece quando a mulher o largou. – ela balançou a cabeça, os lábios contraídos.
Shiryu simplesmente não conseguira ficar na farmácia. Primeiro ligara para Eiri, pedindo que ela ficasse com Ryuho por algumas horas e dirigira até o ginásio.
"Pensei que estava fazendo tudo certo dessa vez!" Rilhava os dentes enquanto pulava corda ou batia no saco de areia.
Ia para os embates e depois voltava a pular e a bater, até que ficou coberto de suor. Quando as mãos sangraram no saco de areia, Aiolia o segurou e levou para o vestiário.
- Pelo menos você não trouxe Ryuho para ver o pai fazendo papel de idiota! – o grego exclamou, fechando a porta. Shiryu viu que não conseguiria passar pelo amigo e se sentou, a respiração descontrolada podendo ser ouvida fora do banheiro. – Vai me fazer perguntar?
- Shunrei me chamou para morar com ela. – olhou com raiva para a risada que Aiolia soltou.
- E eu pensei que ela tinha te largado. – aproximou-se mais de Shiryu. – Pensei que o meu bom julgamento tinha sido afetado pelo soju. E qual é o problema? Não vai me dizer que você é dos cretinos que ficam intimidados com uma mulher como ela. – Shiryu não conseguiu encará-lo ao confessar, um volume mais baixo na voz.
- E se ela estiver fazendo isso pelos motivos errados? – contraiu o rosto. – Está sofrendo com problemas no trabalho. Não quero ser egoísta. Estou afogado em emoções que pensei que nunca mais sentiria e fui imprudente. Só pensava em coisas patéticas... Ela pode... Ela pode... Ela pode estar confundindo pena com amor. – Aiolia sacudia a cabeça a cada frase.
- Você acha que amor é caridade? Sacrificar-se sozinho não é amor. Você já sofreu o suficiente, já se puniu o suficiente. – o grego o forçou a encará-lo. – Quanto tempo mais você vai se arrastar por aí, mendigando afeto e se fazendo de vítima? Dohko teria vergonha de você. Tenho certeza que ele saiu nessa turnê interminável para não encarar que não conseguiu fazer o discípulo ser um homem e não um adolescente que não sabe lidar com sua própria vida!
- Eu posso perder tudo de nov... – parou ao ver o olhar ameaçador do amigo.
Aiolia mexeu nas roupas dele, dobradas sobre a pia, jogando-lhe o celular.
- Conserte isso agora. Da próxima vez que você aparecer aqui desse jeito, eu mesmo te mando para o hospital. – abriu a porta e saiu.
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx
Pois é, nem só de beijinhos e piqueniques vivem nossos protas.
Será que esses problemas vão afetar muito o relacionamento deles? Alguns desses desafios podem parecer bobos, mas têm um grande potencial de minar o lado emocional, que eles apenas começaram a recuperar das experiências passadas. E Ryuho ali, tentando entender essas novidades na sua curta vidinha, me faz muito querer abraçá-lo. 3
Me contem o que vocês estão pensando da história!
Beijos e até o próximo episódio.
Jasmin
