EPISÓDIO 11

Ela acordou assustada, erguendo-se de uma vez.

A primeira constatação é que estava atrasada. A segunda, ato contínuo, era que eles já estavam tomando café.

"Droga!"

Foi correndo para o banheiro, respondendo rapidamente às saudações matinais dos dois.

- Desculpem. – declarou, sentando-se esbaforida minutos depois ao lado de Ryuho. – Por que não me acordaram?

- Pode comer com calma. – Shiryu respondeu, colocando uma tigela de lámem em sua frente. – De carro, chegaremos em poucos minutos. - era a primeira vez que Shunrei os acompanharia à escola. – Acho que todos estranhamos a cama nova e demoramos a dormir. – sorriu, indicando a tigela com as sobrancelhas.

Shiryu comprara uma cama maior, possibilitando que ela dormisse no apartamento deles, justamente para que ela levasse Ryuho alguns dias por semana.

Eles estacionaram na porta da escola e a postura de Shunrei mudou. Ajudou Ryuho a ajeitar a mochila nas costas, endireitou a coluna e olhou nos olhos de todos que a encaravam, cumprimentando os funcionários que identificava pelo uniforme. Shiryu sabia que ela estava nervosa apenas pela mão fria que segurava.

- Bom dia, senhora. – ele cumprimentou a professora que recepcionava as crianças na porta da sala. – Essa é minha namorada, Shunrei Nishi. Acredito que a senhora se lembre dela. – acrescentou, ao ver que a professora se lembrava da médica. – Ela virá trazer Ryuho alguns dias e a senhora pode tratar qualquer situação com ela. – Shunrei apertou a mão da educadora com segurança.

- Foi a senhora quem acompanhou Ryuho naquela emergência, não foi? – a professora confirmou. – Por favor, fique com meu cartão. Qualquer problema com ele, pode ligar. Se eu mesma não atender, minha secretária tem instruções do que fazer. Nós vamos falar também com a diretora, mas a senhora está mais próxima e sei que tem grande apreço por ele. – observou a reação da professora, lendo o cartão com o símbolo do Hospital Graad com as sobrancelhas erguidas.

Shunrei olhou para as crianças conversando enquanto se organizavam para o dia. Acenou sua despedida para Ryuho e se ajoelhou quando ele veio até a porta.

- Nos vemos mais tarde? – ele assentiu, abraçando-a apertado e saindo correndo de volta para seu lugar.

Depois Shiryu lhe contou que a maioria das crianças eram levadas pelas mães.

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- Por mais noites como essa! – Saori levantou o brinde com soju e as quatro a acompanharam, rindo. – A primeira noite das garotas!

Precisaram de alguns dias para conseguir organizar as agendas antes da viagem de Eiri e o esforço valera a pena. Decidiram por um pequeno restaurante às margens do rio Han, de onde podiam ver as embarcações turísticas riscando o espelho de águas calmas.

- A noite está tão fresca. – Marin fechou os olhos, apreciando a brisa depois de passar o dia inteiro dentro do ginásio.

- As suas meninas estão vindo? – Eiri perguntou, servindo mais soju para todas. – Está bem geladinho, aproveitem!

- Sim, devem chegar na próxima semana. – a ruiva sorriu. – É a primeira competição delas. Shaina as está treinando há mais de um ano.

- Deve ser emocionante ver as filhas seguindo seus passos. – Moon Cha Young comentou, provando o molho com as iscas de peixe empanadas. Marin confirmou.

- Elas têm que estudar também, mas nós decidimos deixá-las participar. – ela respirou fundo. Seu instinto natural era não falar sobre sua vida pessoal e tinha que fazer um esforço consciente para ir adiante. Era seu maior desafio. – É complicado ver meus filhos seguindo esse mesmo caminho. Ao mesmo tempo que me sinto orgulhosa, sei que não é uma vida fácil. Sobretudo para mulheres.

- Shiryu falou o mesmo sobre Ryuho. – Shunrei disse, comendo um kimbap de camarão. A proprietária do restaurante ligou uma seleção de músicas instrumentais que as animou mais.

- Vou dizer uma coisa, minhas caras, não há lugar fácil para garotas. – Saori afirmou. – Olhem para nós aqui, a única que tem um emprego "feminino" – ela fez as aspas com as mãos. – é a Cha Young. – interjeições de concordâncias pela mesa. – Eu entendo você, Marin, mas não se preocupe com elas.

- Você já pensou no que vocês fizeram pelos garotos? – Eiri fez nova pergunta. Marin riu.

- Está treinando para algum interrogatório? – a loira riu de volta.

- Muito advogada? – as quatro riram. Ela ergueu uma sobrancelha, fingindo ajeitar o terno. – Sério, não se preocupe com as suas meninas. Vocês fizeram o que conseguiam pelos garotos e veja onde eles estão agora. Pelas suas filhas, você está fazendo o que consegue agora, tenho certeza de que elas sabem disso.

- Você está dando a oportunidade delas escolherem. – Shunrei piscou para a ruiva, sentada à sua frente. – Isso é bem mais do que a maioria dos pais oferece aos filhos.

- Adorarei conhecê-las! – Saori exclamou. – Cha Young, é verdade que você vai deixar a enfermagem e ser chef em tempo integral? – a coreana corou furiosamente quando as atenções se voltaram para ela. Era a primeira vez que saía com a dona da Fundação Graad.

- Vou fazer um tour gastronômico. – os olhos amendoados brilharam. - Quero conhecer algumas culinárias específicas. Vietnã, Indonésia, China, Itália, França, Índia. – ela se empolgou com as expressões de surpresa. - Irei à Grécia daqui há dois meses.

- Tem uma ilha que é um excelente lugar para você. – Marin tentou se lembrar. – Eiri, é aquela pequena, com umas muralhas medievais, bem ao sul do Peloponeso... Ah, Monemvasia (1)! – Eiri concordou.

- Excelente lugar mesmo. É pequeno e tem restaurantes com especialidades de toda a Grécia. É tipo um tour pocket! – Cha Young agradeceu, pedindo para elas enviarem as informações pelo celular. - Quando estiver em Atenas, perguntarei ao meu pai se tem conhecidos lá. Ele vende muito para os restaurantes do Peloponeso.

- Não sei o que farei sem Cha Young. – Shunrei fez carinha de triste.

- Você também está indo para a sua nova Unidade, não vai ficar no Hospital muito mais tempo. – Saori observou.

- Já começamos a atender os primeiros pacientes! – a chinesa informou, querendo dar pulinhos de alegria. – Fiz três cirurgias essa semana com a presença virtual de médicos na África do Sul e no Japão. E o lugar que o dr. Lee Kang escolheu é lindo demais! No mesmo terreno da Unidade de Cuidados Paliativos. – abriu a pasta de fotos do celular e deixou-as ver o enorme jardim e os quartos pequenos e aconchegantes do lugar. – E os pacientes sendo tratados com acupuntura e medicamentos naturais é um sonho!

- Tudo muito bom, tudo muito bem. – Eiri retomou a palavra. – Mas, agora contem como estão as coisas. – as quatro a olharam em dúvida. Eiri ergueu uma sobrancelha, aguardando que elas captassem. – Ou melhor, como estão os "coisinhos" de vocês?

A mesa toda riu. A noite estava apenas começando.

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Ele riu intimamente ao notar os olhares curiosos de quem entrava no elevador.

Com a primavera se firmando, as temperaturas mais amenas permitiram que ele trocasse o sobretudo pesado por um terno preto, que destacava sua silhueta e seus olhos verdes.

"Mas acho que exagerei." Refletia, rodando os três botões de tulipa amarrados com um laço de barbante. "Um seria mais impactante."

- Desculpe a demora. – bateu na porta antes de entrar, vendo-a espreguiçar, estalando os dedos. – Perdi a noção do tempo falando com a professora de caligrafia de Ryuho. Aceita como pedido de desculpas? – ela sorriu para as flores.

- Assim você me deixa mal-acostumada. – Shunrei se levantou para recebê-lo com beijinhos. – Vamos?

Saíram de mãos dadas pelos corredores, descendo os dois andares até o refeitório pelas escadas. Shiryu decidira se portar nessas ocasiões como se entrasse no tatami, com o queixo erguido e as costas retas. Shunrei parou para dar instruções a algumas enfermeiras e precisou falar com Moon Cha Young na enfermaria neonatal.

- Temos visto bastante você por aqui, Shiryu. – a vizinha sorriu ao cumprimentá-lo. – Estou feliz com isso.

- Pequenos ajustes que fazem muita diferença. – ele comentou, percebendo a movimentação e o interesse dos enfermeiros em volta.

- Faz parte de quando alguém entra na nossa vida. – Cha Young afirmou, pedindo licença para falar com a dra. Nishi a respeito de um bebê específico.

No refeitório, algumas pessoas já o reconheciam e cumprimentavam de longe. Shunrei fazia questão de apresentá-lo se algum conhecido estivesse na fila também. De vez em quando, o diretor-presidente os acompanhava. Shiryu gostara dele desde o primeiro encontro, sobretudo por perceber como ele, sutilmente, cuidava de Shunrei. Tinha a nítida impressão de que o dr. Lee Kang queria demonstrar seu apoio a eles ao almoçar com os dois, como naquela tarde.

"Ou ele pode apenas ser um apreciador de artes marciais." Ponderou, conversando sobre os destaques no ranking mundial e as expectativas para o Campeonato, que seria dali há um mês e meio.

- Shunrei escondeu de mim as ligações com o mundo esportivo. – o diretor-presidente comentou, alegre ao ser convidado para o ginásio no próximo domingo.

- Se eu soubesse que o senhor se interessava, teria convidado há mais tempo. – ela afirmou e Shiryu via seu sorriso de alegria. – Vou enviar os vídeos de quando Shiryu ganhou o bi-campeonato mundial.

- Mas eu já vi! Fiquei muito impressionado. Você realmente se transforma! – ele ficava desconcertado e orgulhoso quando mencionavam os campeonatos. – Quando você vai voltar a competir? – chamou-o para falar mais baixo. – Tem outros médicos que se interessam por esportes. Posso levá-los também? Acredito que seja importante. – Shiryu confirmou, piscando para a namorada.

Ela revirou os olhos, fingindo exasperação, não deixando de notar os ouvidos e olhos atentos à mesa dos três.

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Durante a semana, o ginásio era exclusivo para a Zodiac Team, como eram registrados na Liga Internacional. Os treinos eram fechados para evitar espiões, portanto, elas podiam conversar tranquilas. Nas arquibancadas, apenas alguns membros da equipe lanchando.

- Como foi a viagem? – Shunrei cumprimentou Eiri, que veio dos vestiários e a localizou quase imediatamente.

- Cansativa e produtiva. – Eiri estivera numa peregrinação entre Atenas e Tóquio. – Consegui a licença! – exclamou, suspirando. – E já tenho lugar para trabalhar, graças à Saori. – Shunrei ficou muito feliz. – E você, conseguiu remarcar as passagens? – elas ouviam o som dos corpos caindo nos tatamis e os gritos dos lutadores.

- Sim. Deu certo, como combinamos. Realmente, depois que precisei mudar a agenda, aquela data é a melhor opção. Não vai estar muito cheia e já teremos calor. – ela viu Shiryu e Shun treinando em um dos tatamis laterais. – Iremos duas semanas antes do Campeonato. A ilha estará linda, você vai gostar muito! Pena que os outros não poderão ir. – Eiri assentiu, encostando-se na cadeira.

- Não vejo a hora de conhecer a tal 'Ilha dos Deuses' coreana. As fotos na internet são bonitas. – Eiri se virou, deixando a arena no canto do olho. – Como está a vida?

Shunrei se tornara próxima de Eiri nas últimas semanas. Sentia que as duas estavam passando por mudanças semelhantes, profundas e desafiadoras. Depois da volta de June devido à escola das crianças, Eiri passou a procurá-la mais e Shunrei gostou de ter outra pessoa com quem dividir situações e pensamentos.

- O esforço é imenso. Ter que acordar mais cedo, diminuir o tempo no trabalho, mexer com agenda de paciente, delegar, comandar duas equipes, rearranjar cronogramas, monitorar tarefas escolares, dar banho em menino, acompanhar o namorado, esperar a companhia dele... Ufa! – Shunrei riu para a amiga grega.

- Cada dia uma pequena vitória. – Eiri afirmou. – Comigo não tem o menino para banhar, mas tem a questão da língua, dos costumes diferentes. Preciso de explicações sobre alguns comportamentos, você sabe. – ela socorrera a amiga com explicações sobre os casais que usavam a mesma roupa, ou que presente dar em alguma ocasião específica. – Mais do que qualquer outra coisa, quero uma casa. Não aguento mais ficar em hotéis. As minhas caixas entulharam o apartamento de Hyoga. – mostrou uma foto da sala lotada de caixas. – Quero meus livros, meus papéis.

- Você querendo uma e eu tendo que gerenciar duas! – Shunrei exclamou, observando Hyoga e Shiryu num embate interessante, com Aiolia fazendo interferências e mostrando no corpo de um e de outro os impactos dos golpes. - É desafiador e recompensador, não é? – Eiri concordou. - Sinto que estamos tornando o outro mais forte, que estamos nos ajudando a sermos nós mesmos. Interessante isso: quanto mais eu me doo, mais me sinto eu mesma.

- E parece que com Shiryu também é assim, não é? Ele voltou a treinar, voltou a estar com os amigos. E parece muito à vontade no tatami. Pelo que você me contou, daqui a pouco ele participa das suas cirurgias. – Eiri constatou, comentando casualmente. – Comigo o que acontece é esse acolhimento que, francamente, eu não esperava. Hyoga não é a pessoa mais expansiva do mundo e ainda assim eu me senti muito bem-vinda e aceita.

- O estigma da orfandade é forte, então acho que eles todos aprenderam a ser duros por fora e suaves por dentro. – Shunrei observou Ryuho, pequenininho no meio dos lutadores. Marin o colocou para bater no saco de areia e ele logo ficou ofegante. Ia se levantar quando a Amazona o sentou, conseguindo acalmá-lo. – Ele vai precisar ter paciência.

- Logo ele estará mais forte. – Eiri respondeu. – É o primeiro dia que ele fica lá? – Shunrei assentiu. - Atuei em muitos casos envolvendo órfãos e foi sempre doloroso, mesmo quando eram órfãos ricos. A responsabilidade que jogam sobre eles é imensa. – Eiri afirmou. – Quero trabalhar com isso também em Tóquio. Seiya vai me apresentar uma amiga que cuida de um orfanato. Parece que a irmã dele trabalha lá também. – Shunrei suspirou, mordendo os lábios.

- Vou sentir falta quando vocês se forem.

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Os dois estavam abraçados, aproveitando o anonimato da divisória de vidro escuro para namorar enquanto iam do ginásio para o apartamento de Saori. Ela estava particularmente contente por ter conseguido se desvencilhar mais cedo dos compromissos e pudera acompanhar mais de perto o treino de toda a equipe.

- Acredita que me encontrei com Julian hoje? – comentou quando as bocas se afastaram para eles tomarem ar. Seiya ergueu as sobrancelhas. – Precisei negociar a entrada de algumas importações nossas no Porto de Incheon. Foi bastante desagradável.

- Suponho que ele tenha dificultado as coisas para você de propósito. – as mãos de Seiya deslizaram por seus braços.

- Com certeza, embora o único problema tenha sido a perda de tempo. – ela suspirou. – A família dele jamais permitiria que ele colocasse em risco a operação aqui na Coréia. De qualquer forma, precisei escutar toda a ladainha sobre Shunrei e Shiryu. – Seiya riu.

- Para alguém que a despreza tanto, ele é bem persistente. Pelo menos, ele desistiu de comparecer às competições aos domingos. – o Cavaleiro desviou os olhos para a paisagem multicolorida daquela região da cidade, cheia de placas de comércios e movimento de ônibus. Era um lugar humilde, em comparação com o bairro onde Saori morava. – O que você pensa sobre casamento? – ela piscou pela súbita mudança de assunto. A expressão de dúvida devia ser muito evidente porque ele continuou. – Você já se imaginou casada, com filhos?

Pelo tom da pergunta, ela sabia que não devia responder levianamente.

- Quer saber se já me imaginei casada com você? – ele sorriu e ela segurou um suspiro. Sentia o coração pular uma batida nas raras ocasiões em que Seiya se mostrava tímido. – Não se preocupe, sei que vocês são rápidos. – ela piscou e ele ruborizou ainda mais.

- Olha, Saori, não quero que você pense que tem algo a ver com o seu dinheiro. – ele se apressou a dizer, interpretando mal o silêncio que se seguiu. – E não estou propondo nada... Ainda... É só que... – ele respirou fundo. - Bem, a minha vida sempre foi tão intensa e eu gosto de ter as coisas claras para evitar problemas futuros. Quero saber se nós estamos na mesma página nesse assunto.

Ela colocou a mão em seu rosto para acalmá-lo. Os olhos violeta lhe transmitiam muita paz e segurança e ele reparara que aquele olhar era exclusivo para si.

- Seiya, eu... – ela foi interrompida pela freada brusca, jogando-os contra o banco da frente. O motorista começou a buzinar e os seguranças no carro de trás desceram para averiguar.

Saori franziu o cenho com as vozes alteradas e pegou na maçaneta. Seiya a interrompeu, abrindo a divisória escura de comunicação com o motorista.

- Uma criança? – ela o ouviu questionar. – E por que estão gritando com uma criança? – ele abriu a porta e saiu voando.

Saori o seguiu quando ele abriu caminho entre os seguranças e os dois viram, caído na frente do carro. Era um garotinho magro, com ferozes olhos castanhos, cabelos imundos que um dia poderiam ser vermelhos, as roupas tão sujas e puídas que ela pensou ser um milagre não se desintegrarem ali mesmo. Ele estava encolhido, segurando um pedaço de sanduíche junto ao peito que subia e descia violentamente. Seu braço sangrava no lugar onde colidira com o carro e as pernas estavam arranhadas do atrito com o asfalto.

- Seiya. – ela chamou ao vê-lo se aproximar com cautela do menino, que a dor impediu de levantar e sair correndo.

Ele se ajoelhou, o coração batendo muito forte. Sua memória trazendo lembranças de um passado que ele preferia deixar enterrado.

- Calma. – falou, com um tom baixo, que ele via Shiryu usar quando Ryuho estava nervoso. Mostrou as duas mãos, sinalizando que não queria fazer mal. – Não vou pegar a sua comida. Só quero ver o seu braço. Saori, pode pedir para eles se afastarem? – via que o garotinho procurava uma rota de fuga entre as pernas dos seguranças. – Viu? Só ficamos nós três.

- Pode ficar tranquilo, não queremos machucar você. – Saori aproximou-se. – Quer que o levemos para a sua casa? – a expressão de medo transformou-se em raiva. Ele puxou a perna para longe de Seiya, que se inclinara um pouco mais perto. – Qual o seu nome? – deve ter sido o tom carinhoso que o fez desviar o olhar vigilante do homem para ela. Saori viu algo atrás da ira dançar nos olhos dele. O garotinho fechou todo o rosto, como se falar fosse dolorido. A voz saiu num grunhido.

- Kouga.

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Era a segunda noite em que acontecia. Após o jantar, Ryuho pedia para ela sentar no chão da sala e ler o trecho de um livro que ele escolhia de sua parte na estante. Ele ia se encostando até que dormia com a cabeça em seu colo. O coração de Shunrei inchava de ternura, os dedos acariciando os cabelos idênticos aos do pai.

- Se acontecer de novo, será uma tradição familiar. – Shiryu sussurrou, abraçando-a após levar o filho para o quarto. – Está tudo bem?

Shunrei aprendera que essa não era uma pergunta a ser respondida de forma leviana. O que ele realmente queria saber era se ela estava feliz ou se havia algum problema e, se houvesse, eles descobririam uma solução juntos. Ela sorriu, a ponta de seu nariz roçando o pescoço dele.

- Falta muito tempo para a sexta-feira. – o corpo de Shiryu tremeu com o sorriso abafado. Era o dia em que os rapazes iam dormir em sua casa para o final de semana e os dois estariam livres para ir além das carícias mornas que trocavam para aplacar um pouco o desejo quase sufocante que sentiam ao se tocarem.

- Estou me empenhando para resolver isso. – ele informou, beijando seu rosto até chegar à boca.

A próxima semana seria a última dele na farmácia, para tristeza da sra. Yin Seon-in. Após longas conversas, ele decidira voltar a se dedicar ao que fazia sua alma brilhar: as artes marciais. Faltava apenas conseguir que a escola perto da casa de Shunrei recebesse Ryuho após a viagem. Ela e Shiryu haviam comparecido a duas visitas ao diretor e a última entrevista estava marcada para o final dessa semana, com Ryuho inclusive.

- Melhor pararmos. – ela se forçou a dizer quando a mão dele sob sua camiseta alcançou um seio. Afastou-se, beijando-lhe os dedos. Shiryu precisou de um momento para acalmar a pulsação. – Como estão os treinos?

- Voltando à velha forma. – ele comentou, vendo-a mexer na bolsa. – A ideia de voltarmos, June e eu, no próximo ano, permanece. Eu preferiria que meu Mestre estivesse aqui nesse recomeço... – Shunrei mostrou um vídeo que fez o rosto dele se iluminar.

Era Dohko, sentado em frente a uma enorme queda d'água, gritando para ser ouvido. A imagem estava borrada com as gotículas que caíam no celular. Os cabelos castanhos voavam para todo lado e a voz dele tinha o entusiasmo costumeiro.

'Muito prazer, Shunrei. Fico feliz por Aiolia ter nos colocado em contato. Logo poderemos nos conhecer pessoalmente, com certeza. Agradeço pelas notícias e fotos de Shiryu e Ryuho. Queria que vocês estivessem aqui comigo, conhecendo essas pessoas (mostra rapidamente os dois homens que Shiryu vira no celular de Aiolia. O loiro impassível e o de cabelo lilás acenando timidamente.) e esses lugares (panorâmica na cachoeira, nas montanhas ao redor e no vale abaixo. Pareciam estar em grande altitude.)... Shiryu, (voltou a câmera para encarar sério) dê o seu melhor! Conto com você! Nós somos mestre e discípulo, mas, mais do que isso, somos companheiros de vida. Eu tenho muita fé em você, então você não pode me decepcionar ou voltará na próxima vida como um besouro! Praga de mestre pega, ouviu? Shunrei, vigie-o e me mantenha informado. Quero fotos diárias de Ryuho, por favor. (colocou o dedo e parou a gravação.)'

Shiryu engoliu em seco, a surpresa paralisando-o. Não conseguia desviar a atenção da imagem de Dohko.

- Não sei porque vocês pararam de se falar, só sei que está na hora de retomarem, não acha? – Shunrei perguntou, mostrando que enviara tanto o vídeo quanto o contato para ele.

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- Fazia muito tempo que não saímos para conversar, só nós quatro. – Shun observou, entusiasmado, enquanto caminhavam do ginásio até o bar vizinho. – Deveríamos ter chamado Aiolia?

- Ele vai buscar as filhas no aeroporto. – Shiryu lembrou. – Da próxima vez.

- Teremos poucas oportunidades daqui até o Campeonato. – Seiya imprimia um ritmo acelerado, ainda elétrico pelo treino. – Vocês dois vão viajar e Shun e eu cada vez mais ocupados.

- Seiya, acalme-se ou você vai tropeçar e cair. – Hyoga comentou, um leve sorriso na voz. – O bar é bem próximo, vai dar tempo de tomar todos os sucos e refrescos que você quiser. – Seiya semicerrou os olhos. Shun balançou a cabeça, rindo da provocação.

- Eu vou acompanhar você nessa, não se preocupe. – bateu no ombro do amigo.

- Marin ainda sabe quando você burla a dieta pré-competição? – Shiryu perguntou.

- Não só sabe como as punições dela estão ficando mais criativas. – Seiya riu. – Da última vez precisei fazer flexões pendurado a uma altura de uns 30 metros, lembra Shun?

Escolheram uma mesa perto da porta da cozinha e pediram churrasco de carne bovina e frango, dois refrescos e duas garrafas de soju.

- Ryuho parece estar se dando bem com Shunrei. – Shun comentou quando eles receberam as carnes cortadas em tiras e os acompanhamentos: alface, palitos de cenoura e quadrados de abobrinha marinada, pedaços de kimchi, salada de algas marinhas, salada de batatas, camarões e lula empanados e o molho ssamjang (2).

- Hoje será a primeira noite que eles ficarão sozinhos. – Shiryu provou o soju gelado. – Ryuho está encantado e incomodado ao mesmo tempo.

- Ele agora precisa dividir o pai. – Seiya distribuía algumas fatias de carne e coxas de frango sobre a churrasqueira. Shiryu assentiu. – E a Shunrei, como está nessa história toda?

- Tem sido um período de adaptação para nós três. – o Dragão ponderou, mastigando um palito de cenoura enquanto a carne grelhava. – Estamos nos esforçando juntos. Ela tem me surpreendido pelo comprometimento. É incrível como podemos conversar e ajeitar o que não está bom.

- Falou as três palavras mágicas. – Hyoga observou, experimentando o camarão com o molho. – Podemos ter uma química física fenomenal, mas para manter um relacionamento é disso que se precisa: adaptação, comprometimento e diálogo. – Shiryu concordou.

- Seiya, como está o garotinho que vocês resgataram? – Shun pegou a primeira fatia grelhada e provou com a salada de batatas. O Pégaso mordeu o lábio.

- Saori está tentando localizar algum parente. Ele esteve no hospital esses três dias. Por enquanto, ficará no apartamento dela. – um sorriso rápido passou pelos lábios dele. – Ela está encantada com o garoto.

- Shunrei disse que ele está desnutrido e que tinha terra no estômago. Além do braço quebrado e de vários hematomas pelo corpo. – Shiryu franziu o cenho depois de virar o copo de soju. – Me fez lembrar. – os três balançaram a cabeça, a infância compartilhada gritando nas memórias. – Queremos levar Ryuho para brincar com ele no final de semana. – Seiya assentiu.

- Sabem, o olhar dele está mudando. Era uma mistura de raiva e medo. Eu fiquei assustado quando o vi. – ele sacudiu a cabeça para espantar as sombras que ameaçavam se alojar. – Agora consigo ver outros sentimentos. Muita tristeza.

- Nós éramos assim também. É o olhar de quem não tem amor. – Shun comentou, tentando usar um tom casual. – Que bom que vocês estão cuidando do garoto. Se quiserem, posso examiná-lo para ver o que mais ele precisa para recuperar a saúde. – Seiya concordou.

- É interessante que ele apareceu justamente quando estávamos conversando sobre casamento e filhos. – os três riram. – Vocês ficam me zoando, mas foram muito mais afoitos do que eu! – mais risos.

- O bom de ser o último é que você pode aprender conosco. – Andrômeda sugeriu, dizendo para eles experimentarem a salada de alga com o frango. - Quem diria que nós quatro estaríamos na Coréia falando de mulher e filhos? – eles abafaram os risos. – Um brinde a isso!

- Falando em mulher e filhos, notícias do Ikki, Shun? – a pergunta do Cisne fez as sobrancelhas de todos se erguerem. – Ora, da última vez que soubemos, ele estava no México com a segunda esposa e os filhos dos dois, não era?

- Ele me disse que voltarão para o Japão em dois meses.

- Aquela ilha vai ficar pequena para tanto Cavaleiro e Amazona! – Seiya exclamou, animado.

- Nove meses em quartos de hotel. - Hyoga virou o copo de soju gelado. - Depois do Campeonato vamos todos para casa?

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"Será que é um sonho?" Shunrei observava as águas escuras do rio Han refletirem as luzes da cidade. Viera buscar um copo de água e fora atraída pela mansidão da madrugada a se sentar em contemplação. "Os últimos meses não me deram muito tempo para respirar." Ela sorriu, apoiando o queixo nos joelhos.

Poderia ser impensável para algumas pessoas, mas o que ela encarara no início como um "mergulho no desconhecido" se mostrava a cada dia como um relacionamento seguro, baseado em uma confiança e uma intimidade que ela nunca experimentara com ninguém.

"Quando ele disse que cuidaria de mim, não imaginei que fosse dessa forma tão aconchegante." Porque Shiryu realmente não era um companheiro apenas para os bons momentos. Sem ser invasivo, ele prestava atenção e a percebia emocionalmente. "Ele não foge, não finge que não está vendo... Não é algo fácil de fazer." Acusada de leviana por emendar um namoro no outro, Shunrei tinha a consciência tranquila de que a relação anterior já estava terminada há muito tempo.

"Deuses, como eu o amo!" Ela começava a entender as pessoas falando sobre almas gêmeas e encontros de outras vidas. Não havia outra explicação para a conexão forte e intensa que havia entre eles. "E Ryuho." Shunrei já cuidara de centenas, talvez um milhar de crianças, muitas em situações de extrema necessidade, e nenhuma alojara-se tão rápido em seu coração. O garoto miudinho fincara uma bandeira num pedaço dos seus sentimentos com uma roupa de astronauta. "E eu, que estava esperneando para não casar, estou não só querendo casar como meu bônus é um menino de quase sete anos."

- Então é aqui que a minha camiseta está? – ela desfez a posição para se virar para Shiryu, vestindo apenas a calça do pijama. – Atrapalho? – Shunrei negou, ajeitando-se para sentarem de frente um para o outro. – Não está conseguindo dormir?

- Estava aqui pensando como é bom ter vocês na minha vida. – ela pegou a mão dele, acariciando cada parte dos dedos, do dorso e da palma. – Vocês mexeram com tudo e me fizeram voltar a viver. – engoliu em seco. Ele tocou sua bochecha, o dedão acariciando sua pele. – Você me ajuda a ser mais autêntica e forte a cada dia. A sua resiliência, a sua serenidade, sua concentração e a sua coragem me contagiam.

- Se você soubesse o quanto mudou as nossas vidas. – Shiryu sorriu, a voz parecia uma carícia para Shunrei. – Com a sua força e doçura; com os seus impulsos e a sua vontade de aço, você me tirou de um buraco onde eu nem sabia que estava. – inclinou-se para beijá-la. – Nunca tive uma namorada que também fosse uma companheira. – apertou a mão dela. – Eu amo você, Shunrei Nishi, como jamais pensei que pudesse amar alguém. – ela beijou sua mão, colocando-a para sentir seu coração, vendo o rosto dele brilhar.

- Essa é a prova física do amor que está transbordando dentro de mim e que eu quero que você e Ryuho sintam. – Shiryu a acomodou em seus braços, os dois olhando para a imensidão fora do apartamento.

- Vamos nos empenhar para sempre fazermos bem um para o outro. – Shunrei aspirou o cheiro dele, apertando-o também.

A manhã encontrou os dois dormindo ali no sofá. Ryuho aproveitou para tirar foto em enviar para algumas pessoas.

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(1) Monemvasia: Cidade grega onde começa e onde termina o dorama Chocolate. A Unidade de Cuidados Paliativos é onde acontece a maior parte da ação na mesma série. Lugares belíssimos, produção recomendadíssima. ;-)

(2) Ssamjang: molho de pasta de soja, pasta de pimenta, açúcar, cebolinha, alho, óleo de gergelim torrado e sementes de gergelim torradas. Churrasco coreano é onipresente nos doramas e sempre me intriga. As carninhas são tão pequenininhas, mas eles comem com uma boca tão boa... rsrs!

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Episódio movimentado, hein? Personagens aparecendo pela primeira vez, muita conversa e alguns progressos... rsrsrs!

O que acharam? Me contem aí se esse dorama tem futuro.

Beijos e até o próximo episódio, que vai ter uma mudança brusca de cenário!

Beijos e agradeço por seguirem lendo!

Jasmin