EPISÓDIO 13

Ele a surpreendeu, derramando água com um baldinho em cima do chapéu que a protegia do sol. Ela gritou, espirrando água nele e rindo quando ele pulou dentro da água morna. O dia estava ensolarado e eles haviam encontrado aquela piscina rasa na pequena enseada do hotel. Cheia de águas transparentes e peixinhos coloridos que Ryuho tentava pegar com as mãozinhas.

Era o último dia inteiro em Jeju e resolveram aproveitar a quietude daquela parte da ilha.

- Mamãe Shunrei, olha o que eu achei. – Ryuho trouxe uma concha grande, com várias camadas de azul e branco, descoberta pela movimentação na areia. Afastou a franja comprida e pingando da testa.

"Será que algum dia meu coração vai parar de pular e se acostumar com esse chamamento?" Ele não demorara nem dois minutos depois de aceitá-la como mãe para começar a referir-se assim a ela.

- Se você a colocar no ouvido, vai ouvir o som do mar. – Shunrei mostrou como fazer e viu os olhinhos arregalarem. Ele inspecionou o objeto, colocando de novo na orelha. – Ela guarda o som porque passou muitos e muitos anos vivendo aqui. É a canção que ela aprendeu a cantar. Mesmo se ela for para longe daqui, vai cantar o mar.

- Podemos levá-la para casa? – o garotinho a colocou na água, tirando areia de dentro. - Ela está aqui sozinha.

- Podemos sim, filho. Coloque na nossa bolsa. – ao se virar para acompanhá-lo depositar a concha perto dos pertences, Shunrei viu uma mulher caminhando em direção a eles. De vez em quando, algum hóspede passava caminhando perto do mar. O que parecia incomum era a mulher não se desviar para passar ao largo da piscina natural. – Ui! – Ryuho pulou ao lado dela.

- Vou procurar mais conchinhas, mamãe Shunrei. – informou, mergulhando.

- Bom dia! – a mulher saudou, o vestido amarelo de tecido fino esvoaçando com a brisa e os cabelos castanho-avermelhados longos insistindo em se soltar do chapéu de abas largas. – Não pude deixar de ouvir, o menininho falou que você é mãe dele? – Shunrei fez uma careta pela pergunta da desconhecida, recompondo-se rapidamente.

- Bom dia. Sim, ele é meu filho. – Shunrei viu a mulher olhar demoradamente dela para Ryuho e de volta.

- Ele não se parece com você. – meneou a cabeça. – Só os olhos têm a mesma cor... Pode ser por isso... O formato do rosto, talvez. – ela abaixou um pouco os óculos escuros de lentes grandes. Shunrei fechou a cara.

- Posso saber quem é você? – Ryuho pareceu perceber o tom incomum na voz da mãe. Aproximou-se, segurando sua mão. A mulher pareceu achar o movimento divertido, o que deixou Shunrei mais brava. – Existem outras piscinas mais para frente. Agradeceria se se retirasse. – a mulher endireitou-se.

- Desculpe, não tive a intenção de ser grosseira. – algo na voz dela indicava que não era verdade. – É que você é tão nova para ser mãe. Não se sente sobrecarregada? Não sente vontade de viver a sua própria vida? – aproximou-se mais da borda da piscina. – Ele é muito lindo, não é? Digo, o seu... filho. Deve ser parecido com o pai... Mas é enfadonho. Tedioso. Não sente falta da liberdade, da agitação, das coisas boas da vida?

- Quem é você? – Shunrei sabia que aquilo não era gratuito. – Quem mandou você aqui? – trouxe Ryuho para mais perto.

- Ele é mesmo uma gracinha. – a mulher se agachou, ainda analisando os dois, e Shunrei estufou o peito, ficando entre ela e o filho. – Não imaginei que fosse tanto.

De perto, Shunrei pôde vê-la melhor. Era muito bonita, a pele rosada e limpa, a boca pequena e o nariz arrebitado no rosto fino e os modos precisos. Via que suas roupas – o vestido, o biquini branco, as sandálias de tiras, o chapéu, os óculos e a bolsa grande - eram de marcas caras e teve certeza de seu raciocínio.

- Vou pedir pela última vez para você se retirar. Se não... – a mulher ergueu a mão.

- Calma. Você está aqui para relaxar, não precisa ficar nervosa. – levantou-se, ajeitando o figurino. – Vou procurar uma outra piscina. Até logo, garotinho lindo. – acenou para Ryuho, que a olhava curioso.

Shiryu demorou uma eternidade para voltar da conversa com o proprietário do hotel. Fora fazer os pedidos para o almoço e acabara emendando um debate sobre os pontos que mais gostaram da ilha e sobre as relações entre Coréia e Japão. Quando entrou na piscina, Ryuho e Shunrei estavam fazendo castelos de areia e derrubando-os com ataques aquáticos, nenhum sinal da estranha mulher à vista.

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Saori não conseguia definir suas emoções, o que era estranho para ela. Desde que assumira os negócios do avô, vinha trabalhando arduamente para ter controle do quê, quanto, como e quando sentir.

- E você quer sorvete de quê? – Seiya perguntava ao entregar o copo com as três bolas que Kouga pedira.

- Melão e chocolate. – ela escolheu pelas cores e sorriu quando os sabores combinaram na boca. Recomeçaram a caminhada rumo ao parquinho no mesmo complexo do ginásio, onde levavam o garotinho à tarde, depois dos treinos.

Saori aprendera a esconder o que a fizesse parecer menos profissional ou menos madura. Vira como as emoções poderiam afundar reputações e fortunas e o menor sinal de fraqueza era a oportunidade que muitos aguardavam para destroçá-la.

A vida de menina mimada e super-rica fora arrancada com muita violência e ela tivera que amadurecer rápido demais. Na época, considerou como injustiça da vida. Hoje agradecia. A antiga Saori jamais se envolveria com um lutador de artes marciais e um menino morador de rua.

- Deveríamos deixá-lo subir tão alto? – ela se preocupou por Kouga estar usando o gesso para se segurar nas barras para escalar o brinquedo.

- Se ele subir mais, eu vou lá. – Seiya garantiu, provando a sua mistura de morango com crocante de menta e ginseng. – Ele ainda está testando se pode confiar em nós. – ela sorriu.

- Você sabe lidar bem com ele.

- Eu já estive na mesma posição, com as mesmas dúvidas. – ele observou a reação do menino quando outros dois chegaram no mesmo brinquedo.

Kouga ficou parado. Saori viu os olhinhos castanhos se acalmarem ao ver os adultos atentos aos acontecimentos. Os recém-chegados começaram a brincar sem se preocuparem e logo ele retomou sua própria escalada.

- Obrigado por ter paciência comigo. – ela disse, baixinho. A mão dele a segurou para que ela não levantasse.

- Você está com um olhar de leoa. – ele riu, piscando para ela. – Pensou na minha proposta? – Saori franziu os lábios.

- Vocês vão ficar bem enquanto eu estiver em Tóquio? – ele assentiu. – Quando eu voltar, terei a sua resposta também.

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# Saori Kido: (Encaminhando um vídeo e duas fotos do pedido sob as cerejeiras.) Aaaahhh, que coisa mais lindaaaa! Estou tão feliz por você, Shunrei! Em 15 dias, volto à Coréia e você vai me contar tudo pessoalmente!

# Dr. Lee Kang 'chefinho': A srta. Kido me comunicou. Meus parabéns, Shunrei! Shiryu é um homem de sorte por ter você ao lado. Na próxima semana, vamos comemorar com um jantar.

# June Shiroi 'Shun': Bem-vinda, oficialmente, à família! (Meme de mulheres se abraçando.) Vocês são muito românticos. Assim que puder, me manda um áudio contando como foi!

# Dohko Jiang 'Shi': (encaminhando três vídeos e mais de 20 fotos do pedido.) Estou indo para a Coréia. Chego em oito dias. Há muitos anos não ficava tão entusiasmado!

# Shun Amamiya 'June': Shunrei, não sabe como estou feliz com a notícia! Vocês são amigos queridos e tenho certeza de que fazem bem um ao outro. Assim que chegarem, nos veremos. (emojis festejando e brilho de estrelas.)

# Moon Cha Young: O dr. Lee Kang me contou. Você merece o que a vida tem de melhor a oferecer. Pegue toda a confiança que você tem na profissão e aplique na vida! Dê meus parabéns a Shiryu, por favor. Vocês são lindos juntos! (memes de personagens do cinema com olhar embevecidos.)

Havia algumas outras, transmitindo a mesma alegria com o noivado. Ela precisava reler essas mensagens, agradecendo mentalmente aos amigos pela enxurrada de carinho.

Estava sentada no meio da cama, tentando não transparecer a perturbação em sua mente.

"Preciso falar com ele." Com Ryuho perto, não descobriu forma de contar a Shiryu o encontro com a mulher na praia. "Droga! Logo no nosso último dia! Será que não teremos paz?"

#Eiri Othonos 'Hyoga': Pode me enviar os vídeos e as fotos? Quero guardar para sempre. (emojis de coração.)

- Posso ver as mensagens de novo? – perguntou ao noivo, sentado no chão do quarto tentando fazer origamis de animais com o garotinho. Shiryu assentiu, encaixando a dobra para terminar um sapinho.

- Até hoje estou decidindo qual a melhor foto. – indicou o celular na mesinha de cabeceira.

Shunrei tentou se concentrar nas mensagens de Hyoga, Shun, Seiya, Aiolia, Marin, Ikki, Camus, Dohko (completamente diferente da que enviara a ela. Era um longo texto sobre responsabilidade e maturidade.), Shaina, Shion e Seika. Sua garganta fechou com as pessoas que ela ainda não conhecia felizes pelo amigo e, não pela primeira vez, se comprometeu a seguir firme no seu propósito.

Ao ver a foto da irmã de Seiya, com os cabelos da mesma cor dos da mulher da praia, ela se lembrou onde a vira antes.

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Shiryu observava pelo canto do olho a inquietação de Shunrei. Ouvia os sons dos vídeos que ela passava, um após o outro, escutando seu nome ser pronunciado continuamente pelos locutores das lutas.

- Não quer me ver ao vivo? – ele perguntou do chão, ensinando Ryuho como fazer uma estrela colorida. Sorriu, um gesto convidando-a a ficar com eles diante da porta da varanda aberta, recebendo a brisa marítima.

Ela levantou os olhos desfocados e sorriu.

"Mas os olhos não sorriram." Ele confirmou que algo não estava bem.

- Desculpe, me perdi nos vídeos do bicampeonato. – ela soltou o celular e deitou. – Vou tirar um cochilo antes do jantar. Vocês podem ficar aí, não tem problema. – ele franziu o cenho. Aguardou e a mudança na respiração não aconteceu.

- Ryuho, faça como o papai ensinou com esses três quadrados. Já volto.

Ajoelhou ao lado dela, acariciando os cabelos curtos, beijando seu rosto.

- É alguma dor? – perguntou num murmúrio. - Quer um remédio? – ela sacudiu a cabeça, mantendo os olhos fechados. – O que aconteceu? – ele viu a garganta dela se mover e seu alerta soou.

- Não quero preocupar você. – ela beijou seus dedos. – Hoje é nosso último dia, vamos aproveitar.

Shiryu percebeu o pedido para não prosseguir e assentiu. Insistiu para que dessem um último mergulho no mar azul-turquesa, pensando que a preocupação dela fosse com a volta iminente para a realidade do hospital e da nova vida que eles haviam desenhado em Jeju.

"Talvez esteja planejando como vamos executar tudo aquilo."

Brincaram na água até o entardecer, com Shiryu fazendo-a rir ao atirá-la nas ondas, os dois correndo atrás de Ryuho pela praia ou catando conchinhas para a coleção do filho. Ele ficou feliz ao pensar que sua estratégia funcionara, pois a sombra sumiu dos olhos dela.

- Papai, mamãe Shunrei, olhem! – o garotinho gritou, apontando para os navios de cruzeiro passando ao longe, as luzes refletindo nas águas já escuras do final do dia. Acenou para eles.

O coração de pai acelerava ao ver a alegria e a energia do filho naquela semana. Ele resistira bravamente às exigências físicas dos passeios e tirara de letra as emocionais. Entendia que Ryuho estivera se adaptando à entrada de Shunrei na vida deles, por isso as mudanças de comportamento, hora com ciúmes, hora se aproximando dela. Ele só não previu que os dois chegassem a um entendimento tão espontâneo.

Não sabia a extensão dos planos de Shunrei em relação a Ryuho e ficou impactado quando ela afirmou querer alterar o registro de nascimento dele após o casamento.

"Ela vai até o fim, sempre. Não desiste até conseguir o que quer." Ele se lembrou, vendo os dois caminhando à sua frente de mãos dadas, as silhuetas destacadas pelo sol baixando no horizonte. "Quem diria que a verdadeira mãe de Ryuho estaria nos esperando na Coréia?"

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Shiryu pesquisara bastante para se decidir qual seria o último restaurante dessas férias. Conversara com os proprietários do hotel e com alguns hóspedes, vira as indicações em sites especializados. Sua ideia era encerrar o passeio em grande estilo para voltarem em outras oportunidades.

"Menos de uma hora de vôo. Podemos vir passar finais de semana."

Reservou uma mesa na varanda com vista para o mar em um estabelecimento que lhe disseram não ser tão badalado e ficava perto tanto do pequeno hotel familiar deles quanto da pousada boutique de Hyoga e Eiri.

A noite estava clara pela lua crescente enquanto caminhavam calmamente até o local, que começava a receber os primeiros clientes para o jantar.

- Parece ser um local bonito. – Shunrei gostava de espaços com decoração exótica e a entrada parecia uma das falésias que rodeavam a ilha, com sua fachada de pedras escuras e plantas ao redor.

Aguardaram enquanto dois grupos eram acomodados e ela exclamou ao ver o interior, decorado como um dos palácios que vira nos passeios turísticos de Seul. Shiryu riu intimamente por ter acertado.

- A gente pode comer aqui? – Ryuho admirava o teto de traves altas, pretas com as pontas douradas.

- Boa noite, mesa para três? – o recepcionista, um senhor de uns 70 anos, os cumprimentou formalmente.

- Boa noite. – ele se adiantou. - Seremos cinco. A reserva está em nome de Shiryu Su...

- Shiryu Suiyama! – uma voz feminina exclamou, vinda de algum lugar à direita. Os três se viraram e as reações foram quase instantâneas.

Shunrei fechou os olhos, se perguntando qual a probabilidade de isso acontecer.

Ryuho, lembrando-se do incidente, segurou forte os dedos dela.

Shiryu arregalou os olhos e os pêlos da nuca arrepiaram ao ver a expressão sorridente da mulher.

Ela, claro, riu do efeito que provocara, fazendo seu acompanhante virar-se com um sorriso malicioso para a porta.

Os sangues de Shiryu e Shunrei ferveram.

"O que está acontecendo aqui?" Ele franziu o cenho.

"Eu sabia!" Ela ergueu o queixo, entrelaçando os dedos nos do noivo.

Para eles pareceu uma eternidade, mas deve ter durado apenas alguns segundos, pois logo o senhor tornava a se fazer audível.

- Estão com aquele casal? – os dois sacudiram a cabeça enfaticamente.

- A reserva está em meu nome, senhor. – ele piscou, procurando se concentrar no imediato. - Shiryu Suiyama.

O recepcionista localizou a reserva.

- Queiram me acompanhar.

Shiryu sentiu os olhares deles seguindo-os pelo salão. Quando finalmente chegaram à varanda envidraçada, eles se sentaram e pediram duas garrafas de soju, duas de água e um suco.

Shunrei o encarava, pálida. Respirava pela boca como se tivesse corrido.

Ele tinha certeza de que apresentava o mesmo estado.

"Preciso contar." Os dois pensaram. "Precisamos estar mais unidos do que nunca."

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- Desculpem o atraso. – Eiri disse, estendendo a mão para Shunrei. – Nós acabamos perdendo o horário organizando as malas.

- Viram como a noite está clara? Depois podemos caminhar pela praia, que tal? – Hyoga ergueu as sobrancelhas ao ver as expressões dos amigos que se levantaram para recebê-los.

- Podem ficar com Ryuho um instante? – Shiryu pediu, guiando Shunrei pela porta da varanda para a areia. Caminharam até ficarem longe o suficiente para o garotinho não os ver e ela o abraçou. Ele beijou o alto de sua cabeça. – Você sabia? – perguntou, afastando-a com cuidado. "Preciso olhar para ela." Shunrei assentiu.

- Não queria acreditar que fosse possível. – ela engoliu em seco. – Hoje de manhã, aquela mulher falou conosco na praia do hotel. – ele arregalou os olhos, o que fez o coração dela diminuir de vergonha. - Eu imaginei que ele a tivesse mandado, mas não quis acreditar. Não quis contar para você não ficar preocupado. – ele soltou seus braços. – Eu a vi em alguns dos vídeos, comemorando as suas vitórias. – ela completou, confusa.

- O que vocês conversaram? – ele tentou controlar o tom da voz para não demonstrar o medo que sentia. - Me conte o máximo de detalhes possível. – Shunrei contou, aflita com a reação dele de se afastar e caminhar para longe pela linha do mar. Ela deu alguns passos e desistiu de alcançá-lo, sentando-se na areia, a cabeça apoiada nos joelhos.

Shiryu tentava controlar as emoções que revolviam seu estômago e organizar os pensamentos. Quando percebeu que estava longe dela, xingou-se mentalmente.

"Nunca mais faça isso! Não a deixe sozinha." Apressou-se a sentar ao seu lado.

- Vamos embora. – ela pediu. Ele pegou a mão gelada, querendo tranquilizá-la e se tranquilizar.

- Você nunca me perguntou sobre a mãe de Ryuho. – os olhos verdes moviam-se nervosos nas órbitas. – Isto é, a mulher que o deu à luz e o abandonou.

De repente, como um raio, a compreensão a atingiu. Shunrei não conseguiu respirar e colocou a mão na boca de espanto. Olhou para o restaurante atrás deles, as luzes da varanda douradas àquela distância.

- O nome dela é Taeko Sato. – a voz dele tentava ser suave, embora sua garganta doesse com a passagem do ar. – Ela acompanhou a nossa equipe por um ano inteiro, como fã. Ia a todas as competições. Quando eu venci o campeonato pelo segundo ano consecutivo, nós tínhamos começado a sair juntos. – respirou fundo e piscou várias vezes. – Num impulso de vaidade e orgulho, nos casamos. Ela achou que viveria a vida de esposa de um atleta famoso e logo engravidou... Eu só vou conseguir se você olhar para mim. – murmurou porque Shunrei insistia em desviar o olhar para o restaurante.

- Estou preocupada e nervosa. – ela fechou as pálpebras para se recompor. "Preciso estar com ele agora. Calma, Shunrei. Vocês vão resolver isso." Seus olhos fixaram nos dele.

- A nossa vida não era luxuosa e Taeko descobriu que eu não era o lutador brilhante o tempo todo, não havia adrenalina 24 horas por dia. Ela não gostava de rotina e eu não sabia como agradá-la. Não consegui fazê-la feliz. – parou e não continuou até que sentiu os dedos de Shunrei em sua bochecha. – Quando Ryuho estava com seis meses, ela foi embora. Eu a procurei por muito tempo. Há dois anos, soube que ela viera para a Coréia. Cortei qualquer comunicação com a minha família. Eles não entendiam porque eu vim. Depois, Seiya nos localizou em Busan e passou a nos visitar.

Shunrei fora capaz de montar uma parte da história com as pequenas pistas que tivera em conversas com um ou outro dos amigos do noivo. Mesmo com esse conhecimento prévio, foi difícil para ela ouvir sem se sentir brava com ele. Supusera que não teria que lidar com esse passado de Shiryu.

- Você não queria que Ryuho crescesse sem mãe. – ele assentiu. Ela não queria, mas assumiria esse papel. – E o privou de crescer com a família que tanto ama vocês. Você mesmo já falou o que o motivou no relacionamento com ela: orgulho e vaidade. Foi o que trouxe você à Coréia, consegue reconhecer isso? – ele não esperava a voz dura dela, assentindo quase com formalidade. – Foi por ela que brigou com Dohko? – os lábios dele contraíram.

- O Mestre nunca concordou com nosso relacionamento, desde o início. Em algum momento, ela me convenceu de que eu não precisava mais dele... – a voz quebrou e os olhos encheram d'água. Shunrei o proibiu de abaixar o rosto.

- Se vamos enfrentar aqueles dois, precisamos saber onde estamos e como nos sentimos, para estarmos fortes e seguros juntos. – ela afirmou, decidida. A fragilidade de Shiryu acendera uma luz vermelha em sua mente. "Não vou permitir que nos joguem de volta na escuridão." – A minha história com Julian você conhece e tem me apoiado. Está na hora de eu fazer o mesmo. De alguma forma, ele a encontrou e a trouxe aqui para nos atormentar. A minha pergunta é: o que de concreto ela pode fazer contra nós? – ele olhou para o céu estrelado e mudou de lugar, sentando-se de frente para ela.

- Estamos divorciados. Nosso casamento foi com separação de bens, a última interferência do Mestre e que se mostrou acertada. Há uma denúncia contra ela por abandono de incapaz. – engoliu em seco. – Não sei se ela pode reivindicar algum direito sobre Ryuho.

- Podemos perguntar a Eiri. – Shunrei queria que ele refletisse. – Acredito que, em algum momento, ele precisará saber. Hoje ela deixou bem clara sua falta de interesse pelo filho, mas tenho certeza de que Julian vai dissuadi-la. Então, legalmente é isso que precisamos descobrir. – mordeu o lábio antes de prosseguir. – Shiryu, eu preciso saber: o que você sente por ela? O que sentiu quando a viu? O que sente agora? – ele a olhou intensamente.

- Nada. Quando a vi, fiquei assustado e furioso, com medo do que ela poderia fazer. – ele conseguiu se acalmar com as observações objetivas de Shunrei, percebendo o que realmente tinha acontecido, retomando a posse de si. – Taeko não é uma mulher má, ela é egoísta. Nisso, ela se parece com Julian. – um sorriso passou rápido por seus lábios. - Agora estou me sentindo um idiota por ter caído tão fácil na armadilha deles.

- Somos dois idiotas, então. – Shunrei sentenciou, também tentando sorrir.

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- Como é que é? - Eiri arregalou os olhos cor de mel. – Os ex de vocês estão aqui nesse restaurante? Juntos?

As duas estavam na mesa, aproveitando o tempo depois do jantar para conversarem ao som das músicas da playlist do restaurante. Eiri reconhecia muitas delas das trilhas das produções que assistia.

- Mais do que nunca, vou precisar da sua ajuda, Eiri. – a amiga assentiu. – Só posso supor o que Julian e ela estão maquinando.

- Já pensou se, ao invés de esperar, você fizer o próximo movimento? E não estou dizendo legalmente. – Shunrei a ouvia com atenção. – Ele está te pressionando. Pressione de volta!

- Nós demoramos a nos recompor. – Shunrei suspirou, observando os três irem se despedir do mar. Ergueu as sobrancelhas com o riso da amiga.

- Me desculpe, mas não tem como não achar graça. Parece que a vida de vocês virou roteiro de dorama! – Shunrei riu. – Você só tem que me prometer que não vai arrumar um pretexto para ir embora de repente.

- E deixar os meus homens para outra mulher? – Eiri piscou animada por ela entrar no clima. – Eles que me aguardem!

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– Você precisa voltar a Tóquio, Shiryu. – Hyoga comentou baixo. Os dois observavam Ryuho um pouco à frente, com uma varetinha que encontrara, cutucando a areia em busca de conchas. - Fora do alcance desse Julian Solo.

- Não posso, você sabe. A vida de Shunrei é em Gangseo-gu. – Shiryu pediu ao filho para não ficar tão longe. – Quem sabe, com o tempo, a obsessão dele por nós diminua?

- Como foi revê-la? – Hyoga olhava para as ondas que vinham tranquilas até perto deles. Shiryu suspirou antes de responder.

- Eu imaginei tantas vezes como seria revê-la. O que eu diria? Será que a perdoaria? Por que eu tinha ido tão longe atrás dela? Valeu a pena? – Hyoga ergueu as sobrancelhas e soltou um riso abafado. – Não senti nada além de incômodo pela presença dela e a forma como se aproximou de Shunrei e Ryuho me deixou furioso. Mas não vou lidar com eles com minhas emoções. – Hyoga concordou.

- Ouvi Seiya e Marin conversando a respeito de Julian Solo. Só vai desistir se encontrar algo que o atraia mais, que seja mais vantajoso para ele. – Hyoga chamou Ryuho para ver uma conchinha rosa. – Ou mais divertido ou danoso à sua posição. Taeko é apenas uma ferramenta da diversão dele.

- Não vou deixar que eles interfiram! – Shiryu exclamou quando o filho correu de volta para a linha do mar. - Nenhum dos dois tem o direito de nos cobrar absolutamente nada. Não vou permitir.

- Então você sabe o que precisa fazer. – Hyoga se adiantou para perto de Ryuho, deixando o amigo com a expressão decidida.

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Os dois entraram no pequeno quarto do filho quando já passava da meia-noite.

Shunrei abriu o edredom e tirou os tênis e a calça jeans quando Shiryu o colocou na cama.

- Ele se esforçou demais. – ela murmurou, vendo o garotinho agarrar a pelúcia de estrela que ganhara no primeiro dia da viagem.

- Estava vibrando com o ambiente, os tios, o mar e as conchinhas. – ele respondeu, fechando a porta de comunicação quando saíram. – Ele vai sonhar por muito e muito tempo com tudo isso aqui.

Eles foram os últimos a sair do restaurante, o que ajudou a acalmar mentes e corações. A conversa fluía tão natural entre os cinco que os fez voltar mais leves para o hotel.

Shiryu trocou a roupa, guardando-a na mala e vestindo a bermuda do pijama. Sentou na cama e passou a observar com interesse Shunrei se despir e vestir sua camisola de tecido fino enquanto penteava os cabelos.

- Me ajuda? – pediu quando ela passou para colocar sua própria roupa na mala e piscou para ele.

Shunrei sorriu sabendo o que viria, pegando o pente e se ajoelhando atrás dele.

- Já te disse que amo seu cabelo? – ela comentou, seus dedos ajudando os dentes largos do pente, sentindo-o arrepiar com o toque. – A textura, - deslizou as mãos pelos fios até o elástico da bermuda. - o brilho, o cheiro. – seu nariz abriu caminho até a nuca, fazendo-o ofegar.

- Vivem me oferecendo altas quantias. – ele buscou as coxas dela atrás de si, acariciando-as suavemente. – Qualquer hora, eu aceito. – suas mãos deslizaram sob o tecido, apertando a pele sedosa e macia. – Ou você gostaria que eu o mantivesse? – ela ajeitou-se para ele alcançar mais partes de suas pernas.

- Sou favorável a que você mantenha cada centímetro desse corpo. – os dedos dela, terminado o serviço capilar, dedicavam-se a massagear ombros e pescoço. Shiryu inclinou a cabeça para frente, abrindo a boca para aliviar a pressão do coração começando a se alterar.

- E o que você tem a oferecer para essa manutenção. – ele encostou mais as costas, conseguindo acessar os quadris por cima da camisola. Puxou-a, fazendo-a rir perto de seu ouvido. Sentiu o hálito fresco do creme dental.

- Tenho pouca coisa. – os lábios dela entraram em ação, beijando pontos sensíveis do Dragão verde. – Alguns beijinhos e carinhos. - as mãos se aventuravam na fronteira entre a pele bronzeada e a bermuda. – Uma vida tranquila de marido e assistência médica gratuita.

- A vida tranquila eu duvido, mas tudo bem. – ele riu, beijando mãos e braços. – Assistência médica, na minha profissão, nunca é demais. – virou a cabeça para alcançar a boca dela. – Os beijinhos e carinhos eu preciso ver para avaliar. – girou o corpo e a puxou para se encaixar em seu colo.

Shunrei encostou a testa na dele, não o deixando beijá-la na boca, a respiração acelerando com as mãos incendiárias dele subindo embaixo da camisola. Os movimentos cadenciados de seus quadris surtindo efeito rápido entre suas pernas.

- O que você me oferece para vê-los? – sussurrou para os faiscantes olhos verdes. As mãos espertas já estavam acariciando-os.

- A minha vida. – ela ergueu uma sobrancelha, mantendo a boca longe da dele. - Do fim até o início. – ele segurou seus quadris e a forçou contra ele, fazendo-os estremecer de desejo.

- Você não sabe negociar. – Shiryu sorriu quando pôde libertar os seios pequenos da camisola e senti-los em sua boca, tocar os mamilos rígidos com a língua.

- Adoro quando você não veste nada por baixo. – Shunrei finalmente o deixou beijá-la impetuosamente.

- Sincronicidade. – ele riu com a demonstração da perícia dela ao desfazer-se da bermuda.

Muito depois, na alta madrugada, os dois corpos moles e ainda quentes, impregnados um do outro, foram para baixo das cobertas, não deixando de se atrair.

- É uma sorte você sempre ficar acordado. – ele achava adorável como ela ficava descabelada e vermelha por algum tempo, a expressão de lânguida satisfação.

- Os seus olhos. – ela pensava quando pararia de ficar encabulada com aquele olhar intenso sobre si todas as noites. – Tem constelações dentro deles. – Shunrei sorriu, envergonhada. – Quando fazemos amor consigo ver. Não há possibilidade de eu dormir.

- Às vezes, você diz coisas tão inesperadas, Shi. – ele sentiu o corpo dela se encaixar na curva do seu. Gostava do modo como soava na voz dela.

- Você me faz pensar em coisas inesperadas, Shu. – ela sorriu pelo uso dos diminutivos. Aprendera com Eiri e resolvera adotar na intimidade deles. – E também faz coisas inesperadas.

- Por isso a gente forma uma boa dupla. – ele bocejou, ganhando um selinho antes que ela se aninhasse em seus braços. – Ainda bem que nosso vôo não é tão cedo... Shi? – ele emitiu um som sinalizando que estava ouvindo. Ela pensou no que aquelas palavras significariam depois dos acontecimentos de hoje. – Vamos conseguir passar por isso se ficarmos juntos. Eu nunca vou desistir da nossa família. Quero muito que dê certo entre nós. Acredito no nosso futuro.

Ele a envolveu mais, acariciando seus cabelos.

- Não sabia que pronomes possessivos eram tão sensuais.

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Em algum momento ela tinha que aparecer, né? Espero realmente que o Shi tenha sido sincero com a Shu e consigo mesmo. Será que vai ter tumulto por causa da "mãe" do Ryuho?

E agora, depois de uma semana na Ilha dos Deuses, no próximo episódio voltamos a Gangseo-gu e vai ser novamente movimentado.

Chegamos à reta final da fic e ainda estou querendo saber a opinião de vocês sobre a história, os personagens, se está muito rápida ou o ritmo está bom, enfim, me escrevam com as observações, sugestões, elogios e reclamações. ;-)

Agradeço por continuarem lendo!

Beijos,

Jasmin