EPISÓDIO 14

Saori olhou para a cidade passando rapidamente pela janela no carro. Conseguira acertar a contratação com o Conselho Geral da Fundação ainda antes do Campeonato, o que ela considerou uma vitória pessoal.

"A prova de que era uma demanda reprimida." Seus dedos tamborilavam na pasta com os contratos e gráficos. "Minha primeira grande aposta, depois de tantos anos mantendo os seus investimentos, vovô. Por favor, que seja um bom caminho."

Os dois advogados vieram de Tóquio especialmente, por isso a reunião precisava ser realizada o quanto antes.

# Seiya 'Alado' Ogawara: Acabei de sair do aeroporto. Chego no restaurante em 50 minutos. (emoji mandando beijo com coração e de garota correndo.)

# Saori 'Deusa' Kido: Estamos saindo para lá agora. Estou com saudades. (meme de beijos e corações piscando.)

# Seiya 'Alado' Ogawara: Eu também. (emoji de coração.) Quem ficou com Kouga?

Ela sorriu, as fotos dos dois rapazes passeando no parque ou na cama do hotel vindo à superfície da memória.

# Saori 'Deusa' Kido: As meninas da Marin estão com ele e Ryuho no hotel. Elas disseram que ele pode dormir lá com elas. (emojis piscando e de ponto de exclamação.)

Ela sacudiu a cabeça, os olhos violeta brilhando, guardando o celular para responder aos dois homens no banco à sua frente.

o.o – 0.0 – o.o – 0.0 – o.o

Shunrei chegou mais cedo, escolhendo uma mesa em um local de pouca circulação. Àquela hora, o Mystic Pop-Up Bar ainda não estava cheio. Pediu uma garrafa de soju e um prato de bolinhos de arroz com lagosta.

"É a última oportunidade que dou a ele." Resistiu à vontade de pegar o celular porque queria se concentrar nas palavras que diria. Passara o dia repassando anos de relacionamento em busca de dicas de como negociar. "A obsessão dele ultrapassou todos os limites."

- Boa noite, minha cara. – Julian acomodou-se à sua frente, entregando uma rosa vermelha. Shunrei a deixou ao lado do prato. – Aguardei ansioso o seu contato. Fez boa viagem de volta? – ela permaneceu séria.

Ele trajara-se com capricho, usando o terno cinza e o relógio dourado que ela lhe dera de presente. Usava o perfume que ela mais gostava e seus cabelos azuis brilhavam macios. Ela engoliu em seco, consciente que seria uma batalha difícil.

- Julian, você sabe o motivo desse encontro. – ele pediu uma dose de whisky. – Podemos conversar como adultos? – deve ter sido o tom de voz firme e sereno que ele desconhecia, mas o sorriso sedutor sumiu de seus lábios.

o.o – 0.0 – o.o – 0.0 – o.o

O restaurante era próprio para reuniões de negócios, com salas de variados tamanhos oferecendo privacidade aos grupos e equipamentos para videoconferências em várias conexões simultâneas. E aquele era um grupo grande: Marin, Aiolia, Seiya, Hyoga, Shun e Shiryu presencialmente; Camus, Shaina, June e Shion por vídeo. Eiri os auxiliaria com a parte legal.

- Dohko está em vôo. – Aiolia informou quando conseguiram conectar todos. – Conversamos durante a semana. Ele fez algumas observações que poderemos discutir essa noite. É a primeira oportunidade que temos de ter um único patrocinador e vamos esclarecer tudo antes de formalizar qualquer decisão.

Enquanto conversavam, pediram bebidas não-alcóolicas e kimbaps de variados formatos e sabores.

- Acredito que precisamos pedir maiores detalhes sobre a seção que fala da exclusividade de imagem para não termos surpresas. – Camus observou, indicando a página. - Até onde vai esse direito?

- Aiolia, o fundamental é sabermos qual a nossa margem de atuação. – Shion ponderou. – Por exemplo, se esse contrato dá direito à Fundação determinar quais as competições das quais participamos. É um documento bem escrito, mas é importante sabermos os limites reais dele.

Marin concordou. Ela ajudara a redação dessa versão do contrato e admitia que algumas questões não foram cogitadas.

- A srta. Kido virá com representantes da Fundação Graad para que possamos fazer os ajustes hoje. – ela disse, olhando para os amigos na tela.

Há semanas debatiam a proposta e finalmente chegaram a um entendimento que possibilitou as negociações que terminariam hoje. Saori chegou, acompanhada pelos advogados, e a reunião teve início.

o.o – 0.0 – o.o – 0.0 – o.o

A conversa estava truncada e ela não via como sair do impasse.

- Julian, ele é apenas uma criança de seis anos. Para quê envolvê-lo nesse assunto? – o homem negou novamente, o copo de whisky e gelo rodando em sua mão. – Se você traz a mãe biológica dele para o cenário, você o está envolvendo.

- Quem envolveu o menino foi você, ao se envolver com o 'pai' dele. Deveria ter pensado nisso antes.

"Como eu saberia que você é um canalha egoísta desse calibre?" Ela respirou fundo para não perder a linha de raciocínio.

- O que Sorento acha desse comportamento? – citar o irmão Solo mais velho era sua última cartada. O rosto de Julian contorceu-se numa careta. – Pense no que ele diria se soubesse das suas últimas ações. – ele semicerrou os olhos. Ela continuou, a voz mais suave. – Julian, não me faça me arrepender do tempo que passamos juntos. Você não precisa de mim, pode ter a mulher que quiser.

- Acontece que eu quero você! – ele exclamou, olhando-a magoado. – Você é a mulher certa para mim, não importa o que a minha família pense.

- Peço que você reflita, converse com Sorento e seu pai. Eles querem o melhor para você e você sabe disso. – ela suspirou. – Chega de ser o rebelde da família.

- Eu não vou desistir de você, Shunrei! – ela franziu os lábios, desistindo. – Estou disposto a relevar os seus deslizes e esquecer essa sua 'aventura'. – Shunrei fechou os olhos e suspirou, voltando ao tom firme do início.

- Julian, você tem me perseguido, tem falado com meus colegas de trabalho, com meu chefe, ligado para meu trabalho várias vezes ao dia. Importuna Saori. Sei que colocou pessoas me seguindo. Tudo bem, eu aguento. – ele ia protestar, mas ela falava muito rápido. - Continue a fazer isso o quanto quiser. Faça até se fartar. Ligue para mim o dia todo, mande mensagens, áudios, eu não vou reclamar. – pegou o celular e desbloqueou o contato dele. – Faça o que quiser até se lambuzar, mas não vou mais permitir que envolva Shiryu e Ryuho nisso!

o.o – 0.0 – o.o – 0.0 – o.o

A equipe alugara todo o 12º andar do hotel, numa parceria para divulgação recomendada no site da Liga Internacional como hospedagem para atletas. Shunrei habituara-se a ver os membros pelos corredores, conversando animados nas portas dos quartos. Dessa vez, apenas os mais novos e a equipe médica estavam por ali. Indicaram o quarto onde os meninos aguardavam.

- Olá, você deve ser a Shunrei. – a adolescente que abriu a porta a cumprimentou. Seus olhos lembravam os amendoados da mãe, embora a cor verde-oliva e os longos cabelos loiro-escuros certamente fossem herança do pai. Vestia um top e um shorts curtinho como pijama.

- E você é a Yuzuriha. – Shunrei sorriu em resposta ao sorriso dela. – Ainda não consegui ir aos treinos. Muito prazer. Está gostando de Gangseo-gu?

- Bastante! De vez em quando até vamos passear. – Yuzuriha a convidou a entrar. Ryuho e Kouga desenhavam e conversavam baixinho na escrivaninha.

- Eles deram muito trabalho? – a adolescente negou. – Não vou demorar, sei que vocês têm treinamento amanhã bem cedo. – Shunrei ouvia o barulho do chuveiro. "Elas precisam descansar bem. Melhor levar os dois mesmo."

- Foram supreendentemente comportados, por mais que nós tenhamos provocado. – Yuzuriha falou, a seriedade da expressão tornando o comentário engraçado.

- Mamãe Shunrei! – Ryuho exclamou quando ela lhe beijou a cabecinha.

- Olá, Kouga. – beijou os cabelinhos vermelhos também. – Vamos organizar as mochilas para irmos? Kouga, você vai dormir conosco hoje, tudo bem? – Ryuho levantou-se imediatamente, começando a recolher os brinquedos que trouxera. Kouga, entretanto, engoliu em seco, o lápis de cor tremendo levemente no papel.

- Onde está o sr. Seiya? Ele disse que eu iria dormir aqui. – o garotinho não se mexeu, encarando-a com os olhos enormes. Shunrei reconhecia o temor que ele não conseguia expressar. Nas missões da ONU que participara, era a pior das doenças com a qual ela tinha que lidar: o trauma infantil pelo abandono, involuntário ou não. – Aconteceu algo com a srta. Saori? Ela disse que voltaria hoje.

- Eles estão bem. – um leve sorriso se formou nos lábios dela. – Fui eu quem pediu ao Seiya para você ir dormir com Ryuho, afinal vocês são amigos, não são? – ele olhou em dúvida para o moreninho, que colocava a mochila nas costas.

- E os amigos ficam juntos. – Ryuho comentou, encorajando Kouga a pegar seus brinquedos.

- Quer que eu desça com vocês? – Yuzuriha ofereceu. Shunrei sacudiu a cabeça.

- Só de terem ficado com eles já foi de uma ajuda enorme! Agora, meninos, se despeçam da srta. Yuzuriha. – os dois fizeram reverências e a adolescente fez o mesmo. – Agradeço demais a você e sua irmã. Com certeza teremos tempo para conversar melhor depois do Campeonato.

o.o – 0.0 – o.o – 0.0 – o.o

- Desculpe ter pedido para você me esperar, Shiryu. – Saori entrou no apartamento ensolarado. – Não consegui vir mais cedo.

- Tudo bem. – ele a guiou para a sala. – Nós acabamos de deixar Ryuho na escola. – reparou no olhar dela, procurando os cabelinhos vermelhos. – Kouga ficou muito aflito ontem. – Shiryu usou o tom mais suave que conseguiu. – Pensou que vocês queriam se desfazer dele. – os olhos violetas arregalaram.

- Onde ele está? – ele sinalizou para ela se acalmar.

- Está no quarto de Ryuho. – a expressão dela estava confusa. – Podemos conversar um pouco? – ela piscou e assentiu. – Kouga é um menino com uma grande vontade de viver, muito inteligente. Às vezes, até esquecemos que ele é apenas uma criança e precisa se sentir seguro. – Saori mordeu os lábios. – Não é fácil saber como agir. Eu fico confuso desde o nascimento de Ryuho. – um sorriso passou rapidamente pelo rosto dele. – Por favor, não pense que quero me intrometer, mas se tivessem conversado comigo quando Ryuho era mais novo, teria sido menos difícil. – Saori sacudiu a cabeça.

- Agradeço qualquer sugestão que você tenha, Shiryu. É um território completamente desconhecido para mim.

- Você decidiu o que fará? – ela engoliu em seco.

- Eu quero adotá-lo. Já pedi a Eiri que providencie a documentação. Vou adotá-lo aqui e fazer o registro também no Japão. – ela suspirou. – Conversei com Seiya ontem... Precisamos resolver como será essa adoção, se ele vai participar ou não... – ele sinalizou que compreendia.

- É uma grande responsabilidade e um presente para Kouga. – ela tentou sorrir e Shiryu percebeu que sua mente estava acelerada e cheia de dúvidas e emoções fortes. – Ele é um garotinho fácil de gostar... Saori, você sabe que nós moramos algum tempo nas ruas de Tóquio? – ela confirmou. – Quando aqueles que seriam nossos mestres nos ofereceram acolhimento, o único motivo de aceitarmos foi que Marin estava com eles. Ela pode aparentar ser rígida, entretanto, a forma como ela estava sempre presente nos deu a segurança que precisávamos para nos abrir para a nossa nova vida. E todos eles, por mais dúvidas que tivessem, sempre nos acompanhavam e eram cuidadosos conosco. Acredito que seja algo assim que Kouga precise agora: presença, comprometimento e segurança para que ele consiga confiar. O sentimento de abandono é muito dolorido para uma criança. Acaba se tornando uma ferida na alma. – Saori o ouvia séria.

- Acho que entendo o que está me dizendo, Shiryu. – ele viu um brilho decidido nos olhos violeta. – E você tem toda a razão, não foi certo o que fizemos ontem com Kouga. Em todas as ocasiões que me lembro, você sempre conversa com Ryuho e está atento a ele. – o amigo sorriu.

- A gente aprende com o tempo. Você vai ver como ele responde rápido quando começar a incluí-lo na sua vida.

O ruivinho não se virou quando a porta se abriu, mesmo após Saori o chamar. Shiryu a encorajou a ir até ele.

- Olá, Kouga... – ela respirou fundo, vendo o rostinho contraído, tentando segurar o choro. Ajoelhou-se ao lado dele, que construía uma cidade com os blocos coloridos. – Você pode me perdoar? Eu deveria ter vindo buscar você ontem. – ele derrubou um dos prédios com a mãozinha trêmula. Recolheu o punho fechado.

- Tudo bem, srta. Saori. A senhorita devia ter coisas importantes para resolver. – a voz tinha raiva, tristeza, umidade, frio, mágoa. Ela se espantou por conseguir identificar tantas emoções e sensações apenas no tom que ele usava. – Eu não quero atrapalhar nem ser um estorvo para a senhorita. – Saori franziu a testa, imaginando onde ele ouvira essas palavras. Passou a mão de leve pelos cabelos que apontavam para todos os lados.

- Eu realmente tinha coisas para resolver, mas não estava no meu juízo perfeito, sabe? – engoliu para fazer a garganta parar de doer. – Nenhum assunto é mais importante do que vê-lo depois de tanto tempo fora de casa. – ele a olhou, espantado. – E nenhum nunca será mais importante para mim do que você. Não vou mais cometer esse erro, é uma promessa. – ela viu os lábios dele tremerem no rostinho pálido e o esforço para se conter.

- A senhorita veio me levar para a sua casa? Não se cansou de mim?

- Se você aceitar, vou te levar para a 'nossa' casa. – Kouga olhou para todos os lados, endireitando-se na cadeira. Piscou para Shiryu parado na porta. O adulto assentiu para ele. Fixou as enormes pupilas na mulher, os olhos ardendo.

Saori viu o sorriso vacilante e ele, timidamente, entrar no meio de seus braços. Quando finalmente se levantaram para partir, encontraram apenas um bilhete de despedida de Shiryu na bancada da cozinha.

o.o – 0.0 – o.o – 0.0 – o.o

Os três chegaram cedo ao portão de desembarque.

O Aeroporto Internacional de Incheon, o maior da Coréia, estava cheio àquela hora e eles se distraíam vendo pessoas das mais variadas nacionalidades passando pelo portão. Quando o vôo procedente de Nova Delhi foi anunciado, a ansiedade aumentou.

- O desembarque aqui não é demorado. – Shunrei comentou, falando por experiência própria. – Se quiser, já podemos ficar ali na saída.

Shiryu assentiu, o rosto pálido. Levantaram e foram para o final do corredor humano que se formava a cada chegada de aviões.

O homem apareceu na porta, a expressão meio perdida comum a todos os viajantes de primeira aterrissagem em algum aeroporto. Shiryu prendeu a respiração e engoliu em seco. Shunrei apertou sua mão. Ela o reconheceu imediatamente, com a calça jeans surrada, camiseta branca, jaqueta de couro vermelho-escura e uma enorme mochila nas costas. Os cabelos castanhos apontavam para todo lado após mais de 12 horas dentro do avião e o rosto estava amassado, mas era Dohko, sem dúvida.

Shiryu deu um passo à frente e acenou. Assim que seu Mestre se aproximou, ajoelhou-se com a testa no chão, prostrando-se diante dele. Seu coração batia no alto de sua cabeça de tão nervoso e envergonhado ao ver a expressão séria de Dohko. Shunrei e Ryuho ficaram um pouco afastados. Ela também estava emocionada. Pensara centenas de vezes como seria esse reencontro.

- Aquele é o Mestre Dohko, mamãe Shunrei? – o garotinho perguntou, observando o homem com a pele tostada pelo sol impassível na frente de seu pai. – O que o papai fez de errado?

Ela sorriu, sabendo que essa curiosidade era a forma dele expressar a vontade de ir ficar junto com o pai. Os dois fizeram questão de vestir roupas parecidas, o terno tradicional chinês de gola mandarim, em homenagem à terra natal do Mestre. O de Shiryu grafite e o de Ryuho verde-clarinho com detalhes do punho e da gola verde-escuros.

- Vamos esperar aqui. – Shunrei se abaixou para tentar acalmá-lo. - O papai está pedindo desculpas ao sr. Dohko. Logo iremos até lá.

O Mestre não parecia apressado em tirá-lo da Dogeza (1). Esperou a aglomeração dos encontros no desembarque se dissipar, sua atenção totalmente voltada ao discípulo aos seus pés. O estado de ânimo de Shiryu continuava alterado, a tensão alojando-se em todas as células de seu corpo. Ele sabia as palavras duras que dissera sete anos atrás, sabia que outros mestres alienavam seus acólitos por muito menos, contudo, começou a nutrir esperanças ao ver a mensagem de Dohko para Shunrei.

- Erga a cabeça. – ouviu o tom de comando e obedeceu, mantendo a vista baixa. – O que você quer me falar? – Shiryu respirou fundo para controlar o tremor na voz.

- Eu me arrependi assim que pronunciei as palavras, Mestre. Aprendi. Quero mostrar ao senhor que aprendi a lição. Peço o seu perdão. – Dohko deixou as palavras assentarem, significativas, entre os dois. Shunrei viu os olhos escuros brilhando ao olhar para ela e Ryuho.

- Pensei que você iria me apresentar sua família, garoto. – Shiryu piscou, levantando o olhar para a expressão agora serena do Mestre. – Por hora, nós ficamos por aqui. Depois conversamos melhor. – Shiryu assentiu. – Vamos, ou você quer que eu me apresente sozinho? – bateu no ombro do discípulo rebelde.

- É um prazer finalmente conhecê-lo. – Shunrei sentiu o sorriso caloroso dele, fazendo uma longa reverência. – Espero que tenha conseguido dormir.

- Dohko Jiang. Você nem imagina a minha alegria em conhecê-la. Nem dormir e nem comer! – ele informou casualmente. – Não consigo em vôos longos. – ela abriu a boca.

- Vamos para casa logo, então. – olhou para Shiryu. - Tem um jantar especial para o senhor. – Dohko balançou uma mão, sinalizando para ela parar.

- Se vai começar a me chamar de senhor, vou para o hotel de Aiolia e Marin. Eu devo ser, o que, uns quatro anos mais velho que você. – Shiryu emitiu um som irônico. – O que foi?

- Shunrei é um ano mais nova do que eu, Mestre. Logo, o senhor é oito anos mais velho que ela. – Dohko manteve a instrução, piscando para Shunrei.

- E esse rapaz é Ryuho? – o garotinho o olhava admirado com o tom da voz animado e a figura de postura marcante. Fez uma reverência, que o adulto retribuiu com satisfação. – A última vez que te vi, você era desse tamaninho. Agora está grande e forte!

Shunrei conseguia perceber como os dois homens estavam desconcertados um com o outro. Era palpável o carinho mútuo, principalmente nos tons das vozes, mas eles precisariam de coragem para que o relacionamento recomeçasse.

Shiryu sentia seu coração expandir enquanto voltavam para o carro. Dohko levava Ryuho pela mão, contando os países que visitara e as maravilhas que presenciara. Suspirou com os dedos de Shunrei entrelaçados aos seus.

- Está pesada? – ele sacudiu a cabeça, ajeitando melhor a mochila nos ombros. – Ele é sempre assim? – ele sorriu, confirmando. – Sinto que ele era a peça que faltava. – nova confirmação. – Não deixe a conversa para amanhã. – ela pediu, beijando as costas da mão dele.

o.o – 0.0 – o.o – 0.0 – o.o

- Encontrou tudo que precisava? – Shunrei perguntou assim que ele apareceu na sala com os cabelos úmidos e uma roupa mais confortável.

- Sabe há quanto tempo não usava uma toalha tão macia? – Dohko riu. – O cheiro está ótimo! Onde eu posso ajudar?

- Sentado aí e conversando comigo. – ela estava terminando de colocar a comida nas travessas. – Eles estão tomando banho. Nós fomos direto do ginásio para o aeroporto. Quer um copo de refresco? Temos vinho também, mas acho que não fará bem antes de comer alguma coisa. – ele aceitou o suco, ajudando-a a arrumar a mesa.

- É impressão minha ou esses são meus pratos favoritos? – ela riu com ele comendo uma das gyozas. – Porco, berinjela, alho-poró e tofú. Que saudades! Chongqing (2)! – pegou a tigela e cheirou. – Desse jeito o hóspede não vai embora, hein?

- A intenção é exatamente essa. – ela sentou e o convidou a tomar o lugar em sua frente. – A gente arrumou o quarto para você ficar. Você tem as senhas. É para ser a sua casa.

- De que parte da China você é, Shunrei? O seu sotaque me é familiar. – ela meneou a cabeça.

- Nasci em Rozan, mas saí de lá há muitos anos. Pensei que tinha perdido o sotaque. – viu os olhos castanhos arregalarem.

- Quando eu digo que não há coincidências nessa vida... Eu sou de Rozan! – ela engasgou com o suco.

- O que?

- Saí de lá quando tinha 13 anos. – a expressão dela paralisou na surpresa. – Fui criado pelo Mestre Ancião. Sabe quem é ele? O senhor que morava perto da Grande Cachoeira. – ela ficou completamente aturdida.

- Então você é o discípulo que foi embora na semana que eu cheguei à casa do Mestre! – foi a vez de Dohko perder o rumo.

o.o – 0.0 – o.o – 0.0 – o.o

- Você chama Ryuho? – Shiryu pediu baixinho, pegando as duas taças e a garrafa de vinho.

- Filho, - Shunrei chamou o garotinho, que estava sentado no colo de Dohko em uma das poltronas perto da fachada panorâmica de vidro. - você quer mais um pedaço de Bolo da Lua (3)? – viu o noivo puxar uma cadeira para perto do Mestre e torceu. – Vamos comer assistindo Meu Amigo Totoro (4)? – porque a TV ficava no lado oposto da sala.

Ryuho já dormia com a cabecinha em seu colo quando ela ouviu atrás de si sons de mãos batendo em costas e as vozes embargadas. Só então soltou a respiração.

- Vamos todos dormir? – Shiryu, com os olhos inchados, convidou, pegando o filho no colo. – Amanhã o dia começa cedo.

- Sabia que as boas ações valem bônus na outra vida? – Dohko murmurou, sentando-se ao seu lado. Beijou a mão dela e Shunrei viu os olhos vermelhos. – Boa noite, Flor de Rozan.

o.o – 0.0 – o.o – 0.0 – o.o

- Fazia muito tempo que eu não o via de quimono. – ela lançou um sorriso de aprovação quando Shiryu se aproximou. – Trouxe recordações.

- O que está fazendo aqui, Taeko? – ele subiu da arena até a arquibancada onde ela se alojara, depois de pedir a um dos membros da equipe para avisá-lo. – Como entrou aqui? – ela ergueu as sobrancelhas bem maquiadas.

Shiryu via que ela se empenhara em estar linda e cheirosa, o que só aumentou seu desgosto pela situação.

- Esqueceu que eu 'sei' entrar nos treinos de vocês? – Taeko piscou, voltando a atenção para os lutadores treinando. – Você já o está doutrinando? – indicou Ryuho, que Aiolia incentivava a pular corda perto dos vestiários, junto com Kouga. Shiryu esperou em silêncio. – Quero conversar. Pensei que você iria falar comigo em Jeju, mas parece que ela colocou uma coleira no seu pescoço, então vim quando ela estivesse em outro lugar.

Ele suspirou e sentou.

o.o – 0.0 – o.o – 0.0 – o.o

- Muito linda! – Saori exclamou, observando a aliança de perto antes de devolvê-la. – Nossa, quando eu recebi os vídeos e fotos, dei gritinhos no escritório da mansão. Tatsumi pensou que tinha um inseto ou algo assim lá. – Shunrei riu.

- Meu coração parecia que ia sair pela boca e voar para as nuvens. – Saori passara para pegá-la ao final do expediente para irem ao ginásio. Foi o momento que encontraram para ficarem a sós desde que as duas retornaram para Gangseo-gu. – Foi muito romântico. – Saori suspirou em falsete, fazendo-as rir. – Mas o que você está fazendo coloca isso no chinelo. – a amiga negou.

- São negócios. Estou fazendo de tudo para deixar bastante separadas a vida de namorada de atleta da executiva patrocinadora de equipe de artes marciais. – Shunrei ergueu as sobrancelhas. – Acha que estou me enganando? – a expressão da outra mostrava que sim.

- Esse discurso pode funcionar com os Conselhos, mas comigo é outra história. E não precisa esconder, eu achei muito bacana. O patrocínio será vantajoso para todos. Eles entram com a imagem e a Fundação com o dinheiro, não é isso?

- Em resumo, é isso mesmo. O contrato é de três anos e nós vamos patrociná-los integralmente: equipamentos, locais de treino, passagens, hospedagens, salários e outras coisas. Eles farão propaganda para as empresas da Fundação, comparecerão a eventos determinados, essas coisas. Teremos exclusividade da imagem deles, essa foi a parte difícil, pois eles já tinham outros patrocinadores, mas nenhum cobria o valor integral. Então tivemos que pagar algumas multas por quebra de contrato, porém, nada extravagante demais.

- Shiryu gostou. Ele disse que Dohko estava com medo de que você quisesse colocar o logo da Fundação no lugar dos emblemas. – Saori riu, divertida.

- Jamais! Nós queremos é lançar bonecos deles com essa história das constelações. – Shunrei abriu a boca de espanto. – Isso Shiryu não contou? Logo ele vai estar nas estantes das casas das pessoas. – Saori piscou travessa para ela.

o.o – 0.0 – o.o – 0.0 – o.o

- Em algum momento ele vai ter que me conhecer. – ela insistiu. – Por que não agora?

- Taeko, pense no que está pedindo. – Shiryu procurava controlar o tom de voz baixo para que a conversa não ecoasse pelo ginásio. – Você não pode entrar na vida de Ryuho assim. – ela expirou audivelmente pela boca. – Me responda uma coisa: você está preparada para estar 'presente' na vida dele? Por que quer se aproximar dele agora?

Ela se inclinou para ele e o movimento espalhou seu perfume. Os cabelos sedosos caíram em volta do pescoço. Shiryu começou a compreender do se tratava aquilo quando ela tocou seu ombro com as pontas dos dedos.

- São duas perguntas. – ela sorriu e ele não a acompanhou. – Eu soube que ela quer alterar o registro de nascimento do 'meu' filho.

- Depois de seis anos, você se lembrou dele? – Shiryu tinha pouca paciência com esses joguinhos de palavras. – O que você realmente quer? – ela mexeu o queixo, incomodada. – Se for dinheiro, sabe que não tenho muito. Julian Solo pode ajudá-la melhor nesse quesito.

- Ele foi bem esperto, devo admitir. – ela voltou à expressão sedutora. – Eu quero que sejamos amigos, Shiryu, afinal, nós temos um filho. – ele revirou os olhos.

- Assim fica difícil conversar. – Shiryu retrucou, azedo. – Se não é dinheiro, o que é? E não cite Ryuho. Não tenho nenhum motivo para permitir que você chegue perto dele.

Taeko se atirou sobre ele e o beijou.

Shiryu reagiu rápido, segurando-a com firmeza e se afastando. Viu o olhar desafiador que ela lançou por cima de seu ombro. Se virou para ver Saori com a mão na boca e os olhos enormes. Ao seu lado, olhando fixamente para eles, sua noiva.

xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx

(1) Dogeza - gesto em que a pessoa se ajoelha em frente à outra, com as duas palmas das mãos no chão. É uma forma de expressar submissão ou um pedido de perdão por causa de uma falta muito grave.

(2) Chongqing – macarrão de arroz cozido e servido com: cebola, alho, gengibre, pimenta em pó, amendoim, molho de soja, óleo de pimenta e óleo de gergelim. Adicione caldo de osso de porco e espalhe coentro picado por cima.

(3) Bolo da Lua – símbolo do Festival do Meio Outono, representa votos de boa sorte e celebração pela união familiar.

(4) Meu Amigo Totoro – animação do Studio Ghibli. Recomendadíssima! Tem na Netflix.

xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx

Olá! Desculpem a demora em postar esse episódio. Eu precisei decidir os rumos da fic nesse episódio e refleti muito para ter certeza de como será o futuro. ;-)

Bom, temos agora apenas mais dois episódios, então essa é a reta final.

Esse episódio foi muito movimentado, cheio de lugares diferentes. Foi tranquilo para acompanhar?

Além disso, apareceu nosso querido Dohko. Eu, particularmente, imagino o Dohko de The Lost Canvas, mas vocês fiquem à vontade. Optei por separar as pessoas do Mestre Ancião do Dohko porque queria Dohko interagindo com Shiryu e Shunrei e manter a origem da Shu em Rozan. Outra opção que fiz foi trazer o patrocínio da Fundação para a Zodiac Team.

Por fim, Taeko e Julian continuam atormentando nossos protas. Vamos ver como a Shu vai reagir!

Quero saber como vocês estão encarando as tramas e o que estão esperando para os dois últimos capítulos.

Até o próximo episódio!

Beijos,

Jasmin