Disclaimer: Fairy Tail, bem como os seus respectivos personagens, não me pertence, e sim a Hiro Mashima. Posto esta fic apenas por diversão e entretenimento, e sem nenhuma intenção de lucrar algo com isso.

Esclarecimento: Esta história também não é de minha autoria, ela é uma adaptação do livro de mesmo nome, de Sarah Morgan, que foi publicado na série de romances "Paixão", da editora Harlequin Books (edição 66, publicada no Brasil em 2006).

OBS: Esta adaptação muito provavelmente terá OoC. Bem, o aviso foi dado...


NOIVA DO DESEJO

Capítulo 1

- Natsu Dragneel ?

Lucy ficou abismada com as palavras do avô, um homem que era um estranho para ela.

- Em troca do dinheiro que preciso, pretende que me case com Natsu Dragneel !

- Exatamente.

O avô de Lucy sorriu sem graça enquanto ela tentava recuperar o fôlego e controlar as emoções que a assaltavam. É claro que criara expectativas quando decidiu enfrentar o avô, mas nada se comparava a isso... Dragneel. O magnata grego que assumira o pequeno negócio do pai e o transformara num império comparável ao do avô. O bilionário com a mesma fama de irascível que ele. O homem que trocava de mulher na mesma velocidade dos carrões que dirigia e dos jatos em que viajava. O homem que...

- O senhor não pode estar falando sério ! - gritou ela, com os dentes cerrados e os olhos dardejantes. Ela se sentia mal só de pensar na situação - A família Dragneel foi responsável pela morte do meu pai !

E ela os desprezava tanto quanto menosprezava o avô.

Aliás, como desprezava tudo o que fosse grego.

- E, por essa razão, minha descendência acabou - acrescentou o avô, áspero - Agora preciso assegurar o mesmo destino para a família Dragneel. Se ele se casar com você, sua família acabará no filho, exatamente como a minha.

Lucy sentia dificuldade em respirar, chocada com o que ouvira. Ele sabia. De alguma maneira, ele sabia.

A pasta que ela tinha nas mãos caiu e os papéis se espalharam pelo chão de mármore. Ela não notou.

Quando seu cérebro conseguiu perceber o que implicavam aquelas palavras, Lucy empalideceu e sua voz tornou-se quase um sussurro.

- Sabe que não posso ter filhos ?

Como ele saberia ? Como poderia saber de um de talhe tão íntimo ?

Ela sempre tinha escondido o fato. O único consolo para sua dor era que essa angústia era só sua, e ninguém precisava ter pena dela.

Sentiu a respiração acelerada. Chegara confiante e decidida. De repente, se sentia vulnerável e exposta. Nua perante um homem que, apesar de ser da família, sempre fora um estranho desde sua infância.

Agora, esse homem a encarava, com uma expressão de presunçosa satisfação.

Seu avô, Alexandros Heartfilia.

- Faz parte dos meus negócios saber tudo sobre todos - o tom da voz era duro e frio enquanto ele percebia com evidente satisfação o sofrimento que causava - Ter informação é o segredo do sucesso.

Lucy engoliu em seco. Como uma desgraça pessoal poderia ser considerada um "sucesso" ?

Casamento.

Não poderia haver piada mais cruel. Ela já havia se convencido de que, não importava o que o futuro lhe reservasse, casamento estava fora de cogitação. Como uma mulher na posição dela poderia se casar ?

Ela tentou se manter alerta, para acompanhar a mente perversa do avô.

- Se realmente sabe tudo sobre todos, então deve saber por que estou aqui. Minha mãe está cada vez mais doente e precisa de uma operação.

Ele deu um sorriso antipático.

- De certa forma, eu já esperava a sua visita. Você não me decepcionou.

Lucy ficou furiosa ! Aquelas palavras reforçavam suas limitações.

Ela o odiava.

Lucy ficou olhando para o avô que ela nunca encontrara antes na vida e sentiu repulsa. A cabeça latejava de tensão desde que pusera os pés no aeroporto de Atenas, e o mal-estar que sentia no estômago era um lembrete do nervosismo que a impedira de comer nos últimos dias.

Havia tanto em jogo. O futuro de sua mãe estava nas mãos dela, em sua habilidade em conseguir um acordo com aquele monstro.

Ele se portava como um rei, sentado em uma cadeira de espaldar alto, ornada de braços entalhados, dando ordens para funcionários aterrorizados por seus gritos.

Ela observou a opulência da sala e toda aquela riqueza a deixou enojada.

Será que ele não sentia vergonha ? Será que sabia que ela tinha três empregos para proporcionar à mãe os cuidados necessários ?

Cuidados esses, aliás, que ele não proporcionava havia quinze anos.

Lucy respirou fundo novamente e tentou se acalmar. Não podia perder o controle. Ela gostaria de simplesmente virar as costas e sair dali, deixando o avô em companhia de seu dinheiro e de sua solitária existência. Mas não podia. Tinha que ignorar o fato de ele ser a pessoa mais egoísta e frívola que já encontrara e lembrar-se que só estava ali por causa da mãe. Não podia perder o foco.

Nada, absolutamente nada, mudaria a razão pela qual estava naquela casa. Por quinze anos ele não dera importância às necessidades de sua mãe, até sua própria existência, mas Lucy não permitira que ele a ignorasse para sempre. Já era tempo do avô saber o que significava ter uma família.

- Que cara é essa ? Você veio me procurar, não o contrário. É você que precisa do dinheiro.

O sotaque marcante da voz ríspida de Alexandros fez Lucy enrijecer-se.

- É minha mãe que precisa - ele soltou um resmungo.

- Ela mesma poderia ter me pedido o dinheiro se tivesse alguma determinação.

Ela sentiu raiva e engoliu em seco. Se não se controlasse, ele a poria para fora.

- Minha mãe está muito mal.

Alexandros a encarou, com um sorriso malévolo.

- E essa é a única razão pela qual você está aqui, não é ? Você jamais viria. Você me odeia. Ela te ensinou a me odiar. Você está furiosa e tentando se controlar porque não quer se indispor comigo. Afinal, posso decidir não abrir a porta do meu cofre...

Ele começou a rir, demonstrando a satisfação que sentia.

Chocada com tanta falta de humanidade, Lucy resolveu apelar.

- Ela foi a mulher de seu filho...

- Não me lembre disso !

Ele se empertigou e o riso desapareceu.

- Você devia ter nascido menino. Parece que herdou o gênio de seu pai. Se você fosse homem e meu filho não tivesse sido seduzido por aquela mulher, você herdaria a linhagem que merece e não teria vivido longe por todos esses anos. Tudo isso poderia ser seu.

Lucy olhou à sua volta. A diferença entre a situação dela e a do avô era nítida. Símbolos de sua riqueza estavam em toda parte: das enormes estátuas que ornavam a entrada da mansão à graciosa fonte que jorrava no pátio interno.

Ela lembrou-se de onde morava, numa área degradada de Londres, num cubículo adaptado para acomodar a mãe.

E pensou na mãe e na sua luta para sobreviver. Luta que aquele homem poderia ter amenizado.

Ela cerrou os dentes e esforçou-se para continuar.

- Estou bem feliz com minha linhagem - respondeu, formal - E adoro a Inglaterra.

- Não retruque ! - explodiu ele, raivoso - Se você retrucar, ele nunca se casará com você. Você não parece grega, mas eu quero que se comporte como uma grega. Você vai ser meiga e obediente e não dará nenhuma opinião sobre nada, a menos que lhe peçam. Entendeu ?

Ela não podia acreditar.

- Está falando sério ? Acha mesmo que vou me casar com Natsu Dragneel ?

O avô sorriu com escárnio.

- Acho, se quiser mesmo o dinheiro. Você se casa e tenta esconder sua infertilidade. E eu providenciarei para que o acordo amarre vocês dois até que nasça um herdeiro. Como isso nunca vai acontecer, ele ficará preso para sempre num casamento sem filhos.

Alexandros Heartfilia deu uma risada sinistra.

- A retribuição perfeita. Como se diz, a vingança é um prato que se come frio. Eu esperei quinze anos por este momento, mas valeu a pena. Perfeito. Você será o instrumento da minha vingança.

Ela ficou chocada com o plano diabólico do avô. A mãe tinha razão quando a alertou sobre a sua perversidade. Ele não tinha compaixão.

- Não posso fazer isso. O senhor não pode me pedir uma coisa dessas - argumentou ela, quase sem ar.

Não podia se casar com Natsu Dragneel. Ele tinha tudo que ela desprezava em um homem. Pedir que passasse a vida inteira ao lado dele...

Fechando os olhos, tentou se lembrar como se envolvera nessa situação. Nunca acreditara em vingança e guerra entre famílias.

Afinal, ela era inglesa.

- Se quiser o dinheiro, tem de se casar - repetiu o avô.

A cabeça de Lucy girava num turbilhão de pensamentos.

Ela queria o dinheiro. Precisava dele.

- Mas não está certo...

- É o justo - afirmou o avô, num tom áspero - Justiça que a família Dragneel devia ter sofrido há muito tempo. E você, apesar de ser só metade grega, devia saber que os gregos sempre vingam seus mortos.

Ela sentiu-se fraca.

Será que já não estava na hora de dizer que detestava tudo o que era grego ? Que nunca se sentiria uma grega ?

Ficou calada, não podia se indispor com o avô.

Qualquer coisa.

Faria qualquer coisa para conseguir o dinheiro. Decidira no momento em que pisara na mansão suntuosa. Mas subestimara a habilidade do avô em aproveitar-se de seu desespero em benefício próprio.

Observou-o atentamente, reparando o brilho dos olhos e os lábios finos. Seria tolice tratá-lo como inimigo. Sempre tinham sido inimigos. Desde que sua mãe sorrira para o pai dela e o conquistara, estragando os planos de Alexandros de casá-lo com uma boa moça grega.

- Natsu Dragneel nunca vai concordar em se casar comigo - argumentou ela.

E, assim, não teria que passar o resto da vida ao lado de um homem que odiava. Ele jamais aceitaria.

Descartava as mulheres sem pestanejar. Casamento não fazia parte de seus planos.

Por que se casaria logo com ela ? Ainda mais com as desavenças entre as famílias.

- Natsu Dragneel é, antes de mais nada, um homem de negócios - continuou o avô, em tom zombeteiro - E as vantagens que ofereci para que ele se case com minha neta são tentadoras demais.

- Que vantagens ? - o avô sorriu.

- Tenho algo que ele quer, que é a base do sucesso nos negócios. E Dragneel é um homem que está sempre querendo conquistar uma mulher atraente. Não sei o motivo, mas ele gosta de loiras. Por isso, você tem sorte. Trate de tirar esse jeans e vestir algo mais arrumado. E, se quiser o dinheiro, conquiste-o. Agora, pegue esses papéis do chão.

Sorte ? Será que o avô realmente achava que atrair a atenção daquele homem arrogante era ter sorte ?

Lucy recolheu os papéis, pensando na situação. Que escolha tinha ? Não havia outro jeito de conseguir o dinheiro. Se tivesse, não estaria ali. E não seria um casamento de verdade. Talvez nem precisasse conversar com ele...

- Se eu aceitar, o senhor me dá o dinheiro ?

- Não - grunhiu o velho - Mas Dragneel lhe dará. Será parte do acordo. Ele lhe dará uma mesada para você gastar como quiser.

Ela ficou boquiaberta. O avô tinha planejado um acordo em que não precisaria nem entrar com o dinheiro...

Natsu Dragneel não só teria que casar com a neta de seu inimigo como também pagaria pelo privilégio.

Por que motivo concordaria com uma idéia tão ultrajante ?

O que será que o avô tinha que Dragneel queria tanto ?

Seus pensamentos estavam confusos.

Ela conhecia o avô o bastante para saber que Natsu Dragneel aceitaria o acordo.

O que significava que, se ela queria o dinheiro teria que se casar, algo que jurara nunca fazer.

E, agora, não se casaria com qualquer um, mas com um homem que pertencia à família responsável pela morte de seu pai. Um homem que ela odiava.


- Por que Alexandros Heartfilia nos procuraria ? - Natsu Dragneel andava pela varanda de sua bela casa em Atenas e parou para observar o pai. Ele aprendera desde cedo as vantagens de parecer impassível - A rivalidade entre nossas famílias já dura três gerações.

- Por isso mesmo - respondeu Hektor Dragneel, com cautela - Ele acha que chegou a hora de passar uma borracha no passado. Publicamente.

- Passar uma borracha no passado ? Como assim ? Alexandros Heartfilia é diabólico e completamente insano - estranhou Natsu.

Só o fato de seu pai estar considerando a possibilidade de recebê-lo o surpreendia. Mas ele estava envelhecendo, reconhecia Natsu, e deixar o comando dos negócios da família tinha sido uma perda irreparável para ele.

- Já é hora dessa briga terminar, Natsu. Quero me aposentar e viver em paz com sua mãe, sabendo que o que é nosso por direito será devolvido. Não tenho mais disposição para brigas.

A idéia de estar frente a frente com seu inimigo o animou. Ele era diferente do pai, adorava o confronto e toda a animosidade envolvida. Se Alexandros Heartfilia achava que faria seu jogo habitual de intimidação, descobriria que finalmente encontrara um adversário à sua altura.

O pai pegou uns papéis.

- O acordo que ele está oferecendo é inacreditável.

- Mais uma razão para desconfiar - acrescentou Natsu.

- Seria tolice não saber o que ele propõe - continuou o pai, medindo as palavras - Ele pode ser o que for, mas continua sendo um grego. Não deixa de ser um elogio o convite para um encontro.

- No dia em que Alexandros Heartfilia me fizer um elogio, é melhor ter uma arma por perto - disse ele, observando os sinais de preocupação no rosto do pai.

De repente, notou como seu pai tinha envelhecido. Deu-se conta que aquela desavença era demais para ele.

- Eu aceitei encontrá-lo por sua causa.

O pai olhou para o filho, e Natsu jurou para si mesmo que terminaria de uma vez por todas com aquela disputa.

- Está certo. Já é tempo mesmo de acabar com essa história. Qual é a oferta dele ? - perguntou ele, objetivo.

- Alexandros está devolvendo o que é seu por direito de herança. Está abrindo mão da empresa.

O pai deu uma risada amarga e jogou os papéis na mesa.

- Ou seria melhor dizer "nossa empresa", já que foi Alexandros Heartfilia quem trapaceou seu avô ?

Alexandros abrindo mão dos negócios ? Natsu escondeu o espanto do pai. Era simples demais.

- E em troca...

- Você se casa com a neta dele - respondeu o pai, desviando o olhar.

- O senhor está brincando ! - reagiu ele, sem acreditar - Em que século estamos ?

- Infelizmente, esses são os termos do acordo - concluiu o pai, reunindo os papéis.

- Então é sério.

Não havia qualquer traço de humor em sua voz.

- Nesse caso, o senhor precisa saber que não há ninguém menos indicado para casar comigo do que alguém com sangue dos Heartfilia.

O pai massageou a nuca, tentando se livrar da tensão.

- Natsu, você tem trinta e quatro anos. Já está na hora de casar. A menos que queria passar o resto da vida sozinho e sem filhos.

- É claro que quero ter filhos. O problema é a esposa. Infelizmente, eu gostaria que as mulheres tivessem certas qualidades que parecem não existir.

Ele se lembrou da linda ginasta com quem passara as últimas noites. E da dançarina antes dela. Nenhuma tinha conseguido manter seu interesse.

- Ora, se você não se casar por amor, que tal se casar pelo bem dos negócios ? - perguntou o pai, grosseiro - Se casar com a moça, a empresa será nossa.

- É só isso ? - perguntou Natsu, desconfiado - Não pode ser tão simples assim.

O pai pareceu relaxar.

- Ele está velho. A empresa enfrenta dificuldades. Existem poucos profissionais competentes parar resolver os problemas, e ele sabe que você é um deles. Reconhece como você é brilhante nos negócios. O casamento garantirá o futuro financeiro da neta, no caso da empresa falir. Mas isso não acontecerá com você no comando. É uma oferta generosa.

- É justamente este ponto que me preocupa. Alexandros Heartfilia não é conhecido pela generosidade.

- Ele está oferecendo grandes vantagens para você se casar.

- Eu preciso de vantagens enormes para me casar com uma moça que nunca vi - respondeu ele, o cérebro arguto trabalhando rápido.

Por que Heartfilia lhe entregaria a empresa ? E por que fazia questão desse casamento ?

- Está na hora de abandonar as suspeitas e aprender a confiar. Heartfilia começou nos negócios com meu pai e, depois, os roubou dele. Ele diz que está arrependido pelo passado e pretende consertar tudo antes de morrer.

O pai deu de ombros.

- Nossos advogados estão examinando os termos do acordo. Por que não deveria acreditar nele ?

- Talvez porque Alexandros Heartfilia sempre foi um megalomaníaco diabólico que só pensa em si próprio - retrucou Natsu aborrecido, tirando a gravata de seda. Ele estava tenso. A adrenalina inundava seu corpo. Quanto mais altas eram as apostas, melhor o jogo - Será que eu preciso reavivar sua memória sobre o que ele já fez à nossa família ?

- Ele está velho. Deve estar arrependido.

Natsu soltou uma risada.

- Arrepender-se ? Aquele inescrupuloso não deve saber o que isso significa. Sou capaz de continuar com essa história só para ver qual é o jogo dele desta vez.

Ele desabotoou a camisa e acenou para um dos empregados para trazer os drinques. O calor de julho em Atenas era insuportável.

- E por que será que a neta ainda não encontrou um marido ? Heartfilia nunca comentou sobre a existência dela. Ninguém jamais a viu, nem ouviu falar a respeito dela. Ela é só feia, ou tem ainda alguma doença grave que transmitiria para os meus descendentes ?

- Descendentes dela também - ressaltou o pai - E, até agora, você também não encontrou uma esposa.

- Não estou procurando uma esposa - acrescentou ele, gentilmente - E muito menos uma escolhida pelo meu inimigo.

O pensamento provocou risadas nele. Tinha certeza que a herdeira de Alexandros devia ter algum problema sério, do contrário já teria se casado há muito tempo.

- Tenho certeza que ela deve ser uma moça adorável - murmurou o pai, provocando um ar de riso no filho.

- Não concordo. Acho que ela tem duas cabeças e personalidade zero. Se fosse adorável, Heartfilia não a esconderia. A imprensa a perseguiria como faz comigo. Afinal, ela é extremamente rica.

- A imprensa o persegue porque você dá motivos - replicou seu pai, sério - A herdeira de Heartfilia sempre viveu na Inglaterra.

- É na Inglaterra que existem os tablóides mais sensacionalistas do mundo - lembrou Natsu, franzindo a testa - O que torna a situação ainda mais interessante. Se eles a deixaram em paz, então certamente tem duas cabeças e personalidade zero.

O pai suspirou, exasperado.

- Certamente ela prefere ter uma vida discreta. O oposto de você. A moça estudou num colégio interno. Não sei se você se lembra, mas a mãe dela é inglesa.

- Claro que me lembro ! - ele esvaziou o copo, as lembranças anuviando sua mente - Lembro também que ela morreu quando nosso barco explodiu. Junto com o marido, o filho único de Alexandros Heartfilia.

Imagens vívidas ressurgiram em sua mente: Uma criança sem vida em seus braços, quando a puxou para a superfície da água; sangue, gritos, um verdadeiro caos...

Natsu cerrou os dentes.

- Ela perdeu o pai e a mãe de uma só vez, e Heartfilia nos culpou pelas mortes. E agora ele quer que eu me case com a neta dele ? - perguntou ele, sarcástico - Se ela herdou o DNA da família, é melhor eu dormir com uma faca embaixo do travesseiro. Não posso acreditar que o senhor aceitou essa sugestão com tanta serenidade.

- Nós também perdemos gente da família naquela explosão - lembrou Hektor Dragneel - O tempo passou. Tempo suficiente. Ele agora é um velho.

- Ele é um homem mau, isso sim !

- Nós não fomos os responsáveis pela morte do filho dele. O tempo lhe deu a oportunidade de refletir e ele se convenceu.

Hektor passou as mãos pelo rosto, visivelmente perturbado pelas lembranças daquela época.

- Ele quer que ela tenha um marido grego. Quer reconstruir sua descendência.

Natsu apertou os olhos e se perguntou desde quando o pai se tornara tão compreensivo. Se Heartfilia queria que sua neta meio inglesa se casasse com um grego, então devia ter uma razão. E ele pretendia descobrir qual era.

- E a moça, o que ela acha ? Por que concordaria com um casamento desses ? Ela é a neta de Alexandros Heartfilia. E, como tal, não deve ter a estabilidade que eu gostaria que minha esposa tivesse.

- Pelo menos vá conhecê-la. Você tem a opção de dizer "não" - argumentou o pai.

Natsu tentou acompanhar os pensamentos de Hektor. Era verdade que ele queria ter filhos e que sempre quis retomar as Indústrias Heartfilia para a família.

- E para ela, o que sobra ? - o tom da voz era duro - Heartfilia já tem a neta, eu ganho um filho e uma empresa que por direito é nossa. E ela, o que ganha nisso ?

O pai hesitou.

- Natsu...

- Fale logo - exigiu ele. Seu pai sentia-se fraco.

- No dia do casamento, você fará um depósito em dinheiro na conta dela. Um valor substancial. E este procedimento deverá se repetir todo mês durante todo o casamento.

Um silêncio tomou conta do ambiente. Depois de alguns instantes, ele soltou uma risada incrédula.

- O senhor está falando sério ? A herdeira de Alexandros Heartfilia quer dinheiro para casar comigo ?

- Os termos financeiros são uma parte importante do acordo.

- A mulher é mais rica que o próprio rei Midas, e mesmo assim quer mais dinheiro ? - perguntou Natsu, incrédulo, o temperamento mediterrâneo vindo à tona.

O pai pigarreou.

- Os termos do acordo são claros. Ela quer dinheiro.

Ele foi até a beira da varanda e lançou um olhar pela cidade que tanto amava.

- Natsu...

Ele se virou, a expressão cínica nos olhos negros.

- Nem sei por que não concordo logo. Todas as mulheres só estão mesmo interessadas no dinheiro, e essa não podia ser diferente. Pelo menos ela é honesta, uma qualidade a seu favor. Como o senhor bem disse, este é um acordo de negócios onde ambas as partes concordam com as condições propostas.

- Do jeito que você fala, parece que ela não passa de uma moça fria e interesseira. Por que não espera para julgá-la ? - implorou o pai - Qualquer parente de Heartfilia estaria acostumado com uma vida rica e extravagante. A exigência pelo dinheiro pode não ser reflexo de seu caráter. Ela pode ser uma boa moça.

Natsu evitou relembrá-lo de que "boas moças" não faziam seu estilo.

- Pai, boas moças não exigem dinheiro dos futuros maridos. E se ela é uma Heartfilia, deve ser perigosa. E é melhor eu não ficar de costas para ela, nunca !

- Filho...

- Assim como o senhor, eu quero recuperar os negócios da família, então vou conhecê-la porque estou intrigado. Mas não posso prometer nada - avisou ele com um sorriso, colocando o copo sobre a mesa - Se ela vai ser a mãe dos meus filhos, preciso pelo menos saber como ela é.


- Você deve ficar calada - recomendou Alexandros Heartfilia para Lucy, enquanto o helicóptero se aproximava - E mantenha esses seus olhos vivos bem fixos no chão. Você deve parecer meiga e obediente como uma moça grega. Se ficar calada até o casamento, tudo vai dar certo. Depois será tarde demais para Dragneel mudar de idéia.

Naquele exato momento, Lucy estava mais preocupada com seu próprio estado de espírito do que com o do candidato a noivo.

Por que eles tinham que visitá-lo na ilha particular ? O que havia de errado com a terra firme ?

Satisfeita com o fato de o helicóptero voar baixo, ela relaxou um pouco no assento e tentou respirar melhor. Mesmo sentindo-se relativamente segura, não conseguia afastar os olhos daquele imenso mar azul. Sempre tivera medo do mar. E custava a acreditar que concordara com esse encontro.

Subitamente, sentiu-se apavorada. Temerosa que seu ódio pelo avô se revelasse acompanhado do desprezo que sentia por toda a família Dragneel. "E se ele souber que não posso ter filhos ?"

Se o avô descobrira que o acidente na infância a impedia de ser mãe, por que Natsu Dragneel não poderia ter descoberto também ?

- Ele não sabe de nada. Até bem pouco tempo, nem sabia que você existia. E não saberá até que vocês estejam casados; só então descobrirá que você é estéril.

Alexandros Heartfilia sorriu, maquiavélico.

Estava tudo errado.

Ela não devia estar fazendo isso.

E então, lembrou-se do dinheiro. Tinha que consegui-lo. Faria qualquer coisa para isso. E, afinal, será que o que ela estava fazendo era mesmo tão errado ? Se Natsu Dragneel fosse um homem decente e gentil, seu bom senso não permitiria que ela levasse adiante esta história de casamento, sabendo de sua infertilidade. Mas ele não possuía nenhuma das duas qualidades.

A família Dragneel era corrupta como seu avô, e Natsu era o mais corrupto de todos. Pelo que sabia dele, era grego em todos os sentidos. Não tinha consciência, era frio e rude, igual ao seu avô. A julgar pela falta de interesse em se comprometer, certamente não se preocupava em ter filhos. Aliás, não seria um bom pai. Dar um filho a um homem como ele seria um erro. Talvez fosse bom para ambas as partes, reunir tantos interesses, pensou ela com alguma satisfação. Heartfilia e Dragneel. Pelo menos a rivalidade seria enterrada com eles.

E todos eles tinham uma dívida com ela. Eram os responsáveis pelo acidente que destruíra sua família. A hora da justiça chegara.

No dia do casamento, Natsu Dragneel depositaria uma grande soma em sua conta bancária e continuaria depositando enquanto o casamento durasse. O que significava que a mãe poderia fazer a operação que tanto precisava. Adeus preocupações, adeus três empregos, adeus pobreza.

Contanto que Natsu Dragneel não descobrisse que a mãe continuava viva.

Lucy mordeu os lábios. Se ele descobrisse, não levaria dois minutos para concluir que o avô não tinha qualquer sentimento por ela e que o acordo era suspeito.

Ela parou na porta do helicóptero e sentiu o ar quente. Quase perguntou ao avô se ela era realmente metade grega, uma vez que não conseguia suportar aquele calor. Preferiu ficar calada. Tinha aprendido naqueles últimos dias que manter o silêncio era a melhor maneira de lidar com ele.

- Lembre-se ! Você agora é uma Heartfilia ! - relembrou-lhe o avô, ríspido.

Lucy escondeu seu mal-estar.

- Engraçado. O senhor nunca permitiu que minha mãe usasse esse nome, mas agora que é conveniente para o senhor, quer que eu o use.

- Dragneel vai se casar com você porque você é uma Heartfilia - lembrou-lhe com um sorriso maligno - Se ele soubesse que você é uma "maria-ninguém", nem chegaria perto. E pare de ficar puxando o vestido !

- Isso não é um vestido, é um pedaço de pano. Não cobre nada - respondeu ela.

- Exatamente - o avô a observou e soltou um grunhido de satisfação - Um homem gosta de examinar o que está comprando. Dragneel é esperto, mas não deixa de ser um grego com sangue nas veias. Assim que puser os olhos em você, esquecerá completamente os negócios, pode acreditar. Faça de conta que se veste sempre assim. Nenhuma palavra sobre sua mãe. Não revele o motivo do dinheiro.

- Ele vai querer saber o motivo do casamento - retrucou Lucy, desafiando o avô.

- O ego de Natsu Dragneel é maior que a própria Grécia. Por alguma razão insondável, as mulheres não o deixam ficar sozinho. Provavelmente porque é rico e bonito, uma combinação difícil de resistir. Ele vai achar que você é mais uma na fila das esforçadas admiradoras, candidatas aos milhões que possui.

Ela tremeu. Quanta arrogância ! Ser considerada fútil por julgar um homem pela aparência e pelo bolso era um verdadeiro insulto.

- Não acho que...

- Ótimo ! - interrompeu o avô - Não quero que você ache nada. Nem ele. Você não precisa pensar. Só precisa se deitar com ele sempre que ele quiser. E, se ele perguntar por que deseja este casamento, você vai responder que é porque ele é um dos solteirões mais cobiçados do mundo e você está ávida por redescobrir suas raízes gregas. E se esforce para não encará-lo. Os gregos não gostam de confronto na cama.

Na cama ?

Lucy sentiu-se enjoada. De alguma maneira, tinha conseguido evitar pensar nas implicações deste casamento. Ficariam íntimos fisicamente. E aí, se lembrou das notícias sobre Dragneel: sempre tinha três amantes ao mesmo tempo e, como compromisso não era o seu forte, seria difícil que ele tivesse tempo de aparecer na sua cama, não é ? Seria um marido ausente e isso interessava bastante a ela. Contanto que depositasse o dinheiro em sua conta corrente todo mês, ela ficaria mais do que feliz por não poder vê-lo.

Ela hesitou por um momento, e se não fosse o avô apressá-la para descer os degraus, teria entrado no helicóptero novamente e pedido para o piloto levá-la de volta.

Porém, foi forçada a pisar na pista de asfalto, piscando por causa da luz forte do Sol, sem perceber que estava sendo observada à distância por uma figura imponente.

Aquela situação era demais para suportar. Lucy queria parar mais uma vez, mas o avô lhe deu um puxão para que continuasse. Ela não estava acostumada com aqueles saltos e teria levado um tombo se braços fortes não tivessem se estendido para segurá-la.

Extremamente embaraçada, ela murmurou um "obrigada", os dedos apoiados num bíceps musculoso, enquanto tentava recuperar o equilíbrio. O rosto bronzeado de um homem surgiu em sua frente e seus olhos encontraram os dele, negros como a noite. Uma sensação estranha percorreu seu corpo e ela sentiu as faces arderem.

- Srta. Heartfilia ?

Lucy levou alguns segundos para perceber que ele se dirigia a ela.

- Levante-se, menina ! - o tom impaciente do avô cortou seus pensamentos - Um homem não pode ficar segurando uma mulher que tropeça por qualquer coisa. E por favor ! Responda quando falam com você ! O que adiantou gastar tanto dinheiro em sua educação se você não consegue nem juntar as palavras para formar uma frase ?

Ela sentiu o rosto queimar pela humilhação. Lucy se aprumou e olhou para seu salvador.

- Desculpe, eu...

- Não precisa se desculpar - Natsu falou em tom frio e bem pausado, mas a expressão dele observando Alexandros Heartfilia fez com que ela estremecesse.

"Estes dois homens eram inimigos declarados..."

- Sua desastrada ! - o avô a olhou impaciente e virou-se para o seu anfitrião - Pode acreditar, minha neta sabe andar direito quando se concentra. Mas, como a maioria das mulheres, tem a cabeça oca.

Ela se manteve firme para não demonstrar a raiva que sentia. Concentrou os pensamentos na mãe querida, para não voltar para o helicóptero e sair dali.

Tinha de esquecer como odiava o avô.

Esquecer como abominava a família Dragneel.

Esquecer tudo.

A única coisa realmente importante era conseguir se casar com Natsu Dragneel.

Ela salvaria a mãe. De qualquer maneira.


P. S.: Nos vemos no Capítulo 2.