Capítulo 1 – Pulsar

Silêncio. Vazio. Ausência. Tudo ao seu redor não emitia som, cor, forma ou presença. Se encontrava no nada. Estagnada no tempo durante a rotação do mesmo. A escuridão havia se tornado a sua mais fiel aliada. Não havia pensamentos nem lugar para onde ir. Eu sou livre... Livre como o vento... Essa não era a verdade. O vento fluía em todos os cantos do mundo e ela já não fazia mais parte do mundo. Tudo o que ela fora um dia foi consumido pelo breu.

É necessário ter olhos para ver; corpo para sentir; cérebro para pensar; e, coração para almejar. Coração... Sim, um dia ela tivera um. Em seus últimos momentos de vida ela sentiu seu próprio coração pulsar em seu peito. Isso ocorreu há muitos anos atrás, ou talvez tenha acontecido ontem. É difícil recordar de lugares, dias e eventos quando isso já não tem mais importância para a sua existência ou quando não há mais existência para poder se importar.

Nada de sua carcaça restara. Fora desintegrada, banida da face da terra. Até mesmo o seu lugar entre os mortos fora vetado. Sua alma era a única coisa que restava. Estava aprisionada, escrava de si mesma por toda a eternidade. A maldade final que a selou com um segredo, desconhecido até mesmo por ela. Sua existência por si só era uma blasfêmia. Um ser criado sem ser concebido, uma vida gerada sem cultivação, formada pela ambição de uma criatura de origem humana que desejava ser amada como forma de redenção. Sim. Ela era uma desonra para a sua espécie. E, ainda assim, ela desejava a sua liberdade.

Eu sou livre... Livre como o vento... Não, ela não era. Até mesmo o vento fora aprisionado no vazio de sua existência. Ela tinha poderes, grandes poderes para alguém parido como ela fora, contudo isso não era suficiente para libertar o vento. Para excarcerar o vento era necessário determinação. Entretanto, quando se é apenas uma alma a única coisa que lhe resta é energia. Sim, a sua energia espiritual poderia se concentrar nisso. Ela já havia pago um preço muito alto para chegar neste estado. O que mais poderia lhe ser tirado de tão valioso se tivesse a sua liberdade?

Sua cultivação era uma piada. Não tivera muito tempo para andar sobre a terra, muito menos para evoluir. Eu sou livre... Livre como o vento... Sim, se essa era a vontade do vento, que ele cedesse aos seus clamores ao menos uma última vez.

Sua alma se encheu de luz, mas de nada adiantava se não houvesse nada para refletir. Eu sou livre... Livre como o vento... O mantra era repetido infinitamente. As últimas palavras de um desencarnado era a sina de uma alma refém da morte. Algo começava a desmoronar. Eu sou livre... Livre como o vento... Tremores podiam ser sentidos. A primeira sensação desde que o seu tempo parara de correr. Ela ansiava por mais sensações. Eu sou livre... Livre como o vento... Um pequeno feixe de luz surgiu. Aquilo poderia ser um reflexo da claridade que emitia ou uma rachadura em sua cela. Eu sou livre... Livre como o vento... Frio. Ela podia sentir a temperatura do lugar onde estava. Eu sou livre... Livre como o vento... Azul. Era a cor predominante que emergia da fenda. Como os olhos de quem ficou na escuridão por muito tempo, somente a cor podia ser vista. Não havia nenhuma forma, no entanto. Apenas um borrão azulado. Eu sou livre... Livre como o vento... Algo vinha em sua direção. A abertura dobrou de tamanho. Tendo no que refletir, a luz de sua alma estava cada vez mais forte e sua energia em seu limite. Eu sou livre... livre com o vento... Uma lufada de ar abraçou a sua alma. Não conseguiu sentir mais nada. Uma dor imensa a dominou. Na reclusão de seu espírito ela nunca sentira algo semelhante. Queria gritar, mas não tinha voz. Desejava desmaiar, mas não tinha consciência. Queria fugir, mas não tinha pernas. Queria chorar, mas não tinha lágrimas. Sua energia fora consumida nesse ato final. Não havia mais luz, tremores, frio ou a cor azul. Tudo voltou a ficar escuro. E na escuridão onde se encontrava o seu coração pulsou.