Capítulo 1 –Insaciável.

Em meio a aquela floresta densa bem verde e úmida, pelo orvalho da noite etérea, uma mulher caminhava decidida agarrada a uma lanterna antiga, onde o fogo crepitava de maneira teatral. Mas não era uma mulher qualquer. Era uma bem atípica e que conseguia se destacar facilmente naquele paraíso verde, amarelado, avermelhado e de tantas tonalidades vivas que só a natureza consegue criar.

Rin. Era esse seu nome. Um nome frágil e afável. Um nome que combina com a doçura da sua voz e com seus olhos pueris. Seu semblante jovem denunciava a pouca idade, quem sabe por volta dos vinte e três anos.

E seu peito ainda balbuciava de expectativa e espera...

Quanta espera...

Sesshoumaru havia a deixado junto a Kaede. As duas se davam bem. Kaede acabara sendo a mãe ou a avó que Rin nunca teve. Aprendeu muitas coisas com a Miko do vilarejo, e apesar de ser sonhadora e distraída demais para fazer o mesmo trabalho que Kaede fizera e fazia depois da morte de Kikyou, estava se saindo bem nos últimos tempos.

Kagome sem dúvidas era melhor que ela na arte de ser Miko. Era a mais indicada para assumir o posto quando Kaede morresse. Isso claro se ela permanecesse ali. Mas assim que juntou-se a Inuyasha resolveram partir, velejar pelo mundo protegendo as pessoas pelo caminho. Aquele lugar não fazia bem para o meio-yokai e tampouco para Kagome que queria se ver livre e libertar o amado do fantasma eterno de Kikyou. Shippou foi com eles, mas seria provável que não permanecesse até longa data.

Foram embora assim como Miroku, Sango e Kohaku que partiram para vila dos antigos exterminadores a fim de reconstruir sua antiga morada.

E depois de um tempo Kaede acabou morrendo. A despedida dos amigos que tinha feito naqueles anos e da morte de Kaede certamente fora demais para seu coração. Rin só esperava esquecer o passado, embora achasse aquilo impossível. Pois era só lembrar, só pronunciar aquele nome para estremecer. Para vibrar... Para sentir seu coração batendo dolorosamente contra o peito.

Por sorte havia lhe restado Jin que sempre que possível ajudava a sanar as dores do coração.

A beleza de Rin era atípica. Dona de cabelos lisos negros, espessos e cumpridos, e de um perfume natural fabuloso. Seus olhos castanhos-terra exprimiam imensa bondade e que tinham um quê de ingenuidade. Olhos de quem não sabe o quanto é bonita. O quanto atrai olhares por onde passa. A boca simetricamente perfeita, rosada. O corpo esguio e pequeno desenhado nos diversos kimonos recebidos de presente ao longo de todos aqueles anos de muito silêncio.

Mas naquele dia, ela não usava nenhum dos kimonos de seda que foram lhe dado secretamente. Mas sim um kimono de Miko que a foi destinada assim que a velha Kaede partira do mundo dos vivos. Nos pés utilizava uma sandália de madeira comum que fazia pouco barulho naquelas terras úmidas.

Uma pequena bolsa pendia sobre os ombos onde levava comida, água, ervas medicinais e tantas outras coisas...

Rin caminhou até o rio que passava ali perto. O tempo era de um frescor agradável. Desceu até chegar perto do leito do rio e finalmente depositou tudo que carregava no chão terroso. Olhou seus arredores e não notou sequer qualquer presença humana. Só conseguia escutar o barulho dos animais noturnos que pouco se interessariam pela sua presença arrebatadora. Visto que estava em segurança resolveu que poderia entrar no rio de águas claras e banhar-se como era de sua vontade.

Amarrou os cabelos num coque com a ajuda de algumas fitas brancas. O cabelo pesado, de um liso cheio não conseguiria ser contido somente por uma fita. Feito isso, começou a despir-se vagarosamente.

A água bem fria a fez se retesar, mas sabia que acostumaria em breve com aquela temperatura. O calor ajudava com que sentisse vontade de permanecer por ali, envolta aquele líquido cristalino. Respirou fundo e cerrou os olhos enquanto recostava-se na margem do rio. O céu estrelado acima de sua cabeça pareceu perder o sentido. Suspirou pesadamente e finalmente encarou aqueles astros, principalmente a lua cheia.

-Será mesmo que nunca mais voltarei a vê-lo? -falou num murmúrio, para si mesma.

E antes que mais pensamentos como aqueles abarrotassem seu ser, ouviu um barulho de leve, bem fraco, atrás de si, na mata as suas costas. Ela se encolheu temendo por quem ou o que seria que se aproximava em sua direção. Virou imediatamente o corpo para o lado oposto enquanto os passos ficavam mais pesados e mais próximos.

-Rin? -uma voz masculina familiar a chamou por entre as árvores.

-Jin! Estou aqui, dentro do rio! -ela sorriu aliviada.

Nenhuma resposta ela recebeu, só escutou o barulho de passos caminhando em sua direção, mas que pararam subitamente a alguns metros de distância, onde não conseguiria ver o belo corpo da menina que estava submerso e de costas.

-Já disse para não ficar saindo por aí sozinha de noite! -ele bufou descontente. -É muito perigoso! Há muitos yokais pela floresta e ladrões!

-É que você já estava ocupado... Não queria incomodar só porque viria tomar banho. -ela deu um sorriso amarelo encolhendo os ombros.

-Sabe que não me incomoda nunca. -ele suspirou. -Você me deixa muito preocupado quando some assim de repente.

-Desculpa. –ela disse se sentindo um pouco arrependida. –Eu vou sair agora da água... Vira de costas!

Jin virou-se de costas e ela saiu do rio num solavanco. Correu até suas roupas e o olhou novamente para ter certeza que o rapaz continuava na mesma posição.

-Eu virei, Rin. Não precisa desconfiar, sabe que não vou olhar.

-Como sabe que conferi? –ela franziu o cenho em choque.

-Porque você é tão previsível... –ele zombou com um sorriso no canto dos lábios.

Rin sorriu novamente sem jeito. Sua toalha estava na margem e tratou logo de se enrolar naquele pano macio. Secou-se bem rápido e vestiu a roupa. Assim que terminou caminhou em direção a Jin que continuava de costas e olhando para a floresta ao seu redor.

Rin colocou a mão no ombro do amigo que virou-se com um belo sorriso na face. Ali na luz da luminária ela poderia vê-lo melhor.

Jin é um rapaz bonito. Bem mais alto do que ela evidentemente, e mais velho também, uns quatro anos talvez. Possuidor de olhos castanho-escuros e cabelo negro liso curto. O nariz simétrico ao rosto liso, sem marcas, assim como os lábios. E um porte físico que atraía muitos olhares femininos de desejo. As meninas do vilarejo costumavam cochichar coisas indiscretas e indelicadas sobre Rin por ser tão próxima a aquele rapaz. Uma pontada de inveja as assomava, pois ele não conseguia tirar os olhos daquela que parecia sempre tão alheia as suas investidas.

Usava um kimono masculino simples. A parte de cima de um azul bem claro que estava aberto completamente, e a parte de baixo preta. O chinelo de madeira no pé e a espada embainhada presa na cintura.

Jin tinha um sorriso cínico que Rin adorava. Ele era seu melhor amigo, na verdade seu irmão. Gostava dele como se fizesse parte da família. Eram amigos há anos, desde pequenos. Assim que os outros foram embora e Kaede falecera, agarrou-se mais veemente a ele.

Para ela, Jin significava amizade e refúgio. Para ele, Rin significava o seu coração, o seu desejo. E isso, sem dúvidas, era um problema.

-Estão tendo recentemente muitos ataques de Yokais pelas redondezas. -Jin começou a falar enquanto caminhavam pela relva. -Algumas pessoas do vilarejo vizinho vieram nos avisar para tomarmos devidos cuidados. Algumas pessoas andam desaparecendo. Vim assim que soube da notícia lhe procurar.

-É mesmo? -ela o fitou com os olhos curiosos. -Que tipo de yokais?

-Parece que ninguém ficou vivo para contar. -ele balançou a cabeça negativamente. -A hipótese é que esse yokai está devorando as pessoas, pois no caminho até aqui eles encontraram uma perna humana que pode ser de um dos desaparecidos.

-Que terrível! -ela se retesou com pesar em seu olhar.

-Prometa que não vai sair mais sozinha por aí enquanto os exterminadores não aparecerem. –ele a fitou profundamente.

-Tudo bem! -ela assentiu convencida. –Eu prometo!

-Esses malditos yokais... Só servem para atrapalhar a vida da gente! Gostaria que não existissem.

-Nem todos os yokais são como esse... –ela falou um pouco incomodada com aquela colocação.

Jin parou de andar de repente, e ela acabou fazendo o mesmo por não entender o motivo dele ter simplesmente parado. Com os olhos confusos, ele voltou-se a ela.

-Rin, por que você ainda acha que Sesshoumaru irá voltar? –ele a fitou descrente.

Aquela pergunta pesou em seu peito. Foi como levar um soco no estômago. Pois, por que realmente Sesshoumaru voltaria? Por que ele largaria suas coisas para ir vê-la depois de tantos anos em silêncio? Ela não sabia responder, não havia nenhuma pista concreta de que ele o faria. Mas havia algo em seu coração, que por mais impossível e inacreditável, iria na contramão do óbvio.

-Eu só... Só sei que ele vai voltar. –ela falou com a voz baixa, quase num murmúrio fitando os próprios pés.

-Tsc! Se ele quisesse já teria voltado...

E foi então que ela emburrou de vez e ficou em silêncio. Jin odiava quando ela fazia isso, mas às vezes até achava que aquilo fazia parte de seu charme. E como já estava acostumado com aquele gênio forte quando era contrariada sabia como deveria agir. Puxou as fitas do cabelo da menina levemente fazendo seu cabelo pender pelos ombros numa cascata negra. Ele virou o rosto dela levemente pelo queixo e encontrou um par de olhos revoltos que o fizeram rir de leve.

-Não fique brava comigo!

-Então não fale coisas que me deixem brava... –ela rebateu desvencilhando-se um pouco dele.

Rin virou o rosto novamente. Falar em Sesshoumaru era sempre tão doloroso, ele sabia bem disso. Sabia que só de pronunciar aquele nome a faria sofrer, mas inevitavelmente às vezes o nome do grande youkai era invocado. E essa era a pior parte pra ambos. O que os matava aos poucos de maneiras diferentes.

-Tenho certeza que... que o senhor... –ela engoliu a seco, não pode prosseguir. E seus olhos antes tão seguros começaram a ficar abarrotados de lágrimas cristalinas.

Jin esmoreceu ao vê-la naquele estado, e ao mesmo tempo ficou completamente furioso.

-Por que não consegue nem pronunciar o nome dele? Ou ouvir o nome dele? Não consigo acreditar! Tantos anos se passaram e eu ainda vivo essa agonia. –ele sorriu incrédulo. –Isso vai ser sempre um mistério horrendo pra mim. Um terror! Toda vez que eu a olho vejo toda a sua dor no fundo de seus olhos. Não adianta o que eu faça, não adianta... Eu sempre o vejo em você. Sempre o vejo no seu horror. Estou cansado de perder todos os dias para uma sombra invisível.

Um silêncio incômodo os atingiu em meio àquela noite tão densa. Rin limpou uma lágrima que teimou descer pelo seu olho direito antes de pegar na mão de Jin e forçar um sorriso.

-Vamos voltar! Já está ficando tarde...

Ele bem que queria tentar protestar, falar mais sobre aquilo com ela, mas deu-se por vencido. Jazia ali mais uma batalha perdida da qual ele não teria forças para recomeçar.

-Tudo bem... –Jin suspirou chateado, mas logo assentiu.

...

A silhueta do vilarejo não demorou a aparecer no campo de visão daqueles dois que andavam lado a lado em ritmo descompromissado. Encaminharam-se até a cabana onde Rin morava, anteriormente da senhora Kaede.

-Está entregue. –Jin disse sorrindo.

-Obrigada por se preocupar comigo. Gostaria de poder saber me defender para não precisar dar tanto trabalho assim aos outros. –ela sorriu sem jeito coçando a nuca.

-Não me dá trabalho nenhum. –ele disse seriamente. –Gosto de protegê-la. Quando a protejo sinto que pelo menos alguma coisa boa consigo fazer pra você.

-Não diga isso! Você sabe que significa muito para mim.

-Talvez não o suficiente...

Jin sorriu mesmo que não tivesse vontade. Curvou-se solenemente para Rin que não soube o que dizer naquele momento. Somente levou a mão ao peito apertado em compaixão.

-Eu vou para casa agora, se precisar de alguma coisa, é só me chamar.

Ela assentiu e logo Jin virou-se de costas para sair de perto, para deixá-la finalmente para trás, e tentar por mais algum tempo tirá-la de sua mente. Ele sabia mais do que ninguém que aquela seria uma luta da qual possivelmente não sairia vitorioso, mas simplesmente não conseguia evitar. Não conseguia deixar de trilhar os mesmos passos que os dela, seguir pelo mesmo caminho. Estaria ele também tão aprisionado a ela quanto ela a Sesshoumaru? Aquela dúvida fez seu corpo vibrar. Temia por estar condenado como ela, acorrentado a uma forma invisível.

...

Já era noite alta, o vilarejo jazia num silêncio mórbido.

Entretanto a inquietude não permitiu que Rin selasse os olhos e velejasse pela inconsciência pesada. Derrotada, resolveu levantar-se e encaminhar até a janela. Uma brisa fresca balançou seus longos cabelos lisos. Fitou novamente o céu que continuava estrelado com a lua cheia esbanjando beleza, brilhando no límpido céu majestoso.

Suspirou enfim. Já faziam quantas luas desde então?

E apesar de atordoada, tratou de abriu um enorme sorriso e debruçar-se sobre a janela.

-O que será que o senhor está fazendo agora, Senhor Sesshoumaru?

E da mesma forma que o sorriso apareceu, ele se dissipou na penumbra de seus pensamentos.

-Faz tanto tempo... Tanto tempo... Parece que foi em outra vida tudo o que passei ao lado do senhor. Será mesmo que o senhor nunca vai voltar como Jin fala? Será que o senhor me esqueceu?

...

-Senhorita, Rin! Senhorita, Rin!

Rin abriu os olhos preguiçosamente quando ouviu ao fundo alguém lhe chamando. Tinha adormecido sem perceber, jogada de qualquer jeito embaixo da janela.

Num solavanco, correu para o lado de fora, ainda era bem cedo, os primeiros raios de sol começavam a cortar o céu que se tingia de cerúleo, um alvorecer incrível que anunciava sem delongas um dia ensolarado.

Postada em sua porta estava uma jovem mocinha chamada Hana. Ela devia ter somente quinze anos e estava visivelmente aflita.

-Hana! Aconteceu alguma coisa?

-É a minha mãe, senhorita Rin! –Hana pôs-se a dizer com os olhos inundados. –Ela não está nada bem! Temo que não tenha muito tempo de vida. Não sei o que fazer. Desculpe vir tão cedo.

-Vamos até lá!

As duas saíram em disparada até uma pequena cabana no coração do vilarejo. Ainda um pouco esbaforidas adentraram ao recinto, onde no centro do único cômodo encontrava-se uma mulher nauseabunda e pálida que suspirava como num mantra agonizante. Rin se aproximou sem cerimônia, tocou na testa empapada de suor da outra e pode constatar que a mulher queimava em febre, e que precisava imediatamente de cuidados.

-Acalme-se sim? –Rin voltou-se para Hana com um sorriso afável. –Irei buscar algumas ervas medicinais e voltarei para ver a sua mãe.

-Obrigada, senhorita Rin. –Hana curvou-se em devoção deixando algumas lágrimas assustadas cortarem a face.

-Ela via ficar boa! –Rin a encorajou tocando em seu ombro. –Fique ao lado dela. Ela está com febre e possivelmente com dor, talvez ela precise da sua ajuda enquanto eu não estiver aqui.

-Está bem!

Rin saiu depressa, em passos rápidos, não queria perder um minuto sequer. Passou por algumas casas no vilarejo e logo avistou a cabana de Jin na outra ponta. Parou subitamente ao lembrar-se da conversa no dia anterior. Tinha prometido que não se arriscaria sozinha pela mata, mas ficou num impasse, pois corria contra o tempo e acima de tudo não queria lhe tirar tão cedo da cama. Balançou a cabeça negativamente, seria rápido de toda maneira, não demoraria, logo não seria necessário o perturbar. Ele já fazia demais por ela.

Voltou a correr ao tomar a decisão, em caminho oposto adentrou a mata densa.

Quando já tinha se adiantado o suficiente diminuiu o ritmo. O coração palpitava forte com o esforço inesperado. Teve que respirar fundo algumas vezes antes de continuar não mais correndo, mas sim, em passos rápidos. Ela sabia muito bem onde estava a planta que precisava, naquele instante faltava pouco.

Assim que encontrou a erva sorriu satisfeita. Colheu algumas folhas sem muito esforço, colocou dentro da manga do kimono e partiu com determinação.

Mas assim que retomou os primeiros passos a fim de retornar ao vilarejo ouviu um ruído peculiar seguido de galhos se quebrando num estalo grosseiro. Embora não escutasse passos sentiu que havia outra presença que se aproximava. Um frio mórbido percorreu sua nuca, e não tardou a voltar a correr novamente olhando vez ou outra para trás. Mas, o que menos previra aconteceu, quando seus olhos voltaram para frente levou um susto brutal.

-Yokai! –ela gritou em pavor.

Um Yokai estava bem diante de seus olhos. Era grande e horrendo. Uma gosma roxa com um único olho e boca enorme com dentes afiados como os de tubarão. Assim que se deparou com aquele monstro girou os calcanhares e saiu correndo no sentido contrário.

-Não vai escapar! –a voz gutural do yokai asqueroso soou as suas costas

Ele foi a seguindo derrubando árvores e tudo que estivesse pela frente. A gosma que revestia seu corpo era elástica e moldável. Fazia crescer braços gigantescos que tentavam a todo custo agarrar o corpo veloz de Rin.

Ela desviava com dificuldade. Sabia que não ia conseguir fugir por muito tempo. Estava em pânico e não sabia mais o que fazer. Queria buscar algum abrigo para se esconder, mas parecia impossível escapar daquele ser. Quando achou que não restavam mais esperanças acabou caindo num buraco, num poço antigo bem fundo e inativo. Caiu por um bom tempo até chocar-se a terra úmida cheia de folhas e galhos. Assim que chegou ao chão viu a luz que vinha de cima sendo bloqueada por uma enorme árvore que caíra por cima. Provavelmente tendo sida derrubada pelo Yokai que a seguia.

Suspirou aliviada por um instante. Estava a salvo do monstro terrível.

Mas o alívio não demorou a se dissipar, já que logo percebeu que estava presa ali, naquele espaço que mal dava para se deitar. E quando tentou levantar-se sentiu uma dor terrível no tornozelo e só então notou que sua perna sangrava.

Entrou em pânico por fim. Como sairia dali? Não conseguia ficar em pé e o que dirá escalar tudo aquilo. Respirou pesadamente tentando manter a calma. Mas aquela escuridão absoluta, que mal dava para ver a sua mão, a assombrava.

Resolveu ajeitar-se naquele cubículo e tentar ser um pouco racional. Sabia que gritar não iria adiantar, estava longe do vilarejo e ainda por cima isolada por uma enorme árvore. Sem contar que o Yokai ainda poderia estar lá a procurando.

Cerrou os olhos e respirou fundo mais uma dezena de vezes até fitar o breu denso que a envolvia. Percebeu que conseguiria escutar os barulhos vindos de fora. É claro que os sons chegavam bem leves, quase imperceptíveis, mas pelo menos havia algo ao seu favor. Jin a procuraria, disso ela não tinha dúvidas, mas precisava esperar... O problema era: quanto tempo?

Seus olhos se encheram de lágrimas, não queria admitir, mas estava morrendo de medo.

-E agora? O que eu vou fazer?

...

Dois dias se passaram lentamente e de maneira agonizante.

Já era noite, mas Rin não sabia. O breu dentro do poço inativo a fez perder a noção das horas e dos dias que se sucederam em marasmo insípido. O que ela sabia era que não aguentaria mais por muito tempo naquele lugar abafado e escuro. A dor estava insuportável e não tardou a ter febre. Febre muito alta. Suava frio, tremia, chocando seus dentes intermitentemente. Não conseguia mais ficar com os olhos abertos ou manter-se em consciência. Lutava contra o sono e suas alucinações.

E entre suas tremedeiras e delírios escutou um barulho vindo do lado de fora. Um som tão suave que era como se alguém estivesse levitando. Tentou gritar, mas não conseguiu. Nada saiu de sua boca aberta que estava seca como areia. Já quase perdendo os sentidos ouviu ao longe o som alto da árvore sendo retirada brutalmente, destampando enfim o poço, permitindo que a claridade da lua prateada finalmente adentrasse o recinto. E antes que pudesse entrar em pânico por pensar ser o Yokai de antes avistou, ainda que com dificuldade, um vulto branco vindo em sua direção. Um vulto familiar...

Rin não acreditou em seus olhos, achou ser alguma parte desesperada de sua consciência. Algum delírio cruel. Tentou resistir ao desmaio eminente e lutar contra a visão embaçada, queria ter certeza do que via. Queria sentir mais uma vez aquela deliciosa taquicardia que ele proporcionava em seu ser tão delicado... Seu corpo foi envolvido gentilmente, com todo o cuidado. E por fim aquela voz inconfundível. A voz que esperava ouvir há tantos anos...

Aquela voz cortou o poço e ecoou dentro de sua alma.

-Consegue me ouvir?

E antes que pudesse desmaiar assentiu com dificuldade deixando um sorriso escapar dos lábios carnudos assim como uma lágrima solitária cortar a face suja de terra.

...

Rin abriu os olhos monotonamente. E pouco a pouco a vista antes embaçada começava a dar espaço para nitidez. Com a visão límpida notou que fitava o teto simples de sua casa.

Com a surpresa de estar finalmente segura, sentou-se num solavanco o que acabou sendo uma péssima ideia. Seu tornozelo latejou a fazendo soltar um gemido de dor e a se retesar. A toalha que estava úmida em sua testa, sem que ela tivesse percebido, caíra ao chão num baque pesado.

Ela fitou o tornozelo e o viu fortemente enfaixado. Logo após, analisou suas roupas e percebeu que estava com um kimono feminino comum da cor roxa e com um obi azul marinho igualmente singelo. Não conseguia compreender aquele evento, franziu o cenho mais confusa do que nunca.

E foi só lembrar de quem poderia tê-la salvado, só pensar na possibilidade de ter sido ele, não conseguiu resistir. Levantou-se com dificuldade ignorando a dor de seu tornozelo e do leve ferimento em sua coxa que também havia sido enfaixado. Saiu correndo mesmo que estivesse mancando e com uma dor terrível, mas tinha que saber. Tinha que ter certeza de que não havia ficado louca e que sua mente não seria tão cruel a ponto de dar-lhe uma alucinação daquelas. Ela correra como se sua vida dependesse disso, como se precisasse daquilo para sobreviver, para respirar. Saiu da casa em busca dos olhos âmbar... Em busca dele...

Sentiu o coração na boca assim que se afastou da casa e não encontrou ninguém. Entrou em desespero. O procurava por todos os lados. Seu tornozelo latejava pelo esforço, mas ela já não estava preocupada com isso. Era o menor de seus problemas naquele instante. E quando deu mais um passo para frente e se preparou para correr escutou aquela voz atrás de si que a congelou totalmente.

-Onde pensa que vai?

E foi então que sem medo ela se virou, mesmo que as pernas tremessem e a taquicardia a envolvesse. Virou o corpo como se sua vida dependesse disso.

Nesse exato momento Rin o viu.

Encará-lo depois de tantos anos foi um tanto quanto esquisito, surpreendente e emocionante. Mas depois encará-lo parecia algo tão natural, tão óbvio, tão fácil e tão previsível. Não tinha sido tão assustador e arrebatador como imaginara que seria seu reencontro. A sensação que teve era como se nunca, nunca o tivesse perdido. Como se todos aqueles anos tivessem sido dias. Não sentia isso por ter sido pouco seu sofrimento, isso certamente que não. Mas sim pelo fato dele estar do mesmo jeito, com o mesmo rosto, com a mesma postura de doze anos atrás. Ele não tinha mudado absolutamente nada e isso fez com que Rin sentisse ter onze anos novamente. Lembrou-se nitidamente de tantas coisas que passaram juntos.

Foi um baque.

Um baque previsível e inevitável.

E mesmo que tentasse se segurar seria impossível. Ninguém seria capaz de impedi-la de continuar. Embora estivesse mancando correu na direção dele com os olhos abarrotados de lágrimas. Lágrimas de saudade. E sem pensar duas vezes o abraçou fortemente.

-Eu sabia... Eu sabia que o senhor iria voltar.

Sesshoumaru surpreendeu-se com Rin, não pelo forte abraço, é claro. Afinal, ela sempre fora uma criatura impulsiva, demonstrando tamanho afeto. E ele sempre a deixou em paz para fazer o que bem entendesse. Estava surpreso pelo fato do quanto ela havia crescido! Por perceber o quanto demorara a voltar. De fato não era mais uma criança, era uma mulher. Uma humana encantadoramente linda. Sesshoumaru jamais imaginara que pudesse a encontrar tão bela e tão crescida. Tinha esquecido o quanto os humanos crescem rápido.

...

Dentro da casa, eles sentaram-se de frente para o outro. Sesshoumaru a fitava sério enquanto ela tagarelava com um enorme sorriso na face o quanto estava feliz por vê-lo novamente. E ele a escutava pacientemente, com os olhos ainda confusos por aquela aparência tão diferente.

-Por que estava naquele lugar? No poço? –ele indagou cortando as palavras dela que pareciam não ter mais fim.

-É verdade!

Ela disse de repente, como se tivesse se lembrado de algo muito importante. Ergueu o corpo novamente num solavanco deixando um grunhido de dor irromper os lábios. Já era a décima vez que havia se esquecido da sua própria moléstia.

-Sente. –Sesshoumaru falou num ar autoritário, ditando a ordem como costumava a fazer e ela não pode protestar.

-Havia saído para buscar algumas ervas para a senhora Yumi, a mãe da Hana, que está muito doente. Mas dentro da floresta acabei sendo atacada por um yokai! Tentei fugir dele, saí correndo sem olhar direito para onde e acabei caindo dentro daquele poço vazio. Como se não bastasse essa sorte, uma árvore caiu por cima do poço bloqueando a saída, e por isso fiquei presa lá dentro...

-Não a deixei aqui para ser escrava dos outros. –Sesshoumaru a olhou incisivo e ela somente balançou a cabeça negativamente.

-Não, todos me tratam muito bem! –ela rebateu com um sorriso sincero. –Eu gosto de ajudar essas pessoas. Eles não têm ninguém.

-Onde está a velha? E Inuyasha?

-A senhora Kaede morreu há pouco tempo... E os outros foram embora, foram seguindo seus próprios caminhos. –ela suspirou nostálgica.

-Ficou aqui sozinha? –franziu o cenho.

-Não tão sozinha assim, tenho Jin, e as pessoas do vilarejo sempre são muito solidárias, nos damos bem, vivemos em paz e em harmonia.

Jin...

Sesshoumaru não precisou pensar por muito tempo em quem era aquela figura da qual Rin falava de um jeito tão despretensioso. O jovem humano havia ido várias vezes a cabana quando descobriu que Rin estava lá. Mas não gostou muito daquela aproximação, e tinha certeza que o sentimento era recíproco, pois os olhos de Jin quando pararam nos de Sesshoumaru não conseguiram esconder o seu incômodo.

-Ele veio vê-la algumas vezes.

Rin esmoreceu por um instante. Tinha prometido a Jin que não sairia sem a sua presença, e mesmo assim ela o fez. E mais uma vez o preocupava desnecessariamente por um ato impensado.

-Ele deve estar preocupado... Não devia ter saído pela floresta sozinha... –ela falou para si mesma, num murmúrio. Mas logo balançou a cabeça a fim de afastar aqueles pensamentos.

-Rin, serei direto. Não quero perder o meu tempo nesse lugar... –ele a fitou com aqueles olhos âmbar de forma séria.

-Sim?

-Eu vim buscá-la. Mas tenho que saber esse é o seu desejo. Se quer deixar esse lugar para trás.

Rin mal conseguiu respirar depois daquela pergunta. O ar ao redor ficou pesado, rarefeito. Sentiu o coração bater tão forte que parecia que rasgaria seu peito. Aquele momento finalmente chegara e estranhamente estava muda e pálida como um cadáver. Sabia a resposta, sempre soube... Desde o dia em que ele a deixara. Só precisava responder. E aquele, sem dúvidas, era o seu momento...

CONTINUA...

Nota da Autora:

E aí pessoal gostaram do primeiro capt? Eu espero q sim =).

Bom depois de séculos eu voltei com mais uma fic de Rin e Sesshoumaru, espero q gostem de ler tanto quanto eu estou gostando de escrever.

É um prazer voltar.

Vejo vocês em breve.

Espero mtos comentários!

Dúvidas, curiosidades, sugestões... Qualquer coisa é só escrever pra mim.

Muitos beijos e nos veremos em breve! Muito em breve eu prometo!

Até o capt 2 ^^!