Disclaimer: Naruto, bem como os seus respectivos personagens, não me pertence, e sim a Masashi Kishimoto. Posto esta fic apenas por diversão e entretenimento, e sem nenhuma intenção de lucrar algo com isso.

Esclarecimento: Esta história também não é de minha autoria, ela é uma adaptação do livro de mesmo nome, de Jessica Hart, que foi publicado na série de romances "Julia", da editora Nova Cultural (edição 675, publicada no Brasil em 1992).

OBS: Provável OoC. Bem, o aviso foi dado...


DOCE PRECONCEITO

Capítulo 1

Hinata Hyuuga apoiou-se no guidão e olhou colina abaixo para onde o vilarejo de Stynch Magna parecia cochilar no calor do verão. A caminhada até em casa seria bem comprida.

Mas havia lugar pior para se ter um pneu furado. Seu olhar se demorou sobre a ondulada paisagem rural de Oxfordshire e ela respirou fundo, deliciando-se com o perfume daquela tarde de verão. Esquecendo-se da caminhada para casa, ela levantou o rosto para o Sol e deixou seus pensamentos voarem livres.

O rugido de um carro que se aproximava em alta velocidade quebrou a tranqüilidade da tarde, e Hinata abriu os olhos, franzindo a testa para a indesejada intromissão. Por que tinha de aparecer um idiota com seu carro, trazendo barulho e fumaça para estragar tudo ? Ela tirou a bicicleta da estrada, cuidando para não perturbar as papoulas vermelhas que se embalavam na brisa suave.

Um enorme e caríssimo Rolls-Royce conversível apareceu no topo da colina. Ia descer voando mas, ao ver Hinata com papoulas até os joelhos, o motorista mudou de idéia e freou, guinchando os pneus diante dela.

- Ora, bom dia !

O motorista, que usava óculos escuros e tinha cabelos loiros e espetados, parecia ter saído das páginas coloridas de uma revista. Sorriu para Hinata de um modo que faria o coração de muitas mulheres dar cambalhotas.

Mas ela se retraiu ao ouvir o forte sotaque americano e dirigiu-lhe um olhar gelado.

Ele tirou os óculos e ela se flagrou fitando um par de olhos azuis cheios de malícia. O coração dela, que tinha se comportado tão bem até ali, começou a bater mais depressa e ela procurou se controlar.

Afinal, aquele era apenas mais um turista. Mas os olhos dele transmitiam tanto humor e inteligência que pareciam deixar ainda mais bonitos os traços do rosto dele, o que fez Hinata perder um pouco o equilíbrio, como se tivesse sido atingida por um golpe forte. Respirou fundo, para se controlar.

- Não esperava encontrar ninguém nesta estrada - o estranho disse.

- Deve ser por isso que estava dirigindo como um louco - ela respondeu, tentando parecer normal.

- Eu estava dirigindo como um louco ?

Até os olhos dele pareciam sorrir. Ela sentiu-se intimida da pela força da personalidade daquele homem e afastou seus olhos dos dele, para tentar se manter fria e distante. Ela não era de se impressionar com um rosto bonito e, zangada pela reação de seu corpo, e por alguém que representava tudo o que ela mais odiava e menos acreditava, respondeu num tom agressivo:

- Se tivesse um coelho ou outro animal no meio da estrada, já estaria morto, depois de você aparecer voando aí. Por falar nisso, eu poderia estar aí no meio da estrada.

O americano fingiu pensar no que ela tinha dito, mas ela sabia que estava achando graça de tudo aquilo.

- E por que você estaria no meio da estrada ?

- O que estou tentando dizer é que um coelho tem tanto direito quanto você de estar na estrada e não merece ser morto só porque você resolveu afundar o pé no acelerador.

Hinata sentiu o rosto ficar vermelho, percebendo que soava um tanto ridícula.

- Eu não tinha pensado em coelhos antes, mas você tem razão - ele disse.

Ela mordeu o lábio. Ele devia estar pensando que era alguma inglesa excêntrica. Como se estivesse com pena dela, continuou:

- Acho que eu estava mesmo correndo um pouco, mas é que estou atrasado e perdido... e esta máquina tem freios que você nem imagina ! Sempre tive vontade de dirigir um carro destes aqui na Inglaterra. Não é lindo ?

O charme e a simpatia daquele belo homem traziam amargas lembranças. Hinata sempre tinha sonhado em ter um carro elegante como aquele. A pintura verde-metálico também era do seu gosto, mas alguma coisa no americano a fazia ficar na defensiva e ela respondeu num tom frio:

- Pessoalmente, eu acho que é vulgar e inadequado para estradas rurais como esta.

- Ei, você me pôs no meu lugar !

Sem se abater, ele abriu um sorriso de dentes brancos que contrastavam com a pele bronzeada e examinou-a com novo interesse. Ela era alta e esbelta, com olhos perolados e uma expressão que lhe dava um certo ar antiquado. Ela tinha prendido os cabelos azuis-escuros no alto da cabeça por causa do calor, mas como os olhos dele pareciam sorrir cada vez mais, percebeu que algumas mechas começavam a se desprender. Tinha sido uma caminhada longa e difícil até o alto da colina e o rosto dela ainda estava corado por causa do esforço.

Incomodada com a inspeção dele, ela pôs as mechas soltas para trás da orelha e olhou para ele, zangada.

- Estou contente em ver você, de qualquer modo - ele disse - Parece que estou dirigindo em círculos nestas estradas. Ah, que saudade das estradas retas dos Estados Unidos ! A verdade é que estou perdido. Pode me explicar onde estou agora ? - ele pediu, pegando um mapa no banco ao lado.

Com certa relutância, Hinata levou a bicicleta de volta para a estrada e foi até onde o americano abriu o mapa sobre o enorme capô. Ele era mais alto do que tinha pensado e o corpo forte estava mal disfarçado pela camisa colorida e o jeans. Devia gostar de roupas extravagantes como a personalidade dele. Ao pensar assim, ela se esquecia que roupas coloridas eram moda de verão.

Ela não conseguia se desligar dele enquanto examinava o mapa e tentava se concentrar no emaranhado de linhas brancas e amarelas. Fingindo má vontade, mostrou um ponto com o dedo. Ele olhava por cima do ombro dela.

- Jura ? Como será que vim parar aí ? Eu estava tentando chegar a um lugar chamado... está escrito aqui neste papel: Stych Magna. Que nome, hein ? É longe daqui ?

Hinata esperava que a surpresa não estivesse estampada em seu rosto. O que um homem como aquele podia querer em Stynch Magna ? Ela deu as instruções e ele consultou o relógio. Ela notou, surpresa, que este tinha uma velha pulseira de couro. Esperava algo exuberante como aço ou ouro para combinar com o estilo dele. O relógio - assim como o belo carro - parecia em desacordo com o homem.

- Acho que não estou tão atrasado, então.

Ela bem que quis perguntar quem o americano ia ver, mas preferia morrer a mostrar qualquer interesse. De qualquer modo, ela refletiu, logo ficaria sabendo. Nada ficava em segredo por muito tempo num lugar tão pequeno.

- Para onde você vai ? Posso lhe dar uma carona ? - ele perguntou.

- Não, obrigada. Estou de bicicleta - ela respondeu, educada, mas distante.

- Tem certeza ? O pneu de trás não parece em ordem. É, está furado - ele disse, aproximando-se antes que ela conseguisse impedi-lo - Não daria trabalho nenhum colocar a bicicleta no porta-malas.

- Prefiro ir andando !

Ele estava desconcertado pela atitude antipática dela, mas havia um brilho perigoso em seus olhos, que fez o coração de Hinata disparar mais uma vez. Zangada, reprimiu a simpatia natural que crescia dentro dela, escondendo-se atrás de uma máscara de superioridade.

- Você pode descer antes que alguém a veja num carro tão vulgar - ele insistiu.

Hinata olhou para ele, complacente, e o brilho dos olhos se intensificou.

- Não quer, mesmo. Deve ser alguma coisa comigo, então. Obrigado por sua ajuda, de qualquer modo.

Ele jogou o mapa dentro do carro e saltou para o banco. Por que não abria a porta como qualquer pessoa normal ?

- Vou tomar cuidado com os coelhos desta vez ! - ele disse, dando a partida.

- Faça o favor ! - ela retrucou, fingindo superioridade.

Para sua tristeza, o americano se limitou a rir e a balançar a cabeça.

- Ora, temos aqui uma pequena duquesa ! Até mais, duquesa ! - ele disse, e partiu cantando os pneus, para provocá-la, ainda rindo e acenou.

Ela ficou olhando-o se afastar, contrariada. Como odiava aquele tipo de charme superficial ! Sua memória encheu-se de lembranças de Kiba Inuzuka e ela sentou-se à beira da estrada, com os olhos perdidos no lugar onde antes estava o Rolls-Royce com todo o seu brilho e majestade. A estrada parecia quieta demais e estranhamente vazia sem o carro e seu motorista odioso.

O rosto do americano, com aquele ar irritante de quem estava se divertindo, parecia estar diante dela. Hinata se confortou, pensando que pelo menos ele não ficaria em Stynch Magna. Não havia nada por lá que pudesse interessar um americano por mais tempo do que um clique de fotografia. Era por este motivo que ela tinha escolhido o vilarejo.


Quando chegou ao vilarejo, ela estava morrendo de calor, sede e sentia-se irritada. A caminhada tinha sido mais longa do que havia previsto e as sandálias, ótimas para pedalar, tinham deixado seus pés doendo e cheios de bolhas. Pensar que podia ter evitado o incômodo, aceitando a carona do americano, não a deixava melhor.

Quando finalmente alcançou sua rua, Hinata parou e seu coração deu um salto. O Rolls-Royce estava estacionado ali, bem em frente a Meadow Cottage !

Normalmente, ao ver seu chalé, Hinata ficava contente. Não deixava de admitir que era uma casa modesta, pois eram duas casas sob o mesmo teto. A parte dela era menor, com apenas dois quartos pequenos em cima e dois cômodos embaixo, mas representava tudo o que ela sempre sonhou. As amigas a provocavam, dizendo que era uma casa velha para uma garota antiquada, mas Hinata não se importava. As velhas paredes de pedra pareciam sair do chão e o Sol da tarde lhes dava um leve brilho dourado. Todas as janelas eram de tamanhos diferentes e, enquanto a entrada de Shiori Nakamura tinha cobertura e era enfeitada por uma glicínia belíssima, Hinata se contentava com uma simples porta de madeira.

Agora, puxando sua bicicleta, achava que aquele carro extravagante deixava tudo fora de proporção. Parecia ridículo e deslocado na rua estreita e trazia a lembrança vívida de olhos risonhos e uma simpatia que a deixava incomodada. Ela não podia imaginar quem poderia estar recebendo um visitante tão inadequado.

Repetiu para si mesma que não lhe interessava quem o americano ia visitar. Dando de ombros, deixou a bicicleta na passagem lateral e pisou no chão frio da entrada da casa. Depois de pegar um refresco, foi se sentar em seu lugar favorito, no degrau da porta da cozinha e sorriu quando um gato rajado surgiu se espreguiçando de debaixo das roseiras, para vir cumprimentá-la. Tommy nunca deixava de vir recebê-la. Mesmo morando sozinha, Hinata nunca se sentia só com a companhia nada exigente do gato. Coçou-lhe atrás da orelha e Tommy começou a ronronar.

- Ah, você está aí ! - Shiori Nakamura disse, abrindo o portão que separava os quintais - Venha tomar um chá, querida. Tem uma pessoa que quero que conheça. Estive procurando você a tarde toda. Onde esteve ?

- Fui entregar um quadro em Mannerton - ela respondeu, mancando ao encontro de Shiori - Um pneu furou e eu tive de carregar a bicicleta de volta desde Cobb Hill.

- Coitada, você deve estar exausta ! Mas não faz mal. Uma xícara de chá vai te deixar em forma outra vez !

Hinata sorriu, entrando no jardim imaculado da vizinha, mas sentiu seu sorriso congelar ao ver quem se levantou para cumprimentá-la.

Ela estava despreparada para ver o americano outra vez. Seu coração parecia ter dado uma cambalhota e ela se limitou a olhar para o homem, sentindo o coração bater no peito como um pássaro assustado. Ele parecia quase agressivo em sua masculinidade, emoldurado pelo belo jardim de Shiori. O carro lá fora deveria ter servido de aviso, mas ela nunca imaginara encontrá-lo justo ali, com Shiori Nakamura !

Ele levantou as sobrancelhas, surpreso ao vê-la, mas agora se aproximava com o riso brilhando nos olhos.

- Ora, ora, se não é a duquesa ! - ele disse baixinho.

- Hinata, este é Naruto Uzumaki.

Shiori sorria para os dois, e Hinata não teve outra saída senão apertar a mão que ele estendeu.

- Muito prazer - ela o cumprimentou.

Tirou logo a mão do aperto firme como se estivesse queimando. Achava que estava apenas surpresa, mas desejava que o coração parasse de saltar daquele jeito.

- Muito prazer, Hinata - ele sorriu, mas logo ficou sério.

- A coitadinha da Hinata teve problemas com a bicicleta e teve de andar quilômetros ! - disse Shiori - Bem que alguém podia ter lhe dado uma carona.

- Às vezes as pessoas são muito frias, não é ? - disse Naruto, percebendo como Hinata mancava.

- Ainda bem que você chegou a tempo de conhecer Naruto. Seria uma pena se você não o encontrasse - Shiori disse contente, servindo-lhe chá.

Ela preferiria ter de andar mais oito quilômetros a ver aquele americano convencido outra vez. Do outro lado da mesa, Naruto a observava, divertindo-se. Ela tinha a incômoda sensação de que ele sabia exatamente o que estava pensando e ficou imaginando por que ele não tinha dito que já tinham se encontrado. Bebericando seu chá, perguntava-se o que Naruto estaria fazendo ali.

- Você e Naruto vão ser vizinhos durante o verão, Hinata - Shiori anunciou, servindo um pãozinho quente a Naruto.

- O quê ?

Engasgando com o chá, ela pôs a xícara na mesa fazendo barulho, olhando para Shiori sem conseguir disfarçar seu horror. Do outro lado da mesa, Naruto passava manteiga no pãozinho, segurando o riso.

- Não sei por que está tão surpresa - Shiori disse, com certa reprovação - A idéia foi sua, afinal. Foi você quem sugeriu que eu alugasse o chalé enquanto estivesse na Austrália com Misaki.

Ela esperava alguma velhinha, não um americano, muito menos alguém como Naruto Uzumaki.

- Tudo correu muito bem - Shiori continuou - Ele vem para cá logo depois que eu pegar o avião e vai cuidar do chalé para mim.

Ele não parecia saber muita coisa sobre cuidados com a casa. Devia conhecer bem carros velozes, mulheres e clubes noturnos, mas de casa... nada.

- Vou fazer o melhor possível - ele respondeu com modéstia - Pãezinhos deliciosos, Shiori.

Por que Hinata tinha sugerido à vizinha que alugasse o chalé enquanto visitava a filha ? Podia ter passado um verão tranqüilo. Não se incomodaria de cuidar do chalé de Shiori e, apesar da vizinha ficar feliz com a renda extra, será que valia a pena ter um estranho em casa ? Ela voltou a examinar Naruto. Ele parecia perigosamente fora de lugar naquele jardim bem cuidado. Era atraente, sim, e ela se incomodava por ter de admitir; mas quem era, afinal ?

- Quando foi que tomou esta decisão, Shiori ? - ela perguntou cautelosa.

E se a pobre senhora tivesse caído nas mãos de um vigarista ?

- Ontem, na casa dos Hatake. Lembra deles, não, querida ? Vieram almoçar comigo no mês passado. O filho deles sempre foi um garoto brilhante e agora está trabalhando em Hollywood, imagine ! É um... o que, mesmo, Naruto ?

- Roteirista - ele respondeu sério - Hayato é um grande amigo meu e, quando soube que eu vinha à Inglaterra, pediu para que eu visitasse os seus pais. Eu estava pensando em passar o verão por aqui e, quando Shiori apareceu, falando do chalé que ficaria vazio todo o verão... parecia a oportunidade perfeita que eu esperava para fugir.

- Fugir de quê ? - ela perguntou, cheia de antipatia, antes que pudesse se conter.

Naruto lhe dirigiu um olhar desconcertante enquanto aceitava outro pãozinho das mãos de Shiori.

- Estive muito ocupado nestes últimos dois ou três anos.

Hinata teve a impressão de que ele ia dizer mais alguma coisa, mas o telefone tocou lá dentro e Shiori levantou-se para ir atender. Hinata e Naruto ficaram parados, olhando um para o outro, em mudo desafio.

- Não gosta de mim, Hinata Hyuuga ? - ele perguntou, afinal.

- Não sei nada sobre você - ela respondeu, olhando para o lado - Não quero que ninguém se aproveite de Shiori. Ela não conhece você... nem os Hatake o conhecem, pensando bem. Você pode ser um vigarista ou um louco fugido. Afinal, quem é você ?

- Sou um ator - ele respondeu, depois de hesitar um pouco.

- Ah, verdade ? - ela comentou, como se não acreditasse.

- Sim, de verdade.

Os dentes dele eram perfeitos, fortes e brancos. O sorriso cordial parecia começar nos olhos e era levemente suspeito. Hinata flagrou-se observando a covinha que se formava do lado esquerdo e tratou de baixar os olhos depressa.

- Saiba que vou tentar saber mais sobre você antes que Shiori lhe entregue as chaves da casa - ela disse, recompondo-se.

- Claro - ele respondeu - Estou encantado por você estar tão interessada em mim.

- Não estou interessada em você ! - ela retrucou com gelo na voz - Só estou interessada em evitar que minha vizinha tenha problemas.

- Sabe, você não é como eu imaginava que fosse - ele disse de repente.

- E como imaginava que eu fosse ?

Ele a examinou, começando pelos olhos perolados cheios de cautela, a cabeça inclinada com orgulho e a pele dourada na luz do Sol que se punha.

- Shiori me falou numa vizinha simpática e ajuizada que cuidaria do jardim para ela. Eu imaginei uma pessoa eficiente, mandona, de risada alta e grossa - ele sorriu - Pois é, eu imaginava que você fosse uma dessas garotas com dentões e pernas horríveis. Você foi uma surpresa agradável, Hinata Hyuuga... mesmo sendo esnobe !

Ela ficou vermelha e respondeu:

- Sua conversa funciona melhor com velhinhas do que com moças, sr. Uzumaki !

Ele apenas riu, achando graça e, quando Shiori voltou, sentou-se satisfeita.

- Estou tão feliz que estejam se dando bem !

A frase era tão inadequada que Hinata, para seu próprio espanto, não resistiu e sorriu de volta para os olhos azuis e brilhantes de Naruto. Por um instante, seu rosto se iluminou, divertido, permitindo um momento de cordialidade, logo substituído pela máscara de frieza. Sem perceber a expressão encantada de Naruto, ela pegou a xícara, tentando se concentrar no chá, confusa por ter compartilhado daquele momento de diversão. Era como se ele a tivesse tocado e algo mais forte do que a resistência dela a ele começou a incomodar.

- Tenho certeza que vão ter muito o que conversar - Shiori falou, contente - Você passou um bom tempo nos Estados Unidos, não foi, querida ?

O meio-sorriso de Hinata se apagou. Ela não queria falar com ninguém sobre sua estada nos Estados Unidos, muito menos com Naruto Uzumaki.

- Verdade ? - ele perguntou, interessado - Foi de férias ?

Ela ficou olhando para uma abelha que voejava sobre as flores e seus olhos se entristeceram com as lembranças.

- Não. O segundo casamento de minha mãe foi com um americano e eu morei com eles em Washington.

Como se percebesse que ela não queria continuar com o assunto, ele não fez mais nenhuma pergunta e, para seu alívio, Shiori mudou de assunto:

- Ah, era Kensuke ao telefone, Hinata.

Ela não parecia satisfeita. Kensuke Ogawa era o corretor imobiliário do local e sua insistência em volta de Hinata já tinha se tornado motivo de brincadeira no vilarejo.

- É ? O que ele queria ?

- É que eu tinha dito a ele que gostaria de alugar o chalé e ele tinha acabado de falar com alguém interessado, mas eu disse a ele que já tinha um inquilino - Shiori falou, sorrindo para Naruto - Kensuke mandou dizer que daria uma passadinha para vê-la esta noite. Eu disse que estava aqui. Ele é tão simpático ! - Shiori comentou, olhando para Hinata cheia de esperança.

A vizinha estava determinada a vê-la casada o quanto antes.

- Quem é Kensuke ? - Naruto perguntou.

Ele não parecia nem um pouco incomodado em fazer perguntas pessoais, e ela não gostou.

- Kensuke Ogawa é o namorado de Hinata e já era hora de ela lhe dar um pouco mais de atenção. Afinal, maridos não crescem em árvores ! - Shiori explicou, sentindo que tinha ganho um aliado.

- Kensuke não é meu namorado ! - ela protestou, sentindo-se desconfortável por causa do olhar interessado de Naruto.

- Bobagem, querida. O rapaz está caidinho por você. Devia passar mais tempo com ele em vez de ficar cuidando de vizinhas velhas e problemáticas.

- Você não é problemática, Shiori - ela sorriu com afeto.

- Naruto, você não faz idéia de como ela tem me ajudado desde que Makoto morreu. Ela me convenceu a fazer esta viagem à Austrália e cuidou de tudo para mim. Não sei o que seria de mim sem ela.

- Ora, eu não fiz quase nada. Bem, preciso ir andando. Obrigada pelo chá - ela agradeceu, levantando-se.

- Foi um prazer conhecê-la, Hinata. Vejo você em duas semanas, espero.

Ele também tinha se levantado e seus olhos pareciam rir, mesmo quando ele estava sério, como naquele momento. Hinata tinha a desagradável sensação de que ele estava rindo dela.

Hinata ficou imaginando se a surpresa de ter de conviver com ele estava estampada em seu rosto. Despediu-se com um movimento de cabeça e deu-lhe as costas.

- Ah, boa sorte com suas averiguações ! - disse ele, atrás dela.

Ela pensou em ligar aos Hatake para descobrir o que eles sabiam sobre o inquilino de Shiori, mas ainda estava pensando num meio para conseguir o número do telefone deles, quando ficou sabendo tudo o que precisava, na mercearia do vilarejo. Ela estava procurando a ração preferida de Tommy nas prateleiras mais baixas, quando ouviu um nome que a fez ficar em pé e olhar para a amiga Sakura Haruno, que conversava com a atendente.

- De quem você falou ?

- De Naruto Uzumaki - Sakura respondeu, surpresa com a pergunta da amiga.

- Como sabe que ele existe ?

- Ora, Hinata, todo mundo conhece Naruto Uzumaki !

- Não é incrível ? - Tenten Mitsashi suspirou por trás do balcão.

Ela pôs a cesta no chão com cuidado.

- Como todo mundo o conhece ? Quem é ele ?

Sakura e Tenten se olharam, admiradas.

- Até você já deve ter ouvido falar em Naruto Uzumaki !

Hinata começou a sentir um friozinho no estômago.

- Sinceramente, Hinata, às vezes acho que você vive fora do tempo - disse Sakura, virando-se para Tenten - Ela não vê televisão, não vai ao cinema, não ouve música no rádio... eu vivo dizendo a ela que a vida é curta, que é preciso aproveitar, mas ela não me ouve.

- Mas me conte mais sobre Naruto Uzumaki - ela pediu, ignorando o comentário de Sakura.

- Ele é o grande nome de Hollywood no momento - Tenten explicou, cheia de importância - Fez o filme "Casa de Verão" no ano passado, um filme ótimo, e aparece num seriado da televisão, quarta-feira à noite. Você deve ter visto, Hinata !

- E está também naquele filme que todo mundo está comentando, "A Morte Chega Amanhã". Vai passar em Turlbury logo. Mal posso esperar para assistir - disse Sakura, olhando para a amiga - Algum problema ?

- Não, nada. Como ele é ?

- Lindo ! Venha cá que eu lhe mostro.

Tenten procurou atrás do balcão e reapareceu triunfante com um recorte de revista já bem manuseado, que estendeu a Hinata. Debaixo da fotografia, estava escrito: "Naruto Uzumaki - Homem do momento".

Não havia como se enganar com os belos traços, a boca sensual ou o sorriso devastador. Também não havia como negar a reação de Hinata a ele. Fazendo um grande esforço para respirar normalmente, ela examinou a fotografia que mostrava-o recostado num muro, braços cruzados sobre o peito. Havia uma vitalidade agressiva naquele homem que parecia sair do papel brilhante da revista e a fazia lembrar com clareza os olhos azuis que riam para ela.

Ela lembrou-se de que tinha duvidado quando ele disse que era ator e sentiu vergonha. Logo saberia como ela descobrira sua identidade.

- Ele não é lindo ? - Tenten suspirou - Andam dizendo que ele vem para cá e eu adoraria que fosse verdade.

- E é - Hinata respondeu, desanimada.

- Como sabe ? - as duas amigas perguntaram ao mesmo tempo.

Ela explicou, com o máximo desinteresse que podia demonstrar, que o conhecera na casa de Shiori, que ele ocuparia enquanto a vizinha estivesse na Austrália.

- Você está brincando ! - Tenten exclamou, segurando a fotografia contra o peito.

- Mas... Hinata, sua sortuda ! Por que não me disse que tinha conhecido Naruto ? - Sakura perguntou, mal podendo acreditar.

- Eu não sabia quem ele era - ela se defendeu - Nunca ouvi falar nele e acho que Shiori também não. Se fosse algum jardineiro de renome, quem sabe seria diferente.

Tenten começou a registrar as compras de Hinata, mas estava pensando em outras coisas.

- Como ele é ? É tão bonito assim pessoalmente ?

- É, e sabe que é - ela respondeu contrariada - Não faz meu tipo. Prefiro homens inteligentes. Naruto não passa de um símbolo sexual.

- Mas é um excelente ator - Sakura comentou - Você devia ter visto "Casa de Verão". Até Sasuke gostou, e você sabe como ele é crítico.

- Ai, não consigo acreditar que Naruto Uzumaki vai estar em Stynch Magna ! - Tenten voltou a suspirar - Espere só eu contar para Neji ! Se Naruto ficar o verão todo aqui, vou acabar cruzando com ele, não acham ?

- Pois eu pretendo vê-lo o mínimo possível - Hinata retrucou, pegando as compras.


P. S.: Nos vemos no Capítulo 2.