CAPÍTULO 01
O Visconde de Bridgerton
A temporada de 1832 começaria em alguns meses, mas já fazia alguns anos que Anthony não precisava se preocupar com isso.
Todas as suas irmãs já estavam casadas e sua filha mais velha, que tinha apenas 10 anos, ainda estava longe de necessitar de sua atenção para o fato.
Obviamente, já havia algumas sobrinhas chegando a esse fatídico tempo de suas vidas. Amélia, a filha mais velha de Daphne e Simon, e Elizabeth, a filha única dos Bagwell. Respectivamente com 18 e 16 anos.
Esse seria o primeiro ano de Amélia e claro que a avô, Violet, queria participar ativamente de tudo que envolvia o debute da neta mais velha na sociedade Londrina, muito embora Anthony achasse tudo desgastante demais para a uma mulher na idade de sua mãe.
Mas, como filha dos duques de Hastings, Amélia não precisaria em nada de sua ajuda, nem financeira, nem como protetor e chefe de família, ou mesmo para avaliar e escolher algum pretendente, que ele tinha certeza, seriam muitos. E, de certa forma estava feliz ao imaginar o cunhado Simon naquela situação.
Certamente ele, Anthony, teria que aparecer nas festas que fossem dadas pela irmã. Mas de resto, podia ignorar a época do ano e se atentar aos seus compromissos políticos e de trabalho.
A verdade é que os bailes e eventos das temporadas perderam completamente o encanto desde que sua esposa falecera, dois anos antes, após ficar muito fraca ao dar à luz a caçula do casal.
Depois de alguns meses lutando para se recuperar, ela finalmente deu o último suspiro em seus braços, já que ele não havia saído do lado dela durante toda a sua convalescência.
Foi uma despedida tranquila. Quando ela se foi, ele só conseguiu ficar feliz pelo sofrimento dela ter passado.
Mas sentia a falta de Kate.
E, mesmo depois de dois anos, não passava pela sua cabeça colocar alguém em seu lugar, mesmo que a sociedade já começasse a cobrar-lhe isso.
Aos 45 anos, Anthony ainda era considerado homem jovem e capaz de gerar filhos. Além disso, as responsabilidades como visconde lhe exigiam uma companheira que pudesse gerenciar toda a parte domestica das propriedades, coisa que ele tinha muito pouco tempo para se preocupar. Sua mãe lhe ajudava desde que Kate se fora, mas ela estava ficando muito cansada.
Muito embora ele soubesse de tudo isso, o plano era enrolar até que Edmund, seu filho mais velho, se cassasse e sua esposa fosse preparada para ser a Viscondessa. A única falha no plano era o fato de Edmund ter só 17 anos e não pensar em casar antes dos 25... o que ele, lembrava bem, achava cedo demais quando tinha aquela idade. Mas agora, devia admitir, a perspectiva de esperar mais oito anos para ter netos o incomodava.
As correspondências do dia chegaram em meio as suas divagação sobre ser avô. Para sua surpresa, dentre as tão tradicionais correspondências que um visconde recebia, havia uma particular, de sua cunhada, a senhora Edwina Bagwell.
Abriu o envelope por primeiro, cheio de curiosidade já que, não conseguia imaginar o que Edwina queria lhe falar com tanta urgência, visto que se veriam na próxima semana.
Com surpresa leu o pedido de desculpas da cunhada, que dizia que ela o marido e a filha não poderia comparecer ao aniversário de Charlotte, pois a irmã mais velha de Albert Bagwell, seu marido, havia ficado viúva e eles precisavam ir até Durham.
Em seguida, no texto, ela ainda confirmava a presença ao convite que fizera a família, para estarem em Aubrey Hall, dali a alguns meses, pois sua mãe decidira ser a anfitriã de um fim de semana antes do início oficial da temporada social.
Suspirou.
Mais alguém acabava de ficar sozinho no mundo e ele sabia bem como a irmã do sr. Bagwell devia estar se sentindo. Forçou a memória tentando se lembrar quantos filhos o casal, de também viscondes, possui. Recordava de uma menina, mais ou menos da idade de Edmund. Nada além disso.
Eles realmente se viram muito pouco. Mas isso não o desobrigava a escrever uma carta de condolências.
Rasurou um bilhete curto de pêsames, certo de que passaria desapercebido. Ele não lembrava de nada que lhe fora escrito ou dito na época do falecimento de sua esposa e duvidava que a recém viúva fosse lembrar de algo também.
A porta se abriu assim que ele se preparava para fechar a carta, prensando o brasão dos Bridgerton na cera quente que usaria para lacrar o envelope.
-Pai, está ocupado? – perguntou Edmund, entrando após um aceno do mais velho.
-Com o de sempre... – resmungou Anthony - ...o que foi?
-Lizzy me escreveu falando da morte do tio, o visconde de Durham.
-Sim, sim. Sua tia também me mandou uma carta informando que não poderão estar no aniversário da Charlotte. – suspirou – Ela vai ficar triste.
O filho andou elegantemente até a cadeira a frente de sua escrivaninha e sentou-se. Embora estivesse naquela idade em que os garotos ainda fossem desengonçados, lhe dando com o crescimento rápido demais de seus ossos, Edmund era de uma elegância de dar inveja até mesmo a ele.
-O que a tia Edwina lhe contou?
Anthony franziu o cenho.
-Que o cunhado, o Visconde de Durham, falecera e que eles iriam ajudar a Viscondessa nos tramites.
Edmund balançou a cabeça.
-O que mais tem para ser dito que sua tia não me disse?
-Está tudo uma confusão só... Bom, pelo que a Lizzy escreveu, os tios não tinham filhos homens, só a sua prima, a senhorita Grandet... não lembro o nome dela. – ele disse antes do pai perguntar – Nós os encontramos poucas vezes. Mas, o senhor sabe o que isso quer dizer.
-Que tudo vai para as mãos do homem mais próximo. – forçou a memória -O irmão mais novo do Visconde, se não me engano. – concluiu sem sobressaltos – Isso é um problema para elas?
A pergunta era pertinente, Anthony não conseguia imaginar que alguém que só tivesse filhas mulheres não preparasse o futuro delas caso ele viesse a lhes faltar. Mas sabia que haviam homens assim.
Edmund fez que sim levemente.
-Lizzy me escreveu porque, palavras dela, conhece bem o pai e sabe que ele não vai lhe pedir ajuda, nem vai deixar a tia Edwina pedir. O tio Albert tem muito respeito para com o senhor e não vai querer tocar nesse assunto.
Anthony acenou em concordância. Ele e o cunhado haviam desenvolvido uma relação amigável pautada em respeito mútuo e Albert Bagwell era um homem honrado demais para pedir certos tipos de ajuda.
Mas que droga, eles eram família.
Pelo menos era assim que Anthony considerava.
-O que sua prima lhe contou, me dê os detalhes.
O filho fez mais que isso, tirou um envelope de dentro das vestes e esticou para o pai.
Anthony leu a carta da sobrinha onde ela tocava por alto na má relação que os Bagwell tinham com os Grandet e comentava sobre a certeza de que voltariam de Durham trazendo a tia e a prima junto com eles, o que não era um problema, ela salientou, não eram uma família de posses, mas comida não ia faltar a ninguém.
A preocupação da jovem, na verdade, era que esse ano se tratava do debute da Srta. Grandet. Lizzy dizia achar a prima muito bonita, o suficiente para ser a bela da temporada (embora Anthony achasse difícil alguém ganhar esse título quando teria que disputa-lo com sua sobrinha Amélia, a já citada filha dos duques de Hastings), mas estava preocupada que a perda da posição de filha do Visconde de Durham lhe atrapalhasse o momento.
Lorde Bridgerton já achava que o ruim mesmo era expô-la a sociedade pouco meses após a morte do pai. Como esperar que alguém sorria depois de tal perda?
O pedido ao final da explanação era simples. Lizzy perguntava se Edmund podia pedir ao tio para que assumisse a apresentação da jovem à sociedade.
Ele chegou a ficar lisonjeado com o pedido. Apresentar a moça como uma protegida dos Bridgerton certamente a faria permanecer com os mesmos privilégios de uma filha de Visconde.
Porém, isso o obrigaria a comparecer a mais eventos do que pretendia, além de se preocupar com os pretendentes da moça em questão como se fossem para a sua própria filha.
Suspirou, entregando a carta de volta ao filho.
-Diga a Lizzy que não há problema nenhum, posso fazer isso.
Edmund sorriu satisfeito. Com um novo aceno se levantou e saiu do escritório.
Anthony terminou de fechar a carta de condolência e tratou de escrever uma resposta a cunhada. Nela, esticava cordialmente o convite da visita a Aubrey Hall a recém viúva e a filha, com a desculpa de que talvez uns dias no campo as pudesse ajudar a superar o luto de ambas. Isso deveria ser suficiente para que o Sr. Bagwell não se sentisse mal em levar a irmã e a sobrinha junto.
