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AVISO AOS CAROS LEITORES:

Foi postada uma nova versão do volume em 02/21
Caso você seja um leitor antigo, recomendo uma releitura.
Eu reescrevi considerando as críticas que recebi de vocês até então.

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GREATER ONE

VOLUME 1: ADVENTO DO SER SUPREMO

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"Power tends to corrupt, and absolute power corrupts absolutely in such manner that great men are almost always bad men."

- John Dalberg-Acton

Esta é a história de um pequeno homem fraco que foi abençoado pelos céus e em poucos dias se tornou um grande filho da puta.

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A Árvore está morta

Prólogo


O gênero Dive Massively Multiplayer Online Role Playing Game, ou simplesmente, DMMO-RPG, era o gênero de jogo mais popular naquele ano de 2138.

Estes jogos, assim como todos os outros jogos Dive, conectavam as nanointerfaces neurais de uso diário dos cidadãos a consoles recreativos dedicados. Isso permitia que, dentro dos limites sensoriais regulados, os jogadores entrassem em uma realidade virtual simulada.

A principal característica dos DMMO-RPG residia na complexidade destas realidades virtuais e no grande numero de jogadores simultâneos que as usavam.

No Japão, entre os inúmeros DMMO-RPGs existentes, um deles esteve no topo por muitos anos.

Yggdrasil.

Yggdrasil foi lançado 12 anos atrás e oferecia uma liberdade de jogo inédita até então. As possibilidades de personalização de avatares eram absurdas: mais de 2.000 classes de trabalho e 700 classes raciais, cada uma com suas próprias habilidades e características.

Como o nível máximo que uma classe poderia atingir era 15 e o Level Cap do jogo era 100, para que um personagem alcançasse o Level Cap ele teria que ingressar em pelo menos sete classes diferentes dentre as inúmeras opções disponíveis para ele.

Havia tantas opções que um jogador poderia até mesmo escolher ter um avatar ineficiente com Nível 1 em cem classes distintas. Com tal variedade e abundância de opções era muito difícil que se criassem dois personagens iguais, a menos que essa fosse a intenção inicial dos envolvidos.

O jogo oferecia nove grandes mundos para explorar, que eram: Niflheim, Muspelheim, Asgard, Midgard, Jotunheim, Vanaheim, Svartalfheim, Alfheim e Helheim.

Cada um destes mundos era baseado em um dos nove mundos da mitologia nórdica mas o design deles, no entanto, não estava restrito aquela mitologia. Cada mundo era na verdade uma construção complexa e singular, contendo elementos culturais e mitológicos de diversos povos e épocas da Terra, além de inúmeros elementos atuais da cultura pop e otaku. Até mesmo os mais exigentes jogadores eram capazes de encontrar seu nicho representado em Yggdrasil.

Cada mundo de Yggdrasil tinha diversas peculiaridades próprias espalhadas em uma enorme área comunitária de jogo que superava o tamanho da Grande Tóquio daqueles dias, mesmo considerando que a capital japonesa da época ocupava boa parte de Honshu e já tinha absorvido cidades como Osaka e Kobe.

Para incentivar a aventura e a exploração, os desenvolvedores deixaram para os jogadores a tarefa de descobrir e desbloquear cada elemento do jogo, sendo raras as vezes que eles detalharam alguma nova funcionalidade de antemão.

Como os jogadores tinham consciência desta escolha dos desenvolvedores, Yggdrasil experimentou uma corrida por informações nunca antes vista em jogos do gênero, além do nascimento de um abundante e lucrativo comércio paralelo por conhecimento.

Outra característica do jogo era que havia um sistema competitivo de guildas. Uma guilda podia ser fundada por um clã, ou party, ao conquistar uma masmorra e portanto preencher o requisito de ter o controle de uma base de guilda. Em seu auge houve cerca de 800 grandes guildas no jogo que competiam em um ranking público além de muitas outras guildas menores que se colocavam fora da competição.

Incontáveis guerras e insuperáveis rivalidades eclodiram entre as guildas criadas no jogo, algumas dessas rivalidades até reverberaram no mundo real.

Yggdrasil foi de fato um jogo virtual marcante naquele mundo real arruinado de 2138.

Mas no dia de hoje, após longos 12 anos de serviço, o jogo Yggdrasil seria encerrado.


Havia uma enorme mesa circular feita de obsidiana em uma sala muito elegante. Era uma mesa tão grande que permitia que 41 cadeiras luxuosas fossem dispostas ao redor dela em intervalos regulares.

No passado, cada uma destas cadeiras foi ocupada por alguém, mas hoje apenas três vultos se sentavam àquela mesa. Todos os três vultos eram figuras apavorantes que pareciam seres vindos de um pesadelo doentio.

O primeiro vestia uma túnica acadêmica escura que era tão magnífica quanto sinistra. Seu corpo completamente despido de carne se parecia com um esqueleto humano. Dentro de suas órbitas oculares vazias havia duas luzes vermelhas macabras que lhe serviam de olhos e cada um de seus dedos esqueléticos tinha anéis de aparência cara.

Este esqueleto sinistro era um Overlord, um Soberano da Morte, que se chamava Momonga.

O segundo ser não lembrava um humano e sim uma coisa. Sua forma era um grande amontoado amorfo de uma substância negra pegajosa cuja superfície parecida com piche se agitava constantemente, nunca ficando em uma forma por mais de um segundo.

Esta aberração gosmenta era um Elder Black Ooze, uma Gosma Ancestral, que se chamava Herohero.

O terceiro se parecia vagamente com um homem velho e curvado. Ele estava coberto por uma capa preta e vermelha sobre uma túnica cinza escura, mas o torso dele estava exposto e lembrava uma pessoa faminta, com todas as costelas visíveis sob a pele pálida. Ele tinha uma boca inumana, grande e circular com centenas de dentes caninos, como a boca de uma lampreia.

Esta monstruosidade era o Greater One, um Vampiro Primordial, que se chamava Famicom.

Estes três monstros com fisionomias tão aterrorizantes estavam reunidos naquela sala conversando fervorosamente. Vê-los conversar tão intensamente faria qualquer um pensar que era um encontro de senhores malignos que tramavam malfeitos ou ações perversas, como a morte de um homem, a extinção de uma linhagem, a ruína de um reino ou o genocídio de uma raça.

Mas o assunto que discutiam era outro bem diferente.

O que os três monstros discutiam era a situação atual de um deles no trabalho dele como programador de softwares.

"Herohero-san… você está sendo vítima desse gerente de projetos!"

"Concordo com Momonga-san! Esse gordo escroto está claramente te explorando!"

"Obviamente sei disso. Mas eu… eu não consigo fechar no azul no final do mês sem exceder o limite de horas extras..."

Estes três não eram senhores malignos de verdade, aliás, nem mesmo a sala em que estavam reunidos era verdadeira, o encontro deles estava acontecendo dentro do ambiente virtual de um jogo de DMMO-RPG chamado Yggdrasil.

A real natureza de Momonga, Herohero e Famicom era a de trabalhadores japoneses modernos, sendo que aquelas três figuras aterradoras descritas anteriormente eram apenas seus avatares no jogo.

Hoje era o dia final de funcionamento do jogo Yggdrasil. A partir de amanhã tanto a sala onde estavam quanto seus personagens deixariam de existir, portanto este seria o último encontro deles aqui.

Estes três jogadores foram tudo que restou da Ainz Ooal Gown, uma das mais infames e icônicas guildas de jogadores em Yggdrasil. No seu auge a Ainz Ooal Gown foi a maior Guild do mundo de Helheim e a nona maior de todos os nove mundos jogáveis.

Na era dourada da Ainz Ooal Gown todos os 41 membros eram ativos no jogo e dedicados ao crescimento da guilda, mas cerca de seis anos atrás eles começaram a abandonar o jogo um a um. Hoje, no último dia de Yggdrasil, apenas três deles deram as caras.

Herohero que já não logava no jogo a dois anos.

Famicom que não logava a seis meses.

Momonga que nunca deixou de logar diariamente.

Aquele devia ser o último encontro dos membros naquela famigerada base da guilda, a masmorra conhecida como Grande Tumba de Nazarick.

"Hajime! Você trabalha demais e ainda é mal remunerado. Em alguns meses vai haver contratações na corporação que trabalho… vou tentar fazer algo para você naquele momento. Mas não é nada certo..."

O Greater One Famicom disse isso preocupado com o Elder Black Ooze Herohero.

Na vida real, Herohero se chamava Miura Hajime e ele foi colega de Famicom no colegial. Foi Herohero quem trouxe Famicom para a guilda Ainz Ooal Gown.

"Ah Famicom-san, isso seria bom. Honestamente, se eu tivesse outro lugar onde trabalhar, sairia imediatamente do meu trabalho atual. Você sabe… meu chefe não é uma pessoa razoável..."

Ao ouvir a sugestão de Famicom, Herohero usou um emoji de alívio que passou a flutuar acima da cabeça dele. Como não havia alterações faciais implantadas em Yggdrasil, emojis eram usados amplamente pelos jogadores para expressar emoções.

Herohero então se queixou por vários minutos do chefe e carrasco laboral que era o Gerente de Projetos dele. O Overlord Momonga aproveitou a oportunidade e se queixou do superior dele também. Famicom por sua vez reclamou de alguns dos colegas de trabalho que faziam corpo mole e de como todo trabalho sempre acabava em suas mãos.

Por vários minutos os três reclamaram da vida real sem impedimentos. Este tipo de conversa sempre foi uma característica agradável da guilda e ajudava a aliviar o estresse da vida real.

Momonga era quem mais sentia falta dessas conversas queixosas com seus amigos. Nos últimos seis meses Momonga foi o único membro ativo da guilda, tendo vagado por todo este tempo sozinho e em silêncio pelos ambientes de jogo, acompanhado apenas das memórias de seus amigos que desestiram do jogo.

"Uwaa… Eu realmente queria ficar até o último momento, mas eu estou tão cansado..."

Herohero disse após um bocejo com uma voz exausta.

"Você realmente parece cansado, Herohero-san. Tente ter um bom descanso esta noite..."

Momonga disse isso para seu amigo de forma compreensiva.

Mas apesar de dizer isso, em sua mente Momonga desejava que seu colega permanecesse com eles até o amargo fim do jogo.

Afinal de contas esta era praticamente a despedida permanente deles desta guilda que construíram por anos com ajuda de seus amigos.

"Que?! Pro diabo com isso Hajime, você fica até o final conosco! Em nome dos velhos tempos! A questão é o que nós três vamos fazer nestas horas finais aqui?"

"Ah bem… já que você insiste farei o possível para me manter acordado..."

Famicom insistiu que seu amigo Herohero continuasse online e o último acabou aceitando um pouco relutante.

"Talvez devêssemos assistir os fogos de artifício de encerramento?"

"Por que não vemos as empregadas uma última vez?"

"Que tal atacarmos alguma base abandonada?"

Os três então passaram a discutir suas últimas ações antes do encerramento do jogo e não muito tempo depois eles decidiram o que fazer.

Dado que sair da base da guilda não era recomendado pois talvez algum outro membro chegasse nestas três horas finais, eles optaram por fazer um tour pelos dez andares da base deles, a Grande Tumba de Nazarick.

Eles então usaram um item que se chamava Ring of Ainz Ooal Gown, que era um item necessário para teletransporte dentro da base, e foram até o Mausoléu na superfície da Grande Tumba de Nazarick.

A Grande Tumba de Nazarick foi conquistada por eles muito tempo atrás.

Nazarick era uma dungeon do tipo tumba subterrânea com originalmente seis andares que foram continuamente ampliados pela guilda. Agora, no último dia de jogo, Nazarick tinha dez vastos andares.

A tumba também era uma das bases de guilda mais famosas de toda comunidade de jogadores. A tumba ficou muito conhecida nos foruns após resistir a maior Invasão de Base já feita na história daquele jogo. Naquela ocasião uma aliança de oito guildas juntou 1.500 jogadores e NPCs mercenários em um ataque maciço.

Aquela grande aliança, no entanto, foi completamente aniquilada no oitavo andar da Grande Tumba de Nazarick, sendo derrotada pelas próprias defesas automáticas da tumba, não sendo sequer necessário a interferência direta dos avatares dos membros da guilda que apenas assistam tudo do décimo andar.

Aquele fato sozinho fez a fama da Guilda Ainz Ooal Gown escalar consideravelmente na comunidade do jogo.

Uma vez que aqueles três derradeiros jogadores da infame Guilda Ainz Ooal Gown se teleportaram para superfície da base eles atravessaram o Mausoléu e iniciaram a descida da tumba subterrânea.

Eles tinham decidido que nessas horas finais iam percorrer do 1° Andar ao 10° Andar da base. Hoje eles fariam o que nenhum invasor jamais conseguiu: iriam do Mausoléu até a Sala do Trono.

Enquanto faziam essa lenta caminhada por mais de duas horas eles se lembraram de momentos marcantes da guilda e do jogo. Fazer isso foi algo muito agradável para todos os três, principalmente para Momonga que todo este tempo nunca deixou de viver Yggdrasil.

Para os outros dois o passeio foi no mínimo nostálgico.

Quando chegaram no destino final, a Sala do Trono, o relógio no console pessoal de cada um deles marcava 23:32:16.

Os servidores do jogo seriam encerrados à meia-noite.

Os três membros da Ainz Ooal Gown cruzaram as imensas portas duplas da Sala do Trono com varias figuras os seguindo, estas figuras se moviam de forma pré-programada e mecânica.

Aquelas figuras eram trinta e oito dos muitos NPCs personalizados da guilda e atualmente obedeciam ao comando "Siga-me".

NPCs personalizados eram as criações pessoais das guildas e uma guilda podia decidir desde os níveis de classe e itens, até as configurações e aparência de cada um deles.

Foi sugestão de Herohero que eles coletassem alguns NPCs importantes com os quais cruzassem durante o passeio. Todos estes NPCs eram criações dos amigos deles e também parte importante de Nazarick. Eles decidiram levá-los até o trono como representações simbólicas de seus criadores.

Infelizmente nem todos estariam representados, já que nem todos os membros deixaram NPCs para trás, alguns deles tendo participado da construção da base da guilda de outras formas.

Mas mesmo esses membros que não tinham seu nome registrado como Criador nas configurações de nenhum dos NPCs da guilda, certamente tinham ajudado de alguma forma na criação de um ou outro dos NPC presentes ali naquela comitiva.

A Grande Tumba de Nazarick foi um trabalho coletivo, no fim de tudo, e elementos importantes como NPCs eram um tema relevante demais para serem deixados para um só jogador.

Salvo algumas poucas exceções, geralmente eram vários os membros que participavam da criação de um NPC.

Cada um fazendo algo dentro de sua área de expertise, seja na programação das rotinas de comportamento, no design dos equipamentos e do avatar, na forja dos itens ou na caça de drops para preencher requisitos.

Podia-se dizer que, certamente, havia um pedaço de cada um dos membros da guilda dentro daqueles trinta e oito NPCs seguindo os três últimos jogadores da Ainz Ooal Gown.

A grande comitiva de quarenta e um personagens virtuais cruzou regiamente aquela Sala do Trono, que era o ponto final da masmorra.

A Sala do Trono talvez fosse a sala mais esteticamente elaborada de toda Nazarick, tendo sido planejada para ser o lugar onde os membros da guilda iam se reunir para enfrentar um invasor que fosse capaz de superar todas as defesas da tumba.

É claro que nunca nenhuma invasão chegou tão longe.

Momonga liderou a comitiva até o fim da Sala do Trono. Naquele lugar estava uma escadaria e no topo dela havia um colossal trono negro, o Throne of Kings. Este era um World Item, o tipo de item de mais alto grau dentro do jogo. Aquele trono conferia a tumba proteções variadas e podia protegê-la até de outros itens mundiais.

Ao lado do Throne of Kings um NPC feminino estava parado.

Era uma beldade de longos cabelos negros, pele branca e seios fartos. As generosas formas dela eram meio cobertas por um vestido branco um pouco revelador com detalhes dourados como a cor dos olhos dela. A beleza no entanto não era da raça humana, o par de asas negras na cintura e os chifres brancos na cabeça dela deixavam isso claro.

A aparência dela era sem dúvidas encantadora e a capacidade de combate dela também era alta.

O membro da guilda chamado Tabula Smaragdina foi quem criou aquele NPC, ele deu para aquela beldade o nome Albedo, em referência a segunda das quatro etapas de progressão alquímica, a etapa da Purificação.

Albedo foi uma das quatro NPCs 'irmãs' criadas por Tabula, as outras sendo a mais velha Nigredo e as duas mais novas, Citredo e Rubedo. Estas duas últimas eram peças chave da defesa de Nazarick.

Mas a coisa que mais chamou a atenção de Momonga quando ele olhou para o topo da escadaria naqueles minutos finais não foi a beleza da NPC, mas sim o item que ela estava empunhando.

Albedo estava equipando um item que não devia estar com ela, ela estava usando um World Item como a arma principal dela.

As regras internas da guilda previam que a retirada de World Item do tesouro apenas podia ser feita depois de uma votação prévia com todos os membros e, honestamente, Momonga não se lembrava da retirada daquele item ter ido a votação.

Como o próprio Momonga não entrava nesta sala a mais de um ano já que estava sempre se aventurando no exterior para fornecer riquezas ao tesouro da guilda. Tabula deve ter dado o Item Mundial para a NPC dele como um ato final antes de deixar o jogo.

"Ei... Aquele ali não é o Ginnungagap? Você deu ele para uma NPC, Momonga-san?!"

Famicom perguntou. Ele também estava surpreso com o World Item nas mãos de Albedo.

Afinal, World Itens eram raros demais.

No jogo todo havia apenas 200 deles. De todas as guildas, até onde eles sabiam, a Ainz Ooal Gown era a que possuía mais destes itens, 11.

Eles eram extremamente importantes para serem dados a um mero NPC cuja IA não saberia como usá-los corretamente.

Era até perigoso fazer isso, pois Albedo poderia facilmente destruir esta sala se ela entrasse em modo de combate e usasse este item poderoso que era focado em ataque contra construções.

Embora pelas regras do jogo ela não pudesse ferir aliados, ela ainda podia causar danos ao ambiente.

"Eu não fiz isso, Famicom-san. Talvez isso seja um presente de despedida de Tabula-san para a NPC dele."

"Ora, mas isso não é totalmente contra as regras e também contra o bom senso?"

Depois que Momonga respondeu a Famicom, Herohero entrou na conversa e perguntou aquilo.

"Claro que é Hajime! Essa NPC poderia destruir a sala do trono! O Ginnungagap tem o poder de uma magia super-nível só que sem tempo de conjuração!"

"Agora… por que Tabula faria isso?"

"Porque ele tem uma personalidade doente!"

Momonga aprendeu nestes anos jogando com seus amigos que Famicom tinha uma rivalidade com Tabula Smaragdina. Sempre foi algo muito mais suave do que a que existia entre Ulbert Alain Odle e Touch Me, mas como Líder da Guilda é óbvio que ele notaria isso.

"O que faremos sobre isso?"

Famicom perguntou.

"Awn… Que tal nada? Não acho que Albedo entrará em combate nestes minutos finais..."

Herohero deu sua resposta e também o bocejo mais longo da noite. Ele estava fazendo seu melhor para não dormir.

"Ainda assim não é certo este item ficar na mão de um NPC, levar ele pro tesouro também ia ser demorado demais... então não me incomodaria de manter ele comigo, penso."

Famicom sugeriu ficar com o item, depois que os outros dois concordaram, ele foi até Albedo e deu um comando pré-programado para desequipar a Arma Principal.

Enquanto ele fazia isso, Momonga comentou algo.

"Me pergunto o que diz a descrição dela..."

Os três vinham olhando as configurações de alguns de seus NPCs preferidos durante o passeio que fizeram. Momonga ficou surpreso com algumas das configurações que viram.

Por exemplo, houve o caso de uma NPC chamada Shalltear Bloodfallen, uma Guardiã de Andar. Aquela NPC tinha um longuíssimo texto em sua descrição detalhando fetiches sexuais que envolviam membros da guilda. Embora Yggdrasil fosse um jogo com censura de conteúdo sexual, as descrições dos personagens não eram verificadas. Se aproveitando disso o criador daquela NPC escreveu praticamente um mini-conto erótico na descrição dela.

"Se está curioso então por que você não verifica o Status dela com a Guild Weapon, assim como fizemos com alguns dos outros NPCs?"

Foi uma sugestão de Herohero.

Momonga ficou feliz por Herohero ter sugerido isso antes dele mesmo, ele então acatou a sugestão do amigo e ergueu o Staff of Ainz Ooal Gown para saciar a própria curiosidade.

Uma Guild Weapon era a ferramenta usada para gerenciar uma guilda e também o item mais importante da associação de jogadores. A destruição deste item equivalia a destruição da guilda inteira. Por esse motivo o Staff of Ainz Ooal Gown nunca tinha sido usado em combate ou deixado a segurança do interior de Nazarick.

Enquanto os três olhavam a descrição da NPC Albedo eles notaram que era quase tão longa quanto a de Shalltear Bloodfallen. Porém era muito mais complexa, erudita e sinistra.

Apesar do texto ser bem trabalhado e pensado, uma linha no final destoava e estragava tudo. Estava escrito naquela última linha:

Ela é uma vadia.

"Por que isso Tabula-san?!"

"Essa linha final me surpreendeu muito…"

"Como eu disse antes, aquele cara era um doido..."

Tabula sempre foi fã de personagens que aparentavam ser uma coisa por fora mas que na realidade eram algo totalmente diferente.

"Por que não mudamos isso?"

Essa sugestão veio de Famicom.

Depois das palavras dele, os três debateram por quase cinco minutos e foi necessária uma votação para pôr fim ao debate.

Aquela deveria ter sido a última votação oficial da guilda Ainz Ooal Gown e nela se aprovou por dois votos a um, sendo o voto vencido pertencente a Momonga, que a última linha da descrição de Albedo seria removida e que se adicionaria uma nova linha.

Ela ama Momonga.

"Isso é tão vergonhoso!"

Disse um Momonga envergonhado que usava as mãos ossudas para cobrir a face.

"A culpa disso é sua, Momonga-san. Quando rejeitou minha sugestão de 'Ela é uma frígida', eu tive que apoiar a sugestão de Hajime como uma retaliação."

Famicom respondeu ao envergonhado Momonga.

"Por que sugerir isso Herohero-san?!"

"Não é como se isso tivesse consequências, Momonga-san. Muito mais importante que isso… faltam cinco minutos agora."

Olhando o relógio eles viram que marcava exatamente 23:55:00.

Lá fora, nas praças centrais dos nove mundos de jogo, os fogos de artifício de encerramento deviam estar começando a serem lançados.

"Como era mesmo o comando… 'Ajoelhem-se'."

Momonga disse para os NPCs presentes.

Os 38 NPCs que os acompanharam até aqui se ajeitaram ordenadamente antes de ajoelharem na base da escadaria.

Já a NPC Albedo se ajoelhou no topo da escadaria, um pouco distante do trono, como foi programada para fazer.

"Momonga-san, por que você não senta no trono neste finzinho?"

Herohero sugeriu.

"Isso mesmo! Se alguém deve sentar aí é você!"

Famicom aprovou a ideia imediatamente.

Momonga se sentiu lisonjeado pela atitude dos amigos e depois de uma breve resistência cedeu se sentando no Throne of Kings com muitos pensamentos na cabeça.

Ele imediatamente pôde ler no log do console que recebeu um buff temporário nas estatísticas. Algo que ele nunca imaginou que aconteceria quando se sentasse ali.

Até onde ele sabia, ninguém nunca havia se sentado neste Trono desde sua instalação.

Os três ficaram em silêncio por um tempo olhando a sala e os NPCS.

O silêncio durou até Momonga apontar o dedo indicador ossudo dele para uma das 41 bandeiras penduradas na sala. Essas bandeiras tinham o símbolo escolhido como brasão pessoal por cada um de seus amigos.

"Momonga, Touch Me, Taylar, Shijuuten Suzaku, Ankoro Mochi Mochi, Herohero, Peroroncino, Bukubukuchagama, Famicom, Tabula Smaragdina, Warrior Takemikazuchi, Tri'ade, Variable Talisman, Genjiro, Alcatraz…"

Enquanto apontava para os brasões pessoais deles, Momonga nomeou cada um dos amigos com quem se uniu para jogar este jogo.

Quando terminou de nomeá-los, suspirou profundamente.

Momonga jogou Yggdrasil seriamente por mais de um terço de sua vida. Não era exagero dizer que foi neste jogo que ele viveu a Era de Ouro dele.

Foi em Yggdrasil, com seus amigos, que teve os momentos mais alegres e agradáveis da existência dele.

Isso acabaria hoje.

"Foi divertido jogar com todos vocês..."

Foi o que Momonga disse em um tom um pouco abatido.

"Um amigo meu que trabalha com Dive me disse que os desenvolvedores estão trabalhando em Yggdrasil II, deve ficar pronto em dois anos..."

Famicom revelou do nada uma fofoca do seu círculo pessoal.

"Se daqui a dois anos eu conseguir um emprego melhor que me permita viver como gente… talvez nos encontremos laaawn?"

Herohero deu uma ideia com uma voz cansada, pontuando com um bocejo.

"Isso seria ótimo… Apesar de atualmente Yggdrasil ser um jogo datado, o jogo era um divisor de águas quando foi lançado. A segunda versão vai certamente ser tão revolucionária quanto a primeira. Devíamos sim nos encontrar lá!"

Famicom pareceu aceitar imediatamente a ideia de Herohero.

"Se tivermos essa chance seria bom nós nos aventurarmos novamente, não é?"

Momonga também entrou na conversa.

Depois de passarem um minuto combinando que jogariam juntos de novo caso realmente saísse um Yggdrasil II, cada um dos três se fechou em seus próprios pensamentos.

Amanhã todos os três teriam que acordar cedo para trabalhar.

Fizeram um último minuto de silêncio enquanto refletiam suas próprias circunstâncias e a temporalidade das coisas boas da vida.

[23:59:48, 49, 50]

Nos dez últimos segundos de Yggdrasil, como um, os três fecharam os olhos.

[23:59:57, 58, 59]

Tudo ficou preto.

[00:00:00, 01, 02]

Hm?

- FIM DO PRÓLOGO-