Capítulo 16
Azul
"Eram momentos assim que você queria comigo, Escarlate?" disse, deixando o lábio roçar na pele fina do pescoço sardento antes de voltar a atenção para a sobremesa insanamente boa que dividiam no pequeno espaço. O beijo havia funcionado melhor do que o esperado, Ginevra expressando-se bem até demais em seus pensamentos, o arrepio ainda visível em seu braço.
O mês passara com calma, a ausência de tumultos e a nova compreensão vinda da ruiva fazendo sua mente gritar que algo não estava certo. Uma paz tão longa não era exatamente seu default, Draco se perguntando outra e outra vez o que não estava conseguindo ver aos arredores.
"Pensando bem, tive momentos públicos suficientes com você ano passado." A resposta foi ela achando a pele de suas costas por baixo da camiseta, a unha passada forte o fazendo sibilar. Precisou usar de todo seu controle para deixar a mão no garfo ao invés de faze-la desaparecer por baixo da saia comprida, ainda mais ao praticamente ouvi-la gemer em sua cabeça.
Ela sabia que ele estava ouvindo tudo, e mesmo que não soubesse, a calça de linho não escondia onde sua mente estava.
"Lembro que me peguei checando você pelo menos duas vezes em Hogwarts." Respirou fundo, se esforçando para manter o foco no chocolate. "Não haviam muitas sangue-puro naquele colégio-"
"Não acredito que estou ouvindo isso!"
"Achei que não queria mentiras." O comentário funcionou melhor do que o imaginado, a bruxa cruzando os braços. Deu uma garfada no bolo antes de continuar. "Esse era eu na época do colégio, Ginevra. Talvez esse seja eu até hoje, por mais que algumas coisas tenham mudado. Posso não ter nada contra trouxas, mas nunca me senti atraído por uma."
Não houve resposta, mas sabia que Ginevra estava muito menos incomodada do que sua cara revelava. Por mais que não revelasse com palavras, ela também nunca havia se sentido atraída por um, e ambos dividiam o mesmo pensamento sobre a dificuldade que seria manter qualquer coisa com um não-mágico.
"Você foi a única bruxa que me azarou - e digo literalmente." E ali estava o olhar suave e surpreso que queria de volta. "Acha que esqueci?"
Ela rindo era seu segundo som favorito.
"O Draco Malfoy que eu conhecia merecia uma azaração por dia."
O garfo caiu quando a viu numa posição nem um pouco discreta, os olhos colados no espelho e as mãos agarrando o lençol lhe contando o quanto a ruiva tinha aproveitado a nova aquisição do quarto. E com aquela imagem cravada em sua mente, forçou-se para fora, voltando para o restaurante onde Ginevra o encarava com sua cara mais inocente.
"O que foi, por um acaso o fato de eu ter te azarado te deixa com-"
"Já está bem difícil me controlar para não sermos expulsos daqui." Mexeu-se desconfortável na cadeira, a ruiva não conseguindo esconder o sorriso vitorioso ao olhar para o estado que se encontrava. "Onde está o garçom com a maldita conta?"
Procurou o atendente com os olhos, sabendo que precisaria de uns bons cinco minutos antes de conseguir levantar dali.
"Você sempre foi assim?"
"O jeito que você geme meu nome deixa muito difícil eu não querer tirar sua roupa - e você fazendo questão de lembrar disso num local público me deixa a ponto de ser preso por atentado ao pudor." reclamou ao mesmo tempo que o total do almoço tocava a mesa.
E só quis reclamar mais quando as mãos sardentas foram mais rápidas, agarrando o pedaço de papel enquanto a dona não escondia o espanto com os três dígitos.
"Essa é a conta?" revirou os olhos ao vê-la alcançar a bolsa.
"O que acha que está fazendo?" Não hesitou em pegar o papel de volta, o cartão que Zabini o ensinara a usar ano passado pagando o total das duas refeições, o bico de antes voltando para os lábios que queria morder.
"Eu não estou com você pelos galeões." escutou a queixa, ela mais distante fisicamente do que lhe era confortável. Quando se deixou ficar tão viciado em toca-la?
"Eu sei que não." Não se impediu de colocar a mão pequena na sua, e sim, ela sabia que não. "Você largou o Cicatriz, e ele tem muito mais galeões do que eu." Assim como agora sabia sobre detalhes muito mais avantajados de sua anatomia comparada com seu antigo rival.
Seu sorriso não passou despercebido.
"Vou ter que falar quantas vezes?"
"Quantas vezes pode repetir antes de querer me azarar?" A pegou de surpresa com o beijo terno, enfim composto o suficiente para deixarem o restaurante.
Andaram em um silêncio confortável até metade do caminho, o clima ensolarado fazendo bem para ambos ânimos.
"Quando você vai me deixar te ensinar oclumência?" E continuou antes que pudesse ser interrompido. "Oclumência não é para espionar, Ginevra."
"Porque espionar não é o que você está fazendo agora."
" É defesa, é privacidade, é controle sobre suas informações." suspirou. "E não é o que eu estou fazendo agora, se é que você não sabe."
"Eu não preciso-"
"Precisa sim!" insistiu, a voz forte surpreendendo ambos. "Você precisa porque cedo ou tarde, isso vai ser público." tocou no detalhe que ambos estavam escolhendo ignorar desde o primeiro dia. "E então, não vai mais ser apenas um de seus irmãos ou Potter, mas todos do nosso mundo. E vão querer entrevistas, e vão te perguntar coisas que-" deixou as mãos tocarem o conjunto de sardas que havia na ponta do queixo da bruxa. "E isso vai ser muito mais difícil do que você está pensando."
"Não vejo como me defender disso com oclumência." E ele se encolheu com o resto da frase nunca dita em voz alta. Não houve qualquer desculpa, não que ele sentisse-se merecedor de alguma: era verdade, afinal, que oclumência serviria muito mais para Ginevra defender-se dele.
"Pansy e Blaise vão dar uma festa a fantasia esse sábado." Mudar de assunto era sempre a melhor opção para tais momentos. "É mais um momento nosso sem eu estar te fazendo gritar meu nome."
Recebeu o sim com um sorriso, a ruiva andando alguns passos a frente antes de se virar.
"Uma festa a fantasia com Draco Malfoy." Oh, Merlin. "Eu tenho o personagem perfeito pra você."
Tinha considerado muito fazê-lo usar qualquer coisa que o deixasse parecido com um furão, certa de que se insistisse, teria seu pedido atendido.
Escolher uma cobra havia sido muito mais sábio. Por mais que a fantasia gritasse Malfoy, o bruxo até que estava mais disfarçado do que Ginevra imaginou que ficaria. A calça preta justa fazia um bom trabalho em elaborar diversas desculpas em sua mente para cancelar a festa. A peça era uma perfeita companhia para a camiseta rasgada e todas as escamas magicamente desenhadas em qualquer parte nua da pele antes branca.
O cabelo platinado denunciava a identidade do bruxo, por mais que os olhos fossem de serpente. Adorava o quão claros eram os fios, quase tão brancos quanto a pele perfeita, sem uma sarda sequer. Filho da mãe, deixando-a sem vontade de sair de casa até mesmo quando não tentava seduzi-la.
Foi pressionada contra ele após apertar o botão do elevador, e agradeceu por estarem sozinhos no pequeno espaço quando não conseguiu segurar um gemido ao sentir os lábios finos em seu pescoço.
"Eu não vou conseguir pensar direito nessa festa." ele sussurrou, os dedos brincando com o cós de sua saia a fazendo se perguntar quanto tempo demoraria subirem do térreo até o último andar. "Menos do que a gente precisa, mas Zabini já me explicou sobre o botão de emergência."
Andava tendo problemas para reclamar daquela habilidade quando a vontade de arrancar a roupa era mais forte.
"Podemos cancelar isso, o que acha?" Mordeu o lábio para evitar qualquer som ao ser puxada com mais força - e talvez fosse melhor terem alguma companhia, o botão vermelho tão sedutor quanto os lábios que acariciavam sua pele.
"Acho que a ideia foi sua." Foram as últimas palavras antes das portas se abrirem, denunciando muito mais gente do que a bruxa esperava.
O espaço estava tão caótico quanto a festa de ano novo. Achou a mão dele inconscientemente, Draco a puxando para dentro do mar de gente que dançava, muitos dos copos cheios derrubando mais líquido no chão do que dentro de bocas.
Agora entendia o porquê do bruxo ter tanta certeza de que não seriam reconhecidos ali no meio, por mais que sua fantasia estivesse longe de qualquer disfarce. Ninguém nem mesmo parecia se importar com quem entrava, cada um muito mais interessado em se alcoolizar e descobrir com quem passaria a noite. Era em festas assim que seu sonserino costumava gastar suas noites?
O braço apertou ao redor de sua cintura, a fazendo desviar o pensamento.
"Esse apartamento é enorme." E ela tinha dó do vizinho da parte de baixo.
"Os Zabini compraram os últimos cinco andares desse prédio, então não se preocupe." E ali estava ele não escondendo que a lia, e ali estava ela, se forçando a não se importar. "Depois que se juntou com Pan, Blaise não sabe mais o significado da palavra limites."
Andaram quietos até Ginevra encontrar duas caras conhecidas, os donos da farra não fazendo questão de esconderem a identidade na fantasia escolhida. O mágico e sua pouco vestida ajudante viraram-se, Parkinson não disfarçando o quão parecia descontente ao vê-la. Ao menos ela não era a única com uma fantasia trouxa.
"Quem é vivo sempre aparece!" Zabini parecia não dividir a opinião da esposa, cumprimentando o amigo antes de virar-se para Ginevra. "Já trocou de mulher? Essa aqui é muito mais do que você aguenta."
"Ela me lembra disso todos os dias."
"Me conte o que você vê no futuro com meu irmão, vidente." Ginevra não escondeu a surpresa ao ser puxada para um abraço, o bruxo se mostrando muito mais afetuoso do que imaginava que sonserinos fossem. "Ei, Pan! Eu disse que ele não viria de furão!" Blaise tentou inutilmente chamar a atenção da parceira, que deu um sorriso forçado antes de desaparecer no meio da multidão.
Qual era o problema dessa bruxa?
"Bebidas estão no lugar de sempre. A música, bem," Zabini apontava para o bar enquanto lamentava. "A música é o melhor que deu pra conseguir, visto que o responsável tornou-se impossibilitado de realizar seu trabalho após ser pego com substâncias não exatamente aprovadas pelo Ministério ao chegar em Londres. Uma pena, não acho que Sasha vá voltar para Inglaterra tão cedo." O moreno voltou a atenção para ela após servir-se de mais um copo. "Bem vinda à primeira de muitas, Escarlate."
E o dono do apartamento seguiu a esposa segundos antes de Draco puxa-la para uma mesa com mais opções de bebida do que Ginevra achava existir. Demorou menos de cinco segundos para ele decidir pela mesma que dividiram minutos antes do ano novo.
Festas, precisava confessar não estar acostumada com esse tipo de divertimento. Bem, ao menos não uma tão grande: sentia-se num clube, e duvidava que Blaise Zabini conhecesse metade das pessoas ao redor de sua mobília. Jantares íntimos como o primeiro que dividiram eram muito mais apreciados e preferidos pela bruxa.
"Isso é frequente?" perguntou, tomando um gole maior do que o normal, o batom marcando a borda da taça de cristal.
"Você não gosta." recebeu como resposta, querendo mais que tudo que os olhos de cobra voltassem a ser os azuis que sempre a confortavam. "Eu posso resolver isso, não acho que alguém ao nosso redor vá reparar."
Sacudiu a cabeça, o barulho de todos os colares e enfeites que carregava conflitando com a música alta. Não havia se importado com a possibilidade de serem vistos até esta existir, e agora não conseguia deixar de focar que alguém poderia estar pronto para coloca-la na primeira página do Profeta Diário antes de ter a chance de contar para as pessoas que importavam.
Sim, em momentos como aquele ela gostava dele em sua mente. Em momentos que se sentia nervosa ou acuada, e que tudo que precisava era uma distração maior. Draco sabia distraí-la com maestria, abandonando ambos copos na primeira superfície plana e a encostando na parede mais próxima. Os lábios dele estavam tão, tão perto, a fazendo odiar pela primeira vez a ideia de usar batom vermelho.
"Sempre acabamos contra uma parede em festas, Escarlate." ele disse, deixando o corpo encostar no dela, a ponta de seu nariz traçando as linhas de seu rosto. "Eu quero beijar você, cigana."
"Isso arruinaria as duas fantasias." Achou forças para responder, derretendo contra o bruxo.
"Não precisa ser na boca."
Aceitou de bom grado os lábios em seu pescoço, e estava prestes a retribuir quando sentiu algo gelado molhar o ombro. Uma bruxa visivelmente bêbada se desculpava pelo acidente antes de ser tirada de cena por uma amiga igualmente alcoolizada, deixando Ginevra para limpar a bagunça.
E era por isso que detestava festas.
"Acho que preciso de um banheiro." disse, pensando onde estava com a cabeça ao sair sem sua varinha para uma festa livre de trouxas.
"Posso ir junto?" revirou os olhos, se livrando das mãos que insistiam em trazê-la para perto.
Desistindo de acompanha-la, Draco apontou para o corredor que havia à esquerda após roubar um último beijo no ombro descoberto.
O enorme espelho no banheiro mostrava o quão grande havia sido o estrago feito pelo líquido. Ainda tentava secar a blusa branca, agora quase transparente, quando justo a pessoa que parecia mais não ir com sua cara em toda festa resolveu dividir o mesmo cômodo.
Parkinson realmente não tinha qualquer vergonha, e Ginevra gostava da qualidade em suas amigas. No entanto, não era exatamente confortável compartilhar aquele espaço com alguém que mal conhecia, por mais que a bruxa fosse ser muito mais presente em sua vida com o loiro ao seu lado. E ela não colaborava em nada ao entrar sem uma palavra, usando o banheiro como se Ginevra não estivesse ali, apenas a olhando após lavar as mãos.
"Weasley." Precisava admitir a surpresa quando a bruxa arrumou com um toque de varinha o que ela tentava limpar com a toalha. "Alguma das ex-vadias do seu namorado te achou?" Uma ação agradável, duas que a faziam querer sair correndo. Até que estava no lucro.
"Foi um acidente." disse, recebendo um olhar desconfiado.
"Já ouvi isso antes." a frase veio com um suspiro, a mulher mais velha checando a maquiagem antes de voltar a falar. "Por que meu amigo sempre acaba com as mãos em você?"
Era oficial: Parkinson a fazia querer gritar, e Ginevra não fazia ideia de como lidaria com aquilo mais de três vezes por ano.
"Preferia que as mãos acabassem em você?" soltou antes que pudesse se controlar, por um momento lembrando-se das fofocas que corriam sobre Parkinson ser a foda oficial do sonserino nos tempos do colégio.
A cara de desaprovação que recebeu da bruxa foi genuína.
"Isso é nojento!" A voz saiu alta, a porta sendo trancada e um encantamento silenciador lançado antes da mulher continuar na mesma entonação irritada. "Pensar em fazer qualquer coisa desse tipo com ele é revoltante! Draco sempre foi como um irmão para mim, eu conheço ele desde que me lembro, nós brincávamos juntos, crescemos juntos!" a morena à sua frente parecia estar a ponto de azara-la. "É comum irmãos se beijarem na sua família, Weasley?"
Xingou-se mentalmente mais uma vez por resolver sair sem sua varinha, querendo mais que tudo destrancar a porta e sair correndo dali. Abriu a boca, mas não conseguiu pensar em nada para retrucar antes do sermão continuar.
"E ele está se arriscando outra vez." Outra vez? "Porque ele está sim se arriscando, porque ficar com você é e vai ser sempre um risco! Já pensou em como sua família vai reagir quando descobrir que trocou um Auror perfeito por um ex-comensal? Ou como você vai reagir quando começar a ser julgada? Como vai se sentir quando te olharem diferente?"
Cerrou os punhos, deixando as unhas machucarem a pele sensível da palma da mão para tentar conter um par de lágrimas que se formava. Ela tinha sim pensado em tudo aquilo, mas esquecer-se das dificuldades e focar apenas em tê-lo ao seu lado era muito mais agradável.
Parecia agora também ser muito mais cruel.
"Draco quer te mostrar pra todo mundo, pela primeira vez na vida o cara que é como um irmão pra mim quer fazer todo o mundo mágico saber que tem alguém do lado dele. Sabia que ele está apavorado em sequer tocar nesse assunto com você? O que você anda pensando pra ele ficar tão desconfortável? O quanto vão te julgar?"
Mordeu o interior da bochecha até o gosto de metal tocar sua língua: ela não iria chorar justo na frente de Pansy Parkinson. Já bastava ter que admitir que a bruxa só lhe falava verdades que os dois - talvez ela mais do que seu sonserino - não conseguiam admitir em voz alta.
"Porque vão te julgar. Vão te julgar, do mesmo jeito que julgam o meu irmão, todo dia. Do mesmo jeito que me julgariam se meu marido não tivesse praticamente me sequestrado para não me deixar fazer a mesma merda que Draco fez!"
Decidiu que a batida que ouvia na porta era sua salvadora, Parkinson desistindo de continuar e destrancando a fechadura ao ouvir o barulho pela terceira vez.
"Você não está vendo que o banheiro está ocupado?" E ali estava o mesmo ex-colega grifinório que havia lhe reconhecido na festa meses atrás. "Não lembro de ter te convidado. Quem é você?" escutou surpresa, pensando se isso era Parkinson continuando a ser irritante com outra pessoa, ou se a bruxa realmente sabia a cara de todos que chamara para seu apartamento.
"Denis!"
Não que se importasse com tal agora, agarrando o colega pelo braço antes de sair apressada do banheiro, a música e luzes piscando a atingindo assim que os pés voltaram para o amontoado de gente.
"Meu salvador!" Precisou quase gritar para ser ouvida, os olhos procurando sem sucesso o namorado.
"Parkinson estava sendo uma vadia?" O bruxo falou usando o mesmo tom, Ginevra os puxando para longe da companhia que decidira evitar até o fim da noite.
"Como sempre." respondeu, notando as roupas normais usadas pelo bruxo. "E ela só seria ainda mais cuzona te vendo quebrar a regra de vir fantasiado."
"Ginevra Weasley xingando, isso é novidade!" riu, pensando que aquela não era a única novidade que tinha para o bruxo.
Mas dizer com quem estava era muito mais difícil na prática do que pensava, realizou agora. Porque quando a pergunta seguinte foi feita, Ginevra respondeu estar com uma amiga, apontando para um grupo aleatório que parecia estar se divertindo. E por um segundo, sentiu a culpa tomar conta de seu coração. Parkinson pode ter sido uma cuzona, mas ela estava certa em todas as palavras e a ruiva sentiu-se a pior pessoa do mundo.
Até Denis voltar a falar.
"Aquela que está se pegando com Malfoy?"
Era como se seu coração tivesse sido arrancado de seu peito. A visão ia contra tudo que acreditava, tudo que dividiram, todas as palavras ditas. Sentiu as pernas trêmulas, e achou que fosse esvaziar o estômago no primeiro canto quando deu um passo para frente. Porque o que ela via depois de tudo que compartilharam no último mês não fazia o menor sentido.
Havia uma bruxa que parecia ter saído de uma capa de revista agarrando os cabelos platinados que eram só seus, os lábios colados nos que pertenciam à ela, e tudo que Ginevra precisava era desaparecer dali.
"Porque mesmo fantasiado, não tem como não reconhecer esse cabelo." as palavras pareciam distantes, Ginevra puxando forte uma respiração que antes segurava antes de virar-se para onde imaginava ser a saída. "Você não vai até lá? Pode deixar sua amiga se divertindo e achar sua própria diversão."
Mas Ginevra recuou da mão que tocava a sua como se fosse brasa, por mais que por um instante tenha considerado devolver na mesma moeda. Deveria ficar, deveria ir até lá e perguntar o que estava acontecendo, deveria querer saber porque o bruxo mentira ao dizer que era dela, e Parkinson estava errada em tudo que disse, porque nada, nenhuma daquelas palavras era verdade, porque ele estava beijando outra e seu cérebro mal conseguia funcionar.
Precisava respirar. Precisava respirar longe dali.
Forçou os olhos para longe após segundos que pareceram uma eternidade, do mesmo jeito que forçava um sorriso, por mais que as lágrimas de antes agora estivessem perto de cair.
"Já estava indo embora." mentiu, ignorando qualquer decepção que deveria ver no rosto do colega. "Eu odeio festas." confessou quando os olhos enfim acharam o elevador.
Não falou mais nada antes de voltar a se perder no mar de bruxos embriagados. Apertou o botão mais vezes do que o necessário, e pareceu demorar uma vida antes das portas se abrirem, ela sendo a única a entrar no cubículo. A lembrança de mais cedo lhe deixava um gosto amargo na boca, a fazendo ignorar a voz chamando seu nome.
Ciúmes, há quanto tempo Ginevra não precisava lidar com essa emoção? Enquanto saía pela noite fria e repetia precisar aguentar menos de quatro quadras, não se forçou mais a segurar qualquer lágrima. As pernas corriam iguais, finalmente funcionando sem tremer, ela nunca olhando para trás enquanto as mãos abriam com pressa a entrada do edifício, a tranca do apartamento.
Chutou as botas para longe após bater a porta. Jogou água no rosto, o espelho do banheiro mostrando o rímel escorrendo e o batom borrado. Limpou qualquer traço de maquiagem, enxugando com raiva as lágrimas que insistiam em não parar enquanto afirmava que tudo aquilo havia sido um erro. Se repetisse o suficiente, talvez a informação se tornasse verdade e sua vida ficasse outra vez mais simples.
Não fazia sentido e com certeza teria uma explicação, mas por um segundo, por aquele breve instante deixou-se pensar que seria melhor assim. Talvez o certo a fazer fosse acabar com aquilo e nunca mais abrir sua porta. Poderiam voltar a ter uma relação de empregado e empregador, poderiam ser colegas e por Merlin, quem ela tentava enganar?
Mas quem era a bruxa que roubava os lábios que eram só dela, pensava ao fechar a torneira, os olhos já vermelhos de chorar.
Por mais que seu cérebro tivesse pensado em mais possibilidades do que gostaria, seu coração sabia que a batida em sua porta não viria apenas na manhã seguinte - como aconteceria, caso o beijo tivesse sido verdadeiro. Não era como se não houvesse uma explicação mais racional do que as que ela tinha em mente para a cena que a fizera sair correndo sem pensar.
Mas Ginevra não precisava deixa-lo entrar na primeira batida.
"Eu sei que você está aí, Escarlate." O peito pesou ao ouvir o apelido que aprendeu a gostar. Mais uma batida, junto de um suspiro. "Posso ficar aqui a noite inteira." Olhou para o relógio na parede da sala, percebendo que a diferença do tempo entre a chegada dos dois era de menos de cinco minutos. "Deixa eu explicar, Ginevra."
Queria sim não abrir a porta, porque a última coisa que gostaria era de resolver mais uma briga. O peito ainda estava machucado, e tinha vontade de se enrolar na cama com Shine e chorar até dormir.
"Não me coloca pra fora da sua vida, Gi." E sentindo raiva e culpa, soube que o bruxo havia outra vez lhe tirado cada momento de privacidade. "Por favor, me deixa entrar."
Suspirou, a mão virando a chave, a porta aberta revelando olhos outra vez claros.
"Eu sei o que você acha que viu-"
"O que eu vi, Draco." ela o cortou séria, recuando da mão que tentou toca-la e indo parar na bancada da cozinha americana. "O que eu vi que você ficou sozinho um minuto e arranjou companhia."
"Eu não arranjei companhia." Draco negou, bagunçando os cabelos enquanto acabava com a distância entre os dois em passos grandes. "Ginevra, ela se jogou em mim, eu juro-" Ele sabia que não deveria toca-la agora, assim como provavelmente descobriu o quanto aquilo cheirava à conversa fiada. "Eu não estou mentindo!"
"Sai da minha cabeça!" Teve vontade de arremessar todas as maçãs que haviam perto na cabeça do bruxo, tamanha era a bagunça estavam seus sentimentos. E como se soubesse - não como se soubesse, porque ele sabia -, Draco a segurou pelos pulsos ao se aproximar.
"Você acha que eu te trocaria por alguma bruxa?" Aqueles olhos nunca pareceram mais sinceros. "Só tem você, Ginevra! O que eu preciso fazer pra você entender isso?"
Era injusto como ele a desarmava com um beijo, do mesmo jeito que era trapaceiro ele saber exatamente o que fazer para acalma-la. O peso no peito suavizou com o toque, seus dentes achando o lábio inferior do bruxo com mais força que o necessário. E ao invés de solta-la e se perguntar porque a bruxa queria machuca-lo de propósito, ele soltou um gemido abafado enquanto pressionava-se contra o corpo que mostrava desejar.
"Só você me faz ficar desse jeito, só você me faz perder a cabeça-" E ali estavam os dois, resolvendo seus problemas do jeito que pareciam sempre estar fazendo. "Acha que fico assim com mais alguém? Acha que-" A mordida dada no pescoço, tão forte quanto a primeira, o fez perder as palavras. Os olhos que achou eram muito mais escuros do que segundos atrás, ele a encorajando a prender as pernas em sua cintura. "Pansy mesmo disse, eu nem consigo começar se não for com você!"
Não.
"Eu só quero você, bruxa."
Não!
As mãos brancas seguraram com força a borda de mármore, Draco se afastando o suficiente para os corpos não se tocarem, no rosto uma expressão que misturava irritação e dor.
"Eu tinha ido para outro canto justamente para evitar essa bruxa." começou, respondendo tudo que Ginevra apenas se atrevia a pensar. "Nós nos conhecíamos." E soube que aquele era o jeito dele dizer que sim, ele havia feito mais do que apenas beijado a loira no passado. "Ela me seguiu, e eu disse que não estava mais disponível para seja lá o que mostrava querer."
Não soube porque lembrou-se da marca de batom que vira após o ano novo. Incrível como os olhos que ela um dia disse serem frios pareciam não conseguir mais esconder nenhuma emoção.
"Nós não estávamos juntos no ano novo, Ginevra." afastou com um tapa a mão que tentou tirar o dedo que mordia de sua boca, saindo de perto dele e indo para a parede oposta.
Daquela vez, ele não se aproximou.
"Eu me livrei dela em segundos, eu nunca a beijei de volta e quando olhei para onde você deveria estar, só vi minha amiga." Que deve ter rido da situação, pensou. "Que falou que o melhor que eu poderia fazer era sair correndo atrás de você. Eu-"
Viu um olhar conflitado antes do bruxo achar o bolso da calça com a mão esquerda.
"Eu quero que todos saibam que você é minha, Ginevra. Não," Draco levantou a mão livre ao vê-la abrir a boca. "Não diga que não, porque eu sou seu. Por inteiro." Mas ele não era tão dela quanto ela sentia-se dele. "Eu sou, Ginevra. E eu não quero passar por essa situação outra vez." Conteve arrancar uma pele que a incomodava no último segundo, a bruxa não precisando saber ler pensamentos para saber qual seria a próxima coisa a ser dita.
Malditos olhos claros que nunca pareceram tão sinceros.
"Eu não consigo mais esconder você, Escarlate."
Não se opôs quando o bruxo alcançou sua mão, o metal gelado deslizando pelo seu dedo fazendo seu coração acelerar. O que era aquilo? A pedra azul que carregava em sua mão esquerda era da cor dos olhos que a observavam e por Merlin, o que era aquilo?
Voltou a atenção para ele, e ainda perguntava-se o motivo de todo o silêncio quando notou a expressão tão peculiar, uma mistura de relaxamento e agonia.
"Draco?"
"Sim?"
"O que é isso?" Precisou perguntar em voz alta, de todos os momentos, justo agora o bruxo a obedecia e ficava longe de sua mente.
"Sua privacidade."
Demorou para a informação ser absorvida, os olhos castanhos indo de azul para azul.
"Zabini sabia o que estava acontecendo - o que está acontecendo, porque," Houve hesitação por um segundo antes dele continuar. "Porque com você é tão assustadoramente natural, mas eu consigo fazer isso com outras pessoas, e muitas vezes é," Ficou sem reação com as próximas palavras. "É uma mania que tenho. Eu simplesmente escuto. No começo era para me defender, por Salazar, envenenaram a porra da minha comida-"
"Draco-"
"Eu sei que é errado. Mas é literalmente um jeito de me manter vivo, Ginevra."
Respirou fundo, a mão brincando com o anel que encaixava-se perfeitamente em seu dedo indicador.
"Me diga o que está pensando." o pedido veio junto de sua aproximação, e ela deixou ser beijada na testa, nas pálpebras, até os lábios apenas roçarem nos seus.
Ela pensava que nunca havia sentido por ninguém o que guardava no peito pelo bruxo. E com o anel descansando sobre a bancada de mármore, Draco escutou cada palavra. Sim, havia adorado o anel, e talvez aquele tivesse sido o melhor presente que ganhara em toda vida - tanto pela beleza quanto pelo valor sentimental.
"Então por que?"
As próximas palavras precisavam ser ditas.
"Porque eu te dou esses momentos."
Avançaram um para o outro ao mesmo tempo, Ginevra não contendo um gemido quando os lábio se encontraram. Suas pernas foram para o redor da cintura do bruxo, ele cambaleando os dois para o sofá, jogando-os no couro preto. Nunca o quis tanto em sua mente, nunca necessitou tanto ser lida por alguém. Precisava dele agora, precisava esquecer-se de toda aquela noite, todas as brigas que haviam pela comunicação pobre entre os dois. Temia tanto estar se jogando num abismo, sempre correndo, sempre nervosa.
Mas Draco sabia como acabar com seus medos. Sabia, e se conseguissem superar aquelas primeiras dificuldades, dariam um jeito em todo resto.
Arfou ao ser penetrada sem nem ao menos ter qualquer peça de roupa removida, o bruxo precisando dela tanto quanto ela necessitava senti-lo desde o começo da noite. A mente ficou mais leve quando um ritmo rápido e forte se estabeleceu, fazendo restar apenas o desejo que dividiam um pelo outro. Ele mal havia abaixado a calça, o botão do jeans roçando em sua virilha toda vez que o sentia mais fundo.
Arranhou as costas brancas forte o suficiente para deixar marcas quando foi outra vez mordida no pescoço, o desejo que sentia desde o momento que entraram no elevador sendo realizado outra e outra vez. Queria mais rápido, mais forte, o que bastasse para fazê-la esquecer-se de tudo e todos e só focar no que acontecia, neles. Nunca usaria qualquer anel em momentos como aquele.
"Olha pra mim." As palavras roucas saíram como uma ordem, os olhos claros contrastando ao mostrarem-se suaves. "Eu te dou esses momentos também." As mãos em sua cintura a levantavam como seu ela não pesasse nada, apenas para no próximo segundo a fazerem perder completamente a respiração, o bruxo parecendo tão sem ar quanto ao enterrar-se nela. "Por mais que meu pensamentos não sejam exatamente coerentes agora."
E Ginevra perdeu as palavras com a tentativa do bruxo de tornar aquilo mútuo. Sim, ele a ouvia até naquelas horas - principalmente nessas horas. Era tão fácil entender porque estava pior do que uma viciada ao lembrar disso.
"É enlouquecedor tudo que escuto quando estou dentro de você." a confissão veio com ele roçando exatamente onde Ginevra precisava. Era sempre assim? Era assim como todas as outras- "Eu nunca me perdi nos pensamentos de ninguém." Jogou a cabeça para trás ao senti-lo abaixar sua blusa, os lábios se perdendo em seus seios do jeito que desejara segundos atrás.
Oh Merlin, aquilo era tão-
"Tão íntimo que chega a doer." a frase traduzia tudo que ela pensava.
A intensidade do momento que dividiam era atordoante. Draco ia de estocadas rápidas para um ritmo tortuosamente lento, a segurando tão, tão perto, sabendo o quanto a bruxa precisava ter certeza de que o que acontecia ali não era apenas carnal - por mais que era o que ambos estivessem buscando.
"Nunca foi só por causa de seu corpo." Deixou um suspiro escapar ao senti-lo outra vez mais fundo.
E desejou também poder fazer aquilo, poder toca-lo em todos os pontos que-
"Você me faria passar vergonha se deixasse isso melhor," ele confessou, sorrindo, e ela amava aquele sorriso. "Eu mal aguento dez minutos te escutando o tempo todo. Já estou tão perto," E mesmo naquela velocidade, sabia que estava prestes a cair. "Merlin, os sons que você faz!" escutou contra sua pele, Draco a segurando pelos quadris enquanto afundava o rosto em seu pescoço.
Os lábios se acharam outra vez, e uma mordida em seu inferior foi o que a fez tremer, cada músculo de seu corpo parecendo contrair-se, e a única coisa que conseguia pensar era que sim, era dele, dava-se para ele por completo enquanto Draco saía de seus lábios como um mantra.
Era sua do mesmo jeito que sabia que o homem embaixo dela era seu, e deixou sua boca copiar a dele, mordendo a pele que havia no ombro imaculado. As mãos a puxaram mais uma vez com força, Draco jogando a cabeça para trás, os lábios partidos soltando um gemido primitivo ao explodir dentro dela.
Ainda o sentia tremer quando voltou a si, e apenas a sensação a fazia querer recomeçar tudo outra vez.
"Eu mal comecei."
Quando enfim pararam, estava numa mistura de peças de roupa, lençol e travesseiros, a bruxa lutando para deixar os olhos abertos. Não conseguia pensar em nada a não ser em como era bom tê-lo em sua cama, os braços que a mantinham contra o peito suado nunca suavizando o aperto.
"Vai pra mansão comigo no próximo feriado, Escarlate." escutou antes de pegar no sono, fazendo que sim com a cabeça antes de conseguir pensar.
"Jogo sujo, isso." Mal conseguia falar, o cansaço finalmente a vencendo.
O sentiu sorrir contra seus cabelos, aquela sendo a última coisa registrada por seu cérebro antes de se deixar dormir.
Nota da autora: Saiiiuu! Gente, desculpa a demora aqui, mas ando com um bloqueio pra desenvolver os capítulos dessa fic - tanto que comecei um milhão de outras. Mas ela já está praticamente toda escrita e EU VOU TERMINAR, então me deem uma força e fiquem aqui comigo pra isso ;)
Já viu meus outros dois projetos? Ímpares é uma DG em Hogwarts que estou adorando desenvolver, e Vermelho é só um mar de ideias um pouco mais... maduras... que acabam na minha cabeça.
Passem por lá se puderem! Vou adorar um feedback!
Beijos de quem vai se esforçar para acabar mais um capítulo até fim de junho,
Ania.
