Capítulo 32 – Revés.

Na mesma velocidade que os olhos de Okoi se encheram de lágrimas, despareceram. Secaram como se nunca houvessem existido.

Depois de tantos anos, vivendo sob múltiplas torturas, submetida as mais degradantes atividades, seria possível que havia ainda algo naquele mundo capaz de fazê-la sofrer? Ela pensava que não. Que teria costurado todas as amarras da dor, e que nada mais arrancaria algum gemido agonizante do seu âmago.

A vida era mesmo uma surpresa e tanto. Quando é que iria imaginar, que ao finalmente ser libertada, daria de cara com o único grande amor da sua vida casado? E, não com qualquer outra. Pois, se fosse assim, com uma dedicada a somente provê-lo quando estivesse sedento por uma companhia feminina ou para cumprir determinado contrato de benesse, seria facilmente entendido...

Não era o caso.

Yashamaru não matrimoniou com alguém indiferente. Decidindo-se casar, ele o fez por amor.

Então, eis que a derrocada do seu ser, já tão ferido e machucado, fez renascer algum ponto antes esquecido da qual não lembrava mais que doía. Okoi, que noutros tempos tinha sentido dor até mesmo no cabelo, surpreendeu-se ao constatar que no presente momento habitava em si uma parte apta a fazê-la retesar.

Mais um golpe.

O destino não cansava de lhe ser cruel e pesar a mão ao tecer seus passos? Temia que o carma que a seguia continuasse a pregar mais peças. Será que algum ser divino se divertia com seu sofrimento? Não poderia imaginar o contrário. Porquanto, depois de tantos anos em desventuras, o que mais poderia ser senão isso?

-Entendo...—Okoi disse desviando os olhos de Yashamaru. —Isso explica o motivo dela ter saído correndo quando me viu... Quando me viu te beijando.

-Akane não sabia que a tinha encontrado. Contaria assim que chegasse, mas, não deu tempo. —Yashamaru respirou fundo segurando novamente no braço de Okoi.

Okoi não hesitou, voltou a olhá-lo intensamente, e o que apareceu diante dos seus olhos foi um semblante derrotado, de alguém recheado de culpa. Poderia contar nos dedos o número de vezes que o vira daquela maneira tão pesarosa. Nos dedos de uma única mão, obviamente. Aquele yokai, ao menos o que conhecera e que vivenciou tantas coisas, não tinha o perfil de se desabrochar daquela maneira tão pesarosa.

-Nunca irei me perdoar... —ele falou, com todo o pesar que habitava dentro do seu ser.—Mas, se ao menos você conseguir... Se ao menos tiver o seu...

-Não há o que perdoar, Yashamaru. Você não tinha como saber. —Okoi falou sincera. Com um sorriso desanuviado, colocou a mão no rosto alheio num toque carinhoso.

-Ainda assim, eu devia...

-Não posso culpá-lo ou odiá-lo pelo que aconteceu. —ela o interrompeu gentilmente apoiando o dedo indicador nos lábios do outro. —Sei bem o quanto lutou para manter o nosso clã e que não desistiu, nem mesmo quando as coisas estavam desfavoráveis a nós e parecia impossível vencer.

-Não é justo. —Yashamaru falou ao tirar o dedo de Okoi da sua boca. —Por que isso teve que acontecer? Por que logo com você? Se pudesse...Se pudesse, Okoi, eu teria ido no seu lugar. Você não merecia essa vida... Não você...

-Mas ela ainda não acabou, não é? —Okoi riu de maneira fraca, brevemente, jogando os braços para trás das costas. —Eu sobrevivi! Isso não é incrível, Yashamaru?

-Okoi...

-Se culpar não irá mudar o que aconteceu. Isso agora faz parte do passado. Um passado que não quero reviver nunca mais, e sim superar. Deveria tentar fazer o mesmo, Yashamaru. —Okoi deu uma piscadela descontraída a ele, e logo pegou em suas mãos o fitando afetuosamente.

Yashamaru engoliu a seco com os olhos trepidantes.

Okoi sempre fora daquele jeito, a sensatez na forma de um ser vivo. Indubitavelmente vê-la moldada no mesmo padrão depois de tantas coisas que a acometeram ultrapassou todas as suas expectativas.

O comandante apertou os dedos finos dela entre os seus, levando as costas de suas mãos aos lábios, ele as beijou em devoção várias vezes antes de desvencilhar delas. Como se estivesse a descobri-la novamente, passou a mão pelos seus cabelos em admiração, desde o topo as pontas, bailando pelo comprimento com serenidade. Depois, tornou a voltar, e dessa vez, quando a mão escorregou, passeou pelo contorno do rosto assustadoramente liso e macio, encastelados da mesma forma que se lembrava.

Em outros tempos, aquele seria o momento de Yashamaru se esgueirar com ímpeto. Sem cerimônia, emaranharia seus dedos por entre a nuca de Okoi e afundaria nos lábios dela, a pressionando seguramente contra o seu corpo. Uma torrente de energia o atingiria e o fogo que os habita saudariam em agradecimento por aquele toque familiar e oportuno. Arderiam intensamente sem derreter e tudo pareceria chama.

No entanto, o frenesi não veio...Não adiantaria forçar.

E tudo se resumiu a culpa, piedade e dor.

O que poderia fazer? Não existia um modo de controlar suas sensações, afinal. Estranhamente, mesmo estando tête-à-tête com aquela personalidade que tanto remexia com seus sentimentos e alimentava seus desejos de forma violenta, não conseguiu trazer à tona os deleites dos tempos remotos.

Yashamaru sabia bem o porquê.

Seguramente porque quem o desestabilizava possuía os olhos vermelhos como as labaredas que lambiam todo o seu interior e que resplandecia em seus cabelos dourados tal como o astro rei que teima em não partir. Como um anúncio de um entardecer, ela desmaiava por sua mente tal qual o sol que se posta no horizonte preguiçosamente, sem pressa de partir.

Não sendo chama, derretia-se. E num embalo morno, aconchegavam-se em profusão perfeita, embolorando em acalento doce.

Okoi percebeu o esmorecimento de Yashamaru a sua frente quando ele deixou de tocá-la. Notoriamente um conflito o atingia em cheio.

Ela sorriu ao vê-lo assim. Aquele yokai não havia mudado em nada. Seu senso de justiça bem como a honestidade berravam no seu semblante sério. Tratou de colocar a mão no ombro de Yashamaru, como se estivesse a confortá-lo. Tirando-o do devaneio, puderam voltar a se encarar.

-A última coisa da qual preciso é olhar para você e enxergar que meu retorno é um tormento. Dentre tudo, isso soaria a mais insuportável das coisas. Meu coração não aguentaria.

-Não! Não é isso! —Yashamaru rebateu num afã aflito. —Nunca a ver novamente seria motivo de infelicidade ou tormento. Não imagina o quanto me sinto aliviado e grato por estar dividindo o mesmo espaço com você novamente! É só que... Eu... Essa situação...

-Akane. —Okoi completou a fala do comandante que parecia buscar as palavras certas. Assentindo a ele, trouxe sua mão de volta a si. —Eu sei...

-É. Akane... —ele repetiu o nome da qual só de ouvir e pronunciar fora o suficiente para fazer seu coração bater diferente.

-Hm... Foi ingenuidade achar que estaria sozinho depois de tantos anos. Imagino que muita coisa deva ter acontecido nesse longo intervalo e... Entendo o porquê da Akane! Entendo verdadeiramente por ser ela.

-Precisa saber que não foi algo planejado... —Yashamaru estreitou os olhos colocando a mão no próprio peito. —Naquela época, sabe que só estive com você, não sabe?

-Como não poderia? Eu não o deixava nem respirar! —Okoi deu de ombros com um sorriso nostálgico. Logo, voltou a ele com um semblante sem graça. —Espero que não tenha causado problemas ao beijá-lo. Não consegui evitar fazê-lo, foi mais forte do que eu.

-Okoi... —Yashamaru buscou forças em seu interior, e a encarando seriamente disse sem abalo no timbre. —Não posso dizer que lamento por ter me casado com ela. Não seria verdade. É muito forte o que sinto por ela... Sendo franco com você, eu amo Akane, amo muito.

-...Eu sei...—Okoi se retesou segurando com a mão esquerda seu outro braço. —Deu para notar...

-... É tão estranho... —Yashamaru respirou fundo pressionando a ponte do nariz com os olhos cerrados. —É tão estranho dizer isso para você.

-É. —ela sorriu coçando a lateral da cabeça com um sorriso amarelo. —...Bastante!

Okoi pigarreou tentando voltar ao tom sério de antes e recobrar o foco. Alinhando-se numa postura ereta, respirou profundamente pelo menos duas vezes antes de voltar a olhá-lo.

-Há coisas mais importantes agora do que isso. —ela retomou o tom sóbrio e focado. —Preciso mostrar os planos de Ryotaro, é melhor irmos. Disse que não demoraríamos.

-Sim. —Yashamaru assentiu em concordância.

...

Enquanto encaminhavam-se ao jardim, Sesshoumaru fez um breve resumo a Jaken dos últimos acontecimentos no Oeste. Estando a par dos pontos mais importantes, o yokai sapo não pôde deixar de soltar vários espasmos com as últimas descobertas.

-Então aquela yokai era a noiva de Yashamaru! —Jaken falou para si mesmo em assombro. —O quê o senhor acha que ele irá fazer quanto a Akane?

-Isso não é problema nosso. —Sesshoumaru respondeu categórico. —Concentre-se no que realmente importa.

-Sim, senhor Sesshoumaru! —Jaken assentiu mantendo uma postura ereta e decidida. Colocando a mão no queixo, o yokai sapo prosseguiu a dizer. —Hm... Eu estranhei quando disseram que Tetsuo estava aqui, mas agora tudo faz sentido! Provavelmente ele está querendo elaborar um plano junto com o senhor para derrotar esse tal de Ryotaro.

-De fato.

Fazia tempo que Sesshoumaru não repousava os olhos em Tetsuo.

Na realidade um bocado de anos espreguiçou-se lentamente entre o último encontro com aquela criatura sempre encapuzada de voz grave.

Sendo este o caso, ao deparar-se com a figura do outro, os olhos âmbar assobiaram espantosos nos primeiros segundos. Posto que, Tetsuo não se igualava totalmente àquele das suas memórias.

O Comandante do Sul jazia com o rosto parcialmente coberto, tendo somente a metade direita enrolada firmemente com as famosas talas da qual praticamente faziam parte de si.

O lado exposto tracejava um semblante alinhado e pueril. Sardas suaves dividiam o espaço por baixo dos olhos pretos como a noite com uma funda cicatriz que cortava verticalmente da sobrancelha grossa até as maçãs do rosto delgado. Os cabelos lisos castanhos, quase ruivos, paravam um pouco antes dos ombros ocultando a orelha e as marcas pesadas na lateral do seu pescoço.

Jaken, diferentemente de Sesshoumaru, não conseguiu disfarçar a surpresa de vê-lo sob nova roupagem. Pois, o mais surpreendente daquilo tudo, com certeza, não era o fato de Tetsuo ter revelado parcialmente o rosto, mas sim, por parecer, mesmo sob cicatrizes e faixas rústicas, tão bonito!

-AHHH! Ma-Ma-Mas o-o quê aconteceu!? —Jaken falou num sobressalto não conseguindo se conter.

Tetsuo demorou alguns segundos a entender, chegou a virar-se para trás na busca de respostas. Mas, ao não identificar nada de anormal, compreendeu num estalo que o susto que o yokai verde havia levado era por conta de si mesmo.

Apontando para a própria tez, voltou os olhos a Jaken e a Sesshoumaru.

-Se está falando do meu rosto creio que tenhamos assuntos mais importantes a serem debatidos. Não é minha intenção ser o centro das atenções nesse momento.

-Mas...

-Cale-se, Jaken. —Sesshoumaru o repreendeu secamente o olhando de canto.

-AHN! —Jaken se encolheu apertando o bastão de duas cabeças contra o corpo. —Si-Sim, Senhor Sesshoumaru.

-Senhor Sesshoumaru. —Tetsuo curvou-se solenemente a Sesshoumaru, num cumprimento respeitoso.

-Souichiro o mandou por conta da yokai que receberam no Sul. —Sesshoumaru falou sem rodeios.

-Sim. —Tetsuo assentiu seriamente. —Disse se chamar Mariko e que o Oeste receberia uma de nome Okoi.

-Por que não a trouxe com você?

-Ela mal conseguia ficar de pé, não seria de grande ajuda vindo conosco e já contou o principal.

-Essa yokai disse que Ryotaro tentaria invadir a partir das terras do Sul, pegando as fronteiras entre os nossos feudos. Em termos, atacaria em L.

-Sim. —Tetsuo assentiu em concordância. —Já reforçamos o patrulhamento nessa região, Seiji está com uma tropa nas áreas montanhosas. Se passarem por lá, darão de cara com o nosso exército. Será impossível escapar.

-Entre, Yashamaru se juntará conosco. —Sesshoumaru disse preparando-se para dar as costas a Tetsuo a fim de seguir o caminho.

Até onde constava, tudo caminhava satisfatoriamente bem. Tendo os planos do adversário elucidados, eles não poderiam mais contar com o elemento surpresa. Com o jogo virando em desfavor, quem sabe assim não amainaria os ânimos, ao menos por enquanto, daqueles yokais escorpiões tão inoportunos.

Seja lá o que aquele senhor feudal pensava bem como o comandante advindo de outra região quando resolveram dar os primeiros passos em direção ao interior, tudo de repente, ruiu num passe de mágicas.

Pois, vindo dos céus um artefato no mínimo curioso, algo irrompeu a barreira do castelo por curtos instantes e caiu num baque pesado bem no coração do jardim, levantando a neve branca teatralmente.

-AH! Algo caiu, Senhor Sesshoumaru! —Jaken disse pulando de um lado para o outro constatando o óbvio.

Sesshoumaru franziu o cenho.

Estava fácil demais...

Com pouca emoção, o senhor feudal do Oeste girou os calcanhares na direção do objeto suspeito.

Um fuzuê instantaneamente dominou todo o recinto, e yokais de todos os lados, seja por curiosidade como por obrigação encaminharam-se até o buraco fundo ocasionado pelo impacto suspeito.

Com sonoros "oh", onde os olhos de assombro perpassavam de yokai para yokai em falas dedutivas, Sesshoumaru foi cruzando o mar de soldados antes de se deparar com aquela coisa inusitada.

-Isso é... —Tetsuo falou igualmente em assombro.

-Uma cabeça! —Jaken disse alto inclinando o corpo para baixo.

Inesperadamente o que claramente preenchia suas vistas era mesmo uma cabeça enrolada com diversos pergaminhos colados de qualquer jeito. Encantos estes que provavelmente foram os responsáveis por deixar a face nauseabunda passar para o lado de dentro despretensiosamente. Atirada quiçá por uma catapulta, aquele crânio foi jogado com uma força e tanto e teve sua carcaça amassada possivelmente por conta do impacto severo já que fizera um buraco expressivo na neve abaixo de si entrando em contato direto com o solo duro.

-Quem é essa yokai? —Tetsuo indagou a Sesshoumaru, olhando da cabeça para o senhor feudal.

-Não a conheço. —Sesshoumaru o respondeu sucintamente retribuindo o olhar. —Não faz parte do meu feudo.

-O quê está acontecendo? Que som foi esse? —a voz de Yashamaru irrompeu o recinto com urgência.

Abrindo caminho, os yokais não demoraram a lhe dar passagem e emitirem mais um som de espanto ao vê-lo lado a lado com outro ser, tal sendo Okoi, que tinha o seu braço entrelaçado com o do comandante aproveitando-se da energia alheia a fim de revitalizá-la.

Com um cochicho aqui e outro ali, Tetsuo não evitou olhar na direção de Yashamaru, e compactuar de uma bela surpresa como os demais. Mas, sendo reservado do jeito que era, de sua boca, nenhum som ousou a sair.

Bastaram poucos instantes para o mistério ser desvendado. Pois, assim que os olhos azuis de Okoi repousaram na cabeça ela não evitou soltar um espasmo alto e levar a mão a boca de tamanho assombro. Quase caindo de joelhos ao chão, desfalecendo em derrota, Yashamaru teve que segurá-la para ela não ceder.

-O quê foi, Okoi? —Yashamaru indagou a Okoi tentando mantê-la de pé.

-É ela, Yashamaru! É ela! —Okoi falou sentindo um gosto amargo na boca. Indo de Yashamaru a Sesshoumaru, que a essa altura já a fitava igualmente confuso por sua derrocada, ela prosseguiu veemente. —É Nazomi! É ela!

Depois daquela constatação, toda a ideia de controle esvaiu-se como fumaça. Sesshoumaru queria ter respirado profundamente para exteriorizar todo o seu descontentamento, pois, fazia tempo que andava cansado daqueles dramas ocasionados por yokais petulantes. Ainda assim, não o fez. Como costumava a fazer guardou-se em si o que de fato sentia, permanecendo com o rosto enrijecido.

-Então eles já estão aqui. —Sesshoumaru falou voltando os olhos a Yashamaru.

-Ele deve ter descoberto o que Nazomi fez... —Okoi disse colocando a mão no rosto em desalento. —Desgraçado... Não acredito que matou Nazomi!

-Que ótimo! —Jaken praguejou balançando a cabeça em negativa. —Todo o plano então foi por água a baixo!

-Preciso informar a Seiji. —Tetsuo falou cruzando os braços com pouco ânimo. —Eles provavelmente usaram outro caminho.

Pássaros agitados cortaram os céus emitindo sons agudos e obscuros. Com eles, uma vibração diferente no ar fez o vento gelado mudar de curso. Nitidamente todos perceberam que algo intenso se aproximava de maneira veloz.

Num estalar, Sesshoumaru lembrou de algo verdadeiramente importante, voltando os olhos para Yashamaru, ele o indagou seriamente.

-Onde está Yoshiaki?

-Ele não voltou com Akane? —Yashamaru indagou franzindo a testa sem entender.

Sesshoumaru não lhe respondeu, e pelo seu silêncio o comandante já imaginava a resposta.

-Meu senhor também está pelas redondezas. Ele foi até a casa da senhora Mitsue para avisá-la sobre o ataque. —Tetsuo falou calmamente. —Não viemos com muitos yokais, mas pode ser que seja suficiente.

-Podemos enviar alguns yokais para procurar Yoshiaki e Souichiro. Eles não devem saber que os yokais escorpiões já chegaram no Oeste. Podem ser pegos desprevenidos por algum grupo. —Yashamaru disse ponderando. —Mas, isso está parecendo...

-Uma armadilha. —Sesshoumaru disse em aceno positivo. —Querem que saiamos do castelo.

-Hm... Faz sentido. —Tetsuo concordou levando a mão ao queixo. —Pode ser que estejam querendo nos encurralar em grupos pequenos.

-Se esse for o caso, pode ser que Yoshiaki, Mitsue e Souichiro enfrentem grandes problemas! —Jaken falou novamente agitado.

-Não é como se meu senhor e a senhora Mitsue fossem peças frágeis. —Tetsuo falou com a voz abarrotada de certezas. —E, o filho do senhor Sesshoumaru também parece conseguir se virar. Pelas histórias que contam, ele se deu bem com a energia sinistra de Shinichiro.

-Hm! Fala como se Yoshiaki fosse impressionante só por conta desse yokai asqueroso do feudo de vocês! —Jaken ralhou para Tetsuo que não gostou nenhum pouco das palavras desdenhosas. —É claro que é por conta da descendência do senhor Sesshoumaru!

-Não é hora para discutir algo tão frívolo. —Yashamaru interceptou a situação com ímpeto. —Precisamos de uma estratégia.

-Desculpe me intrometer. —Okoi disse depois de um período de choque. Tentando se recompor, ela os fitou seriamente. —Sendo yokais impressionantes ou não, não subestimem os yokais escorpiões. Além de jogarem tão sujos quanto os do clã das serpentes, eles não são qualquer adversário. Aquele veneno que criaram é mesmo um problema, verão com os próprios olhos.

Todos calaram com aquelas palavras e mergulharam num mar denso dos próprios pensamentos.

Em outras circunstâncias, Sesshoumaru não se deixaria abater. Sairia do castelo num rompante e procuraria por ele mesmo o tal yokai que buscava causar-lhe problemas com tamanha displicência. Mas, o senhor feudal dos cabelos platinados não tinha boas recordações em deixar Rin solitária em momentos de crise explícita. A coisa parecia verdadeiramente séria. Caso viesse a sair, e eles se aproveitassem disso para invadir, que garantias teria que ela se manteria viva? Eventualmente, se uma cabeça atravessou a barreira, o que impedia de outros por ela penetrarem?

O Lord teve de olhar pelo horizonte.

A neve voltou a cair.

Imaginou se o dia da qual Yoshiaki teria sua provação não estava mais perto do que pensara.

-Meu senhor. —Yashamaru falou tentando tirar a atenção de Sesshoumaru para si. —Ainda que seja uma armadilha, posso tentar contorná-la levando alguns comigo. Talvez possamos cercar o castelo como uma distração, e partiria pelos túneis. Não seria difícil localizar Yoshiaki e os outros.

-O que tem Yoshiaki? —a voz feminina tão conhecida bailou pelo jardim em tom aflito.

Sesshoumaru não precisava virar-se para saber quem pronunciava tal frase. O timbre inconfundível da mulher dispensava qualquer dúvida. Mas, ele ainda assim o fez, e voltou-se para onde o som da voz emanou.

-Rin. —ele disse seu nome com sobriedade. Sabia que Rin ficaria abalada quando soubesse que Yoshiaki permanecia do lado de fora com ameaças verídicas rondando o Oeste.

-O que está acontecendo? —Rin indagou aproximando-se do marido, e ao ver a cabeça lacrada por pergaminhos afundada na neve não pôde deixar de soltar um espasmo de susto. —U-Uma Ca-ca-cabeça!

-Estamos sendo atacados por um clã que quer a Tenseiga! —Jaken disse de uma vez só e Sesshoumaru só não deu um soco bem dado no meio da cara do yokai sapo pela forma que ele falou porque sabia que o estrago já havia sido feito.

-E Yoshiaki está do lado de fora!? —Rin falou agitada negligenciando o crânio nauseabundo que aquela hora não possuía mais relevância e muito menos sua atenção. Levando a mão ao peito no sinal de preocupação evidente, voltou a fitar Sesshoumaru.

-É verdade. —Sesshoumaru não teve escolhas a não ser confirmar o fato.

-Estávamos discutindo agora mesmo uma estratégia para encontrá-lo. —Yashamaru disse tentando tranquilizar Rin. —Penso em organizar um grupo para ir pelos túneis, creio ter...

Yashamaru não conseguiu terminar a frase. Pois, em passos lentos e quase tão mórbidos quanto a cabeça que repousava sinistramente ao centro, aquela meio-yokai surgiu em seu campo visual.

Que Akane tinha os olhos vermelhos, disso sabia. Só que eles se apresentaram mais rubis do que nunca, denunciando um choro persistente e recente. Ela poderia até disfarçar por conta da tonalidade da sua íris, mas o nariz avermelhado, bem como a face deprimida não afastariam a ideia de que estava a chorar descompassadamente em algum canto.

Aquela imagem o atingiu em cheio, e fez por alguns segundos hesitar a continuar, o que para os que sabiam da história não foi de se espantar tal reação.

Akane repousou as vistas por alguns segundos no distinto casal. Okoi segurava a mão de Yashamaru, com seus dedos entrelaçados aos dele como se fosse óbvio. Aquela cena embrulhou o seu estômago e atingiu o coração com um golpe pesado e certeiro. Não querendo cair no choro e parecer mais ridícula do que estava sentindo-se, desviou o olhar na mesma proporção que o havia posto.

Somente depois Okoi dera-se conta. Tinha a mão unida com a de Yashamaru por causa da transferência de energia. Sendo atingida por um mal estar, ela soltou o comandante prontamente com muito pesar, e fitou Akane que não mantinha mais os olhos neles.

-Akane. —Yashamaru chamou seu nome sentindo o coração pulsar.

-Irei pelos túneis. —Akane disse olhando fixamente a Sesshoumaru, tentando ignorar o chamado de Yashamaru. —Conheço bem alguns caminhos paralelos até a propriedade de Mitsue, creio que Yoshiaki possa ter ido para lá. E, de todo modo, precisamos avisar a Mitsue. Ela está grávida, há poucos yokais com ela. Kenji ainda pode não ter voltado do Leste.

-Está certo. —Sesshoumaru concordou. —Se quer mesmo ir, não serei contrário.

-Tem certeza de que está bem para ir, Akane? —Rin a fitou complacente. —Não será muito perigoso?

-Está tudo bem. —Akane disse forçando um sorriso. —E também não irei sozinha.

-Irei com você. —Yashamaru disse dando um passo a frente com o semblante decidido.

Akane rebateria, mas Sesshoumaru fora mais rápido.

-Preciso que fique para montar o cerco no castelo. —Sesshoumaru disse taxativo, esmorecendo as pretensões do comandante.

Não era de todo mentira que Sesshoumaru precisava de Yashamaru por perto, mas também disse o que disse porque sabia bem que não seria uma boa ideia que o yokai dos olhos violetas resolvesse seguir Akane naquela situação.

-Irei com você. —Okoi finalmente disse a Akane, dando dois passos a frente, ultrapassando Yashamaru.

De todos os anúncios, claramente aquele foi o que soou mais inacreditável. Não poupando de olhá-la com assombro, Akane voltou a yokai pensando ter escutado errado.

-Como irá com Akane? —Yashamaru rebateu incrédulo. —Não está muito fraca para isso?

Akane girou os olhos mentalmente. Lógico que ele estaria preocupado com ela...

Okoi estalou o dedo médio com o polegar, e uma fraca chama acendeu em sua mão para o seu acalento. Pensou que já era hora de uma boa notícia a assomar.

Olhando seus poderes renascerem dentro de si depois de muitos anos em cárcere reverberou como um alívio. A sensação de finalmente ver o fogo ardente percorrer todas as células do seu corpo factualmente a emocionou de maneira intensa. Um sentimento inexplicável preencheu todo o seu coração, e somente ali, naqueles instantes, que sentiu-se renascer genuinamente.

-Você me passou bastante energia nesse meio tempo. —Okoi disse a Yashamaru voltando a si. —E ninguém nesse lugar conhece melhor os yokais escorpiões do que eu. Saberei se estão ou não por perto, isso será útil na hora de tomar alguma decisão importante.

-Acabou de chegar, mal estava conseguindo caminhar. —Yashamaru falou pouco convencido. —Acabou de escapar das garras deles!

-Já estive em situações muito mais críticas do que essa, se quer saber. —Okoi disse dando pouca importância aos apelos do comandante ao seu lado. Fitando Sesshoumaru, ela prosseguiu. —Se me permitir, gostaria de contribuir com essa missão. Sei que serei proficiente.

-Penso que Akane que deva decidir a respeito. —Sesshoumaru falou descompromissado fitando a meio-yokai de soslaio.

Rin se retesou ao ouvir aquela frase. Sem saber como Akane responderia, estreitou os olhos para a amiga de longa data que, como esperava, pareceu aturdida com a bola da vez que Sesshoumaru despretensiosamente passou para ela.

Akane e Okoi entreolharam-se no mesmo instante.

Um choque visceral que fez até mesmo quem não estava entendendo nada compreender a situação no segundo em que o rubi e o azul encontraram-se.

-Akane, isso é mesmo importante. —Okoi disse ao notar a hesitação da outra. —Esqueçamos por enquanto as diferenças que nos abarcam. Há coisas maiores do que nós, sei que entende isso.

Akane respirou pesadamente. Colocando as mãos nos quadris, resolveu a dar de ombros.

-Pelo jeito continua a mesma chata sensata de sempre. —Akane disse quase em murmúrio, e aquele comentário fez Okoi sorrir, por lembrar, ao menos minimamente, os velhos tempos. Analisando-a de cima a baixo, Akane cruzou os braços com o cenho duro. —Está bem mesmo para ir?

-Como é!? —Yashamaru quase infartou ao notar que ambas estavam a desenrolar o acerto.

-Sabe que não diria que posso ir se não pudesse. —Okoi falou assertivamente a Akane. — Não serei um incômodo, apesar da minha condição atual.

-Então não percamos mais tempo.

Rin ficou mais do que surpresa com aquela atitude de Akane. Esperava que a loira ralhasse pesadamente para a rival amorosa, mas naturalmente ano após ano aquela criatura foi mesmo amadurecendo sensivelmente. Sem contar que pela forma que a meio-yokai se referiu a Okoi, pareceu que no passado as duas tinham uma convivência amistosa.

Pelo visto, o único motivo de estarem tão distantes uma da outra, era por conta de um certo yokai...

Yashamaru não conseguiu fechar a boca estupefata. Dentre todas as coisas que imaginara acontecer naquela vida, de longe aquilo soava coerente. Ver a noiva do passado colaborando com a esposa do presente no mínimo poderia se dizer... Estranho.

-Se não fechar essa boca, vai ficar parecendo mais idiota do que já está. —Jaken disse a Yashamaru num tom crítico.

Voltando a si, Yashamaru balançou a cabeça em negativa. Ainda assim a imagem das duas, uma do lado da outra, não se dissipou como num pesadelo horripilante da qual se acorda acuado no meio da noite.

-Essa yokai tem mesmo coragem. —a voz de Tetsuo ressoou com um misto de surpresa e admiração, fazendo Yashamaru voltar a ele.

-É... Eu acho... —Yashamaru concordou soltando o ar num movimento de derrota.

-Que grande problema. —Tetsuo disse como se estivesse falando para si, e Yashamaru não pôde retrucar por pensar exatamente o mesmo.

-Venha, Yashamaru. —Sesshoumaru disse ao comandante dando passos na direção do castelo.

Desnecessário dizer o óbvio, Yashamaru sabia que precisava segui-lo. Sem contrariar o yokai dos olhos âmbar, assim ele o fez.

Tetsuo resolveu o mesmo, e pôs-se a segui-los em silêncio, com os braços cruzados.

...

Yoshiaki sabia bem das histórias que contavam sobre Souichiro. Na realidade, ele ouvira muito mais feitos do senhor feudal do Sul do que gostaria. Como estava sempre a bailar pelas propriedades de Mitsue, vez ou outra a yokai dos olhos verde-oliva descrevia sobre as batalhas do irmão com muito orgulho escancarado na face.

De vez em quando o meio-yokai calhava de encontrar com Seiji ou Tetsuo numa visita despretensiosa e a coisa só piorava! Pois, unindo-se em prol das mazelas triunfantes do Sul, Souichiro era pintado como uma estrela incandescente nunca antes vista no mundo feudal.

Mas, ainda que Yoshiaki resguardasse a carranca em seu interior, e de vez em quando bocejasse entediado por ouvi-los proferir as grandiosas conquistas do Sul, relembrando um passado factual, às vezes alguns dos contos o empolgavam sem que percebesse, e geralmente isso acontecia quando era Seiji que contava. Afinal, aquele General sabia bem explicitar todos os pontos mais detalhados de uma batalha como nunca vira ninguém fazer na vida. Elucidando as técnicas, descrevendo com minúcia os golpes, geralmente o episódio ganhava mais tempo do que os outros gostariam de ouvir. Então, espantosamente, enquanto todos estavam a bocejar ao vê-lo proferir tão explicitamente o caso, Yoshiaki mantinha os olhos atentos como uma águia.

Perguntando aqui e ali, Seiji o respondia pacientemente. E o que era para ser uma propaganda ou um assunto banal cujo único intuito era exasperar as terras do Sul, acabava se transformando numa conversa tática, prolixa e enfadonha para os demais que pouco a pouco se evadiam de perto daqueles dois seres tão sérios ou tentavam mudar bruscamente o assunto.

Independente das inúmeras histórias e das tentativas de Seiji de esmiuçar com a mais alta precisão, ainda assim, era realmente diferente quando se estava frente a frente a Souichiro numa batalha.

Yoshiaki ousou a pensar que era tão impressionante quanto ver Sesshoumaru em ação.

Porque aquele ser, a valer, era um dos mais violentos e habilidosos que já vira lutar. A brutalidade atroz misturada a velocidade ímpar destoava veementemente do semblante debochado e tão despretensioso daquele yokai que demonstrava um alto nível.

Se um dia Yoshiaki pensara estar ouvindo devaneios exagerados e que não faziam verdadeiramente jus àquele senhor feudal desbocado e de conduta duvidosa, tudo teria se esvaído no primeiro segundo quando pularam da árvore em direção aos adversários.

Pois, como uma máquina feroz e rápida, Souichiro movia-se em perfeita sincronia. Dando a impressão de que ele havia sido criado exatamente para batalhar.

Jogando a corrente da qual o severo e pesado machado encontrava-se emaranhado na ponta, ele lutava de modo extremamente fácil, dando a entender de que o peso daquilo no mínimo soava irrelevante, já que recortava por seus adversários levemente como papel.

Souichiro mal dava chances para os oponentes de terminarem de bloquear seus golpes e se reorganizarem para contra atacar. Ferro com ferro se chocava teatralmente faiscando pelo encontro e emitindo sons agudos de materiais cortantes. Lutando sem piedade contra os sete yokais de forma humana, a besta gigantesca e furiosa sobrou para Yoshiaki.

Originalmente, Souichiro sentia em seu interior que Yoshiaki era um personagem no mínimo intrigante. Apesar de tê-lo visto pouquíssimas vezes ao longo do tempo e em diferentes fases da vida, aquele meio-yokai retumbava algo da qual não era capaz de ignorar. Desde a última vez que o vira, ainda moleque, sentado na varanda jogando Sugoroku numa postura ereta e alinhada demais para um ser tão jovem, fazendo os dados caírem ao seu bel prazer, ele soube, e sentiu verdadeiramente que a energia sinistra que o abarcava era maior do que qualquer um poderia imaginar.

Por isso, mesmo estando atarefado com os yokais que tentavam o golpear em vão, bisbilhotava ora ou outra o filho daquele senhor feudal da qual possuía tanta amargura golpear o oponente bestial de forma mais do que elegante e estratégica. Quanto mais Yoshiaki fazia, mais seu ser sinistro preenchia o ambiente, e cada vez mais, os pelos alheios se eriçavam só com a sua presença avassaladora.

Souichiro teve que rir quando viu os outros atordoados, e igualmente a ele, olharem de soslaio para o meio-yokai todo de preto que emanava um pesado sentimento dentro dos seus corpos.

Não era só o desconforto, evidentemente. Aquele platinado dos olhos âmbar exprimia uma habilidade impossível de ser negligenciada. De um estilo mais do que único, dava um trabalho e tanto para o yokai bestial que com suas garras e cauda alongada tentava o ferir mortalmente sem piedade.

-Já está se cagando!? —Souichiro indagou ao oponente com um sorriso debochado, dando um chute no estômago alheio com muita força, o fazendo voar longe. —Seu adversário sou eu, seu otário!

Foi no meio do caos, que eles ouviram o segundo estrondo, e mais energias sinistras dominaram o ar. Tendo noção de que vinham da propriedade de Mitsue, Souichiro estalou a língua irritado substituindo o sorriso anterior por uma face mais sombria. Com irritação, utilizando o seu machado e concentrando seus poderes no objeto, cortou ao meio de uma só vez dois dos yokais a qual lutava, separando o tronco dos quadris.

-Mitsue. —Souichiro chamou o nome da irmã olhando na direção da propriedade enquanto os corpos dilacerados caiam em lados opostos.

Direcionando a energia para a ponta da espada, Yoshiaki bradou a arma de onde uma imensa luz vermelha tracejou o ar partindo na direção das garras grossas frontais e mais ameaçadoras daquele ser. O yokai grunhiu de dor ao ter uma delas arrancada do seu tronco, chacoalhando as patas laterais como uma barata que agoniza, sangue azul espichou igualmente a um chafariz fúnebre.

Tentando repousar ao solo, Yoshiaki quase fora atingido pela cauda maligna que atirava sem cerimônia veneno corrosivo em sua direção. Tal qual um ácido, quando o líquido entrava em contato com algum ser vivo, sendo este uma árvore ou algum animal desprovido de sorte, derretia em segundos. Bloqueando com uma lufada de ar os resquícios do material pegajoso, uma pequena gotícula na parte de cima do seu kimono fez um buraco considerável no tecido negro, deixando uma parte do peito nu.

O meio-yokai franziu o cenho sem um pingo de paciência. Olhando do buraco aberto, ao yokai bestial, aquilo já estava irritante e pouco agregador. Querendo acabar logo com aquilo, sabia que ao cortar a outra garra e decepar a cauda, o que sobraria seria apenas uma carcaça resistente da qual pouco poderia fazer, a não ser berrar.

O problema era dar conta daquilo. Porque, ao ter uma de suas partes mais mortais arrancadas, aquele ser pareceu ficar cada vez mais inteligente e cuidadoso. A cauda era mesmo um problema, alongando e retraindo, movia-se em todas as direções com os mais diversos tamanhos. Era difícil prever a distância que aquilo alcançava, e por isso, pensar numa estratégia para lidar com ela só tendo como base o alcance não funcionava bem.

Saltando mais uma vez, Yoshiaki foi se desviando daquela cauda enlouquecida que se assemelhava a um chicote. Chispando no ar, cortava o ambiente com o som rasante e periculoso, esperando algum movimento incerto do meio-yokai para atingi-lo em cheio. Mas, o que aquele ser não contava, era que Yoshiaki se deixaria enrolar pela cauda propositalmente.

Achando-se vitorioso, o yokai escorpião o enrolou com muita força, dando ao menos quatro voltas no corpo do outro. Como um músculo pulsante, aquela extensão exibia um vigor de fato louvável, ainda mais aliado ao ferrão alaranjado que se aproximava mortalmente da face límpida do meio-yokai teatralmente.

Saboreando o momento que injetaria o material pegajoso no adversário bom de esquiva, Yoshiaki concentrou grande parte da sua força em seus músculos. Sendo envolvido por uma luz vermelha, seus olhos igualmente ficaram assim, e num segundo uma torrente de energia feroz perpassou pelo prolongamento do yokai escorpião explodindo de vez a sua cauda e o cortando em definitivo ao meio.

Dando mais um berro agonizante, pedaços voaram em várias direções da qual Souichiro teve que desviar de alguns por conter o produto peçonhento.

O senhor feudal do Sul, bateu forte com o pé direito no chão. Os cinco yokais com forma humana restantes foram levantados com a força daquele impacto. Com eles fora do chão, Souichiro saltou entre os cinco. Ministrando movimentos brutais, cortou o primeiro a sua frente perpendicularmente. Atravessando-o, chegou ao segundo, onde o pegou repleto de ódio com as mãos pelo pescoço, torcendo-o separou num único golpe a cabeça do tronco. Impulsionando com ajuda do corpo sem cabeça, pressionou com os pés no tórax moribundo e partiu a direção do terceiro, onde concentrando uma quantidade expressiva em seu punho direito, cruzou-o pelo peito, arrancando o coração pulsante. Restando apenas dois, suas correntes, como se tivessem vida própria, os agarraram pelo tronco. Saltando mais um tanto para cima, Souichiro deixou a gravidade finalmente fazer seu papel. Despencando com os dois do alto, colocou um pé no rosto de cada um, e ao repousar finalmente ao chão, ambos tiveram seus crânios estourados num crack! visceral pela pisada violenta nas suas faces outrora assustadas.

Havia sangue azul para todo o lado salpicando a neve fria que voltava a cair dos céus. Tudo poderia ter ficado silencioso novamente se não fosse pelo barulho de outra batalha, que não estava assim tão longe, batucar em seus ouvidos atentos. Já sabendo de onde aquilo vinha, Souichiro e Yoshiaki se entreolharam, e sem precisarem verbalizar, combinaram com os olhos que deveriam seguir o mais rápido possível para aquela propriedade.

Poderia ter sido simples assim. Isso é, dentro do possível, obviamente.

Mas, o que não se contava, é que um dos yokais de forma humana derrotado no princípio da luta, da qual tivera seu corpo partido horizontalmente ao meio havia se esgueirado timidamente até uma cauda de um dos seus companheiros dilacerados. Utilizando suas últimas forças, ele atirou o pedaço de carne com ímpeto na direção de Souichiro.

Aquela investida, inicialmente pareceu em vão e não fazer sentido algum. Pois, não era como se o yokai dos olhos verde oliva não fosse sentir um golpe tão grosseiro partir em disparada em direção ao seu corpo. Logo, sem muito esforço, ele atirou seu machado com a ajuda das correntes rústicas naquela extensão corpulenta.

O que nem ele e tampouco Yoshiaki poderiam prever, é que de dentro da cauda, na ponta alaranjada, o ferrão se abriria como uma flor que desabrocha na primavera. E de lá, um filete mordaz, partiria sem dó na direção do pescoço do senhor feudal.

Nem se fosse o ser mais rápido do mundo, ainda assim não daria tempo. Primeiro pela velocidade daquela coisa e segundo pelo golpe surpresa em todos os sentidos.

Aquela coisa agarrou na lateral do pescoço de Souichiro numa dentada, cujos dentes tão finos como agulhas não davam qualquer sinal de redenção. Bastaram milésimos de segundos para Souichiro sentir algo penetrar em seu corpo.

Yoshiaki cortou o ser que se negava a desgrudar, e só assim, rendeu-se, e desapareceu ao ser morto, sem nem ao menos tocar no chão.

-Filho da pu...

Souichiro não teve tempo para praguejar, pois, na terceira vez naquele dia outra surpresa o atingiria.

Sem pestanejar, Yoshiaki o segurou pela cabeça e enfiou a boca no local ferido, onde múltiplos furos eram possíveis de serem vistos. Tentando sugar o veneno injetado, ele aspirou com força um bocado de sangue.

Souichiro sentiu uma vertigem estranha. E ele não soube identificar se aquilo se devia ao fato do veneno o invadir profundamente ou se era por conta dos lábios quentes do outro envolto de si, o sugando com tamanha devoção e sem qualquer hesitação. De todo modo, o que fosse, foi capaz de arrepiar a espinha por completo.

Desvencilhando do pescoço do yokai, Yoshiaki cuspiu uma quantidade generosa de sangue, tingindo o gelo abaixo dos seus pés de vermelho vivo. Assim também estavam os seus lábios, úmidos e escarlates, de onde uma gota grossa pôs-se a escorrer e partir na direção do queixo fino, formando um macabro caminho na tez pálida.

Mas, mesmo com aquele esforço involuntário, Souichiro sentiu algo queimando em seu interior. Dobrando um pouco o corpo, levou a mão ao peito, onde sentiu o coração bater duramente.

-Souichiro... —Yoshiaki o chamou, o segurando pelo braço.

O yokai escorpião deu uma risada fraca e ao mesmo tempo sofrida, tirando a atenção de ambos para aquela figura peculiar.

-Não adianta. —o yokai falou com dificuldade. —O veneno já está...

Souichiro não o deixou terminar, atirando o machado contra a cabeça do yokai, o matou numa tacada. Com um rosnado de ódio, ele puxou sua arma de volta a mão. Ao fazê-lo, sentiu como se estivesse cozinhando por dentro.

Rangendo os dentes, ele praguejou num murmúrio ininteligível enquanto encurvava mais um tanto o corpo, apoiando as mãos nos joelhos.

-Essa porra dói pra caralho... —Souichiro disse sentindo o suor empapar o seu corpo.

-Precisamos sair daqui. —Yoshiaki disse seriamente olhando os arredores. —Consegue andar?

-Tsc... Não é como se essa merda pudesse me matar... —Souichiro respondeu com a face torcida em dor enquanto gotas de suor escorriam pela testa. —Temos que ir até Mitsue.

Souichiro deu dois passos a frente tentando buscar o mesmo vigor de antes. No entanto, bastou o terceiro passo para a sensação de incêndio o dominar completamente. Com o corpo cedendo à dor lancinante, ele só não caiu de joelhos ao chão porque Yoshiaki o interceptou. Colocando o braço de Souichiro por trás da sua nuca e o segurando firmemente pela cintura, o meio-yokai o reergueu num movimento único.

Mais uma pontada excruciante dentro do coração. Rangendo os dentes novamente, o yokai virou o rosto para o lado dando de cara com uma fisionomia preocupada e nada característica do portador dos olhos âmbar que o acudia.

Pela primeira vez naquela vida estavam tão próximos, e fitando-se mutuamente numa distância razoavelmente pequena. Em qualquer outra circunstância seria desconfortável ou no mínimo estranho.

-Se ficar difícil, irei lhe carregar nas minhas costas. —Yoshiaki disse a ele seriamente.

Souichiro teve que sorrir fraco ao ouvir aquelas palavras que vibraram tão inacreditáveis aos seus ouvidos.

Quando havia sido a última vez que precisara assim de alguém? Não adiantava puxar na memória, nada parecido vinha a mente. Se algum dia alguém aparecesse na sua frente e lhe dissesse que em dado momento da sua vida precisaria de um meio-yokai e que seu estado miserável seria de dar pena, ele rolaria no chão de tanto rir com aquele absurdo.

Mas, o que era aquele mundo se não um intricado de absurdos e encontros inusitados?

Não teve muita opção a não ser ceder.

Que sorte a dele, por pelo menos quem o estava a amparar, ter tanta coisa admirável da qual se poderia dizer depois.

Sentindo outra vez um formigamento, dessa vez sabendo identificar, tendo como único motivo o altruísmo e o contato alheio, Souichiro não pôde deixar de assentir em concordância.

Recebendo aquele sinal que soou como um aval, Yoshiaki pôs-se a correr na direção da propriedade de Mitsue erguendo mais do que o previsto o corpo do senhor feudal ancorado em si que guardava entre os dentes um gemido agonizante.

Naquela hora, Yoshiaki internalizou em si que não seria nada difícil percorrer mais uns bons passos até o destino final. E que, ao chegar lá, teria mais outros para arrumar uma solução do que fazer quanto ao estado deplorável de Souichiro. Ainda que estivessem travando outra batalha, talvez a situação não estivesse assim tão desfavorável e crítica.

De todo modo, estando ou não, não havia mesmo outro lugar plausível da qual poderia ir. O castelo estava há muitos quilômetros de distância as suas costas e a base militar mais próxima não se encontrava tão perto quanto a propriedade de Mitsue. Caso assim fosse, ele poderia estacionar Souichiro lá antes de prosseguir.

Para além de tudo explicitado, o meio-yokai também não podia simplesmente negligenciar o fato de que Mitsue estava sendo atacada. Igualmente, Souichiro ralharia pesadamente a ele se elegesse um desvio.

Sem muitas escolhas, teve que optar pelo que não era tão razoável e sim o que poderia realmente fazer.

Mas, aqueles dois, certamente haviam usufruído de todo o azar possível. Naquela hora em que Yoshiaki pensara em ter, em palavras tortas, tudo sob controle, que dos céus um grupo de enormes bolas foram atiradas, talvez por algum instrumento, na direção dos dois.

Como bombas, elas explodiam ao entrar em contato com o chão frio. E não somente isso, ao detonarem levantavam uma poeira roxa tóxica, num teor parecido ao miasma, que eventualmente perturbava os sensores olfativos do meio-yokai platinado.

-Só pode ser brincadeira... —Yoshiaki falou incrédulo parando num súbito.

Prendendo a respiração, tendo a vista um pouco embaçada por conta da névoa fantasmagórica, Yoshiaki só não recebeu um golpe certeiro de uma lança porque Souichiro bloqueou o ataque. Batendo na arma feroz com o seu machado, desviou o caminho daquele objeto pontiagudo que fincou na árvore violentamente, partindo-a em dois.

Com o movimento, Souichiro não pôde evitar arquejar. Retesando-se nos braços do outro, ele tossiu um pouco de sangue.

-Filhos da puta... —Souichiro falou baixando a mão que parecia não responder mais aos seus comandos.

Tendo que pensar rápido, Yoshiaki concentrou sua energia em seu punho direito. Dando um soco no chão, abriu um buraco no solo onde pôde avistar os túneis ocultos construídos no tempo remoto por Shinjo e aperfeiçoado pelo seu feudo.

Ajeitando Souichiro, prendendo-o mais ao seu corpo, não pensou duas vezes se não pular para o subsolo.

...

-Quem diabos são vocês!? —Mitsue, sem deixar se intimidar, apontou a foice na direção do yokai de forma humana que estava a frente dos demais.

O yokai voltou a estampar o sorriso maldoso na face. Diferente dos demais, ainda que estivesse usando o mesmo kimono e armadura, havia uma faixa de cor vinho amarrada no seu braço direito que o concedia uma nuance notória de destaque.

-Para quem irá morrer há muita irrelevância nas suas dúvidas. —ele falou em tom debochado, apoiando a mão no quadril.

-Que prepotência. —Mitsue rebateu franzindo o cenho com severidade.

-Mas, já que está muito curiosa, sanarei a sua dúvida. —ele falou apontando para si mesmo com um semblante recheado de orgulho. —Sou o Comandante Isamu, do clã Sasu, ou como somos conhecidos, clã dos yokais escorpiões.

-Devem ser realmente muito impressionantes para terem a audácia de atacar minha propriedade.

-Hm, certamente tão impressionante como você. —Isamu sorriu dando uma piscadela para os demais que sorriram juntamente a ele, olhando-os despretensiosamente continuou a dizer. —Parece que estão me devendo. Eu disse que seria impossível que uma yokai pintada como uma deusa pudesse ter ficado feia de um dia para o outro.

-Tsc... —Mitsue endureceu o semblante.

-Só não esperava encontrá-la nessas condições... —Isamu respirou pesadamente forçando um desânimo. —Quis vir pessoalmente para poder me divertir com você antes de matá-la, mas quem diria que estaria grávida... Que decepcionante...

-Que asqueroso! Quem acha que nossa senhora, é? —Emiko interveio com ímpeto. Rangendo os dentes, ela se postou ao lado de Mitsue apontando uma longa espada na direção do Comandante.

-E quem você acha que eu sou!? —Isamu rebateu sem um pingo de paciência, com o tom áspero e alto. —Chega de ladainha. Acabem com todos!

Aquela frase fora o suficiente para um ataque se iniciar. E de repente, a calmaria, cenário de uma brincadeira infantil repleto de bonecos e bolas de neve atiradas despreocupadamente ao ar, transformou-se num campo de uma batalha realmente sangrento.

Por todos os lados, yokais chocavam-se num rompante aterrador.

Mitsue engoliu a seco com aquela situação.

Mesmo envolvida com a luta, só conseguia pensar nos seus filhos, Toshio e Asami, e claramente, no que ainda jazia dentro do seu corpo.

Esquivando da cauda venenosa de um dos yokais escorpiões que tentou atingi-la, Mitsue pulou por cima dele e usando sua cabeça, deu um impulso para cima. Querendo ultrapassar o yokai bestial, este grunhiu a ela em fúria. Partindo a sua direção com as garras maiores na parte frontal do corpo, Mitsue teve que se defender bloqueando o golpe com ajuda da foice. Fazendo isso, ela apoiou a mão direita no casco duro, ficando de ponta cabeça na carcaça daquele ser enorme, a yokai girou o corpo e jogou-se para a varanda, onde repousou perfeitamente.

Atirando a foice tal como um boomerang mortal, ela decepou um yokai escorpião desprevenido que tentava afanar Toshio e Asami no meio da confusão. Vindo outro yokai atrás de si, Mitsue abaixou instantaneamente, sem virar, estendeu a mão para trás emitindo uma rajada poderosa de energia que fez o oponente voar em outra direção.

Não desistindo, conseguiu aproximar-se das suas crias, ajoelhando-se na frente deles em preocupação evidente.

Asami mantinha-se agarrada no kimono de Toshio com devoção. Seus olhos inundados de lágrimas bem como os dentes trincando de pavor não estavam assim tão diferentes dos do irmão, mas ele tentava não parecer tão apavorado quanto de fato estava. Mantendo uma postura de irmão mais velho, fazia de tudo para não esboçar a própria decadência.

-Escutem! —Mitsue disse os segurando firme pelos ombros. —Precisam se esconder na floresta! Naquele lugar secreto nosso, entenderam?

-Mamãe! —Asami choramingou alto.

-Mas e a senhora!? —Toshio indagou ao mesmo tempo em tom aflito.

-Não temos tempo para isso! —ela os falou com urgência.

O yokai que havia sido atirado por ela, voltou a atacar, disparando com sua longa cauda algo em sua direção.

Um ser delgado voou a partir do ferrão alaranjado. Mitsue o pegou no ar, a centímetros de distância do seu rosto. Olhando-o tão de perto, identificou uma série de dentes extremamente finos em toda a boca diminuta. Só com o toque naquela coisa feia, sua mão ardeu em queimadura intensa. O apertando firmemente, o bicho gemeu em agonia, e logo fora desintegrado pelos seus poderes.

Mal dando tempo para se ajeitar, o yokai já estava a golpeá-la com sua espada. Bloqueando o ataque com a barra da foice, ela o chutou com força no joelho o fazendo ceder na perna direita. Caindo parcialmente, Mitsue tentou cortar sua cabeça, mas ele desviou em perfeita sintonia. Esperando-o que fizesse tal coisa, ela girou a foice na posição contrária, fazendo uma meia lua com a arma mortal, a ponta foi enfiada com perfeição no flanco do seu oponente que gemeu alto ao receber o ataque inesperado.

-Vão agora! Vão! —Mitsue falou aos seus filhos.

Toshio assentiu duramente. Mesmo que suas pernas tremessem, buscou forças dentro de si. Puxando Asami pelo braço, obrigou a irmã a ir com ele que aquela altura chorava teatralmente pelo engodo que do nada acometeu sua casa num dia que parecia que seria tão tranquilo.

Mitsue desviou do golpe mortal da espada do seu oponente, tendo a foice ainda presa no corpo do outro, ela apoiou o pé no torso do yokai a fim de buscar força para poder retirar sua arma. Conseguindo realizar o feito, sangue azul espirrou por toda a varanda. Mas, não dando por vencido, o yokai a derrubou com ajuda da sua pesada e veloz cauda. Não se deixando cair num baque seco na madeira, ela apoiou a barra da foice ao chão, dando uma cambalhota para trás, caindo em pé.

Pegando impulso para frente, Mitsue não estava tão rápida quanto gostaria, mas ainda assim, movia-se de maneira bastante satisfatória e veloz. Pulando a fim de evitar mais um encontro da cauda com o seu corpo, ela utilizou a parede da varanda como apoio e jogou de uma só vez e com muita força a foice que voou na direção do adversário emitindo uma luz esverdeada intensa. Ele bem que tentou bloquear com sua espada, mas tal como a arma, foi cortado duramente ao meio pelo ataque massivo da outra.

Sem esmorecer, sentiu outra coisa partindo na sua direção. Dando um passo para o lado, um pequeno tridente atravessou a parede, fazendo um buraco considerável. Trazendo a foice para sua mão, deu tempo de bloquear o ataque de mais uma adaga mortal, que dessa vez era segurada pesadamente contra si por Isamu.

Tendo outra adaga num formato de tridente chocando-se com sua longa foice, seus olhos puderam se encontrar. As íris castanhas maquiavélicas de Isamu curvaram-se numa ironia maldosa.

-Você não é muito rápida para uma yokai que está grávida? —ele riu num tom sombrio.

Mitsue rangeu os dentes com força, concentrando seu poder no braço direito, impulsionou o corpo para frente. Em um único movimento, ela o afastou de si, bradando com violência a foice. Isamu deu dois passos para trás por conta do impacto. Preparando-se para atingi-lo no meio do corpo com o cabo, algo a impediu. Ela bem que tentou fugir do golpe, mas Isamu a segurou, fazendo com que a outra adaga que havia jogado anteriormente atravessasse o seu ombro.

Com um espasmo de dor, ela lançou uma lufada de energia com sua outra mão que o pegou de surpresa. Não dando chance para que se recuperasse, ela o atacou novamente com a foice, jogando uma série de golpes energizados que explodia tudo o que tocava com muita fúria.

Isamu surfou por entre as investidas provenientes da sua assombrosa energia sinistra. Utilizando a cauda, ele transitava mais veloz e com mais ímpeto que os demais. Defendendo-se aqui e ali das forças emanadas por Mitsue, ele jogou uma série de espécies venenosas na sua direção. O material como o ácido fora repelido pelo movimento rotatório que ela fez com a foice.

Estando segura do líquido pegajoso, Mitsue atirou novamente a sua arma que voou no ar em movimentos circulares. Sendo teleguiado por suas vontades, passou a perseguir o yokai pretensioso que já não estava tão confortável assim para sorrir.

Sendo atingido na perna, Isamu teve que jogar sua cauda para frente a fim de não cair ao chão de qualquer jeito.

Mitsue puxou um dos sais atravessado em seu ombro. Dando um grunhido, jogou a arma de qualquer jeito ao chão empapando sua roupa e a neve abaixo dos seus pés com o líquido quente escarlate.

Trazendo a foice de volta as suas mãos, ela preparou-se para atacá-lo mais uma vez. Dando dois passos a frente antes de saltar, algo dentro de si vibrou com muita intensidade.

Encolhendo-se com a dor repentina, ela arregalou os olhos e parou num súbito para a surpresa do outro que por um instante não soube bem o que acontecia.

"Agora não, agora não..." ela pensou entrando em desespero, sentindo outra contração intensa que a fez declinar com a mão na barriga.

Apoiando a foice no solo, Mitsue debruçou um dos joelhos na neve fria. Ao sentir um líquido escorrer por entre as pernas, não teve mais dúvidas. Seu filho queria vir ao mundo no meio daquele caos.

Isamu arreganhou o sorriso mais impiedoso e maligno da qual possuía. Sem hesitar, partiu para cima daquela yokai que ainda conseguiu bloquear o golpe, mesmo imersa a dor terrível que a natureza a submetia.

-Não é incrível!? Que falta de sorte a sua! —Isamu riu em deboche, e logo passou a língua pelos lábios inferiores em provocação desonrosa. —Sabia que vê-la sentir tanta dor é muito excitante?

Mitsue esmoreceu consideravelmente, tendo a força daquele impacto brutal aliado as dores do parto, ficou quase impossível o conter. Quase cedendo ao golpe, por sorte Emiko conseguiu acudi-la brevemente, jogando uma torrente de energia para cima daquele yokai.

Sendo interceptado, ele não escondeu a insatisfação e o ódio. Utilizando sua cauda, ele a atingiu lateralmente, a fazendo voar para longe.

Mitsue, aproveitando a distração do comandante, focalizou suas forças em seu punho, preste a atirar contra ele, faltando um único segundo para lançar sua energia, seu interior gritou, torcendo-a dentro de si mesma.

Com um gemido incontrolável, ela encolheu-se, cedendo os joelhos. Levando uma bordoada no rosto, caiu deitada de lado na neve. Não tendo oportunidade para se erguer, sentiu a sola do sapato de Isamu sendo esfregada energicamente contra sua cabeça.

-Estou louco para te ver chorar!

...

CONTINUA...