Capítulo 33 – Intrincado.

Rin não soube explicar o sentimento que a abarrotou de repente, mas teve certeza absoluta de que algo grande estava para acontecer.

Na realidade, poucas coisas depois de ser mãe ela conseguiu exteriorizar com exatidão. Fato era que sua intuição materna nunca a havia traído. Tendo uma ligação mais do que única com aquele ser que ela gerara por meses em sua barriga, o instinto sempre a guiou na direção certa. Da mais séria a banal das coisas, ela sempre sentiu. Desde o primeiro dente a primeira fratura em sua perna direita. Então, quando às vezes sentia aquele incômodo sabia que algo aconteceria a Yoshiaki.

Sua respiração repentinamente acelerou, da mesma forma o membro pulsante dentro do peito passou a golpear de forma inquietante. Tremendo gradativamente, ela teve que parar de caminhar. Aquela sensação tão sinistra quase a fez chorar, inundando seus olhos castanhos repletos de um pavor pungente.

-Está tudo bem, Rin? —Akane indagou ao notar que a amiga parecia mais taciturna do que o normal.

-Não sei... —Rin respondeu voltando a si. Esticando as mãos pôde notar que tremia.

Akane pegou nas mãos vibrantes e levou um susto ao notar que ela estava fria como um cadáver.

-Nossa, você está gelada! —Akane falou esfregando as mãos alheias. —Está frio aqui fora, é melhor entrar, pode ficar doente.

-Não é isso. —Rin falou a Akane com o timbre abafado que retumbava sua angústia. —Acabei de ter um pressentimento... Um pressentimento muito ruim.

-Hm... Deve estar um pouco agitada com a situação. Há muita coisa acontecendo ao mesmo tempo.

-Alguma coisa acontecerá com Yoshiaki, Akane. —Rin falou com um tom pesaroso, mas repleto de certezas.

-Não diga isso, Rin. —Akane falou com os olhos estreitados afagando o braço da senhora feudal num carinho consolativo. —Estou só esperando os outros se organizarem para irmos pelos túneis. Encontrarei Yoshiaki, pode ter certeza.

-Não imagina o quanto quero estar errada. —Rin disse deixando um longo suspiro escapar dos lábios trêmulos. —Não irei aguentar se algo acontecer a ele, Akane. Não posso suportar a ideia de perder Yoshiaki...

-Hei, que isso, Rin. —Akane a abraçou lateralmente com ardor. —Não vamos nos precipitar, sim? Temos que pensar positivo e acima de tudo acreditar em Yoshiaki também. Ele não é um meio-yokai frágil. Sabe disso, não sabe?

-Sei. —Rin assentiu fitando o céu ao sentir alguns flocos de neve caírem de forma mais impiedosa.

-É melhor entrar. —Akane disse a puxando levemente pelo braço, tentando a direcionar para a varanda do castelo, mas Rin resistiu e manteve-se inerte no mesmo lugar.

-Pensei que não permitiria que Okoi fosse com você. —Rin disse voltando os olhos para Akane mudando o curso da conversa.

A loira deu de ombros balançando a cabeça em negativa.

-O que eu poderia falar, afinal? Não quero que vá porque Yashamaru irá me largar para ficar com você? —Akane respirou pesadamente passando a mão pelos cabelos soltos. —Além do mais, Okoi não tem culpa de nada... Na verdade, eu gostava verdadeiramente dela no passado, talvez por isso esteja tudo tão difícil e confuso agora...

-Ainda acho que deveria falar com ele. Não pode simplesmente deduzir uma coisa e tomar como verdade.

-Nesse momento eu não consigo nem olhar para a cara de Yashamaru, Rin. —Akane falou sorrindo amarelo. —Seja por covardia ou por uma raiva sem sentido, mas a verdade é essa. Que não consigo agora.

-Sabe... —Rin apontou discretamente com os olhos na direção de Okoi. —Não acha estranho ela querer ir com você?

-Hm, o que dizer... —Akane cruzou os braços olhando Okoi de canto cumprimentando os remanescentes emocionados do seu antigo clã. —Ela costumava ser assim. E ela tem razão, há coisas muito maiores acontecendo. Se ela disse que consegue ir, então é porque consegue mesmo.

Rin pegou novamente nas mãos de Akane a fim de chamar sua atenção de volta para ela. Ao ter os olhos rubis por cima dos seus, a mulher sorriu, embora por dentro estivesse fervilhando.

-Tome cuidado, Akane.

-Pode deixar. —Akane falou com um sorriso confiante. —Trarei aquele moleque de volta para você!

Rin assentiu sentindo-se completamente grata, no entanto, não conseguiu dispersar a sensação angustiante que cada vez mais a dominava como uma nuvem obscura que tampa o sol prometendo um dia de tormenta.

-Akane! —um dos yokais chamou seu nome enquanto aproximava-se.

Tanto Rin quanto Akane viraram para trás a fim de fitar o yokai de aparência humana que ia a passos rápidos e que só parou quando estava há passos de distância de ambas.

-Estamos prontos. —o yokai prosseguiu assentindo a ela. —Quando quiser podemos ir.

-Então vamos indo. —ela falou decidida.

...

Yoshiaki conseguiu cair em pé perfeitamente com Souichiro ancorado em si nos túneis que ligavam como uma rede intrincada as diversas partes do Oeste.

Aquelas galerias foram aprimoradas com o passar dos anos, mantendo-se sempre bem cuidadas e iluminadas por talismãs que emitiam uma luz morna, quase melancólica. Dentro do possível, andar por baixo não era assim tão ruim e desafiador, ainda que alguns pontos de negrume intenso pudessem surgir no meio do caminho não era algo que contasse realmente como um desafio.

O meio-yokai tossiu de maneira seca algumas vezes por conta do gás que jazia na superfície e que o obrigara a tomar tal atitude. Olhando para cima, ainda dava para avistar através do buraco que havia aberto com um único golpe à vultosa fumaça que não dava sinais de dispersar.

-Estão nos encurralando. —Yoshiaki disse cerrando o cenho.

Mas, Souichiro não o respondeu. Invés disso rangeu forte os dentes colocando a mão livre no peito que queimava como o fogo que se alastra pela floresta seca, sem deixar vestígio.

-Souichiro... —Yoshiaki o chamou com pesar ao notar a dor do outro.

-Vamos. —ele respondeu categórico erguendo o olhar verde-oliva para os âmbares. —Mitsue... Meus sobrinhos...

Yoshiaki não o contrariou. Retomou o semblante duro e voltou a andar o mais rápido que conseguia tentando não o chacoalhar tanto por entender que Souichiro sofria a cada movimento mais intenso.

De vez em quando, o corpo incendiário e completamente encharcado de suor daquele yokai lhe pesava mais do que o normal, e verificando, Yoshiaki constatava que Souichiro desmaiava e voltava a consciência num ciclo interminável de martírio.

Na última vez de quase redenção, Souichiro, tendo a vista turva, apoiou com a mão livre na parede pedregosa dando um arquejo agonizante que soprou involuntariamente da boca. Yoshiaki parou de imediato, e não fez qualquer outro movimento ao vê-lo tentar se recompor.

-Deveria me deixar carregá-lo. —Yoshiaki disse seriamente já se preparando para mudar a posição dos seus corpos.

-Espera...

Ele não conseguiu completar a frase, pois um bolo subiu a garganta. Sabendo o que viria, se afastou de Yoshiaki o mais rápido que pôde. Inclinando o corpo na outra direção, involuntariamente vomitou uma quantidade generosa de sangue.

O gosto amargo de ferro dominou o paladar, e sentindo-se mais lastimável do que nunca recostou as costas na parede tentando recobrar o controle do seu próprio corpo moribundo.

-Acho que a dor pioraria se me carregasse... —ele admitiu passando a mão na testa ensopada, tentando secar em vão o rosto molhado. —E já está difícil pra caralho...

Souichiro arfou várias vezes, notando que seus joelhos cederiam, deu-se por si mesmo como vencido. Escorregando na parede atrás de si, sentou ao chão onde sentiu pela centésima vez o veneno o corroendo por dentro com severidade.

Vendo-o guardar um urro entre dentes, Yoshiaki se retesou em reflexo ao imaginar a moléstia do outro a sua frente. Sem que percebesse, já havia colocado a mão no ombro de Souichiro. Mesmo sabendo que aquilo não seria capaz de aliviar a dor, não conseguiu evitar fazê-lo.

Os olhos embaçados de Souichiro encontraram com os de Yoshiaki outra vez. Os âmbares como o ouro líquido resplandeciam indulgência sincera e ao mesmo tempo confusão atordoante. Uma combinação nova que aquele senhor feudal não soube dizer se havia gostado ou não de encarar.

Dando um sorriso sanguinolento, onde a boca voltava a inundar com seu próprio líquido escarlate, Souichiro piscou com um único olho a Yoshiaki.

-Pensei que fosse estrategista. —ele falou dando uma breve tossida. –Onde está aquele moleque prepotente do Sugoroku?

-Hm... —Yoshiaki respirou profundamente retirando a mão do ombro do outro.

-Só estou atrasando, sabe o que precisa fazer. —Souichiro falou a Yoshiaki com o semblante sério, repleto de decisão. —Vá à frente. Eu o alcanço depois.

-Deve estar delirando. —Yoshiaki o respondeu sem abalo no timbre, dando pouca importância as palavras proferidas. —Se não percebeu, estamos rodeados desses yokais. É assim que quer morrer?

-Não seja ridículo, não irei morr...

E mais uma vez, ele fora incapaz de concluir o raciocínio. A dor cruel o remoeu por dentro, parecendo torcer todos os seus órgãos. Virando para o lado, colocou mais uma sequência de sangue pela boca.

-Estou vendo que está ótimo. —Yoshiaki falou balançando a cabeça em negativa. —Não irei deixá-lo sozinho aqui.

-E vai fazer o quê? Ficar me admirando enquanto eu me fodo? —Souichiro ralhou rispidamente a ele. Mas, logo tratou de respirar profundamente com dificuldade e abraçar a si mesmo com um único braço. —Sabe que tenho razão. Só está perdendo tempo.

Yoshiaki sabia que se pensasse friamente Souichiro tinha mesmo razão. Se ele o deixasse para trás conseguiria chegar efetivamente mais rápido ao destino já que não faltavam muitos passos até a propriedade de Mitsue. Chegando até lá poderia ajudá-la e de sorte ter o auxílio de alguém para que pudesse acudir Souichiro.

Não era um plano insensato. Na verdade, beirava ao mais absoluto sentido.

Só que existia um problema: aquele meio-yokai simplesmente não conseguia. Seus pés tão pesados e enraizados ao chão recusaram-se veemente a prosseguir. Como se seu corpo tivesse acostumado com o peso alheio, a leveza do afastamento daquele yokai de si passou a soar como um tormento.

-Não consigo. —Yoshiaki disse cerrando os olhos.

Souichiro franziu a testa sem entender. E quando Yoshiaki voltou a ele, finalmente disse sem abalo no tom.

-Não consigo deixar você para trás.

Sendo o veneno diabólico, as palavras daquele a sua frente ou ambos, algo foi forte o suficiente para cavar fundo em seu âmago algum sentimento estranho.

Com a boca entreaberta pela surpresa daquela informação, a dor tortuosa dentro de si abafou-se durante alguns segundos com o rompante de ouvi-lo dizer em claro tom que não tinha pretensão de deixá-lo sozinho.

Se Souichiro rebateria ou não, Yoshiaki não conseguiu descobrir. Pois, aquele momento foi interrompido por uma flecha que só não o acertou em cheio no meio da testa porque o meio-yokai fora mais rápido e a segurou no ar antes de atingi-lo.

Franzindo o cenho, ele partiu a flecha na mão com irritação. Jogando o objeto ao chão sem qualquer preocupação, sacou a espada presa a suas costas e fitou o negrume há alguns passos a frente que revelou cinco yokais que se aproximavam a passos lentos. Olhando por cima do ombro notou mais três a retaguarda.

Estando cercados por ambos os lados, Yoshiaki endureceu a tez e se postou a frente de Souichiro que sorriu mais uma vez da atitude do meio-yokai em querer lhe proteger.

-Eu devo estar realmente muito fudido. —Souichiro deu uma risada baixa, tentando esconder a sua real situação.

Erguendo-se com dificuldade, cuspiu no chão o resíduo do sangue alocado na boca. Empunhando o machado a frente do corpo, viu os yokais escorpiões sorrindo a eles em escárnio evidente.

...

Havia algo errado no ar.

Sesshoumaru bem sabia.

O vento gelado que perpassou pelo seu corpo balançando os longos cabelos prateados o fez franzir o cenho e virar-se de imediato para trás.

A atmosfera chacoalhava de forma intensa.

-Meu senhor? —Yashamaru o indagou ao notar o semblante reflexivo do Lord das terras do Oeste.

-Há algo se aproximando. —Sesshoumaru disse seriamente.

Yashamaru franziu o cenho em igualdade e entreolhou Tetsuo a sua frente que analisava conjuntamente a eles a planta do castelo a fim de posicionarem adequadamente os yokais para uma possível batalha.

O Comandante dos olhos violetas não teve chance de retrucar, pois em instantes um yokai irrompeu o cômodo apressadamente, deslizando a porta com força e urgência.

-Meu senhor, Comandantes. —o yokai de forma humana falou exasperado.

-O quê é? —Sesshoumaru indagou dando um passo a frente.

-Ao menos três das nossas torres de observação foram abatidas! —o yokai falou de uma só vez com assombro na voz.

-Como!? —Yashamaru indagou incrédulo, dando um salto por trás da mesa, parou de frente ao yokai que mantinha os olhos arregalados. —O que você falou?

-Comandante! —o yokai curvou-se respeitosamente engolindo a seco. —Parece que a situação é mais grave do que imaginávamos. E tudo indica que a propriedade da senhora Mitsue também está sob ataque.

-Isso é ruim. —Tetsuo ponderou colocando a mão no queixo. —Mas, se as torres foram derrotadas, isso é mesmo possível. A propriedade da minha senhora fica entre elas.

-Só há uma maneira de atacar as torres simultaneamente sem levantar notícias tão rápidas. —Sesshoumaru falou fitando Yashamaru de soslaio.

Sesshoumaru não precisou explicar, pois sua frase fora óbvia por si só para o desespero daquele yokai sempre tão controlado.

-Os túneis! —Yashamaru falou num solavanco sentindo todo o corpo tremeluzir.

-Como isso é possível? —Tetsuo indagou encarando a ambos com a metade do seu rosto exposto exibindo descrença. —Não faz sentido. Temos yokais por todos os cantos transitando pelos pontos estratégicos. Se eles tivessem visto algo de anormal, teriam emitido o sinal.

-E se esses yokais escorpiões criaram novos caminhos? —Sesshoumaru perguntou enfático. —Se eles conectaram os túneis novos aos que já havíamos mapeado?

-Hm... —Tetsuo encolheu-se cruzando os braços. —Se criaram túneis novos, seria mesmo possível. Seria um plano e tanto na verdade.

-Ligando os túneis novos aos pontos das quais saberiam que não haveria monitoramento ficaria fácil de atacar. —Sesshoumaru concluiu o raciocínio.

-Há quanto tempo esses desgraçados estão planejando esse ataque? —Yashamaru indagou retoricamente demonstrando uma inquietude nada característica.

-Pelo visto há muitos anos. —Tetsuo falou igualmente impressionado. —E mais ainda, ao que tudo indica ele ocultou os verdadeiros planos para a irmã, ele já deveria saber que ela pretendia traí-lo. Tsc, que problema...

-Meu senhor... —Yashamaru iria prosseguir a fala, mas foi interceptado.

-Sei que quer ir aos túneis. —Sesshoumaru disse o fitando sem abalo no semblante.

-Preciso ir. —Yashamaru disse com os olhos decididos com a mão sobre o peito. —Não levarei ninguém comigo para não desfalcar mais ainda o castelo. Mas, não posso ficar aqui sabendo dessa possibilidade. Se eles estão mesmo andando pelos túneis, Akane, Okoi e os outros estão correndo perigo.

-Comandante, já faz um tempo que eles se foram. —Tetsuo disse conclusivo a Yashamaru. —Seria imprudente sair agora, e ainda mais sozinho.

-E o que eu deveria fazer!? —Yashamaru rebateu com o tom mais alto que Sesshoumaru já o ouvira pronunciar na vida.

Sesshoumaru não o coibiu, sabia que as circunstâncias que o rodeavam eram verdadeiramente atípicas e legitimava o destempero daquele que sempre lhe dirigiu com tanto equilíbrio e ponderação.

Yashamaru respirou pesadamente colocando a mão no rosto. Aquele dia parecia interminável. A noite que se aproximava não poderia competir com as sombras dos seus olhos.

-Não posso deixar que algo aconteça a elas... Não de novo. Não dessa vez. —Yashamaru falou como se estivesse dizendo para si mesmo, sentindo o peso daquelas palavras pesarem toneladas nos lábios.

-Se acha que fará diferença, então é melhor se apressar. —Sesshoumaru disse a ele dando o aval para tal.

Yashamaru ergueu o olhar e somente assentiu a Sesshoumaru em positiva antes de partir em disparada da sala.

...

Para uma yokai que já tivera dois filhos, Mitsue já estava preparada para sentir a dor do parto pela terceira vez. Era algo desagradável, mas que ela entendia ser necessária. Dar a luz a um ser vivo, brincar de ser um deus, claramente haveria de ter algum preço a ser pago ao universo que lhe proporcionava o deleite de gerar seu próprio sangue.

Antes de Toshio nascer, Mitsue nunca pensara que a dor seria tão intensa e ao mesmo tempo animadora, pois, quando assim a aflição se fosse, veria finalmente o rosto do seu primeiro filho.

Não havia como esquecer. Era primavera quando aquele pequeno conheceu o mundo. Já com os olhos abertos, ela pode verificar os verdes-oliva que lhe pertenciam tingidos nele.

Com Asami a sensação fora a mesma. Ainda que ela tenha escolhido o outono para nascer, onde as folhas secas caíam monotonamente das árvores e lotava o jardim com aquela beleza rústica, Mitsue sentiu-se pela segunda vez na vida completa. Quando fitou seus olhos castanho-avermelhados deu uma risada alta para Kenji que parecia mais comovido do que nunca.

Com seu terceiro filho, da qual não podia supor como viria ao mundo, imaginava que vivenciaria algo parecido aos outros dois.

Ledo engano.

Dentre todos os pesadelos e absurdos que já vivenciara ou pensara, nenhum seria tão atroz e desesperador quanto aquele que experimentava.

Pois, quando num devaneio insano suporia que em meio a uma batalha no inverno ríspido em sua propriedade seu caçula resolveria que seria a hora certa para nascer?

E pior, em meio a uma batalha da qual o líder do ataque era um sádico!

Clarividente, nunca.

Mitsue apertou os olhos com força ao sentir Isamu a arrastando para dentro da casa pelos próprios cabelos. A bela yokai não conseguia identificar onde que mais doía. Se era o parto, os ataques brutais do oponente ou seu orgulho de princesa do Sul sendo pisoteado tão esdruxulamente por até então um zé ninguém que de repente irrompeu no meio da sua casa reivindicando algo da qual ela não fazia ideia do que se tratava.

Isamu deslizou a porta principal, e sem hesitar, atirou Mitsue de qualquer jeito para dentro da sala. A madeira estalou alto com o impacto do seu corpo agonizante e ela não conseguiu segurar um espasmo de dor com a colisão violenta.

Mitsue tentou erguer o corpo, apoiando os cotovelos atrás de si. Conseguiu vislumbrar por alguns segundos a terrível batalha através da fresta da qual os seus yokais levavam a pior. Mas, não pôde se postergar na visão, porque o adversário tratou de chutar seu cotovelo direito, a fazendo ceder mais uma vez ao chão.

Ela rangeu os dentes com ódio e ele deu uma gargalhada alta que refletia toda sua maldade ácida.

-Você é durona, estou realmente impressionado! —ele falou em tom de deboche batendo palmas brevemente. —Nenhuma lágrima! Será que você não tem?

-Por que não me mata de uma vez? —Mitsue indagou trincando os dentes ao sentir mais uma contração violenta se apoderando do seu corpo.

-Se fizesse isso, a diversão acabaria. —Isamu disse dando de ombros. —Não era exatamente o que eu esperava, mas até que está muito empolgante se quer saber!

-Você é asqueroso. —ela falou dando um longo suspiro, o fitando de canto.

Isamu deu mais uma risada.

Fechando totalmente a porta atrás de si, ajeitou os sais nas mãos e caminhou lentamente até ela. Agachando-se ao seu lado, ele a fitou intensamente com uma face que Mitsue não conseguiu decifrar a princípio.

Apontando aquela arma em formato de tridente para o rosto alheio, Isamu passou a ponta afiada primeiro pelos cabelos dela, depois escorregou para o seu rosto onde ela pôde sentir com precisão o fio mortal roçando contra a pele fina. Parando sob a boca, ele deu um talho no lábio inferior e um pouco de sangue acabou pingando do ferimento recém aberto que em segundos tingiu de puro vermelho a região afetada. Ainda assim Mitsue não se intimidou.

Descendo mais um tanto, ele percorreu até o pescoço, tracejando um caminho por entre as veias saltitantes, o que aumentou consideravelmente a expectativa de Mitsue sobre o que ele pretendia. Parando no centro do peito, Isamu afastou um pouco o kimono dela, abrindo um decote da onde fora possível vislumbrar uma parte dos seios desnudos.

Ele sorriu com a visão, e logo voltou os olhos para os de Mitsue.

-Hm... O que acha que aconteceria se eu comesse você agora? —Isamu indagou de forma irônica fingindo ponderar. —Será que essa criatura ficaria presa dentro de você ou me empurraria para fora?

-O que...?

Mitsue arregalou os olhos ao ouvir aquela frase. Ela, que costumava sempre ter resposta para tudo, por um momento, não soube o que dizer diante daquela aberração que seus ouvidos puderam experimentar.

E pior ficou, quando aquele yokai emaranhou com força os dedos no cabelo dela obrigando-a a aproximar o rosto do dele. Ficando tão próximos, ele a lambeu do pescoço a orelha e agarrou-se ao lóbulo.

-Não consigo nem imaginar como você deveria ser antes. —ele falou dando uma mordida forte na orelha de Mitsue. —Deveria fazer de você minha escrava. O quê acha, Princesa?

Mitsue engoliu a ânsia ao senti-lo tão perto de si, discretamente balançou seu dedo indicador para frente e para trás como num chamamento. A foice presa na neve tremeu ao sentir o seu comando, e logo chacoalhou furiosamente com o estímulo que ela produziu. Desenterrando-se sozinha, voou na direção daquele yokai que sorriu ao prever o golpe, e virando-se sem esforço ele bateu com os sais naquele objeto mortal, o desviando das suas costas.

-RÁ! Achou mesmo que...

Mas, o que ele menos esperava, era que na verdade, Mitsue não o mirava com a foice, e sim com a mão esquerda, onde concentrando toda sua energia sinistra e o último suspiro da qual seria capaz de dar, o atravessou pela garganta sem dó.

Sangue azul espichou numa torrente.

Isamu ainda tentou atingi-la com a arma, mas foi interceptado pelo aprofundamento brutal da mão feminina que tomando impulso o penetrou até a altura do cotovelo.

Mitsue o fitou dentro dos olhos. Notando que aquele comandante jazia agonizante nos últimos segundos de vida, e sabendo que ele ainda mantinha a consciência, não conseguiu deixar de dizer:

-Quem é que vai chorar agora, seu filho da puta?

Puxando sua mão de volta, Isamu girou os olhos para trás desfalecendo. Tendo seu ponto vital atingido, não tardou para aquele yokai cair ao chão morto.

Só depois Mitsue notou que tremia. Olhando os olhos sem vida do yokai ao seu lado com um buraco severo aberto no meio da garganta, ao menos, um alívio teria dentro daquele dia.

Sem perder mais tempo, Mitsue ergueu o corpo com muita dificuldade. Apoiando-se com a ajuda da sua foice tentou ir mais afundo que podia dentro da sua própria casa. Achando um cômodo, agachou-se. E dispondo as mãos abaixo de si pôs-se a fazer o máximo de força que podia.

Seus gemidos agonizantes só não eram mais terríveis que os da batalha que acontecia no jardim. Sentindo-o chegar, ela forçou mais um tanto e quase fraquejando, teve a certeza de que seu filho finalmente vinha ao mundo.

Implorando forças ao sobrenatural, bastou mais um empurrão dedicado, um que saiu com um espasmo aliviado que ela tanto conhecia para finalmente tê-lo fora de si.

Um choro agudo inundou todo o ambiente e Mitsue pôde ver por fim o semblante da sua filha. Aninhando-a nos braços identificou os olhos verdes-oliva tais como os seus, e os cabelos tão pretos como a noite que já havia caído.

-Miyako... —ela falou a nomeando com a voz embargada de emoção e alívio.

Só assim as lágrimas brotaram nos seus olhos ao beijá-la na testa pela primeira vez.

Mas, Mitsue não se deixou relaxar, aquele ainda não era o momento. E que, embora não tivesse quaisquer forças para mover-se, teria que criar rigidez robusta dentro de si mesma caso quisesse sobreviver e garantir a vida da recém nascida.

Pegando o lençol do futon que havia dentro do quarto, Mitsue enrolou Miyako com o tecido e posteriormente a amarrou em si, em seu próprio tronco. Tendo certeza que a filha estava segura pressionada contra o seu tórax, ela decidiu que precisava sair daquele lugar o mais rápido possível, antes que alguém desse falta de Isamu na batalha e percebesse que ela tentava evadir.

Com a vista turva e mais exausta do que nunca, Mitsue ancorou-se na barra da foice. Quase se arrastando pelo chão, mal conseguia erguer os pés totalmente da madeira lustrosa. À medida que andava, uma trilha de sangue e suor tingia a madeira. Grunhindo de forma abafada e suplicante foi fincando a arma que nunca a abandonara em todos aqueles anos para que pudesse impulsionar o corpo a passos lentos para frente.

Sentindo uma parte oca no piso, a yokai soube que ali se encontrava a passagem secreta que a levaria até o lado exterior. Tirando o tampo falso, agachou-se com cuidado e num salto que doeu até o último fio do seu cabelo, alcançou um dos túneis abaixo de si.

Sem se permitir esmorecer, voltou a caminhar o mais rápido que seu corpo podia aguentar. Mesmo embrenhando-se cada vez mais afundo naquele negrume intenso ouviu, não tão longe, um barulho alto de duas grandes explosões atrás de si.

Virando-se para trás em reflexo teve a certeza de que mais yokais inimigos invadiam sua propriedade. Suspirando em lamento pesaroso, não teve escolhas a não ser prosseguir.

Faltava menos de dez passos para angariar a saída, Mitsue podia até mesmo sentir o vento gelado perpassando por entre as frestas assim como identificar a neve que aos poucos se acumulava abaixo do teto da qual deveria esticar-se para subir a superfície.

No entanto, não fora necessário, pois, justamente no instante em que se aproximaria, um sabre mordaz estourou a passagem cobiçada permitindo uma lufada gélida a atingir sem cerimônia.

Sabendo quem se tratava, Mitsue permitiu-se amolecer os joelhos num suspiro mais do que aliviado.

A claridade das tochas logo invadiu a sua visão, e num segundo pôde vislumbrar a presença daquele yokai que mantinha os olhos castanho-avermelhados mais aturdidos e trêmulos do que já vira na vida.

-Kenji... —Mitsue o chamou com a voz engasgada.

Ele não a respondeu de imediato, invés disso, correu a sua direção e só não a abraçou forte contra o corpo por notar a pequena yokai que jazia adormecida e amarrada no tronco da esposa.

Um misto de sensações o abarcou de imediato. Tantos sentimentos emboloraram em seu interior que ficou difícil discernir o que realmente sentia. Do amor incondicional ao pânico profundo, pouco teria tempo para divagar a respeito.

-Toshio? Asami? —Kenji a indagou colocando as mãos em seus ombros com o coração apertado.

-Estão no esconderijo da floresta. —ela respondeu com o timbre tremeluzindo. —Consegui dar tempo para que escapassem.

-Precisamos sair daqui. Esses yokais não param de chegar. —Kenji falou seriamente. —Encontramos com alguns no caminho de volta, só consegui retornar com meia dúzia dos que levei comigo ao Leste.

Mitsue arregalou os olhos ao ouvir aquela informação. Kenji havia partido com quase trinta! Saber que só seis conseguiram regressar com ele foi no mínimo espantoso.

Sem mais perder tempo, Kenji envolveu o braço de Mitsue em volta ao seu pescoço, e a pegou no colo num único movimento. Saltando de uma só vez para cima com ela, a última visão de Mitsue foram as tochas dos companheiros de viagem de Kenji.

Depois disso, tudo escureceu num desmaio fatigante.

...

Okoi contara toda a sua história novamente a um dos antigos companheiros do clã enquanto seguia caminho pelos túneis. Como Akane ia logo à frente, e Okoi não contara em voz murmurante por não ser de fato nenhum segredo, a meio-yokai não pôde deixar de ouvir todo o relato perturbador que a assomara durante todos aqueles anos.

Dando um suspiro de pesar e empatia, Akane não conseguiu fingir que aquela história não a havia abalado. Parando em súbito, virou para trás a fim de finalmente encarar a yokai dos olhos azuis.

-Sinto muito. —Akane falou de uma só vez.

Okoi assentiu a ela em retribuição, e ambos puderam voltar a caminhar novamente.

Mas, dessa vez, Okoi apertou um pouco os passos com o objetivo de caminhar lado a lado da loira que a fitou de soslaio ao notar a aproximação intencional da outra.

-Quero me desculpar. —Okoi disse a Akane, dessa vez com a voz baixa.

-Se desculpar? —Akane indagou sem entender, arqueando uma única sobrancelha.

Okoi coçou a garganta um pouco sem jeito e aproximou-se da orelha de Akane.

-Por ter beijado Yashamaru.

Akane sentiu o seu interior se revirar ao escutar aquela frase. Revisitar nas memórias aquela cena certamente não a agradava. Mas, pior do que isso era ouvir Okoi proferir um pedido de desculpas por fazê-lo, quando na verdade Akane sentia-se péssima por crer que tudo que vivera só ocorrera pela ausência da outra da qual, aproveitando-se sem qualquer intenção, roubara-lhe na cara dura a oportunidade de estar com Yashamaru.

-Não sabia que estavam juntos, que tinham se casado. —Okoi prosseguiu com o tom sério e respeitoso, sem deixar de fitá-la. —Quando olhei para Yashamaru foi como encarar o passado, como se o tempo tivesse voltado. Não consegui evitar... Desculpe por isso, Akane.

-Por favor, não repita mais essa palavra... —Akane falou colocando a mão no rosto tentando buscar placidez. Respirando profundamente, ela buscou coragem para fitar a yokai ao seu lado. —Ele deve ter lhe dito que não foi nada planejado. Nos casamos muitos anos depois de pensarmos que você havia morrido.

-Sei disso. —Okoi assentiu. —Yashamaru não me trairia. E se soubesse que estava viva, com certeza teria feito de tudo para me resgatar. Não tenho dúvidas quanto a isso. Sei bem quem ele era, e pelo pouco que vi, ainda é o mesmo. Poucos no mundo são tão leais quanto ele.

Akane emudeceu durante alguns instantes. Não queria estar tendo aquela conversa no momento. Na realidade, nem sabia se algum dia gostaria de praticá-la. Pois, tudo parecia tão óbvio e previsível para ela que se sentia sobrando no meio de uma relação da qual matutava ter invadido.

-Sou eu quem deveria dizer que sente muito... —Akane falou finalmente, a encarando com os olhos pesados.

-Do quê está falando? —Okoi franziu a testa. —A vida teria que seguir. Já faz trinta anos, afinal. Não guardo mágoas de vocês por isso. E se quer saber, Akane, Yashamaru não lamenta.

Akane parou subitamente com as últimas palavras.

Yashamaru não lamentava...? Havia escutado direito?

Tendo ou não ouvido ao certo, não conseguiu rebater, porque Okoi fechou a cara e passou por ela num ímpeto. Estalando os dedos como havia feito anteriormente, a chama apareceu na sua mão, apesar de fraca, conseguiu iluminar uma parte da parede rústica que chamou sua atenção.

Notando alguns pequenos buracos, Okoi enfiou o dedo naquela cavidade onde um pedaço de carapaça grudou no indicador. Não tendo mais dúvidas, virou-se de imediato para Akane e os outros com um semblante assustado.

-Estão vendo? —ela indagou colocando a chama próxima ao resquício de pele ancorada em seu dedo.

-Isso é pele? —Akane perguntou sem entender.

-Por que está nos mostrando isso, Okoi? —o outro yokai a indagou igualmente confuso.

-Até onde vão esses túneis? —Okoi prosseguiu sem os responder de imediato.

-Ligam todo o Oeste. —Akane a respondeu tentando entender a lógica daquilo. —Na verdade, inicialmente, esses túneis foram abertos por Shinjo, o senhor feudal do Leste, que os construiu para ligar de lá até aqui. Mas, com o passar do tempo, fomos aprimorando essas passagens.

-Isso é ruim. —Okoi disse balançando a cabeça em negativa.

-O quê está acontecendo?

-Estão vendo esses buracos? —Okoi direcionou novamente a chama para a parede tirando a atenção de todos para os furos sutis. —Eles usam escorpiões pequenos para mapear as áreas. Como mudam de pele constantemente, é natural que deixem vestígios... Não há dúvidas de que são eles.

-Então... —Akane falou com os olhos arregalados.

-Eles já estão aqui há muito tempo. —Okoi assentiu em positiva para o assombro dos demais. —E pelo jeito, irão utilizar esses túneis para atacar.

-Akane. —um dos yokais a pegou pelo braço. —Precisamos voltar ao castelo. Isso é muito grave.

Akane não conseguiu respondê-lo, pois, no segundo seguinte um pedaço do teto desabou violentamente há poucos passos de distância de onde se encontravam e bombas de gás venenosas foram lançadas em simultânea.

Mal dando tempo para se prepararem, e com o auxílio de uma fumaça espessa que confundia os sentidos, caudas com ferrões afiados voaram em suas direções atingindo alguns dos yokais que não conseguiram impedir o golpe surpresa.

Akane bloqueou a cauda com a ajuda da espada. Encarando o ferrão alaranjado na extremidade daquela longa extensão, ela pensou ter se safado por alguns centímetros da picada mortal daquele yokai. Mas, abrindo-se como um botão de rosas que está a florescer, um ser delgado evadiu de dentro da ponta sem qualquer chance para defesa.

Cerrando os olhos com força, já esperando ser atingida, Akane não contava que chamas chispassem a polegadas da sua face e impedissem aquela criatura de mordê-la ferozmente. Por sorte, Okoi havia conseguido a salvar.

Sem tempo para agradecimentos, Akane empurrou furiosamente a cauda, e postou-se ao lado de Okoi que mantinha a chama acesa em sua mão.

-Parece que é tarde demais para voltar. —Akane falou enquanto empunhava a espada na direção da fumaça densa e traiçoeira.

-Anime-se. —Okoi falou dando uma piscadela para ela. —Quando imaginou que voltaria a lutar ao meu lado?

Akane não conseguiu evitar sorrir.

...

Rin observava pela varanda a movimentação incomum que se assomava no início da noite. Os yokais, mais agitados do que nunca, postavam-se em suas posições estratégicas ao redor do castelo em expectativa ardente.

Aquela agitação a fez relembrar os tempos caóticos do passado dos quais não possuía qualquer saudosismo.

Não é que se iludia a pensar que viveria em plenitude pacífica para sempre, mas, tempos sombrios iguais aqueles, ela forçava a acreditar que não experimentaria mais.

Por isso mesmo, não evitou dar um longo suspiro taciturno.

-Rin. —a voz inconfundível chamou o seu nome, tirando-a do seu devaneio.

Não hesitando, Rin virou a cabeça para o lado. Sabendo que encontraria com aquele conjunto imponente de olhos dourados e cabelos platinados, ela não esboçou qualquer surpresa em vê-lo.

Não sorrindo como costumava a fazer, Sesshoumaru também não se espantou por ela não reagir assim. As circunstâncias que os rondavam não eram favoráveis para tal.

-Fazia tempo que as coisas não ficavam tão ruins assim. —Rin falou aproximando-se mais um pouco dele. Com a voz mais melancólica que poderia fazer, prosseguiu com o assunto. —Jaken me contou toda a história e também sobre os túneis...

-Será questão de tempo até chegarem ao castelo. —Sesshoumaru disse sem demonstrar aflição.

-Estou muito preocupada. Não consigo parar de pensar em como estão todos... —ela respirou consternada abraçando o próprio corpo. —E, principalmente, em como Yoshiaki está...

-Precisa se preparar. —Sesshoumaru falou a fitando intensamente.

Aquelas palavras doeram na alma. Num solavanco, ela arregalou os olhos.

-Também está sentindo? —Rin indagou pegando no braço de Sesshoumaru com os olhos marejando, repletos de agonia. —Está sentindo que algo acontecerá a Yoshiaki, não está?

-Não seria espantoso se tentassem usá-lo para me atingir. —Sesshoumaru admitiu assentindo a ela.

-Acha que tentarão capturá-lo? —Rin segurou mais firme no marido, apesar de não perceber, e aumentou o tom de voz que reverberou urgente. —Ou pior, acha que já podem estar com ele? Acha que Yoshiaki foi pego? Acha que...

-De quem você acha que está falando? —Sesshoumaru indagou a ela seriamente, sem abalar o tom.

Rin não entendeu por alguns instantes aquela indagação. Afrouxando o aperto do braço alheio, ela pareceu perdida por seus pensamentos que se aglutinaram em seu cérebro num tormento tal qual aos que experimentara ao longo dos anos com aquela energia sinistra dentro de si.

-Yoshiaki é meu filho. —Sesshoumaru falou categórico, tentando tirá-la de seus devaneios. —Não falei que deveria se preparar no sentido de que ele falhará em sobreviver.

-Mas, então...

-Quero que se prepare para o que poderá ver.

...

Souichiro havia duvidado a princípio que Yoshiaki daria conta dos oito yokais que os tinham cercado. Mesmo legitimando que o meio-yokai possuía uma técnica admirável, aqueles oponentes não eram soldados comuns das quais se costumava a ver no mundo feudal. Sem contar o fato de que equiparando suas idades, ainda que Yoshiaki fosse adulto, não havia vivenciado nem um sexto do que ele em batalhas.

Mas, movendo-se tão habilmente, bloqueando e desferindo golpes com tamanha maestria naquele espaço nada amplo, o senhor feudal não conseguiu evitar entreabrir os lábios pela centésima vez naquele dia.

Praticamente, Yoshiaki não dava tempo para os adversários aproximarem-se de Souichiro. Tendo ele sido envenenado, o dono dos cabelos brancos sabia bem que o outro não conseguiria lutar habilmente. E que, além de piorar o seu quadro caso viesse a fazê-lo, poderia ser fatal uma pequena falha promovida pela dor intensa da qual não conseguiria suprimir.

Derrubando três dos oito oponentes, Yoshiaki bloqueou duas espadas que partiram de encontro a seu rosto. Com a mão livre, segurou a espada do terceiro que o atingiria as suas costas. Sentindo os joelhos sucumbirem pela força exercida pelos três, encostou um único no solo. Os dois restantes, tentando se beneficiar da situação, o atingiriam por ambos os flancos, mas, emanando uma luz vermelha de dentro de si, aquela força fora o suficiente para afastar os aproveitadores.

Ainda utilizando aquele poder que parecia crescer cada vez mais dentro de si, empurrou as duas espadas que bloqueavam a sua. Sem descuidar, puxou o que estava as suas costas para frente e, dando uma cambalhota por trás dele, conseguiu fincar a espada em seu ponto vital, no coração pulsante.

Colocando a sola do sapato nas costas alheias, Yoshiaki puxou sua espada de volta de dentro do corpo nauseabundo do yokai atingido mortalmente, mas não conseguira desviar a tempo da investida do outro que afundou a espada em seu braço direito.

Aproveitando o segundo de retração do meio-yokai que grunhiu com a dor, ele deu-lhe um soco certeiro no rosto que o fizera voar para trás e chocar-se violentamente contra a parede. Ensaiando atingir Yoshiaki novamente com o punho, o platinado agachou-se a tempo deixando o yokai escorpião desferir um golpe atroz contra a rocha atrás de si que afundou consideravelmente.

Ainda agachado, Yoshiaki retirou a espada presa em seu próprio braço com um urro de dor, e a enfiou num movimento rápido na glote do oponente.

Atirando-o na direção dos três restantes, eles se afastaram a fim de evitar a colisão e, mutuamente, dispararam com suas caudas a criatura delgada de dentes finos para cima do platinado.

Bradando uma energia sinistra através da sua espada, desintegrou sem dificuldade aqueles monstrengos venenosos. Ainda assim, não foi veloz o suficiente para bloquear a lança que raspou profundamente em sua perna esquerda.

Rosnando irritado, seus olhos passaram a esboçar uma penumbra da qual Souichiro notou de imediato. Num relance, o senhor feudal podia jurar que seus olhos dourados haviam sido substituídos por vermelhos intensos.

Sendo aquilo verdadeiro ou não, fato é que a energia sinistra de Yoshiaki quando provocada passava a tomar nuances mais violentas. Aprendendo com maestria as investidas dos inimigos, ele tornava-se cada vez mais assustador e incisivo.

Então, quando os três decidiram o atacar em conjunto, já era tarde. Pois, prevendo os golpes dos inimigos, ele conseguiu esgueirar-se perigosamente entre eles. Num alto nível da qual seria capaz de impressionar o mais cético dos guerreiros, Yoshiaki puxou o punho do primeiro imediatamente a frente, bloqueando a espada do segundo que o desferiria um golpe. Dando um passo para trás e agachando-se, evitou o golpe do terceiro. Valendo-se que ainda segurava o punho do opositor, girou a mão na direção contrária, de encontro ao meio da testa do próprio que caiu com a cabeça dividida ao meio. Pegando a cauda do yokai as suas costas, ele o bateu contra o outro ainda de pé. Sem o soltar, Yoshiaki decepou com a espada o prolongamento do corpo, o fazendo berrar de dor. Tendo a cauda cortada em suas mãos, ele a atirou com toda a sua força contra o último que foi atingido em cheio, tendo seu tronco atravessado. O da cauda decepada tentou golpeá-lo, mas com movimentos grosseiros e fora de controle, ficou fácil para Yoshiaki bradar um poder considerável com a sua espada que o jogou ao longe.

Arfando exausto, Yoshiaki pulou para trás, ficando novamente próximo de Souichiro que continuava embasbacado pelos movimentos sincronizados ao final.

-Temos que sair daqui. —Yoshiaki falou a Souichiro enquanto o fitava e dessa vez o senhor feudal teve a certeza de que seus olhos crepitavam. —Sei que está sofrendo, mas não terei outra escolha se não carregá-lo. Logo outros irão aparecer. Não conseguirei fazer isso sozinho para sempre.

Souichiro assentiu, e não precisou de muito tempo para a tese de Yoshiaki se concretizar, pois, o yokai decepado não tardou a apitar. Dando um sinal, como um chamamento, pelo menos uma dezena de yokais se aproximaria.

Apoiando a perna que não estava ferida ao chão, deu altura para que Souichiro pudesse ancorar em suas costas. Envolvendo os braços no pescoço de Yoshiaki, o meio yokai ergueu-se de uma só vez e o segurou por trás dos joelhos. Sentindo-o seguro em si, o olhou de canto para o semblante derrotado do outro que continuava a pingar por conta do suor persistente.

-Isso deve doer. Sinto muito.

-Hm... Se contar isso a alguém, juro que mato você. —Souichiro disse com um sorriso fraco no canto dos lábios.

Yoshiaki sorriu de volta brevemente, e sem perder mais tempo, pôs-se a correr com afinco para o desalento do yokai preso em si que com passos tão fortes contra o chão retorcia-se com a dor que teimava martelar dentro do corpo.

-Não irá demorar muito. Aguente firme. —Yoshiaki disse a ele enquanto corria velozmente. —Tenho um plano.

-Estou bem... —Souichiro disse entre dentes.

Yoshiaki assentiu e prosseguiu o mais rápido que podia até a entrada daquele lugar há tempos esquecido...

Quando criança, Yoshiaki teve uma curiosidade exasperada por cursar aquelas aberturas e conhecer afundo todos os detalhes possíveis da construção tecida no interior da terra. Após percorrer com notável interesse inúmeras vezes, não demorou a acentuar em seu âmago a ideia de tecer por si mesmo alguns outros caminhos dos quais não fizera questão de mapear ou tampouco contar a alguém. Como esconderijos secretos, ele se divertia fugindo dos outros e provocando quem não deveria.

Perdendo horas e dias da infância, aquela brincadeira tola espalhou-se durante anos a fio até ele próprio desinteressar-se por tais artimanhas infantis e ingressar na adolescência mais séria e austera das quais coisas como aquelas não tinham mais sentido.

Fazia um tempo considerável desde que não pensava mais sobre. As lembranças de um passado não tão equidistante voltaram a mente subitamente, e acabou se vendo, agora na fase adulta, tendo que percorrer novamente por aquelas passagens estreitas e que talvez, remontando o que construíra até então inutilmente, poderia vir a calhar naquele momento de ataque iminente.

Chegando próximo do objetivo, Yoshiaki foi tateando a parede com cuidado. Sentindo uma elevação proposital na rocha, ele sorriu animado por aquilo ainda existir. Afundando a mão no buraco, puxou um pedaço oco da pedra revestida que se revelou uma passagem secreta estreita.

Olhando para ambos os lados, Yoshiaki entrou de uma só vez naquele beco escuro e não tardou para ajeitar a pedra na mesma posição de antes a fim de não chamar a atenção para o seu desvio inusitado.

-Como sabia disso? —Souichiro indagou sem entender.

-Fui eu quem construiu.

-Tsc... Você é mesmo esquisito... —Souichiro suspirou balançando a cabeça em negativa.

Yoshiaki não rebateu a ofensa gratuita. Havia coisas mais importantes do que debater com aquele indivíduo desvanecido a respeito das suas distrações na infância. Preferiu puxar um talismã incendiário do bolso a fim de iluminar aquela escuridão estreita.

Quanto mais adentravam, mais aquilo ficava apertado. Yoshiaki havia se esquecido de um pequeno detalhe: o seu tamanho atual e que havia um terceiro consigo.

-Isso está mesmo certo? —Souichiro indagou a ele com desconfiança.

-Devo confessar que achava que era mais espaçoso... —Yoshiaki suspirou reflexivo parando num súbito.

-Que ótimo... Vou ficar entalado nesse caralho agora com você!

Souichiro praguejou mais alguns palavrões mal criados, mas, sentindo outra onda de mal estar embolorando o peito, apertou involuntariamente o pescoço de Yoshiaki, recostando a testa contra a nuca do meio-yokai.

Yoshiaki se retesou com a respiração alheia e com a pele quente de Souichiro sobre a sua.

Por conta da dor intensa, o senhor feudal não percebeu, e Yoshiaki agradeceu imensamente aos deuses por ele não ter notado aquele arrepio esquisito e sem sentido aparente que o acometeu.

-Precisamos subir. —Yoshiaki falou o fitando por sobre o ombro.

-Não terei forças para isso. —Souichiro admitiu num murmúrio a contragosto.

-Sozinho sei que não. Mas juntos podemos conseguir. —Yoshiaki suspirou colocando a mão no rosto. —Quem terá que me prometer agora que não contará a ninguém será você...

Souichiro franziu o cenho sem entender, mas quando Yoshiaki contou a ele o que havia passado pela sua cabeça, ele não conseguiu segurar uma risada que doeu dentro de si, mas que valeu a pena tê-la dado assim mesmo.

-Promete que não fará nenhuma piada? —Yoshiaki indagou a Souichiro com desânimo. —Nem agora e nem nunca?

-Uhum... —Souichiro assentiu soando pouco convincente. —Vamos de uma vez.

Yoshiaki girou os olhos ao sentir Souichiro abandonar suas costas.

Ouvindo-o gemer antes de se postar a sua frente, aquilo o fez reconsiderar sobre a vergonha que sentiria com os próximos passos adiante.

O meio-yokai recostou as costas na parede e deixando os braços livres, permitiu que Souichiro o abraçasse. Sentindo o corpo tão febril e molhado do outro, Yoshiaki esmoreceu pela segunda vez. Aquele yokai nem parecia o mesmo que havia visto lutar horas antes na superfície.

-Sei que meu abraço é gostoso... Mas poderíamos ir... —Souichiro disse parecendo um pouco grogue.

Yoshiaki respirou profundamente. Voltando a si, utilizou a parede as suas costas como apoio para colocar as pernas na parede a frente. Logicamente seria impossível esticá-las por completo, tendo em vista que a fresta era mesmo estreita e mal dava para um adulto passar, que dirá dois ao mesmo tempo. Ou seja, aquilo só funcionaria se estivessem mais próximos do que nunca.

Continuar com Souichiro as suas costas era impensável. Primeiro porque ele precisava se apoiar com força para obter impulso, mantendo-o as suas costas, aquilo seria mais do que doloroso para o senhor feudal. E segundo, porque Yoshiaki achava realmente muito pior espremer-se com ele grudado atrás de si...

Tendo se fixado totalmente fora do chão, Souichiro estacionou no colo alheio sem enrubescer nenhum centímetro. Fazendo-o de uma cadeira, ele verdadeiramente não pareceu se importar com o quanto aquilo era no mínimo ridículo.

Engolindo a seco por ter aquele yokai fervente aninhado em seu corpo, Yoshiaki dedicou-se a recobrar o foco, e tentando não pensar na situação a qual se envolviam, pôs-se a subir em impulsos longínquos.

Só que para seu infortúnio, quanto mais subiam, mais apertado ficava. E Yoshiaki acabava demorando mais um pouco para conseguir se impulsionar pela falta de ângulo. Sentindo-o cada vez mais próximo de si, involuntariamente seu coração pulsou mais forte.

Mas, aquilo poderia ser por conta do esforço...

Pensando assim, fazia sentido. Afinal, havia enfrentado uma série de inimigos antes, seu braço tal como sua perna jaziam lesionadas e ainda por cima estava a subir entre paredes carregando um yokai que apesar de esguio era de longe leve.

Assentindo em positiva para si mesmo, ele convencera-se de que aquela era a resposta certa para o seu órgão pulsante estar tão fora de controle.

Subindo mais um tanto, já próximo da superfície, a rocha úmida o fizera escorregar um pouco para baixo. Não deslizaram mais afundo porque Souichiro por reflexo apoiou a mão na parede ao lado da cabeça de Yoshiaki. Aquele movimento intenso o fez retorcer o semblante e igualmente colar seus narizes.

Yoshiaki corou de imediato, e mais uma vez agradeceu aos seres místicos por estar tão escuro. Tentando sair daquela situação, ambos moveram-se descompassados, e por possuírem praticamente a mesma altura e estarem em ângulos semelhantes foi a vez dos seus lábios roçarem.

Mesmo imersos no breu, ouvindo a respiração pesada do outro, foi impossível não identificar o sorriso irônico de Souichiro.

-Tsc! Que azar daqueles que não estiveram colados assim com você, garoto.

Dessa vez Yoshiaki não teve como ponderar o motivo do coração acelerar. Havia se tornado mais do que óbvio, e dizer o contrário, seria uma mentira mais do que deslavada.

Mas, ele não teve oportunidade para responder, se é que faria tal coisa. Porque, no mesmo minuto, pôde ouvir a voz desolada de Akane gritando aquele nome familiar.

...

CONTINUA...