Capítulo 34 –Indômito.
A cada segundo que passava mais aquela fumaça densa dominava os túneis. Com devoção, espalhava-se venenosamente, perpassando por todas as arestas e extremidades possíveis. Confundindo a mente, o olfato e a percepção da realidade, aquilo logo tornou-se um problema de difícil desate. Pois, vez ou outra, as investidas dos yokais escorpiões com suas caudas mortais interpelavam por entre os adversários e, pegando algum desprevenido, quando o espécime delgado o atingia, bastavam poucos instantes para uma agonia excruciante inquirir por suas veias e derrubar sem dó.
Dando um passo para trás, Akane recostou suas costas nas de Okoi que igualmente a ela mantinha-se em postura ereta, sem qualquer sinal de relaxamento ou desespero.
-Feche os olhos. —Okoi disse seriamente a Akane, sem movimentar-se da posição que se encontravam. —Essa fumaça embolora os pensamentos. Não use os olhos.
-Certo.
-Confie em mim.
Akane assentiu, e cerrou os olhos tal como Okoi. Buscando a máxima concentração do seu ser, às vezes aquilo tornava-se extremamente difícil, pois, os sons das lutas e dos gemidos dos yokais aliados sofrendo com os golpes mordazes provindo de todas as direções, a tiravam o tino. Mas, toda vez que se remexia em falso, Okoi tratava de colocá-la novamente no eixo, e bloqueando golpes inescrupulosos mais vezes do que Akane previra, a meio-yokai não teve outra escolha a não ser levar aquela situação mais a séria.
Respirando fundo, ela tentou mais uma vez manter-se tão firme quanto Okoi. Alcançando a centralização que buscava, conseguiu enfim bloquear um ataque do oponente sem esforço. Sucessivos outros vieram, e na mesma constância que as ofensivas tentavam perfurar a carne, Akane os rechaçava.
Aquela dança mortal alastrou-se durante duros minutos, mas, Okoi sabia que tal movimentação não se sustentaria, e que por isso, o correto seria resistir primeiramente a investida indecorosa para que posteriormente pudessem lutar de verdade. Depois de tantos anos dividindo o mesmo ambiente com aqueles seres asquerosos, a yokai do fogo conhecia bem todas as artimanhas, desde as mais esdrúxulas as mais sofisticadas.
Não que aquelas personalidades carregassem seus escravos para todo e qualquer campo de batalha. Vez ou outra eles faziam mesmo aquilo, quando se cansavam de algum, tratavam de utilizá-los como escudos vivos. Ou quando a batalha ocorria em seus terrenos, acabavam por tendo que observar o desenrolar dos trabalhos, e torcerem para que fossem mortos, o que nunca de fato chegou a ocorrer por um agouro do destino que tão peçonhento como o líquido viscoso da qual carregavam, teimavam em lhes empurrar para aquela vidinha miserável. A outra vertente que também a ajudou a lê-los com tamanha perfeição, obviamente, foram as confidências de Nazomi ao longo de todos aqueles anos de suplícios, que traindo o irmão, acabara tão lastimável quanto um dia ela pensara encarar.
Quando a fumaça baixou, Okoi já havia sentido segundos antes de acontecer, tendo em vista que a densidade da atmosfera que as rondavam mudava gradativamente. Abrindo finalmente os olhos, ela cutucou Akane que entendeu o recado voltando ao mundo real.
Restando somente resquícios bailando pelo ar, ambas puderam ver com clareza três dos que haviam levado consigo abatidos, restando apenas quatro que se mantinham firmes próximos de si.
A frente, as figuras dos inimigos foram surgindo pouco a pouco. E entre eles, havia um que Okoi conhecia muito bem. Mais até do que gostaria.
Assobiando como quem está a chamar um gato, o yokai que emitia tal som, deu um passo à frente dos seus onze companheiros com a cara mais sonsa do universo.
-Estava procurando por você, minha gatinha favorita.
Okoi franziu a testa com ódio ao ouvir aquelas palavras.
-Aoto... —Okoi pronunciou seu nome com desdém evidente segurando firme na bainha da espada.
O yokai imitou um ronronado de um felino prestes a atacar e seus companheiros não puderam evitar cair na gargalhada com ele.
-Okoi! —Aoto falou seu nome apoiando as mãos nos quadris. Olhando-a de cima a baixo, pairou o olhar dentro do dela. —Parece que desamarraram o laço cama-de-gato que tive tanto trabalho em tecer em você. Aqueles laços roxos combinavam com seus olhos! Essa gente não tem um pingo de bom gosto?
-Como se atrevem!? —um dos yokais do Oeste proferiu com irritação evidente.
-Você deve se achar muito engraçado. —Akane falou de forma ríspida a Aoto. —Para alguém que precisa usar truques tão sujos para lutar, fico me perguntando se é só isso mesmo que vocês têm para mostrar.
-Veja só! —Aoto analisou Akane de maneira analítica. —Meio-yokai? Parece que esse lugar é cheio dessa espécie nojenta.
Akane engoliu a seco ao ouvir aquelas palavras. Pois, além dela, o único meio-yokai na região era Yoshiaki.
-O que fizeram com Yoshiaki!? —Akane indagou furiosa apontando a espada ameaçadoramente ao yokai de sorriso prepotente.
-Deveria estar mais preocupada com você, não acha? —ele falou lançando uma careta a Akane. —E, no final, não ficará tanta coisa de pé de todo modo.
Akane estalou a língua em incredulidade pela audácia.
Aoto deu uma risadinha. Apoiando a espada no ombro, esticou a mão na direção de Okoi que continuou a fitá-lo seriamente, sem esmorecer.
-Vou te dar a última chance de voltar por suas próprias pernas. Você sabe bem que as coisas ficarão feias. Prometo que intercederei por você a Ryotaro se me obedecer agora.
Okoi não se deu ao trabalho de respondê-lo, manteve-se na mesma postura de antes. Aquela inércia fez Aoto fechar o semblante e recolher a mão esticada ao ar.
-Se é assim que você quer. Morra com esses idiotas. —ele disse num tom amargurado.
Não foi necessário qualquer aval. Depois da frase mais do que explícita, os yokais escorpiões avançaram com fúria.
Mais uma batalha iniciou-se dentro daqueles túneis rústicos da qual há muitos anos serviam aos feudos do Oeste e Sul com bendita devoção. Mas, ainda que fosse uma passagem segura e que sua estrutura tivesse ganhado roupagens mais resistentes e dignas ao longo dos anos, seria pedir demais para que as galerias aguentassem o duro combate que sem mais nem menos irrompeu numa noite qualquer de um inverno severo.
O metal chocando-se brutalmente pelos quatro cantos bem como o encontro selvagem de diversas energias sinistras foi demais para o alinhado subterrâneo amparar. Em pouco tempo, o teto não tardou a ceder ao ser ricocheteado diversas vezes por forças adversas e em proporcionalidades distintas.
Sendo atingido por mais uma torrente, o teto por fim rendeu-se. O largo buraco aberto permitiu que uma lufada desagradável de vento gélido preenchesse todo o recinto e o abarrotasse de neve fresca.
Mas, diante de tantos movimentos imperiosos, repletos de selvageria, ambos os lados não pareceram se incomodar com o fato de que nevava pesadamente naquela noite tão peculiar.
Akane foi a primeira a saltar para o lado de fora, um dos seus oponentes a havia empurrado para a superfície. Por conta de um golpe certeiro em seu flanco direito, ela não teve alternativa a não ser pular a fim de se proteger de mais uma investida implacável.
Tomando a iniciativa, não obstante, os outros fizeram o mesmo movimento. Submergindo ao tempo arisco, eles não tiveram tempo para contemplarem os cristais de gelo que caíam dos céus sem trégua.
Havia uma desvantagem clara da qual Okoi não poderia negligenciar e, mesmo atirando o fogo desenfreado que habitava em si, ela não pode deixar de fitar Akane de canto e ver nos olhos da outra, ainda que em milésimos de segundo, que a meio-yokai entendia a situação em que se encontravam.
E tudo piorou quando dois dos yokais que estavam consigo foram arrematados pelos inimigos.
Numericamente, naquele ponto da batalha, contava-se dez contra quatro.
Okoi sabia que aquele não era o real problema. A quantidade nunca se sobrepusera a qualidade. Só que ela não podia deixar de considerar que não valia verdadeiramente por um, seu corpo estava longe de ser aquele do passado glorioso da qual esbanjava eloquência sadia e mastreava contra seus oponentes com devida simetria. A escravidão de anos juntamente com a injeção de veneno constante ao longo do tempo danificou drasticamente o seu potencial.
Em contrapartida, Aoto valia por pelo menos seis! Dos yokais mais habilidosos daquele clã, certamente ele só ficava atrás de Ryotaro e empatava com Isamu, seu irmão mais velho.
Okoi já tivera o desprazer em acompanhar o rendimento daquele yokai que tanto a atazanava em vida. Devoto a escorraçá-la na frente dos outros, aquilo não era bem verdade quando se agarrava a oportunidade de estarem a sós para ir até ela como um cachorro sarnento a implorar um afeto da qual a yokai nunca conseguira retribuir.
Então, mesmo que Aoto fizesse questão de vomitar o quanto Okoi não passava de uma escrava problemática da qual rebeldemente fugia de seus domínios, ele não parecia inclinado a castigá-la, pois, caso assim fosse, teria a buscado como principal oponente. Mas, a luta ia acontecendo, e cada vez mais, ele demonstrava desinteresse em atingi-la de alguma forma, preferindo concentrar todas as suas investidas, que não eram simples, nos outros.
Aoto não tardou a escolher Akane como seu bode expiatório. Sendo sincero consigo mesmo, ele já estava um pouco cansado daquela lenga-lenga. Fazia dias desde que percorria o subterrâneo e não poderia dizer que era fã número um daquela empreitada a qual Ryotaro os havia colocado. Como um descendente quase direto, ele também simpatizava com a ideia de trazer o verdadeiro líder do clã dos escorpiões de volta a vida, sendo no caso, o seu idolatrado tio.
Mas, não podia negligenciar que aquela empreitada requeria um tempo e um trabalho muito mais árduo do que um dia imaginara realizar.
E, que ninguém o ouvisse dizer, mas não sabia se o velho valia tanto a pena assim...
Preso naquela perspectiva era melhor acabar com aquele embate de uma vez. Atacaria em sua concepção a mais fraca dos seres, arremataria o restante com os outros e tomaria Okoi de volta para si. Uma matemática simples.
O que ele não contava e que vez ou outra o mundo feudal repleto de novidades teimava em rasgar bem no meio da fuça, é que às vezes as coisas não são bem da maneira que pensamos. E quem era para ser o mais dos mais simples, podia, milagrosamente não o ser.
Aoto deparou-se com isso da pior maneira possível. Atacando Akane como quem quer pisar numa barata, ou seja, sem pensar em técnica ou preocupar-se com a força a ser utilizada, mal podia prever que ela esquivaria mais do que habilmente e o atingiria com um belo de um soco bem no meio do seu peito!
Um soco que tirou o ar dos pulmões num baque de extrema excelência violenta.
Aquilo o fizera arregalar os olhos em estupefação. Porque além de tratar-se de uma meio-yokai, sua aparência ressonava tão inofensiva, com seus um metro e meio de altura e corpo esguio! Ela era até mesmo bonitinha demais para alguém que socava tão forte!
Um golpe e tanto na sua prepotência. Precisaria de pelo menos uma hora de massagem em seu ego para recuperar-se daquela investida tão dura contra si.
Talvez Akane só não tivesse quebrado os seus ossos e fraturado inúmeras das suas costelas por vestir uma armadura tão pesada. Tendo em vista que o material exclusivo trincou teatralmente, aquela possibilidade era mais do que certa.
Não perdendo o ritmo dos seus movimentos, Akane bradou a espada que passou raspando pela cabeça alheia cortando alguns fios de cabelo do adversário com sua lâmina afiada. Aoto não gostou nenhum pouco daquela investida, e por conta disso, não evitou emitir um rosnado animalesco que pareceu nascer de dentro do peito.
Recobrando a seriedade e aceitando o fato de que teria que lutar a sério contra uma meio-yokai franzina, ele tratou de alinhar melhor os golpes e contra-atacar com tudo que podia. Já que Akane não estava para brincadeiras e desferia golpes com sabedoria admirável contra a sua pessoa, não haveria outro caminho a seguir a não ser o mesmo.
Fechando o semblante descontraído, Aoto agarrou o cabo da espada embainhada, sacando-a do receptáculo uma luz amarelada no formato de meia-lua voou furiosamente na direção de Akane que mesmo desviando acabou recebendo as rebarbas do golpe.
Sendo atirada expressivamente para trás, ela teve que dar uma cambalhota no ar para não cair de qualquer jeito ao chão. Mas, recobrando-se, não esperava que Aoto estivesse tão perto de si, e que ele estaria obstinado a devolver-lhe o soco no centro do peito.
Cerrando o punho com ódio, o yokai investiu contra ela que por milésimos de segundos conseguiu segurar o soco na sua mão esquerda. Usando sua força contra a dele, Akane estalou os diversos ossos de Aoto que enfurecido jogou sua cauda sem dó de encontro ao flanco da meio-yokai.
Notando a empreitada, Akane girou o pulso alheio e revolveu pelas costas de Aoto. Concentrando toda a sua força nas pernas, ela cravaria as solas dos sapatos no lombo do yokai. Mas, não contava que com a mesma destreza que a cauda havia sido jogada para frente, voltara num rebote para trás.
Tendo a intenção de atravessá-la com o ferrão pontiagudo, aquilo só não se concretizou porque Akane conseguiu bloquear o ataque com a sua espada, desferindo um golpe que ricocheteou numa sonoridade aguda.
Caindo ao chão de pé, a loira teve que inclinar o corpo totalmente para trás, quase se deitando ao solo gélido, por conta de outra ofensiva. Apoiando a bainha no solo, Akane pegou impulso para frente e disparou uma rajada intensa de energia em desfavor de Aoto.
Ele, por sua vez, rebateu a energia com a própria, e suas forças puderam se chocar no ar num baque poderoso. Anulando-se com o impacto, Aoto não perdeu tempo, usando sua cauda alongada impulsionou-se para cima e empunhando a espada com voracidade chocou-se violentamente contra a de Akane.
Suas energias sinistras chisparam por todo o lado de tal modo que os raios sobressalentes destruíram o que quer que fosse pelo caminho.
Os pés de Akane afundaram duramente no solo, ultrapassaram primeiro a neve e depois o próprio chão rochoso. Aguentar a força de Aoto não estava sendo tarefa fácil. Quando seus joelhos cederam, ela teve que segurar a espada com as duas mãos, e trincando os dentes buscou todo o ímpeto que habitava em si para poder empurrá-lo novamente para trás.
Conseguindo desvencilhar-se dele por uma fração de segundo, Akane o arrematou com um chute feroz no flanco direito que tratou de danificar totalmente a armadura em seu torso que além de quebrar-se não o impediu de sentir boa parte do golpe desferido. Aoto abafou um gemido e, mesmo dolorido, aproveitou do golpe alheio.
Segurando com as duas mãos na perna que Akane usou para chutá-lo, Aoto bradou-a no ar e a bateu violentamente contra o chão. A força fora tanta que uma cavidade nasceu as suas costas, e ela só não caiu novamente dentro dos túneis porque ele não a soltou, e voltou a batê-la pelo menos mais duas vezes contra o solo ocasionando os mesmos rombos que o primeiro.
Tentando a empreitada pela quarta vez, Akane fincou a espada no chão a fim de impedir um novo impacto do seu corpo. Conseguindo estabilizar-se, utilizou a outra perna livre e chutou o corpo do oponente que não teve alternativa senão a soltar.
Observando de soslaio o combate se destrinchando, Okoi sorriu impressionada por assistir a maturação em batalha de Akane. Ainda que estivesse ocupada com os outros adversários que se amontoavam ao seu redor, a yokai dos olhos azuis não conseguiu deixar de espiar entre um golpe e outro o desenvolvimento da antiga aliada do abatido clã Hono.
Enquanto Okoi ponderava que parecia uma sombra de si mesma, Akane despontava com uma habilidade espantosa da qual ela imaginara no passado que a possuidora dos olhos rubis conquistaria se viesse a se dedicar.
Estimulando o fogo que habitava em si, pouco a pouco a sensação de calor a dominava por inteiro. Sentindo que começava a incendiar, Okoi bloqueou um golpe de espada contra seu corpo com a mão esquerda e, pegando na lâmina do opositor, ela sentiu a chama dentro do seu âmago se acender. Num lampejo, estava a incinerar dos pés a cabeça.
Entortando a lâmina afiada do inimigo que a tentara afligir, Okoi a quebrou numa só investida. Sendo pego de surpresa, o yokai bem que tentou revidar com a sua cauda, mas, não conseguindo se organizar a tempo, ela já havia cortado a sua cabeça com a metade da amolada espada que jazia em sua mão. Vindo o segundo em sua direção, ela bastou-se a esticar a mão, e produzindo mais fogo do que se lembrava que era capaz, o afastou com uma combustão potente.
Quando as chamas abaixaram, Okoi pôde ver um ardiloso yokai escorpião esgueirar-se maliciosamente para Akane que se encontrava envolvida na batalha contra Aoto. Abrindo a cauda, a criatura delgada voou a direção da loira.
-AKANE! —Okoi gritou seu nome a fim de chamar a atenção.
Além de chamá-la, Okoi bem que tentou acudi-la, ela atiraria sua espada na direção daquela coisa, mas foi impelida por outro yokai que surgiu a sua frente.
Quando Akane virou-se de costas, o ser venenoso já estava mais do que próximo. Ela conseguiu cortá-lo ao meio, mesmo sabendo que aquilo não passava de uma distração para que o outro pudesse lhe atingir, não teve escolhas se não o fazer. Com o punho erguido, por conta do movimento, o yokai que havia lhe atirado aproveitou-se desse instante para enfiar a espada em seu abdômen.
Já se preparando para receber o golpe, Akane só não contava que uma Zambatou mais do que familiar atravessasse o corpo do aproveitador numa só tacada.
Erguendo os olhos surpresos, a loira teve certeza da sua presença material.
-Yashamaru.
Mas, havendo atirado sua única arma, quem agora tinha a guarda baixa era o yokai dos olhos violetas. Constatando o óbvio, Aoto atirou uma corrente na direção do comandante que ainda estava no ar. Conhecendo bem do que se tratava, aquele utensílio havia os perseguido com constância no passado, sendo usado de maneira desenfreada pelo clã das serpentes. Yashamaru endureceu o cenho, mas sabia que era tarde.
Num estalo, tudo se transformou em tormento.
Assim que a ponta da corrente lhe agarrou o tornozelo, o yokai sentiu esmorecer de imediato e seu poder selou-se como já previra. Sendo puxado grosseiramente por Aoto, Yashamaru ainda conseguiu desviar a espada do oponente de perfurar um dos seus pontos vitais, mas não o impediu de atravessá-lo a carne.
Enfiando a espada com fúria próximo ao coração pulsante, Yashamaru soltou um grunhido com a dor de ter aquele objeto perpassado pelo seu corpo.
-YASHAMARU! —Akane gritou seu nome com aflição.
Aoto sorriu ao ver o sofrimento alheio. Segurando no ombro do Comandante, ele enfiou a espada mais um tanto. Yashamaru torceu o cenho e um pouco de sangue escorreu dos seus lábios.
-Finalmente... —Aoto falou com profundo desdém. —Não imagina quanto tempo esperei para matá-lo.
Yashamaru franziu o cenho sem entender. Não é que se lembrasse de todo mundo que já lutara ao longo da vida, e que gravasse o rosto de todos que um dia causou infortúnio, mas, sentindo o tom de pesar e a amargura tão violenta do outro, pensara que ao menos um vislumbre teria do por que aquele yokai lhe odiar tanto. No entanto, nada veio a mente, e aquele ressentimento desenfreado não lhe fez o menor sentido.
-Aoto! —Okoi chamou o nome do yokai com seriedade e sem titubear o timbre.
Aoto voltou-se para ela sem qualquer emoção, com os olhos sombrios.
-Agora você quer conversar... Sinto dizer que agora é muito tarde.
O coração de Akane parou por um minuto. Não conseguiria salvá-lo, tinha certeza. Estava há uma distância considerável e se viesse a atacar Aoto, teria que atingir primeiro Yashamaru, tendo em vista que ele estava postado bem na frente do corpo do yokai escorpião. Preste a desfalecer, as lágrimas aglutinaram nos olhos tão vermelhos quanto o sangue que jorrava do corpo do yokai que tanto amava.
Yashamaru virou o rosto na direção dela e olhando-a de canto conseguiu erguer os lábios num sorriso sanguinolento.
Akane não conseguiu nem mesmo respirar.
Aquele seria o último movimento de Yashamaru em vida, pois segurando com a maior das firmezas e certezas o cabo da espada, Aoto o dilaceraria por inteiro com um único golpe.
Mas, pela segunda vez, o dia surpreendera aquela yokai escorpião negativamente.
Sem qualquer chance de defesa, um machado elegante preso a duras correntes cortou o ar e decepou a cabeça de Aoto numa investida mais do que habilidosa!
Sangue azul voou para todo lado, e demorou um tempo até que o corpo, ganhando a consciência de que não havia uma cabeça no topo, finalmente esmorecesse e caísse ao chão num baque desastrado e pesado.
Todos do ambiente abriram a boca e trilhando com os olhos o caminho que o machado tomou de volta, puderam ver com muita estupefação quem era o dono do golpe.
-RÁ! E não é que você soube usar o meu machado! —Souichiro disse impressionado a Yoshiaki, dando uma risada de empolgação que doeu dentro de si o fazendo se retesar mais uma vez. —AHN! Porra!
-É claro que eu sei. —Yoshiaki falou seriamente ajeitando o braço de Souichiro em volta do seu pescoço. —E pare de se agitar, só vai se sentir pior.
-Hm...
Yashamaru caiu sentado na neve ainda com a espada atravessada em seu peito. Passado o baque, tanto Akane quanto Okoi correram na sua direção. Entretanto, Okoi parou no meio do caminho ao ver Akane o abraçando lateralmente. Por um minuto, havia esquecido que aquela parte já não a cabia mais...
-Yashamaru! —Akane olhou da espada presa no torso alheio para os olhos violetas.
-Estou bem. —ele falou de forma tranquila, tentando a acalmar. —Preciso que tire a corrente presa ao meu tornozelo. Está sugando minhas forças.
Akane assentiu com urgência e voou com suas mãos para a corrente repleta de encantamentos da qual torturou por tantos anos Okoi e os demais do clã do fogo. Quebrando com as próprias mãos, como se fosse um galho frágil, aquilo se despedaçou em vários fragmentos.
Sendo libertado, Yashamaru pôde sentir a energia fluir novamente pelo seu corpo. Respirando aliviado, o comandante puxou a espada atravessada no peito de uma só vez, a retirando de si numa única investida.
-Quase morreu por minha causa... —Akane falou com os olhos marejados e a voz embargada enquanto segurava no braço de Yashamaru.
-Para salvá-la, não poderia desejar uma morte mais feliz. —Yashamaru disse colocando a mão no rosto de Akane, segurando em seu perfil com devoção. —Eu amo você, Akane.
Aquelas eram palavras que Akane estava acostumada a ouvir. Ao longo dos anos, Yashamaru sempre as disse não importando se estavam a sós ou não. Ele não recuava em dizê-las. Nunca. Mas, ouvi-lo pronunciar naquele momento e exibindo tanta certeza no tom, sem oscilar ou ponderar a respeito, foi como respirar depois de quase sufocar-se em agonia.
Recostando a testa na de Yashamaru, Akane sorriu e passou a mão carinhosamente pelos cabelos negros que pendiam pelos ombros.
-Eu também amo você.
Okoi respirou fundo ao ver a cena. Mesmo que em seu âmago uma parte estivesse entristecida por perder Yashamaru mais uma vez na vida, a outra agradecia por vê-lo vivo e ao lado de alguém que reconhecia ser digna do amor daquele yokai tão probo.
Desviando o olhar, ela viu a cabeça de Aoto próxima aos seus pés. E, encarando os olhos esbugalhados daquele ser, não soube dizer o que de fato sentia. Se era pena, ressentimento, ódio ou tudo junto. Fato é que dentre todas as coisas que poderiam lhe acometer, uma delas certamente era o alívio.
Quando os dois últimos yokais escorpiões foram mortos, respectivamente, por um dos soldados do Oeste e por outra investida certeira de Yoshiaki com o machado emprestado, tudo de repente ficou calmo.
Akane tentou ajudar Yashamaru a erguer-se, mas ele mesmo o fez. Pondo-se de pé, sua ferida aberta já ia se fechando sozinha e o calor do seu corpo já retomava a temperatura da qual ela estava acostumada.
Eles então voltaram à atenção para Yoshiaki que vinha se aproximando com Souichiro pendurado em seus ombros com uma cara nada sadia.
Bastaram três passos para tudo ruir mais uma vez.
Pois, num baque violento, dois yokais bestiais gigantescos que possuíam a forma de um escorpião emergiram do solo. Espalhando rocha e neve para todos os lados, abriram uma cratera severa entre os dois grupos, separando Yoshiaki e Souichiro dos outros.
Só depois de passado o susto que puderam notar a presença de outro yokai escorpião, sendo este de forma humana, que estava de pé nas costas do monstrengo com os braços cruzados e uma tez pouco amistosa.
-Ryotaro. —Okoi disse ao reconhecê-lo.
-Então é esse... —Yashamaru olhou para Okoi que somente assentiu de volta a ele.
Ryotaro fitou Okoi com desprezo, mas não manteve os olhos nela, e sim na cabeça de Aoto jogada de qualquer maneira no solo gelado. Saltando das costas do yokai bestial, o líder do clã parou há alguns passos de Yoshiaki e Souichiro.
Souichiro não estava mentindo quanto à aparência de Ryotaro. Quando Yoshiaki repousou seus olhos sobre o dito cujo, ele até ponderou que o senhor feudal tinha sido modesto em chamá-lo de feio. Aquela carranca era mesmo digna de ser rechaçada.
O rosto quadrangular daquele yokai, de certo, não ajudava a esbanjar uma beleza digna de ser lembrada positivamente bem como as sobrancelhas grossas e bagunçadas. Seus olhos negros pequeninos exibiam uma aura mórbida que cintilavam sinistramente por trás de uma cortina de cílios exageradamente alongadas e douradas, assim como a cabelereira que pendia por toda as costas.
Ryotaro olhou primeiramente para Souichiro com um semblante sério quase indecifrável.
-Então nos encontramos de novo. —Ryotaro disse com a voz metálica, sem qualquer abalo no timbre. —Mas, dessa vez, parece que você não está muito inclinado a sorrir.
Souichiro estalou a língua contrariado.
Ryotaro moveu o olhar para Yoshiaki por alguns segundos, mas não se demorando nele voltou a Souichiro com o cenho franzido.
-E ainda por cima precisa de uma escória como essas para se manter de pé. Lamentável... No entanto, devo admitir que estou impressionado que o veneno não o tenha matado.
Ao ponto que Yoshiaki ignorou o fato de ter sido chamado na cara dura de escória, tendo em vista que esses adjetivo já lhe eram tão batidos e não conseguiam mais o atingir verdadeiramente, Souichiro não pareceu muito contente em ouvir o outro dizer aquilo do meio-yokai que estava a acudi-lo por todo aquele percurso.
-Hm! Essa escória a quem está se referindo acabou de colocar um monte de yokai do seu clãzinho de merda para chorar. —Souichiro ralhou a ele pesadamente.
Yoshiaki arregalou os olhos mais do que surpreso. Souichiro estava mesmo o defendendo? Não havia dúvidas de que a febre do yokai pendurado a si deveria estar altíssima a ponto de fazê-lo delirar por tomar tal atitude.
Ryotaro não escondeu a insatisfação ao ouvir aquelas palavras desrespeitosas a seu clã, mas Souichiro não o deu tempo de rebater, pois continuou a falar com a audácia que lhe cabia.
-E sobre essa tática suja do veneno, quem pensa que eu sou? Não morro assim tão fácil.
-Veremos o quanto consegue aguentar. —Ryotaro falou secamente. —Não perderei meu tempo com alguém que já está morto.
-Se veio aqui para lutar, então não percamos tempo com esse diálogo enfadonho. —Yoshiaki falou rispidamente, sem muita paciência para o desenrolar daquela conversa.
Ryotaro franziu o cenho.
Num segundo tratou de desembainhar a espada presa a cintura.
-Hoje é seu dia de sorte. Não pretendo matá-lo. —Ryotaro falou empunhando a espada seguramente. —Mas, preciso levá-lo comigo.
-Se acha que pode me usar para atingir meu pai sinto estragar seus planos. Mesmo que consiga me abater, meu pai jamais cederia a qualquer chantagem.
-É o que veremos, meio-yokai.
-Que seja então.
Dobrando os joelhos, Yoshiaki tirou o braço de Souichiro que estava em volta ao seu pescoço. Quase livrando-se do corpo alheio preso ao seu, o senhor feudal o impediu por um segundo.
-Yoshiaki! —Souichiro o chamou. Segurando-o pelo braço com os olhos duros, repletos de seriedade, prosseguiu. —Ele não é como os outros. Não deveria lutar contra ele sozinho.
-Qual escolha que eu tenho? —Yoshiaki indagou a ele com a mesma seriedade. Mas, não tardou a deixar um sorriso comedido escapar dos lábios. —Que bom que finalmente aprendeu a se referir a mim pelo meu nome.
Souichiro sentiu outra vez aquela coisa estranha se remexendo em seu interior. Dessa vez, não a ignorou, somente a aceitou. Independentemente do que fosse aquele sentimento, sabia que não poderia lutar contra as próprias emoções, e nem pretendia. Por isso, ele bastou-se a assentir ao meio-yokai.
Mesmo sabendo que as chances estavam contra Yoshiaki, ele tinha razão quanto a dizer que não haveria outra escolha senão aquela. Tendo em vista que Souichiro estava mais moribundo do que nunca e que da cratera onde saíra Ryotaro e os yokais bestiais outros com forma humana também apareceram, pelo menos seis! Certamente aquilo impediria os demais de intervirem na situação...
Yoshiaki deixou Souichiro sentado no canto. Dando dois passos para frente, desembainhou a espada presa as suas costas com a tez rígida e com os olhos inabaláveis. Uma postura que Ryotaro teve de consentir como sendo minimamente decente.
Sem trocar quaisquer palavras, Yoshiaki avançou para Ryotaro. Bradando sua espada no ar, o meio-yokai disparou duas esferas vermelhas de energia da qual o líder do clã bastou-se a desviar da primeira com maestria e ricochetear a outra com sua própria torrente interior.
Yoshiaki esquivou do resquício das suas energias que se chocaram teatralmente e cortando o ar com seu punho esquerdo, bateu com força no abdômen alheio. Ryotaro voou para trás com o golpe abrupto, tendo que agachar-se um pouco a fim de encostar a mão direita no solo para que não caísse de costas ao chão.
Lançando mais esferas de energia com sua espada, Ryotaro as bloqueou habilmente com sua cauda mais longa e aparentemente mais rígida do que a dos outros yokais do seu clã. Sem recuar mais nenhum passo, deixou que Yoshiaki se aproximasse de si. Segurando outro soco que o platinado montara, Ryotaro virou sua mão sem dificuldade e pelos estalos que seus ossos fizeram Yoshiaki podia jurar que ele os havia quebrado.
Rangendo os dentes com a dor, o yokai escorpião não lhe dera chances para se recompor, invés disso o atingiu severamente com sequências de socos violentos em todo o torso. Yoshiaki piscou forte com a sucessão dos golpes mordazes em seu corpo e sem conseguir controlar, deixou um bocado de sangue escapar dos lábios, tingindo além do queixo o pescoço com seu próprio líquido rubro.
Não terminando com suas investidas, Ryotaro ainda conseguiu resvalar a espada no peito de Yoshiaki, que só não teve uma ferida mais profunda porque conseguira se soltar a tempo dos domínios do outro, dando uma cambalhota para trás.
Montando novamente a postura de luta, Ryotaro não conseguiu esconder que estava um tanto impressionado por aquela criatura ainda estar de pé.
-Sua resistência é mesmo uma das melhores. Pena que a técnica não a acompanhe.
Yoshiaki franziu a testa com ódio.
Não se permitindo esmorecer, voou novamente para cima de Ryotaro que sorriu maldosamente. Evadindo-se dos golpes alinhados de Yoshiaki, aquele yokai parecia ter cansado de brincar com o oponente, e, sem mais perder tempo, segurou-o pelo topo da cabeça com muita força.
Yoshiaki arregalou os olhos com a pressão que o outro exercia dentro do seu crânio. Uma mancha preta perpassou por suas vistas nebulando seus olhos âmbares imperativamente. Sem dar chances para recuperação, Ryotaro envolveu seus cinco dedos no pescoço de Yoshiaki, curvando-se numa esganadura mais do que perfeita. Apertando-o sem dó, ele o jogou contra o chão com tudo, e Yoshiaki podia jurar que todos os ossos do seu corpo haviam se partido com aquele movimento tão enérgico.
-Que merda! YOSHIAKI! —Akane gritou o meio-yokai do outro lado do campo de batalha, e por mais que socasse desenfreadamente os adversários, eles pareciam infinitos.
Yashamaru, em igualdade, sofria do mesmo infortúnio. Toda vez que tentava se aproximar, algo o puxava para trás e o impedia de prosseguir adiante. Então, a única coisa que conseguia fazer era gritar o nome daquele que vira crescer.
-YOSHIAKI!
Grunhindo de maneira abafada, o meio-yokai segurou no pulso do outro, tentando se libertar dos dedos envoltos do seu pescoço tal como rochas imóveis.
Sangue escorria dos cantos dos seus olhos, e ainda assim, ele mantinha a consciência, negando-se a esmorecer.
O líder dos escorpiões soltou uma risada alta ao vê-lo resistir abaixo de si.
-Não entende que é inútil? —Ryotaro disse apertando o pescoço alheio mais um tanto.
Tentando erguer a mão direita da qual ainda segurava a espada, Yoshiaki sabia bem que havia poucas chances de sair daquela situação, mas que valia a tentativa de um último golpe.
Reunindo suas forças no punho direito, não conseguiu desferir sobre Ryotaro, pois, um machado voou em suas direções de maneira desalinhada. O yokai escorpião não fez muito esforço para bloqueá-lo, com a outra mão livre o zuniu para longe e fitou Souichiro furiosamente por atrapalhá-lo.
O senhor feudal respirou pesadamente, e não tendo forças para trazer a arma de volta e tampouco para segurar a si mesmo, um dos seus joelhos cedeu, fazendo-o ir de encontro ao chão num arfar mais do que denso.
Não gostando nada daquilo, Ryotaro lançou uma bola de energia na direção de Souichiro que sabia bem que não teria tempo para escapar. Pronto para receber o ataque, ele cerrou os olhos na espera do golpe que acabaria de enterrá-lo.
O que não contava, era que Yoshiaki, utilizando de suas últimas forças, atiraria a espada na direção da energia cruel, e com isso, a dividiria em dois!
Sendo cortada ao meio, o golpe passou raspando pelos flancos de Souichiro que assim como Ryotaro arregalou os olhos com surpresa.
Salvo pela milésima vez naquele dia!
Souichiro não podia se sentir mais miserável.
-TSC! Chega de brincadeiras! —o líder escorpião praguejou.
Ryotaro enrolou o corpo enfraquecido de Yoshiaki com a sua cauda, sem conseguir se mexer, estando envolto aquela musculatura rigorosa, o meio-yokai não pôde deixar de ranger os dentes outra vez ao senti-lo esmagar até o último fio do seu cabelo.
Sem mais perder tempo, pulou para dentro do buraco da qual veio, levando Yoshiaki consigo.
...
-Eles chegaram. —Sesshoumaru disse subitamente.
Rin, que estava ao seu lado no jardim do castelo, não havia entendido de imediato, pois, olhando na mesma direção que o senhor feudal, a princípio, nada de diferente tinha sido capturado pelos seus olhos.
Mesmo que tentasse vislumbrar por mais tempo, Sesshoumaru não teria lhe dado oportunidade. Posto que, assim que havia terminado de pronunciar a frase, o yokai já a tinha agarrado pela cintura e saltado com ela para cima do telhado do castelo.
Como se fosse ensaiado, bombas de gás venenoso atingiram todo o jardim encoberto pela neve, e não tardou para que uma neblina densa dominasse o perímetro causando uma nova onda de agitação no feudo.
-Estão nos atacando! —Rin falou com o timbre mais do que surpreso, afinal, fazia longínquos anos, precisamente desde os tempos de Shinichiro, que ninguém tivera a ousadia de invadir o Oeste com tamanha decisão.
-Pelo visto cercaram a todos. —Sesshoumaru falou sem abalo no tom.
Flechas pontiagudas rasgaram os céus e levantaram mais ainda a fumaça venenosa que se espalhava perigosamente no terreno. Bloqueando a investida com suas garras, ele não mais hesitou e pôs-se a abrir um buraco amplo no telhado utilizando somente o seu punho. Pegando Rin pelo colo, a mulher deixou um espasmo surpreso escapar dos lábios pela velocidade de Sesshoumaru que saltou com ela para o interior do castelo.
Seus pés tocaram no piso lustroso com perfeição. Rin nem sentira o mínimo de impacto quando as solas dos sapatos do majestoso yokai encontraram-se com a madeira bem tratada.
Devolvendo-a ao chão gentilmente, Sesshoumaru a fitou com seriedade.
-Esse yokai não irá parar. Tenho que acabar com isso.
-Acha que ele já está aqui?
-Não. Está querendo nos cansar primeiro.
-O que faremos? Como será que os outros estão?
Sesshoumaru não teve tempo de responder a essas e mais outras perguntas que possivelmente a mulher faria. Pois, uma voz esganiçada da qual ambos conheciam bem recortou o cômodo numa agitação inerente a sua personalidade tão enérgica.
-Senhor Sesshoumaru! Senhor Sesshoumaru!
Jaken vinha vindo esbaforido pelos corredores agarrado ao seu bastão de duas cabeças, e só parou de correr quando finalmente os alcançou. Estando há passos de distância, ele colocou as mãos nos joelhos exibindo o cansaço e a respiração pesada que o assomava.
-Senhor Jaken. O senhor está bem? —Rin indagou colocando a mão no ombro alheio.
-Eles estão por toda parte! —Jaken disse fitando ora Rin ora Sesshoumaru. —Tetsuo está tentando os conter no jardim, mas a coisa está ficando feia lá embaixo. Aquela tal de Okoi não estava brincando quando disse que o veneno desses yokais é mesmo terrível! Por pouco uma daquelas coisas não me pegou!
-Não fale isso nem brincando. —Rin disse dando um longo suspiro pesaroso. —Que bom que nada aconteceu com o senhor, senhor Jaken.
-Jaken, não saia com Rin daqui de dentro. —Sesshoumaru disse num tom metálico, e aquela frase soou mais como uma ordem do que um pedido.
-Sim, senhor Sesshoumaru! —Jaken assentiu com um misto de concordância e de alívio.
Sesshoumaru mal conseguira dar um passo adiante, porque no mesmo segundo Rin já o havia segurado pelo kimono com os olhos aflitos e agitados.
-Tome cuidado. —ela disse com o tom preocupado, sem soltá-lo.
Vendo-a tão aturdida, Sesshoumaru passou a mão nos cabelos da esposa. Segurando suavemente em seu queixo, ele a fitou seriamente.
-Fique aqui, Rin.
Rin engoliu a seco. Havia algo maligno bailando pelo ar. Ainda que não soubesse verdadeiramente do que se tratava, podia sentir claramente.
Desvencilhando da mulher dos longos cabelos negros, Sesshoumaru deu-lhe as costas e num salto certeiro pulou de volta para o teto da qual anteriormente havia arrebentado com um golpe sutil.
-Rin. —Jaken chamou a atenção de Rin que fitava o teto por onde Sesshoumaru saíra.
-O que foi? —ela indagou ao yokai sapo voltando seus olhos para ele.
-É melhor adentrarmos mais no castelo, Rin. Estará protegida lá.
-Mas...
-Sei que está preocupada com o senhor Sesshoumaru e com os outros, mas o melhor que podemos fazer é não nos metermos em confusão. E, além do mais, você conhece bem o senhor Sesshoumaru. Não há algo que ele não possa realmente fazer.
Rin respirou profundamente.
Mesmo a contragosto, sabia que não havia algo que pudesse agregar naquela batalha. Dando-se por vencida, assentiu a Jaken que se pôs a caminhar a sua frente. E nunca seus passos foram tão dolorosos quanto aqueles.
...
Havia muita coisa que se discursava no mundo feudal. Das fofocas mais obliterantes desde as certezas constitutivas, existiam coisas das quais se discutia com veemência e outras que ninguém ousava a retrucar por não ter qualquer argumento sólido contrário ao óbvio.
Uma das coisas inexoráveis, de certo, dizia respeito a grandeza do senhor feudal das terras do Oeste.
Então, quando algum clã ou feudo menor tinha a remota ideia de encrencar com Sesshoumaru, não era de se admirar que a pretensão ficasse resguardada somente no plano idealista. Pois, não era novidade para ninguém e tampouco deixavam-se de comentar pelos quatro cantos do mundo sobre as inúmeras batalhas que aquele yokai já havia travado e vencido sem esforço.
Mas, mesmo que as histórias o pintassem como um dos maiores yokais que já haviam visto na face da terra, ainda assim, estar frente a frente com aquele ser de longos cabelos prateados e olhos dourados era completamente diferente.
Quando Sesshoumaru pisou no jardim e sua imagem foi surgindo gradativamente por entre a neblina inconveniente de uma fumaça peçonhenta, sendo oponente ou aliado, era impossível não o olhar de canto. Pois, ver aquele yokai adentrando o campo de batalha causava uma expectativa lancinante em quem quer que seja.
Com uma tez impassível, ele não sacou Bakusaiga inicialmente. Desviando dos golpes dos opositores corajosos com velocidade assombrosa, ao resolver atacar utilizando somente as suas garras, ele pôde observar no semblante dos diversos oponentes o assombro nada surpreendente daqueles que insistiam em tirar-lhe a paz.
Sesshoumaru partiu em disparada para cima e só com a movimentação do seu corpo veloz boa parte da névoa soprou na direção contrária, elucidando finalmente a silhueta dos inimigos que àquela altura tentavam se manter firmes diante da magnificência do seu ser tão impiedoso.
Como o vento cortante, ele dilacerava os adversários sem demonstrar qualquer dificuldade. Atingindo pelo menos cinco numa só investida, Sesshoumaru saltou, e utilizando seu chicote de energia sinistra golpeou mais dois que tentaram lhe atingir com suas caudas furiosas. Não perdendo o embalo do golpe feroz, ainda no ar, ele perpassou seus corpos e cada vez mais o sangue azul empapava suas mãos letais.
Caindo de pé, mais quatro yokais tentaram o golpear pelos flancos, então, sacando pela primeira vez Bakusaiga, Sesshoumaru emitiu uma luz azulada da ponta da espada de onde todo seu poder perpassou de maneira atroz os corpos daqueles yokais tão insolentes que desapareceram no ar como se nunca houvessem existido.
Os yokais escorpiões se organizaram, e de uma só vez, mais de dez soldados dispararam as criaturas venenosas em sua direção. Sem se dar o trabalho de desviar, alguns deles fixaram-se em sua pele ávida. Olhando com desinteresse aqueles seres que teimavam em empurrar-lhe veneno por suas veias, Sesshoumaru os puxou num único golpe, livrando seu corpo daquele ataque que não reverberou em absolutamente nada.
-Patético. —Sesshoumaru falou em tom ríspido aos inimigos a sua frente que não conseguiam acreditar que o veneno tão atroz não fora capaz de causar um único arranhão no senhor feudal.
Empunhando mais uma vez Bakusaiga, os olhos de Sesshoumaru cintilaram uma aura perversa.
-Minha vez.
Bradando a espada letal contra o ar, uma poderosa energia sinistra engoliu dezenas de yokais a sua frente. Tudo de repente foi tingido de azul, e aquela luz visceral que veio a matar quem quer que estivesse a sua frente também foi capaz de cegar temporariamente quem a fitasse.
Tetsuo, que estava próximo, não conseguiu deixar de entreabrir os lábios parcialmente expostos ao ver a destruição que Bakusaiga havia deixado. Alastrando-se como o fogo do inferno, aquela arma merecia verdadeiramente todos os louros das quais esbanjava pelas bocas alheias.
Mentalmente, só pôde agradecer por nunca na vida ter precisado travar uma batalha contra aquele yokai. Pois, depois do que vira, não sabia efetivamente dizer se a terra aguentaria um embate do Oeste contra o Sul.
Só quando os pedaços restantes dos corpos mutilados foram assentando no solo resfriado pela neve intensa e a fumaça espessa de antes foi se dissipando que Sesshoumaru pôde vê-lo se aproximando.
O senhor feudal franziu o cenho duramente ao presenciar aquela cena.
-Líder! —os yokais escorpião o chamaram em uníssono ao vê-lo surgir.
Batendo palmas de forma monótona, Ryotaro apareceu no jardim que estava mais para campo de guerra.
Logicamente, os olhos de Sesshoumaru não fixaram nele por muito tempo, afinal, ele trazia consigo, preso em sua enorme e mortal cauda, Yoshiaki, que jazia desacordado sob os domínios daquele ser abominável.
-Essa é uma espada e tanto. —Ryotaro disse a Sesshoumaru com empolgação evidente. —Com uma dessas, por que querer a outra?
-Achei que não apareceria nunca. —Sesshoumaru falou a ele sem titubear.
-Estive um pouco ocupado, como pode perceber. —Ryotaro sorriu de maneira audaz e erguendo mais um pouco a cauda, exibiu Yoshiaki como um troféu e também como um escudo, já que o postara bem na frente do próprio corpo. —Esse seu filho é mesmo uma criatura peculiar.
-Se seu plano é barganhar Tenseiga por Yoshiaki, devo dizê-lo que está perdendo o seu tempo. Este Sesshoumaru não é suscetível a chantagens.
-Hm! Ele disse isso também. —Ryotaro cruzou os braços, balançando a cabeça em negativa, deu um sorriso de canto. —Mas, que coração mais duro esse o seu, senhor do Oeste. Esse filho não vale mesmo nada?
-Se o destino de Yoshiaki for morrer por suas mãos, só poderei lamentar por uma morte tão ridícula e sem propósito.
-Certo. —Ryotaro disse assentindo. —Então, tudo bem se eu o torturar só um pouquinho, não é? Já que não se importa...
Ryotaro apertou Yoshiaki com a sua cauda mais uma vez e de maneira tão intensa que o meio-yokai voltou a si em um despertar mais do que pungente. Sentindo todos seus ossos estalarem alto, grunhiu em agonia dolorosa.
Sesshoumaru franziu a testa, e seus olhos encontraram-se com os do filho mais uma vez naquela vida.
Foi inevitável não pensar no passado...
Lembrou-se nitidamente do quanto aquela criança era barulhenta! Yoshiaki mal permitia que qualquer um ouvisse seus próprios pensamentos. Ele postava-se a tagarelar sem qualquer pretensão de parar, emendando quase que perdendo o fôlego um assunto banal dentro do outro.
Por mais que aquilo fosse irritante, Sesshoumaru não podia deixar de admitir que sentia falta daquela parte um tanto esquecida. E que, quando o castelo voltara a ficar silencioso por tanta ausência e pelo crescimento repentino, não podia deixar de pensar em como aqueles tempos eram luminosos e alegres.
Depois de tantos anos, Yoshiaki voltava a berrar. Mas, não era de alegria e tampouco satisfazia aquele senhor feudal de semblante impassível.
...
-Yoshiaki. —Rin disse repentinamente o nome do filho, parando de andar de imediato.
Jaken não havia notado a presença do meio-yokai no castelo até Rin tê-lo pronunciado. Estava tão entretido em manter a mulher em segurança que aquilo acabou passando despercebido.
-Como soube que Yoshiaki chegou? —Jaken coçou a nuca um pouco surpreso pela percepção de Rin, afinal, estavam praticamente nos fundos e de lá não se dava para ouvir quase nada.
-Há alguma coisa acontecendo... —Rin disse colocando a mão no peito em aflição. Seus olhos tremeluziram ao ponto que algo remexia em seu interior.
-Nem pense em...
Jaken não conseguiu terminar a frase, pois, num estalo frenético, Rin já estava correndo na outra direção, a caminho do jardim.
-RIN! RIN! VOLTE AQUI! RIN!
Vendo Rin sumir pelo corredor, Jaken respirou profundamente. Tendo ciência de que seus apelos seriam em vão, colocou as mãos nos quadris e balançou a cabeça em negativa.
-Por que é que nunca me escuta?
...
Ao longo da vida, Yoshiaki pensara que já havia sentido todo e qualquer tipo de dor. Quando pequeno, embrenhando-se por entre a mata e perturbando os outros sem nenhuma distinção, não admirava que voltasse com um braço, perna ou várias partes do corpo quebradas ao mesmo tempo.
No início, ele chorava torrencialmente por ter se dado mal em sua empreitada, e buscava acalento no colo da mãe, que sempre paciente e atenciosa, dava-lhe um afago carinhoso antes de cuidar de mais um ferimento ocasionado por uma traquinagem.
Com o tempo, Yoshiaki não derramava uma única lágrima. Invés disso, na adolescência, passava a rir de todo e qualquer ferimento que seu corpo adquirisse. Kenji que o diga! Tendo em vista que aquele yokai havia sido o escolhido para escorraçá-lo de forma quase masoquista em treinamentos sérios demais para um ser de tão pouca idade.
Mas, nem se juntasse todas as dores que sentira ao longo da vida, nem de perto, aquelas se comparariam com a que ele experimentava naquela noite fatídica. Pela primeira vez, desejou que seu corpo não fosse tão teimoso. Colocando tanto sangue pela boca, ele imaginava que não faltava muito mais para morrer.
A humilhação de morrer daquele jeito, já não importava mais. Os olhos de seu pai, o fitando em expectativa, também não.
Ele só queria se agarrar ao silêncio e a escuridão inevitável. Aquilo bastaria.
Sesshoumaru notou, e talvez por isso tenha dado involuntariamente um passo à frente e segurado o cabo de Bakusaiga com força.
Ryotaro sorriu ao ver os nós sobressalentes dos dedos alheios em volta a espada.
Mas, quando tudo parecia perdido, e já preste a render-se, Yoshiaki identificou um sibilo. Um assobio agudo que teve a certeza que emanava de dentro de si. Aquele som que começara discreto, quase parecendo ser fruto da sua imaginação, de repente, passava a aumentar cada vez mais...
E mais!
Até o ponto de soar ensurdecedor. De tal modo que o fizera negligenciar toda e qualquer dor que sentia.
Seu corpo adormeceu instantaneamente.
A respiração antes pesada e agonizante deu lugar a uma quase inexistente. Sua cabeça pendeu para frente de forma abrupta.
Os que o observavam, ponderaram se o meio-yokai não havia morrido. Jazendo ali só um corpo a dar espasmos finais de uma morte tortuosa.
De encontro a todos os pensamentos e reflexões, Sesshoumaru sabia do que se tratava. Não era a primeira vez que seus olhos testemunhariam e perguntava-se se não seria a última. Por um lado, aliviava-se, por outro, imaginava o desafio que teriam ainda pela frente...
O vento de repente mudou a direção e ninguém soube dizer por alguns instantes se o arrepio que assomavam seus corpos era por conta da friagem categórica de um inverno rigoroso ou se devia por uma energia sinistra que crescia paulatinamente de maneira mais do que misteriosa.
Um rosnado animalesco e repleto de fúria pôde ser ouvido, mesmo ao longe.
Embora estivesse incrédulo, Ryotaro sabia de onde aquilo vinha.
Não se demorando, exerceu mais força no corpo de Yoshiaki que já não respondia mais as suas investidas.
-Vamos ver se consegue segurá-lo agora. —Sesshoumaru disse a Ryotaro seriamente.
Quando a cabeça de Yoshiaki se ergueu novamente não retumbava mais a imagem elegante e bela de um meio-yokai repleto de encantos físicos. No lugar, habitava uma face ameaçadora, onde suas órbitas vermelhas e os caninos afiados transmitiam uma nuance genuinamente ameaçadora, bem como as marcas arroxeadas nas maçãs do rosto e uma sutil mecha rubra na franja.
Progressivamente a cauda de Ryotaro ia afrouxando no corpo daquele ser que rosnava imperiosamente com fúria amargurada. Não adiantava o quanto tentasse, a extensão do seu corpo não o obedecia. E, com um grito atroz, Yoshiaki conseguiu se soltar finalmente dos domínios daquele yokai inescrupuloso.
Tão surpreso quanto Ryotaro, estavam os outros yokais. Como sendo um aval para a batalha voltar a acontecer, o caos retomou no coração do jardim.
...
Havia muita ira nos movimentos de Yoshiaki.
Uma inclinação assassina da qual Ryotaro não imaginava encontrar sob uma roupagem tão modesta.
Se antes o líder dos yokais escorpiões havia ponderado e dito em alto e bom tom que a técnica de Yoshiaki era uma bagunça horrorosa, agora ela se apresentava pior do que qualquer uma já vista na sua longa existência. Porque, ele simplesmente golpeava sem qualquer precisão ou lógica, e muito menos importava-se com sua própria carne sendo lanceada largamente. No entanto, ainda que a metodologia nada aprazível e pouco elegante se agitasse entre seu combate nada convencional, aquilo não era nem de longe algo a ser comemorado. Posto que, aquela criatura que demonstrava não sentir medo, dor e nem ao menos cansava-se, estava o encurralando perigosamente.
Ryotaro jamais pensara que em algum momento na sua vida lutaria contra um indivíduo que nem sequer possuía uma mísera arma empunhada e que este, por sua vez, lhe causaria tanto infortúnio! Aquilo parecia uma piada de mal grado, afinal, ele não era um yokai qualquer, disso tinha a mais pura ciência. E não porque seu ego gritava e o impulsionava a ser maior do que realmente era, e sim porque a constatação comunicava-se com a mais pura verdade!
E, ainda assim, estava tendo que bloquear golpes tão mortais, utilizando sua espada, contra unicamente garras!
Yoshiaki agarrou um de seus ombros, e com as faces próximas, Ryotaro pôde identificar que aquele garoto ficava com a tez cada vez mais obscura, se é que isso ainda era possível.
Tentando se libertar dos seus domínios, o meio-yokai o impediu e exerceu mais força com a mão. O som de ossos trincando legitimaram a envergadura da face nada bela do líder que lhe deu um soco mais do que pesado no abdômen. Sem nem se mexer do lugar, botando para fora um pouco de sangue dos lábios, Yoshiaki continuou a empreitada, e puxando para baixo com todo ímpeto deslocou primeiramente o braço do outro. Um som de crac! atrás do outro! Dedicado a quebrar pedaço por pedaço, não importando quantos golpes eram arremetidos contra si, Yoshiaki pareceu dar-se por satisfeito com a dor alheia e, sem pensar em parar, puxou sem dó o braço com uma risada fria.
Ryotaro não pôde deixar de abrir a boca ao ver seu membro ser decepado unicamente por mãos. O sangue azul esguichou na face alheia, bem como nas roupas pretas que àquela altura possuía inúmeros rasgos.
Sendo assomado por um golpe tão visceral quanto aquele, Ryotaro tentou não se abater, bradando a espada poderosa, desferiu inúmeros golpes contra Yoshiaki que, apesar de sangrar, não recuou um só passo. O cheiro de carne queimada assim como do odor metálico do próprio sangue fora incapaz de intimidá-lo. Atacando-o mais uma vez, Yoshiaki ultrapassou sua armadura tracejando um ferimento profundo no peito daquele yokai vociferante.
Retraindo-se pela dor e pela selvageria dos golpes, Ryotaro tentou atacá-lo novamente com a sua cauda, mas dessa vez Yoshiaki fora mais veloz.
Aquilo era mesmo uma luta? Ou seria um massacre?
Vendo a expressão de Yoshiaki, Ryotaro temeu que isso nunca tivesse fim. Mas, o que poderia fazer senão contra-atacar de novo e de novo e de novo? Mandando mais de dez golpes ágeis na direção do meio-yokai, Yoshiaki reacendia em vantagem explícita rosnando cada vez mais alto e ameaçadoramente.
Os movimentos do yokai escorpião remontavam excelência hábil aos olhos de qualquer um que fitasse o embate. Mas, as vistas de Yoshiaki, aquelas investidas eram sempre um pouco mais lentas do que as suas. Então, dando a entender de que aquela luta o satisfazia, não deixou de esboçar um sorriso maligno por entre os caninos mais do que afiados. Como um caçador que brinca com a presa, pacientemente, Yoshiaki foi crescendo na luta, e lendo os golpes do adversário tudo retumbou fácil demais.
Desestabilizado, sempre que Ryotaro tentava atacá-lo, ele conseguia evitar por um triz tranquilamente, e retomava a postura de imortal demoníaco.
Cerrando os dentes com muito ódio, a face de Ryotaro escureceu. Cansado daquele jogo, concentrou todo seu poder em sua cauda, e, disparando contra o meio-yokai, a ponta do ferrão cintilou mortalmente.
Yoshiaki nem se mexeu. Como se fosse óbvio segurou a extensão em suas mãos que o atirou para trás alguns bons passos por conta da imponência do golpe. Mas, firmando-se no chão, estacionando os pés com segurança, ele conseguiu conter a investida. Grunhindo pesadamente, Yoshiaki enlaçou seus dedos no prolongamento resistente, e, liberando tudo que havia dentro de si, separou a metade da cauda do corpo do outro.
Sem dar chances para o oponente organizar em sua mente que havia perdido outra parte do seu corpo, num segundo, Yoshiaki atirou aquele pedaço de volta, atingindo a Ryotaro bem no meio da sua testa!
Tendo a cabeça perfurada por seu próprio ferrão, a última expressão que Ryotaro conseguiu fazer em vida foi arregalar os olhos na direção do ferimento letal. E, antes mesmo de conseguir tocar na cauda fincada na cabeça, seu corpo esmoreceu e caiu finalmente ao chão.
...
-O líder! O líder está morto! —um dos yokais escorpião gritou em meio ao embate contra um dos oponentes do castelo.
Sesshoumaru olhou de forma apática para o corpo nauseabundo de Ryotaro jogado de qualquer jeito ao solo frio.
Se antes aquele yokai pouco lhe importava, naquelas circunstâncias menos ainda. Pois, ao ouvir a risada escarnecida de Yoshiaki assim como o aumento gradativo de uma energia sinistra descontrolada, tinha ciência de que o filho não pararia tão cedo.
Por isso, não foi surpresa alguma ver Yoshiaki saltar em direção aos outros yokais inimigos como uma besta que finalmente consegue ser solta. O sangue que corria nas suas veias era pesado demais para o seu corpo meio-yokai. Aliado a isso, também havia a questão da energia sinistra de Shinichiro que sugara nos tempos remotos a sua constituição. Em poucas palavras, Sesshoumaru sabia que era questão de tempo até ele colapsar.
-Recuar! Recuar! —outro yokai escorpião proferiu tentando bater em retirada.
-Ninguém vai escapar! —Yoshiaki disse furiosamente entre dentes.
...
Fazia um bom tempo desde que Rin não tocava naquele relicário dado há tantos anos por Cho. A pedra verde, tão brilhante como uma esmeralda, pendida num capim-dourado rústico em seu pescoço a praticamente duas décadas. Utilizando-a como um placebo, ela o carregava por puro e simples hábito.
Mas, quando a mulher se deparou com a cena de seu filho transformado, lutando tal qual um animal feroz que é incapaz de recuar e sentir dor, ela não pôde evitar apertar o artefato inúmeras vezes.
Convencendo-se de que a cena era real, Rin não soube muito bem o que sentir. Clarividente estava aliviada por vê-lo vivo. De tudo, aquilo era o que mais a assombrava. Todavia, deparar-se com a cria num estado de tamanho descontrole, também não era uma das coisas da qual almejava encontrar.
Ela tinha a lembrança vívida de Inuyasha. Como esquecer, afinal? Aquilo não era algo que esvaía da mente tão facilmente. Aqueles olhos furiosos e desenganados que a encararam na infância com tamanha violência ainda eram capazes de encurralá-la.
Ver aquele mesmo semblante, com o toque de fúria irracional, a fez declinar involuntariamente.
Mais uma vez na vida, temeu por Yoshiaki.
-Yoshiaki! —Rin o chamou da varanda do castelo.
Só então que Sesshoumaru notou a presença da mulher, estava tão concentrado nos movimentos desenfreados de Yoshiaki e na energia sinistra que o filho propagava que não havia se dado conta de que Rin brotara no ambiente.
-Rin!
Rin saltou da varanda, e pôs-se a correr na direção de Sesshoumaru com as lágrimas escorrendo dos olhos amendoados.
-Ele precisa parar! —ela falou com urgência, ainda correndo por entre a neve manchada de sangue. —Yoshiaki irá morrer se não parar!
Sesshoumaru consentiu com a frase proferida pela mulher. Na verdade, ele era o único que poderia fazê-lo e se arriscaria a tal coisa. Ainda que soubesse que seriam investidas ruidosas e que poderiam ocasionar outras lesões, não haveria outro jeito de pará-lo.
No entanto, quando voaria a direção de Yoshiaki, um dos yokais escorpiões surgiu por trás de Rin, arrebentando o chão numa aparição teatral e inesperada.
Rin arregalou os olhos ao ver aquela criatura tão próxima de si empunhando uma espada com a maior das certezas assassinas.
-É o seu fim! —o yokai falou antes de bradar a espada.
Sendo pelo instinto de sobrevivência, pela adrenalina do momento ou pela vontade exacerbada em acudir o filho, ou quem sabe, por todo o misto dessas coisas, algo em seu interior pulsou.
O sibilo familiar agitou seus pensamentos de tal forma que foi como se estivesse a revisitar o passado incômodo e infortuno dos tempos em que aquela energia pesada a dominava. Aquele som sempre surgia a mente antes de perder o controle do próprio corpo.
Mas, diferente das demais vezes, Rin conseguiu sentir aquela parte como sendo sua. Reconhecendo-a como um membro, ela assemelhou-se a um elástico ou algo moldável da qual poderia deixar na forma que bem desejasse. Sendo esticada ou modelada, a energia de Shinichiro, depois de tantos anos em seu interior, ressoou como algo palpável. Rendendo-se finalmente aos desejos da sua vontade, aquilo fez o que Rin queria.
Canalizando todo o seu encolerizado ser, um poder intenso a envolveu, e sem titubear, como se fosse óbvio, Rin conseguiu segurar a lâmina do yokai que iria deferir-lhe um golpe certeiro.
Sesshoumaru só não estava mais surpreso do que o outro que teve seu golpe obstruído por uma humana!
Sentindo ainda aquela força a inundar, Rin não esmoreceu e, girando o próprio pulso, enfiou com muita força a lâmina cortante no estômago do yokai que voou longe com a força do impacto agressivo.
Percebendo o que havia acabado de fazer, fitou suas mãos trêmulas sujas de sangue azul. E da mesma forma que o sibilo a envolveu, foi-se embora num estalar de dedos. Dando um passo para trás, ela recostou em Sesshoumaru que já a segurava pelos ombros a analisando clinicamente.
-Está ferida? —ele indagou com os olhos analíticos.
-Estou bem, estou bem. —Rin falou tentando retomar a consciência. —O que foi... O que foi isso? Quer dizer, esquece! Yoshiaki é mais importante agora.
Segurando Sesshoumaru fortemente pelas mangas do kimono, seus olhos eram suplicantes.
-Precisa pará-lo, Sesshoumaru.
Sesshoumaru assentiu a ela. Antes de tomar novamente o rumo a pegou no colo e a repousou outra vez na varanda, onde um Jaken surgiu correndo esbaforido sem entender o que acontecia.
Vendo Yoshiaki lutar sem freio contra tudo e todos, ele não conseguiu evitar arregalar mais ainda os seus olhos enormes e abrir a boca em assombro.
-A-Aquele é Yoshiaki!? —Jaken balbuciou em espanto.
-Não saia de perto de Rin, se não, eu vou matar você. —Sesshoumaru falou a Jaken de forma incisiva.
Jaken engoliu a seco e se retesou involuntariamente.
-Si-Sim, Senhor Sesshoumaru!
...
Ao colocar seus pés de volta ao jardim, Sesshoumaru viu pelo menos dois yokais serem lançados da maneira mais esdrúxula possível.
Os outros bem que tentaram controlá-lo, mas, observando que Yoshiaki já não discernia mais quem era aliado ou não, resolveram deixá-lo em paz, e escolher por si mesmo quem gostaria de atacar para que se tomasse providência.
Sesshoumaru guardou Bakusaiga de volta a cintura, e numa velocidade digna de si, conseguiu dar um belo soco na face de Yoshiaki que se arrastou por alguns metros no chão. Levantando de qualquer jeito, o meio-yokai não se deu ao trabalho de limpar o sangue que escorreu do nariz por conta do violento golpe. Retomando a investida, ele partiu para cima do pai, completamente cego pela natureza atroz que o impulsionava a atos tão desconexos com a sua personalidade.
Rangendo os dentes com fúria, um rosnado emanou do seu peito. Desferindo golpes e mais golpes contra o yokai majestoso, por pouco ele não conseguiu abrir uma ferida na face alheia. Sesshoumaru segurou seu pulso no ar, resvalando pelas costas alheias, dobrou o braço de Yoshiaki nas próprias costas, o imobilizando parcialmente.
Mas, sem intenção de parar, Yoshiaki quebrou o próprio punho para poder deslizar, e preparando um contragolpe ao girar o corpo, só não acertou o peito de Sesshoumaru brutalmente com as suas garras porque a armadura protegeu o peitoril do impacto visceral.
Segurando Yoshiaki com as duas mãos pela pala do kimono, Sesshoumaru o elevou por cima do próprio corpo e o bateu com força contra o chão. Fazendo uma cara de quem está a buscar o ar, o senhor das terras do Oeste soube que o corpo daquela criatura jazia em seu limite máximo.
-Até quando deixará isso controlar você? —Sesshoumaru falou rispidamente o pressionando contra o solo congelante. —Yoshiaki, retome o controle.
Sendo incapaz de dar ouvidos as palavras do pai, Yoshiaki grunhiu de forma animalesca. Juntando as forças nas suas pernas, conseguiu soltar a direita, onde deu-lhe um chute pesado no abdômen.
Sesshoumaru saltou para trás com a face impassível, e logo Yoshiaki postava-se novamente de pé. Seu corpo todo tremia, logicamente por conta das inúmeras feridas que assomavam por toda a carcaça debilitada.
Dando um grito irritadiço, onde uma energia maligna vermelha o envolveu por inteiro, Sesshoumaru ponderou se não deveria tentar usar Bakusaiga numa última tentativa de derrubá-lo inconsciente. Aquilo poderia ser perigoso, mas, com golpes convencionais, o prolongamento da luta só pioraria ainda mais a situação de um corpo que talvez não tivesse nem mais chances de sobreviver ao término daquele embate.
Vendo-o disparar mais uma vez em sua direção, Sesshoumaru apoiou a mão no cabo de Bakusaiga. Na iminência de sacá-la, foi impedido de fazê-lo, pois uma faixa carmesim agarrou com severidade o pescoço de seu filho, enlaçando de uma só vez três voltas na garganta harmoniosa.
-Meu senhor! —Tetsuo finalmente falou ao notar aquela presença.
Na outra ponta da fita tão rubra quanto o sangue que pingava do corpo de Yoshiaki, estava aquele yokai da qual Sesshoumaru possuía tantas diferenças.
Rin tal como Jaken não conseguiu evitar um espasmo por vê-lo igualmente inclinado a parar Yoshiaki.
-Souichiro! —Jaken disse o nome do outro com espanto.
Com uma cara dolorosa que transparecia toda a dor que ele ainda travava dentro de si mesmo, Souichiro apoiou um único joelho no chão, e enrolou a faixa em seu próprio braço pelo menos umas quatro vezes a fim de conseguir o segurar.
-Vamos ver se essa merda não arrebenta mesmo, Reiko. —Souichiro falou para si mesmo.
Para qualquer um ouvir Souichiro proferir o nome de Reiko, sua concubina favorita, não faria o menor sentido numa hora como aquelas. Até porque nem de longe ela era uma guerreira admirável, na realidade, poucas coisas ela conseguia fazer sozinha. Mas, no quesito beleza e nas técnicas eróticas, certamente, não havia ninguém a altura daquela yokai.
Aquela faixa era mais um dos inúmeros brinquedinhos que Reiko havia jogado despretensiosamente em seu bolso a fim de atiçar os mais dos mais pensamentos libidinosos daquele senhor insaciável. Sabendo que se tratava de um dos seus favoritos, de vez em quando ela dava um jeito de esconder aquilo nas suas roupas por saber o quanto ele gostava de ser provocado.
Quando Souichiro descobrisse o objeto em seus bolsos, imediatamente se remeteria a ela, e ao voltar, ele não a deixaria escapar tão cedo...
Que Sesshoumaru nunca soubesse daquilo!
Evitando dar uma risada, por não caber no momento e muito menos por ser capaz pela dor dentro de si e pelo esforço a qual exercia, Souichiro concentrou-se no fato de que aquela atadura era tecida por um material mais do que especial, trazida do antigo clã de Reiko, e que, apertava-se ao outro toda vez que se quisesse escapar.
Puxando o braço para trás, Souichiro conseguiu derrubar Yoshiaki ao chão. Sem perder tempo, ele o trouxe para si, arrastando-o pela neve, abrindo um caminho excruciante. E quanto mais o fazia, mais a faixa encolhia e apertava o pescoço alheio, tirando o ar dos pulmões daquele meio-yokai completamente agitado.
-Anda, Yoshiaki, porra...
Yoshiaki se agitou mais um tanto, colocando a mão em volta da faixa rústica que o sufocava à medida que tentava lutar contra ela. Sentindo que também chegava ao seu limite, Souichiro retorceu o corpo para trás, sem se permitir esmorecer.
E foi então, a ponto de dar-se por vencido, que o senhor feudal pôde notar os olhos escarlates mudando de tonalidade, aquietando-se, a face do outro voltava discretamente ao desenho de antes.
Girando a cabeça para o lado, Yoshiaki focalizou seus olhos por cima dos dele. Num baque profundo que atingiu tão violentamente quanto o veneno que teimava em queimar suas veias, Souichiro sentiu-se preso naquele olhar.
Não conseguiu mais o segurar.
Também já não era mais preciso.
Cerrando os olhos mais do que exausto, Yoshiaki desmaiou.
Agradecendo aos céus, Souichiro jogou o corpo para trás. Sentindo a neve o abraçando naquelas terras que tanto desprezava, sua vista igualmente começava a embaçar. Apesar disso, conseguiu ver a silhueta branca tão familiar próxima de si.
-Sesshoumaru... —Souichiro falou cerrando os olhos com um sorriso de canto. —Esse seu filho é mesmo irritante...
...
CONTINUA...
