Capítulo 35 –Hiperbólico.

Quando Souichiro abriu os olhos foi como se não o tivesse verdadeiramente feito.

Tendo em vista que o negrume abrupto dominava todo o entorno, ele suspeitou se não estaria a caminho do submundo. Pois, aquela escuridão, de fato, não era algo da qual aquele senhor feudal estava acostumado a experimentar.

Apalpando o próprio corpo não conseguiu identificar qualquer ferimento. Tampouco sentia a dor lancinante do veneno que outrora corria em suas veias o dilacerando paulatinamente com devoção expressiva.

Inconclusivo, Souichiro bufou.

Se tivesse verdadeiramente morrido não havia muito o que se fazer. Mas, ao ponto que pensava nessa possibilidade aterradora, enraivecia-se em demasia, posto que morrer naquelas condições não se encontrava no seu manual de maneiras decentes para se empacotar!

Afinal, como um guerreiro que era e pela reputação que possuía, o que não se propagaria pelos quatro cantos ao ser proferido que o grande senhor feudal do Sul tinha batido as botas por conta de um veneno criado por um clã infinitamente menor!? Com que cara o Sul se postaria depois daquela morte esdrúxula?

Seu pai se reviraria no túmulo com notada razão...

E pior! Como o Oeste não se fulguraria depois daquilo!? Infinitamente maior, obviamente! Sesshoumaru já não dividia um lugar ao sol com ele fazia tempo, tendo uma fatia alguns centímetros maiores, depois daquele trágico evento, não seria surpresa se seu nome viesse a ser esquecido dentro de alguns poucos anos.

Souichiro rangeu os dentes a princípio. Depois, bufou de novo.

Aquilo pareceu pequeno diante do resto.

Colocando as mãos nos quadris, sem temer a escuridão que o envolvia, deu os primeiros passos monótonos em meio as trevas infinitas.

Não precisando angariar longínquas distâncias em seu percurso, Souichiro pôde notar uma silhueta bem ao fundo. Franzindo o cenho um pouco confuso com aquela aparição repentina, ainda assim, ele nãoesmoreceu os passos e continuou a batucar com as solas dos sapatos sem qualquer temeridade na direção daquela figura misteriosa.

Aproximando-se mais um tanto, foi inevitável ouvir com clareza um assobio familiar bem como o farfalhar de asas cortando o ar com severidade.

Aquele som ressoou dentro da alma e o fez hesitar involuntariamente por conta da incredulidade do próprio pensamento. Com os olhos arregalados e um coração pulsante, ele não conseguiu evitar os lábios de se moverem na pronúncia daquele nome.

-...Shinichiro?

Como sendo capaz de ouvi-lo, o contorno moveu-se e suas íris rubis brilharam em meio as trevas profundas.

De repente, aquela presença que jazia há bons passos de distância de si, estava naquele minuto ancorada em seu corpo. Emaranhada de uma tal maneira que ele não conseguia se mover. Sem poder abrir os braços por inteiro e esticar as próprias pernas, a sensação soou familiar...

Num estado que parecia febril, onde seu corpo voltava a amolecer, sentiu o roçar da pele alheia contra a sua. Um toque íntimo em seus lábios que repercutiu quase como um comandoo fazendo entreabri-los repentinamente, sem qualquer resistência.

Souichiro não precisou ponderar muito para entender de quem se tratava. O cheiro certamente não era daquele que havia evocado e muito menos possuía a mesma afabilidade no toque que deveras ocorreu acidentalmente numa circunstância mais do que inusitada.

Tendo a consciência de quem se tratava e se espremia contra seu corpo sem intervalo, o rosto daquela criatura peculiar brotou com nitidez através das suas retinas. Inexplicavelmente, sem desapontamento, o coração não cessou, já que aquele toque sutil verdadeiramente lhe satisfez.

E num estalo, tudo fez sentido.

A última coisa que vira com a minúcia de detalhes foram os olhos vermelhos fora de controle transmutando-se nosâmbares tais quais o ouro derretido. Um olhar mais do que penetrante desenhado na face masculina delgada manchada de sangue azul e escarlate.

Aquela visão o atordoou mais uma vez e como se fosse palpável, ele esticou a mão a fim de poder tocá-lo. Na ocasião, gostaria de tê-lo feito, embora não pudesse. Sentindo o órgão pulsante batendo cada vez mais forte contra o peito oco, Souichiro degustou outra vez da sensação que o dito cujo estava provocando em seu ser.

-É mesmo... —ele falou para si ao se lembrar.

Deixando um sorriso de canto escapar, pensou que talvez aquela suposta morte não tenha sido assim tão ruim.

...

Voltando a realidade num tranco, Souichiro ergueu a metade do corpo buscando o ar com a maior urgência que seu corpo poderia exigir.

-Pensei que dormiria para sempre. —a voz metálica daquele yokai passeou pelo cômodo tirando sua atenção.

Souichiro virou-se para o lado de imediato.

Num segundo, o semblante imponente de Sesshoumaru surgiu as suas vistas. Recostado na parede, o senhor feudal das terras do Oeste fitava o outro com uma tez impassível.

-Tsc! Não daria esse gosto a você. —Souichiro o respondeu ironicamente tentando retomar o fôlego.

Olhando para seu próprio corpo, identificou vestimentas novas. Usando um robe cinza, o cheiro da peça impregnou suas narinas e o fez considerar o motivo de ter tido um sonho como aquele.

-Yoshiaki? —Souichiro indagou a Sesshoumaru olhando do robe para ele de canto.

-Irá se recuperar. —Sesshoumaru falou taxativo, sem dar muitas explicações.

Souichiro quis perguntar mais. No entanto, bastou-se a calar. Naturalmente, Sesshoumaru não seria a pessoa que tagarelaria com ele a respeito do estado de saúde do meio-yokai despretensiosamente. Mesmo depois de muitos anos de convivência pacífica, não poderia dizer que seus diálogos com o Lord imponente do Oeste haviam tomado nuances da qual ambos saboreavam.

Sentindo aquela presença familiar que o invadiu em questão de segundos, Souichiro deu um salto com os olhos arregalados. Erguendo-se num só movimento que lhe doeu por conta do movimento brusco acabou por se retesar brevemente com a testa cerrada. Colocando a mão no peito e emitindo um fraco grunhido, ele voltou os olhos verdes-oliva para Sesshoumaru.

-Mitsue?

-Kenji a trouxe. Ela sobreviveu ao ataque, assim como os seus sobrinhos.

Souichiro respirou aliviado. Mas, não tardou a franzir o cenho novamente.

-E quanto aos yokais de lá?

-Poucos conseguiram sobreviver.

-Emiko?

-Não pude trazê-la com a Tenseiga. Eles destruíram seu corpo.

-Que filhos da puta... Mitsue era muito apegada a Emiko. —Souichiro praguejou colocando a mão no rosto. Voltando a compostura, retornou o olhar ao outro com uma nova questão. —Quantos dias se passaram?

-Dois dias.

Aquela informação o fez arregalar os olhos. Nem conseguia lembrar-se da última vez que estivera tão debilitado a ponto de estagnar por tantas horas ininterruptas. Sem contar que a sensação que tivera ao despertar fora de que fazia poucos instantes que havia penetrado na inconsciência.

No entanto, não teve muito tempo para retrucar a respeito daquela situação inédita a qual se encontrava, pois, sem que esperasse, um yokai deslizou a porta do cômodo com cuidado. Sesshoumaru olhou para ele que imediatamente curvou-se em respeito.

-Meu Senhor.

-Hayato. —Sesshoumaru falou seu nome assentindo para que prosseguisse.

Hayato era um pequeno yokai, do tamanho de uma criança. Não possuía forma humana, e sim um perfil característico. A coloração da sua pele mesclava entre o azul turquesa e o verde água, confundindo-se num degradê mais que perfeito. Os braços e pernas curtas acompanhando um conjunto diminuto de olhos pretos. De fato, o que não poderia ser ignorado, sem sombra de dúvidas, era a boca comprida e fina igualmente a de um beija-flor preparado para deliciar-se com um néctar.

-Ahn! Então o senhor Souichiro já conseguiu acordar! Impressionante! —Hayato disse fechando a porta atrás de si.

-Nos conhecemos? —Souichiro arqueou uma única sobrancelha tentando buscar na memória aquele yokai pitoresco.

-Formalmente não, senhor. —Hayato respondeu balançando a cabeça em negativa.

-Hayato tem sugado o veneno do seu corpo. —Sesshoumaru falou o fitando com seriedade.

Souichiro ficou mais do que surpreso com aquela constatação. Primeiro porque imaginava que estava se curando por si mesmo e segundo por Sesshoumaru o estar ajudando a sobreviver.

-Com licença, meu senhor, mas ainda há um pouco que precisamos conter. —Hayato disse a Souichiro o encarando com seus olhos diminutos.

Souichiro não protestou. Engolindo a seco, bastou-se a assentir e a sentar-se ao futon da qual havia levantado num rompante.

-Agora que está acordado, isso pode doer um pouco. —Hayato o avisou com o timbre um pouco desconsertado.

-Vá em frente. —Souichiro deu de ombros dando pouca importância ao aviso.

Tendo o aval, Hayato inseriu o bico de uma única vez no centro do peito parcialmente desnudo pelo robe emprestado.

Souichiro se encolheu e trincou os dentes com aquela investida.

Sesshoumaru sorriu de canto com aquela cena.

-Não seja mole. —o platinado ralhou para ele em ironia.

-Porra! —Souichiro ralhou em igualdade. —Acha que eu tô de sacanagem!?

O longo bico afundou um pouco mais no seu corpo o revirando por dentro numa torrente cruciante. Indo tão afundo, Hayato conseguiu sugar todo o veneno maligno de que era capaz. Bebendo até a última gota, o yokai deliciou-se como quem está a provar a melhor das delícias do mundo.

Quando terminou pôs-se a puxar de volta o bico pontiagudo que estava entranhado na carne resistente do senhor feudal. A boca de formato estranho acabou por desaparecer, dando lugar a uma comum, condizente com o tamanho do seu rosto pequenino.

-Fiz o que pude. –Hayato disse passando a mão na barriga e lambendo os lábios. –Estava delicioso!

-Hm! Que bom que alguém se divertiu nessa história. —Souichiro disse arfando, levando a mão ao local de onde um pequeno furo já se fechava totalmente.

-Estou realmente impressionado que o senhor não tenha morrido assim que o veneno entrou no seu corpo. —Hayato disse colocando a mão no queixo livre. —Esse veneno é de uma excelência ímpar. Nunca havia provado um tão forte quanto esse. Tive que fracionar as doses para conseguir absorvê-lo.

-Tsc! Aquele feioso não estava para brincadeiras... —Souichiro falou com desdém ao se referir a Ryotaro.

-Uma parte do veneno o próprio corpo do senhor conseguiu filtrar, mas a outra parte já estava comprometendo o seu coração. É verdadeiramente espantoso que ainda assim tenha conseguido fazer o que fez.

-Não é espantoso. Não sou um yokai qualquer. —Souichiro disse indiferente.

-Pode ir, Hayato. —Sesshoumaru falou ao yokai seriamente. —Antes que o ego de Souichiro nos sufoque.

-Sim. Com licença.

Hayato curvou-se solenemente para os dois antes de finalmente deixar o recinto.

Ficando novamente a sós, Souichiro fitou Sesshoumaru com notável interesse. Afinal, ele não se postava por tanto tempo em sua companhia.

-Por que fez isso? —Sesshoumaru indagou a ele sem mais rodeios.

-Isso o que? —Souichiro devolveu a pergunta com pouco interesse no diálogo que se sucederia.

-Sabe que estou falando de Yoshiaki. —Sesshoumaru falou num tom impaciente.

-Ahn... Isso...

Souichiro sorriu largamente. Olhando os olhos incisivos de Sesshoumaru, imaginava que o Lord dos cabelos prateados não compartilhava da mesma graça que ele. Pondo-se de pé com a mão no peito, ele balançou a cabeça em negativa, e deu de ombros com sinceridade.

-Vai saber... —Souichiro falou incongruente.

Sesshoumaru juntou as sobrancelhas.

-Então está me dizendo que simplesmente fez o que fez sem qualquer propósito?

-O que quer que eu diga, Sesshoumaru? —Souichiro riu brevemente e o fitou de forma desalinhada.

-Se tem alguma intenção velada, saiba que eu e tampouco o Oeste acreditamos nas suas boas ações. —Sesshoumaru falou de forma ríspida. —Se está tentando usar do que aconteceu para se esgueirar cada vez mais para dentro do Oeste, quero adverti-lo de que não funcionará.

-Pff... Acha que foi por isso? —Souichiro desviou o olhar, colocando as mãos nos quadris. —Acha que iria me foder todo por conta de uma pretensão esquecida?

-Nunca fez questão de esconder o quanto é ambicioso.

-Tsc! Se não percebeu faz tempo que já desisti de atacar o Oeste... Não me interessa mais.

Vendo que o semblante de Sesshoumaru não se suavizava, Souichiro suspirou sentindo-se exausto.

-Você não gosta mesmo de mim, não é?

-Não. E não estou entendendo onde quer chegar.

Souichiro esfregou as têmporas com pouco ânimo naquele diálogo.

-Escute, foi por um acaso que encontrei Yoshiaki quando tudo aconteceu. Estava indo até a propriedade de Mitsue para avisá-la do que estava por vir quando as coisas saíram do controle e... —Souichiro girou os olhos e sabia que as próximas palavras escorreriam pesadamente de seus lábios tão pretensiosos, por isso as disse de forma quase inaudível. —... A verdade é que ele me salvou. E não só uma vez.

Colocando a mão no rosto ao ver a tez de Sesshoumaru curvar-se em espanto, ele pressionou a ponte do nariz.

-Não diga mais nada. —Souichiro quase implorou enquanto esfregava o polegar e o indicador em seus olhos. —Não sabe como é difícil admitir uma merda dessas.

Sesshoumaru discordava. Pois, assim como Souichiro ele bem sabia como era aquela sensação. Afinal, o que era aquela vida se não uma insistente força a fim fazê-lo engolir todo o seu discurso e quebrar insistentemente paradigmas das quais jamais pensara em ceder?

Absorvendo o fato de que aquele prepotente yokai tinha arriscado a própria vida, quem sabe por gratidão ou honra, Sesshoumaru deu-se por convencido diante do exposto.

-Se é por isso que conteve Yoshiaki... —Sesshoumaru disse o analisando analiticamente.

-É a verdade.—Souichiro o fitou de volta sem desviar o olhar, com um longo respiro.

Ainda que Sesshoumaru identificasse um tremeluzir esquisito no olhar do outro ao pronunciar o nome de Yoshiaki, resolveu aceitar que fosse o que fosse aquilo, Souichiro não parecia legitimamente apto a lhes causar infortúnios negativos.

Admitindo que havia muita coisa esquisita naquele mundo, sem querer postergar mais ainda aquele diálogo, o platinado girou os calcanhares em direção da porta.

...

Retirando a toalha úmida da testa do filho, Rin colocou a própria mão sobre a pele de Yoshiaki a fim de sentir a temperatura real que ele apresentava. Primeiro na testa, depois nas bochechas e por último no pescoço. Notando que a temperatura não se encontrava mais descontrolada, ela deixou a toalha de lado, a jogando dentro de um balde rústico repleto de água fria.

Erguendo os olhos luminosos por um minuto, ela fitou a yokai dos olhos verdes-oliva que alimentava em seu seio o bebê diminuto em seus braços. Sentada no canto do cômodo, Mitsue sorriu a Rin ao entender pelo seu olhar que Yoshiaki apresentava melhora.

-Não tem mais febre! —Rin disse ajeitando a coberta envolta ao corpo adormecido de Yoshiaki.

-De frágil Yoshiaki não tem nada. Ele é muito forte. —Mitsue disse assentindo a ela. —Logo ele irá se recuperar.

-Uhum!

Rin o analisou mais uma vez. Deitado sereno com os olhos cerrados e os cabelos prateados jogados em todas as direções, aquilo a fez lembrar genuinamente da infância pueril de Yoshiaki que nos tempos remotos lutava insistentemente contra o sono. E que só cedia depois de ouvir as inúmeras histórias embrenhando-se sem perceber na inconsciência profunda. Apesar da fina mecha vermelha ter brotado na franja e dos traços masculinos não serem mais tão delicados, foi impossível não voltar no tempo.

Rin sorriu com a memória vinda à tona em seus pensamentos.

-Hoje faz vinte anos que Yoshiaki nasceu. —Rin disse acariciando o topo da cabeça alheia carinhosamente.

-Hm! É verdade! —Mitsue assentiu num sobressalto. —Tanta coisa aconteceu que havia me esquecido disso. Nossa, Rin, vinte anos! Como passou rápido...

-É! Estava pensando agora mesmo nisso. —Rin sorriu dando um beijo terno na testa de Yoshiaki.

Erguendo-se do lado do filho, ela encaminhou-se até Mitsue onde pôde ver com mais clareza o semblante de Miyako que havia acabado de largar o seio farto e repousava adormecida no colo da mãe.

Rin passou docemente a mão pela cabeça repleta de fios grossos, deslizando pela pele tão fina e macia, ela não conseguiu evitar um largo sorriso.

-Ela é tão linda, Mitsue.

-Ela é. —Mitsue sorriu juntamente analisando com os olhos a face serena da pequena que jazia em seus braços.

-Lamento o que aconteceu. Nem posso imaginar o que você passou.

-Foi horrível mesmo, Rin. —Mitsue a falou com um longo suspiro. —Por um minuto achei que não conseguiria salvá-la. Que aquele monstro iria nos matar. Por sorte consegui aproveitar um momento de distração daquele desgraçado para poder escapar. Lamentavelmente precisei deixar os outros para trás... Emiko...Eles não mereciam aquele final.

-Não teve escolha. Sabe disso. —Rin falou colocando a mão no ombro da outra em apoio.

-Eu sei... —Mitsue assentiu consternada. —Ao menos nunca mais iremos vê-los novamente.

-É! Isso certamente é um alívio. Depois de todo estrago que fizeram e que poderiam ter feito... Soa mesmo como uma bênção.

Sendo interceptadas pela porta que deslizou timidamente, o perfil que surgiu através da madeira bem trabalhada foi incapaz de não lhes chamar a atenção. Escorregando para dentro com uma tez indecifrável e pouco convencional, ele não conseguiu dividir muito bem o olhar entre os quatro seres que jaziam no cômodo.

-Irmão. —Mitsue disse com um misto de alegria e alívio. —Não sabia que havia acordado. Venha aqui, venha conhecer Miyako.

Havia muita coisa para Souichiro assimilar dentro daquele cômodo. Por um momento sua cabeça girou por estar preso há tantas emoções simultâneas.

No primeiro momento, ele fitou Yoshiaki que jazia inerte num canto com uma respiração lenta, onde o cobertor subia e descia vagarosamente indicando um sono mais do que profundo. Com os cabelos soltos e uma face límpida, aquela imagem afagou seus olhos e foi um tanto difícil de desvencilhar. Porque ele era uma criatura deveras particular que causava um desconforto da qual não sabia ainda dizer com exatidão o que significava.

Não querendo se demorar mais do que já estava nos contornos do outro, Souichiro virou o rosto, e a segunda imagem a preencher seus olhos fora a de Rin. A mulher que certa vez ralhou pesadamente a ele quando o ouvira chamar seu único filho de aberração. Teve vontade de rir ao se lembrar. Ela tinha mesmo razão no fim das contas, pois do amanhã realmente não se conseguia conceber. Quem sabe suas palavras repletas de certezas e voracidade numa tentativa de proteger a ombridade do filho não o tenham amarrado num destino inimaginável? Quase que como uma maldição. Pois, era assim que se sentia. Preso.

Desanuviando a tez, ele sorriu abertamente ao ver a irmã sã e salva, e mais do que isso, sua nova prole descansando nos braços da figura a quem possuía tanto amor.

Não se aguentando, caminhou até ambas rapidamente.

Rin afastou-se, permitindo que ele visse a sobrinha com maior clareza e desfrutasse do reencontro fraternal.

Souichiro sentiu o coração inundar ao repousar os olhos na recém nascida. Passando a mão em seus tímidos cabelos e dando-lhe um beijo na face macia, ele voltou a fitar a irmã com os olhos repletos de emoção.

-Que nome deu a ela, irmã?

-Miyako.

-Miyako. —Souichiro sorriu em aprovação. —É um bom nome.

Mas, a tez de Souichiro não tardou a murchar. Fitando Mitsue com os olhos pesarosos, ele colocou a mão em seu rosto.

-Desculpe por não ter conseguido chegar para ajudá-la. Nunca iria me perdoar se algo tivesse acontecido a você e aos meus sobrinhos.

-Nada aconteceu, irmão. Não tem culpa de coisa nenhuma. —Mitsue sorriu para ele esfregando o rosto na palma da mão fraterna. —Também estou feliz por vê-lo vivo. Não sabia que estava no Oeste e muito menos ferido, só soube quando acordei no castelo.

-Parece que muita coisa nos acometeu. —ele sorriu balançando a cabeça em negativa. —Que porra de yokais do Sul somos nós?

-Quem poderia imaginar... —Mitsue deu uma risadinha.

Pegando a nuca de Mitsue, Souichiro recostou a testa sobre a dela. Respirando profundamente em alívio, ele a fitou, e os olhos iguais aos seus corresponderam ao olhar afetivo.

-Eu te amo. —ele disse francamente.

-Eu também te amo, Souichiro.

Rin sorriu ao presenciar aquela cena. Mesmo que Souichiro não fosse uma de suas pessoas favoritas, estando na realidade muito aquém e distante das que possuía algum sentimento positivo, ficou feliz por identificar a sinceridade em seu olhar. E, acima de tudo, por ver o quanto aqueles irmãos nutriam sentimentos tão densos quanto aqueles.

Desvencilhando de Mitsue, Souichiro olhou mais uma vez para o canto do quarto. Arranhando a garganta, engolindo outra vez sua prepotência, ele virou-se definitivamente a Rin.

-Como ele está?

-Hm, está melhorando aos poucos. —Rin assentiu em positiva. —Yoshiaki tinha muitos ferimentos no corpo. Mas, ele é mesmo bastante resistente.

-É... Eu que o diga. —Souichiro sorriu de canto desviando um pouco o olhar.

-Obrigada. —Rin disse de uma única vez.

Curvando-se demoradamente em agradecimento na frente de Souichiro ele se sentiu um tanto desconfortável por vê-la fazer tal movimento. Aquela mulher era mesmo estranha... Quem sabe por isso Sesshoumaru não gostasse tanto dela? Pois, quando se tem a vontade de fazê-la se humilhar, ela simplesmente não o faz. Em contrapartida, ao não existir tal pretensão, lá vai ela e se subjuga sem qualquer vergonha na face deixando o outro em desconforto lancinante.

-Não faça isso, Rin. —Mitsue disse um pouco sem jeito por vê-la naquela postura. —Não precisa disso.

-Obrigada por ter parado Yoshiaki. —Rin prosseguiu ignorando os apelos de Mitsue. —Ele não sobreviveria se não o tivesse contido. Não imagina o quanto sou grata pelo que fez ao meu filho.

Souichiro coçou a cabeça mais sem jeito do que nunca. Sempre acostumado a ser bajulado, de repente, até ele mesmo estranhou o motivo de não gostar de vê-la curvada tão formalmente a si.

-Você é mesmo uma incógnita, mulher. —ele falou dando um suspiro longo. —Levante, está me deixando tonto.

Rin voltou a postura ereta. Sentando em suas próprias pernas, não entendeu o motivo daquele yokai sempre tão cheio de si não zombar da sua conduta agradecida ou vangloriar-se pelo feito.

-Foi você quem me emprestou essa roupa? —Souichiro indagou a ela apontando para o robe cinza chumbo que usava.

-Ahn! Foi. —ela assentiu. —Você estava muito sujo, Tetsuo o ajudou. Essa roupa é de Yoshiaki, ele não irá se incomodar.

-Sei que é dele. Se não pelo cheiro, certamente adivinharia pela cor.

Mitsue olhou Souichiro de soslaio com a testa franzida. Mas, Rin não notou a forma que foi dita o comentário.

-Que bom que serviu em você. —Rin sorriu a ele e coçou a nuca um pouco sem jeito. —Creio que não conseguiria pegar uma de Sesshoumaru emprestada.

-Certamente não! —ele riu em concordância.

-É verdade. —Mitsue concordou rindo juntamente.

-Imagino que não só a roupa, mas também o restante tenha tido a ver com você. —Retomando a seriedade, Souichiro assentiu para Rin brevemente. —Obrigado.

Se Mitsue não tivesse visto com seus próprios olhos, certamente não teria acreditado que seu amado irmão havia dito aquela palavrinha mágica que quase nunca abarcava seu repertório repleto de palavras rústicas.

Rin, em igualdade, levou um susto por vê-lo proferir tal coisa. Mas, não retrucou. Ela sabia bem como as coisas podiam mudar quando menos se esperava. E quemotivações dispares poderiam vir de qualquer ser dentro daquele mundo repleto de novidades.

Assentindo de volta para ele, ambos soaram quites.

Nesse mesmo instante, a porta deslizou mais uma vez, na ocasião revelando a face do yokai sapo que fitou Rin próxima a Souichiro com curiosidade.

-Senhor Jaken? —Rin falou chamando novamente a sua atenção.

-Rin, o senhor Sesshoumaru pediu para te chamar.

-Ahn! Sim! Eu já vou. —ela falou erguendo-se do chão. —Pode ir na frente, que eu já vou, senhor Jaken. Só irei dar uma última olhada em Yoshiaki antes de ir.

-Não demore, Rin.

-Não. Pode deixar.

Jaken fechou a porta e saiu pelos corredores a passos apressados.

Rin encaminhou-se para a outra ponta do quarto, agachou-se ao lado de Yoshiaki e verificou novamente a sua temperatura a fim de ter mesmo certeza de que a quentura corporal da prole jazia estabilizada. Respirando aliviada, ela acariciou pela última vez o topo da cabeça do filho e ergueu-se de uma só vez.

-Se quiser, posso ficar aqui com ele, Rin. —Mitsue disse também já de pé.

-Imagine. —Rin balançou a cabeça em negativa. —Precisa colocar Miyako no berço e também descansar um pouco. Esses dias não foram fáceis para você.

-Não seria incômodo nenhum.

-Eu fico. —Souichiro disse num supetão apoiando as mãos atrás da cabeça, dando pouca importância ao que de fato havia proferido.

Mitsue olhou outra vez para Souichiro de soslaio com a testa franzida. A primeira vez poderia ter sido mal entendido, mas a segunda, definitivamente não.

-Hm... —Rin o fitou pensativa. —Mas, não precisa descansar também?

-Já descansei por dois dias. —Souichiro deu de ombros. —Aquele yokai deve ter sugado até mesmo parte da minha alma com aquele bico nojento dele. Estou mais disposto do que nunca. Demore o quanto quiser.

Rin não tinha muita certeza quanto aquela ideia. Era mesmo verdade que Souichiro havia feito de tudo para salvar Yoshiaki, mas desprender-se da imagem do yokai que ele fazia questão de pintar, era um pouco difícil de abstrair.

-Rin, se Souichiro diz que pode ficar, não tem mesmo problema. —Mitsue disse com um sorriso sincero. —Não precisa se preocupar.

-Hm... —ela voltou a realidade e logo assentiu convencida. —Então está bem... Se algo acontecer, por favor, me chame.

Souichiro bastou a balançar a cabeça em positiva.

...

Toshio e Asami construíam um boneco de neve com tamanha devoção. Como se estivessem a criar a mais bela obra de arte mantinham seus olhos e mãozinhas dedicadas no entorno do ser robusto que boleavam num perfeccionismo metódico.

Kenji os observava sentado na varanda. Abafando uma risada quando vira Asami ocasionar uma falha fatal no boneco, ele bem sabia do temperamento da filha que logo perdia a paciência quando as coisas não saiam bem da maneira que planejava.

-Argh! Droga de boneco! —ela praguejou irritada.

-Como você é chata, Asami! —Toshio ralhou para ela. —Não consegue fazer nada sem reclamar.

-Você que é chato! —ela deu uma careta a ele. —Por que não faz o seu boneco e deixa que eu faço o meu?

-HAM! Não consegue nem fazer comigo! —Toshio deu outra careta a ela, cruzando os braços. —Não sabe fazer nada direito!

-Claro que eu sei, idiota! —Asami grunhiu irritada atirando uma bola de neve em Toshio.

-Idiota é você! Você vai ver só! —Toshio revidou com outra bola de neve.

-Toshio! Asami! —Kenji os chamou com o tom duro. —Não vão começar a discutir, não é? Se ficarem brigando vou colocá-los de castigo.

-Mas foi ela que começou! —Toshio disse apontando para Asami com uma tez inconformada.

-Não! Foi ele, papai! —Asami apontou em igualdade para Toshio com a face suplicante.

-Não interessa. —Kenji ralhou para eles com autoridade. —Se escutar mais uma vez vocês discutindo vou amarrar os dois bem juntinhos lá dentro até o dia seguinte!

Toshio e Asami retesaram-se de imediato. Engolindo a seco a contragosto, entreolharam-se e decidiram em silêncio que era melhor acabar com aquela discussão antes que Kenji resolvesse por em prática o que dissera.

-Hm! Esse é um castigo e tanto! —a voz do outro yokai atravessou o jardim. —Não é atoa que é conhecido como um excelente torturador.

-Yashamaru! —as crianças chamaram o seu nome alegremente.

Deixando o boneco de neve para lá, ambos correram na direção de Yashamaru. Aproximando-se do comandante dos olhos violetas, ele sorriu contente e não tardou a pegar Asami no colo, a colocando em seus ombros e abraçando lateralmente Toshio, esfregando seu braço com carinho.

Kenji sorriu e pulou da varanda no mesmo instante para ir ao encontro do outro.

-Yashamaru, você é tão quentinho! —Asami disse abraçando a cabeça de Yashamaru contra seu corpo franzino.

-Deve ser tão bom não sentir frio em meio a neve. —Toshio disse o olhando de baixo.

-É mesmo uma vantagem. —Yashamaru disse afagando o topo da cabeça do primogênito.

-Finalmente voltou. —Kenji disse parando a frente de Yashamaru. —Como foi?

-Conseguimos resgatar os outros do meu antigo clã. Eles estão dormindo ainda por conta daqueles amuletos sujos, mas, logo irão despertar. —Yashamaru falou com alívio evidente.

-Que bom, Yashamaru. —Kenji sorriu colocando a mão no ombro direito do Comandante. —Fico feliz por você.

-Tem mais yokais do fogo, Yashamaru? —Asami indagou balançando suavemente a cabeça do yokai.

-Tem! —Yashamaru respondeu a ela sorrindo. —Logo irá conhecê-los.

-São os yokais do antigo clã dele, Asami. Já esqueceu que te contei? —Toshio bufou girando os olhos.

-Hm... —Asami pareceu ponderar. Apoiando a cabeça na de Yashamaru ela fingiu se lembrar. —Ah, é...

Kenji e Yashamaru riram da pequena. Retirando a filha de cima de Yashamaru e puxando Toshio para o seu lado, ele agachou-se a frente dos dois.

-Por que não tentam montar outro boneco de neve? Sabiam que Yashamaru adora?

-Ahn? É mesmo? —Asami indagou virando-se de soslaio para Yashamaru.

-Por que não faz com a gente, Yashamaru? —Toshio indagou com animação.

-Ele não consegue. —Kenji respondeu por Yashamaru fingindo um semblante deprimido. —Quando Yashamaru toca na neve, ela derrete! Então, ele precisa que vocês façam um bem bonito para ele. Que tal?

Os olhos das crianças se iluminaram de imediato. Encarando aquilo como uma missão mais do que especial, assentiram conjuntamente de maneira exagerada.

-Vamos, Toshio! Vamos montar logo! —Asami falou decidida pegando na mão do irmão.

-Vamos! Vamos!

Correndo para onde jazia o esqueleto do boneco de neve anterior, os dois escancararam na face uma vontade ardente de trabalharem juntos naquela empreitada.

Kenji piscou para Yashamaru que riu brevemente com a tática do antigo amigo.

-Só assim para eles nos deixarem falar em paz.

-Como estão Mitsue e o bebê?

-Estão bem. —Kenji respondeu com um sorriso franco. —Vim um pouco aqui fora porque as crianças não paravam de falar um minuto.

-Eles são bem ativos mesmo. —Yashamaru sorriu assentindo. —Que bom que nada aconteceu a eles. Foi um ataque maciço e bastante pesado na propriedade.

-Nem fala. Quando encontrei Mitsue no túnel secreto nem imagina a quantidade de coisas que passaram na minha cabeça. —Kenji balançou a cabeça em negativa e cruzou os braços com apatia. —Aquele desgraçado que invadiu nossa casa, ele estava seco em Mitsue. Que pena que não fui eu a matá-lo. Teria feito lentamente. Mas, no caminho para cá esses merdas surgiam como praga. Alastrando por toda a região e nos atrasando.

-Foi tudo muito bem pensado. Ao menos até a chegada ao castelo. Depois de Yoshiaki matar Ryotaro, o restante tentou fugir, mas deram de cara com a tropa de Seiji no caminho. Foi uma aniquilação.

-Eu soube. Seiji agiu bem.

-E quanto a Yoshiaki? Como ele está?

-Na mesma. —Kenji deu de ombros com um longo suspiro. —O vi agora pouco no quarto. Ainda está dormindo profundamente.

-Não cheguei a tempo para vê-lo lutar. Mas, dizem que foi algo brutal e inimaginável.

-Pela quantidade de ferimentos, não há como duvidar.

-É... —Yashamaru concordou colocando uma mão no quadril igualmente abatido. —Eu também vi...

-É inacreditável que tenha sobrevivido.

-E Souichiro?

-Hayato estava cuidando dele. Disse que ele irá ficar bem e que ficou bastante surpreso por ele ter resistido ao veneno depois de ter se esforçado tanto.

-Hm! —Yashamaru juntou as sobrancelhas com a tez incrédula. —Eu não entendi nada! Estávamos no meio da luta quando Yoshiaki apareceu com Souichiro que já parecia bem mal. Daí aquele tal de Ryotaro surgiu e levou Yoshiaki com ele. Sem mais nem menos, Souichiro pareceu ressuscitar e saiu correndo atrás dos dois!

-Pois é, eu também não entendi. —Kenji deu de ombros.

-Será que Souichiro está tramando alguma coisa? —Yashamaru ponderou colocando a mão no queixo.

-Ao ponto de quase morrer para prender Yoshiaki? —Kenji balançou a cabeça em negativa. —Não. Algo muito forte deve ter acontecido. Conhecendo bem os dois, acho que Yoshiaki estava acudindo Souichiro e por isso ele não quis deixar barato. Imagine terminar a batalha com os outros espalhando que ele só não morreu por conta de um meio-yokai. Ele deve ter feito de tudo para brilhar no final.

-Hm... Pode ser... É um pensamento coerente.

-Não tem outra justificativa. Souichiro sempre foi muito exibido e vaidoso.

Olhando por sobre o ombro de Yashamaru, Kenji pôde ver um pouco distante dos dois, duas formas femininas que conversavam abertamente na outra ponta do jardim. Interagindo de forma amistosa, o comandante se surpreendeu por deparar-se com aquela cena. Acompanhando o olhar vidrado do outro, Yashamaru virou o rosto sutilmente e entendeu o motivo da inércia alheia. Akane e Okoi.

-Já estava me esquecendo! —Kenji disse com um sorriso no canto do rosto.

-Hm... —Yashamaru respirou voltando o olhar para frente. Sabia que Kenji não deixaria aquilo escapar.

-Que situação a sua, hein, meu amigo. —Kenji zombou o cutucando. —Para um yokai tão certinho, acabou com duas de uma vez!

-TSC! —Yashamaru o empurrou levemente em repreensão. —Não tenho duas. Continuo casado. E nem pense em zombar com isso para Akane, além de me causar problemas, ela irá matar você.

-Ahhhh! —Kenji esmoreceu aborrecido. —Não acredito que está me tolhendo de fazer essa piada!

-Claro! Ficou maluco!? —Yashamaru arregalou os olhos de forma absorta. —Não faça isso!

Kenji deu uma risada e não tardou a abraçar Yashamaru lateralmente que girou os olhos. Ancorado ainda no amigo de longa data, com o braço apoiado no ombro do yokai dos olhos violetas, Kenji voltou os olhos para Asami e Toshio que daquela vez dedicavam-se em harmonia a construção da sua empreitada.

-Não pensou nenhum segundo em voltar para a sua noiva do passado? —Kenji indagou o fitando seriamente.

-Hm... —Yashamaru esfregou a mão no rosto antes de responder. —Sim. Pensei.

-Deve ter sido difícil para você. —Kenji assentiu legitimando a dúvida.

-Mas, se escolhesse ficar com Okoi não seria por amor. Se deixasse Akane para ficar com ela, certamente seria por culpa. —Yashamaru o fitou com seriedade. —Eu amei muito Okoi no passado, Kenji. De verdade. E sei que esse sentimento é forte dentro de mim, quando a olhei, tudo voltou, num estalo. Mas, é impossível ignorar o sentimento que tenho por Akane. Não consigo me imaginar sem ela. —Yashamaru sorriu de forma sincera. —Só de pensar é sufocante. É diferente... Não tem como explicar.

-Sei bem como é esse sentimento. —Kenji sorriu em compreensão.

-Okoi merece alguém que a ame dessa maneira. Não seria justo com ela, nem comigo e nem com Akane se resolvesse acabar com o meu casamento.

-É uma pena que não possam ter filhos. Você é bom com as crianças.

-É... —Yashamaru assentiu um pouco entristecido, mas, logo sorriu e ergueu o ombro da qual Kenji estava dependurado em si. —Você e Mitsue estão a fazer por nós. Já cuidamos de Yoshiaki e agora temos mais três para dar conta. Quem sabe até mais!

-Acho que três já está de bom tamanho. —Kenji riu se desvencilhando de Yashamaru. —Possivelmente Mitsue irá se esconder de mim quando entrar no período fértil.

Yashamaru riu juntamente.

...

Enquanto conversava com Okoi, Akane vez ou outra olhava para Yashamaru.

Vendo-o esparramado na neve com Toshio e Asami com tamanha alegria, seu coração pesou por alguns instantes. E ficou difícil disfarçar que as palavras de Okoi perpassavam pelos seus ouvidos sem a devida atenção.

Notando que a outra encontrava-se aérea, Okoi seguiu a linha da visão, e não precisou de muita reflexão para entender o que a assombrava.

-Akane. —Okoi a chamou tentando tirar sua atenção de volta a ela.

-Hm? —Akane retomou os olhos a outra. Retornando ao mundo real, evadindo dos pensamentos, ela balançou a cabeça em negativa. —Desculpe, Okoi. Estava distraída. O que estava dizendo?

-Está triste porque não pode ter filhos com Yashamaru, não é? —Okoi disse categórica, sem enrolar.

Akane sabia bem que não poderia disfarçar. Apesar disso, não a respondeu de imediato. Somente bastou-se a assentir a ela discretamente.

-Yashamaru seria mesmo um bom pai. —Okoi falou a ela com um sorriso. —Os pequenos do clã eram muito apegados a ele. Lembra?

-Lembro. —Akane concordou sorrindo juntamente, embora houvesse uma nuance entristecida na maneira que aquela curvatura em seus lábios se dispôs, ela ainda assim o fez.

-Agora que recuperamos os outros do clã e que todo esse pesadelo finalmente acabou, há algo que andei pensando nesses dias e que gostaria de compartilhar com você.

-Ahn? O quê é? —Akane indagou com curiosidade.

Okoi enfiou a mão na bolsa improvisada de tecido que pendia de seus ombros. Chacoalhando um pouco com a mão dentro do involucro, não demorou muito a encostar no objeto que a fez se retesar por um momento. Estando familiarizada com aquele desconforto, ela logo ignorou a sensação e o puxou de uma vez só.

O que saiu de lá foi uma rústica tornozeleira de aço que fez Okoi retesar o corpo pela segunda vez. Sabendo bem do que se tratava, Akane pegou o material da sua mão num movimento rápido.

-Por que está me mostrando essa coisa? —Akane indagou sem entender, encarando dos encantamentos talhados no objeto para ela.

-Você sabe bem como isso funciona, não sabe?

-Sei, ué. —Akane deu de ombros ainda sem compreender. —Esses encantamentos selam o fogo que há dentro de vocês. O que tem?

Okoi assentiu em positiva.

-Esse material não só sela, mas também suga o fogo que habita em nós. Quando colocavam essa coisa em nossos corpos, nossa energia é exaurida. Lembra do que Yashamaru falou com você na batalha contra Aoto?

-Sim. Ele usou mesmo essa palavra. Disse que precisava que eu o soltasse porque isso estava sugando as energias dele. —Akane ponderou ainda confusa. —Mas, o que tem isso?

-De vez em quando os yokais escorpiões usavam esses objetos em si mesmos. E conseguiam produzir fogo, o nosso fogo. Mas, como não durava muito tempo, eles não se interessaram muito por isso. E, na realidade, sentiam-se já muito completos com aquele veneno.

Akane compreendeu o ponto que aquela yokai queria chegar. Arregalando os olhos não conseguiu mover os lábios.

-Acho que já entendeu. —Okoi disse com um sorriso sincero. Pegando na mão livre de Akane, ela a fitou carinhosamente. —Quero dar isso a você. Para que possa ter um filho com Yashamaru.

-Okoi... —os olhos de Akane tremeluziram. Apertando as mãos da outra contra a sua, ela sentiu o coração explodir contra o peito. —Isso não é doloroso para você? Digo, em todos os sentidos! Não posso aceitar, é demais!

-Akane, eu fui escravizada durante trinta anos. —Okoi balançou a cabeça em negativa com um sorriso de canto. —Trinta anos tive meu poder exaurido e utilizado por yokais da qual possuo profundo desprezo. Mas, hoje, posso emprestá-lo a você e fazê-lo verdadeiramente útil.

-Mas... —Akane estreitou os olhos marejados. —Não deve nada a nós. Muito pelo contrário...

-Também não me devem nada. —Okoi deu de ombros. —Mas, mesmo assim, nós nos amamos, ainda que de formas diferentes.

Diante de tudo que aquela yokai havia passado, todos os tormentos e humilhações, ainda assim, estava Okoi tendente a ajudá-los de bom grado,emaranhando-se numa situação mais do que inusitada!

Akane não conseguiu evitar uma lágrima que irrompeu do seu rosto. Na verdade, ela nem havia se dado conta de que começara a chorar emocionalmente. Só reparou quando Okoi limpou suas lágrimas com o polegar.

-Será que você não cansa de ser tão sentimental, Akane? Que cansativa...

A loira sorriu com aquela frase que remontava o passado e não mais se impedindo abraçou forte a yokai dos olhos azuis.

-Obrigada... Obrigada, Okoi...

...

Havia uma presença há tempos esquecida no interior do castelo. Não sendo uma personalidade de tão bom grado e tampouco que causava espasmos de alegria por onde passava, aquela mulher sentia a mesma aversão, quiçá maior, por ter saído dos seus domínios a fim de encarar aquele yokai dos olhos âmbar.

Escoltada por cinco yokais poderosos, ela não teve muita alternativa a não ser ceder as ordens daquele senhor feudal que exigia sua presença o quanto antes. Grunhindo num misto de tédio e insatisfação, não tardou a pegar suas coisas e gastar as solas do sapato em meio ao inverno rigoroso.

De volta depois de tantos anos, Cho pisou na madeira lustrosa com cara de quem comeu algo estragado.Não fazendo questão de esconder o quanto estar naquele lugar a desagradava imensamente, vez ou outra endurecia mais ainda a face bela e praguejava mentalmente o infortúnio que era ter seu sossego interrompido.

Quando Sesshoumaru preencheu seu campo de visão ao lado do yokai sapo, ela não sabia se agradecia aos céus por finalmente ele aparecer e sendo assim quanto antes partiria ou se xingava por estar outra vez naquela vida na sua presença.

-Sesshoumaru... —Cho falou o nome do yokai com apatia e poucadeferência. —Que pena o rever.

-Rá! Mas é muito! —Jaken ralhou rispidamente a ela, apontando seu bastão de duas cabeças na direção da outra. —Você não tem um pingo de respeito sua bruxa atrevida!?

-Yokai sapo. —ela o fitou com uma única sobrancelha arqueada. —Você continua uma criatura tão horrorosa que dói os olhos.

-O QUÊ!? —Jaken saltou com ira. —SUA INSOLENTE! VOCÊ...

-Já chega, Jaken. —Sesshoumaru falou secamente interrompendo a briga inócua que iria começar.

Jaken não teve outra alternativa a não ser engolir a seco, cruzar os braços e virar a cara para Cho em desdém.

-Diga, Sesshoumaru, por que é que me chamou aqui depois de tantos anos? —Cho indagou repousando uma das mãos nos quadris com o olhar incisivo. —Sabe que tive que me virar sozinha contra aqueles yokais escorpiões? Aquilo foi uma merda, se quer saber.

-Não me interessa nenhum pouco. —Sesshoumaru respondeu categórico. —E também não me agrada estar frente a frente com você novamente.

-Hm. Como sempre afiado. —ela bufou girando os olhos. —Diga de uma vez. Estou ocupada com algo importante, vim aqui porque disseram que era urgente.

Mas, antes que Sesshoumaru pudesse explicar, Rin apareceu no ambiente um pouco esbaforida. Abrindo a porta do recinto num tranco, ela atraiu todos os olhares para si.

-Desculpe, os fiz esperar? —Rin indagoutentando recuperar o fôlego e fechando a porta atrás de si.

-Veja só você! —Cho falou com um sorriso ao analisá-la de cima a baixo. —Continua com a mesma aparência, conforme o previsto!

Reparando em Rin analiticamente, Cho notou o cordão que havia a dado há anos. A pedra verde reluzente pendida num capim-dourado singelo.

Franzindo o cenho para o objeto, ela não evitou comentar.

-Ainda carrega isso com você?

-Ahn! —Rin voltou os olhos para o relicário exposto, e tratou de colocá-lo de volta dentro do kimono. —Sim! Sei há muitos anos que ele não funciona, mas, não consigo me livrar dele.

-... Esquisita. —Cho falou sem ponderação, e no mesmo instante voltou os olhos para Sesshoumaru. —Por que sinto que esse diálogo não avança? O que querem de mim? Creio que não seja saudades de bater papo.

Jaken iria protestar pelos modos da mulher audaz, mas Sesshoumaru colocou o braço na frente dele e prosseguiu sem abalo no timbre.

-Havia dito que a parte da energia sinistra que havia ficado em Rin não a faria ter poderes como um yokai, que essa coisa só a ajudaria a ter uma vitalidade maior assim como manter sua aparência.

-E daí? —Cho indagou dando de ombros sem qualquer emoção.

-Durante um embate contra um dos yokais escorpiões no castelo, consegui repelir um golpe sem dificuldade. —Rin respondeu com os olhos centrados. —E mais do que isso, eu o ataquei com muita força! Senti toda essa energia fluir dentro de se fosse algo que pudesse moldar, por um minuto, consegui controlar essa força. Achávamos que poderia nos ajudar a entender o que aconteceu.

-Hm! Agora ficou mais interessante. —Cho falou colocando a mão no queixo em ponderação. —Vejamos... Dentro desse dia, o que mais aconteceu?

-Yoshiaki, meu filho, ele também teve um despertar intenso. —Rin continuou a respondê-la pacientemente e aproximou-se um pouco mais.

-O sangue de Sesshoumaru e a energia sinistra de Shinichiro juntas... —Cho continuava a refletir. —Deve ter sido difícil para esse meio-yokai. Como conseguiram pará-lo?

-Isso não vem ao caso. —Sesshoumaru respondeu taxativo. —Como bem disse, não a chamei para bater papo. Quero saber o que pensa a respeito da situação de Rin.

-Hm... —Cho o fitou de canto com dissabor. Ela simplesmente odiava a maneira que Sesshoumaru se referia a sua pessoa, e muito menos quando ele usava suas próprias palavras contra ela mesma.

-E então? —Jaken a estimulou com os olhos curiosos.

-Bem... Acho que tenho uma tese para isso. —Cho disse tomando um tom sério, cruzando os braços na altura dos seios protuberantes. —Pode ser que pelo filho de vocês ter despertado, essa energia sinistra possa ter atiçado a outra parte que antes jazia adormecida, nas devidas proporções, dentro do seu corpo.

-Ah! —Jaken pulou. —Isso faz mesmo sentido, senhor Sesshoumaru.

-Claro que faz, eu não sou idiota. —ela respondeu com um tom airoso.

-Então acha que a energia sinistra do corpo de Yoshiaki tentou se comunicar com a que ficou em mim? —Rin indagou compenetrada na tese.

-Creio que não tenha outra explicação lógica para isso. —Cho falou a fitando seriamente. —No mesmo momento que o garoto surta, você consegue repelir um golpe de um yokai sem dificuldade. Coincidência, não?

-Ahn! Acha que isso pode acontecer de novo?

-Tsc, sou bruxa, não vidente. —ela escarneceu, mas não tardou a puxar o semblante sério de antes. —Mas, se fosse você tentaria aprender a controlar isso.Já que conseguiu uma vez, quem sabe se essa energia sinistra não esteja implorando por sua atenção.

-Controlar... —Rin repetiu atônita olhando para Sesshoumaru de soslaio.

-Como disse no passado, torno a repetir, o seu caso é imprevisível. Não há outro precedente como esse na história. Só podemos trabalhar com suposições.

-Como Rin iria conseguir controlar isso? —Jaken indagou pouco convencido. —Em todos esses anos um único episódio aconteceu. Não deve ser assim tão fácil.

-Não disse que era fácil. Mas, tendo feito uma vez, pode ser que ela comece a compreender o que habita dentro de si.

-Hm... —Rin refletiu naquelas palavras, e de certo, havia mesmo algo dentro de si que não reverberava como antes. —Talvez eu consiga...

Sesshoumaru a fitou em silêncio. Embora não esboçasse, havia um misto de orgulho pela mulher que como sempre estava a surpreendê-lo incessantemente.

-Você já morreu uma vez, não foi? No passado? —Cho a indagou seriamente.

-Ahn, sim! Fui trazida de volta por Tenseiga e...

-Trouxe-a de volta do submundo com a ajuda da minha mãe. —Sesshoumaru disse lembrando do outro episódio.

-Hm. Pelo visto você tende a ressuscitar continuamente. —Cho disse um tanto impressionada. —Talvez isso também diga muito. Quando se volta a essa vida, não se retorna como antes.

Aquilo era mesmo verdade. Sesshoumaru compreendia.

Ao menos, na primeira vez, onde devolveu a vida a pequena garotinha muda que insistia em oferecer-lhe alimento e cuidados, ao retornar, Rin surgiu numa roupagem falante da qual esbanjava uma alegria ímpar.

-Se era só isso, preciso ir... —Cho disse desviando o olhar dos três. —Estou realmente ocupada.

-Ma-Mas, não consegue nem ao menos auxiliar Rin com isso? —Jaken rebateu incrédulo.

-Você me superestima. Fico lisonjeada. —Cho sorriu ironicamente e apontou na direção de Rin. —Isso é uma coisa que ela precisa fazer sozinha.

Rin colocou a mão no peito reflexiva, mas, sem baixar a cabeça, assentiu com determinação.

-Está certo. —Rin disse sem esmorecer. —Tentarei.

...

Assim que Cho girou os calcanhares com bendito alívio, Jaken em igualdade, deixou Sesshoumaru e Rin a sós num dos cômodos do castelo.

A mulher dos olhos amendoados bem que tentara evadir quando tudo se acabou, mas não contara que Sesshoumaru a impediria de fazê-lo.

Segurando em seu pulso ao notar que Rin o deixaria para trás, ela acabou cedendo ao toque do marido, voltando a ele.

-Fique um pouco. —Sesshoumaru disse a mulher.

Sorrindo brevemente, Rin acatou ao pedido.

Sentaram-se então na acolchoada almofada que os abraçava ternamente. Sesshoumaru com as costas eretas mantinha o encosto atrás de si e Rin, entre suas pernas, apoiava as costas no peito caloroso do yokai a qual costumava se perder nas mais diversas carícias.

-Precisa descansar um pouco. —Sesshoumaru falou enquanto afagava os cabelos abaixo de si.

-Fico nervosa em deixar Yoshiaki. Você sabe como eu sou... —ela sorriu cerrando os olhos ao sentir aquele carinho terno.

-Ele ficará bem.

-Eu sei, ele não tem mais febre. E hoje muitos dos ferimentos já cicatrizaram.

-Logo acordará.

-Bom, pra falar a verdade ele não está realmente só. —Rin falou aconchegando-se mais um pouco nos braços alheios. —Sabe, Souichiro se ofereceu para ficar com ele lá.

-Hm! —Sesshoumaru franziu o cenho a contragosto. —Esse yokai me irrita.

-É... Eu sei. —Rin sorriu ainda com os olhos fechados. —Mas, ele pareceu sincero quando se ofereceu a concordou, então, não achei que teria problema.

-Para alguém como ele ser tão prestativo de uma hora para outra, no mínimo é de se causar questionamentos acerca das suas reais intenções.

-Mas, estarmos juntos agora assim, não é uma prova viva de que podemos mudar?

-... Se é o que acha...

Não tendo argumentos diante da frase óbvia da esposa, preferiu não mais debater sobre o assunto. Cansado de queimar a própria língua, aquele yokai já havia aprendido a lição de não assumir as coisas como algo imutável.

-Não é incrível como já faz vinte anos desde que Yoshiaki nasceu? Sinto que o tempo é o nosso pior inimigo no fim das contas.

-Um do qual não se pode lutar.

-É. —ela assentiu e num súbito alegre virou-se para ele ainda emaranhada em seus braços. —Lembra, Sesshoumaru! Lembra de quando Yoshiaki era apenas uma criança? Ele corria pelo castelo, ficava se escondendo de mim! Vivia subindo na cerejeira mais alta!Assustavao senhor Jaken toda vez que estava a tomar chá comigo! Quantas vezes o senhor Jaken não correu atrás dele para lhe dar um safanão?

Ela riu com aquelas lembranças e Sesshoumaru a correspondeu com um sorriso breve.

-Ele era tão agitado...

-A inquietude dele só mudou, Rin. Agora Yoshiaki busca outras coisas.

-Tem razão...—ela assentiu voltando a deitar no peito do marido.

Dando um bocejo, Rin pegou uma mecha do cabelo prateado que pendia pelos ombros do yokai imponente. Brincando com os fios, os enrolando no seu dedo indicador, ela foi se sentindo cada vez mais sonolenta. Enebriada pela quentura e pelo cheiro que aquele yokai exalava, ela o abraçou mais contra o corpo.

-Como é bom estar com você. —ela disse esfregando a cabeça monotonamente no peito de Sesshoumaru. —Nunca irei me cansar. Espero que não se canse também.

-Como isso seria possível? Sabe que basta me chamar para que eu vá imediatamente até você. Ainda que estejamos distantes, seria capaz de ouvi-la. Há tempos que faz parte de mim. Amarrada ao meu coração.

Rin sorriu sentindo todo o seu ser se inundar. Lutando contra o esmorecimento do seu corpo exausto, ela desvencilhou-se um pouco do senhor feudal a fim de fitá-lo nos olhos. Tocando no seu rosto carinhosamente, ele colocou a mão por cima da dela.

-Eu te amo.

-Eu te amo, Rin.

Por fim, seus lábios se encontraramdiante da previsibilidade do momento. Um beijo terno e adocicado.

Sesshoumaru a tomou nos braços com ardor. E como se fosse a última ou primeira vez que fazia, aprofundou o beijou na boca vívida que se movia em compasso perfeito com a sua.

Era de praxe. Rin sempre fora capaz de desarmá-lo com singelos movimentos. Bastava uma única olhadela para que ele se jogasse aos seus pés sem qualquer resistência.

Aquilo era um fato irrefutável da qual não podia resistir. Sua natureza gritava por ela. Então, não havia o que se fazer a não ser obedecer.

E ceder.

Ceder a uma inacreditável e simples humana.

A mulher da sua vida.

...

Souichiro estava recostado na parede. Com os braços cruzados e as pernas esticadas encontrando-se na proximidade dos pés, olhava de soslaio para Yoshiaki que não havia movido um único músculo desde que ficaram a sós.

Já havia escurecido. A pouca luminosidade das velas bruxuleantes os afundava num lusco-fusco cálido.

O silencioso castelo, o fez notar que a neve do lado de fora voltava a cair pesadamente. O vento gelado, ora ou outra perpassava por entre as frestas, e dava um tom mais melancólico do que aquele yokai gostaria de experimentar.

Respirando pesadamente, ele tentava desviar os olhos daquele meio-yokai há um bom tempo. Sem sucesso na empreitada, imaginava que aquele veneno só poderia tê-lo enlouquecido mais do que já estava.

Balançando a cabeça em negativa, ele esfregou os olhos trôpegos.

-Que porra é essa que você está fazendo, Souichiro? —ele indagou para si mesmo com incredulidade.

Num súbito, Souichiro sentiu algo diferente brotar no cômodo. Não ignorando a sensação, voltou seus olhos com curiosidade para Yoshiaki.

Inicialmente, os olhos cerrados se remexeram por trás das pálpebras que pareciam pesar toneladas. Como quem está a lutar contra a inconsciência ou talvez combatendo a dor sôfrega em seu interior, Yoshiaki franziu a face numa nuance sofrida.

Sem conseguir controlar seu próprio corpo, Souichiro pulou para o seu lado a fim de tentar decifrar o que acontecia. Com preocupação evidente, no mesmo instante que iria tocá-lo, Yoshiaki despertou de uma só vez.

E uma vez mais aconteceu o encontro inusitado dos seus olhos.

Não houve tempo para se preparar, disfarçar ou fingir desdém. Como na outra circunstância, o olhar penetrante dos olhos âmbar o invadiu sem qualquer cerimônia. Batendo dentro do seu ser com exuberância explícita, foi difícil conter o rebuliço que se instaurou apressadamente nas suas veias.

-Souichiro... —Yoshiaki pronunciou seu nome, com o timbre abafado e a testa franzida demonstrando confusão.

Conferindo se aquilo era mesmo real ou parte de um sonho, Yoshiaki o segurou pelo pulso num ímpeto. Aquele toque quente provocou uma torrente na pele alheia e involuntariamente na sua. Assombrado pela sensação e constatando que Souichiro era mesmo real e não parte de um delírio, o meio-yokai desviou o olhar e pôs-se a arranhar a garganta um tanto constrangido.

-...Estou mesmo aqui. —Souichiro disse desviando em igualdade os olhos verdes-oliva.

Erguendo metade do corpo com cuidado, Yoshiaki gemeu baixinho pela dor que o assomava. Uma fisgada em seu flanco direito o fez retesar involuntariamente.

Colocando a mão nas costas de Yoshiaki e em seu ombro, Souichiro o ajudou a sentar. Quando ele finalmente conseguiu, apoiou as costas na parede atrás de si num arfar pesado. Ajeitando-se com o cenho franzido, o platinado que agora possuía uma fina mecha vermelha na franja, levou a mão direita ao flanco esquerdo e respirou pesadamente com a fisgada naquela região.

-Não era melhor continuar deitado? —Souichiro indagou arqueando uma sobrancelha.

-Parece que trocamos de lugar. —Yoshiaki disse dando um sorriso em meio a face nauseabunda.

-É... É o que parece. —Souichiro concordou sorrindo igualmente a ele.

-Como está se sentindo?

Souichiro teve que balançar a cabeça em negativa. Aquela criatura jazia mais ferida do que nunca, e ainda assim, estava preocupado com a sua condição. Ele fazia aquilo de propósito? Não sabia dizer. Mas, aquela característica o acariciava com devoção.

-Disse que eu não sou fácil de morrer, não disse? —Souichiro deu uma piscadela a ele. —E pelo jeito você também não é.

-Acho que não... —Yoshiaki disse recostando a cabeça na parede com uma respiração pesada. —Não sei se isso é bom ou uma maldição. Houve momentos que desejei que meu corpo não fosse tão teimoso.

-Tsc! Queria mesmo morrer para um yokai como aquele? —Souichiro ralhou a ele. —Depois de tudo que aconteceu... Como desistir no final? No fundo, tenho certeza que você também pensou assim.

Yoshiaki refletiu nas palavras de Souichiro. Quem sabe aquilo não fosse mesmo verdade? Apesar de não saber, ele postou-se a assentir.

Revisitando a mente no silêncio que os embarcou, ele lembrou-se que havia algo importante da qual precisava dizer.

-Souichiro...

-Hm?

-Obrigado. —ele falou de uma só vez. —Obrigado pelo que fez por mim.

Havia muita coisa que Souichiro queria ouvir dos lábios de Yoshiaki. No entanto, aquela palavra não era uma delas. Depois de tudo, ouvi-lo agradecê-lo, soou mais do que inacreditável.

Que raios de criatura era aquela? Será que ele não havia entendido nada do que acontecera?

Num efeito rebote, Souichiro sentiu um desconforto brotar no peito. Uma ansiedade impossível de calar.

Yoshiaki não mais o fitou. Depositando os olhos nas velas crepitantes, ele pareceu flutuar em seus pensamentos. Solos estes desconhecidos e inalcançáveis para um senhor feudal mais do que agitado.

Vendo-o daquele jeito, por baixo de uma luz desmaiada, onde os feixes de tamanhos disformes emolduravam a face num misto de tranquilidade e sombras, Yoshiaki pareceu genuinamente bonito. Talvez mais do que antes. Mais do que nunca. Aquela visão acariciou os olhos verdes-oliva do outro que não acostumado a calar e se impressionar pegou-se de repente a deslumbrar aquela figura. Os tons avermelhados que os olhos do meio-yokai ora ou outra emanavam por cima dos âmbares, bem como a postura ereta e serena o fez lembrar mesmo alguém...

Talvez por isso, envoltos ao breu, numa atmosfera nostálgica, Souichiro não tenha conseguido controlar o próprio -se da razão e da possibilidade da veracidade dos seus devaneios, ele o agarrou pela pala do robe negro na urgência que lhe cabia. Seus olhos chispantes engoliram Yoshiaki de uma só vez que se apresentava completamente aturdido pelo movimento enérgico.

-Obrigado é o caralho!

-Ahn!? Ficou malu...

Sem dar chances para Yoshiaki retrucar, o senhor feudal inclinou o corpo para frente e colou seus lábios com os do outro de uma só vez.

Um susto e tanto!

Yoshiaki ficou sem saber o que fazer, afinal, nunca beijara alguém na vida e tampouco imaginava que se um dia aquilo fosse acontecer não seria com um yokai! Então, o beijo roubado soou verdadeiramente espantoso. Primeiro porque nunca pensara na possibilidade e segundo por ser quem era.

Por mais que fosse muito estranho e incoerente e que seus pensamentos tivessem dado um curto circuito, foi inevitável conter o batimento acelerado do seu coração assim como o tremeluzir do seu corpo que parecera ceder em rendição para aquela percepção totalmente nova.

Esmorecendo ao sentir o calor do outro impregnar suas células e o cheiro amadeirado invadir suas narinas sem a devida vênia, sucumbiu ao que quer que fosse aquela coisa. Correspondeu então, ainda que não soubesse exatamente como e porquê.

E tudo ficou pior para Souichiro.

Porque Yoshiaki não lembrava legitimamente aquele outro ser do passado. Nem de longe pareceu quando sua língua roçou com a alheia. Nem o aroma, nem o toque em seu braço e muito menos o queimor.

Mas, estranhamente aquilo não o decepcionou. Ao contrário, fez seu coração que quase nunca se abalava batucar contra o peito de maneira torta e violenta.

Era terrivelmente pior! Há um nível extremo!

Pois, a sensação de beijar Yoshiaki fora infinitamente melhor.

Quase o fez desmaiar.

Não assustou só um pouco, assustou com tanta intensidade que ele ficou na dúvida se deveria retirar sua boca de dentro da do outro ou se necessitava o engolir cada vez mais dentro de si.

As palavras de Mitsue, num passado não muito remoto, não poderiam ter calhado melhor diante daquela situação.

"Temos que parar de ficar buscando Shinichiro nos outros. Precisamos superá-lo. E acima de tudo, aceitar que gostamos de outros por eles mesmos e não por nos lembrarem dele".

Yoshiaki não era mesmo como Shinichiro afinal...

"Puta que pariu..." Souichiro pensou atônito. "Que porra é essa!?"

Não estava depositando seus sentimentos conturbados em outrem. Aquilo seria mais fácil de lidar.

Liberando os lábios de Yoshiaki, Souichiro sorriu para si mesmo ao notar que arfava. E depois riu baixinho, brevemente, por ver o rosto de Yoshiaki tão corado e com a respiração ofegante.

Colocando a mão ao lado da cabeça do meio-yokai, ele se inclinou outra vez, mas na ocasião, somente o fitou com intensidade e com um sorriso irônico de canto.

-O que é que você está fazendo comigo?

...

CONTINUA...