Capítulo 37 —Oculto.

-Estão preparados!? —Rin indagou com empolgação e com os olhos mais brilhosos do que o sol a pino do verão escaldante sob as suas cabeças.

Sesshoumaru, Jaken e Yoshiaki bastaram a assentir na expectativa.

Rin os havia convocado impreterivelmente para o seu lugar da qual ela denominou de "campo de treinamento". O que nada mais era do que as costas do castelo onde debruçada sobre si mesma por longas horas a fio em dedicação, ela descobria mais de si mesma e da sua nova força.

Fechando os olhos, Rin concentrou-se com seriedade e respirou fundo pelo menos duas vezes. No fim, ela não os fez esperar tanto, pois, ao atingir a epifania, logo uma corrente de ar perpassou pelos corpos alheios. Um vento que exprimia uma mudança abrupta na energia ao redor.

Tendo seu corpo totalmente preenchido, dos pés à cabeça, pelo formigamento já conhecido, ela abriu os olhos com decisão e os tons castanhos receberam a nuance avermelhada. Sem mais perder tempo, Rin espalmou com veemência no tronco grosso de uma árvore antiga que ao receber o seu golpe que mais parecia um tapa, veio a ceder duramente. Dividindo-a no meio.

Para um yokai, e principalmente, para um yokai como Sesshoumaru, aquele feito não era verdadeiramente uma coisa impressionante. Mas, ainda assim, ver que Rin fora capaz de realizar algo como aquilo ressonou notoriamente espantoso! Por que, quando é que ele iria imaginar que a mulher, da qual conhecia desde tão pequena, conseguiria derrubar uma árvore tão pesada e alta com uma única espalmada?

Está certo que ele a observava durante alguns dos seus treinamentos poucos convencionais. Mas, ainda não tinha visto com exatidão todo o seu progresso efetivamente.

De fato, aquela mulher havia vindo ao mundo para lhe fazer abrir a boca em estupefação.

Claro que Sesshoumaru não era o único com os lábios entreabertos. Tal postura foi inerente a Jaken e Yoshiaki que deram um salto ao verem com seus próprios olhos a senhora feudal tão delicada e risonha acabar com uma árvore numa só tacada!

-Viram só!? —ela disse animadamente voltando-se para eles.

-AHHHHH! Senhor Sesshoumaru! Não é que a Rin conseguiu mesmo! —Jaken falou dando pulinhos no solo com os olhos impressionados.

-Claro que ela conseguiu. —Yoshiaki disse dando um empurrão em Jaken. —Se ela disse que podia, então podia.

Sesshoumaru sorriu de canto e assentiu em concordância com Yoshiaki.

Dando uma corridinha na direção dos três, por um minuto, Rin sentiu-se um pouco tonta. Parando num súbito, Sesshoumaru logo percebeu que havia algo errado. Não dando chances para o que pensara se concretizar, ele rapidamente voou na direção da mulher e a impediu de chocar-se contra a grama úmida, a segurando pelos ombros.

-Rin? —Sesshoumaru a chamou preocupado.

Instantaneamente Yoshiaki e Jaken correram para perto dela, chamando-a igualmente preocupados.

-Não foi nada. —Rin disse sorrindo amarelo, erguendo-se novamente. —Só fiquei um pouco tonta. Deve ser o calor.

-Já disse para não se esforçar tanto. —Sesshoumaru falou serenamente sem a soltar.

-O senhor Sesshoumaru tem razão, Rin! —Jaken disse a abanando com as mãos.

-É melhor se sentar um pouco. —Yoshiaki falou com o tom preocupado. —Sente mais alguma coisa além da tontura?

-Já estou bem, de verdade. —Rin sorriu para os três, pondo-se ereta e desvencilhando-se gentilmente de Sesshoumaru. —Hoje está um pouco quente. Só isso.

-Vou pegar um pouco de água para a senhora. —Yoshiaki disse já virando-se de costas e se preparando para correr.

O meio-yokai não esperou o aval da mãe ou tampouco o seu protesto que ele imaginava que ela o faria. Posto que, ele conhecia bem a personalidade da sua progenitora. Se havia algo que Rin detestava era dar "trabalho aos outros".

Como se aquilo fosse algum trabalho...

Yoshiaki correu até a fonte que ficava próxima de onde estavam. A água cristalina que corria apressadamente por entre as pedras rústicas encontrava-se sempre gelada, o que naquela época do ano reverberava como um alívio e tanto.

De posse a um recipiente de bambu, Yoshiaki o preencheu com o líquido translúcido. Sentindo-se mais agitado do que o normal, a sensação que há um tempo o estava perseguindo o fizera retesar bruscamente. O sibilo constante, nos últimos tempos, ora ou outra abarcava os seus ouvidos e perturbava a sua mente.

Ele bem sabia o que era.

Depois do seu despertar, onde a energia sinistra bem como o sangue de Sesshoumaru fundiram-se dentro do seu corpo meio-yokai, a vida não voltara a ser a mesma de antes. Constantemente ele se pegava tendo que reprimir aquele som agudo que quase ensurdecedor o fazia perder o tino.

Seu espírito estava inquieto e ele temia não ser capaz de controlá-lo com o passar do tempo.

Respirando fundo, buscando retomar o eixo, o sibilo dissipou-se como se nunca tivera existido. A água que corria abaixo de si, reluzia seu olhar avermelhado, que pouco a pouco voltava aos âmbares de antes.

Recobrado o controle do corpo, ele correu de volta.

Naquela altura, Rin já estava sentada embaixo de uma árvore enorme que produzia uma sombra considerável. Sesshoumaru a havia repousado lá e se postado ao seu lado, bem como Jaken.

-Por que demorou tanto, Yoshiaki!? —Jaken esbravejou com uma carranca mal-humorada.

-Não precisava, meu filho. —Rin disse balançando a cabeça em negativa.

-Claro que precisava. Toma, beba um pouco. —Yoshiaki falou agachando-se a sua frente e apontando o receptáculo de bambu com a mão esquerda para que Rin a pegasse.

Sesshoumaru franziu o cenho para aquele movimento.

-Obrigada. —Rin disse pegando o objeto e tomando um gole de água generoso.

Yoshiaki sorriu para a mãe. Logo, ergueu-se novamente e pôs-se a segurar o braço direito trêmulo com sua mão esquerda.

O senhor feudal voltou a reparar. Mas, não proferiu qualquer palavra.

...

No final da tarde, de posse aos pergaminhos, Sesshoumaru analisava em silêncio os novos acontecimentos no mundo feudal bem como suas próprias conquistas, propostas e movimentações do Oeste nos últimos tempos.

Depois da queda de Ryotaro, sob as circunstâncias mais inesperadas possíveis, não era surpresa ouvir numa conversa aqui e ali entre clãs menores ou proeminentes que definitivamente não haveria qualquer chance contra o vasto império que o yokai dos longos cabelos platinados tinha erguido.

Não havia uma alma viva disposta a ir de encontro, por isso, comumente, Sesshoumaru recebia inúmeras ofertas de aliança. A maioria não o apetecia. Fingindo não as ver, ele bastava a negligenciar. Haja vista que o que menos faltava era algum yokai que se intitulava impressionante achar que poderia lhe ser útil de alguma forma. Sendo que...

Não, não seria!

De sorte, aquelas personagens excêntricas tinham outro a quem recorrer. Clarividente, o senhor do Sul!

Dificilmente Souichiro virava a cara para quem quer que fosse. Contanto que o bajulassem e cedessem aos seus mais inusitados pedidos, desde uma humilhação para fazê-lo rir até chorar à um kimono novo tecido a mão, ele convencia-se e colocava para baixo das suas asas.

Então, como há tempos, ambos os senhores seguiam na dualidade inerente das suas personalidades díspares.

Vendo a última aliança de Souichiro com o clã das carpas cujo no mínimo poderia ser classificado como uma associação terrivelmente escarnecida, Sesshoumaru teve que balançar a cabeça em negativa e falar para si mesmo.

-Ridículo.

Mas, o Lord imponente não demorou muito a ter seu momento interrompido. Pois, anunciando sem alarde a sua presença, Yoshiaki num segundo esgueirou-se para dentro do cômodo com o andar mais solene que poderia fazer.

Sesshoumaru não se deu o trabalho de erguer os olhos, esperou que o filho se encaminhasse para mais perto de si.

-Meu pai. —Yoshiaki o chamou seriamente. —Há algo que preciso lhe falar.

-E o que está esperando para dizer? —Sesshoumaru indagou erguendo parcialmente os olhos da folha a suas mãos.

-Preciso partir. —Yoshiaki disse sem abalo no timbre, de uma só vez. Ele sabia bem como o pai odiava delongas.

Nada surpreendente. Sesshoumaru já estava esperando por aquilo. Por isso, não fez cara de espanto e tampouco questionou sobre o motivo do filho desejar ir embora.

-Faz um tempo que está sendo difícil controlar essa energia sinistra e o sangue herdado pelo senhor. Sinto que meu corpo cederá. —Yoshiaki continuou a dizer com o semblante concentrado. —Preciso encontrar meu caminho e acima de tudo dominar essa força dentro de mim.

-Hoje mais cedo, do lado de fora, isso aconteceu.

-Sim. —Yoshiaki assentiu sem abalo e hesitação. —Queria ter tomado essa atitude antes, mas, sabia que minha mãe sofreria por conta das últimas coisas que aconteceram. Então, resolvi esperar mais um pouco. Só que...

-Está ficando difícil. —Sesshoumaru completou o raciocínio.

-É.Tenho estado inquieto. —Yoshiaki admitiu. —Qualquer movimentação inesperada ou fora do eixo, acaba me aturdindo mais do que o normal.

-Compreendo.

Sesshoumaru ergueu-se e caminhou até Yoshiaki que se manteve firme, sem desviar os olhos.

-Onde exatamente pensa ir? —Sesshoumaru indagou com o timbre firme parando há alguns passos de distância do filho.

-Devo confessar que não sei bem. —Yoshiaki sorriu de forma amena sem relaxar a postura alinhada. —O que sei é que continuar no castelo não me ajudará a controlar esses instintos.

-De fato. —Sesshoumaru concordou.

-Um dos meus pensamentos caminhou a direção de Toutousai. Mas, creio que precise fortalecer o meu espírito primeiro assim como esse instinto inquietante.

Sesshoumaru legitimava o desejo de Yoshiaki. Na realidade, poderia dizer que estava orgulhoso da postura que a cria havia tomado. Evidentemente, ele não poderia esperar menos daquele que sempre apresentou desde a tenra idade ser capaz de pensar por si mesmo e de tomar decisões harmoniosas.

-Por isso, vim até o senhor. —Yoshiaki prosseguiu respeitosamente. —Preciso da anuência do senhor para poder seguir esse caminho.

-Já que quer partir... —Sesshoumaru o fitou com os olhos incisivos. —É melhor que volte com algo digno.

-Sim,meu pai. —Yoshiaki curvou-se brevemente de forma cortês.

O meio-yokai sabia o quanto Sesshoumaru podia ser rigoroso, mas na ocasião não sentiu receio. Só uma crescente em seu peito.

Talvez por isso, quando o pai lhe deu as costas para voltar aos seus afazeres, ele o tenha impedido sutilmente o segurando pela mão direita. Abotoando seus dedos nos do senhor feudal tão impassível e de poucas palavras.

Por um breve instante, Sesshoumaru surpreendeu-se com a atitude do filho. Afinal, fazia quantos anos que não tinham um contato físico como aquele? Não era necessário ponderar muito a respeito, pois, desde que Yoshiaki começara a desenvolver-se, abandonando a infância pueril onde não conseguia manter o decoro e o alinhamento, os momentos carinhosos passaram a espaçarem na mesma proporção que ele crescia.

A imagem daquela criança que possuía sentimentos tão exasperados não tardou a surgir por entre as memórias do yokai sisudo. Num segundo, Sesshoumaru o vislumbrou tão pequeno e agitado. Com os bracinhos diminutos bem como os dedos finos e pequeninos que entrelaçavam nos seus, e ele, não se evadia de apertá-los de forma afetuosa.

Sesshoumaru sorriu brevemente ao voltar a Yoshiaki.

-Já não está muito grande para isso?

-Estou. —Yoshiaki sorriu de volta.

E como no passado, Sesshoumaru afagou o topo da cabeça do seu filho.

...

Os últimos raios solares desmaiaram pelo chão da oficina do castelo.

Um entretom quase lastimoso que, no entanto, não foi suficiente para dissipar a atenção mais do que concentrada da meio-yokai dos olhos rubis.

Com o kimono de seda delicado erguido na altura dos cotovelos, lá estava Akane sentada de qualquer jeito batendo com o auxílio de um martelo na espada flamejante com a máxima devoção. O som do metal chispava para além do recinto e inevitáveis fagulhas voavam em todas as direções com o atrito inerente do aço pesado.

O suor empapava sua testa, grudando a franja bem desenhada na altura dos olhos. Mesmo com os cabelos presos no seu costumeiro rabo de cavalo, o calor do lado de fora aliado ao esforço que fazia, não contribuíam para um frescor agradável, ocasionando o inconveniente gotejamento do seu ser.

Erguendo a lâmina trabalhada próxima a sua face, Akane esfregou as costas da mão na testa suada e limpou na roupa, na altura dos quadris, onde com o movimento, caso alguém estivesse presente, poderia ter notado a sutil barriga pontuda surgindo por entre o tecido estampado.

Não se convencendo do trabalho, Akane franziu o cenho insatisfeita. Sem delongas, voltou a espada para a bancada a fim de dar-lhe mais alguns açoites com o martelo pesado.

Levantando o martelo acima da sua cabeça, buscando impulso e direcionando sua força, ela não conseguiu concluir o movimento, pois, teve o objeto tirado da sua palma com maestria.

-O que você está fazendo!? —a voz urgente do outro soou as suas costas e quase a matou do coração pela atitude repentina.

-Ficou maluco!? —Akane deu um salto, virando imediatamente para trás com a mão no peito que reverberava o coração acelerado.

Yashamaru estava atrás de si, com o martelo em punho e um semblante incrédulo.

-Por que está fazendo isso? —ele insistiu com o tom repressivo.

-Isso o quê? —ela rebateu franzindo o cenho e erguendo-se do banco. —Cuidando da minha espada?

-Você é tão teimosa, Akane! —Yashamaru ralhou a ela enquanto jogava o martelo de volta a bancada de qualquer jeito o que ocasionou um som seco e pesado ao cair. —Por que não me pediu?

-Por que teria que te pedir? —ela indagou colocando as mãos nos quadris. —Sempre fiz isso sozinha.

-Não nessas condições! —ele apontou para a barriga discreta da outra.

Akane girou os olhos e tornou a sentar com os braços cruzados na altura do peito.

-Yashamaru eu estou grávida e não doente. Não seja dramático.

Ouvi-la dizer que estava grávida ocasionava mais do que um torpor no Comandante virtuoso. Yashamaru simplesmente não conseguia se acostumar e sempre ao constatar o fato, seus olhos brilhavam com um sentimento difícil de ser descrito.

Com Akane a sensação também não era muito diferente. Embarcando na onda da constatação óbvia da coisa, ela pôs-se a sorrir para o marido que não mais montava-se numa carranca indignada, e sim, devolvia a ela a mesma face sorridente.

Yashamaru passou a mão pelos cabelos úmidos da loira e em seguida repousou em seu ombro esguio.

-Só fico preocupado... Você sabe.

-Eu sei. —ela assentiu colocando a mão por cima da dele carinhosamente. —Mas, juro que não estou sendo displicente e que provavelmente daqui pra frente sua ajuda será bastante solicitada.

Yashamaru sorriu mais aliviado e satisfeito com a devolutiva. Em virtude disso, ele encurvou um pouco o corpo e a beijou nos lábios com afeto escancarado.

Sentando-se na frente de Akane, Yashamaru pegou nas suas mãos e entrelaçou seus dedos contra os dela afavelmente.

-Tem visto Okoi? —Akane indagou a ele com curiosidade.

-Ontem, de relance. —Yashamaru assentiu em positiva. —Perto da fronteira com o Sul.

-O que acha, Yashamaru? Acha que ela ficará por lá?

-Não sei. —o Comandante deu de ombros. —Mas, de todo modo, ela parecia bem. Estava com Tetsuo. Ao que parecia, numa vigília.

-Hm... —Akane ponderou ao ouvir aquele nome. —O que será que ele fez para recuperar boa parte do seu rosto? Não acha isso esquisito?

-Um pouco. —Yashamaru assentiu desvencilhando das mãos de Akane e ponderando em igualdade com ela. —O que sei é que no passado, aquele yokai, Shinichiro, o havia desfigurado com os seus corvos. Dizia-se ser uma técnica irreversível.

-Ninguém perguntou ainda a ele algo como isso?

-Sim, mas, pelo que me falaram a resposta foi muito vaga. —Yashamaru jogou o corpo um pouco para trás, apoiando-se na bancada as suas costas. —Parece que ele falou que conseguiu um meio de drenar a energia amargurada..., mas, dizem muitas coisas... —ele respirou fundo enquanto cruzava os braços. —Os boatos me cansam.

-Você poderia perguntar a ele. —Akane disse sorrindo entredentes. —Já que o encontra algumas vezes!

-Não é como se eu tivesse intimidade para perguntar algo assim. —Yashamaru arqueou uma única sobrancelha. —Não deixa de ser uma coisa pessoal. Não nos interessa.

-Ai, como você é chato! —Akane deu-lhe uma careta contrariada.

-Por que quer fazer fofoca dos outros? —Yashamaru riu brevemente. —Isso não é assunto nosso, Akane.

-Hm! Está me recriminando, mas até que você está sabendo das coisas... —Akane disse sarcasticamente, inclinando o corpo mais para frente.

-O que posso fazer se tenho ouvidos? —Yashamaru rebateu colocando os braços para trás da cabeça. —Sabe muito bem que os outros adoram falar da vida alheia. Ainda mais quando estão ociosos.

-É. Isso é verdade. —Akane concordou apoiando os braços nas pernas entreabertas. —De todo modo, que é estranho é.

-O mais estranho é pensar em quem está o ajudando. Conheço todos os yokais do Oeste e do Sul e nenhum deles possui uma habilidade que garantiria algo como aquilo. —Yashamaru colocou a mão no queixo numa nuance reflexiva. —Na verdade, até existe uma pessoa...

-Quem? —Akane o estimulou com um tom curioso.

-Quem mais mexe com esse tipo de coisa? —Yashamaru deu de ombros. —Só mesmo Cho.

-Hm! É mesmo!

-No entanto, ela não faz o tipo que ajuda alguém. Quer dizer, a menos que o outro possua algo da qual lhe interesse... No passado, quando estávamos atrás dela, ela exigiu a energia atrativa de Mitsue e depois a proteção de Sesshoumaru.

-É verdade. Ela cobra um preço alto. —Akane assentiu compenetrada no raciocínio.

-Será que Tetsuo teria algo tão valioso a ponto de persuadir Cho a ajudá-lo?

-Talvez... Ou, quem sabe Souichiro não tenha interferido por ele?

-Souichiro não suporta Cho. —Yashamaru disse balançando a cabeça em negativa. —Ela mesma disse isso no passado. Inclusive um dos motivos de Cho ter pedido proteção a Sesshoumaru foi por conta de Souichiro. Não imagino que ele cederia a ela.

-Que mistério. —Akane bufou voltando a postura ereta. —Pelo jeito só saberemos se ele contar.

-Seja lá o que for, que bom para ele. Deve ter sido um tormento viver tantos anos com o rosto todo encoberto.

Akane teve que assentir. E involuntariamente acabou refletindo no quanto aquela vida podia ser cruel. Em quantas coisas de repente acometiam sem data ou hora marcada. Ela bem sabia, pela quantidade de anos que já despontara por aquele mundo e circunstâncias que a rondaram, como as coisas eram efêmeras.

Por isso, ela franziu o cenho e levou instintivamente a mão ao ventre, onde um ser pequenino despontava num sopro inicial de vida.

-Está se sentindo mal, Akane? —Yashamaru indagou num tom preocupado, segurando novamente a sua mão livre.

-Ah, não... —ela falou voltando os olhos ao Comandante. —Só estava pensando.

-No que? Há algo errado?

Akane sorriu ao ver o semblante do outro tão agitado. Levando a mão de Yashamaru a sua barriga, ela sentiu o toque quente por cima da seda elegante.

-Que sorte a nossa de termos você. —Akane disse carinhosamente alisando a mão alheia em seu corpo.

Yashamaru não entendeu bem, mas não questionou. Seja lá o que a houvera aturdido por segundos, aquilo não teve forças para alterar o seu humor e otimismo. Então, invés de insistir na redundância, ele somente aceitou as palavras ditas de maneira tão afável e sincera. E, sem hesitar, inclinou o corpo para frente para poder beijar a barriga da esposa que o acalentou em seus braços.

...

Quando a noite caiu ainda fazia bastante calor nas terras do Oeste. Com o solo aquecido e com a escassez de ventos ou brisas afáveis, o fenômeno natural não ocasionou grandes mudanças na temperatura para infortúnio quase que geral.

Por isso, a fim de fugir um pouco da quentura, na espreita de uma madrugada mais amena que viria dentro de algumas horas, Rin postou-se na varanda em busca de um pouco de refresco. Utilizando um kimono curto sem mangas e estando na companhia de uma bandeja repleta de frutas frescas, a sensação de frescor logo veio para o seu alívio.

Terminando de abocanhar uma fatia generosa de melancia, ela mordeu uma maçã suculenta que fez um crac! entre os seus dentes firmes. Mas, diferente da outra fruta, aquela não lhe causou uma sensação agradável quando o sabor esparramou pelas suas papilas gustativas. Espalhando como erva daninha por todo o seu paladar, Rin teve que engolir o enjoo abrupto que a envolveu.

Sem querer, a mulher torceu a cara e o que havia dentro da sua boca tornou-se um tormento. Não conseguindo dar conta, ela acabou cuspindo na grama abaixo de si para que não viesse a fazer pior.

Olhando a fruta na sua mão, aparentemente, não havia nada de errado. Na realidade, a maçã estava satisfatoriamente vermelha e polpuda. Franzindo o cenho para aquela sensação um tanto familiar, ela ponderou se não estava a imaginar coisas.

Balançando a cabeça em negativa numa tentativa de afastar aqueles pensamentos da sua mente, Rin repousou a fruta na badeja desistindo totalmente de comê-la, bem como ao restante.

-Que esquisito... —ela disse para si mesma.

-O que a perturba? —a voz de Sesshoumaru soou as suas costas a fazendo virar de imediato.

-Hm... —ela sorriu entre dentes ao constatar a presença material do yokai tão perto de si. —Não é nada sério. Só tive uma impressão...

Rin tirou a bandeja recheada de perto de si e o chamou com a mão para que pudesse se sentar ao seu lado. Sem contestar, Sesshoumaru o fez e voltou seus olhos para ela.

-Yoshiaki irá partir pela manhã. —Sesshoumaru disse sem rodeios.

-É... —Rin assentiu um tanto taciturna. —Ele me contou a respeito.

-Precisa confiar nele. —Sesshoumaru falou a ela com seriedade.

-Eu sei. —Rin concordou recostando a cabeça no braço do marido. —Espero que Yoshiaki encontre o que procura.

Respirando profundamente, Rin tentou agarrar-se no fato de que a vida era mesmo daquele jeito. Não haveria algo que pudesse fazer para impedi-lo. Além disso, havia uma legitimação explícita no âmago daquela mulher quanto a postura do primogênito. Verdadeiramente compreendia que o filho precisava seguir adiante a fim de encontrar o seu próprio caminho.

Vendo os vagalumes surgindo gradativamente nos campos abertos, Rin dispersou aquele pensamento nostálgico da mente. A luminosidade intermitente dos insetos peculiares assim como os barulhos noturnos de uma natureza em constante movimento a fez lembrar-se de si mesma, das aventuras despontadas no passado tão remoto e outras nem tanto assim.

Quantas vidas aquele mundo não a permitiu viver e reviver? De certo, mais do que um dia ela imaginou.

-Que saudades de tempos como esses. —Rin disse deixando um breve sorriso escapar dos lábios. —Não é estranho pensar em quantas coisas passamos nessa vida?

-Há algum arrependimento? —Sesshoumaru indagou, voltando seus olhos para a mulher ancorada em si.

-Não. —ela falou o encarando de volta docemente. —Não há outro lugar que eu queira estar e não existe outra vida que gostaria de ter. Em nenhum segundo isso passou pela minha cabeça. Sabe que eu o seguiria onde você fosse. Sempre o segui. Até mesmo quando não estávamos juntos o seguia nos meus pensamentos, nos meus sonhos. Nunca estive longe, nem mesmo se quisesse. Não seria capaz de me desvencilhar da sua presença. Então, não há motivos para arrependimentos.

Aquelas palavras afagaram o senhor feudal imponente com ardor. No final das contas, Rin sempre se expressava limpidamente, sem delongas e falsa modéstia nos seus sentimentos usualmente intensos e carregados.

Em contrapartida, não se preocupando em complementar com palavras o que já fora proferido, Sesshoumaru preferiu beijá-la nos lábios.

E só quando o fez, roçando a língua quente na dela, sentindo com exatidão o gosto e estando tão perto, foi que Sesshoumaru pôde notar uma nuance diferente na esposa. Algo da qual jamais conseguiria escapar dos seus sentidos tão apurados.

Sorrindo sutilmente entre os lábios de Rin durante o beijo, no entanto, ele nada disse.

...

Assim que os primeiros raios de sol pisaram no Oeste, anunciando outro dia de calor escaldante, Yoshiaki se postou a despedir dos demais.

Em frente ao enorme portão do castelo, Rin, Jaken, Akane e Yashamaru ofereciam suas estimas para a jornada que o meio-yokai se postara a iniciar.

-Cuide-se, Yoshiaki. —Rin foi a primeira a dizer, ainda chorosa abraçou a Yoshiaki com ardor que correspondeu ao carinho de imediato. —Espero que volte logo.

-Ficarei bem, mãe. —Yoshiaki falou afagando as costas da mulher.

Embrenhando-se num abraço apertado, onde a cabeça do platinado repousou docemente na clavícula alheia, tal qual Sesshoumaru, Yoshiaki sentiu algo diferente brotar no interior daquela mulher. Por isso, demorou-se mais que o pretendido e tentou sorver aquele novo perfume numa tentativa de identificar o que aquilo verdadeiramente significava.

Franzindo a testa, ele desvencilhou da mãe que ainda o segurava pelos braços.

-Mãe, a senhora... —Yoshiaki pensou em dizer. Mas, sabendo da frustração da mãe sobre aquele assunto da qual ponderara, ele preferiu calar. Já que não tinha a absoluta certeza acerca do caso, achou mais prudente não levantar expectativas.

-O que foi, Yoshiaki? —Rin o estimulou a prosseguir.

-Nada... Não é nada. —ele sorriu a ela, acariciando os seus cabelos carinhosamente. —Só que sentirei falta da senhora.

-Eu também. —ela assentiu e logo tratou de postar-se na ponta dos pés para poder beijá-lo na testa.

-Veja se não mata a sua mãe de tanta preocupação! —Jaken falou cruzando os braços. —Dê notícias de vez em quando. Use os yokais mensageiros.

-Não só a Rin, a gente também! —Akane disse com os olhos marejados o abraçando forte contra o corpo. —Tem mesmo que ir?

-Você sabe que sim. —Yoshiaki disse sorrindo passando a mão pelos cabelos loiros de Akane. Logo, soltando-a, passou a mão pela barriga discreta da meio-yokai. —Estou ansioso para conhecê-lo.

-Então não demore tanto a voltar. —Akane disse dando mais um abraço furtivo em Yoshiaki.

Yashamaru aproximou-se em seguida e igualmente a Akane, também o abraçou forte contra o corpo dando alguns tapinhas nas suas costas.

-Precisa ficar atento, é um meio-yokai muito famoso pela região. —Yashamaru o falou enquanto se desvencilhava.

-Obrigado, Yashamaru. Com sua ajuda pude traçar uma boa rota, não irei me esquecer. —Yoshiaki colocou a mão no ombro do comandante, sorrindo a ele francamente. —Passarei na propriedade de Mitsue antes de partir.

-Sabe que eles irão prendê-lo por um dia inteiro, não sabe? —Yashamaru riu brevemente.

-Eu sei. —Yoshiaki assentiu sorrindo amarelo. —Mas, se não me despedir deles, naturalmente serei amaldiçoado.

-Certamente.

Yoshiaki se curvou solenemente para todos que corresponderam ao gesto solene.

Rin abraçou pela última vez o filho. Mas, não demorou muito a deixá-lo partir.

Os portões finalmente se abriram. O sol no horizonte teimava em querer nascer.

Yoshiaki virou-se uma última vez a fim de fitar as personalidades que saudosamente deixava por um tempo. E acabou com os olhos surpresos, ao ver ao longe, o yokai imponente.

Sesshoumaru estava distante, o olhando em silêncio. A boca entreaberta de Yoshiaki demorou segundos para se fechar novamente. Com um olhar sério, o pai assentiu. Ele assentiu de volta com a mesma intensidade. Sabia de cor aquela mensagem.

Sem mais postergar, atravessou os portões.

...

Não era uma longa jornada até a propriedade de Mitsue. Na realidade, apesar de ficar há uns bons quilômetros de distância do castelo, o caminho não apresentava um verdadeiro desafio, ainda mais para um meio-yokai como ele que dificilmente cansava-se. Desde criança acostumado a realizar aquela rota, o percurso fazia parte do seu batido roteiro.

Apesar dos seus pés o levarem sem qualquer pressa para um dos seus destinos e evidentemente a sua primeira parada, subitamente as solas pararam de batucar no solo por si mesmas quando despretensiosamente as narinas apuradas notaram um cheiro familiar mais do que atordoante.

Sentindo um arrepio involuntário percorrer toda a espinha, Yoshiaki não soube dizer se seu rosto queimava por conta do sol que jazia mais forte postado ao céu cerúleo ou se era em virtude de uma lembrança vívida e difícil de ser apagada que aquele cheiro lhe trazia.

O meio-yokai sabia que não poderia recuar. Primeiro porque se ele o notou, naturalmente, o outro o tivera também, e soaria mais do que esquisito se ele evadisse de uma hora para outra. Em segundo lugar ele não poderia continuar a evitar a situação. E por último, e o mais difícil de aceitar e conciliar, era que não sentia vontade de não o encontrar...

Por isso, Yoshiaki teve que respirar fundo e prosseguir com o caminho, mesmo que seu coração batesse descompassado e não se encontrasse de forma alguma com o ritmo dos seus passos pesados.

Então, quando as roldanas foram acionadas e gemeram teatralmente para que os portões o dessem passagem, ele não fez qualquer cara de espanto ao constatar a presença material de certo senhor feudal desalinhado ancorado no coração do jardim.

O que verdadeiramente o fez entreabrir a boca em surpresa foi vê-lo vendado com uma faixa branca. Servindo claramente de bode expiatório numa brincadeira infantil de Asami e Toshio que o instigavam a procurá-los usando somente o tato. Mas, óbvio que eles usavam suas habilidades ilusórias para ocultarem sua verdadeira localização e o impediam de fazer o mesmo para que a brincadeira perdurasse um longínquo tempo.

Distribuindo risadas altas pelo ambiente quando o tio tentava em vão lhes agarrar, aquilo só parou quando as crianças notaram o meio-yokai adentrando o recinto.

-Yoshiaki! —os pequenos gritaram em conjunto correndo na direção do platinado.

Yoshiaki sorriu para eles e num instante já havia dobrado um dos joelhos na grama bem cuidada para poder os abraçar.

-Vocês estão cada vez maiores. —Yoshiaki sorriu afagando ambas as cabeças.

-Estamos brincando com o tio! —Toshio disse animadamente, com um sorriso de orelha a orelha.

-Vem brincar com a gente também! —Asami disse igualmente empolgada puxando Yoshiaki pela manga do kimono negro.

-Já não cansaram de me fazer de capacho!? —o yokai disse em tom zombeteiro.

Yoshiaki bem que tentou fingir naturalidade, mas, sua tez provavelmente o traiu quando seus olhos âmbares repousaram nos verdes-oliva de Souichiro que vinha caminhando com um sorriso de canto e rodando a faixa no ar que encobria seus olhos anteriormente.

Por baixo daquela luz solar, os olhos do senhor feudal pareciam mais claros do que realmente eram e os cabelos bagunçados mais brilhosos e espessos do que se lembrava. Usando um kimono de peça única na cor lilás com uma faixa azul marinho amarrada de qualquer jeito ao redor do corpo, Souichiro abrilhantava o ambiente com uma beleza mais do que única.

-Por acaso nunca me viu? —Souichiro disse a Yoshiaki com um sorriso debochado. —Por que está me olhando com essa cara? Estou bonito?

-Tsc... —Yoshiaki desviou o olhar cruzando os braços. —Bom dia para você também.

-Vem, Yoshiaki! Vem brincar! —Asami disse voltando a puxar Yoshiaki pelo kimono.

-Não precisa se preocupar, o tio não consegue pegar a gente! —Toshio falou o puxando pela outra manga. —Ele não vai conseguir pegar você também.

-É verdade. —Souichiro disse assentindo com a cara mais cínica do que poderia fazer. —Só irei pegá-lo se deixar.

Yoshiaki paralisou. Tossindo seco ao sentir o rosto pegar fogo, ele voltou serenamente a Asami e Toshio, alisando o topo das suas cabeças.

-Quem sabe outro dia? —Yoshiaki disse de maneira amena. —Não irei demorar muito. Só vim me despedir.

-Ahhhh! —ambos esmoreceram de imediato.

-Despedir? —Souichiro franziu a testa um pouco confuso.

-Yoshiaki! Que bom que veio! —a voz de Mitsue cortou o jardim, interceptando momentaneamente a curiosidade do senhor feudal.

Olhando para a varanda, Yoshiaki pôde ver a belíssima yokai que segurava a outra filha em seu colo ao lado de Kenji.

-Ora, parece que alguém lembrou o caminho! —Kenji disse em tom irônico. —Por que é que demorou tanto a voltar? Será que você ficou tão impressionante a ponto de negligenciar os treinos comigo?

Yoshiaki sorriu para eles serenamente e logo caminhou em suas direções.

Se havia algo que aquele meio-yokai possuía em comum com o pai, além da aparência, de certo, era o fato de ser suscinto e breve nas colocações. Apesar de externalizar mais os sentimentos e demonstrar suas posições acerca dos pensamentos, ele não enrolava. Taxativo, preferia não ocupar tanto o tempo dos outros com rodeios inócuos.

-Rin deve estar arrasada. —Mitsue disse com um sorriso amarelo após elucidada toda a questão.

-Ela compreendeu. —Yoshiaki sorriu igualmente amarelo.

-Por que não me pediu ajuda para montar uma rota também? —Kenji indagou arqueando uma única sobrancelha com as mãos apoiadas nos quadris.

-Tsc! Não é óbvio? —Souichiro girou os olhos. —Porque Yashamaru é muito melhor do que você.

-Irmão... —Mitsue suspirou balançando a cabeça em negativa.

-Não dê atenção. —Yoshiaki disse seriamente olhando para Souichiro de canto, mas logo voltou a Kenji. —Foi mais por uma questão de proximidade geográfica. E não há nada que não possamos debater. Yashamaru pediu para que lhe dissesse isso também.

-Nossa, Yashamaru pensa até mesmo nos ciúmes do Kenji. —Mitsue disse impressionada. —Ele é mesmo certinho!

-Quem é que está com ciúmes aqui? —Kenji sorriu zombeteiro a Mitsue que lhe devolveu uma careta.

-Mas, estava pensando, se não me daria a honra de um último treino antes de partir. —Yoshiaki disse a Kenji com um sorriso sincero.

-Se está tentando me comprar, então, digo que deu certo. —Kenji disse apoiando a mão no ombro alheio. —Venha, vamos logo para eu te dar uma surra.

...

Na parte de trás da propriedade havia um campo límpido da qual Yoshiaki bem conhecia. Do final da infância até a fase adulta, aquele lugar foi um bocado frequentado pelo meio-yokai que depositou integralmente a responsabilidade de Kenji como seu treinador oficial. A escolha tinha um motivo simples, dentre todos os yokais da sua confiança, o comandante em questão não pegaria nada leve com ele.

Fato extremamente verídico!

Rin vez ou outra ficava mais do que desesperada quando o platinado retornava com a cara toda inchada e com a boca lotada de sangue. Mas, o que se podia fazer? Era o filho mesmo que pedia por aquilo! Então, depois de um tempo, ela passou a se acostumar com a rotina excruciante e entender que tal artimanha se ajustava a natureza da criatura gerada em seu ventre.

E verdade seja dita, ponderando, era mesmo melhor que fosse com Kenji e não com Sesshoumaru...

-Preparado? —Kenji indagou com um sorriso sarcástico.

-Sempre!

Mal acabara de proferir, Yoshiaki já havia partido para cima de Kenji que não pôde mais manter sua postura provocativa. Flanqueando primeiro no lado esquerdo, numa velocidade mais do que satisfatória, ele tentou atingir o comandante que esquivou-se emitindo um zumbido elétrico. Sem esmorecer, o meio-yokai emendou seu movimento, partindo na direção do outro lado.

Kenji deu um salto mortal para trás, aterrissando primorosamente na grama aparada.

Pensando em escarnecer da velocidade de Yoshiaki, ele não teve tempo, pois, surpreendentemente o outro já estava há centímetros de distância do seu corpo bradando uma pesada energia sinistra em sua direção.

Kenji teve que resvalar, por um centímetro aquilo não o havia pegado. O comandante precisou ricochetear aquela bola de energia para cima a fim de não atingir uma parte da sua propriedade.

Já sabendo que teria uma vantagem de segundos, Yoshiaki voou mais uma vez na direção do yokai, e saltando há metros do chão, ele bradou a sua espada a fim de golpeá-lo por cima.

Kenji sorriu com aquela investida surpresa e igualmente puxou seu sabre que bloqueou o golpe numa só tacada. Impedindo que Yoshiaki voltasse ao chão, ele o bateu ainda no ar com a parte de trás da sua arma jogando o platinado para trás com violência.

Aproveitando da instabilidade do meio-yokai no solo, Kenji estava preparado para contra-atacar e o atingir em cheio bem no centro do seu rosto. Yoshiaki ergueu a espada num súbito a fim de se proteger do golpe certeiro, mas, ambos não contavam que o comandante perderia o equilíbrio por conta de uma torrente que emanou do solo já há poucos passos de distância de Yoshiaki.

Um poder mais do que conhecido e impossível de ser evitado...

-PORRA! SOUICHIRO! —Kenji esbravejou ao sentir o golpe raspando nos seus pés.

Quase caindo, Yoshiaki aproveitou-se e segurando Kenji pela pala do kimono o girou contra o chão apontando a espada mortalmente para o pescoço do outro.

Ouvindo a gargalhada de Souichiro a suas costas e a cara contrariada de Kenji abaixo de si, Yoshiaki não foi capaz de segurar uma risada alta com o acontecimento. Largando Kenji, ele jogou-se ao lado do Comandante rindo sem qualquer menção de que pararia tão cedo.

Embora Souichiro estivesse zombando do infortúnio do cunhado provocado propositalmente por ele mesmo, foi impossível não se encantar conjuntamente com a risada alheia do outro que sempre tão sério e nivelado despontava-se a rir como se fosse do seu feitio fazê-lo.

Seu coração bateu forte de novo. E a graça da situação foi dando lugar a um sorriso terno ao meio-yokai que ainda estava alheio com os olhos âmbares úmidos pela risada incontrolável.

-Esse meu cunhado me ama muito... —Kenji falou erguendo de uma só vez.

-Pare de chorar, na luta movimentos imprevisíveis estão por toda parte. —Souichiro disse dando de ombros.

-Movimentos imprevisíveis uma porra! Que deboche! —Kenji balançou a cabeça em negativa.

-E se quer saber, você é um péssimo tutor. —Souichiro complementou assentindo em positiva com os braços cruzados.

-Não é verdade. —Yoshiaki disse erguendo-se igualmente, limpando os cantos dos olhos que estavam lacrimejando por conta da risada irregular.

-Não se incomode, Yoshiaki. Esse meu cunhado só me enche de elogios. Mas, como poderia me comparar ao grande senhor feudal do Sul, não é mesmo? O mais foda dos fodas! —Kenji fez uma reverência irônica a Souichiro.

-Certamente. —Souichiro concordou assentindo veemente.

-Então, vamos lá, faça melhor do que eu, caro cunhado. —Kenji o estimulou ironicamente. — Yoshiaki é todo seu!

A ambiguidade na frase só existia para quem a entendia. Claramente, a frase dita por Kenji não havia qualquer intenção lasciva. Mas, quando os olhos dos dois encontraram-se, foi muito difícil não pensar no duplo sentido da coisa.

Por isso, Souichiro fez uma cara pretensiosa enquanto Yoshiaki encolhia-se.

Mas, era tarde para que viesse a rebater, pois, Kenji já havia saltado para a varanda e apontado o caminho de maneira solene no máximo do deboche possível para Souichiro prosseguir.

Assentindo, Souichiro desceu da varanda num único salto.

Embora o semblante de Yoshiaki estivesse impassível, montado numa tez elegante da qual pouco se esboçava o que realmente sentia, por dentro, seu sangue fervente corroía toda a sua carne num desespero atroz. A vontade de chorar novamente o abarcou, dessa vez não por cair na gargalhada e sim por vê-lo aproximar cada vez mais de si a passos lentos.

Parando próximo ao meio-yokai, Souichiro o analisou clinicamente em fração de segundos. Cerrando os olhos por alguns segundos, ele tentou manter o foco da coisa. Num suspiro longo, apoiou as mãos nos quadris e fincou seus olhos claros nos do outro com seriedade.

-Empunhe a espada e estique o braço como fez no início do movimento.

Yoshiaki pensou que estivesse ficado maluco.

Souichiro estava mesmo querendo ensiná-lo alguma coisa!?

Kenji, da mesma forma, franziu a testa.

-Veja bem o que está aprontando. —o Comandante disse com desconfiança recostando na pilastra da varanda.

-É comigo? —Souichiro virou para Kenji fingindo tédio. —Hm! Não me canse.

-Só estou dizendo... —Kenji deu de ombros sem esmorecer a atenção.

-Yoshiaki. —Souichiro falou ao meio-yokai que ainda estava um pouco hesitante. —Faça o que eu falei.

Yoshiaki juntou as sobrancelhas. Mas, vendo o semblante compenetrado e nenhum pouco montado num deboche malcriado da qual Souichiro costumava a vestir, o meio-yokai não mais hesitou. Confiando no senhor feudal a sua frente, ele fez o que havia sido solicitado.

-Certo. —Souichiro disse observando a posição do outro, dando um passo a mais a sua direção, ele parou num súbito ao lembrar de certas palavras proferidas no quarto do platinado.

"Só não... Não se aproxime assim de mim de novo".

-O que foi? —Yoshiaki o indagou sem entender, observando sua própria postura e o alinhamento do braço com a espada em punho. —O que tem de errado?

-Hm... Posso? —Souichiro apontou para o braço esticado.

-Não era isso que você iria fazer? —Yoshiaki indagou arqueando uma única sobrancelha.

Recebido o aval, Souichiro parou lateralmente a Yoshiaki, pegando no punho do outro, ele o fitou dentro dos olhos numa distância mais do que curta. Ainda que o choque tenha sido intenso, não desviaram o olhar. Invés disso, mantiveram-se num silêncio esquisito, talvez numa tentativa vaga de compreender o motivo dos seus corpos se modificarem tanto com um singelo movimento.

Arranhando a garganta, Yoshiaki trouxe Souichiro de volta a órbita, afinal, jazia um Kenji na varanda mais do que confuso diante do que seus olhos experimentavam.

-Invés de ter feito esse movimento... —Souichiro começou a dizer movimentando o braço de Yoshiaki na sequência que ele fizera anteriormente. —Que de certo é bom, mas não o suficiente para alguém tão ágil como meu estimado cunhado...

-Obrigado. —Kenji disse da varanda.

-Deveria ter feito isso!

Movimentando o braço de Yoshiaki em outra direção, ele o fez perceber que se caso quisesse vir a pegar Kenji, ele precisaria tê-lo enganado por segundos que atacaria o seu outro flanco, dando uma meia-lua no ar ao invés de uma volta inteira, naturalmente teria o atingido precisamente e com muito mais destreza.

Yoshiaki assentiu compreendendo a lógica do golpe.

Kenji bateu palmas teatralmente da varanda.

-E não é que você é capaz de pronunciar coisas úteis! —Kenji disse rindo brevemente. —Estou realmente impressionado.

-Tsc! Ainda não acabei.

Souichiro voltou a Yoshiaki que agora mantinha os olhos mais atentos e curiosos do que em qualquer outro momento. Resvalando de todo o constrangimento e falta de tato que o meio-yokai possuía ao dividir o mesmo ambiente com aquele yokai, a única coisa capaz de fazê-lo esquecer de tudo que o deixava sem ação era somente a sua curiosidade e vontade de aprender. Tendo uma natureza tão desbravadora, não havia qualquer outra coisa no mundo que o instigasse mais do que sanar toda e qualquer dúvida.

Por isso, ele deixou de lado as outras questões. Ainda que estas latejassem em seu interior quando um toque despretensioso o assomava durante uma explicação sem qualquer pretensão libertina.

Olhando aqueles dois conversando de forma tão compenetrada e técnica, Kenji levou a mão ao queixo em ponderação. Pois, quando é que vira o cunhado ter tanta paciência e boa vontade com alguém assim na vida? Obviamente nunca antes! E mais ainda, quando que um dia passaria pela sua cabeça que o senhor feudal do Sul faria isso por um meio-yokai da qual ele rechaçou por tantos anos?

-Que coisa... —Kenji disse para si mesmo.

-Ainda está aí? —a voz de Mitsue soou as suas costas de maneira divertida.

-Onde mais eu deveria estar? —Kenji deu de ombros voltando-se a esposa.

-Vem comigo. Asami quer mostrar uma coisa que ela fez no jardim. —Mitsue disse pegando na mão do marido.

-E deixar Souichiro com Yoshiaki? Acha uma boa ideia? —Kenji franziu a testa. —Na verdade, estou com a boca aberta de vê-lo ensinar coisas coerentes, mas...

-Kenji, muito me admira justamente você não ter entendido. —Mitsue disse balançando a cabeça em negativa e dando uma risadinha.

-Hã!? —Kenji torceu a cara numa confusão mais do que explícita. —Entendido o quê? Do que você está falando?

-Vem! —Mitsue o puxou pelo braço. —Vamos logo ver Asami antes que ela quebre tudo o que fez por demorarmos.

...

Vendo o sol abaixar, dando o indicativo de que já era metade da tarde, Yoshiaki percebeu que havia demorado mais do que o pretendido.

Sentando na varanda ao lado de Souichiro para descansar um pouco, após tantas horas em pé e agitando-se para lá e para cá em explicações longínquas e precisas, ele tomou um gole generoso de água gelada no seu recipiente de bambu da qual havia recolhido do rio adjacente a propriedade.

-Por que não vai amanhã? —Souichiro indagou o olhando de soslaio.

-Ainda é cedo. —Yoshiaki disse fitando o céu livre de nuvens acima da sua cabeça. —Se partir agora, consigo andar bastante.

-Tsc! Não sabe nem para onde quer ir. Por que tanta pressa? —Souichiro disse um tanto contrariado. Jogando o corpo para trás, ele colocou as mãos atrás da cabeça, deitando sobre as mãos entrelaçadas na nuca.

-Se me propus a partir hoje, não faz sentido ficar. —Yoshiaki disse calmamente, o olhando numa perspectiva um pouco mais alta.

-E precisa ir para longe? Por que não vai ao Sul? Garanto a você que lá teriam muitos yokais impressionantes para lutar do que em qualquer outro lugar. E certamente não seriam bonzinhos com você.

-Não conseguiu me deixar treinar com Kenji o que dirá contra os yokais do seu castelo. —Yoshiaki sorriu de canto, desviando o olhar para o horizonte. —Sabe bem o que estou dizendo.

-Poderia lhe ajudar. —Souichiro disse seriamente, sem abalo ou ironia no tom. —Poderia tentar achar uma solução para o que está acontecendo com você. Assim, não precisaria partir para tentar controlar isso. Eu estou disposto a fazer isso por você, basta querer. Não tem que fazer isso sozinho.

Por um minuto Yoshiaki se perdeu nas palavras do yokai ao seu lado. Mais uma vez ele soube que sua tez o havia traído, demonstrando o quanto estava impressionado e ao mesmo tempo surpreso por Souichiro estar se dedicando tanto a sua pessoa.

Havia tantos conflitos em seu interior, tanta coisa que precisava resolver e descobrir... Um emaranhado de questões que só se multiplicavam, principalmente quando estava a dividir o mesmo ambiente com o yokai dos olhos verdes-oliva.

Não compreendia, mas já não era mais capaz de lutar contra. Por isso, aceitou o fato de que seu coração estava batendo mesmo acelerado e que havia algo incontrolável brotando no peito toda vez que o fitava. Se era certo ou errado, não tinha tanta certeza se a dualidade possuía importância. A única coisa da qual precisava assumir era que existia algo poderoso o suficiente para fazê-lo declinar diante daquela oferta tão sincera.

Mas, não porque pretendia aceitá-la. Não por isso. Porque ele já havia mais do que decidido que precisava trilhar sozinho. Era algo inegociável e necessário. Afinal, como conseguiria exprimir o melhor de si tendo um montante de outros seres a lhe auxiliar incessantemente? Seria impossível...

O que o fez baixar a guarda definitivamente não foi a dúvida, e sim, a intenção que o outro possuía para consigo.

Daquilo, ele jamais conseguiria esquecer.

-Obrigado. —Yoshiaki disse a Souichiro com um sorriso sincero. —Obrigado por tentar me ajudar. Mas, esse é mesmo um caminho solitário.

-Hm... —Souichiro cerrou os olhos um tanto melancólico e acabou dando-se por vencido. —Já que precisa ir...

-Preciso.

Emergiram então num silêncio longo e que não se tornou absoluto por conta dos pássaros que cantarolavam ao redor juntamente com as cigarras que complementavam o canto natural. Havia também o falatório alto no jardim que jazia distante deles, mas que se quisesse absorver a conversa alheia, bastaria prestar atenção para entender uma palavra ou outra dita sem qualquer pretensão de segredo.

-Yoshiaki. —Souichiro o chamou abrindo novamente os olhos e quebrando o silêncio instaurado por eles.

-O quê?

-Quando achar o que procura... Por que não vai ao Sul?

Yoshiaki ponderou. Não esperava ouvir aquela oferta novamente.

Sorrindo, o meio-yokai inclinou-se com muita sutileza numa curvatura respeitosa.

-Pensarei a respeito.

Souichiro amargamente entendeu.

No passado, quando ele o havia chamado em entrelinhas para o Sul, Yoshiaki havia dado a ele essa resposta vaga e de fato nunca havia realmente aparecido no seu vasto feudo.

Não adiantava...

Aquela criatura era mais escorregadia do que um peixe que se debate entre os dedos das mãos nas margens do rio!

Sorrindo melancólico, Souichiro cerrou os olhos novamente imaginando o resultado da sua proposta.

Mas, insistindo em lhe surpreender, aquele ser era mesmo bom quanto ao quesito inesperado. Sem mais nem menos, o yokai foi pego de surpresa ao sentir os lábios acetinados contra os seus num rompante.

Um beijo sutil, de início, que fora capaz de agitar o seu coração consternado.

Saindo da surpresa legítima, Souichiro não conseguiu controlar a própria boca. Como se tivesse vida própria, ela abriu-se sem qualquer resistência para que a língua alheia o explorasse por dentro numa carícia mais do que deliciosa que eriçou os pelos do seu braço.

Por um minuto aquele senhor feudal achara que havia perdido a sanidade mental. Pois, senti-lo mergulhar cada vez mais em si, sem dar tempo para que respirasse, movimentando a língua numa cadência mais do que perfeita, era no mínimo... IRREAL!

Sendo liberado do beijo intenso, Souichiro abriu os olhos de imediato. Viu então Yoshiaki perto de si, com as mãos espalmadas no chão ao lado do seu torso e com o rosto acima do seu, há centímetros de distância.

O yokai sentiu os olhos tremeluzirem diante do olhar âmbar intenso. No entanto, engoliu o êxtase de senti-lo, de ter o calor revolto do outro em si bem como o gosto dos lábios alheios.

Montou-se no seu sorriso cínico de sempre ao devolver a olhadela.

-Por que me beijou?

-Por que correspondeu? —Yoshiaki sorriu a ele com a devolutiva.

Souichiro riu brevemente e pegando-o pela pala do kimono o puxou de volta para si. Suas respirações descompassadas lambiam seus rostos recheados de expectativa.

-É melhor que volte!

Yoshiaki bastou a assentir antes de beijá-lo outra vez.

...

CONTINUA...