Capítulo 38 Júbilo.

A chuva caiu pesada no final da tarde.

Mas, diante de um dia inteiro de sol escaldante e ventos tão abafados, receber aquele fenômeno natural soou como um presente enviado pelos deuses.

Já havia se passado um mês desde que o meio-yokai dos longos cabelos platinados havia cruzado os enormes portões do castelo. Ainda que incorresse num tempo relativamente curto, Rin não conseguia evitar de vez ou outra estacionar na varanda e fitar o horizonte como quem espera uma visita.

Não era necessário dizê-la que Yoshiaki não estava para voltar. Ela bem sabia. Afinal, a cria mal havia esfriado o assento da qual se levantara. Mas, o que poderia fazer? Mesmo de posse as certezas indubitáveis, não conseguia desvencilhar-se do hábito de postar-se em devoção na espera de um sinal.

Rin respirou fundo antes de olhar para o céu onde nuvens escuras e densas choravam descompassadas sobre o solo terroso.

-Espero que esteja bem. —ela falou baixinho juntando as mãos no alto como numa prece.

-Ele está!

Só ouvindo a voz familiar atrás de si, que Rin notou que de fato havia pronunciado a frase num tom audível. Virando de uma só vez, ela deparou-se com Akane que sorria largamente para ela com uma expressão mais do que afável.

Rin sorriu de volta e não evitou olhar para a pequena barriga pontuda que despontava por baixo do kimono rosa que a loira usava.

-Parece que tem alguém ficando cada vez maior. —Rin disse com um sorriso franco, repleto de afabilidade.

-É... —Akane sorriu igualmente, apoiando a mão na recém barriga. —Tenho começado a senti-lo se mexer!

-Senta aqui comigo. —Rin a chamou dando umas batidinhas com a mão na madeira polida da varanda.

Akane não titubeou, dando dois passos para frente, ela logo postou-se ao lado da amiga de tantos anos e sentou ao seu lado.

Imediatamente, Rin colocou a mão na barriga da outra e a alisou carinhosamente por cima do tecido fino.

-Estou tão feliz por você, Akane. —Rin disse voltando os olhos a ela animadamente. —Sei o quanto queria ser mãe. Imagino a sua ansiedade para vê-lo nascer!

-Muito! —Akane assentiu rindo brevemente. —Pensar que ainda falta alguns meses!

-Passa tão rápido. Você verá.

-Está sentindo falta de Yoshiaki. —Akane falou acariciando os cabelos de Rin. —Ele já mandou alguma notícia?

-Já faz alguns dias. Ele estava beirando o desfiladeiro que faz fronteira com o Oeste. Mas, sei que ele não vai ficar se comunicando o tempo todo. —Rin sorriu mesmo sem vontade, recostando na pilastra atrás de si. —Estou conformada. Só com saudades.

-Logo ele estará de volta. —Akane falou confiante. —Ele é esperto e muito forte, vai se sair bem e voltar pra gente.

Rin iria dizer algo, mas foi interceptada pela meio-yokai que se apressou a pegar a mão da amiga e direcionar a sua barriga novamente.

-Rin, Rin! —Akane disse de forma urgente com os olhos brilhando. —Olha! Está mexendo.

Sentindo o sutil movimento no interior da loira, Rin não pôde deixar de dar uma risadinha contente em conjunto com ela.

-Do que estão rindo aí? —a voz esganiçada de Jaken soou as suas costas.

-Vem aqui, senhor Jaken! —Rin disse o chamando com a mão livre. —O filho de Akane está se mexendo!

-Ah!

Jaken deu um pulo e adiantando-se o quanto podia com suas pernas curtas, correu imediatamente para tocar na barriga de Akane. Colocando sua mão verde na parte do corpo avantajada da meio-yokai, a criatura que jazia em seu interior pareceu esmorecer no mesmo instante para o seu infortúnio.

-Acho que parou. —Akane não conseguiu prender uma risada.

-Hmpf! Parece que ele não gosta muito de mim. —Jaken desvencilhou da meio-yokai cruzando os braços numa tez frustrada.

-Que bobagem. —Rin deu uma careta a Jaken.

-Vou trazer algo para comer! —Akane disse erguendo de uma só vez. —Às vezes ele se anima, Jaken.

-Hm! —Jaken resmungou sentindo-se contrariado.

Ao ponto que Akane foi, no mesmo passo, regressou. Dessa vez acompanhada de maçãs polpudas e bem vermelhas. Atirando uma na direção de Jaken e outra na de Rin, a mulher dos longos cabelos pretos até conseguiu segurar a tez aversa a fruta que nos últimos tempos soava como um tormento.

Mas, quando Akane aproximou-se dando uma mordida generosa na maçã graúda, o cheiro impregnou o ambiente e Rin teve que engolir o enjoo abrupto que a envolveu em questões de segundos.

-O que houve? —Akane indagou inclinando a cabeça sem entender a face pálida da outra.

-Está se sentindo mal de novo, Rin? —Jaken perguntou igualmente confuso.

-Parece loucura, mas ultimamente não consigo nem olhar para maçã. —Rin falou jogando a fruta de volta a Akane que a pegou no ar.

-Hm? —Akane franziu o cenho. —Como um enjoo?

-Sim. —Rin assentiu. —Não é... Estranho?

Akane largou a maçã que estava comendo na mão de Jaken quase que imediatamente. Não se contendo, voou na direção de Rin que ficou sem entender absolutamente nada do que a amiga pretendia.

Pegando Rin pelos braços, ela tragou o cheiro da outra como se sua vida dependesse disso. Para ser mais analítica, até mesmo afundou o nariz nos cabelos da mulher e repetiu o movimento mais do que estranho.

-Akane? —Rin a chamou num tom confuso.

-Ficou maluca!? —Jaken indagou pulando de um lado para outro.

Mesmo desvencilhando um pouco de Rin, Akane não a soltou, manteve seus olhos rubis no da mulher que retribuía um olhar sinuoso.

-Tem se sentindo enjoada ultimamente?

-Hm... Um pouco. —Rin respondeu dando de ombros.

-Tonta? —Akane insistiu sem esmorecer do questionário.

-Às vezes sim. Por quê?

-Seu sangramento?

-O que está acontecendo aqui!? —Jaken perguntou largando as maçãs de qualquer jeito.

Não era necessário ponderar muito. Sendo sincera, aquelas perguntas de Akane eram bastante coerentes e encaixavam bem com uma possibilidade da qual aquela mulher não queria se agarrar. E que por isso, ultimamente, negligenciava até o último fio de cabelo.

Vivendo tantos anos imaginando que aquilo seria impossível de acontecer de novo, frustrando-se incansáveis vezes quando acreditava estar experimentando o deleite de ser mãe pela segunda vez, Rin de fato não contava mais que estar grávida fazia parte de uma das probabilidades dos seus mal-estares diários.

-Seu cheiro mudou. —Akane disse com um largo sorriso. —É sutil, mas, está diferente.

-Como é? —Jaken franziu a testa e no mesmo segundo estacionou o mais próximo possível de Rin para poder sorver o cheiro alheio com dedicação.

-Meu... Meu cheiro. —Rin falou com os olhos trêmulos para Akane que assentiu de volta com muita certeza.

-Ahhhh! Mudou mesmo! —Jaken falou dando um salto para trás. —Será que... Será que... Rin! AH!

-Acha que...!? —Rin voltou os olhos para Akane com altas expectativas.

-Sim! —Akane assentiu rindo contente. —Sim! Sim! Siiiiiiim!

Havia muitas coisas que Rin não se encaixava, inúmeros vocábulos poderiam ser citados para não a enquadrar. Mas, dentre todos, com toda a certeza, aquela mulher não era nenhum pouco contida. Nem próximo disso! Por isso, quando teve quase que a certeza do fato, ela não conseguiu segurar os seus pés e tampouco o corpo que gritava pela outra presença.

Por isso, como se sua vida dependesse da atitude a ser executada, ela despontou-se de pé num solavanco e emendando o movimento, pôs-se a correr com a máxima urgência pelos cômodos do castelo.

Quanto mais seus pés batucavam na madeira, mais seu coração explodia e seus olhos emendavam numa felicidade plena.

Repleta de anseios, abrindo uma porta aqui e outra ali, ao finalmente deslizar uma das inúmeras, a silhueta tão esperada encontrava-se prostrada entre outros yokais no centro da sala de reuniões.

Vendo-a invadir o cômodo com um semblante caótico e com a respiração pesada, Sesshoumaru voltou os olhos para ela de imediato.

-Rin. —ele falou seu nome sem entender o motivo da mulher estar tão esbaforida.

Ela não se demorou. Negligenciando todos ao redor, Rin simplesmente voltou a correr, e num impulso único prendeu-se ao torso do yokai que a acolheu sem titubear nos seus braços.

Afundando o rosto no ombro alheio, com os braços envoltos ao pescoço do platinado e tendo suas pernas seguradas pelos braços firmes do marido, ela finalmente falou próxima a orelha de Sesshoumaru.

-Sesshoumaru... Eu estou grávida.

A valer, assim que Rin contou ao senhor feudal que esperava outro filho seu, evidentemente, Sesshoumaru não se surpreendeu, posto que já sabia fazia tempo da condição da mulher. Sua pretensão desde o início era permitir com que ela descobrisse por si mesma e, mais ainda, que fosse correndo lhe contar! Aquela era uma vontade antiga, desde os tempos da primeira gravidez tão assomada por fatos alheios as suas vontades.

Então, quando Rin o fez, ele não a disse que já sabia. Não era necessário acabar com aquele momento tão esperado e que ele desfrutou por cada segundo. Invés disso, Sesshoumaru a desvencilhou um pouco de si, a fitou nos olhos com ardente emoção e a beijou nos lábios com muita vontade.

...

As correntes de ar fria do final daquele Outono já anunciavam um inverno rigoroso.

Yoshiaki não sabia se seria tão intenso quanto o último, mas, a natureza já lhe dava o prenúncio de que uma friagem abrupta estava por vir.

Repousando um pouco sob um dos galhos grossos de uma árvore qualquer, o meio-yokai observava as folhas secas caírem nas margens do rio naquele final de tarde afável. O horizonte, tingido de cores quentes, não tardaria a dissipar e ser dominado por inúmeras estrelas num negrume infinito.

Era a primeira vez que ia tão longe e permanecia tanto tempo em solidão.

Difícil mensurar quantos quilômetros jazia de distância do castelo que o afagou durante tantos anos. Fato é que sentia seu espírito indócil um pouco mais controlado o que só endossou a sua tese mais do que plausível.

Não que pudesse dizer que era um novo ser e que despontava do mais alto nível de controle. Na realidade, ainda havia muito a ser controlado em seu âmago. Vez ou outra, tinha que se embrenhar dentro de si mesmo a fim de aquietar as profusões conflituosas da sua natureza devastadora.

Cerrando os olhos, ele sentiu uma nuance diferente no ar. Possivelmente para qualquer outro, a sensação teria passado despercebida ou afiançaria uma singela impressão de algo que poderia não ser verdadeiro. Em outro caso, talvez, ele reconsiderasse o sentimento. Mas, o problema é que de uns tempos, o tal pressentimento surgia e aguçava os seus sentidos tão aflorados.

Incapaz de negligenciar, daquela vez, Yoshiaki fechou o cenho e atirou sem mais nem menos sua espada na direção de outra árvore próxima.

E não se impressionou com o fato de ouvir metal bater contra metal num baque mais do que preciso.

Fazendo a espada buscar o caminho novamente da sua mão, Yoshiaki saltou do galho alto da árvore, e repousou ao chão numa pose alinhada.

-Quem está aí? Por que está me seguindo? —Yoshiaki indagou com um timbre sério e com a tez pouco amigável.

Ocorreu uma longa hesitação da outra parte a se mostrar. Porque sabia-se que quando sua face viesse a ser revelada um imbróglio seria construído. Entretanto, o que poderia ser feito diante da descoberta sagaz do outro? Tentar fugir seria inútil e só pioraria as coisas...

Por isso, ele deu-se por vencido. Respirando pesadamente, saiu de trás da moita, revelando de uma só vez os olhos azul-cobalto e uma cabelereira negra longa presa num rabo de cavalo baixo.

Yoshiaki pensou que tivesse perdido o juízo. Dentre tudo que passou pela sua cabeça, a imagem daquele yokai de longe não fazia sentido algum para qualquer raciocínio traçado inicialmente.

-Seiji? —Yoshiaki disse baixando a espada em punho com a face aturdida.

-Olá, Yoshiaki. —Seiji o respondeu com um sorriso amarelo jogando os braços para trás das costas.

-O que você...

Yoshiaki não precisou o questionar, já no meio da pergunta tudo fez o mais absoluto sentido e estalou dentro do seu cérebro o motivo do distinto yokai estar preso em seu calcanhar. Montando a face mais irritada que podia, Yoshiaki devolveu a espada a bainha presa a suas costas sentindo todo o sangue subir para a cabeça.

-Souichiro... —Yoshiaki falou pressionando a ponte do nariz, tentando buscar complacência.

Seiji arranhou a garganta e cruzou os braços na altura do peito mantendo o sorriso sem jeito.

-Não fique irritado com ele.

-Queria dizer que não acredito que ele fez isso... —Yoshiaki respirou profundamente erguendo a cabeça para o alto, fitando o céu limpo acima de si. —Mas, não estou surpreso no fim das contas.

-Não leve a mal. —Seiji torceu o rosto tentando amenizar a situação. —Ele só está preocupado com você.

-Hm! —Yoshiaki franziu a testa demonstrando claramente sua insatisfação. —Há quanto tempo está me seguindo?

-Não muito. Só o encontrei hoje pela manhã. —Seiji coçou a lateral da cabeça na mesma roupagem encabulada. —Como conseguiu identificar a minha presença? Ocultei meu cheiro e minha energia sinistra. Fiz algum barulho sem perceber?

-Havia algo diferente no ar. Meu instinto me avisou.

-Você tem mesmo uma percepção e tanto. —Seiji falou esfregando a mão na testa num sinal de derrota.

Yoshiaki suspirou tentando controlar a irritação que o abarcou. Vendo Seiji tão desconsertado a sua frente, ele anuviou um pouco a tez e encurvou-se solenemente em respeito ao General do Sul.

-Lamento por ter vindo tão longe. Mas, trilharemos um caminho distinto. Não me siga mais, Seiji.

-Claro. —Seiji curvou-se em igualdade com a mesma solenidade. —Eu que peço desculpas em nome do meu senhor.

-Não peça por ele. —Yoshiaki rebateu cruzando os braços. —Diga para ele mesmo escrever uma carta pedindo perdão de próprio punho. Isso irá irritá-lo em igualdade.

Seiji sorriu e pôs-se a assentir em aprovação.

Yoshiaki virou de costas, dando alguns passos adiante, num súbito, ele hesitou. Olhando para Seiji de soslaio, ele prosseguiu.

-Como ele está?

-Mal humorado. —Seiji sorriu de canto. —Mas, ficará bem.

Yoshiaki balançou a cabeça em negativa, respirando fundo, retomou o caminho oposto a Seiji.

-Diga a Souichiro para não mandar mais ninguém atrás de mim. —Yoshiaki falou mesmo estando de costas. —E que caso venha a insistir nisso, não o perdoarei. Essa foi a última vez.

-Sim.

...

Quando as folhas secas começaram a cair no jardim naquele início outonal que as primeiras contrações mais do que intensas abarcaram a meio-yokai.

Era um entardecer luminoso de brisas frias da qual Akane havia resolvido desfrutar sentando-se na ponte no interior do castelo sob o rio que perpassava por toda a extensão da propriedade. Imaginando que o único evento do dia seria observar o entardecer, onde o sol imponente desmaiava por trás das montanhas, mal podia prever que o fruto do amor com Yashamaru resolveria vir ao mundo justamente no momento em que os raios solares davam seu último suspiro.

Ao longo da vida, Akane já havia sentido todo o tipo de dor possível. Como uma meio-yokai e se embrenhando sem qualquer hesitação nas inúmeras batalhas e nunca recusando uma encrenca, ela era bem sabida sobre as mais variadas agonias.

Mas, dentre todas as dores que já a assomaram, nenhuma fora igual a que sentia. Não por ser algo insuportável da qual se renderia e sim, porque o tal padecimento, diferente dos demais, lhe causava uma felicidade e ansiedade difícil de ser descrito.

Ela não precisou chamar Yashamaru mais do que uma vez. Estando por perto, sempre a espreita, fingindo coincidência ou despretensão, logo que ela agitou-se numa movimentação incomum, o Comandante bem atento já correu na sua direção com o âmago preenchido das mesmas expectativas que a esposa.

-Akane! —Yashamaru disse seu nome sentindo o corpo todo estremecer pela sensação do momento.

-Nosso filho, Yashamaru... —Akane falou com dificuldade, com os olhos repletos de emoção. —Nosso filho vai nascer!

Havia pouco tempo para se ponderar ou dizer. Por isso, ele a amparou como o marido dedicado e amoroso que era e a direcionou com todo o cuidado e zelo para dentro do castelo. Ambos dividindo um semblante radiante do mais puro e genuíno deleite. E quando seus olhos se encontravam, mais o júbilo os aninhava como numa carícia precisa.

Yashamaru não precisou percorrer muito os corredores do castelo com Akane emaranhada em si e tampouco chamar o nome da mulher humana. Pois, bastou poucos passos na madeira polida para uma Rin esbaforida apontar na outra ponta do corredor.

Sendo acudida por aquelas duas personalidades mais importantes da sua vida, consistindo no seu grande amor e a melhor amiga, Akane não poderia desejar mais. Então, quando ela foi deitada no Futon tendo Rin com um largo sorriso assumido a postura que a dela num passado distante e Yashamaru mantendo-se ao seu lado, segurando sua mão e acariciando seus cabelos, a loira não conseguiu evitar deixar duas lágrimas sentimentais cortar a face límpida. Uma lágrima para cada um, numa gratidão difícil de esboçar com palavras.

Para alguém como ela, de uma natureza tão prolixa, viver algo como aquilo, desfrutar de momentos tão felizes, não poderia chamar de sorte? Pois, quando é que na infância abastada, andando com os pés descalços e as roupas mais maltrapilhas possíveis, preveria uma vida tão maravilhosa quanto aquela?

Vendo a vida passar fugaz por trás dos olhos, Akane só pôde agradecer. Ainda que em meio à dor lancinante de contrações que lhe empapavam a testa de suor e que pouco a dava trégua, ainda assim, ela só pensava em agradecer aos céus.

E tudo ficou mais intenso, quando numa última investida, utilizando todas as suas forças, toda a dor instantaneamente sumiu e com o alívio do término da condição, um choro irrompeu o ambiente. Um choro sôfrego que a fez desaguar em igualdade.

Finalmente.

Sua cria havia nascido.

-É uma menina, Akane! —Rin disse com o mesmo olhar marejado de alegria embalando a pequena numa toalha macia.

Yashamaru beijou os cabelos de Akane mais uma vez, de forma demorada. Depois de tantos anos convencendo-se de que nunca teria a possibilidade de gerar um ser com seu próprio sangue, pegar-se pai mediante a circunstâncias tão inusitadas, de certo, o fez reconsiderar que aquela vida era mesmo um intrincado de eventos imprevisíveis.

E pensou que não poderia querer mais da vida. Pois, ter um filho e ainda por cima, ter sido Akane a tê-lo gerado, significava mais do que uma realização de um sonho impossível.

Rin embalou com cuidado o pequeno ser que já havia amainado o choro lamentoso. Colocando-a nos braços de Akane, ela beijou a amiga no rosto ao fazê-lo.

Akane a tomou pela primeira vez nos braços. A pele branca, tão fina e macia. Os cabelos pretos e os olhos semi-abertos de um violeta intenso. Tudo nela pareceu perfeito e de fato era verdadeiramente uma pequena notável.

Akane a beijou com ardor, Yashamaru fez o mesmo. Primeiro na filha, depois nos lábios da esposa num estalo.

-Parabéns! Ela é linda! —Rin disse aos dois que sorriram em devolutiva. —Como irão chamá-la?

Akane sorriu ao pensar a respeito. Voltando para Yashamaru que a fitou de volta, ela ancorou uma mão no rosto do comandante.

-Podemos chamá-la de Hiromi?

O coração de Yashamaru bateu forte contra o peito com aquela proposta. Apesar de nunca longe, aquele nome reverberou com força no seu interior. E naturalmente, a imagem da sua falecida irmã tão amada voltou nas suas memórias apartadas.

Viu Hiromi com nitidez, despontando pelos campos com uma risada alta e pronunciando as mais sandices que aquela boca audaz e brincalhona poderia dizer.

Yashamaru não conseguiu deter as lágrimas, pressionando os dedos contra os olhos para não cair o choro, ele somente assentiu.

Sua filha teria o nome da sua irmã.

...

Para quem fazia parte do Oeste, ver as planícies preenchidas pela variedade exorbitante de flores e árvores rechonchudas de diversas cores, não era um fenômeno espantoso de se observar em plena primavera.

Ainda assim, a natureza vibrante arraigada de vivacidade impressionava até mesmo os olhos mais acostumados com o espetáculo que ocorria uma única vez dentro do ano.

No entanto, quando Souichiro pisou no Oeste mais uma vez, necessariamente nos arredores da propriedade da irmã, ele não se deu o trabalho de espichar o corpo para o lado de fora da liteira a fim de preencher seus olhos tão expressivos com a beleza crua que berrava por uma olhadela.

Que a verdade fosse dita, aquele senhor feudal não se importava nenhum pouco com aquilo e muito menos o evento o teria feito gastar as solas dos sapatos alheios bem como a energia dos yokais bestiais que puxavam a liteira elegante que ele habitava para o distinto local.

Abotoou-se novamente o gosto amargo na boca ao perceber que a energia sinistra da qual buscava ainda não jazia no local e tampouco pelo caminho tracejado...

Com um grunhido irritado e um semblante mais carrancudo que poderia fazer, assim que foi anunciado por Tetsuo que haviam finalmente chegado, Souichiro desceu de uma só vez da cabine portátil e perpassou pelos altos portões que resguardavam a casa de Mitsue.

Toshio e Asami correram na sua direção ao vê-lo, mas não se demoraram ao notarem que o tio não estava tão divertido como costumava e que francamente não esboçava alguma vontade de melhorar o humor.

Mas, afim de não contaminar os sobrinhos com a sua nova roupagem, ao menos ele acariciou o topo de suas cabeças carinhosamente e os ofertou um sorriso sincero que acabou sendo o bastante para aqueles seres diminutos compreenderem que a carranca nauseabunda nada tinha a ver com eles.

Mitsue brotou na varanda ao senti-lo chegar juntamente a Kenji que tinha a mão direita entrelaçada com a da caçula diminuta que já se postava a caminhar e pronunciar palavras emboladas.

Ao vê-lo se aproximar, Miyako não hesitou largar a mão do pai e pular nos braços de Souichiro de uma só vez. Agarrando o pescoço alheio com uma devoção tão grande que já se sabia que seria difícil de desatar.

Ele riu com o ímpeto e a recebeu com a mesma intensidade nos seus braços.

-Tio... —Miyako disse baixinho, quase num murmúrio.

-Estava com saudades do tio? —ele disse dando vários beijos na cabeça da pequena.

-Irmão, Miyako gosta mesmo de você!

Souichiro sorriu de maneira amena, passando a mão pelos cabelos longos e pretos tal qual a da irmã, a pequena yokai reclinou a cabeça totalmente no seu ombro e postou a cerrar os olhos como se estivesse a buscar aquele acalento há muitas eras.

-Veja só. —Kenji riu balançando a cabeça em negativa. —Tentei fazê-la dormir durante horas.

-Parece que o Sul berra nas suas veias, não é, minha senhora? —Tetsuo disse a Mitsue com um sorriso de canto.

-É. —Mitsue assentiu concordando. —Miyako com certeza tem uma inclinação a nossas origens.

Dispondo-se na varanda, ambos sentaram em um respectivo lugar. Souichiro ajeitou mais Miyako no seu colo que não deu qualquer sinal de despertar e de soltá-lo. Fitou-a em admiração durante um longo tempo, antes de ser interceptado.

-Não está na hora de ter filhos também? —Kenji indagou a ele com um sorriso irônico.

-Tsc... Já disse que não irei me casar. —Souichiro resmungou recostando as costas na parede atrás de si. —Estou satisfeito em ser tio, ainda que você seja o pai.

-Você não perde mesmo uma... —Kenji girou os olhos.

Alisando os cabelos de Miyako que se aconchegava mais a ele, Souichiro arranhou a garganta e olhou para Mitsue de soslaio.

-Teve alguma notícia nos últimos tempos?

Mitsue sorriu para Souichiro ao entender exatamente qual era a notícia que o irmão queria saber.

-Não acha que está um pouco obcecado por Yoshiaki?

-Está. —Tetsuo respondeu pelo senhor feudal.

-Claro que não! —Souichiro falou ao mesmo tempo.

-Claro que está! —Kenji riu alto e apontou para a esposa ao seu lado. —Mitsue também já esteve assim por mim.

-É verdade. —Mitsue concordou coçando a nuca ao lembrar-se.

-A ponto de mandar Seiji atrás? —Tetsuo indagou a Kenji dando uma piscadela ao Comandante.

-Caralho, Tetsuo! —Souichiro rosnou e provavelmente só não voou em cima do seu Comandante por Miyako ainda se manter agarrada em seu corpo.

-Como é!? —Kenji deu um salto assim como Mitsue.

-Isso é sério!? —Mitsue indagou com os olhos arregalados. —Mandou Seiji atrás de Yoshiaki!? Ficou maluco!?

-Estão de sacanagem com a minha cara!? —Souichiro rebateu desviando os olhos. —Ele quase matou todo mundo naquela vez e por pouco não morreu também. Se ele explodir de novo, qual a probabilidade de isso não dar uma merda gigantesca? Se Sesshoumaru não pensou a respeito, eu pensei.

-Que mentira! —Mitsue falou com a face completamente absorta. —Claro que não é por isso.

-Sesshoumaru confia em Yoshiaki. Deveria tentar. —Kenji disse num tom reprovativo. — Yoshiaki vai ficar muito puto se descobrir que tem alguém o seguindo.

-No mesmo dia que Seiji o encontrou, Yoshiaki descobriu. —Tetsuo disse dando de ombros. —Acho que não preciso dizer que ele ficou irritado e que havia avisado que seria uma péssima ideia. Principalmente em tirar Seiji da sua base.

-Tsc... —Souichiro engoliu a sucessão de palavrões malcriados que iria proferir.

-Irmão. —Mitsue o chamou com os olhos estreitados. —Não está agindo assim com Yoshiaki por conta de Shinichiro, não é?

Souichiro bastou a balançar a cabeça em negativa dando um longo suspiro.

-Ahn? —Kenji indagou com o cenho torcido em confusão. —Shinichiro? Como assim? O que tem a ver?

-Ahm! —Mitsue tampou a boca ao lembrar que nunca havia contado isso ao marido.

-O que? —Kenji olhou para Mitsue, Souichiro e Tetsuo que desviaram os olhos de imediato. —É sério? Ninguém vai me contar?

-Err... —Mitsue sorriu jogando os braços para trás.

-Pff! Vai em frente Mitsue, já abriu mesmo essa boca! —Souichiro ralhou a irmã numa pose irritada. —Conte logo a verdade de que roubou Shinichiro de mim.

-Ah, não! De novo isso!? —Mitsue deu uma careta a ele e prosseguiu com a face franzida. —Não existe isso de roubar alguém de outro!

-E lá vamos nós... —Tetsuo respirou profundamente.

-Claro que se rouba! —Souichiro esbravejou, rebatendo com a mesma veemência. —Passei a vida fazendo isso, não se faça de idiota!

-Você não era dono de Shinichiro, o que posso fazer se ele se apaixonou por mim?

-E você não evitou que isso acontecesse, porque notadamente tinha um interesse nele. —Souichiro rosnou e a chutou forte. —Fura olho do caralho!

-Você teria feito o mesmo! —Mitsue retribuiu o chute.

-Claro que teria!

Kenji não sabia se ficava surpreso ou se ponderava se havia escutado realmente aquele diálogo insano. Mas, olhando para Tetsuo que simplesmente balançou a cabeça sutilmente, ele resolveu seguir o conselho e ignorar aquele assunto. Arranhando a garganta, ele voltou para Souichiro tentando manter uma face alinhada, mesmo que o assunto fosse realmente estranho.

-Se tem sentimentos por Yoshiaki é melhor que seja de verdade. Vi Yoshiaki crescer, ele não é alguém comum. Não o machuque.

-Não o machuque!? —Souichiro repetiu com desdém e deu uma gargalhada. —Como se isso fosse possível! Se não percebeu quem está fodendo com quem certamente não sou eu! —recostando mais as costas na parede, ele voltou a alisar os cabelos de Miyako com os olhos taciturnos. —Ele parece ter se espalhado em mim como aquele veneno. Nunca pensei que um sentimento pudesse doer tanto.

-Souichiro... —Mitsue ficou embasbacada assim como Kenji. —Essa foi a coisa mais bonita que já o ouvi dizer.

-Fico pensando se ele não vai voltar nunca mais. —Souichiro grunhiu girando os olhos. —Não é irritante?

-Claro que ele vai! —Mitsue rebateu com o tom repleto de certezas.

-Quanto mais tentar apertar Yoshiaki, mais ele fugirá de você. —Kenji falou a ele com o semblante sério. —Ele sempre foi assim.

-Não estou tendo nem a oportunidade disso, porque nem perto ele está e nem deixa eu me aproximar...

-Completamente apaixonado. —Tetsuo falou assentindo para Mitsue e Kenji.

-Foda-se, porra! —Souichiro chutou o seu comandante que finalmente deu uma risada assim como os outros.

-Só quero ver quando Sesshoumaru ficar sabendo que está rodeando o filho dele. —Kenji disse com um sorriso irônico, cruzando os braços na altura do peito.

-Não quero nem imaginar quando ele descobrir! —Mitsue riu assentindo. —Sesshoumaru vai querer te matar mais do que nunca!

-Hm! —Souichiro sorriu ironicamente. —Se ele não gosta de mim, problema é dele! Mas, o que ele pode fazer, se o filho gostar!?

-Nunca pensei que diria isso, mas, que bom que meus filhos são seus sobrinhos. —Kenji disse fingindo alívio.

-Hm! Vocês estão zombando da minha cara, mas e quanto a esse Comandante sórdido!? —Souichiro apontou para Tetsuo em deboche. —Perguntem a ele sobre a nova integrante do Sul!

-Ah! Está apaixonado também, Tetsuo? —Mitsue sorriu largamente ao Comandante.

-Sim. —Tetsuo admitiu sem abalo no semblante.

-Como você é franco. —Kenji sorriu um pouco surpreso pela admissão espontânea.

-Por que falaria que não se a resposta é sim? —Tetsuo indagou sem entender, arqueando uma única sobrancelha.

-E ela? Okoi, não é? O que ela disse? —Mitsue o estimulou a prosseguir, apoiando as mãos no queixo com curiosidade.

-Não a perturbo com isso. —Tetsuo disse seriamente.

-Não deveria se sentir tão inseguro, ainda mais agora que conseguiu consertar o seu rosto. —Kenji disse dando uma piscadela a ele.

-Hm... —Tetsuo cerrou os olhos. —Não é mesmo por isso. Okoi passou por muitas coisas. Não é o momento certo. Só não quero aborrecê-la com um assunto leviano.

-Tsc! Até vir outro yokai e comer ela. —Souichiro ralhou a ele mudando a posição de Miyako em seu colo.

-Souichiro... —Mitsue esfregou os olhos buscando paciência.

-Já que tocamos no assunto... —Kenji disse inclinando o corpo para frente. —Sei que não é da minha conta e Mitsue está sempre a desconversar..., mas, como conseguiu se curar, Tetsuo?

-Já respondeu por você mesmo. —Souichiro falou por Tetsuo com um tom apático. —Não é da sua conta.

-Por que estão fazendo tanto mistério quanto a isso? —Kenji indagou apoiando as mãos nos quadris com uma tez inconformada.

-Porque o Sul adora um mistério. —Mitsue disse dando uma piscadela a ele.

-Que seja então...

...

"Yoshiaki,
Sei que deve estar ocupado, mas, queria avisá-lo que seu irmão ou irmã, está para nascer! Estou tão feliz, filho! Brevemente o conheceremos. Espero que volte logo. Estou com muitas saudades.
Eu te amo.

Rin."

Yoshiaki sorriu ao ler o recado enviado por um dos yokais mensageiros. Fazia mesmo um tempo considerável que não tinha notícias de ninguém e que não conseguia mandar a respeito da sua condição. Nem sempre os yokais que levavam e traziam as mensagens aproximavam-se dos becos e dos lugares traiçoeiros que ele embrenhava-se. O que ocasionava um ruído abrupto na comunicação já tão escassa e difícil.

Mas, ele já sabia que seria assim. Por isso, não esmoreceu, ainda que os rostos das pessoas amadas tenham passado num rompante pela sua cabeça e ele tenha sabido que estava perdendo muitos momentos na companhia daqueles.

Guardando a mensagem no interior do kimono negro, dois passos para frente foram o suficiente para algo chamar a sua atenção de imediato. Para ser mais exato, um cheiro! Um cheiro acompanhado de uma energia sinistra que ao ponto que não era familiar, era.

Aquela confusão de sentidos o aturdiu.

Pois, como se conhece algo ou alguém que não se faz ideia do que seja? Que nunca se tenha dividido o mesmo espaço? Aquilo não era loucura da sua cabeça? Ou seria um yokai a tentar lhe confundir?

Fosse o que fosse era bem verdade que seu ser era movido pela curiosidade exorbitante. Então, embora houvesse a possibilidade de ser um truque, Yoshiaki internalizou que descobriria do que se tratava.

Movendo-se em velocidade por entre a floresta densa, o meio-yokai afundava com precisão as solas dos sapatos na terra fofa, e sem perder o pique e o embalo, perseguia o seu objetivo que parecia estacionado na outra extremidade.

Franzindo o cenho ao notar que possivelmente estava caindo numa armadilha nauseabunda, ele resolveu que ainda assim não hesitaria. Algo no seu interior não o permitiria fazê-lo.

Ultrapassando com determinação uma vegetação encorpada, ele finalmente saiu da floresta e deparou-se com uma planície limpa, com uma grama baixa.

Mas, ainda que fosse surpreendente um espaço vazio depois de horas a fio loteando a mata pesada, entre trilhas labirínticas, a maior surpresa, evidente, era as duas criaturas com um semblante firme a sua frente.

A primeira personalidade tratava-se de uma mulher, que apesar de não tão jovem gozava ainda de forte beleza. Seus longos cabelos negros lisos bem como os olhos castanhos incisivos emolduravam a face pouco marcada pelo decorrer dos anos. Usando um kimono de miko e com um arco e flecha em punho, a mulher parecia obstinada a atacar se provocada.

Ao seu lado, muito mais característico e difícil de ser negligenciado, havia um ser de cabelos platinados e olhos âmbares. Não fosse pelas garras, caninos afiados e pelas orelhas que brotavam no topo da sua cabeça, poderia dizer que alguém o estava tentando imitar numa brincadeira esdrúxula.

Mas, a espada diferenciada empunhada numa curvatura mais do que única e sabedora pelo mundo feudal a despeito das suas habilidades, Yoshiaki não teve qualquer dúvida de quem ele encarava com os lábios entreabertos.

A correspondência e o entendimento foram quase que imediato. Pois, analisando-se mutuamente, tendo seus cheiros e aparências tão similares, só mesmo se fossem estúpidos demais para não compreenderem.

-Você é o filho do Sesshoumaru!? —o outro platinado disse impressionado.

-Noooossa! —a mulher falou esmorecendo a mira com os olhos arregalados. —A semelhança é incrível!

-Você... —Yoshiaki falou igualmente surpreso dando um passo a frente. —Inu-Inuyasha? Meu... Meu tio?

-Hm! Ao que parece, sou eu mesmo. —Inuyasha disse recostando Tessaiga no ombro. —Diga, garoto, o que está fazendo aqui tão longe?

...

Passado o baque, tendo ambos saídos da ofensiva, Yoshiaki contou resumidamente os problemas que o assomaram desde o seu nascimento até o despertar fatídico que o tirara completamente do eixo.

Inicialmente, eles começaram a conversa de pé, mas, mesmo tentando ser o mais sucinto e breve possível para não alongar tanto o papo, pareceu impossível desvencilhar das um milhão de perguntas e dos olhos curiosos tanto de Inuyasha como de Kagome. Então, eles acabaram sentando na grama quando o assunto se estendeu e criou mais raízes do que o pretendido.

-Coitadinha da Rin. —Kagome disse colocando a mão no peito. —Soubemos de algumas histórias, mas nunca tivemos certeza se era mesmo verdade. Pelo jeito ela passou por muita coisa difícil.

-Quando saímos do vilarejo, sua mãe se negou a ir com a gente. —Inuyasha disse dando de ombros. —Como se Sesshoumaru precisasse necessariamente ir até lá caso quisesse encontrá-la!

-Por que nunca foram nos visitar? —Yoshiaki indagou com curiosidade. —Minha mãe sempre fala sobre vocês.

-Humpf! Como se eu fosse sair da minha casa pra bajular o Sesshoumaru! Ele já tem muitos idiotas para fazer esse trabalho. —Inuyasha falou com desdém, cruzando os braços na altura do peito

-Inuyasha! —Kagome o repreendeu veemente.

-O que, ué? Eu disse alguma mentira? —Inuyasha cerrou o cenho. —Além disso, creio que os yokais daquele castelo pretensioso não ficariam nada contentes de me verem por lá!

Yoshiaki deu uma risadinha contida. Ver aqueles dois juntos era como imergir nas demoradas histórias que a mãe o contava quando era apenas uma criança. Ela literalmente havia os descrito com a maior das precisões e, perceber isso, sentir que ainda queria muito compartilhar com os dois, ele não conseguiu conter o desejo que cresceu dentro do seu peito.

-Tio, o senhor me deixaria passar um tempo com vocês? —Yoshiaki indagou em tom respeitoso.

-Ahn? —Inuyasha deu um salto. —Quer ficar no vilarejo com a gente?

-Poderia? —Yoshiaki insistiu de maneira cortês.

-Claro que sim! —Kagome respondeu alegremente. —Seria ótimo recebê-lo lá em casa!

-Não moramos num castelo igual ao seu. —Inuyasha disse cruzando os braços o olhando de canto. —Então, não se assuste por não ter muito que ver por lá.

-Não é como se tivesse passado grande parte da minha vida dentro do castelo. —Yoshiaki sorriu brevemente. —Não me importo com isso. Só em ter a companhia já será o suficiente.

-Que educado! —Kagome falou com assombro.

-É... —Inuyasha concordou na mesma medida em absorto. —Escuta, por que quer ficar com a gente?

-Hm... —Yoshiaki ponderou nas palavras. Ao encontrá-las, pôs-se a dizer com sinceridade. —Bom... Por um lado, porque só um meio-yokai entende outro meio-yokai. Por outro, porque sempre imaginei como seria viver as histórias que minha mãe contava. Digamos que seria um sonho a ser realizado.

Diante daquelas palavras, Inuyasha não pôde retrucar. Conhecia bem aquele sentimento e legitimava até os ossos.

-Bom, já que é assim... —Inuyasha disse erguendo-se do chão com um sorriso largo no rosto. —O que está esperando para ir com a gente?

...

CONTINUA...