Capítulo 39 —Transmutação.

Por mais que fizesse muito tempo, precisamente vinte e um anos, Rin não conseguia apagar da memória como era estar grávida.

Como esperado, assim que descobriu que daria à luz a mais um ser, ela vestiu seu sorriso mais alegre e irradiou pelos quatro cantos a felicidade exacerbada que lhe cabia.

Independente da estação do ano, se estava frio ou quente, ventando ou parado, chovendo ou nevando, seco ou úmido, nada parecia ser capaz de abalar o seu humor. Esbanjando gratidão e continuamente praticando a sua meditação diária, os dias que se sucederam no castelo foram de intensa plenitude para a mulher dos longos cabelos negros que um dia pensara que viver tal situação novamente seria impossível!

Inicialmente, quando havia descoberto a sua condição, em nada assimilava-se ao evento da qual tinha deleitado no passado. Com o passar das semanas, analisando o aumento da sua silhueta bem como os enjoos, cansaços e tonturas, ela passou a ponderar que aquela gravidez da qual experimentava estava um pouco desalinhada com a sua primeira.

Claro que ela sabia que uma gravidez era diferente da outra. Como uma mulher, Rin possuía o entendimento e já imaginava que aquilo seria possível. Por isso, mesmo com os sintomas mais intensos do que os da sua memória, ela tentou não levar aquilo tão a sério. Entendia que a natureza feminina reverberava como um emaranhado complexo.

Isso até certo ponto...

Pois, notadamente, quanto mais o tempo passava, mais ela percebia que havia verdadeiramente algo muito diferente!

...

Era meado da Primavera.

Rin gostava especialmente dessa estação do ano. Pois, era a época em que sua cerejeira favorita, estacionada no mesmo ponto desde a primeira vez que havia pisado ao castelo, preenchia seus olhos com exasperada diligência. Abarrotada de flores rosadas, abrilhantava o jardim com sua delicadeza tão efêmera.

Ela não evitava passar longínquos tempos embaixo da árvore. Na realidade, era exatamente sob as flores cor-de-rosa e de aroma sutil que ela deixava-se cair na inconsciência. E vez ou outra, não era difícil pegá-la cochilando despretensiosamente ao lado de Arurun.

Então, não tão raro, Sesshoumaru ia até o seu encontro quando a via repousar e sem a perturbar, dependendo da temperatura do dia, debruçava sobre o corpo da mulher alguma manta quentinha a fim de não a deixar totalmente ao relento naqueles momentos de cochilo revigorante e profundo.

Mas, daquela vez que ele o fez, Rin abriu os olhos monotonamente ao sentir algo sobre o corpo. Voltando a realidade aos poucos, ela deixou um bocejo escapar dos lábios bem como uma lágrima solitária irromper do olho direito.

-Sesshoumaru... —ela falou piscando algumas vezes, fitando o marido próximo de si.

-Não pretendia acordá-la. —ele disse num tom pesaroso.

Rin balançou a cabeça em negativa e bocejou mais uma vez com a mão na frente da boca.

-Acordei sozinha. —Rin falou dando um sorriso ameno. —E já deve fazer bastante tempo que estou dormindo na verdade.

-Um pouco. —Sesshoumaru assentiu com um sorriso sutil.

Dando um espaço para o lado, Rin não precisou dizer qual era sua intenção. Sesshoumaru entendeu de imediato e sem rebater sentou-se ao lado da mulher naquela manhã de sol ameno e brisas frias.

O senhor feudal mal havia assentado e já estava ela aconchegando-se no corpo alheio e apoiando a mão sobre a barriga protuberante despontada sob o kimono de seda.

-Mandei uma mensagem a Yoshiaki. —Rin começou a dizer entrelaçando o braço livre no do marido e apoiando a cabeça confortavelmente no corpo do outro, ainda assim, ergueu o queixo para poder fitá-lo mesmo de baixo. —Não vai acreditar, Sesshoumaru. Sabe com quem ele encontrou?

-Quem?

-Com Inuyasha e os outros! —Rin falou com um sorriso animado.

Sesshoumaru montou-se em um semblante surpreso que não demorou a dissipar em fração de segundos. Não pelo encontro em si, posto que o senhor feudal reconhecia que o mundo feudal era mesmo assim, repleto de novidades e de acasos da qual não se pode evitar. Enquanto se está vivo, não é necessariamente espantoso dar de cara com quem quer que seja pela imensidão a fora. Não seria diferente com o seu filho e com o seu meio-irmão.

Obra do destino enfático, sem dúvidas!

O real motivo da surpresa foi pelo fato de que já fazia muitos anos que não tinha notícias do meio-irmão. Quer dizer, parando para pensar, mais do que um bom tempo! Havia se ocupado tão veemente com a construção do Oeste e, posteriormente, com as furtivas desventuras que acometiam o vasto império que uma hora foi levando a outra, o dia o outro, semana, mês, ano e assim por diante...

O que se pode dizer? A vida era daquela maneira. Cada um seguia seu próprio caminho e traçava suas prioridades.

Mas, ele teve que reconhecer que ouvir o nome de Inuyasha o fez revisitar alguns sentimentos em si.

Não poderia dizer que a aversão pelo meio-irmão continuava. Tendo em vista que, sem hipocrisia, não havia rumado uma empreitada tão diferente do pai e tampouco do próprio meio-yokai.

Havia ainda motivos para rechaçá-lo? Se ao final do engodo do passado já não se apegava tanto a essa premissa, imagine depois de tantos anos... Não encontrou em seu âmago qualquer amargura. Não havia mais sentido.

Em virtude disso, Sesshoumaru não viu motivos para fechar o cenho e muito menos dizer qualquer palavra desagradável sobre Inuyasha. Bastou-se a assentir. Como quem compreende a surpresa da mulher que deveras legitimou.

-Inuyasha e Kagome tiveram uma filha. Moroha! —Rin prosseguiu com o semblante radiante. —Ela é um pouco mais velha do que Yoshiaki, mas pelo que ele descreveu, ela é uma figura bastante elétrica!

-Um quarto de yokai. —Sesshoumaru falou em reflexão.

-É. —Rin assentiu em concordância.

-Como Yoshiaki está? —Sesshoumaru indagou com o semblante sério. —Ele falou?

-Ahm... Daquele jeito. —Rin sorriu amarelo. —Disse que está bem... E que irá passar um tempo no vilarejo com eles.

-Talvez seja bom para ele.

-Sim... Só, estou com saudades. —Rin admitiu um pouco sem jeito. —Queria que ele voltasse logo!

-Deixe-o levar o tempo que achar necessário. A temporalidade não é mais uma questão. Terá tempo de sobra com Yoshiaki ainda.

-Eu sei. —Rin concordou voltando a aconchegar-se no corpo do outro.

Ela tinha consciência das palavras de Sesshoumaru. Como ele já havia dito em outros tempos, não se pode pedir mais luz ao sol. E, tal qual o passado, reconhecia que as coisas são como elas são.

Estava em paz com as escolhas do filho, embora o coração doesse pela sua ausência. Havia como evitar? Ela achava que não. Afinal, o que era ser mãe se não isso? Viver em constante sobressalto a espreita da sua própria cria! Principalmente, quando este o tinha uma natureza tão adversa.

-Ah, Sesshoumaru! O senhor monge e Sango também tiveram filhos. —Rin voltou a dizer ao lembrar-se. —Três filhos!

-Aquele monge... Era um pouco diferente... —Sesshoumaru disse relembrando das posturas peculiares de Miroku.

-Uhum! —Rin riu brevemente ao recordar-se em igualdade. Mas, logo voltou ao sorriso ameno e prendeu-se a alguns fios do cabelo de Sesshoumaru que bailavam pelo torso, os enroscando no dedo. —Sabe... Creio que acontecerá o mesmo conosco...

Sesshoumaru não entendeu bem, a princípio. Antes de retrucar, ela continuou a dizer.

-Penso que também seremos pais de três. —Rin disse com notada emoção, alisando a barriga protuberante.

Sesshoumaru sorriu brandamente para Rin e não hesitou em igualdade colocar a mão por cima da dela, sobre o ventre pontudo. Inclinando-se um pouco para baixo, ele a beijou de maneira afável, e ela o recebeu em seus lábios sem qualquer resistência.

-Talvez... Talvez teremos mais. —Sesshoumaru disse ao desvencilhar dela, colocando a mão livre na lateral do rosto bem desenhado da outra.

Rin riu daquele comentário e apoiou mais a sua cabeça na mão do marido.

-Será que daria tempo de ter mais filhos? —ela indagou com um sorriso amainado.

-Isso é algo da qual não consigo cansar de tentar. —Sesshoumaru respondeu taxativo, com um sorriso de canto.

Ela riu novamente e, como Sesshoumaru, também colocou a mão na face alheia carinhosamente.

-Teremos que esperar só um pouquinho.

-Por você e para tê-la, esperaria até uma eternidade.

Independentemente de ter passado tantos anos deleitando-se da convivência com ele, o coração daquela mulher ainda insistia em bater forte contra o peito ao escutar palavras como aquelas saindo dos lábios do seu amado marido.

Era inevitável.

Não se podia controlar as próprias emoções e anseios. Era inevitável. E Rin, mais do que ninguém, consentia com o pressuposto. Porque, o que ela era senão um conglomerado de sentimentos impossíveis de serem contidos?

Mesmo que a taquicardia fosse clichê e que seu coração já ultrapassava da hora de ter se acostumado, ele não caminhou na contramão. Teimoso, tardou a ricochetear contra o peito na devoção característica que ela apreendia bem.

Seus olhos luminosos brilharam para os âmbares.

Não resistindo e identicamente a mulher, ele também cedeu aos sentimentos expressivos.

Espontaneamente, voltaram a se beijar embaixo da cerejeira admirável.

...

Cho não fez cara de espanto quando Souichiro entrou pela sua porta sem pedir licença.

Ela já o esperava.

Mas, isso não queria dizer que ela precisamente tivesse que abrir um sorriso caloroso e tampouco esboçar emoção ardente quando as solas dos sapatos salpicaram no seu assoalho recém limpo. Na verdade, ela olhou do piso para ele de maneira monótona e, claro, Souichiro deu de ombros pouco se importando com o infortúnio.

Desnecessário proferir que aquilo foi de propósito!

Com um dane-se bem grande estampado na testa, Souichiro ainda, ironicamente, bateu as pontas dos pés na madeira a fim de desprender a grama e a terra fofa emaranhada nas suas solas bem como batucou na porta escancarada como quem pede passagem para prosseguir.

Cho quis ter revirado os olhos. Mas, diante daquele yokai, ela não ousaria a destilar tamanha coragem. Ela podia desprezar Sesshoumaru com todas as suas forças, mas uma coisa tinha que reconhecer, ele jamais perderia totalmente as estribeiras por algo tão leviano. Com Souichiro, no entanto, não era bem assim. Era melhor não o irritar... Volátil e sanguinário do jeito que aquele yokai era, a hostilidade dele o faria desconsiderar em cinco segundos que precisava dela! E, sem pestanejar, a mataria. Mesmo sendo insensato fazê-lo!

Ela conteve mais ainda o desdém ao ver que Seiji e Tetsuo também vinham logo atrás. E irritantemente como o seu senhor, não fizeram a mínima questão de seguir as boas maneiras e regras de etiqueta.

-Veja como essa vida é irônica. —Cho disse cerrando os olhos enquanto passava nervosamente a mão pelos cabelos negros que alcançavam o início dos seus quadris bem delineados. —Já quis me matar tantas vezes por ter dado a chance de Shinichiro viver e agora vocês o exigem de volta.

-Blá Blá Blá... —Souichiro fingiu bocejar.

O senhor feudal deu mais alguns passos para frente para o engodo de Cho. Ela engoliu a seco com aquela aproximação fora de propósito, mas, não recuou, manteve-se firme no lugar ainda que seu coração palpitasse forte contra o peito. Se evadisse, seria pior.

Souichiro parou a uma distância mínima dela. A olhando de cima a baixo com um sorriso cínico, a tensão só aumentava e a sufocava de tal maneira que ela podia jurar que sua glote havia fechado. Pois, mal conseguia buscar o ar ao redor para dentro dos pulmões livres.

Tendo a tensão daquele momento, Souichiro aproveitou-se do pavor alheio para fingir que a atacaria só para vê-la saltar com o susto do golpe fictício.

Ele gargalhou em conjunto com os outros dois. Dessa vez, Cho não conseguiu ocultar a carranca de ser tão humilhada.

Não dando oportunidades para ela o rechaçar, Souichiro a agarrou pela mandíbula com força, trazendo a face alheia na sua direção que involuntariamente formou-se um bico esdrúxulo e constrangedor nos lábios entreabertos pelo movimento enérgico. Ele encostou suas testas e esfregou seus narizes numa carícia mais do que sinistra, capaz de arrepiar todos os pelos do corpo daquela mulher reticente.

Tudo ficou mais medonho quando Souichiro estacionou sua testa na dela e penetrou com seus olhos verdes-oliva tão gélidos e maníacos dentro dos de Cho, pondo-se a falar de maneira calma, quase pausada.

-Exijo o que eu quiser, quando eu quiser, com quem eu quiser e da forma que eu quiser. E você, sua megera suja, não tem porra nenhuma a ver com isso.

Terminando o discurso, ele a empurrou para trás com força, e a bruxa só não caiu no chão porque a parede as suas costas a apartou.

-Sabe muito bem que quem você deu a chance de viver de novo, de longe, não era Shinichiro. —Tetsuo disse incisivo, com uma cara de quem está preste a cuspir ao chão. —Não haja com dissimulação.

-Só porque você conseguiu curar essa sua cara não significa que trazê-lo de volta a esse mundo seja uma boa ideia. Deveriam tê-lo matado! —Cho falou tentando se colocar na postura ereta, ainda que suas pernas estivessem trêmulas.

-Se Tetsuo não é a prova viva de que Shinichiro não possui mais rancor, então, não há nada nesse mundo que possa convencê-la do contrário. —Seiji disse cruzando os braços com uma tez apática. —Já falamos um milhão de vezes que o espírito de Shinichiro se regenerou, caso contrário, Tetsuo continuaria com as marcas.

-Tsc! Essa vaca sabe disso. —Souichiro falou com desdém. —Só está com o cu na mão de trazer Shinichiro de volta.

-Se Sesshoumaru descobrir isso... —Cho tentou falar.

-Ainda não entendeu? —Souichiro a interrompeu grosseiramente, batendo firme o pé no chão, o que ocasionou um buraco severo no piso lustroso.

-Se o que teme é que Sesshoumaru descubra que Shinichiro foi trazido de volta, é uma preocupação mais do que irrelevante. —Tetsuo disse com o tom inabalável. —Ele perdeu a energia sinistra. Não tem como Sesshoumaru saber.

-E se está se debruçando em Sesshoumaru pelo fato do meu senhor ser impedido de matá-la... —Seiji complementou. —Saiba que se meu senhor decidisse fazer isso, tenha a certeza de que Sesshoumaru não começaria uma guerra por uma pequena cláusula a ser desobedecida.

-Eu daria até metade do Sul só para ver você enterrada! —Souichiro disse rispidamente com um sorriso largo eloquente. —Mas, você não valeria nem um centésimo de terra para Sesshoumaru! Mais irrelevante impossível!

Apesar de não estar fazendo calor naquela tarde primaveril, Cho sentiu o suor percorrer um caminho sinuosos nas suas costas. Estava encurralada. Maldita tinha sido a hora que por tamanha ambição, tenha se embrenhado com aquela gente. Amaldiçoou a si mesma por ter almejado voos tão altos. No final, não sabia se tinha valido mesmo a pena.

Era bem verdade que o corpo de Shinichiro lhe havia cabido bem e dado a vitalidade e beleza que precisava para poder viver longamente. Isso é, pela resistência e magnitude do ser tomado, Cho considerava que adentraria mais uns bons séculos dentro daquela roupagem.

Mas, até que pular de corpo em corpo humano, não pareceu tão ruim diante daqueles olhos incisivos a sua frente... Quem sabe não tivesse sido melhor nunca ter topado com Shinichiro antes! Pois, caso assim fosse, não precisaria ter tido todo aquele trabalho para fazer, desfazer e fazer de novo!

Sem chances de declinar das ameaças mais do que verídicas, Cho respirou pesadamente. Não haveria o que dissesse que os faria reconsiderar.

Queria ter se surpreendido. Claramente, não ocorreu. Em virtude disso, não mais titubeou.

-Se é assim... —ela falou a contragosto. —Venham logo.

Por mais incrível que pudesse parecer, dentro da sua cabana mística existia um porão. Não era algo que saltava aos olhos a primeira olhadela, considerando que ela o havia ocultado bem por entre o piso. Só pisando em falso especificamente na abertura que se dava para compreender o som oco que se fazia.

Puxando aquilo de qualquer jeito para cima, uma escada modesta surgiu em meio a luzes baixas de velas crepitantes.

Conforme desciam, mais o odor de ervas misturado com o mofo e a umidade impregnavam suas narinas sensíveis. Colunas rústicas e bancadas com os mais variados objetos, desde uma cobra dentro de um vidro selado como uma cabeça humana boiando entre uma espécie de ácido, esparramavam morbidamente por aquela câmara secreta.

Mas, nada, absolutamente nada chamava mais atenção do que o corpo estendido dentro de uma urna no coração daquele lugar.

Fazia tempo que aqueles yokais não se impressionavam. Depois de tantos anos resvalando por sobre o tempo que nunca dormia, dificilmente, permitiam-se abrir a boca. No entanto, foi impossível não o fazê-lo.

Indubitavelmente, era Shinichiro que estava lá.

Seus cabelos negros, brilhosos e espessos escorriam preguiçosamente por sobre o torso, estacionando na linha da cintura delgada. O rosto alinhado, simétrico, onde se repousava um nariz pequeno, pouco arrebitado, assim como os lábios finos. Apesar dos seus olhos jazerem abertos, revelando os ônix inerentes ao seu ser, estavam opacos, totalmente sem vida. Como se por um acaso do destino, ele tivesse vindo a falecer daquela forma nauseabunda.

Vestido com as roupas de outrora, num kimono preto elegante, foi como se tivessem embarcado em uma máquina do tempo, onde revisitavam duramente um passado remoto.

-É ele mesmo. —Tetsuo falou notadamente impressionado.

-Por enquanto é só uma casca. —Cho falou quebrando o silêncio embasbacado dos yokais.

-Como... —Seiji bem que tentou, mas não conseguiu completar. Pois, ia da casca perfeita a Cho em segundos, repetidas vezes.

-Querem mesmo que eu explique o passo a passo? —Cho respirou pesadamente cruzando os braços demonstrando um cansaço mais do que evidente. —Por que não só aceitam? Bruxaria é bruxaria... Vamos acabar logo com isso.

Pela primeira vez Souichiro concordou com Cho abertamente. Mesmo não tendo dito diretamente, ele bastou-se a jogar o cristal com a alma aprisionada de Shinichiro na sua direção. A bruxa pegou o objeto ainda no ar e entendeu duramente o recado.

Cho se aproximou da casca sem cerimônia. Pegou na mão do ser inanimado e colocou o cristal envolta aos dedos que não ofereceram resistência. Concentrando-se, ela não o largou. Pôs-se a pronunciar palavras ininteligíveis a compreensão daqueles yokais num ritual tão pesado quanto o ambiente que os rondava.

Não demorou para que o cristal se quebrasse totalmente entre os dedos inanimados. Irradiando uma luz forte, quase capaz de cegar os presentes ao redor, todo o corpo pareceu absorver o espectro denso que bailou durante segundos pelo ar.

E, como se tivessem lhe dado um tranco ou talvez um choque de alta voltagem, aquela criatura ergueu metade do tronco de uma só vez, buscando o ar furiosamente.

Com os olhos arregalados e arfando mais entrecortado do que nunca, Shinichiro foi trazido de volta a vida. E fitou todos ao redor com uma confusão mais do que arrebatadora.

-O que... —Shinichiro começou a dizer e seu timbre perfeito ressonou nos corações alheios por conta da familiaridade da coisa. —Eu...

Shinichiro não soube se olhava para os presentes no ambiente ou para si mesmo refletido no enorme espelho no canto daquele lugar.

Em tese, ele nem achava que o que seus olhos revelavam era algo crível! Pensou se não estava tendo um dos milhares de sonhos vívidos que nos últimos tempos, seu espírito em estado latente, o proporcionava.

Teve um pouco de medo de tocar em si próprio. De tudo de repente esvair como a fuligem no ar. Mas, ainda assim ele o fez. Olhando para as próprias mãos trêmulas, que indubitavelmente eram suas, ele tocou em seu peito de uma só vez...

E que vertigem!

Não poupando movimentos, ele explorou o corpo como quem está buscando alguma coisa.

-Está mesmo aqui. —Cho disse com pouca emoção, afastando-se dele consideravelmente. —Não é uma alucinação.

-Estou... Estou vivo... —Shinichiro disse absorto erguendo finalmente o olhar e seus olhos reluziram como a noite infindável. Num negrume denso.

Dentre todas as coisas, voltar ao mundo, e, mais do que isso, retornar em posse de um corpo que poderia não ser o verdadeiro, mas, que exprimia a aparência idêntica ao original, foi uma surpresa mais do que avassaladora.

-Desgraçado! —Tetsuo disse alto.

O Comandante não se conteve. Não dando chances e talvez, mesmo que desse, Shinichiro certamente não desviaria. Movido pelo ímpeto, Tetsuo o deu um belo de um soco na cara!

Em cheio!

Um soco que tinha o objetivo claro de fazê-lo sentir dor momentânea e de longe ser fatal ou brutal ao ponto de fazê-lo perder a consciência.

Shinichiro demorou a voltar o rosto para frente, mas quando o fez, realizou vagarosamente. Entreolharam-se então quando a face retomou a direção reta. E não houve muito que se dizer no encontro das suas retinas.

Engolindo as palavras dentro da boca, Shinichiro abaixou a face com uma vergonha reconhecida e assentiu pesadamente ao golpe dado, corroborando com a atitude do outro. Mas, ao subir novamente o olhar para tentar dizer o que havia entalado na garganta, ele foi interceptado novamente por Tetsuo. Só que dessa vez, o Comandante não estava disposto a agredi-lo, pelo contrário. Em posse de um movimento ilógico, Tetsuo o abraçou forte contra o corpo.

-Finalmente... —o comandante disse com a voz carregada. —... Você voltou...

Sendo pego de surpresa pela centésima vez naquele dia, Shinichiro demorou um tanto a reorganizar as ideias e entender que de fato estava mesmo vivendo aquilo. Tomando o tino da coisa, ele rendeu-se e correspondeu ao abraço com a mesma intensidade.

Não tardou para o abraço aumentar e ele ser envolto não mais por um e sim por mais dois que esperaram o momento certo para tomarem tal atitude. Shinichiro os correspondeu na medida do possível ao enlace triplo.

O cheiro das flores do Sul impregnou suas narinas. O cheiro tão familiar e saudoso...

Ele sentiu vontade de chorar. Incrivelmente, depois de anos, conseguiu. E com o tom mais miserável e pesaroso que podia pronunciar, ele o fez.

-Me perdoem... Eu sinto muito...

...

Já fazia duas semanas desde que Yoshiaki havia assentado no vilarejo da qual seu tio habitava.

A aldeia campestre de largas plantações extensas ocupava boa parte das excelentes planícies propícias ao cultivo. Diferentes espécies de leguminosas cresciam na terra fofa e constantemente arada pelos aldeões dedicados que ora ajoelhavam sobre ela a fim de colher ou replantar e outrora revolviam-na com devoção, preparando o solo para outra empreitada.

Uma vida simples que começava sempre muito cedo.

Quando Inuyasha e Miroku não estavam a ajudar os camponeses com as tarefas mais triviais do dia-a-dia eles mantinham-se ocupados na proteção dos indivíduos residentes, bem como, vez ou outra, eram chamados para aniquilarem algum yokai malévolo que estavam a aterrorizar a região.

E, não raramente, eles contavam com a participação dos seus destemidos filhos para a tarefa.

Às vezes, as próprias crias iam por si mesmas, não almejando qualquer ajuda.

Para falar a verdade, Moroha até preferia ir só na maioria das vezes. Principalmente quando se podia garantir uma recompensa gorducha pela empreitada a ser desenvolvida. Por isso, não era de se admirar que quando alguém vinha com o recado para o seu pai ou para quem quer que fosse, ela fingia seriedade e comprometimento na entrega da coisa e sem que ninguém soubesse embrenhava-se animadamente pelo mundo afora perpassando aventuras em sucessão.

Regressando com a cara mais deslavada do mundo e com os bolsos mais pesados do que o de costume, não escapava dos demorados sermões de Inuyasha que entravam pelo ouvido e saíam pelo outro. Dando um beijo longo na bochecha do meio-yokai e um abraço mais do que afável, Moroha o desmontava todas as vezes.

Kagome nem tentava participar da represália. Primeiro porque, francamente, ela achava engraçado. Em segundo lugar, a mulher no fundo sabia que não daria em nada, Moroha era tão cabeça dura quanto o marido, e em terceiro, e mais importante do que os demais, ela tinha muito trabalho sendo a sacerdotisa do recinto. Seu poder espiritual havia crescido expressivamente nos últimos anos, o que era um acalento para os moradores que podiam contar com a sua bondade e alegria constante.

Sango a auxiliava com o serviço. Então, muitas vezes, estavam elas em conjunto preparando medicamentos, buscando ervas medicinais e cuidando daquela gente com todo o cuidado.

Não havia como negar que a dinâmica daquela vida era extremamente diferente da praticada no Oeste. A começar pelo fato de que os yokais pouco se lixavam para as desventuras humanas e suas inquietudes. Egocêntricos e indiferentes as dores relativas ao homem, eles preocupam-se unicamente consigo mesmos e com os problemas territoriais inerentes a sua natureza.

Nem no céu e nem no inferno. Yoshiaki não conseguia os julgar. Compreendia a ambos. E identificava-se em igualdade.

Pois, ao ponto que queria ajudar as pessoas desprovidas, por lembrarem uma parte de si, da sua mãe e de Akane e por se sentir bem em fazê-lo nas vezes que os auxiliou, na mesma moeda, via-se tão ambicioso e visceral quanto os yokais que lutavam insanamente por um lugar ao sol.

Ponderou que sua natureza era mesmo excêntrica... Que deveras, era uma criatura muito particular, quase que camaleoa.

Por conta da última ventania e da chuva forte que caiu pesadamente no dia anterior, alguns casebres tiveram suas estruturas danificadas. Caso não fosse tomada uma atitude, provavelmente, elas não resistiriam muito mais. Assim sendo, Yoshiaki pôs-se a ajudá-los na empreitada que não era grandiosa, mas, que absolutamente o apetecia.

Enquanto modelava a madeira a fim de construir uma modesta tábua para preencher um rombo expressivo no telhado de um pequeno senhor amável, Yoshiaki acabou sendo interceptado da sua concentração e impedido de prosseguir a serração.

Apesar de pouco tempo de convivência e das suas habilidades para identificar de longe um indivíduo, seja pelo cheiro como pela energia sinistra, nada daquilo seria necessário para que ele a distinguisse.

Pois, quem além dela teria pulado despretensiosamente nas suas costas? Claramente, só podia ser Moroha.

-Yoshiaki! —Moroha falou seu nome alegremente.

Apesar de ser mais velha, Moroha ainda resguardava os traços infantis e serelepes. Hiperativa que só, não era de se estranhar que galgasse nas costas alheias e colasse no torso de quem quer que fosse da qual desenvolvia afeto. Grudando-se a Yoshiaki como um carrapato, ela envolveu o pescoço do meio-yokai com seus braços e prendeu as pernas seguramente no seu tronco, grudando-se quase como um carrapato.

-Por que está tão agitada hoje? —Yoshiaki balançou a cabeça em negativa com um sorriso sutil no canto dos lábios. —O que está aprontando?

Moroha deu uma risadinha e desatando um dos braços do pescoço de Yoshiaki, ela encobriu parcialmente a boca e colou na ponta da orelha do primo, para dizer, quase que em sigilo exagerado o que pretendia.

-Tem um yokai que está ocasionando problemas no feudo vizinho, eles estão oferecendo uma boa recompensa para quem o matar. O que acha de ir comigo? Dividiria com você.

-Não posso, estou ajudando o senhor Teru com a sua casa. —Yoshiaki disse com um sorriso amarelo batendo levemente nos braços ainda revolvidos no seu pescoço.

-Mas, se você for, será rapidinho! —ela insistiu animadamente o agitando de um lado para o outro. —Logo voltaremos e poderá continuar consertando as casas com os outros!

-E se por um acaso chover no meio do caminho? —Yoshiaki disse declinando. —Lamento. Mas, já me comprometi com isso.

-Está bem... —Moroha assentiu deixando um longo suspiro escapar numa tez esmorecida.

-Da próxima vez irei com você, prometo.

Como se a tez nauseabunda nunca tivesse existido, Moroha a desfez instantaneamente ao ouvir aquelas palavras. E o abraçou uma última vez com carinho antes de pular do seu dorso.

-Então eu já vou, Yoshiaki. —ela deu uma piscadela a ele numa face travessa e colocou o dedo indicador na frente dos lábios como quem pede para guardar um segredo. —Não conte pra Hisui, se não ele vai querer pegar a recompensa para ele.

Da mesma forma que Moroha apareceu, ela se foi. Partindo em disparada numa energia singular da qual Yoshiaki não cansava de se impressionar.

Quando começou a escurecer, eles já haviam terminado todo o serviço, o que foi um alívio, posto que algumas nuvens carregadas surgiam no céu anunciando uma despretensiosa chuva. Com o reforço feito a tempo, os aldeões não correriam mais riscos. Agradecidos, os camponeses os rondaram com uma série de palavras sinceras e elogios pouco modestos.

Caída a noite em definitivo, os cinco reuniram-se ao redor da generosa fogueira, onde a utilizariam para se aquecerem um pouco e também com o objetivo de prepararem os peixes graúdos trazidos por Inuyasha para o jantar.

-Onde está Moroha, alguém a viu? —Inuyasha indagou erguendo uma única sobrancelha com desconfiança.

-Hm... —Yoshiaki sorriu dando um breve aceno. —Ela foi resolver um caso no feudo vizinho, não queria que Hisui soubesse, mas, ele acabou descobrindo no final das contas e foi atrás dela.

-Humpf! Essa minha filha é mesmo incorrigível... —Inuyasha balançou a cabeça em negativa apoiando as mãos nos quadris.

-Ela deve ter puxado alguém... —Kagome deu uma careta descontraída a Inuyasha que sorriu para ela em devolutiva.

-Quanto mais você a repreende, mais ela quer fazer. —Sango sorriu amarelo ajeitando-se em cima das próprias pernas. —Deixe-a um pouco livre. Ela já é crescida, afinal.

-E já que Hisui foi com ela, é menos um motivo para nos preocuparmos. —Miroku complementou sorrindo francamente. —Se sairão bem como sempre.

-Claro que sim. —Kagome assentiu em positiva. —Eles sabem se cuidar.

-Só não queria que ela ficasse se metendo em problemas o tempo todo. —Inuyasha disse, mas logo balançou a cabeça em negativa a fim de desanuviar aqueles pensamentos. —Que seja... Vamos comer então.

Estando prontos os peixes gorduchos, eles os comeram no espeto mesmo, sem muita cerimônia. E assim que acabavam de consumir a comida simples, jogavam suas carcaças, espinhos e gravetos de volta ao fogo que crepitava sem qualquer intenção de findar.

-Nos últimos dias estive pensando na sua condição. —Miroku começou a dizer a Yoshiaki enquanto agitava a fogueira com o graveto livre na intenção de conter o fogo dentro do círculo estabelecido. —No que havia nos retratado sobre a falta de controle por conta do resquício da energia sinistra do yokai do passado e pelo sangue yokai de Sesshoumaru.

-O senhor chegou em alguma conclusão, senhor monge? —Yoshiaki ergueu os olhos para Miroku com ardente curiosidade.

-Sim. —Miroku assentiu seriamente retomando a postura ereta de antes. —Há uma solução viável para essa questão. Mas, precisa entender que se tratará de uma escolha unicamente sua. Do que realmente almeja para sua própria natureza e o que tem como objetivo.

-Diga de uma vez, Miroku. —Inuyasha falou cruzando os braços, estimulando o monge a desembuchar sem tantos rodeios.

Miroku arranhou a garganta e montou-se no semblante mais sério que podia.

-Você deve saber que como um meio-yokai não há a possibilidade de explorar com totalidade o sangue herdado do seu pai. —Miroku voltou a dizer focalizando os olhos em Yoshiaki.

-Sim. —Yoshiaki assentiu compenetrado no raciocínio a ser elucidado.

-Por conta disso, penso que poderíamos tentar um selo espiritual a fim de conter o seu sangue demoníaco. Já que ele se tornou instável e pouco previsível, acho que seria uma boa opção para mantê-lo sempre com a mente sã.

-É mesmo uma boa ideia. —Sango concordou com igual face compenetrada.

-Acho que a energia sinistra do outro yokai está instigando o seu instinto natural e já difícil de ser contido. Se selarmos essa parte em você, ao menos, conseguirá se manter no controle sempre.

-Isso seria ótimo! —Kagome falou com animação.

-Se o senhor monge puder fazer isso por mim, não saberia como agradecê-lo. —Yoshiaki disse de imediato, sentindo uma grande ansiedade abarrotar o seu ser.

-Mas, tem um pequeno problema. —Miroku continuou com o mesmo tom sério, sem se desgarrar do silogismo. —Caso parte do seu sangue demoníaco seja selado, é possível que sofra a influência da lua nova. E, acabe se transformando em humano como Inuyasha nesse período.

-Me transformar... Em humano... —Yoshiaki repetiu com os olhos surpresos aquela explanação inusitada.

Ao longo da vida, apesar de ser um meio-yokai, Yoshiaki nunca havia se transformado em humano. Akane costumava a brincar com ele por conta disso. Quando a loira estava em sua versão humanoide, ela sempre dizia o quanto sentia inveja de Yoshiaki por aquele evento não o acometer. E ele, de certo, concordava com a proposição. Pois, compreendia que a tal situação era mesmo um fardo. Já era difícil ser um meio-yokai naquele mundo, pior ainda quando se estava entregue a uma vulnerabilidade como aquela.

Por isso, ele hesitou a responder de pronto. Perdeu-se no silêncio dos próprios pensamentos e nos olhares curiosos por sua resposta definitiva.

Mas, não se manteve assim por prolongados instantes. Logo, voltou seus olhos para Inuyasha.

-O que o senhor acha, tio? —Yoshiaki o indagou respeitosamente.

-Hm... —Inuyasha ponderou nas palavras a dizer, porém, não se demorou muito a continuar. —Não vou dizer que os dias de lua nova ressoam como uma bênção na terra, mas, isso é uma coisa que você aprende a conviver. Agora, se acha que perder o controle do próprio corpo é melhor do que um único dia no mês de vulnerabilidade, então, quem tem que avaliar sobre o que é prioridade ou não é você mesmo. Não posso decidir no seu nome.

-Entendo que a desvantagem o faça reconsiderar. —Sango falou calmamente repousando seus olhos amenos sobre Yoshiaki. —Sei que não é fácil se sentir vulnerável. Mas, será que o preço a ser pago vale mais a pena?

-Ninguém irá julgá-lo pela escolha que tomar. —Kagome disse serenamente, com um sorriso sincero no rosto. —Mas, pense com cuidado. Já foi tão longe para poder encontrar uma solução.

-Hm... —Yoshiaki assentiu, embora a mente estivesse embaçada.

-Também já fui como você um dia. —Inuyasha falou o olhando de canto. —Ser forte parecia a única coisa que importava nessa vida. Ser um yokai completo era um sonho da qual eu buscava incessantemente. No entanto, descobri outras maneiras para ser forte. Você também encontrará a sua própria força, independentemente de ter que se transformar em humano numa noite.

-Inuyasha tem razão. —Miroku concluiu comedido. —E pelo pouco que o conhecemos, não acho que queira que aquilo o domine de novo. Sabe bem das consequências que isso poderia trazer aos outros. Pessoas indefesas como essas do vilarejo poderiam sofrer. Sei que não quer machucar ninguém.

-Não. Seria um pesadelo. —Yoshiaki assentiu seriamente.

-Não precisa dar a resposta agora. —Sango disse calmamente. —Pode pensar um pouco a respeito. E quando decidir, você fala o que pretende.

-Isso mesmo. Não há pressa. —Miroku assentiu.

Mas, Yoshiaki não sabia bem se precisava de tanto tempo assim para ponderar. Recobrando as imagens do seu último descontrole, da qual via em flashs bagunçados de muita fúria e ímpeto, golpeando inclusive seu próprio pai, ele sentiu o gosto amargo do sangue empapar a boca igual aquela noite.

Revisitando seu estado deplorável, a resposta parecia mais do que óbvia.

-Não é necessário esperar. —Yoshiaki disse mantendo o tom limpo. E voltando a Miroku, ele o fitou com decisão. —Serei eternamente grato, senhor monge, por selar essa parte em mim.

-Que bom! —Miroku sorriu satisfeito assim como os demais.

-Tomou a decisão certa, garoto. —Inuyasha falou apoiando a mão sobre o ombro do sobrinho.

Para um monge da qualidade e nível de Miroku realizar um procedimento como aquele era algo que não requeria muito esforço. Por isso, quando ele o fez em Yoshiaki, e com tamanha habilidade e velocidade, soou verdadeiramente fácil! O que, obviamente, nem de longe alguém comum ou com menor experiência conseguiria realizar.

Yoshiaki apreciou a vocação alheia. E legitimou que seus poderes budistas eram dignos de serem aplaudidos. Pois, instantaneamente, assim que ele terminou os movimentos precisos no seu corpo, a inquietude da sua natureza acalmou-se.

Depois de muito tempo, o meio-yokai sentiu-se mais leve.

E, como se fosse do seu feitio, ele abraçou Miroku em agradecimento ardente. Talvez aquilo fosse a característica do seu antigo eu da qual ele não conseguiu ocultar. Mas, aquela parte, não haveria problemas em ser solta uma vez ou outra.

Com o avançar da noite, as nuvens enegrecidas e carregadas começaram a esfarelar. Até mesmo deram passagens para umas poucas estrelas brotarem entre si.

Kagome e Sango se retiraram da roda, deixando Inuyasha, Miroku e Yoshiaki para trás, que decididamente resolveram ficar de sentinela enquanto elas desfrutavam de um sono tranquilo.

-Depois daqui, para onde você está pretendendo ir? —Inuyasha indagou a Yoshiaki com curiosidade. —Agora que resolveu essa questão do controle, retornará ao castelo?

-Não. —Yoshiaki sorriu ao tio enquanto inclinava mais o corpo para trás, apoiando-se nos cotovelos as suas costas. —Ainda não me sinto pronto para voltar. Tem muita coisa ainda que quero aprender e observar.

-Deveria ir no vilarejo próximo ao monte Kireina. —Miroku disse com um sorriso malicioso nos lábios. —Lá tem umas garotas muito bonitas. Tenho certeza que não irá se arrepender de dar uma passadinha por lá.

Yoshiaki deu uma breve risada com o comentário do peculiar monge.

-Será possível que mesmo depois de tantos anos esse monge continuar sendo um pervertido? —Inuyasha ralhou para Miroku e cruzou os braços na altura do peito.

-Não faz mal em olhar. —Miroku falou com a face mais deslavada do mundo, dando de ombros. —Por que tenho que fechar os olhos quando vejo algo bonito?

-Hm! Impressionante... —Inuyasha girou os olhos. —Deixa só a Sango ouvir você falar uma coisa dessas.

-Hehehe... —Miroku sorriu amarelo coçando a nuca. —Não precisa envolver a Sango nisso.

-Que monge mais pervertido! —Inuyasha balançou a cabeça em negativa, reprovando a atitude do outro.

-Falei para Yoshiaki, não foi necessariamente pensando em mim. —Miroku arranhou a garganta tentando se corrigir. E não demorou muito a tomar a nuance marota de antes ao retomar o olhar para o sobrinho de Inuyasha. —A não ser é claro que ele já tenha alguém especial...

-Ahn! —Yoshiaki emitiu o som surpreso ao ser pego desprevenido por aquela questão.

O jovem meio-yokai engoliu a seco e sentiu o coração bater forte contra o peito ao lembrar daquela pessoa...

Num súbito, sentiu o sangue subir para o rosto.

-Pelo jeito, com essa cara toda vermelha, parece que sim. —Inuyasha disse o empurrando levemente com o ombro.

-Então, tem mesmo uma pessoa especial? —Miroku insistiu com animação escancarada.

-Hm... —Yoshiaki voltou a sentar numa posição ereta e cruzou os braços na altura do peito ainda um pouco sem jeito. —... Não sei bem...

-Olha só! —Miroku sorriu animado o abraçando lateralmente. —Conte para mim como é essa pessoa.

Pelo ânimo exacerbado daquele monge ancorado em si e pelos olhos compenetrados do tio na sua direção, Yoshiaki notou que não teria mesmo saída diante da curiosidade alheia. Por isso, ele respirou profundamente e ajuizou as palavras certas a serem ditas.

-Apesar de ter uma inclinação feroz para a violência e ser uma criatura extremamente despudorada, em igualdade, é estranhamente afável comigo. —Yoshiaki disse e logo após arranhou a garganta.

-Hmmm! Que interessante! —Miroku assentiu ainda alegre com o assunto. —Mas, e quanto a aparência?

-Aparência...

Num estalo a imagem veio a sua mente.

Sorrindo brevemente, Yoshiaki teve que respirar fundo mais uma vez ao ter que admitir.

-Revoltantemente impecável.

-Parece que tem alguém apaixonado. —Miroku disse sorrindo desvencilhando de Yoshiaki.

-É, ao que parece sim! —Inuyasha riu brevemente.

Yoshiaki sorriu sem jeito.

Aquela conversa era tão constrangedora, afinal.

Além de não compreender muito bem as amarras do coração, existiam detalhes consideráveis em meio ao sentimento que se alocava no peito.

Em consequência disso, ele decidiu acabar logo com o assunto. Tomando o tom sério de antes, ele fitou Inuyasha e Miroku com a devida vênia.

-Obrigado, tio e obrigado senhor monge. Aprendi muito com os senhores aqui no vilarejo. Obrigado por terem me permitido ficar.

-Rá! Não foi nada. —Inuyasha piscou a ele. —Pode ficar quanto tempo quiser.

-Todos do vilarejo gostaram muito de você. —Miroku disse sincero com um sorriso no rosto. —Está sendo um prazer ter a sua companhia aqui com a gente.

-Estou feliz por tê-los encontrado. —Yoshiaki disse com um sorriso sereno.

-Agora que sabe o caminho, pode vir e ficar quanto tempo quiser. —Inuyasha disse francamente.

-Certamente. —Yoshiaki assentiu e fez uma breve reverência para os dois a sua frente.

...

Foi numa noite estrelada, de uma Primavera mais florida do que o habitual, que um choro seguido do outro foi ouvido pelos corredores do castelo.

O Oeste, sempre tão quieto e contido, exibia uma choradeira infantil tracejada a plenos pulmões potentes.

Ainda que Rin soubesse que aquela gravidez não era nenhum pouco similar a sua primeira, não conseguiu deixar de esboçar na face, enxarcada de suor pelo esforço intenso, a surpresa de ter dado à luz a gêmeas!

Duas belas meio-yokais que foram apartadas em simultâneo por Akane e posteriormente por Mitsue que a acompanharam todo o tempo durante o parto difícil e que, sem muitas delongas, as deram nos braços de um Sesshoumaru mais do que estupefato.

-Parabéns, Rin! —Akane disse com a voz embargada.

-Elas são lindas, Rin! Suas filhas são lindas. —Mitsue disse com o mesmo tom emocionado.

Gêmeas não idênticas, onde as únicas coisas em comum que possuíam eram o fato de terem sido geradas pela mesma mulher e possuírem uma fina mecha vermelha em seus cabelos tal qual a de Yoshiaki que havia adquirido após o seu despertar.

Rin ponderou se aquilo não se devia pelo controle da sua energia sinistra. Tendo em vista que na ocasião ela não era mais uma simples humana, quem sabe, aquilo não havia reverberado na gestação das suas crias?

Mas, fosse o que fosse, ela não quis se agarrar naquelas premissas. As coisas diriam por elas mesmas. Não era necessário pressa, teriam todo o tempo do mundo para desvendarem os mistérios daquela vida.

Pondo-se sentada com a ajuda de Akane e Mitsue que mantinham os olhos umedecidos pela emoção da outra, ela bastou-se a desfrutar ao lado do marido o momento tão único e repleto de anseios que viviam.

-Towa. —Rin disse ao dar um beijo carinhoso na testa da bebê de cabelos platinados. E não tardou a fazer o mesmo com a outra, dos cabelos negros. —Setsuna.

-Towa e Setsuna. —Sesshoumaru assentiu realizando o mesmo movimento da mulher. Mas, ele o complementou, dando um beijo breve nos lábios de Rin. —Eu as amo. Com todo o meu coração.

-Nós também. —Rin piscou forte, deixando algumas lágrimas alegres escorrerem. —Nós também te amamos.

...

Há uma obviedade consensual entre os seres.

Sendo yokais ou humanos.

Bons ou maus.

Certos ou errados.

Havia algo indiscutível entre os seres mais díspares possíveis.

Que era a ideia de que o tempo engole o tempo.

Mesmo para aqueles que atravessavam os séculos, não se podia negar que a vida era uma eterna escrava das horas. E que ela era tão efêmera como a chama de uma vela que se apaga por conta de uma breve brisa.

Então, quando aquele senhor feudal das terras do Sul se deu conta, já faziam três verões desde a partida de Yoshiaki.

E, tal qual a andança das horas nos relógios celestiais, os acontecimentos iam seguindo e a vida continuava... Embora estranha, e não tão mais abrasadora, ela prosseguia.

...

Não era necessário dizer que o Verão havia começado.

Tampouco precisava ser um bom entendedor sobre as estações do ano para compreender que o tal evento havia se iniciado. Posto que, o ambiente por si só já falava. As lufadas de ventos quentes bem como o sol a pino no céu azul cerúleo límpido demonstravam, sem palavras, que o período mais quente do ano dava seus primeiros sinais de como os dias se seguiriam.

Souichiro não era muito fã daquele calor escaldante. Na realidade, seu mal humor se aflorava consideravelmente durante a quentura insistente! Não que ele estivesse esbanjando simpatia..., mas, no Verão, as coisas realmente pioravam!

Apesar disso, ele jazia estacionado na varanda do castelo, fumando em seu cachimbo de corpo fino e elegante enquanto olhava a movimentação intensa dos yokais barulhentos no seu feudo.

Baforando uma fumaça aqui e outra ali sem muita emoção, numa melancolia difícil de ser negligenciada, seus pensamentos avoados, de repente, foram interrompidos por um diminuto yokai mensageiro, similar a um pássaro, que irrompia os céus na sua direção.

Como em todas as vezes que aquilo acontecia, ele arregalou os olhos e sem pestanejar ergueu-se de uma só vez a fim de agarrar aquele espécime singelo que não tardava a lhe entregar um pergaminho amassado entre os pés.

Deixando o cachimbo de lado, ele prendeu-se a correspondência com os olhos mais atentos e ansiosos do que nunca.

"Hoje fez um sol tão forte que achei que queimaria. Mas, foi tão bonito ver os rios transparentes por baixo daquela luz. Eles reluziam como prata. Mesmo ao longe conseguia vê-los brilhar.
Como não há muitas florestas densas nessa região de Furawazo tive que andar um bom tempo pelos campos abertos e pude escutar nitidamente a sua gargalhada. Porque eu suava como nunca por baixo do meu kimono preto.
Lembrei de você naquele Verão...
Você certamente falaria meia dúzia de palavrões malcriados e zombaria da minha maneira de vestir. E, só dessa vez, eu te daria razão para fazê-lo.
As cores no céu são igualmente bonitas ao entardecer. Queria que pudesse ver o pôr-do-sol daqui.
Os morros são tão baixos nessa região que dão a impressão de que os dias demoram mais a passar, pois o sol parece esquecer de desaparecer por entre eles. Ou talvez seja a minha ânsia de querer vê-lo.
Não sei se ainda está esperando que eu regresse. Se as coisas mudaram nesse tempo que estou fora. Mas, queria que soubesse que meu coração é tão estranho e teimoso como você.
Quem sabe não esteja na hora de voltar.

Yoshiaki".

Havia muita coisa para ser processada naquela carta, apesar de curta.

Quem sabe por isso, Souichiro a tenha lido pelo menos umas cinco vezes.

E, ainda assim, não conseguia se cansar e saborear cada palavra escrita.

Seu coração bateu torto. Bateu daquele jeito, como na primeira vez.

Quem o estivesse o fitando, teria visto que de uma hora para outra, a carranca havia desaparecido, dando lugar a um sorriso largo e uma tez amena, onde olhos verdes-oliva brilhavam em redenção exorbitante.

Souichiro assentiu, mesmo que tenha sido para si mesmo.

E só quando guardaria a carta que notou que havia mais coisas escritas no verso.

"P.S.: Hoje encontrei um homem um tanto diferente. Ainda não sei dizer se era humano ou não. Se estava vivo ou morto. Ainda que não emanasse uma energia maligna, senti uma sensação familiar. Não é estranho?
Hm... E devo dizer, ele me ganhou no Sugoroku. E percebi que sou tão mal perdedor quanto você".

Primeiro, Souichiro arregalou os olhos com estupefação.

Depois, deu uma gargalhada tão alta que os demais pensaram que seu senhor havia enlouquecido de vez.

...

CONTINUA...