Capítulo 40 — Calor.
Depois que as gêmeas nasceram e nos anos que se sucederam ao evento, já era possível de observar, mesmo com tão pouco tempo, que ambas exibiam além de uma aparência divergente, uma personalidade completamente oposta!
Ao ponto que Towa possuía uma roupagem altamente elétrica, diga-se de passagem, até mais do que Yoshiaki naquela fase infantil —se é que isso era possível —, Setsuna bailava por entre a calmaria silenciosa.
Naturalmente, o que era para se esperar, era que justamente Towa se fixasse mais a Rin, pela volatilidade inerente ao seu ser elétrico, e Setsuna a Sesshoumaru, tendo em vista suas personalidades quietas e pouco agitadas.
Mas, o que ocorreu, foi justamente o contrário!
Então, não era de se admirar que sem mais nem menos, enquanto Sesshoumaru estava realizando os seus afazeres como o senhor do castelo, lendo pergaminhos, dando ordens, elaborando planos com seus comandantes e os outros yokais, Towa estivesse grudada na sua perna sem dar qualquer sinal de que dali sairia. A coisa que ela mais gostava era de perambular pela sala de reuniões, brincar com os papéis opacos e escalar o pai como se ele fosse uma montanha árdua. Talvez para ela e seus três anos de pura energia, Sesshoumaru soasse mesmo assim. Um monte tão alto e inóspito que era um desafio chegar até o topo!
Towa não se acanhava. E toda vez que Sesshoumaru pensava em lhe repreender, ela abria o sorriso mais luminoso possível e seus olhos tão radiantes o faziam lembrar da esposa. Notadamente, aquele era um engodo terrível! Pois, como conseguiria discipliná-la se a cada mordida, abraço e traquinagem ela o olhava com um olhar repleto de piedade!?
Não tendo alternativas, Sesshoumaru acabava cedendo. E deixava que a filha tão amorosa lhe tomasse nos braços durante horas a fio. Por conta disso, ninguém mais estranhava que de repente, em meio a um assunto sério, Towa de repente brotasse, e despretensiosamente, pulasse nas costas daquele gélido yokai, que fingia não a reparar, só para deixá-la fazer o que bem entendesse.
Embrenhando-se por entre a cabeleira prateada e pendurando-se no pescoço alheio, Towa quebrava paulatinamente a rigidez exacerbada com os inúmeros beijos nas bochechas do pai e pelas gargalhadas repletas de alegria.
Não dava para negar as origens daquela criatura. Os genes de Rin gritavam nas suas veias travessas.
Em contrapartida, Setsuna estacionava no colo da mãe. A seguindo por todo e qualquer canto, mesmo proferindo poucas palavras, a meio-yokai estava sempre a observando, e tentando apreender todos os trabalhos manuais possíveis que Rin exercia.
Setsuna era capaz de ficar na mesma posição durante horas, se algo chamasse a sua atenção, desde um bordado até uma preparação de um medicamento, nada a faria desatinar do lugar.
Apesar de não muito falante, isso não queria dizer que ela preferia o silêncio. Muito pelo contrário. Talvez, por culpa da plenitude do seu ser, ela necessitava que ele fosse preenchido pelas palavras da mãe. Ou seja, Rin necessitava entreter Setsuna das mais diversas formas! Seja com uma canção, com um conto verídico ou falacioso ou até mesmo um relato bobo de um dia casual.
Setsuna amava imaginar. Dar vida as palavras nos seus pensamentos era de longe seu passatempo favorito.
Igualmente carinhosa, ela postava-se a agarrar na barra do kimono da mãe e constantemente jogava-se nos seus braços para poder aconchegar-se antes de um sono mais do que esperado.
Claro que em algumas ocasiões as gêmeas lhes davam um pouco de folga. Sendo irmãs que dividiram o mesmo ventre, era natural que procurassem a si mesmas para poderem brincar de coisas que só quem tem a mesma idade conseguia. Embrenhando-se pelo jardim na companhia de Hiromi e às vezes de Miyako, quando essa estava pelo castelo, elas brincavam por toda a extensão, inventando as histórias mais absurdas possíveis.
...
Como de praxe, aproveitando o dia ensolarado que encobria serenamente o Oeste, já estavam Towa, Setsuna e Hiromi se esparramando pelo jardim florido em meio a risadas alegres e infantis.
Elas brincavam com uma bola leve que facilmente era atirada para todo e qualquer canto sem precisar de muito esforço. Arurun as olhava se agitar por baixo da enorme cerejeira e parecia esboçar um meio sorriso na sua face bestial com aquelas criaturas diminutas que preenchiam o castelo da mais pura alegria.
Rin as olhava atentamente da varanda. Sentada na beirada, a mulher balançava as pernas num vai-e-vem constante ao mesmo tempo que se abanava lentamente com um leque bonito estampado.
Prestando atenção na forma que elas brincavam e as ouvindo dizer as palavras mais falaciosas possíveis, Rin não conseguia segurar sucessivas risadinha por trás do leque pomposo e ponderar que aquelas criaturas possuíam mesmo muita criatividade e energia!
Em meio a brincadeira sadia, Towa correu para buscar a bola que havia parado mais longe do que o pretendido. Focada em pegar o objeto da diversão o quanto antes e assim voltar para próxima das demais, ela não percebeu uma raiz alta no solo da qual não observando, não conseguiu se safar da brusca topada que a fez, imediatamente, cair de cara no chão num choque violento!
Rin ergueu-se de imediato ao ver a cena. Com o coração na mão pela filha ter afundado o rosto na terra firme, ela estava prestes a correr na direção daquela criança desorientada. Mas, sem ter a chance de fazê-lo, a mulher foi interceptada por uma mão firme que a segurou pelo braço, tirando totalmente a sua atenção para trás.
-Sesshoumaru...
O yokai platinado bastou a balançar a cabeça em negativa para ela. Soltando seu braço, ele virou o rosto na direção da cena juntamente a Rin.
Não demorou muitos segundos da queda de Towa para Setsuna correr a sua direção como uma flecha. A segurando pelos braços, Setsuna ajudou a irmã, minutos mais velha, a erguer-se do chão.
Towa estava com os olhos marejados, mas não chorou. Invés disso esfregou os olhos com determinação e voltou a correr segurando na mão de Setsuna para perto de uma Hiromi que não conseguiu chegar a tempo para apartar o acontecido.
Rin sorriu contente por entender o que o marido queria mostrá-la. Além de serem mais do que unidas, suas filhas eram fortes e determinadas.
-Sabe que não consigo evitar. —Rin disse a Sesshoumaru com um sorriso amarelo.
-Eu sei. —ele assentiu com um sorriso de canto. —Não se pode fugir de quem é. Sabe que não me aborrece que seja assim.
-Que bom que não o canso.
-Seria impossível.
Rin sorriu contente pela frase amorosa. Enlaçando o braço no do marido, ela o fitou, mesmo estando numa perspectiva mais baixa.
-Andei pensando numa coisa. —Rin falou com um tom animado.
-Diga. —ele a estimulou a prosseguir com a face compenetrada.
-Podíamos aproveitar o Verão para viajarmos pelo Oeste, igual aquela vez que fizemos. Acho que as meninas iriam adorar conhecer os rios e os campos floridos da região! O que você acha, Sesshoumaru?
-Quando quer ir?
-Quando quiser. —Rin deu de ombros, não esboçando preferência.
-Quanto tempo quer ficar?
-O quanto der!
-Então, o que estamos esperando para ir?
-Verdade mesmo!? —Rin saltou surpresa com a positiva tão rápida.
-Se quer ir, nós iremos. —Sesshoumaru assentiu seriamente.
Rin sorriu tão abertamente que Sesshoumaru teve dúvidas se era o dia que estava resplandecente ou se era a mulher que emitia tanta luz sincera. Pois, sem esforço, ela conseguia iluminar todo o ambiente. Não importava onde fosse, com quem estivesse ou sob qual tempo, ela conseguiria preencher tudo e qualquer coisa com sua afabilidade franca.
-Mamãe! Mamãe! —o coro das gêmeas tirou a sua atenção.
-Vem brincar um pouco com a gente! —Setsuna disse a chamando com a mão.
-Por favor! Só um pouquinho! —Towa insistiu quase em súplica, juntando as mãozinhas na frente do rosto.
O que ela poderia fazer? Sorrindo, Rin se postou na ponta dos pés para dar um beijo rápido na face do marido que, propositalmente, virou o rosto para que seus lábios se tocassem furtivamente.
Um toque afável e sutil dos seus lábios que a fizera transbordar de tanto amor.
Sendo chamada mais uma vez, Rin não pôde mais negligenciar as pequenas. Desvencilhando totalmente do yokai platinado, ela pulou com muita energia da varanda ao jardim e sem perder o embalo, correu na direção das filhas que pularam nela alegremente.
Observando a cena, Sesshoumaru não soube dizer se havia revisitado o passado ao vê-la novamente naquela roupagem infantil ou se era Rin que era incapaz de desgarrar-se das amarras do tempo.
Independente de qual fosse a resposta, ele preferiu acatar que aquela mulher era uma verdadeira força da natureza e que incansavelmente fazia seu coração bater descompassado dentro do peito.
...
Não havia uma única nuvem no céu.
O sol a pino postado no centro da imensidão azul brilhava radiante por todo o Sul.
Apesar do calor escaldante e nenhum pouco confortável, não se podia negar que fazia um belo dia. As cigarras, os grilos e os pássaros que o digam! Posto que cantarolavam, cada um da sua forma, e preenchiam o ambiente estranhamente calmo com seus sons agudos.
Mas, Souichiro não parecia muito inclinado a aproveitar o que havia de melhor no Verão. Em outros tempos, ele teria se embrenhado pela mata fechada com algumas das suas concubinas e estacionaria numa das cachoeiras próximas a fim de passar todo o dia.
Sendo franco já fazia muito tempo que ele não saía de dentro do castelo. O que era uma coisa extremamente inédita. Já que Souichiro não costumava ser um yokai verdadeiramente sedentário. Muito pelo contrário. Aquele yokai vivia pulando de lugar a lugar, experimentando todo o tipo de coisa possível e conhecendo as mais distantes terras. Ele odiava a monotonia e o ócio. Inimigo número um da rotina e do tédio, o senhor feudal estava sempre preenchendo o âmago com novas inquietudes a fim de não estagnar.
Entretanto, sua agitação com o tempo esmoreceu. Viagens que demoravam muito tempo estavam fora de cogitação e eram descartadas sem qualquer hesitação. Passar mais do que três dias longe do castelo era como uma decretação de morte. Então, com o tempo, ninguém mais ousava a sugestionar que ele deveria sair mais... Pois, não adiantava! Ele arrumaria desde uma desculpa plausível até a mais esfarrapada para simplesmente não fazê-lo.
Claro que aquela mudança repentina tinha um motivo. Para ser mais exato, um nome. Mas, os residentes preferiam fingir que não sabiam e que tudo que era explicitado por Souichiro fosse devidamente acatado como verdade, ainda que soubessem que não era.
Era mesmo necessário dizer e acabar morto? Acreditava-se que não. No fundo todos sabiam que a melancolia daquele senhor se devia pela ausência de certo meio-yokai...
Se já estava sendo difícil, tudo ficou pior quando ele recebera a última carta. Não que alguém a tivesse lido, no entanto, foi muita coincidência que após recebê-la Souichiro pareceu mais ansioso e nostálgico do que antes e que depois daquilo é que se postou como uma árvore, negando-se veemente a sair do lugar...
-Por que não vamos a Suteki? —a voz delicada de Reiko soou pela varanda silenciosa.
Reiko, a concubina número um, era de fato uma yokai admirável. Souichiro não era nenhum pouco discreto quando dizia que ela era sua favorita. Primeiro por seu gênio tão fácil de lidar. Pois, ela era verdadeiramente amável, delicada e ponderada. Um lírio!
Naquele dia, seus cabelos tão loiros, quase pálidos, estavam presos num rabo de cavalo alto, com exceção da franja que caía na altura dos olhos azuis claros e luminosos. Seu rosto fino e simétrico combinava com o nariz pequeno e com os lábios volumosos que se acendiam por conta de uma tintura vermelha que ela costumava usar.
O corpo esguio repleto de curvas sinuosas e bonitas estava desenhado num kimono florido cor-de-rosa que pendia pelos ombros, deixando o colo parcialmente desnudo.
Reiko estava recostada numa das colunas firmes da varanda e Souichiro encontrava-se repousado no seu colo recebendo um carinho afável dos dedos delgados da yokai nos seus cabelos.
Uma lufada fresca passou por eles. Souichiro agradeceu mentalmente pelo vento, tendo em vista que já estava com a parte de cima do seu kimono verde totalmente aberta revelando o torso bem definido.
-Hm... Suteki... —ele repetiu sem muita emoção, mantendo os olhos cerrados.
-Não seria bom? —ela insistiu com um sorriso largo que ele não pôde ver. —Está tão quente aqui. Poderíamos nos refrescar no rio.
-... Aqui está bom. —Souichiro respondeu na cara dura.
Reiko suspirou sentindo-se derrotada. No entanto, nada disse por alguns instantes. Assentiu para si mesma e continuou a carícia ritmada nos cabelos do outro que dessa vez a olhou de volta, numa perspectiva mais baixa.
-Sei que estou um tédio ultimamente. —Souichiro disse seriamente a ela. —Por que não vai a Suteki com as outras? Fale com Aika, Suyen e Midori.
Reiko sorriu carinhosamente e deu um beijo demorado na testa de Souichiro.
-Sem meu senhor, não tem graça. —Reiko falou voltando a embrenhar os dedos por entre os fios grossos daquele yokai. Numa face amena, ela prosseguiu. —A verdade é que... Eu só queria o meu senhor de volta...
Souichiro ficou um pouco sem resposta. Reiko tinha razão ao dizer que ele não era mais o mesmo. Ele bem legitimava a frase, no entanto, não demonstrou que concordava. Invés disso montou-se no seu sorriso largo e malicioso. E justamente quando estava prestes a lhe responder, tudo de repente mudou.
Pois, num segundo, uma energia sinistra mais do que familiar foi trazida junto com o vento. Ainda que estivesse um pouco diferente, com uma nuance peculiar, Souichiro não podia se enganar quanto à presença que se aproximava.
Por isso, num súbito, ele ergueu-se de uma só vez com o coração palpitando. Uma expectativa tão atroz que o fez pular da varanda e deixar para trás uma Reiko mais do que atônita com sua movimentação elétrica e aparentemente sem sentido.
Inicialmente ele pensou em correr até os portões, mas ponderando que pareceria ridículo, ele não o fez. Preferiu prosseguir com passos rápidos que de certa forma, já denunciavam a sua ansiedade.
Quanto mais aquela presença se aproximava, mais sua garganta secava. Mesmo embaixo de sol forte, Souichiro não demonstrou se importar, e não arredou o pé da frente dos portões até que eles fossem abertos, anunciando o recém chegado.
O ínterim entre a percepção e a abertura dos portões não fora relativamente grande, mas, para aquele senhor feudal irrequieto pareceu durar toda uma eternidade.
Tendo as roldanas acionadas, pouco a pouco suas silhuetas foram surgindo, preenchendo seus olhos de cores distintas com a imagem alheia.
E, depois de tanto tempo, eles finalmente se reencontraram.
Souichiro franziu o cenho por alguns segundos, numa roupagem um pouco confusa, pois em primeiro lugar aquele ser não estava vestido todo de preto como costumava a fazer. Na ocasião, ele usava um kimono de peça única na cor vermelha com uma faixa cinza amarrada na altura dos quadris, o que permitia um bom vislumbre do seu peito bem definido. E em segundo, ele realmente não possuía a mesma energia sinistra de quando se foi.
Mas, aquela nova roupagem não fora capaz de apagar o alívio de finalmente vê-lo, longe disso! Seus olhos se acenderam igualmente ao tecido vermelho que reluzia em suas retinas.
-Olha quem eu encontrei pelo caminho! —Seiji disse com um sorriso largo apontando para o outro ao seu lado.
Souichiro nem havia reparado o seu General.
Como culpá-lo por negligenciar? Se, Yoshiaki estava bem ali a sua frente, há poucos passos de distância.
-Dessa vez posso verdadeiramente dizer que foi bom encontrá-lo, Seiji. —Yoshiaki disse dando uma leve alfinetada no senhor feudal, relembrando sutilmente o episódio que Souichiro mandara seu general atrás dele.
Souichiro sorriu com aquilo. Balançou a cabeça em negativa e não se demorou a dar passos na direção dos dois.
-Se demorasse mais um pouco, certamente, quem você encontraria não seria Seiji, e sim, eu mesmo. —Souichiro disse com seu familiar sorriso cínico.
Yoshiaki não teve tempo para rebater, pois num segundo aquele yokai o havia puxado para um abraço firme e desalinhado tal qual ele. Um enlace recheado de sentimentos que fez o coração de ambos baterem descompassados.
-Que bom... —Souichiro disse num tom amainado recheado de emoção o apertando mais contra si. —Que bom que voltou...
...
Havia uma sala ampla no castelo que geralmente Souichiro usava para receber suas visitas bem como tagarelar sem parar com Seiji e Tetsuo quando ambos encontravam-se no ócio. Ele gostava particularmente de lá por conta de ser afastado dos demais cômodos e por ser especialmente fresco por conta da fonte artificial alocada na parte externa e da árvore de folhas bordô e troncos retorcidos.
Seguindo o ritual, ele direcionou Yoshiaki para lá, bem como Seiji e Tetsuo que apareceu posteriormente.
Agarrado no braço do meio-yokai sem pretensão de soltá-lo, Yoshiaki o deixou em paz para que ancorasse em si. Embora fizesse um calor escaldante no fim da tarde, ele não protestou quando o senhor feudal emaranhou o braço no seu e sentou-se ao seu lado sem lhe dar um centímetro de espaço.
Envolto há um milhão de perguntas sobre o que fez, os lugares que foi, com quem esteve, o que encontrou, o que aprendeu e entre outras do gênero, ele tentava os responder naquele tom cortês e educado com toda a paciência e boa vontade inerente ao seu ser.
Seiji apreciava os momentos de longas descrições, principalmente quando Yoshiaki elucidava as batalhas que se embrenhara ou que vira pelo caminho. Tetsuo nem tanto, por isso, ora ou outra os cortava sutilmente para que aquilo não ficasse tão monótono. Souichiro, em outros tempos, agradeceria ao seu comandante por fazê-lo ou ele mesmo os interromperia sem tanta sutileza, mas, a verdade é que ele estava tão hipnotizado pelo meio-yokai ao seu lado que nenhum assunto poderia o cansar.
-Por que está vestido desse jeito? —Souichiro indagou ao cutucar Yoshiaki com o cotovelo. —Não diga que finalmente entendeu que não se pode usar preto todos os dias?
-Na verdade não. —Yoshiaki deu de ombros e o olhou de canto. —Pare de implicar como eu me visto.
-Confesso que também fiquei surpreso quando o encontrei. —Seiji falou colocando a mão no queixo em ponderação. —Mas, pelo tecido e por essas costuras na barra parece ser do clã Taue, não é?
-Sim. De lá mesmo. —Yoshiaki concordou um tanto impressionado.
-Já disse o quanto a sua personalidade detalhista me assusta? —Tetsuo falou a Seiji, balançando a cabeça em negativa pela percepção aguçada do outro.
-Nunca ouvi falar... —Souichiro franziu a testa e voltou os olhos para Yoshiaki que entendeu bem que o senhor feudal queria que ele prosseguisse.
-Não é uma história muito emocionante. —Yoshiaki tossiu seco desviando o olhar. —A verdade é que houve um incêndio no galpão que eles me deixaram ficar. Acordei no meio da noite por causa do fogo e acabei deixando minhas roupas para trás... Então, eles me deram algumas...
-Como deixou isso acontecer? —Souichiro arqueou uma única sobrancelha.
-Digamos que... O saquê deles é muito bom! —Yoshiaki sorriu amarelo.
Os três riram ao entender e Yoshiaki ficou tão vermelho quanto a roupa que usava.
No entanto, o assunto acabou o lembrando de supetão no belo presente que havia angariado do vilarejo.
Tirando três barris de barro de dentro da bolsa de tecido, ele atirou um para Seiji, outro para Tetsuo e entregou o último na mão de Souichiro.
-É de longe o melhor saquê. —Yoshiaki disse assentindo em positiva. —Tenho certeza que irão gostar quando experimentarem.
-Hã? Como assim quando experimentarem? —Souichiro indagou sem entender.
-Não é para tomar agora? —Tetsuo olhou do objeto para Yoshiaki com o cenho igualmente franzido.
-Nesse calor!? —Yoshiaki indagou mais do que surpreso.
-Que tipo de yokais você acha que somos? —Seiji escarneceu dando uma risada. —Se trouxe a bebida, é claro que iremos tomar agora.
-Ainda mais dizendo com tanta certeza que é o melhor que existe. —Souichiro riu junto já abrindo o pequeno barril e apontando para Yoshiaki. —Vamos tomar esse saquê todo agora. E você também irá.
-Lógico que eu não vou beber isso agora. —Yoshiaki riu balançando a cabeça em negativa. —É suicídio. É muito forte.
-Se queria nos fazer desistir, com essa última frase não deu certo. —Tetsuo falou abrindo o barril em igualdade e dando uma longa fungada no líquido. —O cheiro é mesmo excelente.
-Não iremos perdoá-lo se não beber conosco. —Seiji piscou a ele. —Seria uma indelicadeza.
Yoshiaki não teve como recuar diante de tantos olhos o fitando com a máxima expectativa e um sorriso largo nos lábios. Sem saída, ele bastou-se a suspirar e assentir sabendo que se arrependeria depois.
-Está bem, eu bebo! Vocês venceram.
Quando eles experimentaram a bebida, já no primeiro gole legitimaram a fala do meio-yokai. Aquele saquê era mesmo da melhor qualidade e exprimia uma excelência difícil de ser negligenciada e comparada. Mas, fato é que ele também não estava mentindo quando dissera que a bebida era um tanto quanto forte...
Por isso, quando chegaram ao terceiro barril em meio a conversas um pouco lentas e risadas extremamente altas, dava para se notar ao longe que os quatro jaziam inegavelmente bêbados!
Eles só haviam se dado conta de que havia anoitecido, porque o cômodo tinha insurgido numa escuridão sombria. Tetsuo ergueu-se para aceder as velas do recinto e ao fazê-lo, algo chamou verdadeiramente sua atenção.
E não um pouco, e sim muito! Extremamente!
Ainda que estivessem acostumados ao torpor de embrenharem-se no álcool e de vez em quando pegarem-se mais bêbados do que nunca, o que seus olhos experimentaram nos segundos seguintes fora capaz de aturdi-los ao ponto de se questionarem se o que viam de fato era verdade ou uma alucinação causada pelo álcool.
Pois, num minuto, Yoshiaki havia mudado totalmente!
Seus cabelos prateados transformaram-se numa vasta cabeleira negra, os olhos âmbares foram substituídos por um par castanho. Suas garras afiadas bem como as orelhas levemente pontudas deram lugar a uma aparência muito mais comum.
Mais humano impossível!
Diferente de Tetsuo e Seiji que franziram a testa com assombro e inclinaram-se bruscamente para frente, Souichiro não foi tão sutil. Agarrou logo Yoshiaki pelos braços com os olhos arregalados e a voz mais estupefata que poderia fazer.
-AHHHHH! QUE PORRA É ESSA!?
Yoshiaki bambeou um pouco, mas num segundo o tino veio ao notar que havia se transformado. Olhando para o lado de fora com os olhos embaçados ele constatou que já era noite. Mas, não uma noite qualquer... Uma noite de lua nova...
-Hm... É... —Yoshiaki disse dando um longo suspiro e esfregando a testa com pesar. —Tem isso hoje...
-ISSO O QUÊ!? —Souichiro o sacudiu. —Por que você... Você...
-Toda lua nova me transformo em humano... Esqueci... —ele falou estreitando os olhos. —Esqueci de falar...
-Se transforma... —Tetsuo disse ainda impressionado.
-Humano! —Seiji completou igualmente absorto.
-Por favor, não contem a ninguém. —Yoshiaki falou quase que em súplica aos dois. Depois, voltou os olhos para Souichiro tentando manter o semblante sério e o foco, embora estivesse um tanto bagunçado em virtude do álcool. —Tem pouco tempo que isso acontece. É um segredo muito importante. Não contei por carta porque preferi falar pessoalmente a respeito.
Passado o baque as mãos de Souichiro afrouxaram de imediato, o libertando parcialmente. Mas, ele não se afastou, invés disso, o analisou de maneira clínica.
Claro que não seria o suficiente só com os olhos! Evidente que não! Souichiro precisava o tocar para apreender minuciosamente o que seus olhos lhe ofertavam. Pôs, sem demora, a mão no contorno do rosto liso. Depois, passeou com o dedo indicador no perfil, desenhando o nariz simétrico e estacionou na boca entreaberta.
Depois fincou nos olhos castanhos. Sob a cortina de cílios negras e espessas que desciam e subiam em virtude das piscadas lentas.
As maçãs do rosto coradas pelo álcool excessivo numa tez mais pueril do que a anterior fez o coração de Souichiro derreter e bater em rendição exacerbada.
Será que nem mesmo na forma humana Yoshiaki deixava de ser tão bonito!?
Aquela personalidade era mesmo um mistério na Terra...
Capaz de aturdi-lo e arrepiar todos os fios de cabelo!
Talvez por isso, em meio a confusão inebriante e por conta de um tanto a mais de álcool em seu sangue, ele não tenha conseguido se controlar. Emaranhando os dedos nos cabelos alheios, Souichiro puxou Yoshiaki de uma só vez para um beijo denso.
Simples assim... Um beijo aleatoriamente!
Por um segundo Yoshiaki se assustou por ser pego desprevenido. Mas, Souichiro não era mesmo assim? Ponderando, não havia atitude mais inerente a ele...
Em parte por estar bêbado e outra por querer igualmente muito que Yoshiaki, apesar do susto, rendera-se totalmente.
Não impedindo Souichiro e tampouco a si mesmo, ele o correspondeu com a devida vontade.
E... Que vontade!
Envolveram-se então numa sintonia quase sobrenatural, onde suas línguas sedentas se enrolavam em carícias demoradas e cada vez mais profundas. Aquele gosto que não saía do paladar era impossível de cansá-los, por isso, quando pensavam em se desvencilhar para tomar nem que fosse um pouco de ar, declinavam da empreitada, mergulhando mais uma vez no outro. A cada segundo mais descobriam um canto oculto e deliciavam-se pela movimentação dos seus lábios tão incisivos e certeiros.
Impossível parar. Especialmente quando Souichiro mordeu os lábios inferiores de Yoshiaki e ele, na mesma direção da ânsia, o puxou pelo kimono aberto a fim de trazê-lo de volta para dentro da sua boca ávida.
Souichiro enrolou com mais força seus dedos na nuca de Yoshiaki e escorregou da boca dele, dando beijos pelo caminho, até se prender a orelha da qual com uma longa lambida quente e uma mordida firme no lóbulo fez Yoshiaki se encolher. E se retesar mais ainda ao sentir o yokai entrar com a mão na fresta entreaberta do seu kimono, tocando no seu tronco com a ponta dos dedos.
Eles estavam tão implicados um com o outro que demorou um pouco até Yoshiaki lembrar-se de algo verdadeiramente importante de que...
Não estavam sozinhos!
Por isso, ao se dar conta, ele se sobressaltou com o pensamento, principalmente quando sentiu Souichiro jogar o peso do corpo sobre si a fim de tentar deitá-lo no chão!
Buscando um segundo de sensatez, Yoshiaki desprendeu-se da boca alheia e colocou a mão espalmada no peito do outro a fim de impedi-lo de puxá-lo de volta.
-Souichiro... —Yoshiaki disse ao mesmo tempo em que buscava o ar e olhava ao redor que estava...
VAZIO!?
-Hum? —o yokai emitiu um som de dúvida com a respiração pesada enquanto segurava no pulso da qual a mão estacionava em seu peito desnudo.
-Eu só... —Yoshiaki falou voltando os olhos para ele —Hm...
-Seiji e Tetsuo? —Souichiro riu baixo balançando a cabeça em negativa. —Já faz tempo que foram.
Souichiro trouxe Yoshiaki de volta sutilmente pelo queixo. Apoiando o polegar no lábio inferior, ele roçou o dedo carinhosamente antes de voltar seus olhos para os inéditos castanhos.
-Senti tanto a sua falta. —Souichiro disse de uma única vez, com um sorriso sincero na face.
Por mais que Yoshiaki soubesse do apreço que aquele yokai passou a ter por ele nos últimos anos, ainda assim, não conseguia se acostumar com o fato daquele ser tão violento, despudorado e sarcástico pronunciar palavras de tamanha honestidade a cerca de sentimentos abstratos.
Não tinha jeito, Yoshiaki simplesmente não se habituava!
E isso não tinha nada a ver com o fato de que Souichiro não o fazia com constância. Ou que falasse sobre suas emoções num súbito, de forma esporádica. Definitivamente não era por isso! Porque, na verdade, ao longo do tempo que ficaram separados, Yoshiaki havia recebido diversas cartas onde Souichiro esboçava abertamente a dor que era ficar sem vê-lo.
Mas, fosse lendo ou ouvindo as palavras saírem da própria boca do emissário, mesmo assim, em todas as oportunidades, seu coração se rebelaria teimosamente por apreender a mensagem inusitada.
Quem sabe aquilo não se dava por ele sentir exatamente o mesmo. E ser correspondido com a intensidade inerente o fazia titubear em assombro por poder viver aquilo que jamais acreditou que seria capaz de experimentar.
Sendo isso ou não, Yoshiaki desfez no mesmo segundo a face incrédula de ouvi-lo dizer pela centésima vez o óbvio incansável.
-Eu também senti muito a sua falta. —Yoshiaki respondeu sincero, com um sorriso aprazível no canto dos lábios.
-Hm... Já que é assim...
Como um estalar de dedos, a face amena e contida de antes se transformou em uma maliciosa que emanava um indubitável desejo lascivo.
E lá estava o yokai violento, despudorado e sarcástico de volta!
Sem dar chances para Yoshiaki, o senhor feudal o agarrou pelo kimono e o bateu forte contra o chão de madeira que emitiu um som seco com o baque do corpo esguio. Inclinando sobre o corpo do meio-yokai, Souichiro montou nos quadris alheios antes de afundar novamente nos lábios do homem abaixo de si.
Entretanto, quanto mais o sangue subia pelo anseio de experimentar cada centímetro do corpo do outro e com Yoshiaki o correspondendo, não dando qualquer sinal de que declinaria do que ele estava realmente pretendendo fazer, mais força ele acabava usando nos seus movimentos.
Então, não foi de espantar, que Yoshiaki começasse a trincar os dentes e guardar uma lamentação em meio a uma carícia que não deveria doer tanto assim...
Ele até tentou resistir, primeiro porque não queria que o que mal havia começado acabasse, em segundo lugar porque Souichiro certamente surtaria se ele resolvesse desistir e em terceiro... Porque algumas horas até que era bom o misto de afagos lânguidos e dor!
Até certo ponto, é claro...
Porque quando Souichiro resolveu se dedicar a percorrer com a língua aveludada da linha da clavícula à direção do final do abdômen bem desenhado, ele apertou o braço de Yoshiaki com tanta força que foi impossível não se encolher e segurar o gemido doloroso.
-Ai ai ai... —Yoshiaki resmungou em meio ao riso o que fez Souichiro parar de imediato a empreitada sem entender bem.
Fitando o senhor feudal com os olhos ébrios, o meio-yokai prosseguiu.
-Souichiro, desse jeito você irá quebrar todos os meus ossos.
Vendo-o abaixo de si, com os cabelos negros esparramados na madeira em todas as direções e uma face rubra onde seus olhos semicerrados denunciavam a embriaguez evidente, Souichiro quase desmaiou...
-Por que teve que se transformar justo hoje e ter essa cara tão... Hm... —Souichiro suspirou dando uma mordida no ombro de Yoshiaki e seguindo com beijos úmidos até o pescoço dele. —Porra, que tesão em você!
-Também estou em você... Muito...
A forma que Yoshiaki falou, com a voz recheada de certezas, num murmúrio em meio a um arfar entrecortado por sentir a língua quente percorrer toda a extensão do seu pescoço, fez Souichiro, involuntariamente, segurá-lo com intensidade ardente de novo, o que ocasionou um estalo alto que emanou do ombro. Um belo de um crack! que preencheu todo o cômodo.
-Arrrgh! —Yoshiaki riu novamente com a face torcida em meio ao gemido doloroso. —Devagaaaaaar...
-Tsc! Não vai ajudar se ficar falando esse tipo de coisa!
-Está me mandando calar a boca? —Yoshiaki fingiu ralhar a ele com uma expressão provocativa que ocasionou um formigamento na nuca alheia.
Souichiro colocou a mão no rosto. Aquilo não daria certo. Ele ia matar Yoshiaki, tinha certeza!
Quando Yoshiaki havia ficado tão incendiário daquele jeito!? O que havia acontecido com aquele meio-yokai-fofinho-acuado que ele beijara de supetão no quarto anos atrás!?
Aquele saquê era mesmo dos bons!
Bom além da conta...
Por isso a preocupação mais do que legítima do controle posterior dos seus atos nada contidos e gentis.
Partindo dessa premissa, Souichiro pensou numa solução viável. Não sabia se iria funcionar, mas valia tentar.
Tomando uma decisão muito sensata —até demais para ele, Souichiro girou seus corpos mudando a posição que anteriormente se encontravam. E fez isso tão rápido que Yoshiaki ficou mais do que tonto, tanto pela forma repentina do movimento como pelo álcool excessivo que corria nas suas veias.
Não era bem assim que Souichiro imaginou que aconteceria. Nos seus sonhos, divagações e imaginário fértil que o fazia ir da neutralidade a uma excitação mais do que perceptível, naturalmente, era Yoshiaki que estaria por baixo sendo arduamente explorado de todas as formas possíveis de se imaginar. E para aquele yokai eram assustadoramente MUITAS FORMAS...
Mas, o que se podia fazer? Ele já estava mais do que excitado e aquele garoto não aguentaria por muito tempo os sucessivos cracks! que seu corpo estava teimosamente fazendo. Uma única distração e lá estaria ele, com um pouco de sorte, com uma ou duas costelas quebradas e talvez um dos braços, ou se não ambos! Clarividente não era essa a intenção...
Talvez, se fosse outro ele não teria tido tanta empatia assim e muito menos uma vontade tão ardente que fosse capaz de machucar.
Não é que Souichiro nunca tenha tido esse tipo de relação com um humano antes. Revisitando a memória, em tempos bem distantes, ele até teve uma época que adorava dar seus pulinhos em vilas humanas só para angariar alguma empreitada. Fez tanto aquilo que chegou a virar uma piada interna no Sul!
Mas, aqueles eram tempos tão remotos e esquecidos...
E, além disso, não tinha como comparar!
Afinal, Souichiro não só estava esperando por aquele momento fazia anos como também era completamente apaixonado/obcecado por aquela criatura!
Não daria certo... Ele sabia! Por mais que se esforçasse, ao menos naquele dia, seria impossível controlar o seu ímpeto.
Claro que não era como se Souichiro fosse puritano e tivesse seus problemas quanto a maneira de fazer sexo. Sendo bem sincero, para ele, sexo era sexo, independente com quem fosse, como fosse e quantos fossem...
Só que ele realmente não pensava nessa possibilidade como sendo a escolhida! Ao menos não na primeira vez...
Pois, não é que quisesse se gabar... Quer dizer, talvez um pouquinho..., mas, era mesmo fato de que ele era mais experiente e sabedor daquele viés! E havia uma vaidade oculta em querer demonstrar que com ele seria algo sobrenatural!
Seguindo essa linha, para ele ficou um pouco estranho quando Yoshiaki acatou mais uma vez sem resistência. Mais estranho ainda quando o meio-yokai, simplesmente, não demonstrando nervosismo ou falta de habilidade se propusera a afundar com os lábios urgentes no seu pescoço e envolvê-lo bem lá, no seu ponto mais íntimo, com a mão.
Do ponto que eles estavam, não precisava se esgueirar muito para poder ver as estrelas postadas num céu límpido de um verão severo. Mas, certamente, os astros celestes que Souichiro viu depois de sentir os dedos finos o acariciando por toda a extremidade numa investida clínica, logicamente, não eram os mesmos postados na abóbada celeste!
Inicialmente, o senhor feudal se surpreendeu um bocado com a carícia ousada, mas depois que os cinco dedos finos e alongados o agarraram de forma satisfatória e com uma dose equilibrada de força, ele passou a não ponderar mais sobre, posto que aquele afago lento e ritmado derreteu qualquer discernimento acerca da questão.
À medida que Yoshiaki o roçava, aumentando consideravelmente a fricção, mais aquele órgão pulsante parecia enrijecer! Aquilo não teria fim? Cresceria mais? Em meio ao seu devaneio alcoolizado, ele ponderou com um pouco de sensatez como que se daria se o outro resolvesse que seria uma boa ideia penetrá-lo ou fazê-lo engolir.
Ele... Conseguiria!?
Yoshiaki já havia sentido Souichiro excitado por trás do tecido, quer dizer, ele achou que já tivesse sentido, uma vez que, tocando sem qualquer barreira, pondo seus dedos diretamente no sexo alheio, ele entendeu que na realidade aquilo era muito maior e mais corpulento do que ele imaginava.
Yoshiaki quase caiu na gargalhada ao pensar a respeito. Refletiu que estaria mais do que fodido, em ambos os sentidos, se Souichiro desatasse a querer comê-lo como prometia há tempos. E que, de repente, toda a complacência por ele, por sua atual condição, se dissipasse num estalar de dedos.
Ele o mataria. Tinha certeza!
Talvez fosse melhor não o provocar tanto...
Mas, todos aqueles pensamentos esfumaçaram, quando, nas investidas iniciais ele postou seus olhos no semblante daquele yokai desalinhado que mudava constantemente à medida que ele o esfregava. Aquela imagem era pior do que ópio. Seus olhos ficaram vidrados ao vê-lo, pela primeira vez na vida, rendido. E mais ainda, quando dos lábios de onde saíam palavras sempre tão malcriadas passaram a emitir um som recheado de excitação sendo acompanhado por uma respiração pra lá de irregular.
Fincando seus olhos nos de Souichiro que naqueles instantes estavam estreitados e cintilando uma vontade ardente, ele não desejou parar e sim vê-lo cada vez mais fora de si. O que era perigoso, obviamente, mas ele não conseguiria se conter. Por isso, Yoshiaki recostou a testa suada na dele, igualmente salpicada pela transpiração, e aumentou consideravelmente o movimento na parte de baixo onde pôde sentir uma pequena secreção escapar da ponta.
Souichiro arfou de forma entrecortada e teve que bater com o punho cerrado no chão, o que ocasionou um buraco generoso no piso. Mas, ou era isso, ou era mudar novamente suas posições...
-Puta que pariu... —Souichiro resmungou quase caindo no choro. E praguejou mentalmente o quanto aquele mundo era injusto por não o permitir atacar aquela pessoa com toda a sua ambição.
Yoshiaki sorriu irônico a ele, uma curvatura mais do que perfeita num rosto impecável.
Souichiro quis morrer outra vez.
Principalmente quando Yoshiaki puxou sua língua para dentro da boca, num beijo profundo que casava perfeitamente com os movimentos mais serenos no baixo ventre.
Separando da boca úmida, o meio-yokai lambeu os lábios de Souichiro, desenhando o seu contorno, antes de, por fim, começar a percorrer um caminho sinuoso no corpo abaixo de si.
Iniciou no pescoço, onde se demorou um tanto com lambidas ávidas e mordidas firmes. Depois, passou pela clavícula, pelos mamilos enrijecidos das quais foram estimulados pelas pontas dos seus dentes e prosseguiu pela linha do abdômen que se contraía involuntariamente pela língua quente que estava quase alcançando o seu objetivo final.
Souichiro já havia perdido as contas de quantas vezes os pelos do seu corpo haviam se arrepiado bem como aquele torpor que entrecruzava toda sua espinha causando um formigamento na nuca.
Não podia negar que ver aquele homem tão sedento por si, numa roupagem similar a dele, acabava com qualquer estrutura. Vê-lo igualmente despudorado, arrumado numa tez maliciosa que o lambia por todas as suas extremidades, sem dar sinal de que pararia tão cedo ou que hesitaria do feito, acendeu algo em si...
Embora estivesse tudo mais do que maravilhoso. Que aquela língua se postasse a exercer genuinamente um milagre sem nem ao menos ter encostado no seu sexo mais do que duro, um pensamento o tirou do torpor.
...Yoshiaki não deveria estar minimamente inseguro ou desconfortável por estar assumindo o controle da situação!?
Por que é que ele estava tão calmo e assertivo nos movimentos?
Para alguém que era virgem, seu desempenho não estava... bom demais!?
Souichiro franziu o cenho com desconfiança.
Nada mais conseguiria o prender depois daquele pensamento nebuloso. Tal qual Yoshiaki, a curiosidade reverberava como o seu calcanhar de Aquiles.
Por conta disso, ele não conseguiu se conter.
Tratou de erguer-se parcialmente, elevando metade do tronco.
Yoshiaki não entendeu bem o que havia acontecido, estava já a milímetros do objetivo, e acabou sendo interceptado de uma hora para a outra por mais uma troca de posição. Daquela vez, ele nem sabia como aquilo havia se dado, fato é que percebeu que estava naquele instante frente a frente com o outro que o fitava desconfiado.
-Esteve com alguém? —Souichiro indagou sem rodeios.
-Ahn? —Yoshiaki pensou ter escutado errado.
-Diga logo. —Souichiro continuou com o olhar compenetrado, mais do que interessado. —Esteve ou não com alguém.
-Por que? —Yoshiaki debochou apontando para si mesmo. —Sou tão incrível assim?
Souichiro arqueou uma única sobrancelha um tanto quanto surpreso. Mas, vendo Yoshiaki soluçar, era óbvio o motivo de tamanha audácia e desalinhamento...
O tal do álcool...
-Pare de brincar! —Souichiro o puxou pela faixa do kimono carmesim que já havia pendido fazia tempo pelos ombros deixando o tórax bem definido completamente desnudo. —Diga a verdade, Yoshiaki...
-Hmmmmm... Deixa eu ver... —Yoshiaki meio grogue pôs-se a ponderar e assentiu sério erguendo um dedo de cada vez. —Um, dois, três, cinco...Sete...Hmmm...Nove... Hm... Ah! Sim! É, tem esse... E... Não consigo contar. Empresta os seus dedos para eu continuar?
O coração de Souichiro não podia fazer o barulho dos ossos de Yoshiaki estalando, mas, ele sentiu como se o órgão o tivesse feito. E, ao mesmo tempo, se questionou o motivo de estar sendo tão puritano e permitindo que a informação dada o atingisse com tamanho impacto.
Fato é que... ele gostava da ideia de ser o primeiro! Não podia fingir que não, e menos ainda que saber de tal coisa não o tinha frustrado. Talvez por isso sua face instantaneamente ficara sombria, mesmo que por segundos.
Yoshiaki bem que tentou manter o personagem, mas mesmo mordendo os lábios a fim de conter uma risada alta, não conseguiu abafá-la de jeito nenhum.
Souichiro ao entender o sarcasmo quis ter ficado com raiva, mas, no final, foi só alivio que sentiu.
-Que cansativo, Souichiroooooo! Com quem eu... —um soluço no meio da frase. —Teria estado? —outro soluço em meio ao olhar envernizado. —Só pensava em você, seu idiota...
Souichiro bem sabia das maravilhas que o álcool podia fazer com as pessoas, mas com Yoshiaki era uma verdadeira bênção!
Talvez, depois daquela noite, ele fosse pessoalmente comprar todo o galpão daquele saquê dos deuses ou quem sabe, reconhecer o vilarejo, por mais mesquinho e ridículo que fosse, como uma parte inseparável do Sul!
O senhor feudal cedeu totalmente aquele olhar embaçado e mais rápido que uma lebre, seu desejo havia reacendido, como se nunca houvesse apagado.
Na obviedade da coisa, Souichiro voltou a beijá-lo. Segurando com as duas mãos na cabeça de Yoshiaki, ele foi guiando seus lábios lentamente na direção da qual queria. Pondo-se a alisar a língua do outro e a chupar tão provocativamente que Yoshiaki imediatamente voltou ao clima erótico de antes. Afinal, o beijo daquele yokai era tão intenso e preciso! Difícil controlar os espasmos involuntários do corpo quando Souichiro estava insistentemente o acariciando em todas as arestas possíveis.
Revolvendo os dedos na cabeleira suada de Yoshiaki, por trás da nuca, Souichiro sentou de uma só vez no seu colo e controlou o ímpeto de o segurar pelo braço. Com a aproximação quase nula, suas partes íntimas resvalaram e o senhor feudal não fez menção de parar com o atrito proposital que, automaticamente, fazia o meio-yokai suspirar em torpor com aquele contato direto.
-Era assim que você pensava em mim? —Souichiro indagou provocativo na ponta da orelha de Yoshiaki ainda com os dedos firmes na cabeleira molhada e com um sorriso mais canalha possível. —Era?
-Era... —Yoshiaki concordou se retesando um centímetro para o lado, mas sendo impedido pelo yokai que o agarrou novamente de volta desprendendo alguns fios do seu cabelo por entre os dedos.
-Ou... Talvez assim?
Mal Souichiro havia terminado a frase para sentir, dessa vez, a mão do senhor feudal, envolta do seu ponto mais sensível. E, num segundo, ele entendeu claramente o motivo daquele yokai dos olhos verdes-oliva fazer uma face tão anestesiada e entregue quando ele o estimulava de igual forma.
Quer dizer, seria igual?
Os dedos de Souichiro não eram tão delicados como os seus e sua mão parecia ser maior também.
Ele nunca saberia se a sensação era mesma. O que podia dizer com toda a certeza é que aqueles movimentos tão incisivos e precisos causavam um curto-circuito em todo o seu ser e o tiravam alguns gemidos involuntários e entrecortados.
Quando Yoshiaki achou que aquilo não podia ficar mais intenso e melhor do que já estava, ele subitamente foi empurrado para trás, caindo de uma só vez com as costas no chão. E, sem dar tempo para processar o que Souichiro faria com ele, teve outra surpresa.
Pois, sem titubear, Souichiro segurou no generoso membro alheio e o direcionou para sua própria entrada.
Yoshiaki arregalou os olhos ao entender o movimento e antes que pudesse dizer qualquer coisa a respeito, Souichiro já havia sentado, engolindo parcialmente o sexo alongado que o preencheu pouco a pouco.
Enquanto Yoshiaki havia ido ao céu de imediato por estar dentro daquele espaço ridiculamente apertado que o fez estremecer, Souichiro teve que se ajeitar algumas vezes para alcançar o ponto exato que mascarava a dor de ter algo dentro de si. E, principalmente, algo não tão modesto...
Quando finalmente descobriu, ele recuou um pouco até afundar novamente, ocasionando um gemido mútuo com a sensação prazerosa do encontro dos seus corpos.
-Quando achou que iria me comer, garoto... —Souichiro riu com a face debochada enquanto subia e descia lentamente.
-Só... Queria você... Não importava o jeito. —Yoshiaki falou o segurando forte pelo braço o trazendo para si, para que pudessem se beijar.
-Sabe que falando assim só me faz querer você mais ainda, não sabe? —Souichiro falou o chupando por todo o pescoço.
Com suas partes inteiramente interligadas, estando com seus rostos tão próximos da qual era possível sentir a respiração do outro bem como analisar precisamente as expressões contrárias, ficou impossível conter seus movimentos um pouco mais incisivos. Compreendendo o ângulo e pegando um pouco o jeito da coisa, Yoshiaki conseguiu atingir exatamente aquela parte que ocasionava um formigamento violento por todo o corpo de Souichiro.
O ritmo aumentava gradativamente e o cômodo passou a ser preenchido por gemidos e arfadas desenfreadas. Entregues totalmente ao momento, nem a mente ébria ou tampouco o calor excessivo que fazia seus corpos suarem rios, o fariam parar. Pois a cada estocada funda, respiração entrecortada e barulho úmido da união dos seus seres o aproximavam cada vez mais do torpor final.
Estando ambos com a mente mergulhada em luxúria e nada mais, com seus corpos gritando de tanto desejo, não foi tão impressionante que, de repente, eles tivessem se rendido a um gemido mais enérgico do que os anteriores e permitido, de uma só vez, gozar.
Mesmo quando tudo acabou, demorou um tempo até que seus pensamentos voltassem a se organizar e seus corações parassem de bater tão rápido e forte contra o peito.
Souichiro tombou para o lado ao ter a mente límpida. Com a respiração pesada, recuperando o fôlego, ele olhou para Yoshiaki que já tinha os olhos nele e, igualmente, buscava o ar ao redor.
-Acho que... —Yoshiaki arranhou a garganta e logo suspirou longamente. —Estou bêbado...
Souichiro riu alto.
-Parece que sim... —o senhor feudal concordou afagando o topo da cabeleira negra.
-E acho que deslocou o meu braço... —Yoshiaki disse estendendo o braço mole fora do eixo.
-Hm... —Souichiro suspirou arrependido. —Inegavelmente sim...
Com outro crack! Souichiro colocou o braço de Yoshiaki no lugar que torceu o rosto ao final do movimento brusco.
No final, até que o resultado não havia sido tão negativo... Um braço fora do lugar era melhor do que quebrado. Souichiro refletiu que havia agido bem ao não resolver encarar o polo ativo da coisa. Ao menos, na outra ponta, ele teve a possibilidade de se conter melhor.
Se tivesse sido de outra maneira... Provavelmente as consequências não seriam um mísero braço fora do lugar!
-Hm... Souichiro... —Yoshiaki o chamou a fim de ter a atenção do yokai reflexivo para ele.
-O que? —Souichiro indagou voltando os olhos com curiosidade para aquela figura ao seu lado que se esgueirava timidamente para si, como uma criança indefesa.
Os cabelos negros bagunçados e a face rubra o deixaram pueril de novo. E lá estava o meio-yokai-fofinho-acuado novamente! Com a face enigmática e com os olhos lustrosos.
-O que acha de... —Yoshiaki o fitou de maneira intensa no meio de um soluço alto. —...De novo?
E toda a constatação do meio-yokai-fofinho-acuado foi por água abaixo mais uma vez...
...
CONTINUA...
