[EXTRA] —As cicatrizes de ontem.

Na época, o cerco ao monte Uragiri ficou conhecido no mundo feudal como uma das batalhas mais impressionantes dos últimos tempos. E também recebida com grande alívio... Pois, factível que o clã das serpentes não era considerado menos do que um verdadeiro problema para os clãs ascendentes ou que aspiravam a tal.

Afinal de contas, Ren, o líder do clã e também um famoso dai-yokai, não despontava muita simpatia pelo mundo afora e era conhecido por ser um ditador territorialista mais do que cruel. Para resumir a história, se o dito cujo juntamente ao seu clã peçonhento decidisse do dia para a noite que determinada terra seria sua, não haveria qualquer clemência ou possibilidade de aliança. Rechaçando tudo e todos, eles pareciam inclinados a propagar apenas a sua espécie.

Então, quando o clã das serpentes caiu, em virtude do trabalho em conjunto de clãs menores com o imponente Oeste, o mundo feudal pôde finalmente suspirar aliviado por não ter mais que se preocupar com aquele povo tão mesquinho!

Mas, ainda que fosse um bálsamo, um verdadeiro oásis no meio do deserto, para Okoi e os outros aprisionados em urnas fúnebres, escondidos severamente nas paredes rochosas do monte Uragiri, não puderam desfrutar do mesmo desafogo.

Sequer puderam ver o quanto aquela batalha final fora grandiosa.

Isso é, em termos, porque seja por um mínimo de sorte ou o máximo do mal grado, Okoi em meio ao estado entorpecido do veneno das serpentes pôde ouvir ao longe a voz de Yashamaru que lutava contra os seus algozes. Ela quis ter gritado, mas dos seus lábios nenhum som ousou sair. E tudo, novamente, ficou escuro por mais um bom tempo.

Quando Okoi teve finalmente o prazer do vislumbre da luz do dia, ela demorou um tanto a entender que as trevas só haviam mudado de roupagem. Que apesar do sol sob sua cabeça brilhar majestosamente, aquilo não passava de uma mera ilusão. Posto que, as grades severas, feitas do mesmo material mágico que os impedia de usar seus poderes, os prendia em jaulas rústicas. Seus torturadores, no fim, só haviam mudado de rosto e essência. E os dias, apesar de mais claros e coloridos, possuíam a mesma faceta sombria.

A vida no clã dos escorpiões de longe não era como uma benção na terra. Mas, ao menos, ter os sentidos devolvidos poderia ser chamado de um presente!

O problema era que, em oposição as serpentes que os utilizavam como objetos/tochas vivas, os escorpiões os sugavam até a última gota e os davam as atividades mais deploráveis possíveis. Para uma guerreira como Okoi, ter que abaixar a cabeça para aqueles que ela devidamente via como escória, era minimamente humilhante. Pior ainda era ter que servi-los! Ou seja, vez ou outra ela recebia um belo de um chute bem dado no meio das costas que a fazia comer um bocado de terra por seus olhos exprimirem tanto desdém!

Ryotaro, assim que repousou seus olhos em Okoi, ele sentiu que era um erro mantê-la viva. Mesmo como escrava! Ele simplesmente teve um pressentimento de que não seria sensato ter uma personalidade com tantas qualidades como as dela.

Na outra ponta, Isamu, seu primo, apesar de ser extremamente inclinado a promiscuidades, não demonstrou, inacreditavelmente, qualquer interesse por Okoi e, portanto, legitimou que era melhor findar com a existência daquela, a quem ele intitulava de "a escrava dos olhos ariscos".

A verdade é que Isamu tinha uma preferência feroz por Mariko. E, não ligava para o que fosse acontecer com Okoi. Tendo já uma boa distração, tanto fazia se Ryotaro queria ou não matar um dos escravos...

Em contrapartida, quando Aoto, o irmão mais novo de Isamu, colocou seus olhos em Okoi, ele sentiu como se um pedaço do paraíso caísse no seu colo. Porque não era só o motivo de Okoi ser uma visão estonteante de beleza, ela possuía um conjunto que o agradava sensivelmente.

Partindo dessa premissa, ele foi veementemente contra a aniquilação de Okoi. E prometeu que se responsabilizaria por ela. Nas suas palavras, que "a domaria por completo".

Se tinha uma coisa que Aoto gostava era de um desafio. Então, sabendo do mal hábito incorrigível do primo, Ryotaro acatou ao pedido e deixou com que ele atazanasse Okoi até o fim dos seus dias.

Acontece que quanto mais ele torturava Okoi, mais ela não parecia inclinada a ceder. Seus olhos rígidos, quase sempre frios demais, o fitavam com o máximo desdém e sem o devido respeito.

E a hipótese de domá-la fluiu ladeira abaixo.

Em outros tempos, caso fosse com outra criatura, ele se postaria indolente e irritadiço. Desistiria do feito, dar-lhe-ia as costas e assumiria que a dita cuja tinha mesmo que morrer.

No entanto, da forma mais doentia possível, quanto mais ela não implorava para que ele parasse, mais ele sentia vontade de assim fazer. E mais seu coração conflitava pela obrigação de feri-la.

Os safanões, os chutes, os xingamentos e até mesmo fazê-la andar nua durante dias, inclusive debaixo de forte chuva, não a abalavam nenhum pouquinho. Pelo contrário, aí que ela focava seus olhos nos dele com apatia exorbitante e com o semblante de quem está muito entediado.

Tão logo, com o passar dos dias, aquilo tudo passou a não fazer qualquer sentido. E muito menos despontava a vontade dele prosseguir. Mas, ele não tinha muita escolha. Havia dito que se responsabilizaria por colocá-la na linha e que a faria se render custe o que custasse... Se Ryotaro pensasse que ele estava sendo mole demais com ela, Aoto perderia a chance de ter aquela yokai para si.

O problema é que estava saindo mais difícil do que ele imaginava. E os olhos de Ryotaro começaram a focar mais do que o normal nele e na sua empreitada...

E foi então que, vendo-se encurralado, Aoto percebeu uma maneira de finalmente fazer Okoi baixar a cabeça. Contra ela, não havia humilhação tampouco castigos físicos que a fizessem reconsiderar. Okoi era praticamente imune a qualquer tortura existente no mundo!

Só que, com os outros, a coisa mudava de tom... Tendo um vislumbre daquilo, ele tratou de castigar os companheiros da yokai do fogo em seu nome, e a culpá-la por aquilo, por ser tão desobediente!

Sem chão e com o coração mais apertado do que poderia aguentar, ela não teve alternativa senão declinar.

Até que, por assim dizer, para a sorte de Okoi e, em termos, a de Aoto, Ryotaro tinha uma irmã que estava ausente do clã, mas que quando retomou foi extremamente contra a essas degradações exacerbadas.

O dia que Nazomi retornou aos domínios do seu clã, ela ficou um bocado surpresa com o que tinha encontrado e praticamente implorou ao irmão que ao menos lhes dessem um pingo de dignidade para que pudessem servi-los adequadamente.

Ryotaro não fazia muitas concessões. Contudo, pelos argumentos da irmã, ele percebeu que ela tinha um pouco de razão quanto a manter a integridade física daqueles yokais. Para usá-los seria genuinamente melhor que estivessem em condições mais dignas.

Do que servia espancá-los quase até a morte? Não seria melhor fazê-los arrumar suas camas, limpar suas residências vultosas, engomar suas vestias e entre os diversos papéis chatos das quais eles odiavam exercer?

Ryotaro pensou que sim! E com isso, duros anos de trabalhos dos mais variados tipos, mesclados com abusos físicos e psicológicos, os assomaram ao longo do tempo.

...

Com os pés e mãos atados, presos com severas algemas e correntes pesadas, Okoi movia-se pela propriedade de Aoto a passos lentos e exauridos. O barulho do ferro denso tilintava de forma aguda denunciando claramente a sua localização.

Era final do Outono. Uma tarde melancólica como todas as outras dos últimos anos.

Okoi fitava as folhas secas que se amontoavam no jardim insistentemente. Com uma vassoura em punho, juntando-as num canto qualquer, ela não pôde deixar de ponderar o quanto se parecia com aquela natureza desfalecida...

Seca. Sem vida. Decadente.

Sentindo-se exausta, ela ancorou um pouco no cabo da vassoura e respirou profundamente ao menos três vezes. Aquelas correntes, necessariamente naquele dia, pareciam a exaurir mais do que o normal. Ou talvez fosse fruto do seu humor taciturno a sensação colérica que a abarcava.

Fosse o que fosse, Okoi não quis divagar mais a respeito. Tratou de ajeitar a postura, esfregar as costas da mão na testa empapada para, por fim, retomar a sua degradante obrigação.

Já quase terminando a tarefa, ela acabou sendo interceptada por mãos finas e delicadas que encobriram seus olhos como uma brincadeira infantil.

-Adivinha quem é! —a voz feminina soou as suas costas num tom brincalhão.

Okoi sorriu, pois era mais do que óbvio quem era a feitora daquela peripécia.

-Hm... —Okoi fingiu ponderar. —Hinata!

-Argh! Que asquerosa, Okoi!

Okoi deu uma risadinha no mesmo minuto que a criatura tirou as mãos dos seus olhos. Virando-se de uma só vez para trás, ela pôde ver Nazomi que lhe dava uma careta numa tez brincalhona.

-Me chamar de Hinata é golpe baixo. Sabe que eu odeio essa metida!

-Deveria se dar bem com ela, logo ela será sua cunhada.

-Tsc! Mal me dou bem com meu próprio irmão... —Nazomi girou os olhos. —E também ele não está muito inclinado a casar por agora, Ryotaro está obcecado pela tal da Tenseiga. Hinata terá que esperar.

-Hm! Falando nisso... —Okoi olhou os arredores e se aproximou drasticamente de Nazomi, acabando quase que em definitivo com a distância entre as duas e prosseguiu com palavras quase inaudíveis. —Conseguiu descobrir mais alguma coisa? Eles irão mesmo ao Oeste atrás da espada?

-Definitivamente. —Nazomi respondeu no mesmo tom. —Mas, é melhor que falemos depois. Na madrugada. Tenho boas novidades.

-Está certo.

Okoi assentiu voltando a posição de antes, mas acabou bambeando por se sentir um pouco zonza pelo movimento abrupto. A yokai dos olhos azuis só não desabou totalmente ao chão porque Nazomi a segurou pelo braço, a impedindo de se chocar ao chão.

-Tsc! Essas correntes! —Nazomi praguejou a pondo de pé novamente.

-Estou bem... —Okoi falou sentindo-se verdadeiramente cansada.

-Vem, senta um pouco.

Okoi não teve forças para protestar, sabia que deveria terminar de recolher as folhas dispostas no canto, mas mal se aguentava de pé. Por isso, quando Nazomi dedicou-se a guiá-la pelo braço até a varanda, ela sentou-se na madeira lustrosa e agradeceu mentalmente aos seres celestiais por assentar, ao menos por um minuto.

-Não está com muitas correntes hoje? —Nazomi franziu a testa fitando as amarras rústicas nas mãos e tornozelos da outra. —Aoto costuma deixar só nos seus tornozelos. O que houve hoje? Ele está de mau humor?

-Isamu esteve aqui mais cedo com os outros.

-Hm... Então, ele teve que fazer uma ceninha de maus tratos. —Nazomi falou balançando a cabeça em negativa e apoiando as mãos nos quadris.

-É. Como ele teve que sair com eles, acabou me deixando assim... —Okoi suspirou e deu de ombros. —Que seja, não faz diferença no final das contas. É humilhante e excruciante de todo modo.

Nazomi suspirou com um semblante entristecido. Sentia por Okoi e por todos os outros que dia após dia eram submetidos a condições tão degradantes. Sempre que podia, ela intervinha, entretanto nem sempre era possível. Não tinha uma voz ativa forte no clã, ainda que houvesse outros membros que legitimassem as suas posturas em determinados assuntos, eles definitivamente não eram a maioria.

-Lamento por isso, Okoi. —Nazomi disse apoiando a mão no ombro alheio, em solidariedade explícita.

-Não se desculpe. —Okoi sorriu a ela brandamente colocando a mão por cima da disposta em seu ombro. —Não é como eles. Se não fosse por você, as coisas seriam piores do que já são. Somos gratos, Nazomi. De verdade.

Nazomi sorriu mesmo sem vontade. Retirando a mão do ombro da amiga, ela sentou-se ao lado de Okoi. Ficaram por alguns instantes em silêncio apreciando os últimos raios de sol que se escondiam por trás das montanhas geladas e inóspitas que rodeavam o clã. Um vento frio, quase fantasmagórico as assomou.

-Deve sentir muita falta da sua terra natal. —Nazomi disse fitando Okoi de soslaio.

-Bastante. —Okoi assentiu com um sorriso fraco.

-Uma vez você falou que lá era muito bonito.

-Era sim... —Okoi falou com um sorriso fraco e um semblante nostálgico. —Fui muito feliz naquele Vale. Às vezes sonho com aquele lugar... Com... Hm...

-Com o seu noivo. —Nazomi falou a fitando em definitivo com a face complacente.

-É... Também... —Okoi suspirou encolhendo os ombros. —Mas, já faz tanto tempo que parece fazer parte de outra vida.

-Você gostava muito dele, não é?

-Sim. —Okoi assentiu, dessa vez com um sorriso franco. —Difícil não gostar dele, na realidade.

-Qual era mesmo o nome dele, Okoi? —Nazomi indagou levando a mão ao queixo em ponderação.

-Yashamaru!

-Ah, sim! Agora me lembrei! —Nazomi sorriu contente. —Acha que se você o encontrasse novamente os sentimentos se reacenderiam?

-Não importa quanto tempo passe, eu sei que sempre amarei Yashamaru.

-Ele deve ser um yokai e tanto! —Nazomi disse dando uma piscadela a Okoi.

-Ele é, e também...

Mas, Okoi não conseguiu terminar o raciocínio. Porque uma voz mais do que enérgica cortou o jardim com tanta ferocidade que ambas levaram um susto.

-Levante! Agora!

Embora não fosse necessário que ambas se virassem para ver o dono da voz incisiva, ainda assim elas realizaram o movimento.

Aoto estava há alguns passos de distância com uma carranca mais do que insatisfeita e espumando de tanta raiva.

Okoi quis ter suspirado pesarosamente, mas não o fez. Em contrapartida, manteve a tez impassível e levantou-se com um pouco de dificuldade. Para manter o equilíbrio, ela se apoiou na pilastra imediatamente ao lado e não focou com seus olhos duros nele. Do jeito que aquele yokai escorpião estava o melhor a se fazer era manter o olhar baixo para que outro do seu clã não levasse um safanão que deveria ser seu.

-Por que não retira uma das correntes dela? —Nazomi impetrou no lugar de Okoi com o cenho franzido. —Não vê que ela...

-SILÊNCIO! —ele a interceptou outra vez e as veias do seu pescoço estavam prestes a explodirem de tanto que estavam ressaltadas. —Quem mandou entrar na minha casa sem a minha presença? E o que pensa que está fazendo com a minha escrava!?

-Por que está tão nervoso? —Nazomi arregalou os olhos um tanto incrédula. —Eu só...

-Se não sair daqui agora, irei contar a Ryotaro a respeito das suas ações!

Nazomi pensou em protestar, mas Okoi apertou seu kimono discretamente a fim de fazê-la parar de retrucar. Ela entendeu o movimento e apesar de se sentir contrariada, ela não teve opção senão acatar ao pedido silencioso.

Nazomi mal havia engolido a situação e num súbito já estava Aoto a atirar outra corrente na direção da yokai do fogo que teve instantaneamente seu pescoço envolto por aquele artefato cruel.

Okoi sentiu forte vertigem ao ter outra parte do seu corpo dominada. Ela bambeou para frente, mas dessa vez porque Aoto a puxou com severidade pelas correntes que a aprisionavam no novo local. Dessa vez, ela não resistiu ao ímpeto e caiu na madeira lustrosa num baque seco.

Aoto se encolheu quando a viu estatelada no chão, com os cabelos esvoaçando em todas as direções e com os olhos embaçados que o fitaram com severidade. Mas, já era tarde. O ato em si já havia ocorrido e não se poderia mudar a atitude grosseira.

Por isso, mesmo que uma pontadinha de arrependimento tenha perpassado pela sua espinha ao vê-la numa situação tão miserável, ele engoliu o sentimento e o cavou bem fundo dentro de si. Visto que, Aoto havia escutado escondido o final da conversa de Okoi e Nazomi e saber que a yokai ainda nutria um sentimento tão exacerbado por aquele tal Yashamaru o tirava totalmente do eixo.

Um dia ele iria matá-lo! Prometeu-se ali que o faria, custe o que custasse!

Nazomi tentou correr até Okoi, entretanto a yokai balançou a cabeça em negativa e ela teve que esmorecer outra vez da empreitada. Voltando seus olhos raivosos para Aoto, Nazomi notou que o rosto do primo havia escurecido em trevas.

Sem declinar, ele esperou que Okoi levantasse por si mesma e caminhasse a sua direção. Quando por fim ela parou, há poucos passos de distância, ele a puxou de uma só vez, fazendo-a tombar totalmente no seu corpo.

-É melhor ir. —Aoto voltou a dizer com a voz metálica para Nazomi. —Não irá gostar de ficar de todo modo.

O coração de Nazomi errou uma batida. Principalmente quando Aoto virou-se de uma só vez e pôs-se a puxar Okoi na direção dos seus aposentos.

Mas, antes que os dois pudessem desaparecer totalmente das vistas da yokai indignada, Okoi ainda conseguiu virar a cabeça para trás e assentir a Nazomi que naquele minuto já possuía os olhos abotoados de lágrimas.

Tendo o corpo tão atado quanto à da amiga, ela só conseguiu dizer, sem usar palavras. Numa fala muda, onde somente os lábios se moviam.

-Irei tirá-la daqui.

Okoi sorriu fracamente e, depois disso, desapareceu por completo com Aoto a sua frente.

Nazomi ainda demorou um tanto para se mover e só o fez quando ouviu o barulho alto de uma porta se fechando.

...

Talvez o barulho de um pequeno galho se partindo não fosse suficiente para aguçar os sentidos de qualquer outra criatura que repousava em meio a mata fechada. Mas, para Okoi, até um breve farfalhar diferenciado das folhas a tiravam do seu inconsciente.

Por isso, quando o som discreto soou pelo ambiente, ela despertou abruptamente já sacando a sua espada e apontando na direção do barulho de forma inquisitiva.

No entanto, da mesma forma que o ímpeto a abarcou, no segundo seguinte a pretensão assassina se dissipou por completo ao ter seus olhos azuis preenchidos por aquela silhueta já tão conhecida.

-Tetsuo... —ela falou abaixando a espada, tentando recompor a placidez de antes.

O yokai de face alinhada e sardas pueris estacionadas abaixo dos olhos negros estava há poucos passos de distância e segurava entre os dedos uma manta felpuda da cor cinza. Pela posição que ele retinha o objeto nas mãos, notava-se que ele tinha a pretensão clara de cobri-la.

-Lamento, não queria tê-la acordado. —Tetsuo falou esmorecendo os ombros e, por conseguinte, as mãos que ainda se agarravam a manta macia.

-Está tudo bem. —ela sorriu de volta a ele enquanto embainhava a espada. Um sorriso taciturno difícil de ser negligenciado. —É só que... Algumas lembranças vieram enquanto dormia.

Tetsuo esmoreceu completamente com aquela fala.

Já fazia alguns anos desde que os dois haviam se aproximado e realizado algumas missões conjuntamente em nome do Sul. Naquela ocasião, inclusive, ela havia se oferecido para ir com o vistoso Comandante averiguar os limítrofes das terras de Souichiro. Como uma exímia rastreadora e notável guerreira, ninguém questionava o motivo de Tetsuo sempre a levar consigo nas suas empreitadas. Isso é... Inicialmente! Depois, ficou um tanto quanto esquisito...

De todo modo, aqueles longos períodos que vinham passando juntos, fez com que Tetsuo soubesse do lamentável passado daquela yokai que ele tanto admirava.

Jogando a manta por sobre o ombro direito, Tetsuo retomou o caminho que anteriormente faria. Aproximando-se em definitivo da yokai, ele sentou-se ao seu lado, de frente a fogueira que crepitava naquela noite de ventos frios.

-Estava se lembrando daquele desgraçado. —Tetsuo falou a olhando de soslaio, apoiando os braços nos joelhos erguidos.

-É... É difícil esquecer.

Afundaram novamente no silêncio, perdendo-se nos próprios pensamentos.

Tão logo, Okoi ajeitou a postura e recostou na árvore atrás dos seus corpos, aproximando-se mais um tanto de Tetsuo.

-Sabe... Quando Yoshiaki matou Aoto e sua cabeça rolou ao chão, eu o encarei bem dentro dos olhos. —Okoi falou sem necessariamente fitar Tetsuo e prosseguiu como se estivesse a refletir em voz alta. Dando uma risadinha incrédula, ela prosseguiu. —Ele era tão miserável que ainda tinha a cara de chorar no meu ombro depois de usar o meu corpo. Depois de cometer as maiores atrocidades, ele ainda chorava...

Tetsuo franziu o cenho sem perceber, mas não se moveu. Continuou parado ouvindo-a dizer.

-Acho que qualquer outro no meu lugar teria dado uma gargalhada alta e o chutado com a máxima força possível. Mas, a verdade é que, olhando para ele, várias coisas me assomaram ao mesmo tempo, inúmeras sensações... Hoje, pensando a respeito, acho que eu não senti nada.

-Que bom. —Tetsuo falou num tom repleto de certezas. —Nem o seu ódio ele merecia.

-É... —Okoi assentiu sorrindo de canto, mesmo sem vontade. —Acho que tem razão...

-Queria ter tido a oportunidade de ter lutado contra ele na época. —Tetsuo falou virando-se finalmente a ela.

Okoi sorriu o fitando de volta.

-Naquela ocasião, não teria feito diferença. Ele seria mais um entre tantos inimigos.

-Mas depois, inclusive agora, faria diferença. —Tetsuo disse com os olhos sérios, sem recuar. —Faria diferença saber que eu a livrei desse yokai para sempre.

Okoi sentiu-se comovida ao escutar aquelas palavras. Tanto que não conseguiu esboçar com palavras.

Retomando a consciência, ela saiu da inércia de fitá-lo e tratou de puxar a manta dos ombros alheios.

Embora ela não estivesse nenhum pouco com frio, tendo em vista sua natureza advinda do fogo, Okoi não o comunicou a respeito. Invés disso, a yokai dos olhos azuis jogou a manta por cima dos seus ombros e acabou definitivamente com a distância entre eles. Puxando o braço de Tetsuo para cima, ela embrenhou-se parcialmente nos braços do outro e aconchegou-se a ele como se fosse óbvio.

Tetsuo ficou um bocado surpreso por aquela iniciativa e não conseguiu evitar que seu coração batesse tão rápido. Especialmente quando ela ancorou a cabeça no seu peito e o entrelaçou num abraço apertado lateral.

-Estou feliz por tê-lo conhecido. —ela falou cerrando os olhos e sem dar sinais de que o largaria brevemente.

Tetsuo coçou a cabeça com a mão livre, sem saber muito que deveria fazer ou dizer. Apesar de ser um yokai mais do que franco e que costumava a ter as respostas na ponta da língua, ele sentiu-se um tanto inseguro em como reagir com Okoi.

Afinal, ela possuía tantas marcas...

Talvez fosse esse o motivo de terem se aproximado inicialmente.

Mesmo naquela época que se conheceram, onde as cicatrizes de Okoi eram invisíveis a olho nu e que somente a metade do rosto de Tetsuo estivesse encoberta pelas ataduras, de alguma forma, suas dores do passado os enlaçaram. E os interligaram de tal maneira que era como se só eles dois conseguissem compreender.

E agora, depois de tantos anos, tendo Tetsuo recuperado totalmente a sua face, Okoi também se sentia um pouco daquele jeito por dentro.

-Obrigada por ter me deixado vir hoje. —Okoi voltou a dizer, dessa vez, com o timbre um pouco sonolento. —Gosto de estar com você.

Impedindo-se inicialmente de roçar a mão já ancorada no braço de Okoi, ele ponderou ao menos três vezes se deveria fazê-lo. Até que não mais hesitou e iniciou uma carícia tímida no braço alheio a fim de verificar se haveria algum protesto.

Não tendo recebido qualquer represália ou sinal de afastamento, ele explicitou o movimento e a trouxe um pouco mais para si, aconchegando-a em seus braços.

-Também estou feliz por tê-la conhecido... —Tetsuo finalmente disse mantendo a carícia devotamente.

...

O sol se postou fraco no início daquela manhã, depois, durante a tarde, sumiu por completo entre as nuvens cinzentas que passaram a costurar a abóbada celeste. Pelos sons abruptos dos trovões e pelo escurecimento paulatino do céu, imaginava-se que a qualquer minuto uma chuva pesada cairia.

Mas, nem Okoi e tampouco Tetsuo pareceram verdadeiramente preocupados com o prenuncio de uma tempestade. Posto que, ambos se mantinham extremamente concentrados arrumando armadilhas dentro do solo a fim de impedir invasores indesejados ou bisbilhoteiros de adentrar as tão extensas terras do Sul.

Tendo a metade do corpo afundada na terra fofa, Okoi terminava de alocar o último arranjo com a máxima habilidade e cuidado. Enquanto que Tetsuo, postado de pé na superfície, gravava no mapa a localização dos trechos comprometidos, marcando com um "x" as áreas das quais os seus precisariam evitar, caso por ali passassem.

E foi só fazer a marcação no papel entre os seus dedos, para que um pingo grosso caísse na borda da folha. Olhando sem muita surpresa para cima, outros pingos vieram na sequência, e ele não teve alterativa senão guardar esquema tático dentro do seu kimono sujo de terra.

-Precisa de ajuda, Okoi? —Tetsuo indagou para a yokai concentrada.

-Não, eu já... —ela falou sem desviar a atenção do que estava fazendo. Esticando mais um pouco o braço, ela desanuviou a tez ao sentir que havia conseguido alocar bem o tal artefato. —Consegui!

Largando em definitivo o objeto que se assimilava a uma bomba, ela voltou os olhos para Tetsuo que mantinha a mão esticada a sua direção. Com um sorriso límpido, ela aceitou a ajuda de bom grado e entrelaçou sua palma pequena com a do outro que a puxou de uma só vez para fora do buraco profundo.

Perdendo um pouco o equilíbrio por conta de uma aterrissagem mal calculada, os dois acabaram se aproximando mais do que o pretendido.

Apesar de Okoi estar numa perspectiva um pouco mais baixa por conta do seu tamanho ser notadamente menor do que o de Tetsuo, seus olhos se encontraram num baque silencioso e seus rostos mantiveram-se numa distância pouco confortável para quem não tinha qualquer pretensão.

Desprendendo-se um pouco da razoabilidade de ir mais devagar do que uma tartaruga cansada, Tetsuo a segurou pelo braço e só quando seus dedos apertaram o contorno que ele se deu conta do que estava fazendo. Esmorecendo imediatamente, ele arranhou a garganta e a tirou da sua frente com gentileza, deixando Okoi completamente confusa pelos movimentos nenhum pouco coerentes.

-É melhor fecharmos isso antes que a chuva aumente e estrague o seu trabalho. —ele disse enquanto agachava-se ao lado do buraco, sem a fitar de volta.

-Ahm... —Okoi falou retomando os sentidos. —Sim, claro.

...

Apesar de chover forte, a chuva sozinha não foi capaz de limpar suas roupas visivelmente sujas de terra. Longe disso. Na realidade, quanto mais seus kimonos ficavam encharcados, mais o barro e a terra agarravam-se ao tecido dando aos dois um aspecto nada alinhado.

No entanto, eles não pareciam tão desconfortáveis com o fato de estarem imundos e tampouco da chuva ricochetar seus corpos. Pois, andavam no mesmo ritmo de antes, sem qualquer pressa.

Isso é, até que da forma mais inusitada possível, eles puderam sentir duas presenças familiares se aproximando!

Tetsuo teve que franzir a testa um tanto quanto incrédulo, pois dentre todos os yokais, ele certamente não estava contando encontrar justamente com aqueles dois, da qual, sem pensar muito, não fazia qualquer sentido que estivessem perambulando por lá. Afinal, não havia muita coisa naquela área para se vislumbrar e tampouco soava um passeio agradável para se fazer debaixo de chuva e em meio a tantas armadilhas recém postas.

Fato é que mesmo sendo estranho, as duas silhuetas foram surgindo e legitimaram de uma só vez os donos das energias sinistras mais do que conhecidas.

De um lado, um platinado de olhos dourados montado num kimono completamente negro. Do outro, um ser de olhos verdes-oliva, cabelos pretos arrumado num kimono único de cor verde garrafa.

-Porque Souichiro e Yoshiaki estão aqui? —Okoi indagou a Tetsuo com uma única sobrancelha arqueada.

No seu âmago, Tetsuo já sabia. Mas, preferiu não polemizar a coisa. Evitando dar um longo suspiro pesaroso, ele voltou a yokai dos olhos azuis.

-Não sei. —foi o que respondeu categórico.

Voltaram então a caminhar, até que finalmente seus caminhos se entrecruzassem.

Yoshiaki segurava uma sombrinha de seda acima da cabeça que o protegia parcialmente da chuva bem como a Souichiro que seguia imediatamente ao seu lado com a mão esquerda apoiada no ombro alheio.

Com a mão livre, o senhor feudal segurava o seu habitual cachimbo de corpo fino da qual vez ou outra levava a boca para tragar o fumo que preenchia o ar ao redor com um cheiro de cravo.

-Hei, Tetsuo! Não diga que mandou Okoi cavoucar a terra também? —Souichiro deu uma breve risada ao ver o estado deplorável de ambos. —Você não tem vergonha nessa cara?

Okoi e Tetsuo se encurvaram respeitosamente. Terminado a solenidade da qual Souichiro rechaçou ao balançar a mão no ar com uma face de quem está pouco se lixando para as convenções, ele nem havia reparado que Yoshiaki realizara o mesmo movimento em respeito aos dois à frente.

-Foi ela mesma quem quis. —Tetsuo respondeu olhando para Okoi. —Também disse que poderia fazer essa parte.

-Imagina. —Okoi balançou a cabeça em negativa com um sorriso sincero. —Sou boa nisso. Só quis ajudar.

-Foi uma boa ideia reforçar essa região já que a base mais próxima ainda está vazia e fica geograficamente longe das outras. —Yoshiaki disse seriamente fitando os dois a sua frente.

-Já terminaram de instalar todas as armadilhas? —Souichiro indagou na mesma nuance séria.

-Sim. —Tetsuo respondeu assentindo em positiva. —Estávamos voltando ao castelo.

-Aquele monte que está ali... —Souichiro falou apontando para uma elevação de terra sutil, há alguns metros de distância. —Enterraram algo ali?

-Não. —Tetsuo respondeu com um tom repleto de certeza. —Não há nada.

-Certo, mas... —Souichiro colocou a mão no queixo em ponderação, e logo fixou seus olhos em Okoi. —Já que diz que é boa nisso, que tal dar uma olhada ali para mim? Estou com um pressentimento estranho a respeito. Saberia dizer só em analisar mais perto se há ou não algo?

-Consigo. —Okoi assentiu. —Já digo ao senhor.

Tendo Okoi se afastado, Souichiro voltou os olhos para Tetsuo com um sorriso largo e mais do que cínico estampado na face.

-Sabe que não há nada lá. —Tetsuo disse dando um longo suspiro enquanto cruzava os braços na altura do peito.

-Claro que eu sei! —Souichiro falou dando de ombros enquanto levava o cachimbo a boca. —Só queria que ela saísse para falar.

-Lamento, Tetsuo. —Yoshiaki falou girando os olhos. —Tentei impedir que Souichiro se metesse, mas ele simplesmente não consegue deixar os outros em paz.

-Tsc! Se depender de Tetsuo essa yokai vai esperar até a próxima vida para transar de novo! —Souichiro ralhou pesadamente.

-Isso não é da sua conta. —Yoshiaki rebateu o fitando de canto. —Será que não consegue respeitar ninguém?

-Claro que não! —Souichiro tragou o fumo com uma tez indiferente. —Sou o senhor feudal do Sul, não seja ridículo.

-Hm! Desisto... —Yoshiaki falou balançando a cabeça em negativa.

Tetsuo respirou profundamente e voltou seus olhos a Okoi que se mantinha concentrada na resolução de algo que ele sabia ser inócuo.

-Ela passou por coisas muito terríveis, não quero assustá-la. E Okoi é... —Tetsuo hesitou por um minuto, mas, logo voltou seus olhos para os dois a frente e prosseguiu sinceramente. —Okoi é muito importante para mim.

-Não acha que está a subestimando? —Souichiro indagou jogando a fumaça do fumo para o lado oposto ao deles. —Olhe só para ela, Tetsuo! Acha que ela está se lamentando e sofrendo pelo que aconteceu? Não vai conseguir mudar a merda do passado fodido dela. Mas, pode proporcionar coisas boas para ela agora. É só você parar de ficar fugindo disso e de se debruçar nessa desculpa! Porra, parece até que está com medo de ser rejeitado...

Tetsuo e Yoshiaki ficaram mais do que surpresos com aquele discurso. Principalmente o Comandante das antigas ataduras rústicas.

Claro que a maior parte da sua hesitação com Okoi era por conta das amarras do seu passado mais do que tenebroso, mas Tetsuo não pôde deixar de desconsiderar que também havia um receio de ser rechaçado por ela... Ainda que esse sentimento estivesse oculto, quando Souichiro deu forma, ele não pôde retrucar.

-Okoi gosta de você. —Souichiro complementou. —Só está perdendo tempo com essa lenga-lenga.

Yoshiaki arranhou a garganta antes de fitar Tetsuo.

-Preciso admitir... Eu também acho que ela gosta de você.

-Tsc! Claro que gosta! Não ia sair debaixo de chuva para falar um monte de merda.

-Obrigado. —Tetsuo falou curvando-se solenemente a Souichiro. —Obrigado por isso...

No mesmo instante, Okoi voltou para próxima dos três e com uma face séria reportou o óbvio a Souichiro.

-Não há mesmo nada. Eu analisei de todos os ângulos possíveis.

-Excelente! —Souichiro falou dando um largo sorriso. —Então, só pedirei mais uma coisa.

-Ah, sim. O que o senhor precisa?

-Quero que fique com Tetsuo na base que está abandonada.

Tetsuo tentou não fazer uma face incrédula, mas não conseguiu. Ainda mais porque Souichiro falava com uma seriedade indubitável.

-Estávamos organizando a base para receber alguns dos yokais de Seiji lá, mas eles só voltam dentro de dois dias. Não quero deixá-la mais tempo sem ninguém. Creio que entenda.

-Naturalmente. —Okoi assentiu em concordância. —Iremos para lá agora mesmo.

-Perfeito. —Souichiro falou dando uma piscadela a Tetsuo. —Se possível, tomem um banho quando chegarem lá.

Tetsuo fitou Yoshiaki que bastou a assentir a ele.

Um gesto valia mais do que mil palavras, afinal.

E ficou mais do que claro que Souichiro já havia pensado em tudo aquilo...

...

Apesar de fazer tempo que aquela base estava abandonada, não havia qualquer sinal de desleixo.

Okoi estranhou a princípio o lugar estar tão bem cuidado, inclusive ter roupas nos modestos cômodos da propriedade. Mas, ela preferiu não se prender aquele detalhe, dado que Souichiro havia dito que eles já estavam mesmo arrumando o lugar para receber os outros que se fixariam ali por tempo indeterminado.

Ela focou então no fato de que estava um verdadeiro caos, completamente imunda! E que nos fundos daquela propriedade havia um rio de águas límpidas que perpassava o perímetro.

Para uma pessoa comum e até mesmo um yokai, tomar um banho dentro de um rio, por baixo de forte chuva, não soava como um acalento. Afinal, os ventos frios bem como a temperatura da água fariam chacoalhar os dentes e arrepiar até a alma! Mas, para uma yokai do fogo, tanto fazia...

Por isso, ela não pensou duas vezes em ir até lá. Levando consigo um kimono simples da cor branca, Okoi repousou a roupa na varanda antes de prosseguir sem qualquer receio a passos leves até as margens do rio.

Desatando o primeiro nó do kimono sujo da qual usava, ela escutou barulho de passos as suas costas. Virando pelo hábito, viu que Tetsuo se aproximava.

Ele engoliu a seco ao perceber que ela estava despindo-se e recuou um passo involuntariamente para trás, mas Okoi não se apresentou assustada e tampouco constrangida.

-Pensei que estivesse um pouco frio aqui fora para você. —ela falou sorrindo a ele.

-Não tive muita opção. —Tetsuo deu de ombros. —Não encontrei nenhuma banheira do lado de dentro, achei que estivesse com você.

-Não. —ela falou voltando a atenção para o nó das suas roupas. —Parece que só temos mesmo o rio.

Um tanto quanto hipnotizado, Tetsuo sentiu-se além do ridículo ao se pegar postado como uma árvore enquanto observava mais do que indiscretamente a yokai livrar-se das roupas encardidas. Sobretudo, quando ela elevou os olhos e parou sobre os dele.

Arranhando a garganta, o comandante voltou a si e desviou o olhar.

-Vou deixá-la sozinha...

Dando o primeiro passo, na direção contrária à dela, ele só não conseguiu prosseguir porque fora interceptado pela voz de Okoi.

-Por que não vem comigo?

Tetsuo ponderou se havia ficado maluco ou se seus ouvidos de alguma forma estavam lhe pregando uma peça. Independentemente do que fosse, ele não conseguiu evitar voltar os olhos para ela e quando o fez, sentiu o sangue subir totalmente por vê-la com o kimono entreaberto e com a mão estendida a sua direção.

-Está... Está tudo bem, Tetsuo. —Okoi falou sorrindo a ele, sem baixar a mão estendida, o que dava a entender que o convite continuava.

Nem em um milhão de anos Tetsuo conseguiria controlar os seus pés. Portanto, ele não se impediu de caminhar a direção daquela yokai que estava há anos remexendo pesadamente o seu interior, sem qualquer esforço.

Segurando na mão quente de Okoi, ele a fitou novamente com o coração martelando contra o peito e com a glote quase que completamente fechada.

-Tem certeza? —Tetsuo indagou sem desviar um centímetro dos olhos azuis.

-Tenho. —ela assentiu com um sorriso ameno, entrelaçando sem cerimônia os seus dedos nos dele. —Quero que fique comigo.

Diante de tais vocábulos, as intenções ficaram mais do que claras e não foi mais necessário se conter, somente permitir-se.

Assim sendo, Tetsuo acabou definitivamente com a distância que existia entre eles e num rompante ele a beijou nos lábios tórridos arraigado de um querer exacerbado que ocasionou um arrepio mútuo nos seus corpos vociferantes.

Um beijo tão intenso e ao mesmo tempo delicado, repleto de carícias e afabilidade.

Fazia tanto tempo que Okoi não sabia o que era aquela sensação prazerosa. De entregar o seu corpo por livre e espontânea vontade a quem verdadeiramente queria! Pensar naquilo e, acima de tudo, apreender todos aqueles sentimentos que a atingiram de uma única vez, foi suficiente para que as lágrimas se aglutinassem nos seus olhos, mesmo fechados, e que escorressem na primeira oportunidade confundindo-se com as gotas firmes de chuva que salpicavam sua pele.

Mas, para Tetsuo que observava cada movimento e mudança abrupta, aquilo não passou despercebido.

Então, ao dar-se conta, ele parou num súbito ao vê-la lacrimejar e beijou carinhosamente as maçãs do rosto empapados pelas lágrimas salgadas e pela chuva que caía torrencialmente das nuvens carregadas.

Okoi estava tão bonita. Seus olhos eram como o vasto céu. Infinito e profundo.

Tetsuo desejou guardar para sempre aquela imagem nas suas memórias.

-Estou completamente apaixonado por você, Okoi. —Tetsuo disse enquanto acariciava os cabelos molhados que pendiam pelos ombros da yokai. E foi como se uma tonelada tivesse abandonado seus ombros.

-Que bom! —ela sorriu contente em meio as lágrimas comovidas. —Porque também estou completamente apaixonada por você.

E na obviedade da coisa eles se beijaram não somente uma, mas duas, três, incontáveis vezes! Um beijo que havia começado tímido e cauteloso e que pouco a pouco foi ganhando raízes, esparramando-se por entre suas entranhas e consumindo até a última gota de razoabilidade.

Cegos de tanto desejo, eles negligenciaram o lugar e a chuva pesada que caía sem sinais de trégua. Aquilo não importava no final das contas. O momento reverberou muito mais importante do que os detalhes, nem tão pequenos assim, que os rondavam.

Por isso, Tetsuo não se impediu de beijar-lhe o pescoço com avidez, de percorrer os contornos tão desejados e imaginados por ele por dentro do kimono praticamente desatado da yokai que amolecia aos seus braços. Da mesma forma, Okoi também não o acharcava, tampouco tinha a pretensão de fazê-lo. Invés disso, ela o afundava cada vez mais em si, o puxando para dentro da sua boca, roçando sua língua na dele com uma tonalidade mais do que enlouquecedora.

Dando uma forte mordida nos lábios do comandante, Okoi agarrou na pala do kimono alheio e o puxou de uma só vez, para que pudesse cair por cima do seu corpo.

Assim aconteceu. Caíram os dois num baque. Okoi sentiu a grama bem aparada e encharcada as suas costas bem como o corpo do outro alocado devotamente por cima do seu.

Ele voltou a beijá-la nos lábios enquanto ela desamarrava o seu kimono pesado e puxava para trás a fim de deixar seu peito desnudo. Tetsuo acatou ao gesto e a ajudou a fazê-lo livrando-se totalmente da primeira parte das suas roupas.

Voltando a Okoi, ele deslizou a boca macia e percorreu pela linha da garganta até chegar aos seios parcialmente encobertos. Sem muita dificuldade, Tetsuo afastou o tecido já tão rendido quanto ela e pôde vislumbrar os mamilos enrijecidos que despontavam anteriormente pela seda estampada.

Aquela visão o deixou mais excitado do que já estava. Pois, aquele conjunto modesto era mais instigante do que ele havia imaginado. Desse modo, ele não mais se postergou, tratou de agarrar um dos seios e o abocanhar num afago delirante que fez Okoi se retesar e arfar entrecortado ao sentir a língua do outro explorando minuciosamente a aureola pequena e chupar perfeitamente o bico tão duro.

Ela achou que poderia chegar ao ápice ali mesmo, só com as carícias nos seus seios que remexiam com todas as suas terminações nervosas. Mal conseguia perceber que afundava os dedos nas costas masculinas e o arranhava sutilmente ocasionando um formigamento que percorria toda a espinha até o escalpo daquele yokai.

Não conseguindo mais se conter, Tetsuo subiu com a mão livre pelo interior da coxa de Okoi e tocou no meio das suas pernas, onde a intimidade abrasiva não negou o quanto também o queria.

Estimulando-a lá embaixo, massageando com seus dedos os pontos mais sensíveis, ele voltou a beijar os mamilos rígidos e sentiu que o calor e a umidade pegajosa de dentro dela aumentava consideravelmente.

O som da excitação de Okoi assim como os gemidos baixos o tiraram definitivamente o tino. Principalmente quando ele escorregou com dois dedos para dentro dela e sentiu aquele espaço apertado abrir-se obedientemente a ele e o embeber com a umidade quente.

Já no seu limite, Tetsuo largou de uma só vez dos mamilos pontudos e voltou para os lábios onde a beijou de forma lânguida. Desvencilhando da boca dela, ele prendeu-se nos seus olhos, tentando buscar o ar que demorava a perpassar pelos pulmões.

-Quero muito você. —ele falou um tanto esbaforido, tentando recuperar o fôlego. —Posso fazer isso?

Mas, Okoi não o respondeu com palavras. Entrelaçou os dedos nos cabelos alheios e o puxou novamente para dentro da sua boca onde o beijou profundamente, roçando sua língua na dele, explorando todos os cantos possíveis.

Entendendo como um sim e agradecendo ao divino por ela ter acatado, Tetsuo ajeitou-se por cima dela e pressionou a ponta da ereção na entrada. Mesmo querendo penetrá-la de uma só vez, ele não o fez, conteve a vontade selvagem de adentrá-la com ímpeto para fazê-lo de forma cuidadosa.

Sentindo as paredes do interior dela se abrirem e o envolverem com a máxima diligência, ele acabou escorregando com mais força no final e arquejar conjuntamente a ela pelo torpor de finalmente estar dentro daquela yokai que ele tanto desejava.

Por esse motivo foi difícil controlar a velocidade dos seus movimentos e a intensidade das estocadas que deslizavam prontamente, cada vez mais para dentro, mais e mais fundo.

Okoi o segurou forte pelo ombro, o fazendo debruçar mais sobre si. Com suas testas recostadas, ela entrou nos olhos negros dele e não soube dizer exatamente se era aqueles olhos ou o membro latejante que a penetrava com tanto ardor.

O que sabia é que estava a um segundo de chegar ao ápice da coisa e que um calor esquecido brotava no meio do seu peito e que crescia à medida que as investidas aumentavam sensivelmente.

Num rompante o êxtase veio e Okoi não conseguiu segurar os gemidos altos que o deixaram completamente atordoado. Vendo-a gozar abertamente, sentindo seu sexo sendo apertado mais um tanto, quase que sendo estrangulado pela contração involuntária, ele também não conseguiu impedir o orgasmo que foi derramado no interior cálido.

E, em nenhum segundo, enquanto gozava, Tetsuo tirou os olhos de dentro dos dela.

...

CONTINUA...