[EXTRA] — Yoshiaki e Souichiro: Crônica de um amor na era feudal.

Quando Yoshiaki pisou no Sul depois de uns bons anos viajando pelo mundo feudal, os yokais a princípio não gostaram muito da ideia de ter um meio-yokai perambulando por suas terras. Principalmente um advindo do Oeste e mais ainda sendo filho de quem era...

Apesar da vida harmônica não se podia negar que existia uma rixa entre os dois feudos. Tendo em vista que desde que mundo é mundo os yokais batalham entre si para terem um destaque notável, não era muito espantoso que certos rancores perdurassem. E que eles carregassem consigo uma gota de amargura por não serem os únicos a postarem no centro com excelência.

Acontece que no dia posterior a chegada do platinado os yokais até que agradeceram aos deuses por Yoshiaki ter ressurgido! Pois, o humor do seu senhor, que deveras estava terrível nos últimos tempos, havia se amainado mais do que consideravelmente! E depois de um longo período eles puderam finalmente respirarem aliviados sem medo de serem estapeados ou mortos por qualquer besteira...

O problema é que Yoshiaki não ficava lá para valer. Não se estabelecia e muito menos parecia ter a pretensão de... Posto que sua natureza tão desbravadora não era capaz de o segurar a solos únicos. E também, não se podia deixar de considerar que ele não era genuinamente daquele lugar e que seu pai havia sido categórico a respeito da discrição...

Em resumo, havia um ciclo tenso de mau humor x bom humor de Souichiro que deixava todo mundo maluco!

Partindo desse pressuposto, pouco se estranhou o fato de que, com o passar do tempo, os yokais residentes dedicaram-se a engolir o orgulho e a prepotência e serem cada vez mais cortês com o dito cujo. Inclusive o participarem de várias empreitadas a fim de mantê-lo por mais tempo possível ao lado do temperamental senhor feudal.

Valia a pena.

Ah, se valia!

...

-Que cara mais tenebrosa essa a sua!

Souichiro não precisava erguer a cabeça e olhar para os galhos altos da majestosa árvore para saber quem falava consigo de forma tão despreocupada. Dado que, aquele timbre inconfundível, que falava num tom divertido e ameno, atravessou o tempo e agora bailava pelos seus ouvidos quase como num carinho sutil.

Mas, ainda que não precisasse, ele o fez. E focou seus olhos na direção certa onde pôde ver o semblante delgado em meio as vestimentas negras num kimono elegante que caía perfeitamente na silhueta impossível de ser negligenciada.

Um corvo de penas negras lustrosas estava ancorado no seu ombro direito e não dava qualquer sinal de que evadiria. Com um sorriso de canto, ele pôs-se a acariciar o animal e voltar seus olhos tão escuros como o breu da noite para os olhos verdes-oliva.

-Aquela criança... —o dono da voz afável voltou a falar com o timbre macio e descompromissado. —Ele te tira mesmo do eixo.

-Está com ciúmes, Shinichiro? —Souichiro indagou ironicamente dando uma piscadela a ele.

-Talvez... —Shinichiro estreitou os olhos sem parar de sorrir. —Ele não é muito jovem para você?

-Tsc! Claro que é! —Souichiro falou com um sorriso cínico enquanto apoiava as mãos nos quadris. —Por isso mesmo que eu gosto.

Shinichiro riu brevemente e saltou do galho alto da árvore repousando perfeitamente no solo terroso.

Estavam do lado de fora do castelo, na floresta densa e bem colorida que bordeava todo o entorno dos muros rústicos. O ambiente quase que calmo demais para um trecho do agitado Sul ressonava desinteressante para os olhos sempre atentos as novidades. Geralmente eles se encontravam ali. Souichiro facilmente notava quando a personalidade, tal qual uma sombra viajante, se aproximava. E por isso, resvalava sem muito alarde e partia para o seu encontro na surdina.

-Demorou bastante a aparecer. —Souichiro voltou a dizer cruzando os braços na altura do peito. —Por onde tem andado?

-Hm... Por aí...

-Que específico. —o senhor feudal falou em tom debochado, quase áspero.

-O que posso dizer? —Shinichiro coçou a nuca um tanto sem jeito. —Não é fácil me ajustar a esse mundo e nem a mim mesmo.

Souichiro acatou ao argumento. Porque era bem verdade que Shinichiro não era mais um yokai, tampouco poderia ser considerado humano. Sabe-se lá também se poderia ser considerado um ser vivo! E, além disso, ele tinha que lidar com a redescoberta de ser quem era. Afinal de contas, vivendo sobre a égide de uma energia rancorosa durante tantos anos a fio, aquilo não o havia mudado completamente? Não era só uma descoberta sobre o que era, mas também quem era e o que queria ser...

Fitando Shinichiro com os olhos tremeluzentes, Souichiro resolveu não pensar mais naqueles engodos e tratou de mudar o rumo da conversa para que o diálogo não se transformasse em algo melancólico demais.

-Está os chamando de volta? —o yokai dos olhos verdes-oliva indagou apontando com a cabeça para o corvo ancorado no ombro alheio.

-Na verdade não. —Shinichiro sorriu docemente voltando a afagar a ave. —Mas, parece que de alguma forma eles me reconhecem. Igual o seu... Hm... —Shinichiro ponderou levando a mão ao queixo. —Como devo chamar...?

-Hm! Não fique fazendo gracinha. Chame-o logo pelo nome.

Shinichiro fez uma careta em meio a uma face divertida.

-Sabe que não consigo evitar.

-Sobre isso,diga a verdade... —Souichiro indagou o fitando seriamente. —Cruzou o caminho do Yoshiaki de propósito aquela vez?

-Não. —Shinichiro negou balançando a cabeça conjuntamente na mesma proposição. —Mas, sei que não foi coincidência. Não são só os corvos. Penso que a energia que o habita tenha me guiadoaté ele.

-Faz sentido. —Souichiro assentiu compenetrado na teoria. —Yoshiaki desconfiou de você, da sua natureza.

Shinichiro deu de ombros com uma face indiferente.

-Eu sei. Por isso ele quis jogar Sugoroku comigo. Queria ficar mais tempo na minha presença para tentar me decifrar. —Shinichiro riu brevemente e jogou as mãos para trás da cabeça numa pose descontraída. O corvo, anteriormente no seu ombro, deu um breve voo e estacionou no topo da sua cabeça. —Da mesma forma, também estava curioso para saber qual era a graça que você via naquela criança, além da aparência.

-E...? —Souichiro o estimulou a prosseguir com uma pontada de expectativa.

-Ele é tão estrategista e observador que me fez, pela primeira vez na vida, levar Sugoroku a sério.—Shinichiro deu de ombros mantendo o semblante amainado, numa curvatura sutil dos lábios. —Diria que... Hm... Violentamente calmo!Se é que é possível...Admito que ele é singular, Souichiro.

Souichiro teve que rir daquela análise pontual. Ainda que brevemente. Afinal de contas, ele via Yoshiaki exatamente daquela maneira. Uma força paradoxal dentro do mundo.

-Onde ele está agora? —Shinichiro indagou voltando a acariciar a ave que jazia postada a sua cabeça.

-Tsc! Vai saber... —Souichiro disse desviando o olhar numa face visivelmente descontente. —Yoshiaki está sempre irritantemente indo pra lá e pra cá... Difícil acompanhar...

-Escuta...

Shinichiro pretendia dizer alguma coisa ao senhor feudal desalinhado, mas acabou sendo interceptado por uma terceira voz que cortou o ambiente.

-Lembrou o caminho de casa?

Ambos viraram de imediato na direção da voz e puderam constatar a presença material de Tetsuo e Seiji que iam caminhando a passos lentos ao encontro dos dois.

-Essa é a maneira sutil de Tetsuo dizer que estava com saudades. —Seiji disse dando um leve tranco em Tetsuo com o próprio corpo.

Shinichiro sorriu de maneira sincera.

-Também estava com saudades de vocês.

-Acabamos de chegar. —Tetsuo retomou a palavra. —Estávamos no Oeste.

Em fração de segundos o rosto de Shinichiro escureceu e toda a penumbra das suas roupas bem como as asas arqueadas do corvo a sua cabeça pareceram migrar para os seus olhos pretos.

-Como... —ele ensaiou dizer, em seguida hesitou, mas já era tarde para recuar. Teve então que tomar coragem e prosseguir para os três atentos que esperavam a conclusão do enlace. —Como Mitsue está?

-Por que não pergunta a ela pessoalmente? —Tetsuo indagou arqueando uma única sobrancelha.

-A princesa sempre fala de você. Já faz tempo que voltou a esse mundo, poderíamos marcar um encontro quando ela viesse ao Sul. É um tanto estranho que não tenham falado ainda. —Seiji disse com um sorriso amarelo. —Não acha? Não acha que deve isso a ela?

Shinichiro abaixou os olhos e seu semblante taciturno parecia não combinar com a face lisa e tão bem desenhada.

-Para falar a verdade, eu a vi há algum tempo quando estive no Oeste... A vi de longe. —Shinichiro disse dando um longo suspiro. —Ela não me notou. Estava com os filhos no rio.

-Por que não assoviou? —Tetsuo indagou com o cenho franzido. —Ela teria escutado e obviamente reconhecido.

-Bom, porque logo depois o marido dela chegou. —Shinichiro deu uma risada fraca da qual todos sabiam que ele não tinha a mínima vontade de dar. Depois, balançou a cabeça em negativa. —Melhor que seja assim.

-Melhor o caralho! —Souichiro ralhou a ele. —Mitsue iria querer vê-lo.

-Ainda... Ainda não consigo... —Shinichiro falou coçando a lateral da cabeça um pouco encabulado. —Sinto muito.

Ninguém mais teve a iniciativa de insistir naquele assunto. Seria como dar murro em ponta de faca, não surtiria efeito e endossaria feridas antigas.

-Então esteve perambulando no Oeste! —Souichiro disse inclinando o corpo numa postura debochada e descontraído. —O que achou daquela merda?

-Foi só de passagem, não quis chamar a atenção. Mas, é bonito, vasto, interessante e... —Shinichiro riu jogando os braços para trás. —Enfadonhamente silencioso.

Os três riram em conjunto do último comentário e permitiram-se alongar por conversas de mesma nuance. E como antes, emendaram um assunto dentro do outro e percorreram longos momentos elucidando os últimos acontecimentos experimentados por cada um nos últimos tempos.

Isso é, até que foram interrompidos por uma mudança sutil no ar...

Timidamente os ventos fracos mudaram de direção e ninguém pôde sequer duvidar da presença que vinha vindo, se aproximando do Sul.

-Yoshiaki. —Seiji disse olhando para trás, apesar de não ter ninguém a sua retaguarda.

Tetsuo olhou de canto para Souichiro que já havia mudado bruscamente o semblante, montando-se numa tez mais atenuada. Até então, nada de novo sob o sol. Era sempre assim quando Yoshiaki retornava.

Só que, de repente, para a surpresa geral, o senhor feudal fechou outra vez na carranca insatisfeita.

-Hm... —Souichiro bastou a emitir o som ao concluir a notável presença se aproximando.

Aquela atitude, embora surpreendente, fez sentido para aqueles três que tanto o conheciam depois de alguns segundos de ponderação a respeito.

-Souichiro. —Shinichiro o chamou, retomando a atenção do yokai novamente para si.

-O que?

-Se fosse você, não o irritaria com coisas superficiais. —Shinichiro disse enquanto coçava a cabeça de forma tímida. —E também não tentaria prendê-lo. Não dará certo.

-Tsc! Fala como se eu ficasse sufocando Yoshiaki. —Souichiro falou num tom irritadiço.

-Mas, fica. —Tetsuo falou assentindo seguramente.

-Fica mesmo. —Seiji concordou.

-Ah, caralho! Se eu sou esse fodido, por que é que ele não está preso na porra de um calabouço então?

-Sempre literal... —Shinichiro disse balançando a cabeça em negativa com um sorriso límpido. —Sentia falta disso, Souichiro.

Mesmo que quisesse ocultar que aquelas palavras não haviam o atingido, o senhor feudal sabia bem que não conseguiria. Por essa razão, ele nem tentou ludibriar o outro que conhecia de cor todas as suas nuances. Então, ele escancarou o sorriso e deu de ombros numa pose cínica.

-Então é só parar com essa mania de ficar sumindo pelo mundo. Venha outras vezes.

-Meu senhor tem razão. —Seiji disse sorrindo em igualdade. —Sentimos sua falta por aqui.

-Também sinto falta de vocês. —Shinichiro falou esmorecendo os ombros. Logo, com a face um tanto corada, prosseguiu. —Mas, já causei problemas demais nos últimos anos... Minha presença característica poderia chamar atenção do Oeste. Melhor que façamos dessa maneira.

-Você pensa demais. —Tetsuo ralhou a ele sem necessariamente o fitar.

-Nem sempre. —Shinichiro riu brevemente e não tardou a dar-lhes as costas. —Vou embora antes que ele me note por aqui.

-Não vá para longe como da última vez. —Seiji disse dando um longo suspiro. —Tente ficar pelo Sul ao menos.

-Como se ele fosse fazer o que falamos... —Tetsuo disse. —Até parece que não o conhece.

-É... —Souichiro sorriu assentindo. —Até parece...

Apesar de estar sofrendo aquelas represálias que só mascaravam o afeto que os outros tinham por ele, Shinichiro não virou para trás. Sorriu sem que eles pudessem ver e acenou ainda de costas enquanto andava na direção contrária.

E só então os três conseguiram ver o bando de corvos que subitamente surgiu e que foi o acompanhando pelo caminho.

...

Definitivamente aquela não era a primeira vez que Souichiro estava pondo os seus olhos por cima de Yoshiaki dentro do seu castelo. Nos últimos tempos, aquele vulto monocromático que ia e vinha despreocupadamente e que bailava pelos seus solos por tempos da qual não se podia exprimir uma cronologia exata, de certa forma, estava costumeiramente estacionando por ali.

Então, não fez muito sentido quando Souichiro montou uma cara um tanto aturdida ao ver o platinado sentado na sua varanda. Posto que, aquilo não devia ser algo da qual ele já devia estar acostumado?

Em tese, sim.

Mas, o senhor feudal não estava necessariamente confuso pela presença mais do que esperada daquele meio-yokai, e sim, porque Yoshiaki protagonizava uma cena deveras bizarra!

Completamente alheio ao redor, Yoshiaki encontrava-se sentado de maneira despreocupada na madeira lustrosa que bordeava toda a morada. Sua perna direita estava dobrada dando a possibilidade do joelho ereto recostar no peito parcialmente desnudo pelo kimono desajeitadamente atado ao corpo. Enquanto que a perna esquerda era balançada monotonamente para frente e para trás o que provocava uma fricção breve das suas solas com a terra embaixo de si.

Não obstante, levava a boca uvas roxas e graúdas, uma seguida da outra, as jogando pelos lábios abertos numa curvatura de um "o" perfeito para serem mastigadas sem dó.

Entretanto, o que impressionava não era tão somente a pose desalinhada, o fato dele estar sujo com o kimono bagunçado e... Aquilo era um rasgo!? Ou a maneira que Yoshiaki jogava a fruta dentro da boca. E sim, a forma que Yoshiaki parecia extremamente indiferente a sua condição inusitada! Até mesmo quando uma grossa tira vermelha percorreu sem cerimônia da cabeça até a ponta do queixo, onde pingou teatralmente no torso parcialmente desnudo e nas roupas negras.

Sangue!?

Aquilo foi demais.

-Que porra é essa!? —Souichiro não conseguiu mais se segurar. —O que aconteceu!?

Cuspindo uma semente, Yoshiaki moveu a cabeça na direção de Souichiro que se apressava a se colocar ao seu lado com a face mais confusa do que nunca.

-Oi. —Yoshiaki falou em meio a um sorriso de canto que exibia tonalidades roxas da fruta carnuda e também vermelhas do próprio sangue que tingiam timidamente os seus dentes brancos.

-Como assim oi!? O que houve!?

-Nada. —Yoshiaki respondeu dando de ombros. Mais indiferente impossível!

Voltando a atenção para o cacho, o meio-yokai soltou mais uma uva dos cabos firmes e ao tentá-la jogar para dentro da boca, Souichiro interceptou a fruta de chegar ao destino final, a pegando no meio do caminho.

-Nada!? Olha pra você!

O yokai segurou Yoshiaki pelo braço e o analisou dos pés a cabeça. Não sendo o bastante fazê-lo unicamente com os olhos, o senhor feudal tratou também de fiscalizá-lo clinicamente com as mãos. E iniciou um processo esquisitíssimo cujas palmas grandes apalpavam sem trégua o corpo alheio, afastando mais o kimono negro para o lado e jogando igualmente os cabelos ineditamente soltos para trás a fim de verificar comprovadamente o que ele tinha de moléstia.

Não é como se aquelas mãos nunca tivessem explorado o corpo bem desenhado de Yoshiaki. Na realidade, quando eles se encontravam, nunca o oposto acontecia. Sedento que só, Souichiro nunca lhe dava um segundo de paz, e danava a levá-lo para os seus aposentos num supetão onde estacionavam por longínquas horas.

Mas, naquela circunstância, Souichiro fazia a tal inspeção no seu corpo no meio do castelo! Sendo que havia uma dezena de yokais que se encontravam nas proximidades e que com certeza vislumbravam a cena.

Pensando nisso, Yoshiaki corou totalmente. Tanto que não havia sequer espaço para a palidez inerente do seu semblante alvo. O sangue que escorria próximo a sua têmpora e quetingia alguns fios platinados teimosos, facilmente ao escorrer pela face lisa confundia-se com a nuance avermelhada da sua nova cor.

Por isso, ele afastou urgentemente aquelas mãos pesadas de o seu próprio braço, chocou-se com o antebraço alheio numa mensagem clara de que queria que Souichiro parasse com o que quer que fosse aquilo.

-Quis dizer nada de novo! —Yoshiaki falou com o timbre oscilante e resvalando outra vez da investida de Souichiro que continuava obstinado a fitá-lo por inteiro utilizando as mãos. —Tsc! Para com isso. É só um arranhão!

Yoshiaki esfregou as costas do antebraço na testa e com esse movimento tudo se misturou de uma só vez. Sangue, terra e suor. Um misto nenhum pouco agradável de se olhar, ainda mais no meio de uma face tão delgada e elegante.

O corte profundo saltou as vistas e aos poucos foi possível verificar que gradativamente o ignóbil ferimento se fechava.

Apesar disso, Souichiro não estava nenhum pouco convencido a respeito daquela alegação e muito menos conformado com o fato de Yoshiaki não abrir a boca e contar de uma vez por todas o que diabos havia acontecido com ele até chegar ao Sul.

Mas, fosse o que fosse, Souichiro resolveu acatar por alguns instantes. Pensou que se continuasse com a empreitada anterior, ele poderia causar mais danos do que ajudando de fato. E também, verdade fosse dita, Yoshiaki não era uma criatura frágil da qual requeresse cuidados exagerados tais como aqueles que o yokai dos olhos verdes-oliva estava se propondo.

Souichiro sabia bem. E como sabia!

Não fazia tanto tempo assim que ele teve um trabalho e tanto para conseguir segurar aquele platinado que submerso numa fúria mais do que sinistra, açoitava a tudo e todos com inúmeros ferimentos mortais pelo corpo.

Era só que...

Souichiro não conseguia evitar!

Nada que dizia respeito a Yoshiaki parecia leviano e tampouco era capaz de fazê-lo postar-se indiferente.

Mediante a circunstância, foi impossível não pensar na conversa anterior que teve com os outros um pouco antes da chegada do meio-yokai. E assumiu que talvez, só talvez... Ele sufocasse Yoshiaki um tantinho de nada...

Um tiquinho de tantinho de nada...

Ponderando a respeito, Souichiro teve que guardar a carranca no âmago ao ser confrontado por si mesmo. Derrotado, suspirou profundamente descansando as mãos nos quadris.

-Não acha que seria melhor tomar um banho? —Souichiro indagou com um tom contido. —Está todo sujo.

Yoshiaki ficou um bocado surpreso. Era a primeira vez em tempos que Souichiro simplesmente não dizia o que ele tinha ou não que fazer. Acostumado a ouvi-lo pronunciar frases somente no imperativo, ver o senhor feudal finalmente perguntando a ele o que ele queria fazer soou verdadeiramente espantoso.

Mesmo que fosse algo óbvio!

Não que Yoshiaki acatasse aos destemperos e superlativos exorbitantes ditos em tons de ordem maquiada. Isso inclusive era um dos grandes problemas daquela... Relação? Ele podia chamar assim?Achava que podia. E achava também que aquilo era um problema. Mas, entendia o porquê de Souichiro ser tão mandão, ainda que o irritasse profundamente, Yoshiaki simplesmente compreendia e legitimava o pontual aspecto da personalidade alheia.

Passado o baque, Yoshiaki notou que não havia dito nem que sim e nem que não durante alguns segundos e que, mais estranhamente, Souichiro não o havia cobrado a fazê-lo. Ao contrário, continuava o fitando de volta esperando uma continuidade no diálogo.

Yoshiaki achou aquilo mais do que fora do normal. Uma vez, um gesto, aquilo poderia ser coincidência. Mais do que isso, não.

Por isso, o platinado franziu o cenho e arqueou uma única sobrancelha.

-Está tudo bem? —Yoshiaki indagou desconfiado.

-Está, ué. —Souichiro deu de ombros. —Quero só saber se quer tomar um banho.

Yoshiaki piscou lentamente.

Definitivamente algo estava muito errado.

Mas, ele não podia mais confrontar e não responder. Então, não teve outra saída senão dizer.

-Seria... Seria bom.

...

Os corredores do castelo pareciam com os do Oeste.

Largos e longos.

Quem sabe mais longos do que Yoshiaki gostaria que fossem. Especialmente naquela circunstância que ele guardava certo incômodo entre os dentes.

E só foi nessa ocasião, onde ambos davam passos melancólicos e as batidas das suas solas descalças batucavam no assoalho lustroso, que Souichiro que ia imediatamente atrás de Yoshiaki pôde perceber que algumas gotas rubis pingavam pela manga direita do kimono alheio. E que, sem que o platinado percebesse, formava uma trilha sombria por onde ele passava.

Souichiro teve que engolir a ânsia de se meter outra vez. E pensou que quem é que estava sufocado dessa vez era ele próprio! Pois, a vontade que sentia era simplesmente acabar com a distância, mesmo ínfima, entre os dois e levá-lo nos braços para que pudesse cuidar dele adequadamente, mesmo mediante a tantos protestos oblíquos.

Mas, ele não fez uma coisa nem outra. Bastou a cerrar a mão com força enquanto caminhava, deixando os nós mais do que sobressaltados pela intensidade exercida.

Yoshiaki o olhou por cima do ombro. Pensou encontrar uma cara medonha, mas o que vislumbrou foi um sorriso ameno que o fez sentir mais medo do que conforto.

-Está mesmo tudo bem com você? —Yoshiaki indagou outra vez sentindo um clima um tanto quanto estranho.

-Uhum!

Yoshiaki pensou que ou Souichiro havia ficado maluco de vez ou ele estava tentando lhe pregar uma peça. Porque em questão de segundos o senhor feudal havia pulado do incisivo e invasivo para o paciente comedido.

O jeito que o yokai se comportava, Yoshiaki nunca pensara ser possível de ser visto e que talvez nem em outra vida ele conseguisse tal proeza!

Acontece que sendo milagre ou não, lá estava Souichiro altamente solícito, abrindo a porta para que ele pudesse passar, sem o preencher de perguntas seguidas de outras e tampouco ralhando pesadamente a ele para que fizesse o que ele decidisse ser o certo.

Por fim, entraram nos aposentos de Souichiro.

Era um quarto amplo cujas mobílias de mogno saltava aos olhos pela exuberante elegância. Tal qual o restante do castelo, havia um cheiro intenso de madeira branca, cedro e sândalo. Mas, aquela mistura peculiar que o agradava sensivelmente, Yoshiaki só conseguia exprimir as notas com maior precisão quando se encontrava ali.

Quem sabe porque Souichiro tinha a mania de entrar na banheira disposta no canto leste do cômodo e passar longas temporadas na companhia de especiarias e flores de variados tipos!

Ou talvez, porque fosse o lugar da qual ele estava sempre e que, involuntariamente, ocasionava certo acalento e familiaridade...

Era difícil compreender aquele sentimento que batia forte dentro do peito. Tão inusitado e complexo que Yoshiaki havia desistido de buscar sentido com o passar do tempo. Achou por bem aceitar e acatar que aquilo era forte o suficiente para fazê-lo retornar todas as vezes. Pensou que provavelmente a vida fosse aquilo... Eventos singularesda qual não se pode escapar e muito menos explicar.

-Saiba que está um tanto bizarro sorrindo para o nada com essa cara toda imunda. —Souichiro falou rindo brevemente, tirando Yoshiaki dos seus pensamentos profundos.

-Acho que sim... —Yoshiaki assentiu ao perceber que realmente sorria.

-Havia enchido a banheira há pouco, mas tive que sair... —Souichiro disse pincelando por alto a sua furtiva escapada para encontrar Shinichiro. —Pode usar.

Embora Souichiro conseguisse fazer uma face com excelência, da qual não se dava margens para desconfianças e que era quase impossível notar algo oculto, com a convivência, Yoshiaki já havia aprendido a notar quando havia algo a mais.

O platinado dos olhos âmbares pensava que aquilo era um perigo e que talvez, quem sabe, talvez... Ele não escondesse um montão de coisa dele! Mas, Yoshiaki respeitava as meias verdades e palavras reticentes. Acreditava que Souichiro deveria ter seus motivos e não protestava a respeito.

Não havia nada que irritasse mais Yoshiaki do que mendigar confiança...

-Hm, ta. —Yoshiaki concordou e desviou os olhos para as suas roupas mais do que imundas. Erguendo o olhar novamente, ele fitou Souichiro antes de começar a desamarrar o kimono negro. —Me empresta uma roupa?

-Só escolher.

Tá! Aquilo já estava absurdamente fora do comum.

Ainda assim, Yoshiaki fingiu que tudo corria na mais perfeita naturalidade. Dedicou-se a desamarrar o kimono despretensiosamente e prosseguiu sem fitar Souichiro diretamente.

-Qualquer uma que seja preta está bom.

Aquele era seu trunfo. Se havia algo que Souichiro amava implicar, certamente era com a cor das suas vestimentas.

-Hm... —Souichiro pareceu ponderar finalmente.

Yoshiaki sobressaltou. Finalmente o pegaria! Chegou até erguer os olhos para ver a reação alheia.

No entanto, para a sua surpresa, Souichiro deu de ombros e assentiu.

-Acho que tenho algo assim... —foi o que o senhor feudal disse.

Com a boca aberta, Yoshiaki pensou que talvez fosse ele que tivesse enlouquecido! Ou será que estaria sonhando? Sonhando era bondade, aquilo estava mais para um pesadelo. Afinal de contas, outra coisa que tirava o meio-yokai do eixo era não compreender o que estava acontecendo e não ter qualquer controle acerca das suas previsões!

Sendo uma personalidade moldada a partir de estratagemas, da qual sempre teceu a sua vida em prol de táticas específicas, ver tudo de uma hora para outra deslocar para caminhos das quais ele nunca antes pisara dava um nó dentro do seu cérebro.

-Vou buscar. —Souichiro disse virando-se de costas deixando para trás um Yoshiaki mais do que aturdido.

Voltando a si, Yoshiaki balançou a cabeça em negativa e resolveu deixar que as coisas dissessem por elas mesmas.

Tratou então de voltar a atenção para o que fazia antes e cuidadosamente foi tirando a parte de cima do seu kimono danificado. Com o movimento, ele se retesou um tanto por conta de uma dor aguda no seu braço direito e emitiu um grunhido irritadiço por aquela ferida ainda estar aberta. Visivelmente um golpe de espada certeiro que havia o atravessado sem dó.

Incialmente seus olhos âmbares reluziram repleta amargura ao fitar o ferimento grosseiro que paulatinamente fechava, depois desanuviaram como se o sentimento funesto nunca houvesse brotado na sua íris tal qual o ouro líquido.

Apesar disso, da nuance obscura tê-lo assomado por segundos, Souichiro que voltava com robes cinza em punho conseguiu absorver aquele olhar pouco característico.

Yoshiaki sabia que ele havia percebido, por isso, não tentou disfarçar. Não precisava também. Mas, não disse nada por um momento. Somente voltou a empreitada e deixou o tecido que encobria o seu torso cair teatralmente ao chão num baque abafado.

Com o peito completamente desnudo, seu físico impecável abrilhantou o cômodo. Músculos perfeitos saltavam na pele e demonstravam um porte físico invejável de quem, com toda a certeza, não levava uma vida sedentária.

-Foi no caminho do castelo que eles me atacaram. —Yoshiaki começou a dizer de supetão, para a surpresa de Souichiro. —Acho que eram do clã Taiyô. Não sei dizer convictamente, estavam usando máscaras. Mas, pela técnica utilizada, creio que seja mesmo eles.

-Clã Taiyô, Clã Sora, Clã da puta que pariu... —Souichiro falou em desdém e obviamente se não tivesse dentro dos seus aposentos ele teria endossado o sentimento com uma bela cuspida. —Toda hora um clã de lugar nenhum com aspiração a fracasso para encher a porra do saco!

Yoshiaki riu brevemente. Aquele era o Souichiro que ele conhecia.

-O que eles queriam? Chegaram a falar durante o repertório cansativo de sempre? —Souichiro indagou cruzando os braços ainda de posse ao robe.

-Não quis ouvir. As aspirações me cansam. —Yoshiaki falou categórico enquanto voltava a atenção para o nó que prendia suas calças empoeiradas. —Ultimamente tenho sido mais emboscado do que gostaria. Estou um pouco cansado de ter meus ouvidos massacrados por motivações tão tolas.

Não precisava pensar muito para compreender o motivo de Yoshiaki ter se tornado um alvo preterido entre os clãs inimigos e metidos a ascendentes.

Claro que sua natureza meio-yokai era um ponto a ser considerado. Afinal de contas, ter aquela origem dentro do mundo feudal ainda contava como um motivo mais do que justo para os yokais quererem o seu fim.

Mas, além disso, Yoshiaki era, na conjuntura do momento, o filho mais acessível para quem quisesse atingir Sesshoumaru em cheio! Não tão raramente, quem odiava o Oeste e que tinha pretensões em abaixar a crista daquele senhor feudal impressionante, havia um atalho que se pensava pegar, e que, estupidamente sempre ligava a Yoshiaki...

De mesma sorte, quem também queria perturbar o Sul, Yoshiaki resplandecia como uma possibilidade. Tendo em vista que por mais que não se soubesse concretamente que havia algo esquizofrênico entre o primogênito de Sesshoumaru e o senhor feudal do Sul, ao menos, uma desconfiança existia! E caso não fosse exatamente o que se pensava, pelo menos se sabia que havia uma amizade robusta da qual levava o platinado a adentrar as terras do Sul constantemente.

Ou seja, mais cobiçado impossível.

-Posso mandar Seiji dar uma olhada nesses tal Taiyô...

-Perda de tempo. —Yoshiaki falou dando de ombros enquanto puxava finalmente o cinto desatado para fora das calças escuras. —Deixe-os vir de novo. Não são adversários notáveis.

-Discordo. Se conseguiram te ferir... —Souichiro disse sorrindo verdadeiramente, dando de ombros.

-Estava distraído... —Yoshiaki arranhou a garganta. —E também não é como se eu fosse parâmetro.

-Comparado a mim, certamente não. Mas, a esses outros, com certeza. —Souichiro disse ironicamente com um sorriso sarcástico e convencido.

Yoshiaki sorriu juntamente e não preteriu debater aquele assunto da qual sabia bem que Souichiro só estava escarnecendo.

Olhando de volta a Souichiro, ele reparou no robe cinza esquecido nas mãos do senhor feudal e apontou para a roupa emaranhada entre os dedos do outro.

-Isso não é meu? —Yoshiaki indagou arqueando uma única sobrancelha.

-É! A mulher me emprestou... Digo. —Souichiro coçou a cabeça tentando se corrigir. —Sua mãe.

-Ah! Daquela vez! —Yoshiaki sobressaltou. Após, estreitou os olhos de forma confusa. —Por que guardou isso com você por tanto tempo?

-Hm... —Souichiro ponderou na resposta que iria dar, encontrando as palavras certas, prosseguiu. —Como não sabia se teria a oportunidade de te tocar de novo, achei por bem vestir os meus travesseiros com esse robe e ficar imaginando que era você. Era uma forma de poder tê-lo comigo.

Yoshiaki paralisou por um minuto. Ficou inclusive um pouco comovido.

Pensando que Souichiro havia acabado o discurso, ele tentou dizer algo, mas foi rapidamente interceptado pelo senhor feudal que continuou o discurso.

-Seu cheiro ainda estava na roupa. Se eu fechasse os olhos, conseguia visualizar perfeitamente. E aí deixava a imaginação fluir! Não imagina quantos travesseiros eu estraçalhei nesse meio tempo! Tinha pensamentos tão vívidos que acabava metendo com tanta força neles que todo mundo do castelo conseguia me ouvir urrando o seu nome. Yoshiaki! Yoshiaki! Yoshiaki! AHHHHHH! PORRAAAA!

-...

Souichiro quis ter mantido o personagem. Ficado sério. Mas, ver a cara torcida de Yoshiaki era de longe muito mais engraçado do que todo o enredo sem vergonha construído. Por isso, ele não conseguiu se conter e deu uma gargalhada tão alta que chegou a torcer o corpo para frente.

Dando graças aos céus por ser uma brincadeira, Yoshiaki suspirou aliviado e acabou rindo também, obviamente de forma mais contida.

-Você... —Yoshiaki falou balançando a cabeça em negativa, enquanto apoiava as mãos nos quadris.

-Sei lá porque isso ficou aqui! Toma! —Souichiro disse ainda entre risos. E logo jogou o robe para Yoshiaki que o pegou no ar.

De posse a roupas "novas" e limpas, Yoshiaki caminhou brevemente até a banheira que se encontrava devidamente cheia e como de costume abarrotada de flores que desmaiavam uma fragrância sedutora por sobre as águas estáticas.

Ele estacionou o robe no biombo elegante de madeira crua e sem mais postergar desfez da última peça de roupa que encobria a segunda metade do seu corpo.

Por último, entrou de uma só vez na banheira e afundou completamente durante um considerável período.

Quando retornou pela falta de ar, ergueu parcialmente o corpo e apoiou-se nas bordas ao mesmo tempo que esfregava o rosto encharcado daquela água aromatizada.

-Diga a verdade,não se sente melhor? —a voz de Souichiro soou imediatamente ao seu lado.

O yokai encontrava-se ancorado como ele na borda, só que, evidentemente, na outra face da coisa. Souichiro se debruçou em definitivo, apoiou os antebraços no invólucro de madeira e repousou a cabeça ali mesmo, no ponto central do cruzamento dos seus membros.

Yoshiaki sorriu de forma sincera e bastou a assentir.

Estando tão próximos e tendo seus olhos se encontrado num baque silencioso, eles se mantiveram naquela postura enquanto analisavam o semblante alheio com minúcia.

Os longos cílios de Yoshiaki pareciam de mentira. Eram tão alinhados e simétricos, mesmo molhados. As gotículas se prendiam neles com ardor e assim que piscava, recaíam sobre a pele lisa em rendição. Seus olhos âmbares reluziam em meio a umidade e pareciam mais brilhantes do que já eram.

Na mesma proporção, o meio-yokai também se perdia no olhar compenetrado do outro. Souichiro era tão intenso, mesmo quando guardava a língua entre a boca e não fazia absolutamente nada. Era impressionante que até quando se postava inerte ele conseguia devorá-lo pontualmente, e engoli-lo sem dó. Sugando para dentro dos seus olhos tão claros.

Num segundo, Souichiro saiu do estado letárgico.

Embebido na vontade de tocar naquele ser a sua frente, ele se deixou levar pela vontade e tocou de uma só vez na pele macia que ressonou estupidamente convidativa para que seus dedos o explorassem sem a devida vênia.

E foi só pensar nesse viés, que de repente, sem mais nem menos, ele se retesou e retirou a mão da face molhada do outro num solavanco confuso que fez Yoshiaki franzir o cenho com o recuo fora de contexto.

-Vou deixar você tomar banho em paz. —ele falou já se preparando para levantar.

Só que, o que ele menos esperava, era que Yoshiaki o segurasse pelo pulso e o impedisse de tomar qualquer atitude que o levasse para distante de si.

-Por que está agindo assim? —Yoshiaki indagou num tom sério, quase metálico.

-Assim como? —Souichiro indagou fingindo não compreender.

-Hm! —Yoshiaki apertou os olhos de forma incisiva sem ceder os dedos envoltos no pulso do yokai ao seu lado. —Você sabe o que estou dizendo.

-...

-E então? —o meio-yokai insistiu sem dar sinais de que cederia.

Não tinha muita escapatória. Se havia uma coisa que Yoshiaki era, além de curioso, com toda a certeza, dizia respeito ao fato de ser insistente até a última gota. Quando ele encasquetava, não havia ninguém no mundo que o faria reconsiderar.

Oportunamente, Souichiro lembrou-se de um episódio da qual não fazia muito tempo onde Yoshiaki, analisando um mapa tático, não soube responder de pronto a uma indagação de Seiji que deveras era prolixa. Mas, enquanto todos haviam desistido de colocar a mufa para funcionar por não enxergarem uma solução viável para a problemática, Yoshiaki não conseguiu se desvencilhar do engodo enquanto não achou a resposta.

Ele simplesmente não conseguia dormir, comer ou fazer qualquer outra coisa sem se remeter insistentemente a questão. Um tormento, evidentemente!

Souichiro, inclusive, levou um susto e tanto quando no meio de uma degustação serena de um saquê adocicado, o platinado simplesmente deu um grito eufórico e ergueu-se de uma só vez, proclamando em alto e bom tom um "Já sei! Já sei!".

Em resumo, não existia a possibilidade de não o dar uma resposta coesa.

Encurralado, Souichiro inspirou e prendeu o ar nos pulmões por uns segundos antes de soltá-lo extremamente contrariado.

-A verdade é que... —Souichiro começou a dizer num tom, mas depois o abaixou e prosseguiu quase em murmúrio. —...Alguém me disse que não deveria tentar prendê-lo. E me fez pensar que talvez... —mais baixo ainda. —eu estivesse o sufocando...

Yoshiaki ficou tão abismado que acabou soltando o pulso de Souichiro sem sequer perceber. Porque tudo, de repente, fez o mais absoluto sentido e da mesma forma, não fez!

-Não sei com o que estou mais impressionado, se é com você dando ouvidos a alguém ou por tentar mudar. —Yoshiaki disse o fitando completamente em choque.

-Só não... —Souichiro grunhiu por ter que admitir em voz alta e pôs-se a girar os olhos para si mesmo. —Não quero que se afaste de mim. Já é difícil que não esteja sempre por aqui. Não suportaria se resolvesse nunca mais voltar por estar agindo feito um idiota.

Yoshiaki sentiu o coração batucar de maneira desalinhada dentro do peito.

Que Souichiro era direto quanto aos seus sentimentos isso não era novidade para ninguém que o conhecia. Mas, ao ponto de admitir suas próprias falhas... Ah! Isso sim que era uma novidade pra lá de inusitada.

Sempre acostumado a se divulgar como um yokai de excelentíssima magnificência e ademais superlativos que exaltavam a sua figura era mais do que peculiar vê-lo assumir roupagens tão distintas das que costumeiramente pregava.

Mas, sendo estranho ou não, Yoshiaki resolveu que deveria se desprender da surpresa da coisa. E, rapidamente, ao retomar a órbita terrestre, ele segurou Souichiro pelo rosto com as duas mãos e o fitou bem dentro dos seus olhos.

-É verdade que não dará certo se tentar me prender. E que, costumeiramente, você me sufoca.

O senhor feudal entreabriu a boca, mas não conseguiu dizer qualquer vocábulo.

Por isso, Yoshiaki prosseguiu sem oscilar.

-Souichiro, você é tão mandão que às vezes tenho vontade de pegar o seu rosto, como estou fazendo agora, e dar um grito bem no meio da sua cara. As coisas sempre tem que ser do jeito que você quer e na hora que você quer. Você é tão chato, Souichiro! Acho que você nem imagina o quão chato é.

Souichiro sentiu o coração pulsar aflito e aquilo logo transpareceu na sua tez.

Poucos eram aqueles que tiveram a audácia de lhe dirigirem a palavra daquela forma e permanecerem vivos para contar a história. Os que prosseguiam preenchendo o ar com os pulmões ou eram adversários mais do que notáveis ou pessoas amadas das quais ele dava o devido aval para tais vocábulos.

Mas, de todo modo, ele não esperava que Yoshiaki fosse tão taxativo... E muito menos imaginava as palavras seguintes.

-Mas, sabe o que é mais engraçado nisso tudo? —Yoshiaki sorriu de forma amena e balançou a cabeça em negativa. —É que eu gosto! Da forma mais masoquista possível, eu gosto. E gosto tanto que sempre volto e quando não estou penso em estar. Eu reconheço as suas falhas, seus defeitos e os perdoo. Os perdoo sempre, porque você também perdoa os meus.

Àquela altura o cérebro de Souichiro havia dado um nó terrível.

Porque ele tinha ido do canto obscuro mais abissal à superfície ensolarada em questão de segundos!

Olhando para o rosto de Yoshiaki, onde o meio-yokai mantinha um sorriso sincero, ele ponderou que não era só os cílios alongados e os traços delgados que não pareciam ser de verdade. E sim, ele por inteiro.

O conjunto excruciante de alguém que deveria fazer parte do imaginário de tão perfeito que era.

Depois de tantos anos, onde calar era uma prática impossível, Souichiro não soube o que dizer. Muito menos por onde deveria começar.

Ele queria ter dito a Yoshiaki o quanto seu coração explodia. Descrito com precisão tudo que ele provocava dentro de si, em como seu corpo respondia por ele mesmo ao estar na sua presença.

Souichiro quis ter dito muita coisa.

Mas, não conseguiu.

Porque foi simplesmente impossível não o beijar nos lábios de uma só vez.

Dando o aval para o ato, Yoshiaki o correspondeu. E sem titubear ele agarrou-se ao pescoço de Souichiro a fim de aprofundar o beijo que nem de longe tinha a intenção de ser superficial.

Ao mesmo tempo que se dedicava ao beijo repleto de carícias, onde suas línguas se enrolavam e se alisavam sem trégua, impregnando o paladar alheio com seus sabores distintos, Souichiro avançava com a mão livre na direção do peito desnudo de Yoshiaki. E tendo finalmente alcançado, prosseguiu pelo abdômen tenso que se contraiu com o toque sutil das pontas dos dedos que resvalaram de volta pelo mesmo caminho, ocasionando um frenesi difícil de ser contido.

Aquele toque lascivo acendeu algo dentro do platinado que deslizou com a mão do pescoço para a pala do kimono de Souichiro, onde sem pedir licença, ele adentrou pelo tecido e tocou na pele muito mais quente do que a sua. Afinal, ele ainda estava com metade do corpo submersa em água fria e, ainda que o momento estivesse o esquentando, ele sabia que aquele queimor era só por dentro. Fato é que o calor do outro aliado a textura da pele era tão convidativo que o fazia apertar Souichiro com força e o puxar cada vez mais para si.

Seguindo na mesma direção, Souichiro deixou uma das mãos escorregar pelo corpo masculino. Desenhou o perfil do meio-yokai com sua palma até se agarrar com firmeza no final da coluna e o puxar em igualdade. Seu peito parcialmente desnudo, sendo livrado do tecido de seda com maestria pelas mãos hábeis do outro, recostaram em definitivo na pele sensivelmente mais fria que a sua. Com a outra mão, o senhor feudal dedicava-se a emaranhar nos cabelos longos que estavam mais pesados do que o costume e que encharcavam os seus dedos.

De posse da cabeleira molhada, ficou fácil conduzir os movimentos da cabeça firmemente atada ao seu toque enérgico. Mais ainda por Yoshiaki não oferecer qualquer resistência e deixar ser guiado para qualquer direção que Souichiro quisesse.

Desatando da boca, ele puxou mais um tanto a cabeça do platinado para trás a fim de percorrer avidamente da ponta do queijo ao início da clavícula e retornar com lambidas e mordidas generosas até o topo da orelha, onde estacionado mordiscava o lóbulo de maneira lasciva, chupando-o ao final e permitindo que sua respiração pesada penetrasse de uma só vez no âmago de Yoshiaki que não pôde evitar sentir todos os pelos do seu braço se arrepiarem.

Conforme a troca de toques intensos aumentava, a borda da banheira começou a se transformar num martírio da qual eles necessitavam se livrar. Praticamente sincronizados, ocorreu o pensamento mútuo de trazer o outro para o seu lado o que gerou uma confusão interessante porque ao ponto que Yoshiaki o tentou puxar para dentro, Souichiro fez o mesmo na direção contrária. Tal premissa, a priori, anulou a pretensão de ambos de uma só vez e foi impossível não sorrir em meio ao beijo ao perceber que desejavam a mesma coisa.

No entanto, ao morder firme o lábio inferior de Yoshiaki, Souichiro falou numa face irônica.

-Já que sou mandão e tudo tem que ser do meu jeito... —ele dizia enquanto roçava os lábios no de Yoshiaki, sem o beijar definitivamente. Depois, fincou os olhos dentro dos dele ao parar de imediato a carícia. —Você que vem!

Aproveitando-se de uma leve rendição, do espaçamento maior eângulo muito mais favorável, Souichiro não um pouco a mais de força, ele conseguiu tirar Yoshiaki de uma só vez de dentro da banheira. E, emendando um movimento dentro do outro, o yokai bateu o platinado contra o tatame de tom claro que instantaneamente escureceu pela quantidade de água que veio junto ao meio-yokai.

Segurando os pulsos de Yoshiaki contra o chão, Souichiro pôde o analisar numa perspectiva mais alta e ver com exatidão o peito nu que subia e descia de forma descompassada por conta da respiração irregular.

Mas, o yokai dos olhos verdes-oliva não estava querendo que aquela criatura abaixo de si recuperasse o fôlego e tampouco quis dar tempo para que ele retomasse a consciência. Por isso, tratou de mergulhar outra vez na boca alheia que o recepcionou da melhor forma possível.

Mesmo que notadamente ambos jazessem mais duros do que pedra e que seus membros eretos cutucavam despretensiosamente o outro, raramente eles se rendiam ao "finalmente" da coisa sem antes provocar até o limite. Até que se tornasse verdadeiramente insuportável a ponto de que se não unissem, enlouqueceriam.

Então, ainda que a ereção nada modesta de Yoshiaki despontasse e roçasse por cima do tecido fino da calça do senhor feudal, ele negligenciou que o ser abaixo de si já estava mais do que pronto para as investidas sucessivas.

Na ocasião, Yoshiaki nem pensou em sugestionar mudar suas posições, primeiro porque, pelo andar da carruagem, Souichiro já havia decidido como o sexo se daria daquela vez e em segundo lugar porque o yokai acima de si estava mais do que empenhado a fazê-lo ceder daquela vez! E, em virtude de tanta devoção, ele bem que concordou mentalmente. Afinal de contas, sendo bem sincero, aquilo estava alucinantemente bom. E Souichiro tinha habilidades tão assertivas que era difícil não concordar com qualquer que fosse a condição.

Sendo assim, quando Souichiro desceu da boca e percorreu tortuosamente com lambidas vorazes e mordidas intensas pelo restante do seu corpo, nos pontos incrivelmente corretos, Yoshiaki não conseguiu pensar em mais nada a não ser deixá-lo brincar com o seu corpo e com a sua sanidade mental.

E foi o que ele fez!

Sem muito esforço, sem grandes novidades.

Tracejando com mordiscadas até o fim do abdômen retraído, Souichiro não pensou duas vezes antes de tomá-lo com a boca.

E sempre quando ele fazia tal coisa, Yoshiaki tinha a noção de que um ciclo excruciante de tortura lasciva se iniciaria. Porque Souichiro não era só bom naquilo, ele era REALMENTE muito bom naquilo! O meio-yokai já quis dizer isso várias vezes, inclusive no meio da empreitada ao sentir a língua quente o percorrer com total dedicação alinhada aos movimentos intensos da mão firme, feita para o seu contorno. Mas, ele sabia que se dissesse seria atormentado para o resto dos seus dias! Então, era melhor guardar a língua entre os dentes... Isso é, ao menos tentar! Porque era impossível manter-se em silêncio ao ter aquela boca o engolindo sem dó e tão profundo que ele se impressionava com o fato do outro não se engasgar!

Aquilo o excitava até o último fio de cabelo! E produzia um calor visceral dentro de si que subia pela coluna e se espalhava por todo o resto.

Era difícil para Yoshiaki lidar com aquela provocação. Souichiro bem sabia, porque os arfares entrecortados e a face torcida diziam por si mesmas. Especialmente o rosto torcido que o deixava deliciosamente vulnerável e extremamente convidativo.

Aquela visão do torpor de Yoshiaki o bagunçou, o tirou do eixo em definitivo.

Sem mais se segurar, ele o soltou por um segundo e se livrou do restante das suas roupas para, em seguida, direcionar a ponta enrijecida do seu membro na direção da pequena entrada. Roçando algumas vezes antes de entrar em definitivo, aquela provocação preencheu o peito de Yoshiaki de expectativa e o deixou mais duro do que antes, se é que isso ainda era possível de acontecer.

Bem quando ele pensara que Souichiro hesitaria novamente, ele o penetrou de uma só vez.

Quando aquilo acontecia, geralmente, ambos perdiam as suas forças por fração de segundos. De um lado por Yoshiaki ponderar que ter um artefato dentro de si o invadindo era deveras estranho, um tanto desconfortável e um pouco doloroso e do outro lado por Souichiro ir ao céu ao sentir o corpo apertado, quase estrangulador daquele meio-yokai que o proporcionava uma sensação totalmente indescritível.

Obviamente Souichiro bem sabia que não podia pensar somente no seu prazer. Então, ainda que quisesse afundar no corpo do outro com todo o ímpeto possível, ele não o fazia a princípio. Invés disso, se movimentava vagarosamente.

Como estavam um de frente para o outro, com seus peitos nus recostados sem um mísero espaçamento, ficou fácil para o senhor feudal dar beijos ardentes e apaixonados na boca do platinado abaixo de si que recebia as estocadas ainda um pouco doloridas no baixo ventre.

E de repente, como num passe de mágicas, após poucas investidas do membro duro de Souichiro, a dor e o incômodo de ter algo o martelando insistentemente deu lugar a um formigamento e um desejo descontrolado de ser penetrado com cada vez mais força. Isso se devia pelo estímulo preciso num pequeno ponto de carne cuja ponta do membro alheio resvalava sem piedade. Esfolando seu interior lubrificado pelos próprios fluidos que gradativamente começavam a produzir um som molhado.

Só quando Yoshiaki postava a se mover e o puxar cada vez mais para si que Souichiro entendia que finalmente o havia tocado no ponto certo e que então, não precisaria mais de tantos rodeios para aumentar a intensidade da coisa.

Sem sombra de duvidas essa era a parte que Souichiro mais gostava. De vê-lo enlouquecido com suas estocadas rápidas e firmes, numa movimentação tão incessante que era impossível evitar o barulho alto dos seus corpos se chocando contra o outro.

Apesar das bochechas rubras de Yoshiaki, que saltavam visíveis na face alva, ele torceu a cara numa expressão irônica e jogou os braços para trás da nuca alheia enquanto recebia o sexo rijo dentro de si intermitentemente.

-Do jeito que falou antes, sobre os travesseiros, achei que meteria com muita força.

Souichiro sorriu na mesma nuance debochada e enfiou as mãos pelos cabelos de Yoshiaki com mais violência do que o normal. E talvez, alguns dos fios platinados, tenham desprendido da cabeça com o toque feroz.

-Quer mesmo me provocar?

-Quero!

Seguindo a linha do seu desejo é uma ordem com um misto de quem mandou cutucar onça com vara curta. Souichiro saiu de dentro de Yoshiaki e num solavanco o virou de costas com a máxima agressividade que fez Yoshiaki rir alto pela proposição exagerada do outro.

E o fez pensar que talvez, só talvez, ele não devesse ter feito aquele comentário.

E que agora, Souichiro, o mataria!

Mal tendo chance para reorganizar as ideias, Souichiro já havia segurado nos seus quadris e se enfiado de uma vez, o penetrando sem qualquer indulgência.

Yoshiaki sentiu uma dor aguda e ardente com a ferocidade das estocadas. Se ele estivesse me quatro apoios, certamente teria cedido ao chão e Souichiro caído teatralmente em cima do seu corpo de forma pesada. Por sorte, ele encontrava-se deitado. Quer dizer, se é que poderia chamar de sorte! Porque, seu interior apertado começava a entrar em conflito entre a dor e o prazer.

O meio-yokai ponderou que deveria ser mesmo um tanto masoquista.

Porque, indubitavelmente, ele começou a ficar cada vez mais excitado pelo que estava acontecendo na parte inferior do seu corpo e principalmente por sentir as mãos de Souichiro o apertar com tanta devoção e por ouvi-lo gemer extasiado próximo a sua orelha.

Aquilo o estava enlouquecendo!

Mas, ele estava incapacitado de se mover, somente podia receber tudo o que Souichiro poderia lhe dar. E, francamente, era muito...

...

-Estive pensando... —Yoshiaki de repente falou, olhando para Souichiro de soslaio.

Ambos estavam deitados no tatame um tanto quanto bagunçado pelo suor, fluidos e água. Eles poderiam ter se levantado depois que haviam terminado, mas a verdade é que fazer sexo sequencial cansava até o mais espetacular das criaturas daquele mundo.

-O que? —Souichiro indagou virando-se totalmente a ele. Com um sorriso irônico de canto, ele continuou. —Que me ama?

-Ahm... —Yoshiaki corou. E acabou tossindo seco por ser pego de surpresa. Ao passo que Souichiro era totalmente transparente, ele tinha certa dificuldade, devia admitir. Mas, vendo os olhos atentos sobre si e tendo a questão levantada, ele não pode evadir. Teve que assumir. —Hm... Também...

Souichiro sorriu mais do que satisfeito. Ver Yoshiaki sem direção era um dos seus hobbies favoritos.

-O que mais? —o senhor feudal o estimulou a prosseguir, sem mais o torturar.

-Disse que alguém falou a você que não deveria me prender, que se o fizesse não daria certo. Fiquei curioso... —Yoshiaki começou a ponderar com a face que costumava a fazer quando estava a confabular estratégias ou coisas muito importantes. —Porque se fosse Seiji, Tetsuo ou Mitsue, você teria dito o nome e não tratado de forma tão vaga. Então... Quem foi que disse isso a você?

-Por que quer saber? Isso é importante? —Souichiro indagou tentando desvencilhar da situação.

-É só porque não consigo pensar em ninguém sem ser Seiji, Tetsuo ou Mitsue que você daria ouvidos... —Yoshiaki o fitou com os olhos compenetrados, sem desistir. —Esse alguémdeve ser mesmo admirável para ter tido a iniciativa de falar algo assim e por você ter ponderado a respeito...

-Digamos que sim.

-Hm... Eu conheço?

-Uhum!

-Então quem foi!?

Souichiro arranhou a garganta e montou-se no semblante mais sério que ele poderia fazer.

-Yoshiaki, acho que deve parar de me sufocar, caso contrário essa relação não dará certo.

O platinado piscou lentamente, depois riu brevemente ao ver Souichiro rir.

Obviamente aquele senhor feudal estava sendo debochado até o último centímetro.

Acatando ao argumento do senhor feudal temperamental, Yoshiaki somente assentiu. Depois disso, ele o beijou nos lábios e pensou que talvez, só talvez, ele não quisesse ir embora nunca mais.

...