2 - Little Demon Brat
Com apenas 13 anos de idade, Damian podia dizer que tinha algumas certezas na vida.
Primeira, a morte do seu avô, três anos antes, tinha virado sua vida de cabeça para baixo. Sua mãe decidiu que ele não era bom o bastante para a Liga, e o despachou para morar com seu pai – que até então nunca ouvira falar dele. Ela tinha dito que voltaria por ele, mas então, quando ela voltou, seus interesses tinham mudado e ela não o quis mais.
A segunda certeza era que ele preferia morar com seu pai. Claro, ele ainda tinha problemas em seguir suas ordens e seu código de conduta, mas Damian respeitava seu pai como nunca tinha respeitado seu avô. Bruce Wayne sabia o que era se sentir vingativo. Ele sabia o que era ter tudo arrancado dele sem dó nem piedade. E, ainda assim, ele escolheu revidar de uma forma que Damian nunca tinha pensado ser possível até conhecê-lo – ajudando. Evitando que outros sentissem o mesmo que ele sentiu – e sentia até hoje. Damian nunca admitiria para ninguém, mas seu pai tinha se tornado uma pessoa a quem ele queria desesperadamente agradar.
Apesar disso, era difícil negar toda a sua natureza, sua criação na Liga dos Assassinos, algumas vezes. Como agora. O Criador de Bonecas estava ali, na sua frente, se gabando de como tinha ajudado crianças que ele raptou, ao transformá-las em monstros. Ele apenas queria atravessar sua espada pelo peito do psicopata e vê-lo sangrar no asfalto.
Seu pai sabia o que estava fazendo quando mandou que ele deixasse a espada em casa.
Justiça, não vingança. Ele repetia o mantra uma e outra vez, respirando fundo e tentando acalmar o desejo de estraçalhar o filho da mãe. Logo sua paciência deu frutos, quando Batman pulou nos ombros de Schott e o derrubou, nocauteando-o com gás sedativo.
Damian ainda tinha os punhos e dentes cerrados de ódio quando Batman se aproximou.
"Você está bem?"
Damian esperou um segundo para responder.
"Estou."
"Schott vai apodrecer na cadeia. Temos o suficiente para assegurar isso."
Ele assentiu e ajudou seu pai a levar o criminoso inconsciente de volta ao armazém onde a polícia o encontraria.
Os dois saíram logo após a polícia de Gotham chegar, levando Schott preso e as crianças para tratamento – e provavelmente terapia.
Era tudo muito diferente da Liga. Mas tão mais recompensador.
~.~
Claro que não era sempre tão maravilhoso. Outra certeza que Damian tinha era que não existia ninguém mais irritante do que Conner Kent - Superboy. O clone tinha aparecido há menos de um ano, mas já era conhecido da comunidade de heróis e da Liga da Justiça.
Como seu pai e Superman eram amigos desde pouco antes da formação da Liga da Justiça, Damian acabou por conhecer e se aproximar também do clone, a contragosto. Kent parecia achar que ele e Damian eram melhores amigos, apesar da diferença de idade - Conner era 3 anos mais velho, ao menos biologicamente. Não que isso fosse um problema para Damian, já que o clone muitas vezes parecia ter em idade cerebral o que ele tinha de vida - um ano - e muitas vezes fazia ele perder a paciência.
Ainda assim… era bom ter alguém em quem descontar seus acessos de raiva, já que sua "família" nem sempre entendia. E Conner não se importava. Além do mais, ele era invulnerável, o que vinha a calhar bem.
Sup-Clark também tinha outra 'filha adotiva', mas Damian mal a conhecia. Tinha visto a garota um total de 3 vezes nos dois anos desde que ela tinha ido morar com Kent, que ainda não tinha Superboy na época, mas ela era o total oposto do clone. Era quieta e reservada, e não estava em nenhum grupo de heróis. Damian nunca tinha conversado com ela.
Conner, por outro lado, não o deixava em paz. Como agora.
"Eu tô te dizendo, o ensino médio é uma loucura! Os caras também querem que eu jogue futebol, mas Clark acha que é perigoso e eu posso acabar machucando alguém."
Conner tinha começado suas aulas em uma escola normal há uma semana, e agora não parava de falar sobre como tinha sido a semana. Damian não sabia quem o tinha convidado para vir à Mansão, mas era sábado e Conner decidiu que queria passar o dia com Damian, e nada que ele dissesse tinha feito o semi-alien mudar de opinião.
"Raven também não acha que eu devia entrar para o futebol, mas ela não gosta de nada." Ele continuava tagarelando. "O que você acha, Damian?"
"Não me importo." Ele respondeu, sem tirar os olhos do desenho que estava fazendo.
Conner nem piscou e continuou falando. Damian o ignorou solenemente enquanto continuava o desenho com os detalhes do que ele queria para um upgrade de uniforme.
~.~
Nem uma semana se passou e Damian se viu obrigado a socializar novamente.
Batman precisou conversar com Superman sobre alguma coisa no quartel general da Liga da Justiça, e Damian o acompanhou - ao menos ele estava vestido como Robin dessa vez. Superboy estava lá, assim como a garota que Superman tinha 'adotado'.
Ela usava uma roupa roxa escura, quase preta, adornada com algumas pedras na cintura, com luvas e um manto que ia até quase o chão. Botas escuras e meias que cobriam toda a perna. O capuz do manto estava para cima, e ele não podia ver o rosto dela direito, mas algo lhe dizia que ela era pálida. O que era irônico considerando com quem ela morava.
Damian tentou se fazer de ocupado com seu tablet enquanto Batman, Superman e Mulher Maravilha conversavam num canto, mas é claro que Superboy o viu. E trouxe a garota com ele. Ótimo.
"Ei Robin!"
Ao menos ele tinha a sensibilidade de chamar Damian pelo codinome ao invés de seu nome real.
"Superboy."
"Essa é a Raven. Não acho que se conheçam. Raven, esse é o Robin."
"Olá." A voz dela era quieta e Damian podia perceber hesitação. Quase como se ela também estivesse sendo forçada a socializar.
Ele acenou uma vez. "Olá."
Claro que Superboy não viu problema nenhum nisso e preencheu o silêncio com teorias do que possivelmente a trindade da Liga estaria falando - os três tinham entrado numa sala de reunião, bloqueando a porta para qualquer tipo de superaudição, e isso tinha deixado o clone curioso.
Eventualmente, até Superboy cansou de esperar.
"Vou na cafeteria ver se tem alguém por lá e tomar alguma coisa. Querem vir?"
"Não."
"Não, obrigada."
Superboy deu de ombros e saiu, deixando Damian e Raven sozinhos.
Damian soltou um suspiro irritado. E ouviu uma risadinha do seu lado.
"O quê?"
"Eu também não vejo a hora deles terminarem e podermos sair."
Damian a olhou de soslaio.
"Eu não disse nada."
"Sua postura diz muita coisa. E eu sou uma empata. Consigo sentir emoções e você não vê a hora de sair daqui."
"...Tt."
Ele não iria admitir que ela estava certa. Não gostava quando faziam suposições - corretas, principalmente - sobre ele.
Raven não falou mais, e Damian voltou seus olhos para o tablet, tentando acessar informações do caso que Batman e ele estavam trabalhando em Gotham. Logo ele viu movimento pelo canto do olho e percebeu que Raven tinha puxado o capuz do manto para trás, revelando seu rosto.
Ele segurou um arquejo. Como ele imaginava, ela era pálida. Anormalmente pálida. Seus olhos eram escuros, quase violeta em cor, e profundos. Ela tinha olheiras - do tipo de quem não dorme bem - e uma aparência cansada. E apesar da máscara de indiferença, ele conseguiu ver a camada de preocupação debaixo de seus olhos.
Mas tudo isso não fez muita diferença, porque o que realmente o intrigou foi sua própria reação à ela.
Por que, mesmo sabendo que nunca a tinha visto de perto como agora, ele tinha a sensação de já conhecê-la profundamente?
De vez em nunca a inspiração bate e sai alguma coisa. :)
Se eu vou terminar essa história? Só o tempo dirá.
Comentários e curtidas são apreciados. :)
