InuYasha® e seus personagens pertencem à mangaká Rumiko Takahashi.
Capítulo 7 - O coração da Vontade e a Vontade do Coração
Você não pode se deixar anestesiar pelo amor
A única dor é não sentir nada disso tudo
Como posso te machucar enquanto estou a te abraçar?
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― Droga... onde está o meu leque? Será que o deixei em casa? ― murmurava Kagura. ― Deste jeito será muito difícil pegar meu jantar...
Desde que estava sozinha, tinha que dar conta ao menos de sua própria alimentação. Não podia depender somente da benevolência dos humanos que cognhecia. Pensou num jeito mais fácil, mas este não existia. Então...
― Vou literalmente, arregaçar as mangas... ― murmurou, enquanto prendia as longas mangas de seu quimono numa fita, com cuidado. ― E, não adianta caros amigos, eu vou comer peixe hoje, nem que tenha que entrar na água para isto.
Ficou parada durante um tempo, e, erguendo uma sobrancelha, deu um sorriso divertido. Pelo menos o tempo está quente hoje!
Puxou cuidadosamente as barras da veste, ajoelhando-se. À margem do córrego de águas claras, ela percebia com seus olhos afiados alguns belos espécimes de jantar e seu estômago reclamou vivamente... "Acalme-se, Kagura... Paciência é tudo nesta hora... é tudo que precisa..." Fixou-se em um que parecia em breve vir bicar a superfície.
― Isso mesmo amiguinho, venha à superfície... ― ciciava a dominadora dos ventos, estreitando os orbes vermelhos. ― Venha, venha...
Um barulho a distraiu, e, perdendo o equilíbrio da mão que a sustentava no movimento de olhar pra trás, mergulhou de cara na cristalina água.
― Maldição! ― sacudiu a cabeça, ficando de quatro. ― Meu quimono novo... Meu jantar... ― a segunda parte a irritou mais. Fechou os olhos, frustrada.
― Esta realmente não é uma posição apropriada. ― falou o causador do barulho. ― Mas devo dizer que não é toda desagradável.
"Sesshoumaru... Infame!" Praguejou mentalmente.
Ela levantou-se depressa demais, escorregando nos seixos do leito do córrego, caindo com o traseiro na água. ― Argh! Minhas costas... ― apoiou a mão lá. ― Eu mereço.
Kagura viu que ele a observava de modo divertido, apoiando a perna sobre uma das rochas ao longo da margem, e com os lábios contorcidos no que deveria ser um sorriso de escárnio!
Seu olhar se acendeu contra ele. E sua língua ferina, idem.
― Ei! Não tem nada melhor pra fazer do que ficar perseguindo a vida alheia?
― Na verdade, tenho. Mas há tempos não me divertia assim.
― Hunf! ― grunhiu ela, tentando manter-se de pé sobre os seixos limados. ― Droga, vou ter de ir de joelhos senão quiser outra belíssima apresentação pra o "todo-poderoso" ali. ― murmurou.
― Eu ouvi.
Ergueu a cabeça e viu uma mão estendida em sua direção. Não conteve a surpresa. Engolindo o resto do orgulho junto com a fome que a perturbava, aceitou o oferecimento.
Ao chegar à margem, exclamou, enfadada.
― Não espere agradecimentos. Eu podia sair sozinha.
― Não duvido. ― seu olhar percorreu o corpo dela, erguendo uma sobrancelha. Mas ela não se deu conta no momento. Estava ocupada demais em reclamar.
― E agora? Terei de perder mais tempo que o planejado aqui... ― então, viu que ele não se movera, ainda o observando-a daquela forma estranha. ― O que foi, bastardo de uma figa?
― É isto que acontece quando yokais convivem muito tempo com os humanos. ― comentou, indiferente.
― Bem, sei que adoraria ver-me nua novamente, mas não lhe darei este prazer. ― sorriu , tentando despregar a veste do próprio corpo.
― Não tenho este tipo de interesse e não falava sobre sua atual... modéstia.
― Ah, não? E quem foi que me assediou descaradamente naquele bosque? Seu irmão gêmeo? ― contestou, irônica.
― Você apreciou cada um dos seus momentos. ― respondeu ainda tão impassível quanto antes.
― Pode ser... Porém, é você quem anda atrás de mim. ― instigou ela, aproximando-se. Mal chegava a seus ombros. Pra ele, no entanto, era o suficiente. ― Afinal, eu sou apenas uma cria do Naraku, como sou recordada todos os dias ― a última parte saiu num sussurro que ele pegou e fez sua sobrancelha tremer por um segundo.
Então, percebendo a proximidade, ele segurou-a pelo ombro, impedindo que chegasse mais perto.
― Ah, agora quem está fugindo de mim? Quem diria? ― mas a surpreendeu o gesto.
Será que... Ah, deixa pra lá!
Mas, no fundo de sua mente, ela queria ter entendido certo.
Sesshoumaru deu um passo pra trás. Ela estaria testando-o? Ou achava que ele realmente lhe era indiferente?
― Tenha cuidado com o que diz, mulher insolente. ― soltou a estola felpuda que trazia em seu braço direito, e puxou seu quimono, estendendo-o rudemente. ― Use isto.
Ela arregalou os olhos e ia rir. Ao perceber que ele falava sério, ela desviou o olhar.
― Não diga tolices, Sesshoumaru. Onde já se viu...
― Estarei longe daqui até secar-se. ― virou-se e caminhou pra dentro do bosque. ― Se eu realmente quisesse, não precisaria de sua licença.
― Argh! ― sem ponderar, invocou um vento rodopiante, que girou sobre as pedras ao seu redor, lançando uma certeiramente na cabeça prateada.
― Você tem uma boa mira, Kagura. E a sua sorte é que hoje estou de bom humor. ― retorquiu ele, entrando na floresta.
Ela ficou boquiaberta. Ele não a tinha esganado, nem assassinado. Ótimo. Apertou a capa entre as mãos.
― Tão macio. ― esfregou o rosto nela. E sentiu o cheiro de seu proprietário aderir-se a suas narinas. Uma estranha sensação de gozo acercou-se dela. Ou qualquer outra que não soube distinguir no momento.
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...
Ela descansava envolta roupa emprestada. Por mais ínfima que fosse a sensação, ela sentia-se protegida por Sesshoumaru desde que este a trouxera de volta. E não era só isso. Tinha que confiar nela também, pois ele deixara Tenseiga fincada sob a árvore onde estava junto com a armadura. Imaginou que ele já estava ali há um bom tempo, pois, quando o vira ele já havia despido a estranha vestimenta. Estendeu a mão pra tocar no arco de metal pontiagudo que ficava sobre o braço direito.
― Que coisa arcaica... Será que ele nunca pensou em algo mais atual e de acordo com o este tempo? ― falava a si mesma, enquanto recostava-se á raiz da gigantesca árvore. Colocou o braço direito sobre os olhos e cruzou as pernas displicentemente.
Ainda que fosse veladamente, o nobre senhor yokai lhe tinha, sim, alguma consideração. Tenseiga a seu lado, dela, uma colagem de yokais miseráveis. Girou o corpo, ficando de bruços, apoiando o queixo sobre os braços cruzados. Uma ruga de curiosidade não lhe abandonava, mas logo foi refutada por um sorriso nos lábios carmesins.
Ela tinha certeza de que, depois de algum tempo com os humanos, sorria com mais freqüência que antes. Talvez seja porquê eles escondiam suas fraquezas e forças nesta pequena contração muscular. Sentia-se bem, e feliz. Sua liberdade, sua vida, seus medos eram afastados por um tempo quando sorria... Havia nascido dentro dela uma paz que fazia o jovem espírito esquecer o que era e simplesmente ser agradecida... Mas, porque cheguei a este tipo de pensamento mesmo?
Ouviu um baque surdo sobre o chão, próximo a si. Sentou-se depressa. Seus olhos caíram sobre dois grandes salmões e algumas frutas.
― Sei que tem interesse neste tipo de alimento, embora este Sesshoumaru não se atreva a tanto. ― foi sentar-se afastado dela, que o fitava como a um fantasma. Olhou-a de soslaio ― Então, coma. ― mais cortante que uma faca.
Ele lhe trouxera comida. Deixara que ela usasse sua roupa. Prestara-lhe ajuda. Não, não é o mesmo youkai...Tem alguma coisa errada aqui. Relanceou os olhos por ele, pegando discretamente o leque, que descobrira preso no bolso ao estender o quimono. Levantou-se como se fosse em direção às frutas e desapareceu.
Ele percebeu seus movimentos furtivos, interpretando-os outra vez como modéstia. Kagura não queria que ele a observasse. Bufou. Como se ela fosse a única yokai fêmea no mundo inteiro. Só porque tivera desejos acerca de sua onerosa pessoa... Estreitou os olhos. Mas ela era a única na qual vinha pensando em muitos anos. Pensando mais que o normal. Já ia se repreender pelos pensamentos, quando sentiu algo duro na sua cabeça.
― Hn! ― reclamou, pois Kagura dera-lhe com o leque fechado. ― O que está fazendo, sua impertinente?
― Mostre imediatamente a sua verdadeira forma, Shippou! E pare de brincar comigo! ― replicou ela, irritada e desferindo-lhe outra boa pancada na cabeça.
E, antes que ela lhe esmigalhasse os ossos do crânio, ele segurou o pulso fino, fazendo-a soltar o leque no chão, perdendo o equilíbrio e vindo a cair ajoelhada na frente dele. Os olhos dourados dele demonstravam alguma agitação. Primeiro as pedras e agora, o leque. Ela realmente não pode estar querendo continuar viva... por mais que tenha o meu desejo não vou deixá-la zombar assim de mim.
Deu-lhe um puxão antes de falar, num tom nada amigável:
― Perdeu o juízo, Kagura? Somente assim explicaria esta atitude sem nexo. ― encarou os olhos encarnados, sem alterar um músculo da face alva. ― E quem é Shippou?
Ela queria ignorar aqueles olhos. Mas, onde seu amor-próprio ficaria se admitisse tão cedo que estava errada?
― A culpa é sua! Quem age estranho é você, não eu! ― exclamou ela, soltando-se dele.
A frieza comum em seus olhos desaparecera ao emitir novamente uma luz de surpresa ante a fala da jovem. "Então, é assim que me vê?" Deu um leve sorriso. "Como todos os outros...".
― E já teria me lançado do outro lado do rio se estivesse normal. ― resmungou ela, num tom mais baixo, encolhendo os ombros ao ver o sorriso dele. Seu coração disparou no peito. "O que está acontecendo? Por que me sinto vazia, oca deste jeito?"
Seus pensamentos foram interrompidos pela voz rouca dele.
― Tem certeza, Kagura?
Aquela voz. Aquele olhar indecifrável. Aquela maldita sensação de carência que a petrificava assim tão perto dele. Aquela falta do ar como se estivesse morrendo. Isso já aconteceu antes e não foi nada agradável, tentava convencer-se. Seu rosto corado foi erguido na direção do dele. Quis responder à implicação clara na resposta dele, mas as palavras ficaram lá na garganta ao perceber que ele a puxava para si. Sentiu a mão que ele segurava tocar no tecido fino do quimono de luxo. Kagura sacudiu a cabeça, querendo afastar-se. "Pare de me olhar assim!" Mas o grito saiu pra dentro da cabeça.
Para sua tentação, Sesshoumaru mais sentiu do viu que ela se remexia a fim de soltar-se de sua mão. Ergueu uma sobrancelha. "E por que carga d'água faz isto? Não sabe que é o seu cheiro que está me deixando alienado...?" Ela o estava intrigando. Se quisesse que ele pensasse apenas nela, conseguira. Não adiantava negar que a desejava tanto quanto antes. As palavras desaforadas dela lhe repercutiam na mente:
"Você é quem anda atrás de mim. "
Ele não queria fugir. Sua mão livre correu pelo tecido até chegar à fresta na cintura delicada, apertando a pele quente e macia da dominadora dos ventos. Este gesto a fizera inclinar-se em sua direção, soltando um suspiro. Sua respiração quente soprava sobre os lábios entreabertos dela.
Kagura, por sua vez, tinha os olhos semicerrados, como se esperasse por algo. Ele hesitou por um momento. E no outro, sua boca encontrou-se novamente com a dela. Soltou-lhe o pulso, a fim de sustentar o pescoço fino, inclinando-o um pouco.
Com a mão livre, a yokai enlaçou-lhe o pescoço, unindo ainda mais seus corpos. Seus dedos tocaram os cabelos ásperos dele, enclavinhando-se neles, arrancando-lhe um suspiro longo e prazeroso, que a fez sentir-se bem por dentro. "Então, você não é tão impassível assim, Sesshoumaru? Você... confunde-me..."
Afastou-se dos lábios dele, murmurando numa voz rouca:
―... Está escorregando... ― referindo-se ao próprio corpo e vestes nas mãos dele.
Ele olhou Kagura como se não tivesse entendido.
― E qual é o problema? ― conseguiu responder, mantendo-a presa em seus braços.
Ela afastou-se de vez, piscando muito os olhos, empurrando-o com a mão que outrora o abraçava. Ele não queria deixá-la ir, mas permitiu que ambos ficassem de pé.
― Como assim "qual é o problema"? ― perguntou, com raiva. Foi andando em direção à sombra da árvore, perto dos víveres que o outro trouxera. ― Pelo menos, agora eu sei que é você mesmo. ― ciciou enquanto sentava-se da melhor maneira possível.
Degustou alguns morangos, vigiando-o com o canto dos olhos, ao ver que ele nada lhe respondia. Ainda permanecia lá, parado, como se estivesse esperando alguma coisa. Ela sentiu um arrepio na espinha ao lembrar-se da maneira como ele a tocara. Não podia simplesmente ignorá-lo e nem ele a ela. E, só então, admitiu pra si mesma que gostava muito dos abraços e dos impulsivos beijos que trocaram... E seu coração liberto estava quase pulando pra fora do peito.
"Bem, de fato, talvez..." abaixou os olhos para as mãos sujas de morangos, e novamente pra ele. "Talvez eu queira mesmo estar com ele"
― Sesshoumaru!
― O que quer? ― falou ele, sem demonstrar sua própria irritação e indignação por ter se deixado levar por ela, e pelos próprios desejos.
― Sente-se aqui e coma comigo. ― sua voz suavizou-se um pouco. Não sabia como tivera firmeza nas pernas pra afastar-se dele.
― Já lhe disse...
― Eu sei, eu sei... "este sesshoumaru" não come destas iguarias... ― replicou ela, revirando os olhos escuros. ― Mas imagino que aprecie a minha companhia. ― falou de uma vez, antes de encará-lo de fato. ― Então...
Antes que tivesse a oportunidade de olhar em sua direção, viu que ele sentava-se às suas costas, apoiado no frondoso tronco. Ela arregalou os olhos e, por fim, sorriu, voltando às frutas.
E tagarelou na meia hora seguinte, arrancando dele alguns "sins" e "nãos" secos.
― É desta maneira sucinta que trata a menina humana que anda com você? ― Insistia ela, mergulhada nas frutas. ― Sabe, eu amo kiwis. Depois de morangos são minhas frutas favoritas. ―olhou-o por sobre os ombros. ― Você deveria experimentar. Não vão matá-lo.
Sesshoumaru limitou-se a fechar os olhos, numa expressão clara de desdém.
O sorriso que tinha nos lábios ofuscou-se quando virou o rosto. Estreitou os olhos, intrigada. Não o conhecia tão bem, entretanto percebeu que ele estava aparentemente absorto em alguma coisa. "Será que é apenas um pretexto..." Ora, lá vinha sua mente utópica novamente pregar-lhe uma peça.
Determinada a descobrir o que era, ajeitou os cabelos num rabo-de-cavalo baixo, girando o corpo na direção dele. Levou os dedos à boca a fim de limpá-los. Foi aproximando-se de joelhos, até parar perto dele, que nem sequer abrira os olhos.
Antes de chamá-lo, porém, permitiu-se um período de observação. Não era sempre que ele se mostrava assim, com a guarda baixa. Um braço apoiava-se no joelho flexionado e o outro estava sobre o colo. Na face imaculadamente branca havia algumas gotas de suor. O nariz era afilado. Kagura inclinou a cabeça, fazendo com que o rabo-de-cavalo caísse sobre o ombro direito. Havia ainda aquelas misteriosas marcas em sua fronte: as laterais, num tom magenta, que se repetiam em suas mãos, e a lua crescente azulada na testa. Perguntou-se porquê InuYasha não teria aquela marca. Seus olhos ígneos pararam nos lábios finos e. perigosos, refletiu, lembrando-se de alguns momentos antes.
Suspirou, e bufou em irritação genuína. O que era aquilo que Sesshoumaru evocava nela? Fechou os olhos, sacudindo a cabeça, realmente era insuportável. Era difícil resistir e dizer não. Como dissera a ele, não era mesmo tão inocente, mas também não era muito instruída sobre a influência mútua entre os gêneros, mesmo entre os demônios. Capturava algo nas escassas conversações de Kaede e algumas mulheres da vila, mas nunca pensara o que se poderia extrair de útil delas. Até porque jamais se comportaria como uma delas, de maneira nenhuma. Achava que espíritos como eles não se davam uns aos outros como via nos humanos. Humm... se dar. Será esta palavra? Tocou o próprio queixo, franzindo a testa sob a franja. Kagome foi atraída por InuYasha; e o pai deles foi atraído por uma humana – uma princesa, mas humana.
Estas idéias vinham à sua mente, enquanto tentava relacioná-las com o fato estranho de sua boca secar quando o senhor das Terras Ocidentais a olhava daquele jeito... daquele jeito misterioso e irresistível. Ou como quando a tocou de maneira íntima e pessoal... ou ainda, como quando ela ficava embaraçada ao receber dele uma mísera gentileza ou elogio... Como no dia em que ele fora atrás dela, em seu humilde lar e seus dedos demoraram-se sobre sua boca. Prendeu a respiração. "O que ele faz comigo?"
Inconscientemente encostou os dedos nos lábios entreabertos, fechando os olhos, e suspirando profundamente, o que atraiu a atenção de Sesshoumaru. Que analisou bem este último gesto espontâneo de Kagura. E o jeito encantador com o qual deixou as mãos caírem insípidas sobre o colo, soltando a roupa que trazia tão bem presa, exibindo parte de seus atributos. "O que ela pensa que está fazendo..."
― Maldição! ― exclamaram juntos.
E envolveram-se nos olhos um do outro. Fora um embate digno das duas pessoas singulares em questão. Nenhum dos dois moveu-se ou tentou desviar. O rosto de Kagura assumiu um tom encarnado ao passo que Sesshoumaru apenas manteve-se estóico, como sempre.
"Talvez seja melhor terminar logo com esta situação desesperadora. Eu desejo isto de qualquer jeito".
A mente arguta e o olfato perfeito dele captaram as oscilações naturais da yokai. Os orbes apresentavam confusão e constrangimento, que se manifestava por meio da vermelhidão em suas bochechas. E decidiu por si mesmo que teria o que queria. Ele sempre teve. E desta vez, não seria diferente.
"Não consigo me mover outra vez... meu corpo, maldito, não me obedece... e... o que irá fazer, Sesshoumaru?" Ponderava ela em pensamento ao vê-lo estender a mão para si.
Automaticamente, chegou para trás, estendendo uma das mãos. Que ele segurou, dizendo:
― Não é só isto que eu quero.
Sim. Outra vez ela sentia. Seu corpo agitou-se quando a mão livre e possessiva segurou seu braço, aproximando-os.
O fogo. É, o fogo é um elemento difícil de aprender e dominar, ainda mais se estiver associado ao vento atrevido e indócil. Porém, ele nunca temera a nenhum deles. Apesar de o gelo ser eterno e denso, era vulnerável a ambos, vento e fogo. E Sesshoumaru soube que permitiria aquele músculo inútil manifestar sua presença em seu peito quando a beijou.
Continuou fazendo com que ela viesse até ele, e só então seus braços a envolveram. O corpo magro dela colara-se ao seu quando ela o abraçava de volta, esquecendo-se completamente da modéstia anterior. Após alguns minutos, o beijo era findo, e encaram-se mais uma vez; ele, cheio da apetência que o consumia, fazendo-o se esquecer de sua reputação ou qualquer outra coisa; e Kagura enlevada ao sentir-se observada deste modo, embora não soubesse o porquê. Aquele olhar parecia derretê-la.
― O-o que você quer, Sesshoumaru? ― indagou com sua voz grave e baixa, que estava deitando abaixo o bom-senso e a sisudez do indivíduo.
― Você. ― respondeu ele, sem pensar.
Os dedos dela apertaram o tecido fino de seu quimono, antes de apoiar-se em seu peito para dizer-lhe próximo ao sensível ouvido:
― Eu sei.
Sesshoumaru não pode impedir que um sorriso viesse sobre seus lábios finos quando seu olhar reencontrou o dela, lançando fora toda sombra de dúvidas ou cuidados. Votaram a se beijar, e a exigência dele era cada vez maior. Apenas os suspiros de ambos eram ouvidos no entardecer melancólico da era feudal japonesa.
Deitou-a sobre a estola que os envolvia em sua maciez, soltando-se de vez das mãos pequenas de Kagura. Ele deixou-a alguns momentos a fim de livrar-se das vestes que o cobriam, gastando tempo observado o corpo esbelto e tenro dela. "Perfeito", disse pra si mesmo antes de alinhavar a pele láctea com seus lábios, ávido por ela.
Realmente, de ruim não havia nada... do que então ela fugira mais cedo? pensava ela, sentindo que sua razão estava se esvaindo com as carícias gentis e ousadas...ele estava tirando-a do sério. Um gemido fraco escapou de seus lábios, trazendo-o de volta aos lábios dela, ainda com o cheiro do morango impregnado neles. Suas mãos não sabiam exatamente onde estar e o que fazer, mas parecia que fora feita pra isso.
Um grito rápido e agudo o fez abrir os olhos, surpreso o bastante para cessar todo e qualquer movimento. O semblante dela transtornou-se numa careta de dor. Então, a licenciosa e fascinante Mestra dos Ventos... "Maldita!", seu demônio interior gritou.
Retirou uma mecha do cabelo que resvalava na deliciosa boca vermelha, e a chamou numa voz rouca, e respirando com dificuldade.
― Kagura.
Ela abriu os olhos abaçanados pelo desejo e pela agonia, encontrando as gemas douradas fitarem-na inexpressivas. Mordeu os lábios, ao passo que suas mãos ainda se agarravam às costas dele.
Os dedos longos dele correram pelo rosto corado, retirando dele a mecha do cabelo escuro, tentando aplacar sua própria necessidade. Ela deu um meio sorriso.
― O que está fazendo, Sesshoumaru...
― Tornando-a uma yokai completa. ― deu um sorriso divertido, ainda que acanhado, ao ver a cara engraçada que ela fez.
― Eu sei... Confio em você;
Queda. Deve ter sido assim com seu pai, um grande príncipe yokai. Como esta mulher conseguiu fazer isto? Como pode surpreender-me tantas vezes no mesmo dia? Que tipo de fragilidade era esta? Ela confiava nele? Apesar de não demonstrar, estava realmente surpreso e intrigado. A mão quente de Kagura tocou seu peito, fazendo-o voltar à realidade, puxando-o para um beijo destemido e intenso. E permitiu que seus corpos seguissem sua própria cadência até que vira tudo girar num círculo de fogo e desvanecer-se no mar prateado de seus cabelos.
Sem abrir os olhos, Kagura sentia a respiração entrecortada, quente em seu ombro esquerdo. Cingiu os dedos nos dele. A outra mão de Sesshoumaru segurava-a com força. Lentamente, levou a mão direita até a fronte, sentindo seu corpo ainda amolecido. Apanhou com força o próprio cabelo. O que fora aquilo pelo que passara? Ser livre era bom, mas isto era como voar sem as plumas... engoliu seco quando Sesshoumaru cheirou seu colo pálido, o pescoço, finalmente tornando aos lábios, mordiscando-o suavemente até beijá-la de fato.
― Onde aprendeu isto...? ― murmurou, ainda contra os lábios dele.
Ele apenas olhou-a, erguendo a sobrancelha.
- Não é da sua conta.
Kagura implicou sorrindo, puxando o cabelo dele.
Fitou-a. Maldita mulher... por que tinha que sorrir deste jeito, hipnotizando-o? Devia ser algum feitiço, ou...
― Ei, Sesshoumaru... responda-me uma coisa...
Ele apenas fez um movimento com a cabeça, ainda observando aqueles olhos tão intensos como o pôr do sol.
― Somos capazes de fazer tudo outra vez?
A simplicidade na voz dela o fez fechar os olhos.
E sorrir.
Seu desejo transparece em seus olhos,
Enquanto seu sorriso brilha e me contagia.
As minhas asas deixam o vento me levar,
E agora não posso voltar.
Nossos encontros inesperados são os limites do prazer
N.A.
1 – Trecho traduzido de "A man and a woman" – U2
2 – Trecho traduzido de 'Tsubasa Pleasure Line" – Kuribayashi Minami
Depois de anos adormecida na Luz, eis que trouxe à luz um novo capítulo da fanfic 'Coração em movimento - Parte I"
Espero que gostem e deixem review.
Abraços
