O presente de Artêmis

III

Marin

O cabelo claro brilhava com o Sol, a pele bronzeada tinha um tom único e que destacava a cor de seus olhos. Não conseguia distinguir seus traços tão bem naquela distância, mas tinha certeza de que os olhos eram verdes. Suas vestes não escondiam os músculos bem delineados e certamente sua postura era a de alguém pronto para uma batalha iminente. A cada novo passo heril na escadaria, Marin tinha mais e mais certeza que avistava o pupilo de Leão.

Sentiu sua boca salivar e seu coração acelerou, nem ao menos vira seu rosto de perto e já sentira esse estranho desejo de tocá-lo... Respirou fundo e seguiu cautelosa entre os transeuntes determinada a se aproximar. O herdeiro de fogo não tinha nenhum servo ou soldado a sua disposição, andava entre os demais como se fosse um cidadão qualquer. Uma burrice considerando que seu peito exibia a insígnia de seu clã. Sabia que seu pai outrora foi o representante de Sagitário, mas Aiolia escolheu o Leão, o símbolo da família de sua mãe, para representá-lo. Observar aquele símbolo na joia que prendia suas vestes a fez admirá-lo mais.

Refletiu se o que sentia era apenas atração ou se havia algo a mais naquela sensação. Enquanto andava, percorreu os olhos nos arredores e respirou fundo. Seu cosmo pedia sua atenção, teria alguma ameaça ali? Concentrou-se naquele instinto de perigo eminente e achou um sujeito solitário andando às pressas na multidão. Ele parou logo antes de Aiolia passar e o estudou por um tempo. Já estava próxima o suficiente para reconhecer naquele olhar a determinação de quem estava prestes a cometer um assassinato, contudo, mesmo que fosse ágil, não conseguiria impedi-lo, havia muitas pessoas no caminho. Rapidamente elaborou uma estratégia e a colocou em ação: fingiu tropeçar e caiu sobre as cordas que prendia uma carroça em uma barraca.

O transporte seguiu o que Marin planejou: sobre o chão inclinado, correu solto em direção ao assassino, chamando atenção de todos para aquele local. A carroça estava cheia de utensílios que fizeram um estardalhaço conforme se espalhavam por todo o caminho. Ajoelhada sobre as pedras, Marin conseguiu ver o suspeito se afastar junto com os demais cidadãos e foi só então que avistou Shaina no grupo. Torceu para que a garota o seguisse, com certeza havia entendido que havia algo errado ali.

Marin encarou as ervas espalhadas pelo chão e respirou fundo, os xingamentos do dono dos utensílios a lembravam que teria que arcar com as consequências daquela atuação. Suas mãos estavam arranhadas e tingiram sua roupa de sangue, apesar disso um senhor rechonchudo a puxou com força. Sem misericórdia por sua condição, deu-lhe um tapa no rosto. A raiva quase fez Marin revidar com um soco, mas ela conteve-se murmurando um pedido de desculpas. A voz de dama temerosa foi engolida pelas ameaças que ele gritava. Além de pagar pelos danos materiais, exigiu que fosse chicoteada:

– Se ela não é uma de suas servas, você não tem direito de tocá-la. - disse uma voz grave ao seu lado. Não precisou erguer os olhos para saber quem estava falando, aquele tom irritadiço combinava bem com a postura altiva de Aiolia. Viu-o apertar o pulso do senhor. - Largue-a.

Os dedos do homem ficaram gelados e Marin viu o tremor de suas mãos quando a largou:

- Ela terá que arcar com o prejuízo, eram peças encomendas para o templo! Estava prestes a entregá-las! – insistiu, ríspido. Sua face transtornada pela interrupção.

- Se era para o Templo de Apolo, agora a mercadoria é minha. Paguei adiantado. É minha encomenda, não? O prejuízo é meu e eu decido o que fazer.

- Como assim você, oh, você é Aiolia... ?

Perguntou, sem disfarçar a surpresa. Marin ousou observar a face do loiro e entendeu o estranhamento do senhor. Os traços do rapaz não disfarçavam sua tenra idade. Aiolia ignorou-o e se virou para os garotos que recolhiam os utensílios:

- Podem levar para o templo tudo o que conseguirem reunir. – Aumentou o tom de voz chamando a atenção dos demais – E se alguma peça sumir, virão nos devolver depois. Tenho certeza. - Ele sorriu e voltou a para o senhor murmurando – Entendo sua raiva, mas esse tipo de reação a um acidente não é aceitável aos arredores desse templo. Melhore esse seu temperamento, ou não será mais bem vindo aqui.

As últimas palavras foram ditas com um sorriso tão alegre que qualquer um que avistasse de longe teria certeza de que a conversa terminou de maneira muito amigável. Marin refletiu que Aiolia parecia político o suficiente para lidar com a crise que se aproximava, talvez Dohko estivesse enganado sobre seu temperamento.

Enquanto o senhor murmurava sua despedida polida, a amazona se ajoelhou e passou a recolher suas ervas. Surpreendeu-se quando o loiro agachou e inclinou o rosto para encará-la:

- Deixe-me segurar isso - sussurrou e retirou os pacotes de suas mãos - Você está bem?

O tom preocupado a fez pensar naquela ironia... Justamente o rapaz que protegeu, ser quem a tirou daquela situação. Marin murmurou um "sim" e um "obrigada", concentrada em continuar a recolher as ervas que restavam no chão. Aiolia tocou em sua mão impedindo-a de continuar e, em seguida tocou em seu queixo. Delicadamente levantou seu rosto estudando resquícios da agressão. O tapa nem ao menos faria seu rosto inchar, estava acostumada a socos e pontapés. Se fosse outro, deveria fingir incômodo, certo? Entretanto não era justo fazer isso com o rapaz que, em breve, escoltaria. Os olhos esmeralda eram tão intensos que fizeram-na esquecer por um momento toda a multidão que circulava ao redor. A troca de olhares o afetou também, pôde vê-lo engolir em seco e inspirar profundamente atônito com a conexão imediata. Ele largou seu queixo e deu um sorriso gentil:

- Sinto muito que ele te agrediu ...

Marin deu de ombros e tirou as ervas de suas mãos para colocá-las na cesta que levava:

- Eu deveria prestar mais atenção. Sinto muito pela sua mercadoria.

- É apenas a prataria que vamos usar para alimentar os necessitados. Ninguém vai se importar se estiver comendo com um prato riscado. O que importa é a fome ser saciada.

- Espero que sim - ela sorriu e se levantou, satisfeita que a multidão não prestava mais atenção aos dois. Esquadrinhou a praça em busca de Shaina ou de outro suspeito, mas nada viu. – Bem, eu preciso ir, obrigada por tudo.

Aiolia a acompanhou:

- Eu posso te ajudar com esses ferimentos.

- Ah, não, não precisa, pode deixar.

- Por essa lista, você trabalha com cura? - mostrou-lhe a lista de Leto.

- Ahm, não exatamente – ela pegou o pequeno papiro e jogou-o na cesta – Eu sei algumas coisas. Estou ajudando minha tia, ela sim é curandeira.

- Sem querer desmerecer sua tia, ou os seus conhecimentos, eu realmente posso curar isso rapidamente.

- São só alguns arranhões - apressou os passos, confusa sobre como proceder, já era uma grande vantagem tê-lo ao seu lado, já havia ali a possibilidade de lhe contar tudo, entretanto ainda tinha muito o que descobrir na cidade antes de partirem.

Saíram da praça e ela continuou sua caminhada pelas ruelas que davam até a casa de Leto. Subitamente, parou e o encarou. Era difícil ignorar seus belos traços e, se pudesse, ficaria um bom tempo observando-o. Sussurrou no tom mais gentil que conseguia esboçar:

– Por que está me seguindo? Eu realmente não preciso mais de ajuda.

Ele colocou a cesta de ervas no chão e tocou em suas mãos:

- Não quero te assustar, eu só... – Aiolia observou os cortes em suas palmas e Marin percebeu um brilho dourado emanando de seus dedos. O calor de seu toque a desconcertava, mas aquela ardência era realmente uma novidade. Ele estava usando o cosmo para reconstruir sua pele. – Quero te recompensar por ter sido humilhada tão gratuitamente.

Marin admirou a espontaneidade daquele gesto. Somente ela podia visualizar as nuances ao redor de sua mão, qualquer um que passasse por ali concluiria que Aiolia a assediava. Ele arriscava sua reputação ao tocá-la daquela maneira em público e nem parecia se importar:

- E qual o seu nome?

- Marin, e o senhor é o responsável pelo Templo de Apolo?

- Sim, mas não me chame de senhor, pode me chamar de Aiolia, por favor... – observou-o revirar os olhos – Eu posso te chamar só de Marin mesmo?

Como outras amazonas, ela não tinha um sobrenome e nada lhe veio à mente para completar essa informação no momento. Que idiota. Se fosse outro qualquer, poderia desconfiar de alguém tão indiferente a sobrenomes em uma cidade que isso importava mais que tudo, não deveria ter abandonado Leto sem confirmar qual era seu sobrenome falso:

- Você sabe que com a sua hierarquia, você pode me chamar do que quiser. Meu sobrenome não importa como o seu. – Mentiu e o viu balançar a cabeça em negação. Seus olhos agora esboçavam uma malícia suspeita, difícil de interpretar. O que ele estava pensando?

Marin o ignorou ao perceber que o calor em suas mãos cessou. Mesmo os arranhões mais profundos desapareceram. Já ouvira boatos sobre essa habilidade do forte cosmo dos cavaleiros dourados, entretanto não esperava que alguém que nem tinha uma armadura ainda pudesse ser capaz disso:

- Isso que você fez...

- Minha mãe era muito boa nisso. Tive sorte em aprender com ela – apertou suas mãos carinhosamente e as largou dando um passo para atrás. Olhou por cima dos ombros, fitando o restante da cidade às suas costas - Aquele sujeito pode mandar alguém para se vingar de você. Não é incomum alguém querer se vingar após ser repreendido em público daquela maneira.

- Mas você foi cordial com ele, não acho que precisa se preocupar. – Marin pegou a cesta no chão e passou a andar novamente determinada a se distanciar daquela presença tão envolvente.

- Eu vou te acompanhar um pouco mais, está bem? - disse tomando a cesta de suas mãos novamente.

Percebeu que era impossível fazê-lo mudar de ideia. E fingir ser uma mulher submissa também. Habilmente tomou-lhe a cesta de novo e riu:

- Você já curou minhas mãos, deixe-me ao menos carregar isso, não pesam nada. – Antes que ele contestasse, encarou-o, desafiando-o a pegar o objeto de volta. Seu sorriso, verdadeiro e caloroso, foi o suficiente para impedi-lo de contestar. O modo como ele sorriu de volta a fez ter certeza: o olhar malicioso que enxergara anteriormente era de desejo.

Andaram por um tempo em silêncio trocando olhares ocasionalmente. Quanto mais longe da praça, menor era o número de pessoas na rua:

- Você não é daqui, não é? – Aiolia perguntou estudando atentamente seu rosto

- Não... - Ela apontou para seguirem uma nova ruela - Você gosta de viver aqui?

- Às vezes... – a tristeza em sua voz era palpável e Marin imaginou a solidão que seu cargo exigia. Ela reduziu o ritmo de suas passadas, pesarosa por saber que seria a responsável por contar o que aconteceu com a família do leonino. Parou na frente da casa de Leto e o ouviu questionar. – É aqui então que você está hospedada. Sua tia, é isso?

Marin estudou cautelosamente as próximas palavras:

- Não exatamente.

O guerreiro aproveitou a quietude do lugar e diminuiu a distância entre eles. A proximidade perturbou-a. A última vez que um homem ficou tão próximo foi durante uma batalha. E ele acabou morto. Falou tanto sobre a inexperiência de Shaina com os homens e ela mesmo tinha grande dificuldade em saber como reagir quando estava atraída por um. Foi treinada a seduzir quando necessário, mas jamais esperava se sentir assim por alguém que acabou de conhecer.

Podia ver o entardecer refletido em seus olhos e não teve mais tanta certeza se o que interpretara era realmente desejo. Talvez fosse apenas desconfiança:

- O que uma amazona está fazendo aqui? – ele sussurrou seriamente.

Marin respirou o calor de seu hálito e buscou se concentrar na ponderação que sempre a dominava. Podia perder tempo mentindo, insistindo que não sabia sobre o que ele estava falando, mas estava cansada demais para manter aquele disfarce:

- Você. Estou aqui por você, Aiolia. – Permitiu que a confusão formasse seu silêncio por um tempo e então deu um passo para atrás. - Eu preciso descansar agora e descobrir algumas coisas antes de te explicar tudo, mas por favor, tome cuidado. Seja cauteloso. E, independente do que ouvir, seja paciente.

O loiro tocou seu pulso impedindo-a de se afastar mais. Sua face era uma mescla de preocupação e raiva:

- Você tropeçou na carroça para chamar minha atenção?

- Não, eu... – ela apertou seus dedos e se livrou delicadamente de seu toque. Não sentiu que o gesto foi para submetê-la à sua vontade. Não parecia ser de seu feitio obrigá-la a ficar ali e lhe dar explicações. Ele só estava confuso. - Acho que alguém tentou te atacar hoje, pelas costas. Fiz aquilo para te proteger, não era para eu falar com você hoje.

Um barulho de porta fez ambos se afastarem mais. Leto encarou-os sorridente:

- Olá, querida, arranjou um amigo?

Sabia o que significava aquela pergunta "Quer ajuda, para matá-lo?" , mas logo o olhar da anciã modificou-se, provavelmente ao ver o Leão dourado que prendia suas vestes:

- Vocês querem entrar?

- Não – rapidamente Marin respondeu. – Aiolia já está indo, não é?

Ele analisou a face das duas amazonas por um tempo e assentiu com a cabeça:

- Você me encontra amanhã?

- Sim, antes do entardecer. – Marin forçou um sorriso e falou em um tom mais baixo – Por favor, tome cuidado, está bem?

Aiolia se distanciou, claramente ainda confuso com as falas. Se ela não estivesse tão exausta, passaria as próximas horas continuando sua busca por informações. Assim, poderiam se reencontrar logo cedo e esclarecer tudo, entretanto sabia que seu esgotamento chegaria em breve e talvez a prejudicasse se houvesse uma batalha.

Entrou rapidamente na casa e se surpreendeu ao ver Shaina aguardando-a. A mesa estava repleta de alimentos e ela murmurou com a boca cheia:

- Eu não tinha percebido o assassino. Se você não tivesse jogado a carroça...

Exausta, Marin sentou e relaxou o corpo:

- Você o seguiu? Ele realmente tinha alguma arma?

- Sim e sim. – Limpou a boca suja de fruta e sorriu. O rosto juvenil denunciando seus treze anos – E o idiota me levou exatamente ao lugar que precisávamos.


Continua...