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O presente de Artêmis

V

Marin & ...

A amazona ignorou as falas sem sentido que o cavaleiro falava e o tirou da água cuidadosamente. Colocou-o de pé e o levou até as limitações do caminho de terra que cortava a floresta. Encostou-o em uma árvore e se ajoelhou ao seu lado, procurando o ferimento no calcanhar. A flecha não cruzou sua carne, pegou de raspão, a ferida não sangrava, mas toda a pele ao redor ganhava uma coloração escura.

Conhecia algumas plantas e cogumelos que poderiam ajudá-lo, poderia procurar isso no local, certo? Por que, então, não conseguia se lembrar da aparência de nenhum desses itens? O som insistente de uma coruja ditou o tempo de sua respiração ofegante. Uma agonia apertava-lhe o peito, e achava que o ar nunca mais a saciaria. Identificou essa "síndrome", era o desespero que toma conta das crianças em treinamento após dias de tarefas árduas e nenhuma recompensa pelo seu esforço. Até aquela coruja sabia que Marin estava fraquejando como uma novata ridícula.

Observou a copa das árvores balançando com o vento e procurou sinal do animal que parecia debochar de sua fraqueza. Deixou o pânico tomar conta. Deu palavras a todos os medos, relembrou as últimas horas em Atenas. A exaustão dos últimos dias, o peso de Aiolia... Como ela o arrastaria por aquelas terras sem chamar a atenção? Não seria rápida o suficiente. Olhou a feição do herdeiro de Leão e imaginou como seria sua armadura sagrada.

"Que ele morra em uma batalha grandiosa, mas não por um artifício traiçoeiro como esse". Sussurrou. Ao aceitar que o medo de vê-lo morrer era o que a distraia, sentiu a ansiedade reduzir.

Imaginou a distância que estavam das cidades mais seguras ou até mesmo das terras das amazonas.

Se alguém passasse, poderia pedir ajuda, quem sabe pedir para serem levados até a Ilha dos Curandeiros*? Se lembrava bem do que estudou dos rios do local, estavam perto dali e sabia que lá poderia encontrar pessoas de confiança.

Entretanto não poderia esperar a sorte permitir que Aiolia piorasse. Afastou o pessimismo de sua mente e queimou seu cosmo. Se houvesse um cavaleiro sagrado presente naquela região, agora seria o melhor momento de descobrir. Aquele seria o momento ideal para testar a presença dos aliados de Dohko ou de Mayura.

Seu próprio cosmo a revigorou e os antídotos para o veneno vieram-lhe à mente. Lembrou-se dos cheiros, das cores, e passou a procurá-los próxima ao local. Atenta a qualquer aproximação, distinguiu sons de cavalos em alta velocidade e soube que estavam atravessando a ponte. Sorrateira, observou as dezenas de guerreiros e concluiu o que temia. Usavam os símbolos de Atenas e portavam armas o suficiente para preocupá-la. Alguém ordenou que reduzissem o ritmo e passaram a vasculhar as margens do rio. Viu o dono da voz. Reconheceu Lemargos e sentiu um amargor na garganta.

Encostou o corpo em uma árvore aceitando o que não havia percebido antes. Entendeu como os inimigos chegaram ali tão rápido, não era desconfiança por uma ponte qualquer, o cosmo de Marin foi o que os atraiu. Aquele maldito nobre não conseguia disfarçar seu poder ali, não agora que o usara para achá-la. Todo o ambiente pesava com seu poder obscuro. Era um cosmo bem diferente dos demais cavaleiros que conheceu. Isso dava uma outra perspectiva ao que tinha concluído horas antes em Atenas. Pensar que a traição poderia partir de outros cavaleiros sagrados fez sua frustração virar raiva. Não ficaria ali esperando serem achados, não bateria de leve para poupar vidas. Chega. A floresta era seu território de caça. Honraria todas suas habilidades e finalizaria a perseguição. Agora.

...

& Sisifos

Ele tinha certeza de que sentiu um cosmo prateado naquela região:

- Viu, não é nada. Se continuarmos sem dormir, você vai começar ver até a carruagem de Hélios levando o Sol. - Debochou o moreno ao seu lado.

Sisifos não disfarçou sua insatisfação. Mais uma piada de Manigold sobre seu estado cansado e ele explodiria. As forças do Cavaleiro de Câncer salvaram sua vida há duas noites e estava muito grato por isso. Era inegável que o Templo de Delfos não teria resistido sem sua ajuda, tão surpresa quanto a revolta que se instalou aos arredores. Entretanto gostaria que o amigo estivesse em Delfos com seus guerreiros, seria muito melhor seguir até Atenas sozinho. Sem interrupções ou comentários sobre como os dias não-dormidos poderiam matá-los. Manigold não tinha irmãos, não sabia a angústia que o corroía desde que identificou os comandantes do ataque ao Templo. Era políticos da região: os malditos que constantemente lhe pediam empréstimos, ajuda militar... Pediam até mesmo influência com as demais cidades gregas.

Manigold também não sabia das palavras oraculares da pítia momentos antes do cheiro de fogo começar. Atena estava em perigo. E isso significava que a vida de Aiolos e Ilías também estava por um fio. Havia mais garotas sobre vigilância de outros Cavaleiros de Ouro, mas ele tinha certeza que a escolhida para ser protegida por seus irmãos era a reencarnação de Atena.

Sisifos enviou mensageiros imediatamente aos seus aliados e torceu para que não fosse tarde demais para salvá-los. Quando derrotou os inimigos, poderia ter escolhido ir a Ilha de Delos pessoalmente e tirar essa preocupação da cabeça, mas preferiu seguir o que seu coração estava pedindo. Precisava ver como estava Aiolia, o irmão mais novo não lhe saía da cabeça e muito menos a cidade em que ele residia.

A politicagem ateniense os incomodava desde a época que sua mãe falecera. Filha única do penúltimo Cavaleiro de Leão e herdeira da ilha de Delos, era a grande responsável por balancear as intrigas das demais famílias contra os descendentes de heróis. Infelizmente, nenhum dos filhos conseguia ter a mesma lábia sagaz e diplomacia com a classe alta.

Quando estava lá, Sisifos desconfiava de cada palavra que lhe diziam, de cada rosto subserviente que o encarava. Sentia-se culpado por deixar um garoto tão inexperiente responsável pela politicagem que nenhum dos outros três suportava. Poderia ser isso, apenas culpa, o que o movia tão determinado a verificar a situação do irmão, mas dane-se. Ele já estava próximo da cidade e nem um pouco arrependido da decisão que tomou:

- Você realmente não sentiu nada? – questionou incomodado com o crocitar de uma coruja – Foi muito claro para mim.

Manigold respirou fundo e manteve seu sorriso sarcástico:

- Confesso que não estava prestando atenção. Posso estar sorrindo aqui, meu caro, minha armadura pode estar brilhando incrivelmente – bateu no peitoral da armadura dourada e em seguida bocejou - mas minha mente está dormindo. Há horas. Não sou como você.

- Você não deveria ter vindo... – Sisifos murmurou, impaciente com aquele humor vacilante do amigo.

O Cavaleiro de Câncer socou seu ombro, displicente como uma criança. Sisifos estava prestes a xingá-lo quando percebeu que a expressão do amigo se alterou. Observava curioso a floresta ao redor e murmurou:

- Merda. – Xingou guiando seu cavalo para a esquerda - E esse cosmo nojento, você tá sentindo?

Não. Mesmo concentrando o máximo que conseguiu, o defensor de Apolo não captou nada ao redor até que, subitamente, a energia prateada que sentira antes ficou perceptível. Manigold a percebeu também, pois acelerou seu animal encorajando Sisifos a fazer o mesmo. Pássaros voavam na direção contrária da que iam, o farfalhar de folhas estava cada vez mais constante e já imaginava o que vinha a seguir. Gemidos de dor e árvores caindo.

Um prateado usava seu poder contra uma horda confusa de guerreiros espalhados pela floresta. A luta começara há pouco, entretanto imaginou que dezenas já foram derrotados. Alguns estavam caídos próximos a estrada de terra, desceu do cavalo para estudar suas vestes. Eram de Atenas. Deveriam ajudá-los? Viu uma lança cortar o ar e procurou se o prateado estaria naquela mira. Ouviu um som agudo antes de raciocinar que a arma não completou seu objetivo. Uma armadura de prata reluzia entre as árvores, o choque da lança e aquele metal com certeza fora o responsável pelo som.

Sisifos queria visualizar melhor o que estava acontecendo para tomar uma decisão, mas o toque em seu ombro o impediu de avançar:

- Não – Manigold murmurou e apontou para a figura próxima a armadura – Deixe-a terminar, a luta é dela.

O garoto ainda tinha dificuldade para distinguir a forma apontada por Manigold. Viu fios de fogo entre as folhagens e identificou que aquela seria a dona do cosmo prateado. E da armadura. Ouviu mais alguns gemidos de dor e então o local se silenciou.

O Cavaleiro de Câncer desceu de seu animal e seguiu pelo rastro de corpos caídos. Perguntou:

- Por que você atacou homens de Atenas, amazona?

Silêncio. Ele insistiu:

- E a outra pessoa, o cosmo escuro que estava por aqui. Você o matou?

Viram-na surgir entre as árvores. Uma criatura selvagem de cabelo despenteado e postura ofegante. A veste típica dos servos estava úmida, grudada em seu corpo. E com vários resquícios de sangue. Os olhos brilhando em contraste com o rosto ensanguentado. Seu olhar era de fúria quando respondeu:

- Deveria. Mas está vivo. Todos estão. – ela os analisou um tempo antes de se aproximar arrastando um corpo surrado. Sisifos o reconheceu. Não sabia seu nome, mas era um político da Acrópole. Lembrava que o detestava – O Cavaleiro de Libra me enviou para Atenas. Mas ele não enviou vocês, não é?

- Dohko? – Manigold olhou-o intrigado - Não, mas que merda está acontecendo?

Antes que Sisifos pudesse acrescentar mais perguntas ao questionamento de Manigold. A ruiva selvagem jogou o político aos seus pés:

- Não temos tempo para isso agora, eu preciso de ajuda, eu – ela respirou fundo e o encarou – Você parece com Aiolia. Você é parente dele? O que cuida de Delfos?

- Sisifos – ele afirmou já prevendo uma notícia terrível.

- Seu cosmo, ou de algum de vocês dois, também cura? - Ela não precisava dizer mais nada. Seu olhar lancinante o fez ter certeza quem precisava de ajuda era justamente seu irmão:

- Aiolia? Onde ele está?

Rápida, a amazona o levou até uma árvore intocada pelo conflito. Aiolia estava lá, desacordado e febril. O guerreiro de Delfos tocou no ferimento exposto de seu calcanhar direito e a ouviu explicar minimamente sobre a flecha envenenada. O rio. Lemargos. O tempo e a água o preocuparam, mas duvidou que os atenienses seriam capazes de fazer um veneno tão eficaz assim:

- Ele cresceu... – Manigold murmurou, carinhoso. Observava Aiolia atentamente. O Cavaleiro de Câncer, seguindo a tradição dos demais cavaleiros de água, tinha uma relação intrínseca com a vida e a morte. Podia não saber usar o cosmo para cura, mas com um breve olhar saberia se seu irmão mais novo estava mais perto da morte. Enquanto Sisifos se concentrava em curar a área diretamente infeccionada, o cavaleiro dourado disse – Não é tão sério. Acho que depois de uma boa alimentação, água e roupas secas, ele não vai tardar a melhorar.

Sisifos sentiu as lágrimas molhando seus olhos. Ele não queimava seu cosmo assim há anos, nunca aprendeu direito, na verdade, e o fato de fazê-lo em um parente aumentava as chances de erro. Estava confuso, emocionado, revoltado. Exausto. Viu a ruiva acariciar o rosto de Aiolia e dizer:

- A temperatura já diminuiu, acho que é o suficiente para seguirmos antes que mais alguém apareça.

- Podemos descansar um pouco naquele templo que vocês desativaram – Manigold sugeriu tocando seu ombro. Só naquele momento percebeu que ele arrastou o corpo de Lemargos até ali. Ficou satisfeito que poderia interrogar aquele sujeito para entender toda essa loucura que estava acontecendo – O terreno que um Templo de Quíron.

- Meu pai fez um acordo com o Cavaleiro de Peixes. Não sei se ele manteve a construção. – Sisifos levantou e puxou Aiolia.

- Qualquer terreno longe daquele rio já nos fará ganhar tempo – a amazona disse e o ajudou a colocar o irmão em suas costas. Seu semblante era muito diferente do selvagem de outrora, exalava uma estranha calma que o tranquilizava:

- Sim, Vamos para lá. – Analisou sua silhueta esguia ainda confuso como aquela garota poderia tão ágil quanto eles. Ouvia diversas coisas sobre as amazonas, viu algumas nos Templos de Delfos, mas nunca tinha presenciado uma em ação. - Qual seu nome?

- Marin – respondeu limpando o rosto. Caminhavam de volta aos cavalos e ela não parecia nem um pouco interessada em pegar sua armadura.

- Marin de... – Manigold observou a forma prateada da armadura ao seu lado – Águia, certo?

- Não, somente Marin. – era difícil ler suas expressões, seriam todas as amazonas tão indiferentes, mesmo sem a máscara?

- E a sua armadura? – perguntou.

- Ela ... não é minha. Pertence ao Templo de Artêmis. Às amazonas. Não sei como ela veio parar aqui.

- Seu cosmo, menina. – Manigold deu uma risada - Você a chamou. Ela é sua agora, Águia.

A ruiva parou e observou o objeto por um tempo. Sisifos não acompanhou o diálogo que se seguiu. Se ocupou em colocar Aiolia em seu cavalo e checar novamente sua temperatura. Quando se voltou para dupla, a armadura já havia desaparecido e estava no corpo de Marin. Sisifos nunca entendeu como as armaduras sagradas se adaptavam perfeitamente ao corpo de cada guerreiro, não havia sinal algum da roupa que Marin usava anteriormente. Mas assim que ela tirasse o equipamento, suas vestimentas reapareceriam. Uma magia perfeita. Aquilo lhe comprovava mais ainda a colaboração de cada um dos deuses para a construção daquela proteção.

Marin andava cautelosa observando os encaixes metálicos que detalhavam as curvas de seu corpo e o guerreiro de Apolo forçou o olhar para o outro lado, temendo que lhe ofendesse por observar os detalhes daquele presente de Artêmis. Manigold percebeu seu embaraço e sorriu malicioso. O cavaleiro mais velho simpatizava com as amazonas, o brilho azulado de seu cabelo comprovava a descendência dessa linhagem e foram elas que o acolheram e iniciaram seu treinamento quando a cidade de seu pai foi arruinada por uma guerra. Tratava-as como uma igual, muito mais à vontade do que Sisifos se sentia na presença de mulheres tão imprevisíveis. Temia que qualquer fala pudesse ofender sua independência e evitava ao máximo uma conversa casual com as que visitavam Delfos:

- Você pode pegar o meu cavalo – o amigo disse oferecendo uma mão para que a amazona subisse rapidamente no animal. Ela aceitou a ajuda e o observou colocar Lemargos na garupa – Eu vou pegar um dessa trupe e já alcanço vocês. Acho que lembro o caminho, aproveito e verifico se tem mais alguém suspeito por aí.

Sisifos assentiu com a cabeça e iniciou a cavalgada. Guiando-se pela direção do Sol e a posição das montanhas, localizou em pouco tempo o terreno secular de sua família. Como esperado, os muros continuavam arruinados, entretanto a pequena construção à beira do lago se mantinha conservada. Belíssimas flores eram visíveis por toda parte e ele teve certeza de que Rugonis continuava a visitar o local. Não o avistou em nenhuma parte e ninguém se incomodou em vir recebê-los. Sisifos não aguardou cordialidades, desmontou do cavalo e levou Aiolia até o humilde Templo de Quíron. Estava mais limpo e iluminado do que se lembrava e não foi difícil achar um cômodo com uma cama para colocar seu irmão. O garoto estava encharcado e o guerreiro começou a despi-lo.

Estava tirando seus sapatos molhados quando Marin entrou no quarto e passou a ajudá-lo. Ele poderia fazer isso sozinho, entretanto não conseguiu achar um argumento válido para interrompê-la. Se Marin não tinha pudor algum em ver e tocar o corpo de Aiolia, quem seria ele para se incomodar? Não havia lógica em seu incômodo, mas era fato que se sentia desconcertado em fazer isso com uma mulher do lado.

Estudou o modo carinhoso como a amazona segurava o rosto de Aiolia. Secava seu cabelo com um pano e não havia reserva em seu toque, nem mesmo agora que Aiolia estava nu por debaixo dos lençóis. Porém também não havia sinal de qualquer desejo em seus olhos azuis. Se sentiu um tolo. Conviveu os últimos anos de sua vida com as pítias do templo, mulheres arredias que somente lhe dirigiam a palavra quando se tornavam a voz do próprio do deus Apolo. Esperar que uma amazona se comportasse assim era uma tolice.

Subitamente, Marin o encarou. O silêncio fez seu coração gelar, não por temer algum questionamento pelo modo como a estudava. Era o medo das informações que a garota sabia. Dos infortúnios que a amazona lhe confirmaria. Sisifos murmurou:

- Obrigado pela ajuda.

Marin assentiu com a cabeça e molhou os lábios. O gesto inseguro contrastando com tudo o que vira até agora. Tsc. Não, ele não podia ouvir nada agora, tinha muito o que fazer antes de desabar com as notícias sobre seus irmãos. Afastou-se da cama e disse apressadamente:

- Eu vou conferir o terreno, checar as falhas no muro e ver como podemos nos proteger melhor.

- E não vai procurar o Cavaleiro?- ela perguntou, ansiosa – Rugonis? Ele é o Cavaleiro de Peixes, não é?

Sisifos a estudou com seriedade. Informações assim costumavam ser passadas apenas para o alto escalão de cada linhagem das famílias que serviam aos deuses. Não era comum um guerreiro qualquer saber identificar os Cavaleiros e seus herdeiros pelos nomes. O quanto as amazonas sabiam sobre os dourados? Pelo visto, muito mais do que o restante da Grécia sabia sobre elas. Respirou fundo e se dirigiu a saída do quarto:

- Sim. Mas ele não fica aqui.

- Eu sei. – Virou-se e a viu cruzar os braços – Ele fica na Ilha dos Curandeiros, não é? Ele pode ajudar Aiolia...

O protetor de Delfos engoliu em seco. As amazonas tinham uma rede de informações invejável, mas o que o deixou realmente apreensivo era seu olhar tão preocupado. Tinha quase certeza que o que fizera seria o suficiente para ajudar seu irmão, ele estava estável agora. E se ele voltasse a piorar? E por que Dohko a enviara para resgatar seu irmão mais novo? Era por ser o sucessor de Ilías?

- Confio em Manigold. – Ele soltou o invólucro de couro que levava água e esticou o braço sinalizando para a ruiva pegar - Vamos focar em fazer o possível para confortá-lo e ver como continua. Está bem? – Pediu. Ficou aliviado quando Marin não discutiu e o deixou sair do Templo.

Atento às nuances ao redor, Sisifos buscou qualquer indício da presença de alguém ali, mas realmente não havia ninguém. Decidiu não esperar Manigold para retornar ao templo, consciente que era ridículo postergar por mais tempo uma conversa com a amazona. Marin sabia mais detalhes do que falara, Dohko a enviara provavelmente por ter recebido aviso parecido dos demais oráculos. Ou talvez, tinha informações concretas sobre o vilarejo que Ilías e Aioros estavam.

Notou as nuvens escuras que se formavam no céu e acelerou sua cavalgada para retornar até Aiolia. Chegou sob gotas de chuvas e deixou a tempestade aliviar o calor de verão de seu corpo. A frustração de dias, o medo da ameaça a sua família. Medo de terem falhado com os deuses. Provou as gotas e entrou no templo, cauteloso para não cair nas pequenas poças que ele mesmo causou no mármore liso. Eles dormiriam por algumas horas e então partiriam para um lugar mais seguro. Talvez para a Ilha, talvez para Delfos, depois de dormir ele saberia.

Observou como Marin havia prendido Lemargos. Logo abaixo da escultura do Centauro. Imaginou o susto do sujeito ao acordar com o rosto prestes a ser pisado por enormes patas de mármore. Pelo temperamento da ruiva, não duvidava que ela escolheu propositadamente aquela posição. Conferiu se o político continuava desacordado, foi quando ouviu uma voz que aqueceu seu peito. Era Aiolia, estava acordado. Apressou os passos até a porta do cômodo que o deixara e parou ao ouvir o conteúdo da conversa. Sisifos encostou na parede fria.

Desculpas por um beijo? Ele ouvira bem?

- É sério, Marin, por favor, me desculpa eu...

Ela o interrompeu, falando de um jeito ríspido:

– Não, Aiolia. Não estou ofendida. Vamos fingir que nunca aconteceu. Não é sobre isso que quero conversar. O que eu preciso te falar é muito mais sério. Então, esquece esse beijo, está bem? Eu não quis te falar antes, não queria te distrair, mas agora... É sobre seus irmãos. – Sisifos sentiu o coração acelerar, ansioso pelas próximas palavras. – A Ilha de Delfos foi atacada. O Templo de Apolo foi incendiado. Até o momento que deixei Dohko, ninguém tinha certeza sobre o que aconteceu com seus irmãos.

Um silêncio se seguiu e Sisifos tirou a faixa que usava para prender os fios longe de seus olhos. Tinha certeza agora, estavam mortos. Ilías. Aiolos. Atena.

Sua família falhara com os deuses.

*A Ilha dos Curandeiros é citada nos