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O presente de Artêmis

VI

Marin

O cervo prateado dispersou com o estrondo de um raio. Marin acordou ofegante do sonho. Percebeu que a voz de Artêmis ainda retumbava em seu ouvido e, instintivamente, seus olhos buscaram a forma prateada da deusa. Achou a armadura de Águia no canto do cômodo, refletia os trovões que cortavam a noite e seu brilho singular parecia entoar uma canção que a hipnotizava.

Sentou-se na cama e colocou o rosto entre as mãos buscando um sono que não existia mais. Ainda não compreendia como aquela peça apareceu na floresta, ou como se encaixou perfeitamente em seu corpo. Bastou apenas um toque e o pulsar da vida prateada passou a ser o seu. Mesmo agora, a distância, continuava a sentir uma estranha conexão com o objeto. Até mesmo no sonho tinha a impressão dessa sombra prateada a seguindo.

O Presente de Artêmis. Uma prova que os deuses não os abandonaram completamente. Aprender os mitos, observar as estrelas, elevar o cosmos... Tudo fazia parte do que acreditava, mas nada disso a preparava para essa sensação assombrosa de estar constantemente na presença de uma deusa.

Quando mais um raio caiu, percebeu que dormiu de qualquer jeito, sem se preocupar em se proteger do frio da noite. Uma angústia percorria seu corpo e resolveu sair em busca de algo que pudesse agasalhá-la. Não havia nada no cômodo para lhe aquecer, apenas pergaminhos e mais pergaminhos. Entrou ali somente para dar privacidade para Sisifos e Aiolia conversarem e pegou no sono sem perceber.

Relembrou a expressão dos guerreiros quando contou as suspeitas de Dohko. Achava que após retirar o garoto de Atenas se sentiria mais aliviada, contudo, a sensação de perigo eminente permanecia. Talvez devesse levá-los para Mayura, ou acompanhá-los por mais um tempo independente do caminho que seguissem.

O frio aumentou conforme explorava o templo. Marin passou pela enorme escultura do centauro e confirmou que Lemargos continuava desacordado. Os estrondos da chuva cortavam o silêncio e ela percebeu que a origem do vendo no salão principal vinha logo atrás do altar.

Cruzou os braços consciente que seu frio apenas aumentaria seguindo naquela direção, mas o cheiro da mata molhada era irresistível. Chegou a uma área com vista para o lago que circundava o templo. Observou a forte tempestade que assolava o jardim e não conseguiu ignorar a semelhança daquela ira com a aparição de Artêmis de dias atrás. Os deuses estavam furiosos, podia sentir que algo os afrontava e temeu a proporção do caos que se espalhava pela Grécia:

- Você está com frio – a voz de Aiolia a surpreendeu. Antes que pudesse avistá-lo, um tecido felpudo envolveu seu corpo. – Use isso por favor:

- Não - Marin disse sem pestanejar, não precisou refletir por muito tempo que aquela era a manta que ele. Ignorando a sensação gostosa do calor sobre os braços, puxou o tecido para retirá-lo enquanto atestava que Aiolia estava usando apenas a roupa simplória de Atenas – Você está doente, nem deveria estar de pé, não pode tirar isso.

O loiro interrompeu seu gesto, segurou a capa que ainda escorregava em seus braços e manteve-a assim enquanto se posicionava a sua frente. Podia ver seus olhos refletindo as tochas do local:

- Estou bem melhor, sem febre. – Ela quis tocar sua testa, mas não o fez. Se fosse um guerreiro de prata, um homem que cresceu entre as amazonas, o tocaria sem pestanejar, mas não sabia o que aquele jovem estava habituado. Manteve-se quieta apenas observando sua expressão impaciente. – Não estou com tanto frio assim e posso ver que você está tremendo.

Novamente aquela voz autoritária, a mesma que usou quando curou suas mãos. Aquele tom teimoso só não a irritou mais do que o aperto em seus braços, insistindo em retornar o tecido para aquecê-la. Se quisesse a capa, ela falaria e a vestiria por conta própria. Aiolia deveria estar habituado com mulheres frágeis, que ocultam suas reais vontades para testar a gentileza dos homens ao redor. Não havia espaço para dissimulação na vila das amazonas, mentiras assim eram apenas para os inimigos, não para saciar seus desejos. Deveria perdoá-lo por sua falta de bom senso com uma amazona, não é? Talvez ainda estivesse sobre o efeito do veneno. Ora, sem dúvida, atordoado com todos os acontecimentos. Mas algo naquela situação a incomodava mais que o normal, talvez fosse a diferença de altura entre eles ou a proximidade excessiva. Sentiu-se sufocada enquanto ele ajeitava o manto em seus ombros e por impulso tocou em sua mão, interrompendo-o. Estudou seu rosto brevemente:

- Eu... - mordeu o lábio inferior buscando um tom gentil – realmente prefiro que você fique com ela, ou que pegue uma para você e...

- Essa é a única sobrando – viu um sorriso passar pelos seus lábios e ele soltou a capa – É o que eu estava usando para me cobrir no quarto.

- É verdade... - Marin observou as cores do pelo e lembrou-se que era o cobertor que achara próximo à cama quando chegaram no Templo. Um dos que usou para cobrir seu corpo. Nu. Ela respirou fundo tentando ignorar a lembrança de seu físico e conseguiu formular uma solução:

- Então você pode voltar para cama e levá-la e eu –

- Não, não aguento mais ficar deitado. Estava aqui há algum tempo já – disse dando de ombros e voltando-se para tempestade.

Marin fitou seu perfil ainda confusa com o que estava acontecendo ali. Ele ficaria ao seu lado, passando frio, é isso? A ruiva o imitou, ficando em silêncio e observando a chuva por um tempo, até que não resistiu à sua preocupação e disse:

- Por favor, se vamos ficar aqui juntos, pelo menos podemos dividir?

Ela esticou o braço confirmando que a extensão do tecido era o suficiente e esperou que Aiolia aceitasse a oferta. Viu sua expressão relutante, mas não tardou a se aproximar mais e ajeitar o cobertor em suas próprias costas.

- Está bem.

Quando os braços dos dois se tocaram, Marin soube que tinha cometido um erro. O leve calor entre os dois corpos a fez se arrepiar. Estava do lado de um rapaz em luto pela sua família, o nobre que deveria proteger. Nada disso era condizente com a reação que seu corpo esboçou com aquela proximidade. A atração a deixou desconcertada, sem forças para buscar uma posição que impedisse o toque de suas peles:

- Manigold retornou? – perguntou sem deixar de encarar o lago.

- Sim. – Aiolia murmurou . – Contamos o que você nos disse e ele... Ele disse que Ilías realmente está morto.

Marin sentiu enjoo pela confirmação. Ainda achava que reles políticos não conseguiriam orquestrar uma perseguição eficiente contra um guerreiro dourado. Contudo os herdeiros de Câncer tradicionalmente tinham habilidades que envolviam o destino de todas as almas:

- Manigold o viu? – perguntou, ocultando o restante da frase sombria. Fitou o belo perfil do loiro e Aiolia não se virou para respondê-la:

- Sim, ele desconfiava antes e por isso se apressou em ir para Delfos. Agora tem certeza. Disse que Ilías já passou pelo barqueiro.

Marin tocou seus dedos:

- Sinto muito. – Sussurrou e sentiu-o retribuir o toque.

Oficialmente ele seria o Cavaleiro de Leão agora, mas onde estaria a armadura? E Aiolos? E a criança? Não ousou perguntar nada, a amazona parou de observá-lo e voltou seu olhar para a paisagem. Contentou-se em demonstrar seu apoio no silêncio da chuva, a conexão física estabelecida nos dedos entrelaçados. Após um tempo, Aiolia suavizou o aperto em sua mão e a fitou:

- Quando o fogo de Héstia apagou no Templo de Apolo eu nunca imaginei que poderia ser um aviso. Não de uma guerra iminente. Será que Ilías ignorou algum sinal também? Não é estranho que os oráculos avisaram Sisifos tarde demais?

- Os deuses – ela sussurrou corrigindo-o – Os deuses avisaram os oráculos. Normalmente não se costuma ter um padrão nas mensagens. Cada Templo canaliza uma mensagem específica. Que eu saiba mensagens com um tempo sincronizado são raras e...

- Atena. Quando anunciaram a vinda de Atena... o dia, a hora. Até a frase foi padrão. - Justiça... Marin não sabia muitos detalhes sobre esse anúncio e percebeu que os dedos dos dois se mantinham entrelaçados, dessa vez muito mais forte. – Todos os oráculos anunciaram que a deusa retornaria em forma diferente.

A ruiva observou um clarão no céu e murmurou:

- Você acha que foi algum ... deus que atrapalhou essa interação dessa vez? Que talvez esteja provocando tudo isso?

- Eu me lembro bem quando Ilías recebeu a mensagem da pítia, a mensagem sobre Atena foi muito clara, tão específica que conseguimos identificar as meninas em poucos dias. Se todos os templos receberam a mensagem, todos os deuses estão de acordo... O problema não são eles, são os homens sem fé.

Marin respirou fundo:

Um raio pode cair em mim agora por falar isso, mas você sabe que tudo poderia ser bem mais simples se eles aparecessem e por conta própria se livrassem dos motins. Mas eles não fazem, não é? Por capricho, por seja lá qual foi o motivo que afastou o Olimpo de nós... Algum deles pode ter mudado de ideia e...

- Ora, isso não é hora para conspirações – a voz debochada de Manigold surpreendeu o casal e ambos deram um passo para trás rompendo as mãos entrelaçadas e derrubando a coberta que os unia. O Cavaleiro exibiu um sorriso astuto observando o tecido no chão e o pegou. Esticou-o fingindo limpar a poeira e deu a Aiolia – Você não deveria estar de repouso? Sisifos está te procurando.

- Eu estou bem. Você mesmo me falou isso. – O loiro respondeu, paciente com o questionamento. Pegou o cobertor e o colocou novamente em Marin. Antes que ela pudesse protestar, se afastou e entrou no Templo, declarando – Já volto.

Marin olhou para o cobertor que a envolvia, sem saber muito bem se seu maior incômodo era o olhar malicioso de Manigold ou o frio que sentia agora que estava longe do futuro Cavaleiro de Leão:

- Eu trouxe frutas, não sei se você viu entre os pergaminhos.

A ruiva forçou um sorriso:

- Não vi, nem pensei em comida. Mas obrigada.

O moreno a encarou, sabia que estudava suas feições, talvez formulasse alguma frase cínica ou algo para completar sobre a conversa que ouvira:

- Você vai conosco para Delfos? Devemos partir assim que amanhecer.

- Bem, - a informação não a surpreendeu, já esperava que seriam esse os planos. Se aproximou do guerreiro para responder - Sinceramente não sei. Eu deveria levar Aiolia até os homens de Dohko, mas acho que deixá-lo com um outro Cavaleiro de Ouro já cumpre o objetivo.

- Não é uma boa ideia nos separarmos agora. Sabe o que eu acho? Que podemos fazer uma visita para Mayura, é caminho mesmo. – deu de ombros - Te deixamos lá, reunimos informações, talvez outros cavaleiros, e seguimos viagem.

A sugestão coincidia com o que Marin havia pensado anteriormente. E por que, então, na voz de Manigold o plano soou como uma péssima ideia? Sabia que ele não era um nobre comum, não apenas sua aparência física o diferenciava como um descendente de amazona, mas também se lembrava daquele rosto nos rituais das estações. Ontem não o havia identificado com Sisifos, porém, agora que ele citou o nome de sua mestra, soube que esse era o pai de Ikki, o filho primogênito de Mayura. Cruzou os braços ao se lembrar da confusão armada no último ritual:

- Não sei se é uma boa ideia. Delfos continuará sem liderança?

- Ah, tenho "líderes" o suficiente lá para manter o lugar protegido. E não precisa ter medo, nós 3 aqui somos de confiança e Sisifos sabe o caminho tanto quanto eu.

Marin o encarou seriamente. Ele tinha todo o direito de querer rever sua criança quando tivesse a chance, mas pelo temperamento de sua mestra, desconfiava que ainda restariam uns meses, talvez anos, para que o cavaleiro fosse bem-vindo novamente na Vila. A regra de ouro para se relacionar com uma amazona é respeitar o seu "não", especialmente se tratando de um ritual de estação. Manigold não aceitou sua derrota para outro cavaleiro e apenas Dohko, um homem, conseguiu acalmá-lo e tirá-lo de lá. Talvez Mayura o fizesse também, não duvidava que enfrentaria um cavaleiro de ouro com poderes similares, mas estava muito ocupada com sua outra escolha para dar atenção aos caprichos de seu antigo amante:

- Eu lembro de você. Do ritual de verão. – Murmurou receosa com sua reação imprevisível. – E se eu lembro, imagine as anciãs. Ou Mayura. Talvez seja melhor aguardar um informante em Delfos e...

- Olha, eu sei que fiz merda – disse com um sorriso impassível, seus olhos tristes destoavam daquele orgulho fingido – E exatamente por isso que preciso ir. Com tantas traições, não quero arriscar morrer sem ver meu filho de novo. Ou esclarecer tudo com Mayura.

O pedido de desculpas oculto na resposta a deixou tranquila e se sentiu péssima por simpatizar mais com ele do que com sua própria mestra. Imaginou a dor que sentirá quando descobrir que Mayura está grávida do último ritual. Será que ele cometeu o erro de jurar algum tipo de fidelidade a amazona?

Shaina comentou por dias a surpresa de todos quando a Amazona de Pavão escolheu outro nobre para aquecer sua cama. Desde antes do nascimento de seu primogênito, tradicionalmente Mayura escolhia o Cavaleiro de Câncer e muitas anciãs passaram a debochar daquele apego; por ser a líder, ela deveria servir de exemplo, usufruir ao máximo a liberdade de escolha que elas tinham.

Marin nunca tinha reparado nos sujeitos que se repetiam nas festas, estava sempre ocupada cuidando das crianças ou preparando os adereços e comida. Prestar atenção nas fofocas não fazia seu feitio. "Mas ele o escolheu por 4 anos seguidos, como você nunca reparou?!" lembrou-se da voz revoltada de Shaina e sorriu complacente ao pensar que não teria muita paciência em escolher um novo homem por estação. Arriscar uma nova conexão a cada ritual seria exaustivo, especialmente agora que percebeu o que era realmente se sentir atraída por alguém. Ah, sim, podia ser avoada em relação a vida amorosa das demais amazonas, contudo já tinha consciência que havia algo de diferente acontecendo entre ela e o herdeiro de Leão.

Observou a chuva que finalmente começava a acalmar e, sem fitar o amante de sua mestra, murmurou:

- Ikky pergunta por você. Vai gostar de te rever.

O gotejar tranquilo da chuva foi a única resposta que ouviu por um tempo até que o Cavaleiro se retirou dizendo em tom baixo:

- Obrigado, Marin. Mesmo.

Sorriu por ter coragem o suficiente de falar aquilo e também de levar os três cavaleiros para um dos locais mais bem vigiados da Grécia. Não fazia ideia de como Mayura reagiria, mas nada de seu drama pessoal com Manigold era prioridade agora, certo?

Pensou na Armadura de Águia e temeu quais regras poderiam tirar aquele objeto dela. Mesmo vindo a seu encontro, não havia disputado a armadura oficialmente. Talvez até mesmo o objeto a renegasse agora que o defensor de Apollo estava a salvo. Tsc, lembrou-se da promessa de retorno do leonino e apressou os passos para o cômodo cheio de pergaminhos. Evitar ficar sozinha com Aiolia seria o mais esperto a se fazer, especialmente agora que conviveriam com o olhar apurado das anciãs amazonas.

Mayura: Amanzona de Pavão na série Santia Shô. Aqui, como vocês já leram, aqui é a mestra de Marin, Shaina & outros e sim, mamãe do Ikki (e, lógico, será de quem mais?!). Quem já leu algo da personagem deve ter entendido como foi irresistível fazer essa ligação com o rapazito que ressurge das cinzas.

Manigold: Cavaleiro de Câncer em Lost Canvas. Nenhuma surpresa em relação aos poderes dele em Lost, é bem o que vemos na série original com o Máscara da Morte.

Ilías: Cavaleiro de Leão em Lost Canvas Gaiden.

Esse é um dos meus capítulos favoritos até agora :)