XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX

O Presente de Artêmis

VII

Sisifos

Quando criança, Sisifos visitou a Vila das Amazonas junto de seu pai e irmão mais velho. Lembrava-se da sensação de ser constantemente vigiado, mas nada foi tão hostil como agora. Percebia em cada olhar de repulsa das amazonas e nas carrancas das anciãs que aquilo era mais que preocupação com a guerra eminente. O problema era o Cavaleiro de Câncer. Ninguém tirava os olhos dele, nem mesmo quando Marin se pronunciava a cada árvore, colunas e portas que ultrapassavam. Justamente ele, um guerreiro que morou ali, não parecia ser bem-vindo.

Imaginou como seria se, subitamente, as amazonas resolvessem implicar com os outros homens da trupe. Não sairiam dali com vida.

Fitou Aiolia e viu seu deslumbre ao avistar o grandioso Templo de Artêmis. Ele estava acostumado com o porte dos demais templos espalhados por toda a Grécia, mas esse se destacava pela surpresa. Sua bela arquitetura era ocultada pelas árvores e desníveis da floresta. A angústia apertou seu coração. Eles poderiam ter vindo aqui antes, com Ilías, com Aiolos, em uma ocasião de festa. Talvez até mesmo em um ritual de estação para honrar a deusa irmã de Apolo. Agora tudo mudou:

- Marin? – uma voz fria ecoou no templo assim que adentraram. Buscou rapidamente a origem da voz e avistou uma figura feminina logo ao centro do espaço. Estava em pé, à frente de uma cadeira (trono?) de mármore, e usava uma armadura prateada que reluzia os poucos raios de Sol que entravam no lugar. Não teve dúvidas, aquela era Mayura, a temida líder de prata. Fitou seus olhos cor de gelo e notou que ela não deixava de olhar a única amazona do grupo. Esperava uma reação diferente da amante de Manigold. – Havia três cavaleiros para resgatar em Atenas?

A voz arrogante não pareceu assustar Marin. A ruiva deu um leve sorriso e se aproximou:

- Os cavaleiros de Dohko não apareceram e encontramos Sisifos, o irmão de Aiolia, e Manigold na estrada e...

- O Templo de Delfos foi atacado - Manigold tentou completar o que Marin falava, mas Mayura não deixou, levantou a mão claramente pedindo silêncio. Sisifos não duvidou que o plano do Cavaleiro de Câncer era chamar a atenção da amazona com aquela interrupção, mas falhou. Mayura não o fitou:

- Cavaleiros, vocês são bem-vindos, - disse em um tom mais ameno - mas preciso falar com a minha amazona primeiro. Sozinha.

Ela se afastou a passos largos até uma das portas que circundavam o salão. Murmurou algo para o ancião que estava de vigia ali e esperou Marin se aproximar para se retirarem juntas. Aiolia o observou confuso, claramente querendo fazer algum comentário ferino, mas Sisifos o desencorajou murmurando:

- Elas têm suas próprias regras.

- É, muitas regras... – disse Manigold com uma expressão de asco.

O guerreiro mais jovem pareceu não notar o cinismo daquelas palavras e se afastou dos dois, entretido com as esculturas que os circundava. Sisifos aproveitou a privacidade e perguntou no menor volume que conseguiu:

- O que você fez com ela? Achei que vocês eram, bem...

Manigold cruzou os braços:

- Você sabe que isso não são esculturas, certo?

Sisifos observou o que ele apontava e foi então que percebeu que, atrás das esculturas em homenagem aos deuses, estavam amazonas encapuzadas. Seguravam lanças e observavam o nada concentradas em se manter inertes próximas à parede. É, essa conversa ficaria para depois.

Escutou um barulho de porta e passos correndo, antes que Sisifos conseguisse visualizar o que estava acontecendo, Manigold já se ajoelhara para abraçar a pequena criança que adentrou no recinto. Os fios azulados dos dois se misturavam no abraço e não demorou a concluir que aquele era o filho do Cavaleiro de Câncer. Sorriu e percebeu que Aiolia fazia o mesmo no outro extremo do recinto. O amigo nunca lhe confidenciou que sua participação nos rituais lhe deu algum fruto. Sabia que os dois se afastaram depois que assumiram as posições exigidas pela família, ele no Templo de Apolo em Delfos e Manigold nas terras de Deméter em Elêusis. Não imaginava que guardaria essa informação, mas até mesmo agora, ao segurar a criança no colo, limitou a apresentá-la pelo nome sem mencionar que era seu filho:

- Ikky, esses são Sisifos e Aiolia. Herdeiros de Sagitário e Leão.

- Herdeiros? – o rosto debochado da criança era semelhante a expressão que comumente via no rosto Manigold – Quer dizer que eles ainda não são Cavaleiros como você?

- Não é bem assim. – o Cavaleiro de Câncer riu um tanto sem graça com a pergunta, antes que pudesse continuar, a mulher que trouxe a criança até ali o interrompeu convidando-os a acompanhá-la. Ao contrário das demais no cômodo, não usava máscara e exibia olhos cansados e indiferentes à presença de Manigold.

Algo em sua presença o fez, finalmente, relaxar. Bem, o cheiro de comida que invadia o templo provavelmente colaborou para isso também. Passaram por um salão repleto de crianças: meninos e meninas comiam animados e Sisifos admirou como os novinhos obedeciam às crianças que eram um pouco mais velhas que eles. A amazona levou os cavaleiros até uma mesa vazia e os convidou para comerem à vontade. Manigold e Ikky começaram a devorar tudo o que viam pela frente e Sisifos fitou Aiolia. Não queria lhe perguntar toda hora se estava bem, sabia que o aborreceria, contudo, o veneno ainda o preocupava. E sua reação sobre os últimos eventos também.

O irmão mais novo sempre teve um relacionamento mais fluido com Aiolos, os dois tinham um elo natural para conversar, treinar e até mesmo ficar em silêncio. Aiolos saberia exatamente o que o garoto estaria pensando agora, com o olhar distante e fingindo que se interessava por alguma comida.

Seus olhos esverdeados pareceram ganhar vida subitamente e Sisifos seguiu o que ele observava. Mayura e Marin adentraram o recinto e se aproximavam dos dois.

A líder de prata fitou Sisifos e Aiolia por alguns segundos e então voltou o olhar para Ikky. Como se reconhecesse as vontades da amazona, a criança murmurou:

- Você disse que eu poderia ficar com Manigold, não quero ir embora agora.

Mayura respirou fundo e só então o Cavaleiro de Sagitário percebeu a expressão preocupada no rosto de Marin. A hesitação das duas amazonas era palpável, estavam se preparando para dar más notícias:

- Você poderá vê-lo mais tarde, Ikky, agora vá comer com os demais – ela ordenou e ignorou o som bufante que o menino fez ao descer do banco e se afastar.

A mulher sentou-se casualmente ao lado do Cavaleiro de Câncer e Sisifos notou a tensão palpável entre o casal. Não estava acostumado a esse tipo de drama no Templo de Delfos, mas lembrava-se bem das tensões entre seus pais quando brigavam e queriam disfarçar para a família que estava tudo bem na hora de se sentar à mesa. Por um momento achou que ela se serviria, mas simplesmente colocou o suco na frente de Marin, incentivando-a a se alimentar também:

– Bem, não temos novidades sobre os Cavaleiros de Leão e Sagitário. Kardia apenas nos informou que o fogo se apagou e é possível ver a distância que nada restou próximo ao Templo de Apolo... - respirou fundo e cravou o olhar em Sisifos. Reconhecia-o como o novo líder da família - Não foi só sua família que sofreu esse ataque, Sisifos. O mesmo aconteceu na Ilha de Creta, algumas pessoas conseguiram fugir e disseram que a criança protegida pelo Cavaleiro de Touro está morta. Assim como a maioria dos discípulos do Templo. Tudo indica que o último herdeiro de Touro foi capturado, está vivo. Não sabemos o que vai acontecer com ele. Como falei com Marin, receio que não é bom deixar Delfos sozinho por mais tempo, porém sugiro que Aiolia fique aqui por precaução.

Manigold não disfarçou a surpresa com aquela sugestão e antes que pudesse murmurar qualquer coisa, Sisifos se adiantou a responder do jeito mais educado possível:

- Agradeço a oferta, mas isso não será necessário, é melhor ficarmos juntos agora e..

A líder de prata riu impaciente fazendo-o se sentir como uma criança:

- Touro, o guerreiro dourado mais resistente, sucumbiu ao ataque, Leão era o dourado mais forte... Você e Aiolia nem ao menos tem a armadura. Você sabe que agora sua principal responsabilidade será proteger Delfos, acha mesmo uma boa ideia deixar um fugitivo de Atenas por lá?

Ele fitou o irmão mais novo. Aiolia não exibia resistência por aquela proposta, talvez fosse a tristeza ou talvez a exaustão, estava indiferente ao seu destino naquele momento. Não queria perdê-lo também, não queria se afastar nesse período tão turbulento, mas Mayura estava certa. Colocou a mão em seu ombro:

- Tudo bem se você ficar?

O loiro assentiu e forçou um sorriso:

- Vão ser só alguns dias, os Cavaleiros de Ouro vão resolver isso rápido.

Manigold coçou o rosto, claramente incomodado com aquela frase tão otimista. Murmurou:

- E eu?

- Você? – Mayura o encarou, seu tom gélido fez todos da mesa se entreolharem desconcertados. Menos Manigold, claro:

- Eu posso ir amanhã?

A líder das amazonas respirou fundo e seu olhar e voz ficaram mais suaves:

- Você sabe que não é uma boa ideia, as anciãs...

- Posso pedir desculpas para cada uma delas. Para Artêmis se vocês quiserem. Eu só preciso de mais tempo com Ikky. Nós estamos em guer...

- Tudo bem. – Mayura o interrompeu. Sisifos não sabia se ela fez isso simplesmente para não lidar com questões pessoais na presença de todos ou se realmente concordava com o pedido. Se levantou e disse – Você e Sisifos podem partir amanhã. Vou agora ver se o prisioneiro de vocês contou alguma coisa, mas tarde nos falamos.

A amazona loira não deu espaço para qualquer outro comentário, partiu rapidamente e não tardou para que Ikky retornasse a mesa. A presença do garoto fez os guerreiros esquecerem um pouco de sua dor e cansaço, motivando Sisifos a aproveitar as próximas horas que tinha com o irmão.

Quando chamou Aiolia para caminharem juntos, seu único intuito era demonstrar que ele estava ali para qualquer coisa que o irmão quisesse conversar. Preocupados com suas responsabilidades acabaram conversando sobre o espólio familiar que ficou em Atenas, como protegeriam o restante, como Delfos poderia ficar a salvo.

Horas se passaram até que Mayura e Marin retornaram com informações sobre o prisioneiro. Foi curioso como ele resistiu a todo encantamento ou poção que o estimulou a falar a verdade. Manteve-se firme e em silêncio o que confirmava a suspeita que não era um guerreiro qualquer. Os políticos de Atenas tinham ciência daquele cosmo nocivo que ele emitia? Será que fizeram acordo com alguma das forças que juravam vingança aos deuses do Olimpo?

Sisifos acordou muitas horas antes do amanhecer, ansioso para levar tais indagações aos oráculos e sábios de Delfos. As informações trocadas no Santuário de Apolo não poderiam ser usadas contra seus frequentadores, mas em tempos assim, esses privilégios não existiam. Se alguém trouxe qualquer informação sobre os homens que tramaram trair os deuses, ele haveria de saber.

Já estava com tudo pronto para partir quando Manigold o procurou nas proximidades do Templo de Artêmis. O amigo estava com uma expressão taciturna, uma que ele nunca vira antes. Não sabia em qual local o acomodaram para passar a noite, mas imaginou que havia sido com Ikky. Ou com Mayura:

- Você conseguiu dormir? – perguntou observando o rosto abatido do amigo.

- Não - ele deu um sorriso amargo – mas consigo correr até Delfos se for necessário.

O Cavaleiro de Sagitário queria lhe perguntar o que o perturbava, mas considerando tudo que estava acontecendo, imaginou que seria o afastamento do filho:

- Conseguiu se despedir de Ikky?

- Sim. E Aiolia?

- Uma amazona lhe deu um elixir forte para garantir que a total transmutação do veneno. Ele dormiu profundamente... Escolhi deixá-lo sem me despedir.

Manigold assentiu e ambos observaram as guerreiras que os vigiavam na entrada do Templo de Artêmis. Antes que pudesse perguntar como sairiam dali, notou Marin se aproximando com seus cavalos. Pode ver um esboço de sorriso em sua face e sentiu um certo alívio por ser ela a responsável por guiá-los. Percebeu que, sem Marin, ele não estaria tão tranquilo em deixar Aiolia ali. Podia ver que o irmão confiava nela, tinham uma afinidade natural que faria uma grande diferença em sua adaptação.

Quando os primeiros raios de Sol começaram a romper o horizonte, a amazona parou e lhes entregou as rédeas dos animais.

- Bem, ninguém vai atacar vocês a partir daqui... - Manigold soltou um som de escárnio e montou em seu cavalo. A guerreira de Águia deu um sorriso gentil, como se compreendesse seu mau-humor, e se virou para Sisifos, acariciando a crina de seu animal – E o Cavaleiro de Câncer sabe o restante do caminho.

- Obrigado. - Queria lhe falar o quanto estava agradecido por tudo que fez por seu irmão, que confiava nela, mas, ao fitá-la, sentiu que era desnecessário. Ela já sabia.

Se afastaram cautelosos na névoa que pairava em toda montanha. Manigold resmungava a cada barulho diferente da floresta e até mesmo seu cavalo começou a fazer sons com a boca, como se estivesse em sintonia com seu péssimo temperamento:

- Afinal, Manigold, você vai me falar o que está acontecendo? Que mau-humor é esse?

- Acho uma ideia terrível Aiolia ficar aqui.

Sisifos esperou que ele explicasse sua indignação, mas não. Realmente o Cavaleiro de Câncer ficava insuportável de mau-humor:

- Não vi nenhuma anciã olhando para ele com a mesma hostilidade que te encaravam...

Manigold o massacrou com o olhar e atrasou seu cavalo para ficarem próximos. Falou baixo:

- Isso você percebeu, mas não notou como... ah, esqueça, estamos de luto. Não quero brigar com você.

Antes que pudesse se distanciar, Sisifos tocou em seu braço e falou, impaciente:

- Diga.

- Você não notou como seu irmão fica perto de Marin?

O herdeiro de Delfos afrouxou o toque e lembrou da conversa que escutou sobre um beijo roubado. Havia imaginado que isso fizera parte da trama para trazê-lo para fora de Atenas. Mas se foi depois... Sisifos empertigou o corpo e afirmou:

- Ele não vai quebrar nenhuma regra.

- A cada solstício e equinócio eu segui as regras. Mas isso não me impediu de sempre ir embora daqui com um vazio no peito.

Sisifos pôde ver uma mistura de frustração e remorso em seus olhos. Sussurrou:

- Você ama Mayura – disse e ficou um tanto desconfortável em pensar que Manigold nunca lhe contou que teve um filho desse amor. – Ikky um dia te acompanhará, poderá ser seu herdeiro em Elêusis. - Falou, como se isso deveria ser o suficiente para confortá-lo.

- Mas ela não virá junto. E agora... Ela escolheu um sujeito ridículo na última estação. Nenhuma regra, nenhum dever passou pela minha cabeça quando vi os dois fazendo os juramentos de Artêmis. Eu... eu estraguei tudo. Se Dohko não estivesse presente, me segurado, eu teria impedido. Eu considerava aqui o meu lar, e eu estraguei tudo. E agora ela está grávida de outro homem – Sisifos retesou o corpo, sem saber muito bem como reagir ao ver o amigo tão vulnerável. Sem saber muito bem se deveria lhe perguntar como ele descobriu isso. Havia se encontrado com Mayura naquela noite? – Veja bem, um conflito se espalha por toda a Grécia, perdemos a encarnação de Atena, nossos amigos, seu irmão... Mas nada me deixa mais angustiado do que deixar Mayura aqui. De novo.

- Você a ama...- Sisifos repetiu, como se aquilo bastasse para aceitar sua bagunça emocional.

Manigold sacudiu a cabeça e deu um sorriso cínico:

- Isso não deveria ser desculpa para eu querer quebrar as regras, mas é maior do que eu... E pode acontecer com Aiolia.

O guerreiro de Apolo pensou nas vezes que se sentiu atraído por mulheres que o seduziram e como lidou com isso sem deixar que virasse amor ou que quebrasse qualquer tipo de juramento. A verdade é que nenhuma delas lhe despertou um interesse real. Ele amava o que fazia e achava difícil que qualquer pessoa pudesse substituir isso, que pudesse provocar nele a angústia que Manigold sentia. Incerto sobre o temperamento do irmão mais novo, disse, mais como um pedido aos deuses do que uma afirmação:

- Ele não vai se apaixonar.

- Vamos torcer, Sisifos.


Mayura: Amanzona de Pavão na série Santia Shô. Aqui, como vocês já leram, aqui é a mestra de Marin, Shaina & outros e sim, mamãe do Ikki (e, lógico, será de quem mais?!). Quem já leu algo da personagem deve ter entendido como foi irresistível fazer essa ligação com o rapazito que ressurge das cinzas.

Manigold: Cavaleiro de Câncer em Lost Canvas. Nenhuma surpresa em relação aos poderes dele em Lost, é bem o que vemos na série original com o Máscara da Morte.

Ilías: Cavaleiro de Leão em Lost Canvas Gaiden.

Kardia: Cavaleiro de Escorpião em Lost Canvas

*obs: Amo tanto o Manigold que poderia fazer um fanfic só dele com a Mayura hahaha...