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Shaina & Marin

- E ela simplesmente apareceu? – Shaina questionou olhando para a armadura de Águia.

- Sim, como se reagisse ao cosmo... – Marin pegou uma colherada de mel para passar em seu pão e completou sua resposta – e as peças encaixaram perfeitamente no corpo. Ainda não entendo como isso acontece.

A garota mais jovem manteve o olhar da caixa de prata:

- Incrível... será que vou ser escolhida assim também?

Marin sorriu, feliz por as duas conversarem com mais intimidade. E daí que na noite anterior Apolo contou sobre o paradeiro de Atena? Tudo que Shaina queria saber tinha relação com os benefícios de se ter uma armadura, parecia que todo o resto da guerra a entediava profundamente.

Após uma boa noite de sono, ambas acordaram mais dispostas a compartilhar detalhes dos últimos anos. E com fome. O desjejum continha alimentos variados, há meses Marin não comia bem, a região de Dohko sofreu com a escassez da guerra. Observou a outra amazona, Shaina não estava abatida como no dia anterior e a forma como comia demonstrava que a fraqueza da febre havia passado:

- Eu emagreci demais... – disse, com a boca cheia de castanhas – nem sei se vou conseguir aguentar lutar com uma armadura.

- Você acabou de socorrer o herdeiro de Touro, você não enfraqueceu tanto assim... Agora que você vai retomar os treinos em casa, seu corpo ganhará mais força.

- Nós podemos treinar. – Shaina propôs, sorridente - Quero ver você usando essa armadura.

Antes que Marin pudesse responder, Mayura entrou no cômodo. Pelas suas vestes formais, já havia participado de alguma reunião no raiar do dia. Marin se sentiu grata por não ser acordada para participar de mais uma discussão entre os Cavaleiros Dourados.

A loira tirou a máscara e se sentou ao lado de Shaina. Seu rosto estava cansado, mas demonstrou brandura ao perguntar:

- Sem febre?

Shaina negou com a cabeça.

- Ótimo. Aldeberan estava melhor agora cedo também. – Ela pegou um pêssego e observou sua superfície com atenção. – Sei que vocês querem ir para casa logo. Acreditem, se a situação fosse diferente, já estaríamos arrumando nossas coisas para irmos.

Shaina cruzou os braços. Estavam tão próxima da Vila das Amazonas.. não podia acreditar que a obrigariam a esperar mais para regressar para a casa.

- Os guerreiros dourados são inexperientes com o tipo de subterfúgio que essa guerra exige. Eles confundem coragem com orgulho e acabam se perdendo para elaborar estratégias a longo prazo, enquanto nós... - Mayura deu de ombros – Nós somos treinadas desde cedo para tirar o melhor proveito de qualquer situação.

As palavras pesaram no ambiente. Aquela descrição comprovava o que muitos pensavam sobre as amazonas. Imprevisíveis, manipuladoras e... Shaina respirou fundo, não se importava com essa reputação, até gostava, contudo... Ah, ela só queria ir para casa. Olhou Marin e se sentiu aliviada, a ruiva também estava desapontada com o rumo que aquela conversa tomava:

- E o que vocês decidiram? – a mais jovem do trio questionou apoiando o rosto com as mãos.

- Sisifos ignorou todas as ressalvas e assumiu a responsabilidade de procurar Atena em Olympia. Achamos que o ideal é que ele seja acompanhado por uma guerreira – Mayura olhou para Shaina – Um casal tende a levantar menos suspeitas. Imagine dois dourados juntos... E inexperientes em desaparecer em uma cidade.

Ela queria citar os guerreiros de Esparta e o quanto Kardia parecia muito experiente em orientar seus guerreiros na arte da espionagem. Imaginou que aquilo desafiaria Mayura a comprovar como seu plano era mais eficiente do que qualquer plano de Kardia e... Ah, que perda de tempo. Nitidamente Mayura queria que as amazonas continuassem a participar daquela guerra inútil enquanto Shaina... Bem, Shaina só queria ir para casa:

- Então de serva eu virarei esposa de um ...?

- Comerciante. Vocês levarão algumas armaduras de couro para o leste. Sisifos te explicará os pormenores, vocês vão partir em alguns dias.

- Certo - Shaina continuou a fitá-la, aguardando o que Mayura planejava - E é apenas isso?

A Amazona de Pavão sorriu:

- Você e Sisifos acharão a deusa Atena e a trarão em segurança para Delfos. Não tem nada de "apenas" nesse plano.

- Se for para a criança conhecer as amazonas, que seja assim... vendo uma em ação. – Marin murmurou, explicitando o elo que Mayura pretendia criar.

- Hummm – Shaina pareceu desinteressada – E o herdeiro de Delfos é fácil de lidar? Ou vai ser teimoso como Aldeberan?

A Amazona de Águia observou como o rosto da garota se iluminou ao dizer o nome de Aldebaran. Não parecia realmente aborrecida pelo guerreiro ter questionado sua estratégia. Havia admiração em sua expressão e algo novo, algo que Marin não tinha visto antes no rosto de Shaina:

- Acho que Marin terá mais trabalho que você em relação a isso. Aiolia administrará o Santuário de Delfos e o Sisifos sugeriu que você, Marin, o ajudasse nessa tarefa. Já que vocês tem uma afinidade natural. – Mayura não a olhou quando falou a última frase. Conteve-se em morder, finalmente, o pêssego, esperando paciente pelo protesto da pupila.

- Realmente tem que ser eu? Não pode ser outra amazona?

Shaina estranhou aquela reação. Em anos de treinamento, nunca viu a amazona questionar sua mentora de forma tão temperamental. Marin era obediente, facilmente adaptável, raramente questionava uma ordem. Olhou para as expressões das duas mulheres, esperando ansiosa para o que viria a seguir:

- Vocês têm um elo, Marin. Aiolia confia em você e vai precisar de toda ajuda possível.

- Pelo que você disse ontem à noite eu...

- Vocês têm um elo. É importante que você o mantenha, só não desperdice sua fertilidade sem a benção de Artêmis.

Shaina fitou, Marin. Então ela e Aiolia já haviam participado de um ritual? Não... pelo rosto de Marin ela continuava fugindo dos ritos. E, pelo visto, de Aiolia. Oh, era divertido vê-la naquela situação, totalmente acuada pela forma direta com que Mayura falava:

- Ele é grato por toda nossa ajuda desde Atenas – Marin disse, com um tom menos rebelde do que antes.

-Não questiono a gratidão dele. – Mayura respirou fundo e se levantou. – Só estou te fazendo um pedido para que vocês se mantenham próximos. Nós nunca fomos tão próximos do Santuário de Apolo como agora. É importante que esses laços sejam fortalecidos. – a Amazona de Pavão se afastou ignorando o olhar das duas pupiplas - Preciso me despedir de Ikky , aproveitem o resto da manhã e descansem.

Shaina esperou um pouco e então disse:

- Então, você e Aiolia... Isso foi uma ordem para vocês... ahm...

- Somos amigos.

- Como Mayura e o Cavaleiro de Câncer?

- Somos apenas amigos. – Marin repetiu, sem pestanejar.

- Sei que fiquei bastante tempo fora, mas a forma como Mayura falou pareceu uma... ordem para que vocês sejam mais que amigos.

A ruiva encostou na cadeira e olhou para a janela logo atrás de Shaina. As montanhas exuberantes seriam seu lar agora, não seria tão ruim assim acordar todos os dias com aquela visão. Não via problema com a presença de Aiolia, mas o comentário de sua mestra a deixou extremamente constrangida. Outros guerreiros pensavam como ela? Tentou por tanto tempo manter sua atração escondida, achava que fora discreta. Que droga. Fitou Shaina e então percebeu como aquela preocupação era inútil perante o destino que sua amiga enfrentaria.

- Sei que você queria ir para casa, Shaina, sinto muito.. Mas será uma honra resgatar Atena .

- A criança indefesa, você quis dizer. - A amazona deu de ombros. - Quase propus para trocarmos de lugar, mas Mayura estava bem determinada.

Marin sabia que ela estava desanimada. Empática a sua frustração, apontou para a armadura de Águia:

- Bem, já que ainda temos mais um tempo de descanso... Vamos treinar?

Shaina sorriu.