CAPÍTULO 11

Aubrey Hall


Para felicidade de Ana Louise, eles não conversaram sobre suas marcas depois que saíram, finalmente, do escritório. A viagem até a casa ancestral dos Bridgerton, ocorreu sem problema a tarde.

E os dias se seguiram de forma tranquila.

Os rapazes mal haviam voltado as instituições de estudo e Edmund já tinha escrito cartas... no plural.

Naquela manhã, o casal estava sentado no escritório de Anthony, onde a esposa repassava com ele os tópicos de estudo que a babá abordaria com a jovem Charlotte nos próximos meses quando as massivas chegaram. E, para surpresa de ambos, Edmund escreverá não apenas para o pai, mas para a madrasta.

Ambos abriram primeiramente a carta enviada pelo herdeiro do vis condado. Não demorou muito para que eles demostrassem graça diante das palavras que Edmund escrevera para cada um.

-Seu filho é um cavalheiro completo, milorde. – comentou ela, mostrando um outro envelope menor, que viera dentro da carata que lhe fora direcionada – Fez questão de me escrever pedindo autorização para se corresponder diretamente com a Josephine. Segundo ele "não confio em meu pai para me manter a par de sua saúde e, perdoe me dizer, nem na senhora, já que se perde demais nos cuidados dele e por certo não irá ter tempo de me avisar com detalhes do que anda a ocorrer." – riu de forma modesta.

Não fora nem uma nem duas vezes que o jovem lhe chamara a atenção para a forma como ela sucumbia enquanto cuidava de Anthony. Era natural a preocupação dele.

-... "Tenho certeza que Josephine será uma correspondente mais confiável dentre todos vocês." – ela abaixou a carta olhando divertida para o marido – Eu deveria ficar ofendida. – concluiu.

Anthony balançou a cabeça em negação.

-Você vai precisar se acostumar com os homens Bridgerton. Nós somos muito diretos... e preocupados.

Ela acenou em positivo, se levantando.

-Avise a ele em sua resposta que dou meu consentimento, milorde. – fez uma pequena reverencia – Vou levar a carta para Josephine.

Ele assentiu, começando a ler uma segunda carta que abrira.

-Ah, sir. Philipe e Eloise devem chegar depois de amanhã. – disse quando a esposa alcançou a porta.

-Com as crianças? – um termo simplório para os gêmeos Crane, já que o casal já tinha seus 16 anos.

Ele fez que não.

-O menino já voltou para Eton, só virá a Amanda.

-Ah que bom, Josephine gostará da companhia. – balançou o pequeno envelope – Além das cartas de seu filho. – e com um novo aceno se foi.

A chegada de sua irmã coincidiu com notícias do inspetor que cuidava do caso de envenenamento. O trio de adultos se reuniu depois do jantar daquele para conversar sobre as não tão agradáveis novidades.

-O garçom que serviu o copo com veneno está morto. – disse Anthony, arrancando um olhar surpreso dos demais – Amanheceu morto na cela.

-Veneno? – perguntou o cunhado e ele fez que sim.

-Queima de arquivo. – resmungou a irmã – O que significa que o mandante sabe que estavam investigando um envenenamento. Contou para Ana Louise?

Anthony fez que não.

-Ela já se culpa pelo ocorrido. Não quero que se alarme mais ainda. Mesmo por que, o inspetor também afirma não ter conseguido nenhum indicio de que Jack Duhram tenha tido tempo de contatar o homem. Ao que parece, ele não estava na cidade até pouco antes da hora da recepção. – maneou a cabeça – Bom, ele acha muito difícil que tenha sido obra dele.

Eloise fazia cara de pensativa.

-Quem poderia ser então?

-Não faço ideia.

-Bom... – o olhar da irmã continha aquele brilho que ela trazia ao raciocinar - ...Talvez algum pretendente que não gostou de ter sido passado para trás... de novo.

Ele deu de ombros.

-O inspetor acredita que seja algum antigo arrendatário que tenha se sentido prejudicado em algum momento. – se remexeu um pouco – Mas, desde que assumi o vis condado, não me recordo de nada que possa ter gerado tamanho ódio.

-Talvez tenha alguma pista nos livros de registro. – comentou Phillip e, quando os irmãos voltaram seus olhos pare ele, continuou – Imagino que vocês mantenham o registro financeiro das propriedades. – Anthony fez que sim – Se algo mais sério aconteceu, mesmo antes de você ter assumir, estará nesses registros, ou pelo menos, algum indicio.

Era uma boa ideia. O que também os daria algo com o que trabalhar e não ficar naquela expectativa angustiante que ele fingia não lhe incomodar.

-Vamos começar a revisá-los amanhã mesmo! – disse Eloise animada.

-O que vamos começar amanhã mesmo? – perguntou a anfitriã com um sorriso, finalmente se juntando a eles.

Ouve um curto silencio até que Eloise tomasse a frente nas mentiras.

-A nos prepararmos para o baile de verão dos Berkshire.

Ana Louise piscou confusa. Voltou os olhos para o marido que deu de ombros.

-Não me lembro de termos recebido nenhum convite para algum baile de verão. – disse para a cunhada.

-Ah, mais vão. – falou Eloise prontamente – É que sou amiga da condessa de Berkshire, então já estou sabendo que haverá um baile de verão na propriedade deles esse ano. – deu de ombros.

Anthony, entendendo o desenrolar que a irmã produzia, entrou no jogo.

-Como a propriedade deles é vizinha a nossa, não precisaremos ir para passar alguns dias. – comentou – Vamos apenas para o baile.

Ela assentiu em concordância, enquanto se sentava, no sofá próximo ao dele.

-Não gosto muito da ideia de sairmos de Aubrey Hall. – disse finalmente.

-Vai ser só por uma noite. – ele comentou docemente – Não haverá problema nenhum.


Como Eloise previra o convite para o baile chegou em algumas semanas. Tempo no qual o recém formado casal já havia criado algumas de suas rotinas.

Eles costumavam tomar café juntos e ler as correspondências que recebiam no escritório de Anthony, mesmo que Ana Louise tivesse o seu próprio.

A noite, depois do jantar, a tradicional bebida dos homens eram compartilhadas com as mulheres também. E, quando estavam sem visitas, o casal se permitia aproveitar a companhia um do outro enquanto trocavam informações do dia relevantes a casa, propriedades e família.

Era uma boa vida. E tinha tudo para continuar a ser.

Na manhã do dito baile, Anthony seguiu para o pequeno cemitério da propriedade, para visitar o tumulo de Kate e contar-lhe como ia indo a vida de todos, coisa que ele costumava fazer sempre que estava em Aubrey Hall.

Para sua surpresa, porém, já havia alguém a visitar o local quando se aproximou.

Ana Louise segurava uma sorridente Marry em seus braços enquanto Charlotte, sentada na ponta do tumulo da mãe, exatamente como Anthony costumava fazer, parecia falar alguma coisa.

Ele se aproximou em silencio, para poder escutar lhes, claro, curioso.

-E então a senhora cuidou muito bem do papai até ele melhorar... – dizia a filha mais velha – Eu e a Mary gostamos muito dela, mamãe. O Eddy também. Milles que implica, mas ele é implicante mesmo, a senhora sabe.

-Não deve falar assim do seu irmão, querida. – disse Ana Louise.

-Mas ele é... e a mamãe sabe que ele é. – reclamou ela.

-Por isso mesmo, se todos sabem, você não precisa ficar repetindo. - a voz do pai fez o grupo se virar para ele em um sobressalto.

Mary se sacudiu em pulinhos no colo da madrasta, já querendo a atenção do homem que não se fez de rogado e a pegou assim que ficou próximo o bastante para isso.

-Bom dia, papai. – disse Charlotte com um sorriso – Não o vi no café da manhã hoje.

-Eu tive que sair cedo para resolver algumas coisas já que teremos que sair para a propriedade dos Berkshire no fim da tarde. – a filha abriu a boca – Não, você não pode ir.

Charlotte emburrou a cara.

Ana Louise sorriu para a menina antes de voltar os olhos para o marido.

-É uma surpresa vê-las aqui. – ele disse.

-A senhora nos traz aqui sempre. – foi a filha que respondeu – Para conversarmos com a mamãe.

O olhar curioso não se desviou do dela.

-Uma vez ela me contou que a madrasta dela sempre a levava para visitar o tumulo da mãe. – disse Ana Louise – Achei que ela gostaria de ver as filhas com frequência também.

Anthony sorriu, agradecido.

-Sim, tenho certeza que sim. – voltou os olhos para o mármore frio onde sua esposa estava sepultada – Os rapazes criaram esse hábito sozinhos. Ainda não tinha pensado em trazer as meninas... – olhou para a atual esposa – Obrigado.

Ela fez que não com a cabeça.

-Sua esposa sempre me tratou muito bem, milorde. Eu fico feliz de poder retribuir com as meninas. – esticou a mão para Charlotte – Que tal deixarmos seu pai conversar com sua mãe agora?

A garota fez que sim enquanto pegava a mão estendida.

Com um movimento mudo, Ana Louise perguntou se ele queria que ela levasse Mary também e ele fez que não.

Ela começou a se afastar com a mais velha das garotas quando ele a chamou novamente.

-Por Kate, também. – ele disse - Obrigado.


Quando estavam prontos para o baile, seguiram para as carruagens que levariam os cunhados, a filha eles dois e Josephine.

Amanda deu um sobressalto assim que a porta da carruagem que ela e Josephine se acomodariam se abriu e o grupo todo deu de cara com o casal Crane se beijando.

-Ah! Pai! Elô! – berrou a moça, cobrindo os olhos ao mesmo tempo que o pai e a madrasta se separavam.

-Desculpem... – disse Eloise retomando a postura por primeiro – Mas vocês estavam demorando demais.

-Claro... – resmungou o irmão ao final da fila de espectadores – Subam logo vocês duas, melhor não deixá-los sozinhos durante a viagem. – disse, colocando a mão no cotovelo da esposa e seguindo em direção a próxima carruagem.

Já no veículo em movimento, foi Ana Louise quem puxou a conversa.

-Suas irmãs... – ela começou, incerta. Era difícil a escolha de palavras que demonstrasse sua aversão mas, ao mesmo tempo, não ofendesse suas cunhadas – Elas parecem... gostar.

Ele careteou.

-Até demais. – bufou contrariado – Fico feliz em vê-las felizes, é claro, mas seria de bom tom não demostrarem ser tão felizes nesse quesito.

-Eu nunca entendi... – o olhar se perdia para as ruas que passavam pela janela da carruagem.

-Nunca entendeu o que? – ele estava curioso.

-Como uma mulher pode gostar... – deu de ombros - ...eu nunca gostei.

Mais do que isso, ele tinha certeza que ela, na verdade, abominava aquilo.

-É provável que a culpa tenha sido do seu falecido marido. – ele comentou.

Ela negou com a cabeça.

-Joseph dizia que a culpa era minha...

-Normalmente é o que dizem os incompetentes. – ele resmungou baixinho. Mas não baixo o suficiente para ela não ouvir.

A esposa lhe deu um sorriso amargo.

-Ele costumava dizer que eu não tenho sensibilidade onde deveria... – disse tristemente - Tinha um nome para isso.

-Você não é frígida, milady. – Anthony disse rapidamente.

-Não? E como sabe? – a expressão era de condescendência, ela simplesmente aceitava aquela condição como se fosse natural e isso o irritou.

-Eu simplesmente sei, como qualquer homem experiente saberia. – não pretendia deixa-la sem graça ao revelar que seus arrepios eram perceptíveis mesmo que ela cobrisse toda a pele.

Ela riu.

-Por que vocês homens tem tanta necessidade de se mostrarem tão conhecedores sobre nós, nessa área?

-Porque é para isso que fomos feitos. – ele respondeu, sem rodeios – Todo o resto é adereço. – sorriu de forma lasciva.

Ela voltou a olhar pela janela, mas agora sorria, parecendo achar graça do convencimento dele.

Anthony ficou feliz ao perceber que eles haviam desenvolvido intimidade suficiente para falar daquele assunto sem que ela o tratasse como a um inimigo. Ana Louise ficava confortável ao seu lado, mesmo que o tópico fosse aquele e isso o deixava mais tranquilo... e feliz.

Era de se esperar. Haviam passado juntos por tantos problemas naquele curto espaço de tempo em que estavam casados. E sempre que ele parava para pensar nisso, se sentia realizado ao ver o tanto que a relação deles se desenvolvera.

A única coisa que ainda lhe incomodava era o fato de saber que ela não havia sido uma mulher completamente realizada. E ela merecia ter sido feliz. Merecia ter se sentido amada verdadeiramente por um homem.

E pensar que foram tantos os que a desejaram e ela acabou se casando com um idiota que a reduzia a nada, simplesmente porque era incapaz de dar-lhe prazer.

Ela merecia mais.

-Eu posso te provar. – disse, a fazendo voltar os olhos para ele mais uma vez, a incompreensão estampada neles – Posso te provar que não é fria.

Ana Louise piscou algumas vezes, tentando entender o que ele dizia. Então se envolveu com as mãos, se auto abraçando, como se tentasse se proteger.

Ele forçara demais.

-Nosso contrato o proíbe de tocar em mim... – ela sussurrou.

-Eu não vou precisar tocar em você para fazer isso. – ele disse.

A esposa o olhou desconfiada.

-O que está pretendendo fazer, milorde?

Anthony deu de ombros.

-Se você acredita mesmo que é frigida, não precisa se preocupar.

Cerca de alguns minutos depois, a carruagem parou quando chegou ao seu destino, ele saiu primeiro e lhe esticou a mão para que ela se apoiasse ao descer. Como de costume, não soltou-lhe quando ela já estava segura no chão, apenas levou sua palma ao seu braço a fazendo enlaça-lo, para que começassem a andar juntos.

Mas havia algo diferente na ação, ela só não soube explicar o que.

Talvez uma malicia, embora ela sempre imaginara que a mesma viesse carregada de olhares impróprios, o que não acontecia.

Talvez um segurar um pouco mais firme, como se a quisesse lembrar da presença dele ao seu lado.

Não, também não era isso.

Não havia nada de diferente nas ações dele e, mesmo assim.

-O que foi? – ele perguntou algum tempo depois.

Já haviam sido recebidos pelos anfitriões, cumprimentado familiares e conhecidos e até mesmo dançado com outras pessoas. E sob um olhar de incompreensão dela a pergunta, ele continuou.

-Você parece... nervosa. – olhou ao redor por cima do copo de conhaque que bebericava – Há alguém a incomodando?

"Você" ela pensou, mas não disse. Não sabia ao certo o que a estava incomodando nele. Então apenas negou com a cabeça.

-Ótimo. – colocou o copo vazio em uma bandeja que passava e em seguida lhe esticou a mão – Vamos dançar, então.

-Dançar?

Ele estranhou sua surpresa. Era de praxe eles dançarem ao menos uma música juntos quando compareciam aqueles eventos quando ainda noivos. Normalmente dançavam duas. Quando muito animados, ou tentando fugir de convidados enfadonhos, até mais do que isso.

-Ah, sim, - apressou-se em corrigir-se – Claro.

Pousando a mão sobre a dele. E lá estava mais uma vez aquela sensação estranha. O encarou. Anthony ainda mantinha o olhar questionador anterior ao toque. Não parecia ter sentido o mesmo que ela.

Então ela sorriu, o que pareceu acalma-lo. E seguiram para a pista a tempo de pegar o começo da música.

A noite correu sem mais problemas, a não ser o seu incômodo com a presença dele, que continuava.

Quando retornaram para casa, dessa vez com Josephine a acompanha-los já que os Crane retornariam a própria propriedade dali (os pertences de viagem tinham seguido anteriormente, em outra comitiva).

Anthony sentou-se ao seu lado na carruagem, deixando a enteada sozinha no banco a frente deles.

A conversa fora animada durante todo o percurso e, como de costume, Anthony perguntava interessado sobre cada um dos rapazes que a enteada havia dançado (para depois vasculhar a vida de cada um, caso já não o tivesse feito).

Enquanto conversavam, Ana Louise tentou se focar novamente no incômodo que a proximidade dele de repente lhe ocasionava e o que quer que fosse que o estava causando.

Ele não a tocava. Quando a olhava, em meio a conversa, era por breves segundos, e não havia malicia no ato, era apenas a condução natural do diálogo que os três travavam.

Mas, havia um calor que emanava dele.

Sim, era isso. Desde o começo fora isso.

Se remexeu no assento, ajustando a coluna.

-Você está bem? – ele disparou de repente. Ou não tão de repente assim.

-Sim, estou. Por que?

-Você não para de se mexer, mãe. – comentou Josephine – Parece até que tem formigas no seu banco. – levou a mão a boca para encobrir o sorriso quando Anthony concordou efusivamente com ela.

-Eu estou bem. – voltou a dizer, tentando manter o rosto impassível – Eu estou bem.