CAPÍTULO 12

Quebrando o gelo


Quando chegaram a casa, Josephine logo se recolheu, cansada do baile. Porém, antes que Ana Louise fizesse o mesmo, Anthony a chamou para que lhe acompanhasse em um último drinque.

Mais um costume que haviam desenvolvido juntos que ela, de repente, não achou mais tão agradável. Queria desesperadamente sair de perto dele para ver se a sensação passava.

O marido riu quando lhe entregou o pequeno copo com liquido âmbar.

-O que foi? – ela perguntou sem paciência.

-Vai me contar o que te incomodou a noite toda, ou eu vou ter que dizer eu mesmo.

Ela provou a bebida.

-O que me incomodou a noite toda, milorde?

-Eu.

Ela respirou profundamente.

-Por que diz isso?

-Era bem perceptível. – foi a vez dele tomar um gole do seu copo – Você hesitou em toques que já nos são comuns. Estava desconfortável cada vez que eu me aproximava.

-Isso não é verdade.

-Até sua filha percebeu. – ele pontuou, lembrando-lhe do comentário da moça.

Ana Louise virou o copo de bebida de uma vez e esticou-o ao visconde. Ele pareceu surpreendido com o ato repentino e isso a agradou.

E enquanto Anthony lhe servia mais conhaque, ela disse.

-Isso tem algo a ver com o que estávamos conversando antes do baile?

Ele sorriu arteiro.

-Talvez... Era comigo que estava incomodada? – ele lhe esticou novamente o copo cheio.

Ana Louise olhou para a bebida e bufou. Céus, ele a fazia até perder a compostura e os modos, estava bufando na frente do seu marido que, ainda por cima era um visconde.

Acabou assentindo com a cabeça.

-Eu lhe disse que não era frigida. – ele comentou, virando o próprio copo dessa vez.

-Mas o que isso tem...?

Um movimento dele a fez engolir o resto da pergunta. Anthony desencostou do móvel e deu um passo para frente, ficando perigosamente perto. Abaixou a cabeça o suficiente para emparelhar a boca próximo ao ouvido dela.

-Você sentiu meu interesse. – o corpo dela pareceu amolecer em resposta ao som da voz dele, o hálito quente a inebriou - E eu tenho certeza que a minha proximidade agora está lhe causando outras estranhas reações pelo corpo.

Sem perceber ela deu um passo atrás, mais para se manter em pé do que para se afastar.

-Falta de equilíbrio é uma delas. – ele sorriu, olhando bem no fundo dos olhos dela.

Ainda próximo demais.

-Milorde... – ela começou a dizer, mas a frase que formulara simplesmente havia se dissolvido em sua mente.

Mas que droga era aquela?

Não estava conseguindo ter domínio sobre si e aquilo a apavorou.

Anthony percebeu a mudança em seu semblante na mesma hora. Sabia bem que havia uma linha muito tênue entre seduzi-la e assusta-la, então, prestava atenção a cada reação dela para notar isso rapidamente.

Ajeitou a postura afastando o rosto do dela e levou as duas mãos as costas, demostrando que não tentaria toca-la.

-Você não é frigida, milady. – ele concluiu e com alguns passos se afastou novamente – Me atrevo a dizer que é até bem mais sensível do que a maioria das mulheres.

Tomou seu segundo copo em um gole dessa vez e abandonou o no móvel, ao lado da garrafa.

Isso dera tempo para que ela se recompusesse. Endireitando a própria postura e recuperando o domínio sobre seu corpo.

-Por que diz isso? – ela quis saber.

Contrariando todos os prognósticos, ela estava curiosa sobre a própria reação. Por um momento ele achara que a tinha apavorado.

-A maioria não ia sentir meu interesse como você sentiu na festa. – o sorriso de lado acusava que o libertino que um dia fora ainda estava lá e havia se divertido naquela noite – Eu achei que iria precisar lhe dizer coisas picantes, ou...

-Coisas picantes? – ele não sabia se ela estava irritada com a ideia ou mais curiosa ainda. E achou graça mesmo assim – Que coisas picantes? – teria cruzado os braços, mas o copo na mão direita a atrapalhou.

Virou a bebida novamente e devolveu o vidro ao marido.

Com um olhar ele perguntou se ela queria mais.

Queria, mas achou melhor recusar.

-Que coisas picantes, Anthony? – ela voltou a questionar em tom mais autoritário, quando percebeu que ele não responderia prontamente.

Ele arregalou os olhos de forma divertida para o uso do seu primeiro nome.

-Tenho um repertorio interessante... Creio que começaria com algo leve. – cruzou os braços e apoiou o corpo na cômoda atrás de si – Mas como já provei meu ponto, não vou precisar usar desse artifício com você.

Ela desviou o olhar por um momento. A raiva parecia ter passado quando voltou a encara-lo.

-Por que tinha tanta necessidade de me provar isso? – perguntou.

Houve um curto silencio, até que Anthony resolveu dar vazão a todos os seus pensamentos sobre o tema... afinal, ela perguntara.

-Porque me irrita perceber que acredita que foi culpa sua tudo de ruim que aconteceu em seu casamento quando, é nítido, que a culpa foi única e exclusivamente daquele infeliz. – ele vociferou irritado. E percebendo que a frase saíra mais alta do que deveria, voltou a falar em tom mais baixo – Você é uma mulher incrível. Preocupada, dedicada, capaz e linda. Merecia ter sido feliz. Ele deveria ter lhe feito feliz. – concluiu, mais baixo ainda.

-Mas não fui. E não há nada que eu ou você possamos mudar quanto a isso.

Com um longo suspirar, ele acabou concordando.

-Eu sei... sei que não posso mudar o seu passado. – deu de ombros – Mas gostaria de lhe ajudar a ser feliz agora.

-Por que? – ela não conseguia compreender a sua preocupação.

Novo dar de ombros.

-Sou seu marido.

O olhar que ela lhe deu era repleto de muitas coisas, melancolia, calma, pena e... um pouco de graça, talvez.

-Achei que a função dos maridos fossem tornar a vida das esposas um inferno. – ela disse em tom divertido.

Ele assentiu.

-Somos muito bons nisso também. – sorriu docemente e então, em um impulso que surpreendeu até a si mesmo, pegou a mão da esposa – Não gosto quando você se menospreza, Ana.

Ela balançou a cabeça levemente.

-É difícil se livrar de hábitos antigos.

Ele a puxou para um abraço, encaixando a cabeça dela sobre seu queixo.

E estranhamente, Ana Louise não se sentiu coagida pelo momento. O abraço foi, o que deveria ser, aconchegante.

-Bom... quem sabe possamos trabalhar um pouco nisso juntos.


Nos dias que se seguiram Anthony enviou os policial que cuidava do seu caso os resultados da pesquisa que ele e os Crane fizeram nos registros das propriedades e seus arrendatários.

Houveram, ao longo de algumas décadas, três casos que poderiam ter gerado algum tipo de rancor por parte de ex funcionários e um ex arrendatário.

As situações e nomes foram descritas com detalhes para o inspetor, que, em uma correspondência resposta, disse que investigaria a atual situação dos envolvidos.

Mas, os meses foram passando e não houve mais novidades a respeito. Na opinião de Anthony, quem quer que tivesse tentado estragar com sua festa de casamento, desistira após a falha e quase ter sido pego no processo.

E, conforme o episódio ia ficando esquecido, a intimidade do casal crescia. Havia se tornado comum que Anthony fizesse algum comentário lúbrico sempre que a esposa se auto depreciava sem perceber. O gracejo costumava ser feito em tom baixo, próximo ao ouvido dela, de preferência em meio a uma sala cheia de gente.

Tudo era calculado para que ela não se sentisse acuada, apenas, cortejada.

Nas primeiras vezes a reação de Ana Louise era de arregalar os olhos em surpresa para ele, que apenas lhe respondia com um piscar de olhos antes de se afastar. Com o tempo ela conseguiu controlar a surpresa, mas não as outras aflições que a ação lhe causava.

-Você precisa parar com isso, milorde. – disse certa vez, enquanto dançavam em um dos bailes oferecidos pela sociedade, logo após ele dizer-lhe que sua nuca estava excessivamente atraente com a renda que lhe enfeitava o começo do vestido.

Ele falou isso muito próximo a sua pele, fazendo com que os pelos da região se ouriçassem (bom, ele tinha certeza que os demais, escondidos sobre o tecido, também se ouriçaram).

-Isso? Isso o que?

-Me deixar sem graça em público.

-Não estou fazendo isso.

-Ah, não?

-Não... estava deixando pelo menos dois caras com inveja por poder falar perto do seu ouvido e eles não. – sorriu – É uma das partes que eu mais gosto em ser seu marido.

Ela riu.

-O senhor é um implicante, milorde.

Ele assentiu.

-Eu sei. – pendeu a cabeça para o lado enquanto a observava – Ficou sem graça? – foi a vez dela assentir e então, desviar o olhar – Também ficou nervosa? – ele continuou a avalia-la, dando um leve aperto na base de sua coluna, onde a mão dele a guiava no ritmo da música que dançavam – Seus músculos estão tensionados.

Ela se remexeu um pouco em baixo dos dedos dele.

-Eu sempre fico assim quando o senhor... fala essas coisas.

Anthony abriu um novo sorriso.

-Isso é bom.

-Não, não é bom. – ela voltou a encara-lo, com certa irritação – Sou eu que fico incomodada a noite toda sem conseguir dormir.

Ele piscou algumas vezes.

-Oras, mas por que você simplesmente não... – fechou a boca, enquanto uma tormenta de raciocínio inundou sua cabeça.

É claro que ela não saberia como desfazer aquela tensão. Mas ele precisava perguntar, precisava saber o que ela sabia sobre o estado que ficava com os seus gracejos.

Aproximou um pouco mais a cabeça da dela, mais do que seria apropriado mesmo para um casal. Mas não queria correr o risco de mais alguém escutar o que diria.

-A senhora não... se toca?

Ela quase o afastou por completo com o salto que deu, mas o marido a manteve junto a si com a mão forte espalmada em suas costas.

Com um rodopio, Anthony tentou disfarçar para os demais casais que os olharam curiosos.

Então sorriu pra ela, fingindo normalidade.

-Entendi... a resposta é não. – novo girar – Milady deveria tentar. Deve resolver essa tensão.

-Acredito que vai ajudar se o senhor parar de me falar atrevimentos também.

Ele assentiu com a cabeça.

-Combinado.

Uma onda de decepção inundou o corpo de Ana Louise, ele percebeu, mas não disse nada a respeito.

A música acabou e ele a levou para fora da pista, enquanto dizia.

-Vou parar de importuna-la, milady. Mas você precisa se... aliviar. Sabe fazer isso, não?

Foi a vez dela assentir, não muito segura, porém.

-Ótimo. – ele sorriu – Faça isso hoje e amanhã vai acordar melhor.

E antes que pudesse responder eles foram abordados por outros convidados.


-O que foi? - perguntou interessado – Estava inquieta durante todo jantar.

Já faziam três dias desde a conversa no baile. Ele havia parado com os gracejos, mas ela não parecera melhorar da tensão.

Ana Louise balançou a cabeça negativamente em resposta, num gesto que ele já sabia significar que não era nada.

-Ainda está incomodada. – concluiu sussurrando, aproximando um pouco o rosto em sua direção.

-A culpa é sua. – ela resmungou.

E então ele entendeu. Teve certeza que o que ainda a incomodava era o corpo tenso, excitado.

Com um levantar de olhos ele conferiu que os filhos conversavam não tão distante assim deles, (os rapazes já haviam voltado de Elton e Cambridge para o recesso de Natal) mas o suficiente para não prestarem atenção no que falavam. Então voltou-se novamente para ela em tom conspiratório e debochado.

-Ora, ora, uma mulher frigida não teria esse problema... – ela bufou em resposta. Com um leve sorriso, Anthony pareceu se apiedar, resolvendo voltar a tentar ajuda-la ao invés de espezinhar - Não fez o que eu disse para fazer?

A mulher corou, lembrando-se da conversa em que ele lhe falara para se tocar intimamente. O marido achou graça, porque a esposa conseguira o incrível feito de corar e bufar ao mesmo tempo.

-Eu fiz... mas não adiantou... – resmungou – Basta me lembrar das suas... – a boca se fechou em uma linha fina, tamanha era a irritação - ...palavras e tudo volta. – apertou o próprio braço, incomodada e se remexeu novamente na cadeira.

Anthony tinha que admitir, nem que fosse apenas para si mesmo, estava bastante orgulhoso com seu feito de mostra-lhe que ela não era frigida, como o falecido marido a acusava, sem tocar-lhe um dedo se quer.

Mas ela estava sofrendo por não conseguir lhe dar com as tensões do próprio corpo, por isso ele engoliu o sorriso vitorioso antes de continuar a conversa.

-Eu não acho que minhas palavras sejam tão poderosas assim, milady – ela bufou pela terceira vez. Ele achava aquilo deveras engraçado, principalmente quando o som era seguido por um biquinho irritado – Talvez você não esteja se deixando aproveitar corretamente o momento.

Para ele era visível que o problema se devia ao fato de ela não saber como se fazer gozar. O que era deveras surpreendente já que, dado ao nível de incomodo que ela estava, Anthony tinha absoluta certeza que míseros toques a fariam entrar em ebulição sozinha.

Foi a vez dele se remexer na própria cadeira, tentando não imaginar a cena.

O fato é que Ana Louise continuava a precisar de ajuda.

-Eu... – ela voltou-se os olhos para ele, aquilo o travou por um momento. Abaixou a cabeça, voltou a olhar para os filhos e só então, como percebeu que a esposa ainda esperava a frase que ele insinuara começar, resolveu falar – eu posso te ensinar a fazer isso, mas...

-Mas...?

-Mas... eu teria que... – suspirou e ela entendeu do que se tratava.

-Terá que me tocar. – concluiu.

Ele fez que não, a surpreendendo.

-Não necessariamente. Mas vou precisar estar junto... isso significa vê-la em seu momento mais íntimo. – os olhos não ousavam encara-la – É algo que só deveria ser visto pelo seu marido.

-O senhor é o meu marido. – ela concluiu, usando o argumento que volta e meia ele utilizava contra ela também.

Anthony acenou em positivo.

-Sim, sim, eu sei. – suspirou - Eu sou o único que posso lhe ajudar nisso, mas... - finalmente a encarou – Tenho absoluta certeza que isso vai contra nosso acordo.

Ela assentiu novamente e o silencio caiu sobre eles mais uma vez.

-Posso lhe ajudar. – ele voltou a dizer – Mas vou entender se não quiser ultrapassar essa linha comigo. Além disso, essa sensação que você tem... – fez um movimento com a mão, como se o peito transbordasse, era exatamente como ela se sentia as vezes – Vai acabar passando. Basta eu parar de provoca-la.

A esposa ficou pensativa.

-Se por outro lado, quiser minha ajuda... deixe a porta comum destrancada essa noite. – disse, em tom baixo, ao perceber que Edmund se voltava para eles e lhe acenava, lhe pedindo para se aproximar e opinar sobre o jogo de xadrez que travava com Miles.

Sorriu fracamente para ela antes de se levantar. E Ana Louise sabia que se optasse por não abrir a porta, aquele assunto morreria ali.