N/A: Não acredito que estou publicando uma fanfic depois de tantos anos longe! Sim, eu estou nesse site desde que Crepúsculo era febre mundial, mas o tempo passou e as prioridades mudaram. O lançamento de Midnight Sun me deu forças para publicar a "nova" versão dessa fanfic, que escrevi originalmente em 2014, a revisão dessa nova versão terminou em 2017, por isso ainda não sei se alguma coisa mudará enquanto publico. Eu sempre me senti muito atraída pelos Volturi enquanto lia Crepúsculo e essa a história contém romance, mas também temas sombrios. Fanfic para mim é diversão e um treino de escrita, espero que deixem reviews se gostarem da história.
Obs: P.O.V = ponto de vista do personagem que está narrando
Obs 2: alguns personagens tiveram a idade alterada, e a aparência escolhida para alguns foi a descrita no livro e não no filme
[Todos os personagens pertencem a Stephenie Meyer!]
1
Recém chegada
Demetri P.O.V
Jane nos fez correr por toda a Europa atrás de algo único e incrível, o que durou dias, mas tinha que admitir que o cristal era lindo, frágil e certamente muito valioso. As características favoritas de Aro.
- Precisamos trocar essa música – Alec disse ao entrarmos no elevador.
- Muito antiga? – perguntei.
- Muito sombria, não precisamos de mais sofrimento aqui embaixo.
- Eu não estou sofrendo – disse Jane, ela segurava o cristal como se fosse um bebê.
- Você é uma exceção – Alec apertou as bochechas de Jane, algo que com certeza eu nunca faria. Ela olhou irritada para ele, mas não fez nada.
Devia ser agradável dividir a eternidade com alguém próximo, como um irmão ou um companheiro. Ainda não havia encontrado alguém e minha irmã já havia morrido há muitos anos, tornando a imortalidade duplamente solitária.
- Você está bem, Demetri? – disse Alec.
- Sim – respondi – só estou pensando demais.
Alec disse algo engraçado, mas não prestei atenção, havíamos acabado de chegar no subterrâneo e as portas do elevador estavam a segundos de abrir, foi quando senti um cheiro diferente.
- Tem alguém aqui. – eu disse.
- Heidi está de volta? – disse Jane, os olhos brilhando pensando na comida.
- Será que temos algum visitante? – Alec, talvez, tivesse acertado.
Quando as portas do elevador abriram e seguimos para a recepção, percebi que haviam três pessoas conversando: uma delas era Gianna, a secretária humana; a segunda era mestre Aro, que não pareceu se importar com nossa presença; já a terceira figura era completamente desconhecida para mim, e estava tão próxima dele que seus cheiros se confundiam.
Paramos ao mesmo tempo para observar a cena. Gianna, como sempre, recebia instruções de Aro, que usava as mesmas roupas de praticamente uma semana atrás, mas sem o blazer preto que costumava deixá-lo com uma aparência mais velha, que agora estava nos ombros da garota ao seu lado.
Ela tirou o cabelo do rosto e nos fitou por um breve momento. Nunca a tinha visto antes, costumávamos receber visitantes às vezes, mas seu rosto era completamente novo para mim. Em outra situação diria que ela era uma nômade, mas mestre Aro não emprestava suas roupas à nômades.
Olhei para Alec e Jane, eles estavam mais perplexos do que eu, principalmente Jane.
- Como ele ousa voltar com uma mulher? – Jane não conseguiu segurar sua reprovação, pude ouvir os cacos do cristal quebrado caindo no chão de pedra logo atrás de mim. Pelo jeito ela mudou de idéia quanto ao presente.
A companheira de Aro certamente ouviu, pois virou o rosto novamente em nossa direção, pelo brilho dos seus olhos ela não devia ser vampira há muito tempo, além de recém chegada era uma recém nascida, provavelmente sem instrução e perigosa. Talvez Aro a tivesse transformado por acidente?
- Não é bem uma mulher – sussurrei de volta, esperando que ela ouvisse – mas uma garota assustada.
Dessa vez ela fez questão de mostrar que ouvia nossa conversa, fazendo uma cara feia direcionada a mim.
Depois que Aro terminou de explicar à Gianna sobre a nova moradora do castelo, ele pediu que um quarto fosse preparado para ela.
- Sim, senhor – a humana respondeu prontamente – não vai demorar muito, posso cuidar de tudo com Santiago como sempre, senhor, até lá a senhorita pode...
- Ela ficará em meu segundo quarto, não se preocupe.
Confesso que esse ato surpreendeu até a mim. Aro não era o único a ter um quarto extra, Caius e Marcus também tinham esse privilégio, já que as esposas permaneciam reclusas diariamente seus quartos originais foram transformados em pequenos apartamentos cobertos com distrações. Aro e Caius usavam os quartos extras para ficarem sozinhos, embora Marcus não utilizasse mais o dele, imagino que a solidão do luto fosse o suficiente.
O gesto generoso de Aro me fez olhar automaticamente para Jane, que não conseguia mais fingir serenidade, ela teria ido em direção a Aro se Alec não tivesse segurado seu braço.
- Ele só está fazendo um favor – disse ele, num tom que não passava nenhuma segurança, provavelmente por também estar preocupado.
Dessa vez, a garota segurou a mão de Aro, não de um jeito romântico, pois Aro olhou para ela e balançou a cabeça. Eles estavam se comunicando, e se ela se sentia confortável com tamanha proximidade em público é porque não era a primeira vez que fazia algo assim. Pela maneira que Aro olhava para ela e a mantinha por perto como se a protegesse deduzi que eles se conheciam há algum tempo, era perceptível, e se ela era tão próxima de Aro, então trabalha apenas para ele.
- Alec – a voz de Aro soou na recepção, fazendo com que Jane se retirasse, tudo aquilo era demais para ela.
Seu irmão obedeceu ao chamado e seguiu Aro e a nova vampira quando foram em direção ao salão dos mestres. Baixei a cabeça em sinal de respeito a Aro, a garota o seguiu e nossos olhares se cruzaram por um momento. Ela era mais baixa do que eu, de aparência menos intimidadora também, mas isso não a impediu de me encarar com um olhar julgador. Não havia alegria ali, mas algo que parecia como um pedido de ajuda.
Não vimos à garota nova nos dias que se passaram, apesar das fofocas já terem se espalhado por todos os lugares do castelo, inclusive para as esposas. Corin, que as servia diretamente, fez questão de contar a elas, principalmente à senhora Sulpicia. Espero que ela não tenha repetido as coisas que Jane andava falando, não acho que nenhuma esposa ficaria feliz em ouvir que o marido voltou para casa com outra mulher. Alec também havia sumido, se bem que Renata já havia nos adiantado de que ele passava muito tempo com a garota nova, deixando Jane ainda mais enciumada.
Tentava sobreviver longe desses boatos, me distraindo com um livro velho que já devo ter lido mais de cem vezes, não que pudesse me cansar de Hemingway, mas as vozes na sala começaram a me incomodar, principalmente a de Renata, ela costumava ser quieta, a não ser quando finalmente tínhamos algo novo para falar. Esse não seria o primeiro boato a atingir os Volturi, os desentendimentos de Afton e Chelsea eram a causa da maioria deles, só que esse era o primeiro a atingir a realeza.
- Então Demetri?
- O que? – levantei a cabeça e olhei para a televisão, Felix ainda estava jogando Call of Duty.
- Qual sua teoria sobre a novata? – ele perguntou – Jane não está nada feliz, Renata acha que talvez mestre Aro tenha se apaixonado de verdade.
- Isso não é um conto de fadas, Renata.
- Foi só uma sugestão! – ela tirou uma mecha do cabelo escuro da frente do rosto delicado – Talvez ele não sinta mais o mesmo pela esposa.
- Como pode dizer uma coisa dessas? – Jane nos interrompeu – E mesmo se fosse verdade não acho que ele escolheria uma humana.
Ela falava a palavra 'humana' com tanto asco como se nunca tivesse sido uma.
- Mas a senhora Sulpicia era humana quando foi escolhida. – Renata ergueu a sobrancelha, era raro vencer uma discussão com Jane, então gostávamos de aproveitar o momento – Talvez ele tenha repetido o gesto. E hoje os casais se separam o tempo todo.
Jane não respondeu. Ela devia estar muito irritada porque, se Renata estivesse certa e aquela garota fosse mesmo uma nova esposa, seria a segunda derrota de Jane. Ela conseguia esconder dos outros, mas Alec havia me contado que o que ela sentia por Aro era mais do que gratidão.
- Não sei o que pensar sobre isso – eu disse – vocês falam muito entre si, mas nem sequer falaram com ela.
- Não preciso – disse Jane – agora ela deve se achar a rainha desse castelo, a rainha dos Volturi.
- Não diga bobagens, Jane – todos olhamos para Alec, que estava parado junto á porta, e ele não estava sozinho: a novata estava parada ao lado dele. – ela não é assim.
Jane sufocou o resto de suas reclamações enquanto os outros encaravam, ansiosos pelo que aconteceria. Me concentrei na garota nova, ela e Alec tinham a mesma altura, me perguntei se também tinham a mesma idade, pois assim como Renata ela parecia jovem. Ela usava roupas nada usuais para os Volturi, ou seja, roupas simples, jeans, tênis e uma blusa justa de mangas compridas. Devo tê-la encarado um pouco demais, pois fui o primeiro a quem o olhar julgador dela se dirigiu. Será a incomodei? O que ela contaria a Aro?
- Achei que seria bom apresentá-la – disse Alec, finalmente atraindo a atenção dela, que parou de encarar de volta – ela estava há dias sozinha no quarto, não demos nossas boas vindas apropriadas.
- Tenho certeza de que em boa companhia – Jane retrucou, ela era rápida em disseminar a discórdia.
- Aro não estava comigo, se é o que está insinuando.
Todos pareceram ainda mais em choque, pois a novata se referia a Aro usando o primeiro nome, não como 'mestre' ou 'senhor', apenas Aro, e ninguém da Guarda o chamava assim, nem mesmo Jane, que era praticamente sua filha.
- Ela fala! – Felix bateu algumas palmas antes de se dar conta de que ninguém o acompanhou.
- Mas é claro que falo – ela continuou, ainda olhando para Jane, o que, preciso dizer, foi de muita coragem. Talvez ela não soubesse da dor excruciante que aquele pequeno ser podia causar- e Aro está com a esposa.
- Que bom que reconhece que mestre Aro tem uma esposa. – Jane se levantou e encarou a novata, eu a conhecia muito bem para saber o que ela tinha em mente naquele momento.
- Jane – Alec se colocou entre as duas – já chega.
- Por que a está protegendo?
Alec não respondeu, mas continuou firme, e ele não enfrentava Jane com freqüência, o que foi impressionante.
Jane suspirou e deixou a sala com passos pesados. A garota continuou parada atrás de Alec, segurando um pouco do tecido de seu casaco como se fosse uma âncora. Me perguntei quando eles haviam ficado tão próximos.
- Obrigada – ela sussurrou para ele, ainda segurando o tecido de suas roupas.
- Minha irmã não é fácil, mas ela se acostumará com o tempo.
Alec apontou para mim.
- Porque não fica com Demetri enquanto vejo se Jane chegou ao quarto sem matar ninguém?
Ela não respondeu, na verdade, reagiu como se Alec fosse Aro, segurando sua mão e balançando a cabeça veemente. Alec sorriu, na verdade ele parecia estar gostando daquela situação.
- Demetri é meu amigo – disse ele, próximo demais da garota. – ele cuidará para que esses abutres não te devorem.
O tom usado foi claramente o de uma ordem, fazendo com que finalmente todos voltassem ao normal. Felix continuou seu videogame, Santiago retomou a leitura do jornal, Afton deixou a sala, provavelmente para contar as novidades para a esposa, e Renata voltou a prestar atenção a uma revista.
- Posso me sentar? – seu tom de voz agora era suave, como se toda a petulância ao responder Jane tivesse se esvaído.
- Qual o seu nome? – perguntei, estava cansado de me referir a ela com apelidos e pronomes.
- Elia – ela olhou para trás, só para se certificar de que Alec havia mesmo ido embora – Elia De Rossi.
Dei um sorriso, o nome combinava com ela, ou com o que ela aparentava ser.
- Eu sou Demetri – respondi – e sim, pode se sentar.
Elia sentou ao meu lado, ainda desconfortável em estar numa sala onde todos a julgavam abertamente, só fingiam que ela não era mais o centro das atenções. Notei que havia um pequeno pingente dourados em seu pescoço, delicado, mas talvez sugestivo demais para usar aqui.
- Isso significa alguma coisa? – falei o mais baixo que consegui, mesmo não sendo o suficiente para ter privacidade numa sala cheia de vampiros. Elia olhou para onde eu apontava, depois, para mim.
- Sim, mas não vou te contar o quê.
Suprimi um sorriso, então eu estava certo, o pequeno pingente com a letra 'A' devia ser em homenagem a Aro.
- Você e Aro... – devia ter escolhido melhor as palavras, percebi que todas as cabeças se inclinaram um pouco para o lado para ouvir a resposta que viria.
- É complicado – Elia disse sem emoção alguma. A tristeza em seu olhar ainda estava lá.
- Complicado pode ter vários significados.
- Você está certo... – Elia olhou para mim e sorriu pela primeira vez, por um momento ela não pareceu uma garota morta – Mas ainda é complicado.
Seus dedos começaram a trabalhar depressa enquanto ela girava o anel em sua mão direita. Tentei não perguntar se seria de fato uma aliança de noivado ou Renata explodiria antes de espalhar a notícia, mas se fosse, não deveria ter sido presente de um membro dos Volturi, não parecia ser cara o suficiente.
- Então, quantos anos você tem? – ela deu de ombros – Não sei o que devo falar, me desculpe.
- Isso é confidencial – respondi, por algum motivo queria que ela sorrisse novamente, e consegui. – E você?
- Dezoito, ganhei uma mordida de aniversário – sua mão alcançou o pescoço, logo na cicatriz prateada acima da clavícula esquerda – me debati por três dias até que Aro me trouxe para cá.
Elia deu um longo e pesaroso suspiro, logo os traços de seu sorriso sumiram completamente. Tive um súbito impulso de confortá-la, mas comecei a pensar se isso era mesmo verdade, se ela não estava tentando conquistar minha simpatia para obter informações. Aro sempre criava novos meios de saber o que queríamos e pensávamos e Alec, apesar de ser meu amigo, era fiel a ele.
- Você não acredita, não é?
- O que?
- O jeito que você me olha – ela apontou para mim – é como se estivesse pensando que sou algum tipo de espiã.
- Ah... Não – eu hesitei, Elia cruzou os braços.
- Finalmente – ela disse ao olhar para a porta. Alec vinha em nossa direção.
- Desculpe, não foi fácil acalmar Jane - Alec olhou para mim – estão se dando bem?
- Não. – Elia foi a primeira a responder, ela nem sequer olhou para mim novamente – Pode me levar para o quarto? Não sei o caminho...
- Claro – Alec respondeu. Olhei para os dois sem saber se devia dizer algo – até logo, Demetri.
Elia foi na frente, Alec a seguiu, não demorou para que os perdesse de vista, mas ainda conseguia ouvi-los conversando pelos corredores. Alec perguntava se eu tinha feito algo errado, Elia respondeu que todos estavam errados, principalmente eu.
- Ainda não sabe o que pensar dela agora? – perguntou Felix.
Geralmente não pensava como os outros, principalmente numa situação de boatos sem prova alguma, mas tinha que concordar que Elia De Rossi era misteriosa e principalmente estranha. Mesmo assim tive um súbito desejo de vê-la de novo, mas sem os olhares curiosos dos outros, pois acredito que ela tinha mais a dizer.
- Ela é completamente louca – respondi, Felix apenas sorriu.
Quando não estava em missões ao redor do mundo, resolvendo embates entre Clãs descuidados, minhas funções se resumiam em vigiar o castelo e, acima de tudo, a cidade de Volterra. Durante o dia era um verdadeiro desafio, por isso diversos membros da Guarda ficavam em pontos estratégicos do castelo, foi assim que facilmente percebemos a chegada de membros do Clã Cullen há alguns anos, eles eram muito barulhentos. À noite éramos livres para circular pela cidade, com a condição de sermos discretos e não nos alimentarmos, é claro. Mesmo com a possibilidade de sair durante a noite, preferia ficar no castelo, sentado na estrutura interna da Torre do Relógio. Era quieto e, melhor ainda, vazio, provavelmente um dos poucos lugares onde era possível ter algum tipo de privacidade.
Estava indo para meu lugar habitual, quando percebi que já estava ocupado:
- O que está fazendo aqui? – foi à primeira coisa que disse ao avistá-la.
Elia De Rossi olhou para mim com sua expressão assustada de sempre. Não voltamos a conversar pelo resto daquela semana, mas admito que também não me esforcei para tentar uma aproximação. Ao contrário de Alec, que parecia encantado, não era tão paciente.
- Por que a pergunta? – ela revidou com o mesmo tom de voz que usou para enfrentar Jane – É proibido estar aqui?
- Não! É só que...
- Já estou de saída, só não conte a Aro que estive aqui! – ela se aproximou um pouco, dando as costas para a janela, então parou – Mas ele saberá de qualquer jeito, por sua causa.
Elia começou a esfregar as mãos, um gesto bem parecido com o de Aro, só que de um jeito mais desesperado.
- Se o convenceu a não ler mais seus pensamentos – disse para acalmá-la – já foi uma grande vitória, e não precisa se preocupar comigo.
Mostrei minhas mãos, cobertas com luvas.
- Aro não lê os meus há alguns anos.
- Como conseguiu? – ela arregalou os olhos brilhantes e se aproximou ainda mais de mim, por reflexo, dei um passo para trás.
- Lealdade.
Elia assentiu, pela sua expressão percebi que ela não esperava por aquela resposta. Aparentemente, ela ainda estava trabalhando nesse quesito.
- Ele não lê os meus há dois dias – Elia ainda olhava para minhas mãos – então decidi vir aqui, para ver a cidade. Quando cheguei, Alec me disse para não fazer isso, porque poderia me descontrolar, mas eu preciso aprender.
- A ter autocontrole? É uma coisa boa, se ficará com a gente, tem que se acostumar com o cheiro humano. Costumamos sair de vez em quando.
- Aro me falou sobre suas missões – ela voltou a me encarar, me fazendo recuar pela segunda vez. Não sabia por que estava fazendo isso – mas não é por isso que quero ter autocontrole.
Elia voltou a girar o pingente em seu pescoço, dessa vez resolvi que não perguntaria nada, por algum motivo não queria que ela se irritasse comigo. Hoje ela estava diferente, mais parecida conosco, usando um vestido longo e sóbrio que ficou muito bem nela. Logo percebi porque Jane estava irritada, Elia era mais velha, seus traços não eram os de uma menina.
- Eu quero sair – ela me surpreendeu por dizer aquilo subitamente, na verdade, pareceu estar perdida em seus pensamentos por um segundo – mas ele me proibiu.
- Mestre Aro – ela sorriu ao ouvir o jeito que o chamava - não te deixa sair?
- Sim. Alec disse que não devia ligar e que poderíamos ir, mas a situação dele é diferente.
- Alec parece gostar muito de você, não é?
Elia cruzou os braços e fitou o chão, fechando-se novamente.
- Não precisa responder se não quiser, ou ter medo de mim, não perguntarei mais nada.
- Isso seria bom. – ela respondeu, voltando a olhar para mim.
- Aqui – tirei minhas luvas e entreguei para ela, que pareceu não entender o motivo do presente. Aro podia ler nossos pensamentos tocando em qualquer parte do corpo, mas as mãos era suas preferidas, portanto cobri-las era quase como um repelente natural. Elia sorriu ao se dar conta disso, e eu também. – uma mensagem para Aro, assim ele saberá que não quer ser um livro aberto o tempo todo.
Elia esticou a mão para pegar as luvas, e nossos dedos se tocaram por um momento, causando a sensação de uma corrente elétrica atravessando o meu corpo, algo que me assustou, mas não de um jeito ruim. Por outro lado, a expressão de Elia era a mesma, será que tudo não passou de uma ilusão?
- Obrigada, espero que sejamos amigos, Demetri, pelo tempo que eu estiver aqui.
- Por quê? Já está pensando em ir embora?
Elia recolheu a mão e a corrente elétrica se dissipou. Não consegui esconder minha decepção.
- Você disse que não faria mais perguntas.
- Eu minto com freqüência.
Esperava outro sorriso, ou melhor, outro toque involuntário, queria experimentar aquela sensação de novo, mas Elia não fez nada, apenas baixou a cabeça e seguiu em direção a escada, deixando-me sozinho, fitando minhas mãos e pensando naquela sensação estranha, mas prazerosa.
