CAPÍTULO TRÊS
O avô aceitou a notícia da prisão de Rony bem melhor do que Ginny esperava. Era uma benção que tivesse sido preso na cidade, não em casa. Seu mérito atual era não ter faltado à escola nenhuma vez. Entrava no ônibus sem discutir, com Percy a segui-lo. Ginny acomodou o avô na poltrona da sala, preocupada com seu silêncio.
— Vai ficar bem? — perguntou depois de lhe dar seu comprimido.
— Quer que a sra. Arabella venha lhe fazer companhia?
— Não preciso de ninguém me vigiando — ele murmurou. Os ombros magros se ergueram e caíram. — Onde falhei com seu pai, Ginny? — perguntou infeliz. — E onde falhei com Rony? Meu filho e meu neto encrencados com a polícia, e aquele Potter não vai descansar enquanto não colocar os dois na cadeia. Já ouvi falar dele. É uma barracuda.
— Ele é um promotor — ela corrigiu. — E só está fazendo o trabalho dele. E o faz de maneira apaixonada, só isso. O sr. Longbottom gosta dele.
O avô estreitou um olho e a encarou.
— Você gosta?
Ginny levantou-se.
— Não seja bobo. Ele é o inimigo.
— Lembre-se disso — ele disse com firmeza, o queixo teimoso erguido. — Não vá se afeiçoando a ele. Não é amigo de nossa família. Fez tudo ao seu alcance para prender Carlinhos.
— Você sabia disso?
Ele aprumou o corpo.
— Sabia. Não vi razão para contar aos meninos. Não teria ajudado em nada. De qualquer forma, Carlinhos se livrou. A testemunha mudou de ideia.
— Ele mudou... ou papai o convenceu a mudar?
O avô a encarou.
— Carlinhos não era mau garoto. Só era diferente; tinha uma maneira própria de enxergar as coisas. Não era culpa dele que a polícia estivesse no encalço, assim como não é culpa de Rony. Aquele Potter nos persegue.
Ginny principiou a falar e parou. O avô não admitiria ter errado com Carlinhos, portanto não admitiria ter errado com Rony.
— Ginny apesar do que seu pai fez ou deixou de fazer, ele ainda é meu filho — ele disse subitamente, as mãos magras e velhas apertando com força a poltrona. — Eu o amo. Amo Rony também.
— Sei disso — ela respondeu com carinho. Inclinou-se e beijou a face magra. — Cuidaremos de Rony. Eles lhe oferecerão aconselhamento e apoio — ela disse, esperando convencer Rony a ir às sessões sem se valer da intimidação. — Ele vai superar. Ele é um Weasley.
— Isso mesmo. Ele é um Weasley. — Ele sorriu para a neta. — E você também. Já disse o quanto tenho orgulho de você?
— Frequentemente — ela respondeu e sorriu. — Quando eu ficar rica e famosa, lembrarei de você.
— Nunca ficaremos ricos, e Rony provavelmente será o único com fama dentre nós — infâmia, na verdade. — Ele suspirou. — Mas você é o coração desta família. Não deixe que isso a abale. A vida pode ser difícil às vezes. Mas se você enxergar além dos problemas, pensar que dias melhores virão, isso ajuda. Sempre me ajudou.
— Lembrarei-me disso. É melhor eu ir para o trabalho — ela acrescentou. — Cuide-se. Até mais tarde.
Ela dirigiu até o escritório, tremendo por dentro ao pensar na provação que teria pela frente. Precisava falar com Potter. O que Rony lhe contara sobre a tentativa de mandá-lo para o reformatório a assustara. Potter poderia insistir nisso, portanto ela precisava impedi-lo. Teria de engolir o orgulho e revelar a real situação em sua casa, e isso a apavorava.
O patrão lhe deu uma hora de folga. Ela ligou para o gabinete do promotor de justiça no sétimo andar e pediu para vê-lo em pessoa. Recebeu a resposta de que ele estava descendo, que o encontrasse no elevador para que conversassem enquanto ele tomava um café na farmácia.
Alegre por ele ter se dignado a falar com ela, Ginny pegou a bolsa, endireitou a saia florida e a blusa branca, e saiu apressada do escritório. Felizmente, o elevador estava vazio, exceto pelo sr. Potter em seu longo sobretudo, com seu olhar frio, seu espesso cabelo negro bagunçado, e seu eterno e asfixiante charuto em uma das mãos. Ele lhe fez um rápido exame que não foi nada lisonjeiro.
— Queria conversar. Então vamos. — Ele apertou o botão do térreo e não disse nada até entrarem na pequena cafeteria da farmácia. Ele comprou um café preto para ela, um para si, e uma rosquinha. Ofereceu-lhe uma, mas Ginny estava aflita demais para aceitar. Sentaram-se à uma mesa de canto e ele a estudou calmamente enquanto tomava o café. O cabelo estava preso no coque de costume, o rosto destituído de maquiagem. Ela transmitia a imagem de como se sentia no momento — esgotada e deprimida.
— Nenhuma observação sarcástica quanto ao meu charuto? — ele indagou com uma sobrancelha erguida. — Nenhuma observação quanto aos meus modos?
Ginny ergueu o rosto pálido e o fitou como se nunca o tivesse visto antes.
— Sr. Potter, minha vida está se despedaçando, então não me importa a fumaça do charuto, nem suas maneiras, ou o que quer que seja.
— O que seu pai disse quando contou sobre seu irmão?
Ginny estava cansada de fingir. Era hora de colocar as cartas na mesa.
— Não tenho notícias do meu pai há dois anos.
Ele franziu a testa.
— E sua mãe?
— Morreu quando os meninos eram pequenos, quando eu tinha 16.
— Quem cuida deles? — ele insistiu. — Seu avô?
— Meu avô sofre do coração — ela disse. — Não écapaz de cuidar de si mesmo, muito menos dos netos. Moramos todos com ele e fazemos o possível para cuidar dele.
A mão de Potter acertou a mesa, sacudindo-a.
— Está dizendo que cuida sozinha dos três?!
Ginny não gostou da expressão no rosto moreno. Afastou-se um pouco para trás.
— Sim.
— Meu Deus! Só com seu salário?
— Meu avô tem uma fazenda — ela contou. — Plantamos nossas próprias hortaliças. Eu congelo algumas, faço conservas com outras. Costumamos criar novilhos também, e o vovô recebe pensão da ferrovia e do seguro social. Nós nos viramos.
— Quantos anos você tem?
Ela o fitou zangada.
— Não é da sua conta.
— Pois você acabou de reverter isso. Quantos anos?
— Vinte e quatro.
— E quantos anos tinha quando sua mãe morreu?
— Dezesseis.
Ele tragou o charuto e virou a cabeça para dar uma baforada. Os olhos verdes penetravam nos dela, e Ginny sentiu exatamente como era se sentar no banco das testemunhas e ser severamente interrogada por de. Aquele olhar penetrante e a voz fria cheia de autoridade seriam capazes de extrair informações de um legume.
— Por que seu pai não está cuidando da própria família?
— Bem que eu gostaria de saber — ela replicou. — Mas ele nunca fez isso. Só aparece quando está sem dinheiro. Acho que deve ter arranjado o suficiente; não o vemos desde que se mudou para o Londres.
Potter estudou-lhe o rosto em silêncio por um longo tempo, até os joelhos dela ficarem fracos pela intensidade daquele exame. Ele era tão moreno, ela pensou, e o terno risca-de-giz azul-marinho o tornava ainda mais alto e elegante. Sua herança indígena predominava no rosto magro, embora ele parecesse ter o temperamento dos irlandeses.
— Não é de admirar que se pareça assim — ele disse distraidamente. — Exausta. Primeiro pensei que pudesse ser um amante exigente, mas é excesso de trabalho.
Ela ficou muito vermelha e o encarou zangada.
— Isso a insulta, não é? — ele perguntou, a voz ficando ainda mais profunda. — Mas você mesma me disse que tinha um amante — ele lembrou em tom seco.
— Menti — ela disse, remexendo-se de inquietação. — De qualquer forma, já tenho problemas demais para viver na libertinagem — ela respondeu tensa.
— Entendo. Você é uma daquelas garotas. O tipo de garota que as mães empurram para os próprios filhos.
— Espero que nunca me empurrem para você. Não o desejaria nem servido numa bandeja de prata.
Ele ergueu a sobrancelha.
— Por que não? — perguntou, erguendo o queixo num sorriso de puro sarcasmo. — Alguém lhe contou que sou mestiço?
Ginny corou.
— Não foi o que eu quis dizer. Você é um homem muito frio, sr. Potter — ela respondeu, estremecendo com a proximidade dele. Potter cheirava a alguma colônia exótica e a fumaça de charuto, e Ginny podia sentir o calor de seu corpo. Ele a deixava nervosa, fraca e incerta, e era perigoso se sentir assim a respeito do inimigo.
— Não sou frio. Sou cuidadoso. — Ele levou o charuto à boca. — Ébom ser cuidadoso nos dias de hoje. Sob todos os sentidos.
— Éo que dizem.
— Neste caso, seria prudente parar de espalhar mel nesse seu amante misterioso. Você não disse — Potter lembrou a ela — que era amante de um de seus patrões?
— Era mentira — ela protestou. — Você estava me olhando como se eu não pudesse ter mais esperanças. Falei o que me veio à cabeça, só isso.
— Eu deveria ter mencionado isso a Neville Longbottom ontem — ele murmurou.
— Não ousaria! — ela gemeu.
— Claro que sim — ele respondeu tranquilamente. — Não lhe contaram que não tenho coração? Eu processaria minha própria mãe, é o que dizem.
— Eu não acreditaria nisso, depois de ontem.
— Seu irmão será um caso perdido se não souber lidar com ele. Fui duro com ele por esta razão. Ele precisa de pulso firme. Acima de tudo, ele precisa de um homem como exemplo. Que Deus nos ajude se o pai for o herói dele.
— Não sei o que Rony sente a respeito de papai — ela disse honestamente, — Ele não conversa mais comigo. Fica ressentido. Eu quis conversar com você porque queria que compreendesse a situação em minha casa. Pensei que poderia ajudar em alguma coisa se soubesse da vida dele.
Potter mordeu a rosquinha com os fortes dentes brancos e a engoliu com café.
— Em outras palavras, pensou que isso pudesse me abrandar. — Os olhos verdes fixaram-se nos dela. — Sou parte índio. Não há qualquer brandura em mim. O preconceito destruiu isso há muito tempo.
— Você é um pouco irlandês também — ela disse com hesitação. — E sua família é abastada. Isso deve ter tornado as coisas mais fáceis.
— Mesmo? — O sorriso não se parecia em nada com um sorriso. — Eu era singular, com certeza. Uma aberração. O dinheiro tornou meu caminho um pouco mais fácil. Não removeu os obstáculos. Meu tio me aceitou porque era estéril e eu era o último dos Potter. Deus, ele odiava pensar nisso. Para completar, meu pai jamais se casou com minha mãe.
— Oh, você é... — da se calou, mortificada e envergonhada.
— Ilegítimo — Potter assentiu e lhe exibiu um sorriso indiferente e zombeteiro. — Isso mesmo. — Ele a fitou, aguardando, desafiando-a a dizer alguma coisa. Como ela não disse, riu de maneira melancólica. — Nenhum comentário?
— Eu não ousaria — ela replicou.
Potter terminou o café.
— Não se pode escolher uma vida só com coisas boas, isso é fato. — Ele estendeu a mão magra e morena, destituída de joias, e tocou o rosto magro de Ginny com gentileza. — Não deixe de dar esse conselho ao seu irmão. Desculpe se tirei conclusões precipitadas quanto a ele.
O inesperado pedido de desculpas de um homem como Potter trouxe lágrimas aos olhos de Ginny. Ela virou o rosto, envergonhada por demonstrar fraqueza, ainda por cima para ele. Mas a reação de Potter foi imediata e um pouco chocante.
— Vamos sair daqui — ele disse. Fez Ginny levantar-se, com bolsa e tudo, jogou o lixo no local apropriado, e a arrastou para fora da cafeteria direto para dentro de um dos elevadores vazios.
Fechou as portas e acionou o elevador, então o parou de supetão entre dois andares. Puxou Ginny para seus braços, mantendo-a ali de maneira firme e gentil.
— Pode chorar — ele resmungou junto à testa dela. — Está se segurando desde quando o garoto foi preso. Pode chorar. Eu a abraço enquanto chora.
Compreensão era algo que pouco existira na vida de Ginny. Nunca houvera braços para acalentá-la, confortá-la. Era sempre ela a abraçar, a oferecer. Nem mesmo o avô percebera o quanto era vulnerável. Mas Potter vira por trás de sua máscara, como se ela nem estivesse usando uma.
Lágrimas caíram dos olhos, desceram pelas faces. Ginny ouvia a voz profunda murmurando suaves palavras de conforto enquanto as mãos lhe acariciavam os cabelos, o braço prendendo-a contra o peito largo. Agarrou-se às lapelas do sobretudo dele, pensando na estranheza de encontrar compaixão num lugar tão improvável.
Ele era quente e forte, e era tão bom ao menos uma vez deixar que um outro lhe carregasse o fardo, sentir-se desamparada e feminina. Deixou que o corpo relaxasse de encontro ao dele, deixou que ele amparasse seu peso, e uma estranha sensação a invadiu. Era como se seu sangue estivesse em brasa. Algo se desencadeou e se espalhou por seu corpo, e Ginny sentiu em si uma contração que nada tinha a ver com os músculos.
Chocada por sentir aquela súbita e indesejada atração por Potter, ergueu a cabeça e começou a se afastar. Mas os olhos dele estavam fixos nela e não se desviaram.
Uma descarga elétrica se acendeu entre eles por um longo e delicado segundo. Para Ginny era como se tivessem lhe roubado o ar, mas se ele sentia algo similar, não revelou nada no rosto enigmático. Contudo, ele também estava abalado. O olhar dela era-lhe familiar, mas Potter sabia que era algo novo para ela. Se alguém desejasse ver a inocência de uma mulher, bastaria olhar para ela. Ela o intrigava, o excitava. Estranho, pois Ginny era totalmente diferente das mulheres inabaláveis e elegantes que preferia. Era vulnerável e feminina, apesar de forte. Queria soltar aqueles cabelos longos, abrir-lhe a blusa e mostrar a ela a sensação de ser mulher em seus braços. E foi tal pensamento que fez com que ele a afastasse com gentileza e decisão.
— Sente-se bem agora? — perguntou calmamente.
— Sim. Eu... eu sinto muito — ela disse insegura. Sentia as mãos dele afastando-a, e era como ser dilacerada de repente. Queria se agarrar a ele. Talvez fosse a novidade, tentou convencer a si mesma. Afastou os fios de cabelo que escaparam do coque, notando as leves marcas escuras no sobretudo marrom. Deixei marcas no seu casaco.
— Vão secar. Tome. — Potter entregou-lhe um lenço e a observou secar os olhos. Percebeu-se admirando sua força de vontade, sua coragem. Ginny assumira mais responsabilidade que a maioria dos homens aguentaria, e estava suportando tudo com grande sucesso.
Ginny finalmente ergueu o rosto, e os olhos vermelhos buscaram seu rosto tolerante.
— Obrigada.
Ele deu de ombros.
— De nada.
Ela conseguiu exibir um sorriso aguado.
— Não deveríamos colocar o elevador para funcionar novamente?
— Creio que sim. Vão achar que está quebrado e enviar a equipe de manutenção. — Ele ergueu o punho e olhou para o fino relógio dourado enterrado nos pelos espessos da pele intensamente bronzeada. — E tenho que estar no tribunal em uma hora. — Acionou o elevador a subir, agora preocupado.
— Aposto que você é terrível no tribunal — ela murmurou.
— Eu me viro. — Potter deteve o elevador no sexto andar, os olhos um tanto gentis ao observá-la. — Não fique fazendo cara de preocupação. Isso faz rugas.
— No meu rosto, quem notaria? — Ginny suspirou. — Mais uma vez, obrigada. Tenha um bom dia.
— Tentarei. — Potter apertou o botão para subir. Levava o charuto à boca outra vez quando as portas o engoliram. Ginny virou-se e caminhou enlevada pelo corredor. Parecia irreal que Potter tivesse lhe dito algo gentil. Talvez ainda estivesse dormindo e sonhando com tudo.
E ela não era a única a se sentir assim. Ginny ficou na mente de Potter pelo dia inteiro. Ele foi para o tribunal e teve dificuldades em se concentrar. Só Deus para saber como ela tinha conseguido perturbá-lo assim tão fácil. Tinha 35 anos, mas uma má experiência com uma mulher o encerrara numa cápsula de pulo gelo. As mulheres vinham e iam, mas seu coração permaneceu inexpugnável até aquela pequena solteirona, com seu pálido rosto sardento e tristes olhos castanhos, começar a travar com ele uma luta verbal no elevador. Potter, na verdade, ficava ansioso por esses encontros, divertindo-se com as leves provocações, a maneira atrevida de andar, e os olhos que se iluminavam quando ela ria.
Incrível que Ginny ainda pudesse rir, dado o fardo que carregava. Ela o fascinava. Lembrava da sensação do corpo dela em seus braços ao chorar, e uma tensão agitou ramificações que tinham banido sentimentos. Ao menos era o que Potter pensava.
A única coisa certa era queela não seria um tormento. Possuía uma honestidade natural e um profundo senso de compaixão que a impediria de tentar ferir deliberadamente o orgulho de um homem. Ficou carrancudo, lembrando de como Cho Chang atiçava desejos febris em seu corpo e depois se retraia e ria, zombando de sua fraqueza.
Os rumores eram de que ela tinha fugido para a América do Sul com um serventuário judicial, renegando o noivado. A verdade era que Potter a encontrara na cama com uma das amigas. Só então ele compreendeu o prazer que ela sentia em atormentá-lo. Cho chegou a admitir que odiava todos os homens. Por nada no mundo dormiriam juntos, ela dissera. Só estava brincando com ele, divertindo-se com seu sofrimento.
Potter nunca imaginara que mulheres assim existissem. Felizmente não a amava, ou a experiência teria destruído seu coração. De qualquer forma, isso o deixou indiferente às mulheres. Seu orgulho fora dilacerado com o que Cho Chang lhe fizera. Não suportaria perder o controle daquela maneira novamente, desejar uma mulher a ponto de enlouquecer.
Por outro lado, a jovem srta. Weasley estava lhe causando aborrecimentos! Só percebeu o quanto estava carrancudo quando a testemunha que interrogava começou a cuspir detalhes que ele nem pedira. O pobre homem pensou que o olhar zangado era dirigido a ele, por isso preferiu não perder a chance. Potter interrompeu o monólogo e fez as perguntas para as quais queria respostas antes de voltar para seu lugar.
O advogado de defesa, um tal Draco Malfoy,ria com vontadepor trás de alguns papéis. Era maisvelho que Potter — um homem grande de pele mulata, olhos verdes, e muito perspicaz. Era um dos advogados mais ricos de Devon, e indiscutivelmente o melhor das redondezas: o único adversário que vencera Potter nos últimos anos.
— De que lado da corte você estava?— Malfoy perguntou baixinho depois que o júri se retirou. — Deus, você colocou o pobre homem contra a parede, e ele era sua própria testemunha!
Potter sorriu de leve enquanto recolocava seu material dentro da pasta de couro.
— Distraí-me — murmurou.
— É a primeira vez. Devemos fazer uma placa de comemoração ou algo do tipo. Até amanhã.
Potter assentiu distraído. Era a primeira vez que perdia a concentração num julgamento. E tudo por causa de uma secretária magrela de cabelos ruivos.
Devia estar é pensando no irmão dela. Ele teve uma longa conversa com seu investigador durante o almoço, e havia fortes rumores de que um assassinato relacionado ao tráfico de drogas estava para acontecer.
Potter trabalhava num caso envolvendo venda de crack. Ele tinha duas testemunhas, e seu palpite era de que eles pudessem ser os alvos. O investigador dissera ter quase certeza de que Rony Weasley estava envolvido de alguma forma com os traficantes por causa da amizade com os Crabbe-Goyle. Se o garoto foi apanhado com crack, seria possível que estivesse começando a vender?
Não ficaria realmente aborrecido em processar o garoto, mas mudou de ideia ao pensar em Ginny. Como ela reagiria ao saber que o irmão estava na cadeiapor causa dele? Precisava parar de pensar assim. Processar criminosos era seu trabalho. Não podia deixar que sentimentos pessoais entrassem no caminho. Só tinha mais alguns meses como promotor. Faria com que valessem à pena.
Voltou para o escritório perdido em pensamentos. Será que os traficantes arriscariam cometer um assassinato para manter seu território intacto? Se começassem a matar pessoas em sua comarca, seria seu dever descobrir os culpados e mandá-los para a cadeia. Ficou carrancudo, esperando que o irmão de Ginny Weasley não fosse parar novamente em seu gabinete por causa daquela briga por territórios de venda de drogas.
Ginny se ocupava com seus afazeres no trabalho. Escrevia mecanicamente, redigindo petições na máquina de escrever eletrônica, enquanto Angelina usava o computador para incluir precedentes em outro caso. Angelina era uma assistente, qualificada tanto para coletar dados para os advogados quanto para fazer serviços de escritório. Ginny a invejava, mas não poderia arcar com o treinamento necessário para ser assistente de advogado, mesmo que isso lhe significasse um aumento de salário.
Estava preocupada com o avô. O silêncio dele durante o café-da-manhã era perturbador. Ligou para a sra. Arabella na hora do almoço, pedindo que a viúva fosse em sua casa para dar uma olhadinha nele. A sra. Arabella sempre aceitava olhar seu avó quando ela precisava. Além disso, era enfermeira aposentada e Ginny agradecia aos céus por ter vizinha tão boa.
Se ao menos Rony se endireitasse, ela pensou. Já era bem trabalhoso tentar criar dois garotos sem temer que fossem parar na cadeia. Percy adorava o irmão mais velho. Se Rony continuasse daquele jeito, seria questão de tempo até Percy imitá-lo.
Antes que percebesse, já era hora de ir. Fora um dia agitado e estava grata por isso. Dias lentos a deixavam com tempo de sobra para pensar.
Pegou a bolsa e a velha jaqueta cinza e se despediu. O elevador estaria cheio àquela hora do dia, pensou, as batidas do coração acelerando ao descer o corredor. De qualquer forma, o sr. Potter estaria ocupado trabalhando no andar de cima.
Mas não estava. Ele estava no elevador quando ela entrou, e sorriu. Ginny não sabia que ele calculara a hora certa, pois sabia quando ela saía do trabalho e tinha esperanças de encontrá-la.
Era surpreendente, Potter pensou com cinismo, como estava se comportando de maneira ridícula por causa daquela mulher. Ginny sorriu também, sentindo o coração afundar de repente, mas não por causa do movimento de descida do elevador.
Potter também saiu no térreo e foi caminhando ao lado dela como se não tivesse nada melhor para fazer.
— Sente-se melhor? — ele perguntou enquanto abria a porta para que ela saísse para a rua.
— Sim, obrigada — Ginny respondeu. Nunca se sentira tão tímida e desarticulada na vida. Fitou Potter e corou feito uma menininha.
Ele gostou do sinal revelador. Isso lhe animou o espírito.
— Perdi um caso hoje — comentou distraidamente. — Os jurados acharam que eu estava amedrontando a testemunha de propósito e se decidiram a favor da defesa.
— E você estava?
— Amedrontando-o? — A boca larga exibiu um sorriso relutante. — Não. Minha mente estava distante e, por caso, ele estava diante de mim.
Ginny conhecia bem aquele olhar dele. Podia imaginar como a testemunha se sentira sobre pressão. Suas mãos apertaram a bolsa.
— Lamento que tenha perdido o caso.
Potter parou na calçada, sobrepujando Ginny com sua altura, e olhou para ela de maneira pensativa. Hesitou, imaginando que tipo de reação em cadeia iniciaria se a convidasse para sair. Estava louco, disse a mesmo, só de considerar uma ideia dessas. Não podia se envolver na vida dela.
— Como seu avô recebeu a notícia? — ele preferiu perguntar. Ginny ficou desapontada. Esperara uma pergunta diferente, mas provavelmente não passava de fantasia. Por que Potter desejaria sair com alguém como ela? Sabia não ser o tipo dele. Além disso, sua família protestaria violentamente — principalmente o avô.
Ela forçou um sorriso.
— Ele procurou aceitar — respondeu. — Nós Weasley somos durões.
— Procure ter certeza do paradeiro do garoto nos próximos dias — Potter disse de repente. Segurou o braço dela e a puxou para perto da parede, preocupado com os transeuntes. — Recebemos uma informação de que algo vai acontecer na cidade — um assassinato, talvez. Não sabemos quem, quando ou como, mas temos certeza de que relacionado ao tráfico. Duas facções estão brigando pelo domínio da distribuição. Os irmãos Crabbe-Goyle estão envolvidos. Se tentarem usar seu irmão de bode expiatório, considerando o problema no qual já está...
Ginny estremeceu.
— É como andar na corda bamba. Não me importo de cuidar da minha família, mas nunca esperei nada como drogas e assassinatos. — Ela apoiou o peso do corpo no outro pé, fechando mais o casaco. Ergueu os olhos para Potter, sentindo-se ligeiramente vulnerável. — Às vezes, é muito difícil — sussurrou.
Potter conteve o fôlego. Sentia-se ainda mais alto quando ela o olhava assim.
— Alguma vez teve uma vida normal?
Ginny sorriu.
— Quando menininha, acho. Não desde que mamãe morreu. Sempre fui eu, vovô e os meninos.
— Nada de vida social, suponho.
— Sempre acontece alguma coisa: um resfriado, caxumba, catapora. O coração do vovô. — Ginny sorriu docemente. — De qualquer forma, nunca houve exatamente um rebanho à minha porta. — Voltou os olhos para a bolsa. — Não é uma vida ruim. Precisam de mim. Tenho um propósito. Muitas pessoas nem isso têm.
Potter sentia-se assim quanto ao trabalho — sentia-se necessário e isso o satisfazia. Mas, com exceção do afeto por seu pastor alemão, não sentia qualquer emoção que não fosse raiva e indignação. Não sentia amor. Toda sua experiência profissional era baseada na justiça moral, na proteção das massas, na prisão dos culpados. Um propósito nobre, talvez, mas uma profissão solitária. E até pouco tempo, nunca percebera o quanto.
— Acredito — murmurou distraído. Os olhos estavam nos lábios de Ginny Formavam um arco perfeito, rosado, com uma aparência delicada que o fazia arder de vontade de prová-los com sua boca.
Ginny ergueu os olhos, confusa com aquele olhar direto.
— São minhas sardas? — falou sem pensar.
Potter ergueu as grossas sobrancelhas e buscou o olhar dela com um sorriso.
— O quê?
— Você parecia estar pensando em algo — ela murmurou. — Pensei que minhas sardas o incomodassem. — Eu não deveria tê-las, mas meu cabelo é muito avermelhado. Minha avó tinha os cabelos incrivelmente ruivos.
— Você puxou seus pais?
— Sim.
— Gosto de sardas — ele disse, pegando-a desprevenida. Potter olhou o relógio. — Preciso ir para casa. A orquestra sinfônica de Devon apresentará Stravinsky esta noite. Não quero perder.
— O pássaro de fogo?— Ginny perguntou.
Ele sorriu.
— Sim, de fato. A maioria das pessoas odeia.
— Eu amo esse balé. Tenho duas gravações dele — uma de vanguarda e uma tradicional. Eu sempre as escuto com fone de ouvido. Meu avô gosta das antigas gravações de Hank Williams, e meus irmãos preferem hard rock. Não me encaixo em nenhum dos estilos.
— Gosta de ópera?
— Madame Butterfly, Turandot e Carmen. — Ginny suspirou. — E adoro ouvir Plácido Domingo e Luciano Pavarotti.
— Vi Turandot no Met no ano passado — ele comentou. Os olhos verrdes buscaram o rosto dela com satisfação. — Você assiste aos especiais na televisão?
— Quando consigo a televisão só para mim.
— Fizeram um filme de Carmen com Domingo. Eu o tenho.
— E é bom?
— Se você gosta de ópera, é excelente. — Ele vasculhava os olhos dela com lentidão, perguntando-se por que era tão difícil parar de conversar e dizer boa-noite.
Ginny era bonita em sua maneira tímida, e fazia seu sangue zumbir nas veias.
Ela também o fitava, sentindo os joelhos fracos. Isso aconteceu tão rápido, Ginny pensou. Mas ao mesmo tempo em que pensava nisso, sua mente estava rejeitando a chance de qualquer tipo de relacionamento com ele. Potter era o inimigo. Agora, mais do que nunca, não poderia demonstrar fraqueza. Precisava lembrar que Potter queria pegar seu irmão. Seria desleal com a família se deixasse algo acontecer. Mas o coração lutava contra a lógica. Sentia-se sozinha e solitária, sacrificara a melhor parte de sua juventude pela família. Será que não merecia nada para si mesma?
— Pensamentos profundos? — Potter perguntou gentilmente, observando as expressões mudando em seu rosto.
— Profundos e sombrios — ela replicou. Os lábios se entreabriram numa respiração inconstante. Ele a olhava da exata maneira como ela imaginava que um homem olharia para a mulher que desejava. Isso a impressionava, excitava, e amedrontava demais.
Potter logo notou o medo. Sentia o mesmo. Não queria aquele envolvimento mais do que ela, e agora era o momento de terminar com aquilo. Aprumou o corpo.
— Preciso ir. Fique de olho em seu irmão.
— Ficarei. Obrigada por me alertar.
Ele deu de ombros. Puxou um charuto e o acendeu enquanto se afastava, as costas largas tão intransponíveis quanto paredes.
Ginny perguntava-se por que ele se dera ao trabalho de parar para conversar. Poderia estar mesmo interessado numa mulher como ela? Deu uma olhadela em si mesma em uma vitrine enquanto seguia para o estacionamento subterrâneo onde seu carro estava. Ah, claro, pensou, vendo o rosto magro e pálido que a mirava no vidro. Ela era exatamente o tipo de mulher que atrairia um homem tão devastadoramente lindo. Revirou os olhos e rumou para o carro, deixando seus devaneios incorrigíveis para trás.
