CAPÍTULO QUATRO

Era uma bela manhã de primavera. Potter olhava pela janela de sua elegante casa de tijolos, numa das ruas mais calmas de Devon, sentindo-se um pouco culpado por passar a manhã de sábado em casa e não no escritório. Mas Edwiges precisava de exercício, e Potter acabara de se livrar de uma terrível dor de cabeça. Não era de surpreender, já que ficara até tarde da noite lendo petições para os próximos julgamentos.
Edwiges latiu. Potter abaixou-se para afagar o grande pastor alemão de pelo muito branco.

— Está impaciente, não é? Vamos caminhar. Vou me vestir.

Estava de jeans e descalço, o peito recoberto de pelos escuros e tórax à mostra. Tinha tomado uma Coca Diet e comido uma rosquinha velha no café-da-manhã. Às vezes desejava não ter demitido Srª. Cole, sua antiga governanta, por começar a passar informações de seu trabalho à imprensa. Ela era a melhor das cozinheiras e a maior das fofoqueiras que já conhecera. A casa ficava muito silenciosa sem ela, e sua própria comida acabaria por matá-lo um dia.

Vestiu um casaco branco, meias e tênis, e passou um pente pelos espessos cabelos pretos. Olhou para seu reflexo no espelho com uma sobrancelha erguida. Não era nenhum Mister América, pensou, mas o corpo estava em boa forma. Não que isso lhe resultasse em algo bom. Mulheres eram um verdadeiro luxo ultimamente, com seu trabalho consumindo cada hora de seu dia.

Subitamente pensou em Ginny Weasley, e tentou imaginá-la em sua cama. Ridículo. Em primeiro lugar, ela provavelmente era virgem, e em segundo lugar, a família dela se colocaria entre ela e qualquer pretendente em potencial. E eles tinham todos os motivos para não o desejarem por perto também. Não, ela estava além do seu alcance. Precisava continuar dizendo isso a si mesmo.

Olhou ao redor de sua elegante moradia com um leve sorriso, imaginando como era estranho que o filho ilegítimo de um comerciante socialmente proeminente e uma índia cherokee terminasse com uma casa daquelas. Só alguém audacioso como seu tio teria a coragem de fazer Harry ser aceito pela sociedade e desafiá-la a rejeitá-lo.

Tio Sirius. Riu apesar de tudo. Ninguém que olhasse para o retrato daquele velho sério e honrado suspeitaria de seu senso de humor insultante ou de seu coração de manteiga. Mas ele ensinara a Harry tudo o que ele sabia sobre ser querido e amado. A morte dos pais fora muito traumática. Sua infância fora uma espécie de pesadelo — principalmente a escola. Mas seu tio sempre esteve ao seu lado, forçando-o a aceitar e orgulhar-se de sua herança. Ele lhe ensinou muito sobre coragem, determinação e honra. Tio Sirius era juiz, um exemplo do que havia de melhor na profissão. E fora seu exemplo que levara Harry à faculdade de Direito, e que depois o lançou à exposição pública como promotor. Vá lá e faça algo de bom, tio Sirius dissera. Dinheiro não é tudo. Os criminosos estão assumindo o controle. Faça o trabalho que precisa ser feito.

Bem, era o que ele estava fazendo. Não gostava de ser uma figura pública, e a campanha realizada depois de servir um ano no cargo para completar o mandato de seu predecessor fora um inferno. Mas saíra vencedor, para sua surpresa, e gostava de pensar que tinha tirado alguns dos piores criminosos das ruas. Seu motivo constante de irritação era o tráfico de drogas, por isso era muito meticuloso ao preparar uma ação. Não havia brechas nas petições de Potter.

O tio havia lhe ensinado a importância de uma preparação adequada. Nunca se esquecera disso, para o desespero de vários defensores públicos e advogados de defesa bem-sucedidos. Tio Sirius deixara Harry espantado por querer lhe infundir um senso de orgulho de sua origem cherokee. Queria ter certeza de que Harry nunca tentaria escondê-la ou disfarçá-la. Inserira Harry na sociedade de Devon, fazendo-o perceber que a maioria das pessoas o considerava interessante, não um estorvo. Não que isso lhe importasse alguma coisa. Possuía muito da ousadia do tio para não aceitar insultos de ninguém. Era bom com os punhos, e chegara a usá-los umas poucas vezes ao longo dos anos.

Ao crescer, começou a compreender muito mais aquele velho orgulho. O avô de Sirius viera da Irlanda para a Inglaterra sem um centavo no bolso, e sua vida fora uma série de desastres e tragédias.

O primeiro americano da família abriu a lojinha especializada que viria a se tornar o início da cadeia de lojas de conveniência dos Potter. Sirius era um dos dois únicos filhos que haviam sobrevivido. E então Sirius descobriu que era estéril. Fora um duro golpe em seu orgulho. Mas ao menos o único filho de seu irmão produzira um herdeiro — Harry.

A cadeia de lojas de conveniência aos poucos chegou à falência. Tio Sirius conseguira manter dinheiro suficiente para deixar Harry financeiramente seguro, mas o nome Potter e o respeito conquistado por gerações constituíam praticamente todo o montante de sua herança. E como Harry era muito reservado, o segredo da família não se espalhou muito. Levava uma vida confortável e sabia como investir seu dinheiro, mas não era milionário. O Mercedes-Benz de tio Sirius e a antiga e elegante mansão de tijolos, ambos livres de débitos, eram os únicos remanescentes de um passado mais próspero.

Edwiges latiu no exato momento em que a campainha soou.

— Certo, tenha calma — disse enquanto voltava para a sala de estar, os pés descalços pisando silenciosamente sobre o luxuoso carpete bege.

Potter abriu a porta da frente para Zacharias Smith, que lhe sorria através da tela.

— Oi, chefe — o investigador disse animado, exibindo um sorriso. — Tem um minuto?

— Claro. Vou pegar a correia do Edwiges, então poderemos caminhar e conversar. — Deu uma olhada no corpanzil do homem. — Um pouco de exercício não vai doer.

Zacharias fez uma careta.

— Tinha medo de que dissesse isso. Como está a dor de cabeça?

— Melhor. Aspirina e compressas frias acabaram com ela. — Potter prendeu Edwiges à correia e abriu a porta. As manhãs de primavera eram frias, e Zacharias estremeceu. As árvores ainda exibiam galhos secos que estariam cobertos com delicados buquês de flores em um mês.

Potter caminhava pela calçada, deixando que Edwiges liderasse o trajeto.

— O que tem para mim? — ele perguntou quando estavam na metade do quarteirão.

— Muita coisa. O gabinete do xerife recebeu esta manhã uma queixa a respeito da escola primária de Devon. A mãe de uma das crianças ligou para denunciar. O filho viu um dos traficantes de maconha discutindo com Vincent Crabbe-Goyle no intervalo. Tem sido só maconha... até agora.

Potter parou de pronto, os olhos verdes atentos.

— Os Crabbe-Goyle estão tentando entrar com crack na área?

— É o que achamos — Zacharias replicou. — Não temos nada ainda. Mas verificarei com alguns alunos para ver o que descubro. Também estamos organizando uma revista nos armários com a ajuda da polícia local. Se encontrarmos crack, saberemos quem está envolvido.

— Isso vai causar uma confusão enorme com os pais — ele murmurou.

— Sim, eu sei. Mas vamos dar um jeito. — Deuuma olhada em Potter quando retomaram a caminhada. — Aquele Rony Weasley foi visto com Gregório Crabbe-Goyle num daqueles clubes suspeitos do centro de Devon. Estão sempre juntos.

O rosto de Potter ficou rígido.

— É o que ouvi dizer.

— Soube que não tinha evidências que bastassem para mandá-lo à corte — disse Zacharias. — Mas se eu fosse você, ficava de olho naquele garoto. Ele pode nos levar direto aos Crabbe-Goyle, se usarmos as cartas certas.

Potter estava pensando nisso. Seus olhos verdes se estreitaram. Caso se aproximasse de Ginny, poderia manter Rony Weasley à vista com facilidade. Era este o motivo, perguntou-se, ou estava racionalizando desculpas para ver Ginny? Precisava pensar muito bem no assunto antes de tomar uma decisão.

— Tem uma outra complicação também — Zacharias continuou, as mãos enfiadas nos bolsos ao olhar para Potter. — Seu companheiro de briga está sepreparando para anunciar.

— Malfoy? — Potter perguntou, já que também ouvira os rumores. Malfoy não lhe revelara nada no tribunal. Era típico daquele grandalhão tirar um coelho da cartola no momento mais inesperado. Potter sorriu. — Ele vencerá, a menos que eu esteja enganado. Há muitos disputando meu cargo, mas Malfoy é um verdadeiro tubarão.

— Ele vai querer o seupescoço.

— Só para fazer notícia — Potter assegurou. — Ainda não decidi se me candidato a um terceiro mandato. — Alongou os braços e bocejou. — Que ele faça o que quiser. Não dou a mínima.

— Quer terminar bem o dia? — Zacharias murmurou com um olhar seco. — O último falatório. Estão soltando Antonin Dolohov na segunda.

— Dolohov. — Ele franziu a testa. — Sim, lembro. Eu o mandei para a cadeia por roubo armado há seis anos. Que diabos ele está fazendo livre?

— O advogado conseguiu com o governador indulto completo da pena. — Ele ergueu a mão. — Não me culpe. Não escondo sua correspondência. Sua secretária é a culpada. Ela me disse que esqueceu de mencionar o assunto e que você andou ocupado demais para ler a mensagem.

Ele conteve umxingamento.

— Dolohov. Droga! Se existe um homem que merece menos perdão... Ele é realmente culpado!

— Claro que é. — Zacharias parou de andar, parecendo desconfortável. — Eleprometeu te matar caso ficasse livre. É melhor ficar com as portas trancadas, só para garantir.

— Não tenho medo de Dolohov — Potter respondeu, estreitando os olhos. — Deixe-o tentar, se tiver sorte. Não será o primeiro.

Isso era fato. O promotor fora alvo de assassinos por duas vezes: uma por meio de uma arma de um réu furioso por ter sido considerado culpado graças à habilidade de Potter; a outra pela faca de um réu enlouquecido, bem no tribunal. Ninguém presentena corte naquele dia se esqueceria do ataque da faca. Potter esquivara-se do golpe sem qualquer esforço e atirara o atacante contra uma mesa. Ele tinhaservido nas Forças Especiais, não era surpresa que fosse forte. Mas Zacharias pensava, em segredo, que a herança indígena também ajudava. Os índios eram guerreiros formidáveis. Estava no sangue.

Potter despediu-se de Zacharias e continuou sua caminhada diária de 1,5 kmcom Edwiges. Estava emboa forma física. Exercitava-se na academia semanalmente e jogava basquetebol. A caminhada era mais para o bem de Edwiges que o dele próprio. Edwiges tinha dez anos e um estilo de vida sedentário. Com Potter ocupado no gabinete seis dias por semana — e, às vezes, quando a agenda estava atribulada no tribunal, os sete dias da semana —, Edwiges não fazia exercício suficiente no cercado nos fundos do quintal.

Pensou no que Zacharias lhe contara e fez uma careta. Dolohov estaria de volta às ruas com a mira apontada atrás dele. Isso não era surpresa. Nem a informação sobre os irmãos Crabbe-Goyle. Uma guerra de traficantes era justoo que precisava no momento, com o Weasley no meio de tudo.

Lembrava-se do pai do garoto — um homem mal-humorado e nada prestativo, de olhos frios. Impressionante que fosse pai de uma mulher como Ginny, de coração bom e olhos doces. Mais impressionante ainda que pudesse abandoná-la assim. Potter meneou a cabeça. De uma maneira ou de outra, a vida dela só piorava — especialmentecom um irmão daqueles. Puxou a correia de Edwiges e retomou o caminho de casa.

Era meia-noite de segunda-feira, e Rony Weasley ainda não estava em casa. Ele e os irmãos Crabbe-Goyle estavam falando de dinheiro, muito dinheiro, e ele se sentia nas nuvens por pensar no quanto iria conseguir.

— É fácil — Gregório lhe disse despreocupado. — Tudo o que você precisa fazer é dar umas amostras para algumas das crianças mais endinheiradas. Elas vão provar e então pagarão qualquer coisa. Simples.

— Sim, mas como encontro as crianças certas? Como vou saber quais crianças não vão me dedurar para a polícia? — Rony perguntou.

— Você tem um irmãozinho na escola de Devon. Pergunte a ele. Podemos dar uma parte para ele — Gregório disse, sorrindo.

Rony sentiu-se desconfortável com isso, mas não disse nada. Ficava tonto só de pensar em todo aquele dinheiro fácil. Hermione começara a prestar atenção nele desde que ficara amigo de seus primos, os Crabbe-Goyle. Cho, com seus belos cabelos pretos e provocantes olhos azuis, que poderia escolher qualquer um entre os garotos do último ano. Rony gostava muito dela — o bastante para fazer qualquer coisa para ser notado. Drogas não eram uma coisa assim tão ruim, disse a si mesmo. Afinal, se as pessoas não conseguissem com ele, poderiam consegui-las de qualquer outra pessoa. Se ao menos não se sentisse tão culpado.

— Falo com Percy amanhã — Rony prometeu.

Os olhos miúdos de Gregório se estreitaram.

— Só uma coisa. Não deixe sua irmã descobrir. Ela trabalha com um bando de advogados, e o promotor está no mesmo prédio.

— Ginny não vai descobrir — Rony assegurou.

— Certo. Até amanhã.

Rony saiu do carro. Ficara longe de problemas naquela noite para que Ginny não suspeitasse de nada. Precisava deixá-la no escuro. Não seria difícil, refletiu. Ela o amava. Isso a tornava vulnerável.

Na manhã seguinte, enquanto Ginny estava no andar de cima se vestindo para o trabalho, Rony encostou Percy na parede.

— Quer conseguir algum dinheiro para gastar? — perguntou ao menino com olhar calculado.

— Como? — Percy perguntou.

— Algum dos seus amigos usa drogas? — Rony perguntou.

Percy hesitou.

— Não.

Rony se perguntava se deveria insistir, mas ouviu os passos de Ginny e ficou nervoso.

— Falamos disso depois. Não conte nada para Ginny.

Ginny entrou e viu Percy carrancudo e quieto. Rony parecia nervoso. Havia colocado seu vestido de jérsei azul e um par de botas de couro preto lustroso. Não possuía muitas roupas, masninguém no trabalho mencionava o assunto. Eram pessoas muito gentis, e ela sempre estava limpa e arrumada, mesmo que não tivesse a mesma quantidade de dinheiro para roupas que Lilá e Parvati.

Ajeitou o coque e terminou de preparar o almoço de Percy bem a tempo de ele pegar o ônibus, mas franziu ligeiramente a testa quando viu que Rony não o acompanhava.

— Como vai para a escola? — perguntou a Rony.

— Hermione vem me buscar — respondeu despreocupadamente. — Ela dirige um Corvette. Belo carro — novinho.

Ela o fitou com um pouco de suspeita.

— Tem ficado longe daqueles irmãos Crabbe-Goyle como eu pedi?

— Claro — ele respondeu inocentemente. Muito mais fácil mentir que brigar. Além disso, ela nunca saberia que estava mentindo.

Ginny relaxou um pouco, mesmo que ainda não confiasse nele por completo.

— E as sessões de aconselhamento?

Rony a encarou.

— Não preciso de aconselhamento.

— Não me importa se você acha que precisa ou não — ela disse com firmeza. — Potter disse que você precisa ir.

Ele apoiou o peso do corpo no outro pé, parecendo inquieto.

— Certo — respondeu com irritação. — Tenho hora marcada com o psicólogo amanhã. Vou aparecer.

Ela suspirou.

— Bom. Isso é muito bom, Ron.

Ele estreitou os olhos e a encarou.

— Só não fique me dando ordens, Ginny. Sou um homem, não um garoto para você dizer o que fazer.

Antes que ela esbravejasse, ele saiu a tempo de ver o Corvette se aproximando. Entrou rápido e o carro acelerou pela estrada.

Poucos dias depois, Ginny ligou para o diretor do colégio de Rony para ter certeza de que ele estava indo às aulas. Soube que ele estava com frequência impecável. Continuava indo às sessões de aconselhamento também, embora Ginny não soubesse que ele ignorava os conselhos do psicólogo. Já fazia três semanas desde a prisão, e ele aparentemente estava na linha. Graças a Deus. Ginny acomodou o avô e foi trabalhar, os pensamentos tomados por Potter.

Não o encontrara no elevador ultimamente. Imaginava que tinha voltado para o tribunal até vê-lo passar em disparada quando ela saía para o almoço. Era curiosa a maneira dele se mover, Ginny pensou melancólica, com graça e leveza nos pés. Amava ver como ele se movia.

Potter estava alheio ao atento exame ao pegar a Mercedes azul no estacionamento e dirigir-se à oficina do velho Crabbe-Goyle, de nome C.G.; que servia de fachada para sua operação de venda de drogas. Todos sabiam disso, mas nunca se encontrara provas.

Aos sessenta anos, Crabbe-Goyle era calvo e tinha uma barriga de cerveja. Nunca se barbeava. Possuía marcas escuras sob os olhos e um grande nariz, perpetuamente vermelho. Fitou Potter quando este, mais jovem e mais alto, saiu do carro parado junto ao meio-fio.

— O grande homem em pessoa — Crabbe-Goyle disse com um sorriso aborrecido. — Procurando por alguma coisa, promotor?

— Eu não encontraria — Potter respondeu. Parou diante de Crabbe-Goyle e acendeu um charuto com movimentos lentos e deliberados de seus dedos longos. — Meu investigador andou checando uns rumores que não me agradaram muito. E o que ele descobriu me desagradou ainda mais. Então pensei em vir ver pessoalmente.

— Que tipo de rumores?

— Que você e Greyback estão se preparando para uma briga por território. E que você está agindo entre as crianças da escola primária.

— Quem, eu? Nevilleagem! Tudo bobagem — Crabbe-Goyle disse com zombeteira indignação. — Não vendo drogas para crianças.

— Não, você não precisa. Seus filhos fazem isso por você. — Potter soprou uma nuvem de fumaça, mirando o rosto do homem de propósito. — Então vim lhe dizer uma coisa. Estou vigiando a escola, e estou vigiando você. Se uma daquelas crianças arranjar uma colherinha de coca, um grama de crack, coloco você e seus filhos atrás das grades. Custe o que custar, não importa o que eu tenha de fazer; pegarei você. Só queria dar o recado pessoalmente.

— Obrigado por me alertar, mas está falando com o cara errado. Não vendo drogas. Aqui só tenho uma oficina. Trabalho com carros. — Crabbe-Goyle deu uma espiada atrás de Potter, na Mercedes. — Belo trabalho. Gosto de carros importados. Posso consertá-lo para você.

— Meu carro não precisa de reparos. Mas me lembrarei de você — Potter disse em tom zombeteiro.

— Faça isso. Apareça quandoquiser.

— Pode contar com isso. — Potter assentiu de leve com a cabeça e entrou novamente no carro. Crabbe-Goyle o fitava com expressão de fúria quando o carro retomou o trânsito.

Mais tarde, Crabbe-Goyle puxou seus filhos de lado.

— Potter está me aborrecendo. Não podemos cometer erros. Esse Weasley é mesmo de confiança?

— Claro que é! — Gregório respondeu com um sorriso preguiçoso. Era mais alto que o pai, de cabelos escuros e olhos azuis. Não sendo um garoto feio, superava em beleza o irmão caçula, gorducho e de rosto avermelhado.

— Ele pode ser sacrificado caso o promotor chegue perto demais — Crabbe-Goyle disse em tom perverso. — Vocês têm algum problema com isso?

— Problema nenhum — Gregório logo respondeu. — Por isso que o deixamos ser pego com o bolso cheio de crack. Mesmo que não tenha ficado preso, se lembrarão disso. Poderemos usá-lo da próxima vez, se precisarmos.

— Não poderão usar o antecedente contra ele na corte juvenil — o mais novo dos Crabbe-Goyle os lembrou.

— Escutem — o homem disse aos fi1hos. — Se Potter colocar as mãos naquele garoto novamente, vai indiciá-lo como adulto. Podem apostar. Só precisam ter certeza de que o Weasley está sob controle. Por enquanto — acrescentou pensativamente —, preciso tirar Potter de cima de mim. Acho que seria vantajoso contratarmos alguém, antes que ele coloque as mãos em nós.

— O Mike deve conhecer alguém — Gregório disse ao pai, estreitando os olhos.

— Ótimo. Pergunte a ele. Pergunte esta noite — acrescentou. — O mandato de Potter acaba este ano; deve se candidatar. Ele pode nos usar de exemplo para ganhar a eleição.

— Weasley disse que ele não vai concorrer outra vez — Gregório disse.

O pai o encarou.

— Todos dizem isso. Não caio nessa. E a transação da escola primária?

O filho mais velho sorriu.

— Está na bolsa — Gregório assegurou. — Estamos colocando Weasley nessa. O irmãozinho estuda lá.

— Mas o menino vai aceitar?

Gregório ergueu a cabeça.

— Já resolvi o assunto. Vamos deixar que Weasley nos acompanhe numa compra, para que o fornecedor lhe dê uma boa olhada. Depois disso, ele é nosso.

— Bom trabalho — o pai disse, sorrindo. — Vocês dois poderiam jurar que ele é o cabeça do bando, e Potter acreditaria. Faça isso, então.

— Pode deixar, pai.

Numa tarde, Ginny notou Rony falando de maneira enérgica com Percy quando chegava do trabalho. Percy explodiu e saiu pisando duro. Rony fitou a irmã, parecendo inquieto.

Imaginava o que teria acontecido. Provavelmente outra discussão. Os meninos pareciam não estar se dando bem ultimamente. Colocou uma trouxa de roupas na máquina de lavar e preparou o jantar.

— Preciso ir à biblioteca, Ginny! — Rony gritou da porta da frente.

— Está aberta tão tarde...? — ela começou a perguntar, mas ouviu uma porta batendo, depois outra, e um carro se afastando.

Ela correu até a janela. Os irmãos Crabbe-Goyle, pensou, furiosa. Rony tinha dito que não andava mais com eles. O sr. Quirrell o alertara; ela também.

Mas como poderia manter Rony longe deles sem ter que amarrá-lo? Não podia contar ao avô. Ele tivera um dia ruim e fora se deitar mais cedo. Se ao menos tivesse com quem conversar!

Percy estava fazendo seu dever de matemática na mesa da cozinha sem reclamar, estranhamente silencioso e inquieto.

— Posso ajudar em alguma coisa? — Ginny perguntou, parando ao lado dele.

Ele ergueu os olhos e então os desviou, rápido demais.

— Não. É que o Rony me pediu para fazer uma coisa e eu disse que não. — Percy torcia o lápis. — Ginny, se você soubesse que uma coisa está para acontecer, e não contasse a ninguém, isso a tornaria culpada também?

— Que tipo de coisa ruim?

— Oh, não estava pensando em nada realmente — Percy respondeu de maneira evasiva.

Ginny hesitou.

— Bem, se você soubesse de alguma coisa errada acontecendo, deveria contar. Não estou dizendo para ser linguarudo, mas coisas perigosas devem serdenunciadas.

— Acho que você tem razão. — Ele voltou ao trabalho, deixando Ginny sabendo tanto quanto antes.

Rony foi com os irmãos Crabbe-Goyle pegar um carregamento de crack. Nas três últimas semanas, aprendera um bocado sobre como encontrar clientes para os Crabbe-Goyle. Conhecia as crianças que levavam bronca em casa, as que estavam com problemas na escola, as que estavam loucas por qualquer coisa ilícita. Já tinha conseguido ajudar em algumas vendas e a quantidade de grana era incrível, mesmo com uma pequena comissão.

Pela primeira vez, tinha dinheiro para gastar e Hermione estava encantada por ele. Comprara algumas coisas novas para si, como camisas e jeans de marca. Tinha o cuidado de deixar tudo no armário da escola para que Ginny não desconfiasse. Agora queria um carro. Só não sabia como fazer para que Ginny não descobrisse. Provavelmente o deixaria com os irmãos Crabbe-Goyle. Claro, era uma boa ideia. Ou com Cho.

Mas ainda estava fervendo de raiva de Percy. Pediu que o ajudasse a encontrar clientes na escola, mas Percy ficou furioso e disse que não faria uma coisa daquelas! Ameaçou contar tudo a Ginny, mas Rony o desafiou. Sabia de coisas sobre Percy que poderia usar a seu favor — como as revistas masculinas escondidas no guarda-roupa, e o canivete butterfly que arranjara na escola e Ginny desconhecia a existência. Percy ficara quieto, mas fora embora zangado, e Rony estava um pouco nervoso. Achava que o irmão não o denunciaria, mas nunca se entende as crianças.

Estava no local de entrega, um restaurantezinho abandonado num lugar isolado, com dois fornecedores num jipe. Os irmãos Crabbe-Goyle agiam de maneira estranha, pensou, notando como se olhavam. Deixaram o motor do carro ligado também. Rony começou a se sentir assustado.

— Você leva o dinheiro — Gregório disse a Rony, dando-lhe um tapinha nas costas. — Não precisa se preocupar. Sempre somos cuidadosos, caso a polícia venha atrás de nós, mas estamos seguros esta noite. Apenas vá até lá e passe o dinheiro.

Rony hesitou. Até agora, não passava de pequenas quantidades de cocaína. Isso o rotularia como comprador e traficante, o que aumentaria a pena em muitos anos se fosse preso. Ficou apavorado por um instante, tentando imaginar como isso afetaria Ginny e o avô. Então se controlou e ergueu a sacola contendo o dinheiro. Não seria pego. Os irmãos Crabbe-Goyle conheciam o negócio. Tudo ficaria bem. E o fornecedor não iria querer dedurá-lo, já que Rony poderia retribuir o favor.

Quando se aproximou da figura vestida de preto num blazer esporte da moda, parado ao lado de uma Mercedes-Benz classuda, estava praticamente andando com ares de superior de tanta confiança. Não falou nem duas palavras com o fornecedor. Entregou o dinheiro, que foi conferido, e a coca, numa mochila, lhe foi passada. Tinha visto os traficantes testarem a droga nos programas de tevê, mas aparentemente a qualidade era garantida na vida real. Os irmãos Crabbe-Goyle não pareciam nem um pouco preocupados.

Rony pegou a droga, acenou com a cabeça para o traficante, então voltou para onde Gregório e o irmão esperavam, o coração batendo feito um tambor, a respiração saindo com dificuldade. Era uma emoção incrível, superar seu próprio medo e fazer algo perigoso só para variar. Seus olhos, brilhavam ao alcançar o carro.

— Certo. — Gregório sorriu. Segurou Rony pelos ombros e o sacudiu. — Bom homem! Agora é um de nós.

— Sou? — Rony perguntou, hesitante.

— Claro. É um traficante, como nós. E se você não cooperar, Vincent e eu vamos jurar que você é o cabeça do bando e que você fez toda a transação.

— O fornecedor sabe que não — Rony argumentou.

Gregório riu.

— Ele não é fornecedor — disse, observando as unhas. — É um dos pulhas do meu pai. Por que acha que não testamos a droga antes de você entregar o dinheiro?

— Mas se ele é um dos homens do seu pai... — Rony tentava compreender o que acontecia.

— Havia uma patrulha do outro lado da rua — Gregório disse calmamente. — Pegaram você. Só não puderam te prender porque não tinham tempo de chamar reforços e sabiam que você fugiria. Mas têm uma fita, provavelmente um áudio, e tudo o que precisam é de um testemunho para fechar o cerco em você. Você comprou cocaína... muita cocaína. O pulha não vai se importar de cumprir pena, pois é bem pago. Sempre se pode pagar para que ele seja solto mais tarde. Você não teria a mesma sorte, claro.

Rony ficou tenso.

— Pensei que confiassem em mim!

— É só garantia, amigo — Gregório assegurou. — Queremos que seu irmãozinho espie as coisas na escola primária. Se ele colaborar, você não cumpre pena.

— Percy disse que não. Ele já disse que não! — Rony começava a ficar histérico.

— Então é melhor fazê-lo mudar de ideia, não é? — Gregório disse, os olhos miúdos se estreitando perigosamente. — Ou vai ficar com problemas por um longo, longo tempo.

E fácil assim, pegaram Rony. Ele não sabia que a dita patrulha eram apenas amigos dos Crabbe-Goyle, nada perigoso. Ou que Hermione estava sendo persuadida a ser legal com ele para mantê-lo no negócio. Sim, tinham fisgado um pobre peixinho que não sabia o quanto estava perdido. Ainda.