CAPÍTULO CINCO
Ginny tentava fazer fotocópias para Lilá, redigir uma petição com urgência para Angelina, a assistente, e esvaziar sua mente ao mesmo tempo. Os últimos dias escavam sendo bem atribulados. Rony estava mais agressivo que nunca — retraído, mal-humorado, e abertamente hostil. Percy andava retraído também, evitando o irmão e se recusando a contar à irmã o motivo. Em pior que um campo armado. O avô a deixava aflita. Ginny estava à beira de um ataque de nervos. Veio para o trabalho agitada, querendo entrar no carro e fugir, sem jamais olhar para trás.
— Não pode se apressar, Ginny? — Angelina implorou. — Preciso estar no tribunal à uma, e é um trajeto de 45 minutos por causa do trânsito na hora do almoço! Assim nem poderei almoçar!
— Estou correndo, juro que estou — Ginny assegurou, franzindo a testa enquanto tentava fazer os dedos trabalharem ainda mais rápido.
— Eu faço minhas próprias cópias — Lilá disse, dando um tapinha no ombro de Ginny ao passar. — Apenas acalme-se, querida. Está indo bem.
A simpatia quase trouxe lágrimas aos olhos de Ginny. Lilá era um amor. Ginny rangeu os dentes e deu tudo de si, terminando a tempo de Angelina correr para o tribunal.
— Obrigada! — Angelina gritou da porta, e sorriu. — Fico devendo um almoço!
Ginny apenas assentiu, e parou para tomar fôlego.
— Você está péssima — Lilá observou ao passar por ela, voltando da sala de cópias. — O que houve? Quer conversar?
— Não adiantaria de nada — Ginny disse com um sorriso gentil. — Mas agradeço mesmo assim. E obrigada por cuidar disso.
Lilá ergueu as cópias.
— Sem problemas. Não tente fazer muita coisa ao mesmo tempo, viu? — acrescentou em tom sério. — Você é novata aqui, o que a deixa em má situação às vezes. Não tenha medo de dizer não quando não puder cumprir um prazo. Conseguirá viver mais assim.
— Veja quem fala — Ginny a repreendeu carinhosamente. — Não é você que sempre se oferece para os projetos de caridade que a firma aceita?
Lilá deu de ombros.
— Então não escuto meu próprio conselho. — Ela conferiu o relógio. — É quase meio-dia. Vá almoçar. Fico com o segundo horário hoje. Você precisa de um descanso — acrescentou, olhando preocupada para a figura magra de Ginny no simples vestido acinturado rosa, o cabelo caindo no rosto e nos ombros, a maquiagem já desfeita. — Mas arrume-se antes, querida. Você parece alguma porcaria que um gato arrastou para casa.
— Então pareço uma cobrinha verde? — Ginny perguntou, consternada.
Lilá encarou-a.
— Não entendi.
— Bem, meu gato só sabe levar cobras para casa. — Olhou para si mesma. — Eu me definiria como um gigantesco cogumelo rosa, talvez. Uma cobrinha verde? Jamais!
— Saia logo daqui — Lilá murmurou.
Ginny riu. Lilá era como um tônico. Pena que não pudesse colocá-la num frasco e levá-la para casa à noite. Sua casa era uma provação pior que o trabalho, e reconhecia que estava perdendo as forças.
Desceu até o restaurante da esquina, surpresa por se achar na fila junto com o promotor de justiça do condado, o próprio Potter.
— Olá, promotor — ela disse, tentando não soar tão abalada como se sentia. Era como explodir dinamite num ambiente fechado, vê-lo naquele terno cinza, que enfatizava os ombros largos e a pele morena.
— Olá para você também — ele respondeu, fitando-a com leve interesse. — Por onde tem se escondido? O elevador está começando a ficar chato.
Ginny ergueu as sobrancelhas.
— Não diga! Por que não tenta usar as escadas e usa sua fumaça para tirar os zeladores do esconderijo?
Potter deu uma risada. Não estava fumando um daqueles charutos detestáveis, mas ela tinha certeza de que ele tinha um escondido.
— Minha fumaça já os espantou do esconderijo — ele confessou. — Coloquei fogo na cesta de lixo esta manhã. Não ouviu o alarme de incêndio disparar?
Sim, mas Lilá fora verificar e era alarme falso.
— Está brincando — ela disse, sem saber se acreditava nele.
— Não é piada. Eu estava ao telefone e não prestei muita atenção no cinzeiro. Um erro que não acontecerá novamente — ele acrescentou. — Minha secretária conseguiu que o chefe da brigada de incêndio em pessoa me ligasse para um sermão sobre segurança. — Ele franziu a boca e seus olhos brilharam. — Ela não é parente sua, por acaso?
Ginny riu.
— Creio que não, mas ela parece muito o meu tipo de secretária.
Potter meneou a cabeça.
— Mulheres! Um homem nunca está a salvo. — Ele deu uma olhada resignada na longa fila e virou o pulso para conferir o relógio. — Eu tinha duas horas livres, mas minhas anotações precisavam ser digitadas e ainda tive que buscar uma petição antes que tivesse tempo de almoçar. — Meneou a cabeça. — Ter o escritório a quase meia cidade de distância do tribunal não está funcionando muito bem.
— Pense no exercício que está fazendo. Será um benefício extra.
— Seria, caso eu precisasse perder peso. — Potter observou-lhe o corpo delgado. — Você perdeu um pouco. Como está seu irmão? — perguntou diretamente.
Ela ficava nervosa quando Potter a olhava daquela maneira. Perguntava-se se ele tinha visão microscópica, porque parecia capaz de ver através de sua pele.
— Ele está bem.
— Espero que esteja longe de drogas — disse em tom inalterado. — Os irmãos Crabbe-Goyle estão atolados até o pescoço. Andar com eles só o colocaria em problemas dos quais você não conseguiria livrá-lo.
Ela ergueu os olhos.
— Você o colocaria na cadeia?
— Se ele infringir a lei. Sou um servidor público. Os contribuintes esperam que eu honre o salário que recebo. Já devem ter lhe contado o que penso de vendedores de drogas.
— Meu irmão não é um, sr. Potter — Ginny respondeu com honestidade. — É um bom garoto. Só se meteu com má companhia.
— É o que basta, sabia? As cadeias estão cheias de bons garotos que brincaram de siga o mestre por tempo demais. — Seus olhos se estreitaram. — Lembra que eu falei que algo grande estava para acontecer? Talvez um assassinato? Não se esqueça disso. Mantenha seu irmão em casa à noite.
— Como? — ela perguntou, erguendo as mãos. — Ele é maior do que eu, nem consigo mais conversar com ele. — Levou uma das mãos à testa. — Sr. Potter, já estou cansada de levar o mundo nas costas — disse à meia-voz.
Potter segurou-lhe o braço.
— Venha.
Ele a tirou da fila, surpreendendo-a, e foi direto para a porta.
— Meu almoço — ela protestou.
— Esqueça isso. Vamos comer em algum Crystal.
Ela nunca colocara os pés em uma Mercedez-Benz na vida, até aquele momento. Os bancos eram cinza, de couro autêntico, confortáveis e com apoio de cabeça. Até cheiravam como autêntico couro. O painel era revestido de madeira, que provavelmente era autêntica também. O carro possuía brilhante acabamento azul metálico, e Ginny conteve o fôlego com a beleza do interior acarpetado.
— Você parece impressionada — ele murmurou ao dar a partida.
— O motor ronrona mesmo, não é? — perguntou, automaticamente ajustando o cinto de segurança. — E os bancos são de couro verdadeiro? É automático?
Ele sorriu de maneira indulgente.
— Sim, sim e sim. O que você dirige?
— Um tanque Sherman reformado — ao menos é o que parece logo cedo num dia frio. — Ela sorriu para Potter. — Não precisa me levar para almoçar. Vai se atrasar.
— Não, não vou. Tenho tempo. Seu irmão vende drogas, Ginny?
Ela ficou atônita.
— Não!
Ele lhe deu uma olhada ao reduzir na faixa de conversão.
— Muito bom. Tente mantê-lo longe das drogas. Estou de olho na família Crabbe-Goyle. Vou colocá-los atrás das grades antes de deixar o gabinete, custe o que custar. Drogas nas ruas é uma coisa. Drogas na escola primária — não no meu condado.
— Não pode estar falando sério! — ela exclamou — No centro da cidade, talvez, mas não na escola de Devon!
— Descobrimos crack — ele disse — no armário de um aluno. Ele tem dez anos e vende drogas. — Ele a fitou, franzindo a testa. — Meu Deus, não pode ser tão ingênua. Não sabe que centenas de crianças são mandadas para a cadeia todos os anos por venderem drogas, ou que uma a cada quatro crianças na Geórgia tem pais viciados?
— Não sabia — ela confessou, encostando a cabeça na janela. — O que aconteceu com as crianças que iam para a escola brincar com sapos, participavam de competições de soletrar e festinhas?
— Geração errada. Esta prefere dissecar sapos e encher a cara de cerveja nas festas. Vão para a escola, claro, mas já no primário aprendem coisas que eu só vim a descobrir quando estava no ginásio. Aprendizagem acelerada, srta. Weasley. Queremos que as crianças se tornem logo adultos para que não tenhamos que nos preocupar com traumas infantis. Estamos produzindo adultos em miniatura, e as crianças que ficam sozinhas em casa estão no topo da lista.
— As mães precisam trabalhar.
— É o que fazem. Mais de cinquenta por cento delas compõe a força de trabalho, enquanto seus filhos são separados entre as novas famílias. — Ele acendeu o charuto sem perguntar se ela se importava. Sabia que a incomodava. — As mulheres nunca terão direitos iguais enquanto os homens não engravidarem.
Ela sorriu.
— Imagino o quanto você sofreria com as dores do parto.
Potter riu de leve.
— Sem dúvida e, com a minha sorte, seria parto invertido. — Ele meneou a cabeça. — Foi um dia daqueles. Estou indiciando dois menores como adultos esta semana e fiquei mal-humorado. Quero mais pais que cuidem de seus filhos. É o meu tema favorito.
— Você não tem filhos, imagino? — Ginny perguntou timidamente.
Potter entrou em uma das lanchonetes Crystal e estacionou.
— Não. Sou antiquado. Acho que filhos vêm depois do casamento. — Abriu a porta e saiu, ajudando-a a descer do carro antes de trancá-lo. — Quer hambúrguer ou chili?
— Chili — ela respondeu de imediato. — Com molho tabasco para acompanhar.
— Então você é uma daquelas, não é? — ele comentou, os olhos verdes provocando-a.
— Uma daquelas o quê? — ela perguntou.
Ele deixou as mãos deslizarem até segurarem as de Ginny, que conteve a respiração de modo audível. Potter parou diante da porta e olhou para baixo novamente, notando o deleite e o espanto registrados no rosto oval, nos olhos castanhos com pontinhos dourados. Ela estava tão surpresa quanto ele por sentir que o contato parecia disparar uma descarga elétrica através de sua mão, em seu corpo, retesando-lhe com inesperado prazer.
— Mãos macias — Potter comentou, franzindo ligeiramente a testa. — Dedos calejados. O que faz em casa?
— Lavo, cozinho, limpo, cuido do quintal. São mãos muito trabalhadoras.
Potter as ergueu e as virou em suas mãos quentes, estudando os dedos longos e elegantes de unhas curtas e sem esmalte. Pareciam mãos de quem trabalha muito, mas eram elegantes, apesar de tudo. Num gesto impulsivo, inclinou a cabeça e roçou a boca nos nós dos dedos.
— Sr. Potter — ela exclamou, corando.
Ele ergueu a cabeça e seus olhos brilharam.
— É apenas meu lado irlandês se exibindo. Meu lado cherokee, claro, teria atirado você sobre um cavalo e partido em disparada pelos campos ao pôr-do-sol.
— Eles tinham cavalos?
— Sim. Conto tudo sobre eles um dia desses. — Quando ele entrelaçou os dedos aos dela e a levou para dentro da lanchonete, Ginny sentiu-se caminhar feito uma sonâmbula.
Fizeram o pedido, encontraram uma mesa vazia e sentaram-se. Ginny levou uma colher de chili à boca enquanto Potter comia dois cheesebúrgueres e duas porções de batata frita.
— Deus, estou faminto — ele murmurou. — Não tenho encontrado tempo para comer nos últimos dias. Minha agenda está lotada; tenho trabalhado na maioria das noites e fins de semana. Sustento casos até dormindo.
— Pensei que você tivesse assistentes para fazer isso.
— A quantidade de casos é inacreditável — ele disse — apesar dos acordos e admissões de culpa. Há pessoas na cadeia que não deveriam estar presas, esperando que seus casos sejam agendados para julgamento. Parece não haver o bastante de tribunais, ou juizes, ou cadeias.
— Ou promotores?
Ele sorriu enquanto tomava seu milk-shake de chocolate.
— Ou promotores. — Os olhos verdes deslizaram pelo rosto de Ginny, erguendo-se novamente para encontrar os dela. O sorriso arrefeceu e o olhar ficou mais íntimo. — Não quero me envolver com você, Ginny Weasley.
A franqueza dele exigiria dela um pouco de costume. Ginny engoliu em seco.
— Não?
— Ainda é virgem, não é?
Ela ficou muito vermelha. Potter franziu as sobrancelhas.
— E nem precisei adivinhar — disse em tom pesaroso. — Bem, não seduzo virgens. Tio Sirius queria que eu fosse um cavalheiro, não um pele vermelha, então me ensinou boas maneiras. Tenho escrúpulos, graças à maldita interferência dele.
Ginny remexeu-se na cadeira, incerta de Potter estar falando sério ou apenas provocando-a.
— Não me atiro na cama com homens estranhos — ela declarou.
— Não seria atirada, seria carregada — ele apontou. — E não sou estranho. Posso incendiar meu escritório ocasionalmente, e pisar na cauda do meu cachorro, mas isso não é tão esquisito.
Ginny sorriu gentilmente, sentindo ondas de calor no corpo enquanto o fitava, apreciando a força do rosto de malares salientes, o poder e a graça de seu corpo. Era um homem muito sensual. Estava roubando seu coração, e ela nem podia salvar a si mesma.
— Não sou do tipo liberal — da confessou. — Sou muito convencional. Fui criada de forma rigorosa, apesar do meu pai, e na igreja. Suponho que isso lhe soe arcaico...
— Tio Sirius era diácono na igreja batista — ele interrompeu. — Fui batizado aos dez anos e frequentei a escola dominical até terminar o colegial. Você não é o único espécime arcaico por aí.
— Sim, mas você é homem.
— Espero que sim — ele suspirou. — Do contrário, terei gastado uma fortuna num guarda-roupa que não posso vestir.
Ginny riu com genuíno prazer.
— Este é mesmo você? Onde está o homem carrancudo que conheci no elevador?
— Tinha muito motivos para estar carrancudo. Fui transferido de meu confortável gabinete para um verdadeiro cubículo, afastado de minha cafeteria favorita, sobrecarregado de apelações — claro que estava mal-humorado. Então, aparece essa moça irritante que não parava de me insultar.
— Você começou — ela apontou.
— Só me defendi — ele argumentou.
Ginny brincava com seu copo de café de isopor.
— Eu também. Aposto que você deve ser muito assustador no tribunal.
— Algumas pessoas acham que sim. — Ele juntou as sobras de seu almoço. — Precisamos ir. Não gosto de sair assim correndo, mas só tenho meia hora para estar de volta no tribunal.
— Desculpe! — Ela se levantou de pronto. — Não percebi que estávamos aqui há tanto tempo.
— Nem eu — ele confessou. Deixou que Ginny o precedesse até a lata de lixo, então saíram da lanchonete. Estava esquentando, mas ainda era um dia frio, por isso ela fechou mais a jaqueta.
Os olhos dele se detiveram na roupa. Estava gasta e provavelmente já tinha uns três ou quatro anos. O vestido também não era novo, e os sapatos pretos de salto estavam arranhados. Ficava perturbado por ver que ela tinha tão pouco. Mesmo assim costumava ser alegre — exceto quando o irmão era mencionado. Conhecera mulheres ricas que criticavam tudo e todos, mas Ginny não possuía praticamente nada e parecia amar a vida e as pessoas.
— Agora você me parece contente — ele comentou enquanto voltavam para o prédio em que trabalhavam.
— Todos têm problemas — ela replicou calmamente. — Sei lidar bem com os meus na maioria das vezes. Não são piores do que os de ninguém — ela acrescentou com um sorriso. — Aprecio a vida na maior parte do tempo, sr. Potter.
— Harry — ele corrigiu. Fitou Ginny e sorriu. — É irlandês.
— Não diga! — ela zombou, fingindo-se surpresa.
— Que nome esperava que eu tivesse? George Rocha-em-Pé, ou Aragogue Rosto-de-Mármore, ou algum nome estrangeiro?
Ela cobriu o rosto com as mãos.
— Oh, minha nossa! — ela gemeu.
— Na verdade, o nome da minha mãe era Lilian Evans. O pai dela era irlandês, e a mãe cherokee. Então tenho apenas um quarto de sangue cherokee, não metade. De qualquer forma, tenho um profundo orgulho de minhas origens.
— Percy vive tentando convencer o vovô a dizer que ele tem sangue indígena — ela comentou. — A turma dele está estudando a tribo cherokee este semestre, e ele está doido para aprender a usar aquela zarabatana que utilizavam para caçar. Sabia que era a única tribo do sudeste a caçar com zarabatana?
— Sim, sabia. Sou cherokee — ele apontou.
— Só um quarto, você mesmo disse. E este um quarto poderia não saber disso.
— Pare de discutir.
— Au contraire, nunca deixo uma discussão pela metade — ela garantiu em tom presunçoso.
Ele precisou fitá-la por duas vezes.
— Meu Deus. — Assobiou por entre os dentes. — Você é rápida, moça.
— Rápida, mas nunca apressada, senhor — ela respondeu com voz arrastada.
Potter riu.
— Já tinha imaginado isso. Diga a Percy que os cherokees não usavam curare. Só os índios sul-americanos conheciam esse veneno.
— Direi a ele. — Ela fitou a bolsa sobre o colo. — Ele gostaria de você.
— Você acha? — Potter queria muito convidá-la para sair, conhecer sua família. Isso lhe seria vantajoso, pois Rony andava com os Crabbe-Goyle, e uma aproximação lhe garantiria informações. Mas não queria magoar Ginny, o que aconteceria caso se aproveitasse dos sentimentos dela. Melhor deixar as coisas como estavam, por enquanto.
— Aqui estamos.
Ginny teve que lutar contra o desapontamento. Afinal, ele a levara para almoçar. Devia estar grata pelas migalhas, não ressentida por Potter não ter lhe oferecido todo um banquete. Então lhe presenteou com um grande sorriso quando, na verdade, queria chorar.
— Obrigada pelo chili — ela agradeceu quando estavam parados ao lado do carro.
— Foi um prazer. — A mão delgada encontrou o rosto dela, o polegar contornando o lábio inferior com versada deliberação. — Se não estivéssemos em local público, srta. Weasley — ele disse, deixando os olhos verdes se concentrarem nos lábios dela —, tomaria sua boca e a beijaria até seus joelhos fraquejarem.
Ginny conteve o fôlego. Aqueles olhos verdes estavam a hipnotizá-la, precisava fazer algo antes que se atirasse aos pés dele e implorasse para que a beijasse.
— Cheesebúrgueres costumam afetá-lo desta maneira? — ela sussurou, tentando salvar o orgulho.
Potter saiu perdedor. Explodiu numa gargalhada e baixou a mão.
— Maldita mulher! — resmungou com certo esforço.
Ginny estava orgulhosa de si mesma. Conseguira recuperar o equilíbrio sem afetar muito o orgulho dele. Ela o fizera rir. Imaginava se era assim tão fácil quanto parecia.
— Que vergonha! Praguejando contra uma dama em público, sr. Promotor de Justiça — disse de maneira empertigada. Então sorriu. — Muito obrigada pelo almoço, e pelo ombro. Não costumo ficar deprimida com frequência, mas, ultimamente, as coisas têm sido agitadas lá em casa.
— Não precisa me dar explicações — ele respondeu gentilmente. Ginny o fazia se sentir protetor. Não era um sentimento ao qual estivesse acostumado.
— É melhor eu entrar — ela disse após um minuto.
— É. — Os olhos dele se fixaram nos dela, e o tempo pareceu parar. Ele vibrava de vontade de puxá-la contra si e beijá-la. Imaginava se ela sentia o mesmo, o que explicaria o porquê de ela ter rebatido, à sua maneira, as palavras dele.
— Bem... nos veremos.
Potter assentiu. Ginny conseguiu colocar os pés para caminhar, mas tinha certeza de não estar tocando o chão enquanto entrava no prédio. Não sabia que um par de olhos curiosos a vira sair e voltar com Potter.
— Sua irmã está andando com o promotor, Weasley — Gregório Crabbe-Goyle contou a Rony naquela noite. — Almoçou com ele. Não podemos deixar a situação continuar. Ele pode chegar até nós através dela.
— Não seja estúpido — Rony respondeu com nervosismo. — Ginny não está interessada em Potter — sei que não está!
— Ele e o investigador estão chegando muito perto. Talvez seja preciso acabar com ele — Gregório disse, os olhos miúdos fixos nos olhos espantados de Rony. — Temos um carregamento grande chegando nas próximas semanas. Não podemos ter complicações.
— Não acha que matar o promotor causaria complicações? — Rony riu, porque Gregório gostava de exagerar.
— Não se outro levar a culpa.
Rony deu de ombros.
— Bem, não contem comigo. Não sei atirar direito.
Gregório o fitou com firmeza.
— Estávamos pensando em algo menos perigoso. Você sabe, uma armadilha no carro. — Ele sorriu da expressão duvidosa de Rony. — Você é muito bom em ciências, não é, Rony? E fez aquele trabalho sobre explosivos para a feira de ciências no ano passado. Não seria difícil para um bom investigador conseguir essa informação, sabe? Nada difícil. — Gregório deu-lhe um tapinha no braço. — Então seja bom garoto, Rony, e se vire com seu irmãozinho. Ou talvez seja preciso explodir o promotor e colocar a culpa em você.
— Percy não vai mudar de ideia — Rony respondeu com hesitação. Gregório já estava alto. Talvez aquela história não passasse de piada de bêbado. Claro que não fariam algo tão estúpido. Não, assegurou a si mesmo. Era só conversa. Só temiam que Ginny pudesse contar alguma coisa a Potter, só isso. Estavam querendo assustá-lo. Deus, não podiam estar falando sério!
— É melhor Percy mudar de ideia — Gregório disse numa voz macia que significava problemas. Seus olhos dilatados encontraram os de Rony. — Está escutando, Rony? É melhor ele mudar de ideia, e logo. Queremos montar o negócio na escola primária e vamos conseguir. Então se apresse!
Ginny foi para casa flutuando em nuvens, a mente completamente ocupada com Potter, seus problemas muito longe. Preparava o jantar enquanto o avô assistia ao noticiário, e nem notou a ausência de Percy e Rony.
Percy surgiu pálido na cozinha, mas não disse nada. Murmurou qualquer coisa sobre não estar com fome, sem olhar Ginny nos olhos. Ela o seguiu até o quarto, secando as mãos no pano de prato.
— Percy, algum problema?
Ele a fitou e fez menção de falar, mas então olhou para algo atrás dela e imediatamente fechou a boca.
— Problema nenhum. Não é, Percy? — Rony disse, sorrindo. — O que temos para o jantar?
— Vai mesmo ficar para o jantar? — Ginny perguntou.
Ele deu de ombros.
— Não tenho nada melhor para fazer — não hoje, de qualquer forma. Pensei em jogar damas com o vovô.
Ginny sorriu aliviada.
— Ele ficaria contente.
— Como foi seu dia? — Rony perguntou enquanto voltavam para a cozinha e Ginny verificava os pãezinhos assando no forno.
— Oh, muito bom. O sr. Potter me levou para almoçar.
— Ficando amiguinha do promotor? — Rony perguntou, estreitando os olhos.
— Isso não tem nada a ver com você — ela respondeu decidida. — Ele é um bom homem. Foi só um almoço.
— Potter, bom? — Rony riu de modo amargo. — Claro que é. Quis colocar o papai na cadeia, agora está atrás de mim. Mas ele é bom.
Ginny ficou vermelha.
— Isso não tem nada a ver com você — ela repetiu. — Pelo amor de Deus, eu tenho direito a um pouco de diversão na vida! Eu cozinho, limpo e trabalho para sustentar vocês. Não tenho nem o direito de sair para almoçar com um homem? Tenho 24 anos, Rony. Mal posso dizer que já tive um encontro! Eu...
— Sinto muito — ele disse, e era verdade. — É sério, sinto muito mesmo. Sei o quanto trabalha por nós — acrescentou baixinho. Então virou-se de costas, sentindo-se pequeno e envergonhado. Havia tanta coisa que não podia revelar. Só queria arranjar algum dinheiro extra, disse a si mesmo, para ajudar em casa. Mas não podia mostrar nada do dinheiro para Ginny porque sabia que ela iria perguntar onde o tinha conseguido.
Criara uma grande confusão. Gregório Crabbe-Goyle estava com ele nas mãos. Mas Rony não queria ir para a cadeia. Suspirou e olhou para o céu noturno através da janela. Talvez houvesse outra criança que o ajudasse — alguém com menos escrúpulos que seu irmãozinho.
Rony fitou Ginny. Ela gostava do promotor. Ele não. Mas pensar que os Crabbe-Goyle tinham falado em matá-lo... Deus, que confusão! Rony voltou para a sala de estar enquanto Ginny cuidava do jantar. Sempre havia a opção de procurar Potter e alertá-lo. Mas e se fosse piada? Gregório fazia piadas doentias. Talvez a conversa de assassinato fosse uma. Afinal, Rony raciocinou, onde Gregório Crabbe-Goyle encontraria um assassino de aluguel? Isso mesmo. Estava se preocupando por nada. Então relaxou, porque sem um assassino, Gregório não poderia fazer nada. Tudo não passava de uma piada de mau gosto, e ele caíra feito patinho! Que idiota!
— Que tal um jogo de damas depois do jantar, vovô? — de perguntou ao idoso no sofá forçando um sorriso.
Ginny serviu logo o jantar e foi para a cama, determinada a não notar o desânimo de Percy, a fingida animação de Rony, e a falta de entusiasmo pela vida do avô. Era hora de ter vida própria, mesmo que isso significasse endurecer seu coração. Não poderia continuar se sacrificando para sempre. Fechou os olhos e viu o rosto de Harry Potter. Nunca antes desejara alguém o suficiente para lutar contra a família. Até agora.
