No verão de 1998, Hogwarts começou a ser reconstruída. Minerva McGonagall, a atual diretora, estava muito atarefada.

Hermione Granger convenceu os seus melhores amigos, Harry Potter e Rony Weasley, a ajudarem sua antiga professora a cumprir tudo no prazo.

— Que bom que chegaram.— Suspirou a diretora, com a face rosada por causa do suor.— Mesmo com muita ajuda, temos muita coisa para fazer...

— E estamos aqui para dar mais uma mãozinha.

— Uma mãozinha forçada, ela quer dizer.— Soltou Rony de supetão, arrancando um risinho de Harry, de um pisão de Hermione.— Aí...

— Muito bem, então. Nós já terminamos algumas salas e a parte externa, mas ainda há muito trabalho a fazer.— Refletiu por um segundo.— Precisamos arrumar a torre de astronomia. E também tem a biblioteca. Aberforth está lá, organizando o acervo reservado.

Rony direcionou um olhar de súplica para o amigo, como de estivesse pedindo para que ele optasse pela biblioteca para o ruivo ter um momento mais íntimo com Hermione.

— Eu vou para a biblioteca. Podem ir para a torre de astronomia.— Disse Harry. Hermione franziu as sobrancelhas.

—Tem certeza? Você, além de não conhecer muito bem a biblioteca, vai ficar sozinho, não propriamente sozinho, mas sim...

— Ele disse que vai para a biblioteca, Mi. Não para o matadouro.— Ele falou rapidamente, provavelmente porque queria ficar sozinho com a namorada. — Vamos para a torre de astronomia. Harry, provavelmente, vai terminar lá primeiro, então ele sobe. Até mais Harry.

— Bom, se é assim...— Ela suspirou. Rony pegou em sua mão e a puxou pela porta.

Harry acenou enquanto via ambos desaparecerem.

— Bom, vou verificar a casa de barcos. Me avisem quando tiverem que ir... e, mais um alerta. Aberforth está particularmente... irritável hoje, então tome cuidado.— Harry assentiu, fazendo gesto de seguir até a biblioteca, porém a diretora ainda tinha algo dizer.— Obrigada por virem.— Harry sorriu para a professora e, assim, entrou mais uma vez na sua tão antiga e amada escola enquanto a diretora desceu as escadas.

A parte interna de Hogwarts estava consideravelmente bagunçada. Alguns degraus faltavam, o corrimão de algumas escadas estavam quebrados e os quadros desorganizados e com espaços vazios.

Depois do primeiro lance, já estava no primeiro andar. Virou à direita, seguiu reto, virou à esquerda e pronto: lá estava a placa que indicava o lugar da biblioteca.

Quando entrou, deparou-se com uma grande sala totalmente bagunçada, com caixas de papelão no chão cheias de livros, quadros apoiados em mesas quebradas espalhadas desorganizadamente pelo cômodo e nas paredes da biblioteca.

Nesse momento, Harry ouviu um gemido de dor consideravelmente alto vindo do fundo da biblioteca, na Área Reservada. Harry caminhou rapidamente até o local do ruído.

Aberforth Dumbledore estava curvado, tentando pegar um livro de capa negra. Harry logo se apressou a ajudá-lo. Ajudou o velho a se recompor e pegou o livro no chão.

— Estúpida coluna.— Amaldiçoou.— Obrigada.— Harry assentiu, entregando-lhe o livro, que o Dumbledore colocou na prateleira, completando o espaço em branco.— Parece que terminei a Área Reservada. Minerva lhe enviou, certo?

— Hum hum. O que posso fazer para ajudar?

— Venha, garoto, vamos arrumar a parte comum.

Depois de três horas, faltava ainda uma estante inteira para ser completada e todos os quadros para serem colocados nas paredes. Mas, em compensação, as mesas já estavam consertadas e em seus devidos lugares.

Durante a reorganização, Harry evitou o máximo emburrar o velho, o que funcionou quase perfeitamente, excluindo a hora em que Aberforth deu um bronca no jovem quando eles arrumou uma prateleira inteira incorretamente, mas nada muito agressivo.

Dando-se mais meia hora, terminaram a estante que faltava. Nesse exato momento, o relógio de bolso que o Dumbledore do meio carregava apitou, como se fosse um alarme de despertador.

— Tenho que ir.— Disse Aberforth, guardando o relógio e olhando para Harry.— O Cabeça de Javali não vai funcionar sozinho. Pergunte aos quadros onde deveriam estar. Quando terminar, avise Minerva. Obrigada pela ajuda.

— Não tem de que.— Respondeu Harry.

Assim, partiu. Harry não prestou muita atenção nessa ação, pois ainda tinha trabalho a fazer.

A biblioteca era um dos cômodos onde mais haviam quadros.

O primeiro pego, de moldura pesada e medidas consideráveis, retratava Louisa May Alcott, no auge dos seus 21 anos, segundo a descrição. Esse era um dos quadros preferidos de Harry, pois ela sempre o ajudava quando tinha prova de História da Magia e tinha um humor que assemelhava-se um pouco da sua mãe (pelo menos era o que ele – e Snape, segundo os boatos de que o falecido professor a visitava de vez em quando – achavam). Ela sorriu docemente para ele.

— Olá Harry, como vai?

— Melhor do que nunca, srta Alcott.

— Muito bem. Eu vivo ali, ao lado de... espere... onde está H.G.?

— Estou aqui!— Harry ouviu a voz do escritor à distância. Harry colocou Alcott na parede e buscou o precursor da ficção-científica.

— Obrigada.— Fez um gesto gentil com o chapéu.

— Não tem o que agradecer.— Responde Harry cordialmente.

— Louisa... tão bom lhe ver novamente.— Falou para a moça do quadro adjacente.

— Igualmente.— E começaram a conversar.

Harry demorará um considerável tempo para ajeitar tudo. Mesmo com ajuda de magia e de uma pintura amigável de uma jovem loira á beira de uma fonte, teve dificuldade em posicionar todos os quadros onde deveriam ficar.

A maioria dos quadros ajudava Harry, indicando onde deveriam estar, mas alguns reclamaram. Charlotte Brontë foi deveras rude com Harry pois eles tocará bem em cima da tela. Edgar Allan Poe censurou o jovem por interrompê-lo enquanto declamava um poema de amor para Annabell Lee, que apenas sorria apaixonadamente para o poeta.

Mas, em fim, terminara. Olhou em sua volta. Estava tudo arrumado em seu devido lugar. Estava um pouco sujo, mas esse era o trabalho dos elfos. Então já poderia ir embora.

Agachou-se para amarrar o cadarço que havia se desfeito durante a arrumação.

Quando olhou para o pé, viu um cartão postal com a parte de trás para cima. Harry, curioso, desviou a atenção do tênis para o papel.

Um selo no canto, havia uma mensagem escrita por uma letra caprichada com as curvas bem redondas.

Escópelos, Grécia, 05 de maio de 1947.

Olá papai, como vai?

Faz apenas três dias que chegamos aqui na Grécia, mas já sinto falta de você e tio Alvo.

Tom e eu estamos tendo uma ótima lua de mel! Já visitamos templos e feiras. Conhecemos até mesmo a Academia Hecáte! A diretora é extremamente inteligente e foi muito gentil conosco.

Espero receber notícias suas,

De sua amada filha Ariana.

Ali também era indicado que aquele cartão postal era para Aberforth, assim, mais uma Dumbledore para a lista. Harry estranhou, nunca havia ouvido falar dessa garota na vida. Nunca foi mencionada no livro de Rita Skeeter. Nenhum Dumbledore comentara sobre ela. Será que ela estava viva ou morta? Vivia em algum lugar distante, pois nunca ouvira sobre ela?

Pela data, Harry soube que o Dumbledore guardava aquela carta há mais de 50 anos. A filha era realmente importante para ele. Deveria devolver o mais rápido possível.

Porém sua curiosidade natural falou mais alto. Analisou mais uma vez aquelas palavras escritas, então, virou o cartão para ver a foto. Ele não precisava – e nem sabia se podia.

Era uma foto colorida desbotada de um casal. Eles estavam sentados em um banco, junto da uma janela branca e abaixo de uma flor cor-de-rosa. Ao horizonte, as ondas se quebravam e o sol se punha. O lugar era extremamente bonito. Ao fundo, ele podia ver o as ondas do mar se quebrando, algumas pessoas com traje de banho passando.

Porém era o casal que lhe chamava atenção. Com um livro nas mãos, uma garota com os cabelos cacheados, compridos e loiros, Lia o livro em voz alta pra o garoto, que também tinha cabelos cacheados, porém curtos e negros. Ele admirava a jovem, enrolava o dedo em seu cabelo e as vezes arriscava em dar um beijo. Em alguns momentos, ele olhavam sorridentes para a câmera e acenavam.

Parecia uma figura normal de um casal aleatório. Harry olhou mais de perto. Ele conhecia ambos, mas não sabia de onde...

Assim, percebeu. Arregalou os olhos.

O primeiro que reconheceu foi obviamente o garoto. Tom Riddle, o Voldemort antes de tantas horcruxes. Mas não podia ser ele. Tom Riddle não amava. Mas como ele podia admirar tão apaixonadamente a garota?

Mesmo em negação em relação a sua última descoberta, mirou a garota. Ele já a vira em algum lugar, só não se lembrava...

Como um raio, lembrou-se. Olhou para o canto com as mesas. Lá estava ela, dentro do quadro. Aquela era Ariana Dumbledore II. Ambas representações da filha de Aberforth eram quase iguais, ele só podia identificar o cabelo solto com um laço e o vestido florido. O resto, idêntico. Ariana Dumbledore, sobrinha de Albus Dumbledore, e Tom Riddle já tiveram um relacionamento. Uma coisa que lhe chocou foi como ambos eram diferentes. Ariana fora tão gentil consigo e Tom Riddle, bem, todos sabemos o que Tom fizera com o menino-que-sobreviveu.

A sua cabeça rodava e rodava com perguntas que não faziam o menor sentido.

Movido a curiosidade, fez a menção de logo acabar todas suas dúvidas.

Porém, hesitou. Como ele perguntaria sem ser indelicado, sem ser invasivo? Aquilo podia ser um assunto que magoasse-a. Pois, a final, ela teve um relacionamento mais profundo com Voldemort. Ele pode ter feito alguma coisa contra ela.

Por fim, decidiu falar com o quadro. Era melhor acabar com as suas dúvidas do que sofre pensando sobre elas.

Ariana estava lendo um livro, com um sorriso bobo.

— Srta...

— Ah, olá Harry.— Respondeu a mulher, fechando o livro e virando-se para olhar Harry.— Acabei de ler um ótimo livro, "Wicked". Conhece?

— Não, mas...

— Que pena... porém, recomendo-lhe. É uma leitura leve e divertida, que conta a história de uma bruxa que não é má, apenas verde. Mas mesmo assim, todos a conhecem apenas pelos maus rumores que o Mágico de Oz espalhou.— E deu uma pequena risadinha. Harry sorriu, levemente envergonhado.— Então? Acabou? — Ele assentiu, olhando para os pês.— Bom.— Falou, sorrindo.— Acho que você tem que ir, certo? Se algum voltar para Hogwarts, passe aqui para conversarmos um pouco. Adoro ouvir boas histórias... e tenho certeza que você tem algumas excelentes.

Harry olhou para a figura de Ariana. Serena e bela. Feições gentis e angelicais, com um coração bondoso e gentil. Ele ainda não acreditava como um ser assim se apaixonaria por um dos maiores bruxos das trevas que já existiram. Ele mirou o cartão postal. Alienou-se totalmente, analisando cada detalhe de tanto da foto como da mensagem.

— O que tem aí, Harry?— Perguntou Ariana, tirando o jovem de seu devaneio.

— Na-nada.— Gaguejou, escondendo o objeto em suas costas.

— Ora Harry, não tenha receio. Prometo não espalhar se for algum segredo. Saiba que pode contar comigo.

Harry refletiu. Ele realmente queria saber a história daquela foto, porém não queria magoar Ariana. Porém, com mais um olhar à aquele cartão postal, a curiosidade foi tanta que não pode resistir.

— Bem...— Pensou um pouco ele, formulando o melhor jeito de perguntar o que queria.— Há uns minutos atrás, eu achei um cartão postal.

— Certo. Eu poderia ver-lo?— Harry afirmou, estendendo-o para que a pintura pudesse enxergar-lo.

Em um primeiro momento, o sorriso sereno de Ariana não se desfez, porém, depois de alguns segundos, a face calma se tornou séria. Harry mordeu o lábio.

— O cartão postal de papai...— Murmurou, tirando o livro do colo, colocando-o sobre a mureta.— Ele deve ter deixado cair.

Ela parecia estar um pouco em choque. Harry também estaria, se tivesse casado com Lord Voldemort.

Ariana encarava fixamente a imagem, como se várias memórias preenchessem sua mente. Ela murmurava coisas incompreensíveis ao jovem.

Ele recolheu o cartão postal, retirando Ariana de seus devaneios.

— Me desculpa... eu... eu... não se queria...— Gaguejou, nervoso como nunca.

— Está tudo bem, Harry. Você não me magoou.— Ela suspirou.— Faz muito tempo que não via essa imagem.— Ela sorriu carinhosamente, recordando o passado. — Acho que você gostaria de ouvir a história por detrás dessa foto. Eu também gostaria, se eu visse a imagem de uma garota apaixonada pelo meu maior inimigo.— Deu uma risadinha leve.

— Então você-

— Sim, Harry, eu seu o que aconteceu entre você e Voldemort. Eu sei a pessoa detestável que meu marido, meu Tom, se tornou. Porém, não se engane. Voldemort nem sempre foi aquele monstro sanguinário sem nenhuma piedade. "There are two sides to every story".— Recitou a clássica frase.— Ele já foi humano, com sentimentos e frustrações humanas. Ele já teve receios e medos. Voldemort já amou. E eu me considero a prova disto. Melhor se sentar, Harry. Você precisa ouvir toda a história antes de se posicionar. Eu prometo que explicarei tudo, só de-me tempo.