Barriga de Aluguel

Não era surpresa para ninguém que um dos maiores desejos do Kazekage era ser pai, todavia um casamento, naturalmente, não fazia parte de seus planos. Por isso, ele decide contratar a kunoichi da Folha, Yamanaka Ino, para ser sua barriga de aluguel.

Prólogo

Durante a infância, ele conheceu o ódio. Sentimento esse que foi cultivado, dia após dia, noite após noite durante anos aparentemente intermináveis. E que foi florescido, assassinado e ressuscitado em um curto período de tempo durante sua adolescência. Por mais que tentasse se desapegar das lembranças vergonhosas e depressivas, o ruivo não conseguia. Não era capaz de esquecê-las, de deixá-las de lado, pois aquele sentimento desprezível ainda o perseguia, mesmo que tivesse se redimido e mostrado ao mundo ninja que era mais do que seus demônios refletiam, ainda assim, infelizmente era assolado pelo ódio. Olhava fixamente através das janelas, observando as pequenas gotas de chuva cair lentamente, molhando toda a Vila da Areia de forma desenfreada. Ele esfregou o rosto entre as mãos. Era desgastante pensar a respeito, mas ultimamente era a única coisa que lhe restava a fazer. Refletir. E ele o fazia com primazia, especialmente sozinho trancado dentro de seu escritório, longe dos gritos histéricos e desnecessários de Temari e de toda a confusão que sua casa havia se tornado após o nascimento de Shikadai.

Se não fosse o ódio cego e irracional, ele com certeza não teria sido possuído pelo Shukaku. Meneou a cabeça, estava devaneando além do que deveria e tinha perfeita ciência disso. Batidas na porta irromperam a sua linha de raciocínio, levando o ruivo a inspirar fundo antes de bufar. Ergueu-se da poltrona e marchou para fora do cômodo, abrindo a porta somente para constatar o óbvio.

—Quantas vezes tenho que dizer para não me incomodar enquanto estou aqui?!

—Ui. — Temari debochou impacientemente. Como o conselheiro particular do Hokage, seu marido Shikamaru estava de férias, o casal decidiu viajar até Suna para passarem algum tempo. O que, exceto pela parte de ter o sobrinho por perto, tem sido um verdadeiro inferno para o ruivo. A irmã não o deixava em paz, era um porre. O atormentando com o mesmo assunto.

De certa forma, sua reflexão sobre o ódio tinha muito a ver com a presença constante de Temari dentro de casa. Era sempre o mesmo assunto chato e os mesmos questionamentos dúbios e aborrecedores, era puro blábláblá. No auge dos seus vinte e sete anos, o ruivo esperava que ela percebesse por si só que ele não tinha o menor interesse por assuntos fúteis como o casamento e não seria ela, ou qualquer outra pessoa a fazê-lo mudar de ideia. Ele estava determinado, e era um homem adulto, porra. Pior ainda: era um dos grandes líderes mundiais, e não iria se submeter aos caprichos da sua irmã tola e romântica ou os de ninguém, na verdade. Gaara estava decidido.

—Você passa tanto tempo trancado nesse escritório, que às vezes desconfio que você está ocupado com alguma das suas concubinas! — disparou a irmã envaidecidamente. — O Dai quer brincar com você, seu tio estúpido.

Ele rolou os olhos, reprimindo o ímpeto de afogá-la em areia movediça. O que acabou demandando dele muito mais força e autocontrole do que imaginava.

—Minha vida sexual com certeza não diz respeito a você, sua maluca controladora. — e então soltou o ar de uma vez, expulsando-os de seu pulmão com o semblante endurecido em uma máscara de raiva mesclada com indiferença. — Eu adoraria brincar com meu sobrinho, com toda certeza, só que no momento tenho outras preocupações.

—Como o que, por exemplo? — ela o questionou com seriedade. — Vamos, Gaara, qualquer que seja o assunto chato e burocrático que você tenha de cuidar, tenho plena certeza de que pode exigir sua atenção mais tarde. Shika está louco de saudades do tio demônio dele — essa ultima frase ela murmurou fazendo vozinha de criança, enquanto apertava as bochechas do irmão mais novo,que com certeza não achou a menor graça.

Afastando-se depressa dela, que gargalhou sorumbaticamente exatamente do modo que ele imaginava que faria, ele apenas gesticulou com os dedos para que ela o seguisse também. Os anos haviam lhe ensinado muitas coisas e dentre elas é que não se confiava em Temari dentro de seu escritório. Ela possuía o péssimo habito de bisbilhotar onde não devia, acabava interpretando de maneira errônea e começando discussões altamente pretensiosas e desnecessárias, em suma, era muito mais pratico mantê-la longe do cômodo.

Conversando, a dupla de irmãos passou pelo extenso corredor. Na verdade, Temari era quem se dava ao trabalho de falar, Gaara permanecia calado, com a mesma expressão sorumbática de sempre, vez ou outra abrindo a boca para exprimir sua opinião e apenas isso, era praticamente um monologo, na verdade. Respirando fundo, soltando o ar com força, o ruivo de olhos esverdeados enfiou as mãos nos bolsos de sua calça, pensativo.

Não via necessidade de se casar. Sim, ele estava completamente consciente de que era um dos homens politicamente mais influentes do mundo ninja e sua posição exigia que a tradição de casamentos arranjados fosse mantida, todavia, ele era um Sabaku e pior ainda, Sabaku no Gaara. E quando sua convicção contrariava as velhas tradições, por orgulho ele sabia que seria incapaz de obedecê-las. Era um homem de palavra, decidido e que não abaixava a cabeça perante qualquer um – muito menos a sua teimosa, irritante e inconveniente irmã mais velha.

Naruto, em partes, podia ser responsabilizado por aquilo. Não fosse a redenção e o perdão oferecido pelo simpático amigo de cabelos dourados, o ruivo provavelmente não teria um exemplo de amizade solido e concreto que o ajudasse a lidar com suas particularidades demoníacas. Ele o ensinou muitas coisas, inclusive que o amor deveria estar acima de tudo. Ele, diferentemente do Hokage de olhos azuis, não amava ninguém, não tinha ninguém em sua vida. Sim, mantinha encontros casuais e esporádicos, mas era apenas por necessidade fisiológica. O Kage era incapaz de envolver-se afetivamente com alguém, não por falta de tentativa, mas por falta de sintonia. De conexão. Durante um tempo achou que talvez estivesse apaixonado pela sua discípula, Matsuri. Mas não.

Não conseguia amar Matsuri da forma que ela ansiava, da mesma forma que não conseguia amar mulher alguma. Ele estava quebrado por dentro. E sabia que não seria curado sendo forçado a se casar com alguém apenas para manter as aparências. Kankuro já se ofereceu para estabelecer uma seleção com pretendentes para o ruivo, e todas às vezes, ele recusou, mostrando-se veementemente contra essa história. Sabia que as mulheres o cobiçavam pela posição, talvez até pela aparência, mas se elas não fossem capazes de amá-lo, com certeza não valiam seu precioso tempo, que era relativamente curto.

—Gaara? — a irritante voz de Temari soou-lhe próxima, o levando a revirar os olhos e frustrado, ele respirou fundo,antes de soltar a respiração pela boca e se virar para fitá-la. —Você não ouviu uma palavra do que eu disse? Não sei porque ainda insisto em tentar dialogar com você, baka! — e dito isso, o desferiu um de seus famosos socos no ombro.

Embora tivesse doído mais do que esperava, o ruivo não esboçou nenhuma reação, apenas piscou os olhos e perguntou sobre o que se tratava.

—Eu e Shikamaru estávamos pensando em ir até as dunas... — e pigarreando, acrescentou. — Será que você poderia cuidar do Shikadai até nos voltarmos? Eu juro, eu juro que será rápido.

Ele meneou a cabeça, positivamente.

—Eu posso tomar conta dele sim, será um prazer. — afirmou, e a irmã suspirou aliviada, já que temia uma negativa do irmão. — E vocês nunca, nunca me digam o que fizeram durante as dunas, está de acordo?

Ela fez que sim, rindo.

—Estou falando sério, Temari. Nunca, nunca abra essa maldita boca, ok? Eu ainda sou praticamente uma criança.

—Claro que é. — debochou a irmã, e foi à vez dele gargalhar, antes de receber outro soco da mesma. — Por favor, tente não assustar seu sobrinho. Pelo menos não muito.

Novamente, Gaara balançou a cabeça afirmativamente, vendo-a desaparecer escadas acima apressadamente, em meio a gritos escandalosos, chamando pelo marido. O ruivo rolou os olhos, cruzando os braços acima dos peitos.

Durante o resto da noite, brincando e cuidando do pequeno Sabaku-Nara, o ruivo foi tomado por um pensamento que durante muito, fizera questão de enterrar o mais fundo possível dentro de sua cabeça: a vontade de ser pai. Sim, sua opinião sobre casamentos era muito clara e óbvia, mas o mesmo não se estendia a vida paternal. Sorrindo, entregou os bonecos de super heróis para o sobrinho pequeno, que tagarelava coisas sem sentido enquanto andava de um lado para o outro agitadamente.

—Talvez eu devesse fazer isso.

—Arrancar a cabeça do SuperChok? — Kankuro perguntou, curioso, fazendo o irmão a revirar os olhos.

—Não, sua anta. Ser pai. Eu podia fazer isso. Com certeza seria um pai muito amoroso.

—Uh! Quer dizer que mudou de ideia sobre o casamento?

—Não seja ridículo, continuo sendo contra casamentos arranjados, mas — fez uma pausa. — Talvez aquela sua ideia sobre seleção seja bem-vinda aqui. — e sorriu, fitando diretamente o irmão, que franziu o cenho,sem entender uma misera palavra que fosse.

Kankuro limpou as orelhas, acreditando ter entrado cera nas mesmas.

—Desculpe, eu não entendi. Você quer ser pai, mas sem se casar?

O irmão assentiu, virando-se para olhá-lo de soslaio.

—Qual é o problema? É muito mais pratico, e além do mais, isso será benéfico tanto para mim, quanto para a mulher que aceitar ter meu filho.

O irmão assentiu, estalando a língua. Obviamente não verbalizou os pensamentos que se passaram por sua cabeça, sabia que o irmão seria burro o suficiente para ignorá-los, de qualquer forma, então,evitou de gastar saliva a toa.

—Por favor, me deixa estar por perto quando você for contar essa sua ideia brilhante a Temari. Eu te imploro.