Esse é um spin-off livre, escrito por mim, da história "Become a Legend", escrita por Dhampir e postada no Spirit. Recomendo lerem, é um arraso :D
Tinha me esquecido de como a Costa do Marfim é quente. Depois de semanas e semanas vivendo no frio Londrino, foi um pouco difícil me habituar novamente ao calor da Costa, mas tudo tinha dado certo, de alguma forma. O complicado, agora, seria me acostumar novamente com as baixas temperaturas inglesas.
Bem, isso faz parte do esporte. Tranquei a porta do apartamento do jeito mais silencioso possível. Era manhã, Collin poderia estar dormindo ainda e eu não queria o acordar. A campanha na fase de grupos tinha sido excelente para a seleção, e ficamos em primeiro lugar. Foi uma conquista maravilhosa, mas havia sido exaustiva. Agora havia uma longa pausa até que as eliminatórias começassem, e eu tinha voltado para Londres nesse meio tempo.
Mesmo a mala tendo rodinhas, achei melhor carregar para não fazer muito barulho. Passei pelo corredor principal, pensando em como queria me jogar na cama e descansar depois das mais de oito horas dentro do avião. Sim, isso seria ótimo. Um banho quente e depois uma boa manhã e tarde de sono.
Era isso que eu tinha em mente ao passar pela sala, mas logo vi, surpreso, que Collin já estava acordado, e fazendo sanduíches para o café da manhã.
Oh, não. Eu não estava contando com isso.
— Romaric?
Pigarreei, colocando a mala no chão. Não tinha porque não arrastá-la, afinal de contas.
— Olá. Bom dia. — e eu não sabia o que dizer além disso.
Isso vinha acontecendo frequentemente perto de Collin. As palavras fugiam de mim. Eu li a entrevista que ele deu, sei que ele acha que eu estou incomodado em dividir o apartamento com ele. Mas não é nada disso. Certamente, não tem nada a ver com isso. Mas sei que minha inabilidade de dar respostas longas ou de sustentar conversas com ele tem feito ele se sentir assim. Eu não queria isso. Eu não queria ele triste.
— Não sabia que chegava hoje. Podia ter me avisado, eu faria algo melhor que sanduíches de geleia.
— Ah! N-não, não se preocupe, está tudo bem. Eu comi o suficiente no avião.
— Ah. Entendo.
Não. Não, certamente ele não entendia. Ele está pensando que eu estou irritado por vê-lo de novo, tenho certeza disso...
— Eu preciso de um banho. Bom dia, Collin.
Deixei a sala antes que visse uma expressão triste ou incomodada em seu rosto, e fui direto para o meu quarto.
Era minha culpa, eu sabia disso. Seria mesmo melhor que Collin conseguisse logo o apartamento dele. Eu poderia morar sozinho aqui, mesmo que ele fosse grande demais para uma pessoa só, se isso significasse que Collin estaria melhor. Eu certamente não o impediria e torceria para que isso acontecesse logo, não queria vê-lo desconfortável desse jeito. Principalmente, achando que era porque eu não o queria por perto. Isso não fazia o menor sentido…
Respirei fundo, indo para o banheiro. Apesar das poucas semanas, eu já tinha me acostumado a alguns luxos. Como um banho de água quente em uma manhã fria, e embora voltar para casa fosse coberto de nostalgias, eu não estava sentindo falta do calor logo nas primeiras horas da manhã.
Minha mãe tinha sido ótima. Como de costume, ela me encheu de perguntas. As preferidas foram "está se alimentando direito?", "me promete que não está usando drogas?" e "quando vai arrumar um namorado?", às quais eu respondi "sim", "sim" e "não tão cedo".
Apesar disso, "não tão cedo" não era exatamente a resposta que eu queria dar.
Quando Kristina me disse que eu dividiria o apartamento com alguém, eu torci para que fosse alguém que não desse festas e que eu não fosse correr o risco de encontrar seis pessoas nuas na sala em uma manhã qualquer. Collin, além de atender esse requisito, é simplesmente… Incrível.
Sempre de bom humor. Engraçado. Acho que nunca o vi sem um sorriso no rosto. Collin tem tanto orgulho de quem ele é… Foi tão corajoso da parte dele fazer o que fez, da forma como fez… Se eu fizesse isso em meu continente, poderia estar morto.
E era exatamente por isso que eu não podia, nunca, jamais, em hipótese alguma deixar Collin descobrir o que eu sentia. Eu não posso ser gay aqui, porque se isso escapar… Céus… O dia em que eu pisar na África de novo… Vai ser horrível. Haverão consequências até para minha mãe, tenho certeza e… Não, ela não. Por favor…
Suspirei e balancei a cabeça em um ato de tentar me livrar desses pensamentos Tudo bem. Era só esperar mais um pouco. Os problemas de visto de Collin seriam resolvidos, ele iria embora para o próprio apartamento e eu apenas teria que vê-lo nos treinos. E tudo bem. Já fui apaixonado por colegas de time antes. É verdade que Collin é o primeiro colega de time gay por quem me apaixono. É verdade também que isso me permite sonhar muito mais… Mas por mais que às vezes sonhar seja maravilhoso, em outras é apenas perigoso. Às vezes, é importante manter o pé no chão e pensar claramente antes de tomar qualquer decisão impulsiva.
Fechei o chuveiro. Só mais um pouco, Koné. Só mais um pouquinho.
Fui para o quarto e abri a mala tentando encontrar algo para me vestir, e dei de cara com um embrulho exagerado em jornal. Ah! É verdade… Tirei o embrulho da mala, o deixando na cama enquanto me vestia. Então saí do quarto de bermuda e blusa de frio de pijama, com o embrulho em mãos.
Collin ainda estava ali.
Céus…
Eu me sentei na bancada, vendo ele lavar a louça. Meu coração saltou um pouco. Eu queria o abraçar. Queria o abraçar bem apertado, me deitar com ele e ficar juntinho dele, pelo resto do dia. Mas eu precisava manter a mente no lugar.
Desembrulhei o jornal, tentando manter a mente nessa atividade. Eventualmente, em meio ao processo, Collin terminou de lavar a louça e se virou para ver o que eu estava fazendo.
O que o embrulho trazia era uma pequena estátua de elefante, de marfim falso. O tipo de coisa que se vende na Costa do Marfim para os turistas. Quando o vi na barraquinha, acabei comprando uma para trazer. Queria algo que pudesse fazer meu apartamento em Londres se tornar o mais próximo do meu lar, mesmo estando distante dele.
— Que bonitinho — Collin comentou, passando o dedo pela estátua.
Era bem brilhante. O tipo de trabalho bem feito que alguns turistas achavam porcaria e que era vendido por bem menos do que o preço que valia.
— Eu gostaria de deixá-la aqui na bancada. Se não for te incomodar, claro.
Não foi surpresa para mim que Collin desse risada disso. Ele fazia isso bastante. Rir. E sempre que isso acontecia, quando eu estava nervoso com algo, era como uma injeção de ânimo para que eu me sentisse tranquilo novamente.
Era como uma brisa fria em um dia escaldante.
— Por que me incomodaria? Por mim, poderíamos sair e comprar decoração para o apartamento inteiro. Encher de elefantinhos. Ia ficar bem mais colorido, isso eu garanto.
Ele tem razão. A decoração do apartamento é bem monocromática, nesse aspecto.
— Trago outro quando voltar das eliminatórias.
— Ah! É verdade, parabéns pela campanha, Koné. Não vi todos os jogos, mas peguei um pedaço de um. Estão falando muito bem do seu desempenho.
A isso, sorri. Ele tinha procurado saber como eu estava indo? Por quê? Engoli em seco. Não era para ficar pensando nessas coisas. Para sonhar. Certamente fora apenas uma curiosidade dele. Jogamos juntos afinal de contas. Apenas um desejo de ver como eu lidava com composições diferentes em meio de campo.
— Obrigado, Collin.
— Apenas verdades. E agora, se me dá licença, é melhor eu ir andando. Não quero lidar com a fúria de Kristina se eu me atrasar.
Ele acenou e antes Collin que desaparecesse de meu campo de visão, acenei de volta, vendo aquele sorriso cativante no rosto dele até que ele desse as costas e saísse do apartamento.
E é isto. Eu estava de volta.
Não tinha nada mais para fazer ali. Amassei o embrulho feito de jornal no lixo e voltei para o meu quarto. Eu precisava dormir.
Não se esqueçam de ir ao Spirit apreciar a história, a escrita é uma delicinha :D
