—Porque a porra da culpa é minha. — ele estava de pé, gritando, sua voz trêmula, segurando as lágrimas que se formaram.
Ela se apoiava na mesa, olhando-o diretamente nos olhos e, com aquela fala, aquele tom de voz e as lágrimas nos olhos dele, ela foi capaz de enxergar toda a culpa e angústia que estava por trás de tudo.
— Não Harvey, não é. É culpa do Mike tão quanto a culpa é sua. — a voz dela agora era suave, diferente de antes, quando havia gritado com ele. — Então por que tem que ser eu a jogá-lo embaixo do ônibus? — ele parecia derrotado, perdido. Apoiava-se na cadeira que estava sentado segundos antes, como se ela fosse capaz de dar algum tipo de suporte para que seus joelhos não cedessem.
— Você não entende? Eu não estou pedindo pra você jogá-lo embaixo do ônibus. Eu estou pedindo pra você acreditar que vale a pena vocês dois serem inocentados. — sua voz era firme. Os dois funcionavam dessa forma, quando um estava preste a desmoronar o outro precisava ser forte e dessa vez, ele precisava muito que ela fosse forte e firme por e pra ele, e ela tinha o conhecimento disso.
— E se eu não conseguir fazer isso? — sua voz vacilava. Ele estava realmente sem rumo e falar com Donna sempre o fazia organizar as suas ideias. Como ela mesmo havia dito anos antes quando se conheceram, ela conhecia melhor as pessoas do que as próprias pessoas.
— Então você pode ir até o escritrório da Gibbs pela manhã e se entregar. — ela fez uma pausa, finalizando. — Mas eu não quero que você faça isso. — engoliu em seco. — Por que não? — ele perguntou agora com a cabeça baixa. — Porque eu acho que você vale a pena. — ele levantou sua cabeça, voltando a encará-la. Estava surpreso, o seu coração começava a palpitar num ritmo ainda mais intenso que antes. As lágrimas já não estavam ali. — E eu não quero te perder. — ela admitiu com a voz fraca, encarando-o profundamente. Agora eram os seus olhos que formavam algumas lágrimas. O seu coração parecia querer sair do peito, tanto pelo medo de perdê-lo, tanto por admitir isso a ele, ali, daquela forma.
Ele se afastou, como sempre fazia, fugindo do assunto quando se tratava de algo íntimo e pessoal sobre a relação dos dois, mas ela não poderia culpá-lo e nem exigir nada dele. Não agora, não nessas condições. Ele estava prestes a perder o melhor amigo, ele admitindo ou não, Mike era seu melhor amigo. Ela então se ajeitou novamente na cadeira, suas costas apoiada e o observou se arrumar para ir embora. Se levantou, seguindo-o até a porta, que foi aberta por ele. — Harvey! — o chamou antes sem deixar que se afastasse demais e ele, já no início do corredor, virou-se de frente para ela que agora se apoiava na porta.
— Harvey, vá até o tribunal amanhã de manhã, sente-se ao lado do Mike até que o veredito seja dado e mostre a ele que você acredita nele. — novamente uma pausa. — Assim como eu acredito em você. — ele não disse mais nada.
A porta atrás dele foi fechada, deixando uma Donna que desmorou no segundo que ele não estava mais vendo-a. Ele desmoraria também caso não tivesse que sair dali e ir falar com a outra pessoa que poderia lhe auxiliar com o quê estava planejando fazer.
As palavras de Donna ecoavam em todo o caminho "E eu não quero te perder". Ele não queria perdê-la também, ele jamais seria capaz de suportar a dor de perdê-la novamente, uma prova disso foi que ele experimentou um abandono parcial da parte dela e isso o levou a literalmente ter ataques de pânico. Ele vinha trabalhando seu problema de abandono, sabendo que as questões e as feridas eram muito mais profundas, mas ele também tinha a consciência de que mesmo que não importava a forma, vê-la deixando o cubículo que ficava em frente à sua sala seria dilacerador.
Mas, da mesma forma que ele não gostaria de perdê-la, ele não poderia simplesmente deixar que Mike, no auge de sua vida pessoal e carreira perdesse tudo. O garoto já havia perdido muito, ele crescera sem os pais, após perdê-los em um acidente de carro. Fora criado somente pela avó que também faleceu recentemente e desde o momento em que ele havia entrado para a firma, perdera o seu melhor amigo. Ele sabia também que em contra partida Mike havia encontrado o amor da sua vida no local e ele tinha uma promissora carreira como advogado.
Era injusto com o garoto ter chegado tão longe para perder tudo de forma tão brusca. Ele aguentaria perder tudo novamente? Harvey não sabia, mas o quê ele sabia é que ele não pagaria para ver.
Agora estava em frente a uma outra porta tão conhecida por ele, contudo não tão frequentada como o 206 que acabara de deixar. Ele deu três batidas na porta, esperando que a outra pessoa abrisse e não demorou muito para que a imagem de sua chefe, sócia, mentora e amiga se mostrasse. — Harvey... — seu tom de voz era baixo, mas era possível notar um misto de confusão e preocupação. — Jessica, eu tenho uma decisão a tomar e preciso falar contigo aqui e agora. — sua voz não era tão calma quanto a de Jessica, que apenas assentiu com a cabeça e abriu caminho para quê ele entrasse.
— Quer uma dose de whisky? — ofereceu, caminhando até o balcão que já continha um copo que ela bebia antes dele chegar ali. — Por favor! — ele respondeu, observando enquanto ela servia uma dose para ele e completava uma para ela. A mulher ao fianlizar entregou para ele o copo, indicando que se sentassem nos sofás dispostos na sala. Se acomodaram cada um em um sofá, ela no que possuia somente um lugar, ele no do lado que era dois lugares. O silêncio ficou entre eles por um tempo até ser quebrado por um Harvey tenso e preocupado. — Eu quero me entregar para a Anita Gibs. — ele brincava com o conteúdo do copo, encarando-o sem olhar para a mulher à sua frente.
— Harvey, você não... — ela começou a falar, sendo interrompida por ele. — Eu tenho sim, Jessica. — disse de maneira enfática. — Fui eu quem contratei uma fraude, fui eu quem omiti isso de você, do Louis, da firma. Eu quem te forcei a manter o Mike depois que você descobriu. Fui eu quem arrastei cada um de vocês para essa bagunça, você, Donna, Louis, Rachel... Não é justo vocês pagarem por algo que EU fiz. — a voz embargada, novamente segurando choro. — Não, Harvey. Você pode ter iniciado isso, mas cada um de nós fez uma escolha e escolhemos ficar do seu lado e suportar toda essa história. E eu tenho certeza de que se fosse para fazer tudo novamente, nenhum de nós faríamos escolhas diferentes. Você deu uma vida para aquele garoto que ele nunca imaginou que pudesse ter. Você reconstruiu a ele sua confiança e a perspectiva de que ele tinha um futuro, de que seria capaz de construir algo e... Deu a ele o amor da sua vida. — falava de maneira suave, confortando-o.
— E tudo isso pra quê? — ele jogou com raiva. — Para ele visualizar, ter um gostinho disso e tudo isso ser retirado dele à força? — ele gesticulava com as mãos enquando falava. — Harvey, você sabe que tudo isso não terminou, certo? A sentença ainda não está dada e não sabemos o final dessa história toda. Você precisa ter fé. — ele riu e tomou mais um gole da bebida. — O quê? — a mulher não entendeu. — Foi examente o quê ela me disse. — ele voltou seu olhar pra ela. — E acho que nós dois sabemos que para variar ela tem sempre razão. — Não precisava ser um gênio para saber de quem ele estava falando, era óbvio que era Donna.
— É o seu turno, 'white boy'. — abriu um meio sorriso para ele, levando o seu copo vazio na direção dele. — Quero uma dose generosa, porque algo me diz que não terminamos por aqui. — ele pegou o copo dela e serviu mais uma dose. — Eu não discordo de você, Jessica. Talvez nunca seja capaz de discordar verdadeiramente. — ele servia os dois. — Oh, por favor, Harvey, você tem discordado de mim desde o início. — ela tentava deixar o ambiente um pouco mais leve. — É, você tem razão. — ele sorriu pra ela, entregando-lhe o copo e se sentando novamente. — O ponto aqui é... Eu tenho ciência de que a vida do Mike seria muito diferente se não tívessemos feito isso, porém... Nós temos que ter um plano reserva e eu tenho um. Mas antes eu precisava falar com você, ter o seu apoio para seguir em frente porque isso vai impactar diretamente na firma.
— Harvey... — ela franziu a testa, tentando acompanhar o racicíonio de seu sócio. — Jessica me escuta. Eu preciso que você concorde comigo e que a gente aja o mais rápido possível, não não temos muito tempo. — ele disse de maneira firme. — All right, Harvey. Conte-me qual é o seu plano. — indicou que ele começasse a falar. Ela o escutaria primeiramente para depois dar sua opinião.
— Você sabe que isso pode acabar com a sua carreira, não sabe? — ela o questionou após os dois terem destrinchado todos os detalhes do plano de Harvey. — Eu sei! E eu não me importo. Eu posso recomeçar de novo em outro lugar. — disse dando de ombros. A essa altura ele já não vestia mais o seu terno, vestia somente sua camisa — Você pertence à Nova Iorque, Harvey! Você pertence à Pearson Specter Litt. — tinha um pesar na fala dela. — E eu continuarei pertencendo desde que eu tenha vocês por perto mesmo com toda essa merda acontecendo. — ele finalizou novamente o que já havia sido talvez o quinto copo de whisky daquela noite.
— Você já disse a ela? — Jessica cruzou os braços. — Não... — ele abaixou a cabeça, pensativo. — Harvey você precisa... — ela descruzou os braços. — Não Jessica, eu posso precisar, mas eu não consigo. Se eu contar... — ele respirou profundamente. — Você não vai conseguir executar o plano. — ela completou a frase dele que concordou mexendo a cabeça. As palavras dela ainda ecoavam em sua cabeça "I don't wanna lose you". Ele não seria capaz de dizer para ela o que estava para fazer e ver a dor e tristeza nos olhos dela novamente. Ele não conseguiria quebrá-la daquela forma. Ele sabia que a quebraria, mas ele não queria ser capaz de testemunhar isso, não antes de ainda poder mudar de ideia. — Estamos de acordo com os termos então. — ele se ajeitou novamente, buscando finalizar o assunto. — Agora nós temos que avisar o Louis quando o horário se aproximar para garantirmos que ele não faça nenhuma besteira e meta os pés pelas mãos e dar as instruções a ele para a sua parte no plano. — ele se levantou do sofá, recolhendo as peças do seu terno, vestindo-a. — Eu preciso ir! — ela assentiu e o acompanhou até a porta. — Boa noite, Harvey! — disse dando a ele mais um sorriso em forma de apoio. — Boa noite, Jessica. — ele sorriu de volta e seguiu para a sua casa.
O dia seguinte definiria muita coisa em sua vida e ele precisava estar minimamente preparado para enfrentá-lo.
Nota da Autora: Oi gente, olha eu aqui novamente com mais uma ideia que passou pela minha cabeça. Os rumos da história estão a todo vapor na minha cabeça.
Eu não faço ideia de quantos capítulos ela terá, mas não acredito que serão muitos.
A tradução dos diáologos do início foram feitas por mim, buscando o melhor sentido e adequação diante daquela cena maravilhosa que é uma das minhas preferidas.
Agredeço muito se puderem deixar aqui o seu comentário caso tenha gostado da história.
Já estou com os dedinhos funcionando para os próximos capítulos. Aproveite a jornada!
