I
Era a primeira vez que eu vinha a Inglaterra, mais precisamente a Londres.
Poucos dias depois da minha chegada, um amigo e companheiro de infância, Blaise Zabini, levou‑me a um passeio pela cidade, mostrando-me como era a vida naquela corte. Conforme o costume, muitas pessoas desfilavam por ali, indo em direção a Catedral de Saint Paul.
O rito religioso já tinha iniciado quando chegamos à frente da catedral e não sabíamos em que parte estava, e após perdermos a esperança de romper a barreira de gente que murava cada uma das portas, nos resignamos a gozar da fresca brisa que vinha do rio Tamisa. Caminhamos da catedral até a margem, contemplando o delicioso panorama e admirando ou criticando os que também tinham chegado tarde e pareciam satisfeitos com a exibição de seus trajes.
Enquanto Blaise era disputado pelos numerosos amigos e conhecidos, parando constantemente, caminha eu gozando da minha tranquila e independente obscuridade. Quando cheguei a margem, sentei-me comodamente sobre a pequena muralha e resolvi estabelecer ali o meu observatório. Para um recém‑chegado à corte, que melhor festa do que ver passar‑lhe pelos olhos, à doce luz da tarde, uma parte da população desta grande cidade?
Todas as raças, todas as posições, todas as profissões, todos os tipos grotescos da sociedade londrina desfilaram na minha frente e aprendi mais naquela meia hora de observação do que nos cinco anos que acabava de desperdiçar em Paris em todos os meus 25 anos de vida.
A lua vinha aparecendo quando descobri nessa ocasião, a alguns passos de mim, uma linda moça, que parara um instante para contemplar no horizonte as nuvens brancas sobre o céu azul e estrelado. Observei no primeiro olhar que ela tinha um talhe esbelto e de suprema elegância. O vestido que levava era de veludo vermelho escuro, e dava esquisito realce a um rosto suave, puro e diáfano. Estava na sua muda contemplação numa aparente melancolia e não sei que ares de tão ingênua castidade, que o meu olhar repousou calmo e sereno na doce aparição.
Já vi esta moça! Pensei comigo. Mas onde?...
Ela pouco se demorou e continuou lentamente o passeio interrompido. Meu companheiro, que se aproximava, cumprimentou‑a com um gesto familiar e eu, com respeitosa cortesia, que me foi retribuída por uma imperceptível inclinação da fronte.
- Quem é esta senhora? - perguntei a Blaise quando ela se afastava.
A resposta foi o sorriso inexprimível, mistura de sarcasmo e ironia, que desperta nos elegantes conhecedores da corte a ignorância de um amigo vindo de outro país, novato na ciência das banalidades sociais.
- Não é uma senhora, Draco! É uma mulher bonita. Queres conhecê‑la? – perguntou-me Blaise.
Compreendi e corei imperceptivelmente de minha simplicidade de recém-chegado, que confundira a máscara hipócrita do vício com o modesto recato da inocência. Só então notei que aquela moça estava só, e que a ausência de um pai, de um marido, ou de um irmão, devia‑me ter feito suspeitar a verdade.
Depois de algumas voltas descobrimos ela ao longe e fomos encontrá‑la, retirada a um canto, distribuindo algumas pequenas moedas de prata à multidão de pobres que a cercava. Voltou-se confusa ouvindo Blaise pronunciar o seu nome:
- Virginia!
- Não há modos de livrar‑se desta gente! São de uma impertinência! - disse ela mostrando os pobres e esquivando‑se aos seus agradecimentos.
Feita a apresentação no tom desdenhoso e altivo com que um moço distinto como Blaise se dirige a esse tipo de mulher, interessadas em ouro, e trocadas algumas palavras triviais, meu amigo perguntou‑lhe:
- Vieste só?
- Em corpo e alma!
- E não tens companhia para a volta?
Ela fez um gesto negativo.
- Neste caso ofereço-te a minha, ou antes a nossa. – Blaise tinha um sorriso malicioso.
- Em qualquer outra ocasião eu aceitaria com muito pra zer, mas hoje não posso.
- Já vejo que não foi franca!
- Não acredita? Se eu viesse por passeio! - ela disse olhando para o rio.
- E qual é o outro motivo que te pode trazer à catedral? – Blaise perguntou irônico.
- A senhora veio talvez por devoção? - disse eu timidamente.
- A Virginia devota! Bem se vê que a não conheces! – Blaise riu com gosto, pousando a mão esquerda sobre meu ombro.
- Um dia no ano não é muito! - respondeu ela sorrindo, um sorriso sincero.
- É sempre alguma coisa - repliquei.
Blaise insistiu:
- Deixa‑te disso mulher, vem conosco.
- O senhor sabe que não é preciso rogar‑me quando se trata de me divertir. Amanhã, qualquer dia, estou pronta. Esta noite, não! - ela disse firme
- Decididamente há alguém que te espera.
- Ora! E eu faço mistério disto?
- Não é teu costume.
- Portanto tenho o direito de ser acreditada. As aparências enganam tantas vezes! Não é verdade? - disse voltando‑se para mim com um sorriso, dessa vez não tão sincero.
Não me lembro o que lhe respondi, alguma palavra que nada dizia. Quanto a Virginia, fazendo‑nos um ligeiro aceno com o leque, saiu caminhando e se misturando com o povo.
Refleti que acabava de fazer uma triste figura. Não sou tímido, ao contrário peco por desembaraçado. Mas nessa ocasião diversas circunstâncias me tiravam do meu natural. A expressão cândida do rosto e a graciosa modéstia do gesto, ainda mesmo quando os lábios dessa mulher revelavam a cortesã franca e sem vergonha, o contraste inexplicável da palavra e da fisionomia me preocupavam sem querer.
Dali a meia hora fui levado a uma festa para conhecer uns amigos de Blaise. A festa acabou se tornando uma alegre reunião, onde se bebeu, dançou e brincou até duas horas da noite. E somente quando apaguei a minha vela ao deitar‑me, entre o sono e a vigília, foi que eu lembrei perfeitamente de quando e como vira Virgínia pela primeira vez.
Fora no dia da minha chegada. Jantara com um companheiro de viagem, Harry Potter, e ávidos ambos de conhecer a corte, saímos de braço dado a percorrer a cidade. Íamos caminhando distraídos, quando, voltando‑nos, vimos um carro elegante, com uma encantadora menina, sentada ao lado de uma senhora idosa, que se recostava preguiçosamente sobre o macio banco e deixava pender, pela janela do carro, a mão que brincava com um leque de penas brancas.
No momento em que passava o carro diante de nós, vendo o perfil suave e delicado que iluminava um sorriso puro, e a fronte límpida que à sombra dos cabelos avermelhados brilhava de vida e juventude, não me pude conter de admiração.
Acabava de desembarcar, após dez dias de viagem e tinha‑me saturado da poesia do mar, que vive de espuma, de nuvens e de estrelas. Recebi, então, essa primeira impressão com verdadeiro entusiasmo, e a minha voz habituada às fortes vibrações nas conversas nas noites no vapor, minha voz excedeu‑se:
- Que linda menina! Como deve ser pura a alma que mora naquele rosto! - exclamei para meu companheiro, que também admirava a bela figura.
Um embaraço imprevisto, causado por um carro a frente, tinha feito parar o carro em que ia a bela moça. Ela ouviu‑me, voltou ligeiramente a cabeça para olhar‑me, e sorriu. Qual é a mulher bonita que não sorri a um elogio espontâneo e a um grito ingênuo de admiração? Se não sorri nos lábios, sorri no coração.
Tínhamos parado para melhor admirá‑la enquanto o carro estava parado e, então, notei ainda mais a serenidade de seu olhar que nos observava com ingênua curiosidade, sem provocação e sem vaidade. O carro partiu tão de repente e com tal ímpeto dos cavalos, que a moça assustou‑se e deixou cair o leque. Apressei‑me, e tive o prazer de o restituir inteiro e na ocasião de entregar o leque apertei‑lhe a ponta dos dedos presos na luva.
Bem vê que tive razão quando disse que não sou tímido. O meu gesto a fez corar e ela me agradeceu com um segundo sorriso e uma ligeira inclinação da cabeça, mas o sorriso desta vez foi tão melancólico, que me fez dizer ao meu companheiro quando retornei ao lado dele:
- Esta moça não é feliz!
- Não sei se o é, mas sei que o homem a quem ela amar deve ser bem feliz! - ele disse-me de volta.
Diante dessas primeiras impressões da cortesã que eu conhecera naquele dia, voltei‑me no leito para fugir à sua imagem, e dormi.
