Disclaimer: Lost e seus respectivos personagens não me pertencem, esta fanfiction é totalmente sem fins lucrativos.

Censura: M

Spoilers: nenhum

Jate/Sana e outros

Sinopse: Escócia, 1729. O reino está em guerra com a Inglaterra e os clãs escoceses se juntam e formam um movimento revolucionário para expulsar os britânicos de suas colinas. Em meio a esse cenário caótico, a espiã escocesa Kate, conhecida como "A Endiabrada", está prestes a descobrir que mais difícil do que vencer os ingleses é governar os desejos de seu coração ao se apaixonar pelo jovem capitão inglês Jack Shephard. Enquanto isso seu irmão mais velho, Paulo, luta para manter a união do clã através do casamento secreto da filha mais velha dos Mcausten, Ana-Lucia com um dos líderes da revolução rebelde.

Nota: Os acontecimentos históricos e respectivas datas são fictícios.

By: Renata Holloway.

As Colinas Errantes

Capítulo I- Do alto da montanha

Escócia, 1766

Era do conhecimento de todos que o clã dos Mcausten era uma das famílias mais poderosas da Escócia há gerações. O imponente castelo de Isenwood, residência oficial da família ficava no alto de um morro verdejante, localizado em um complexo de colinas, da onde poderia ser visto por qualquer pessoa que cavalgasse pelos bosques do condado de Sheryl Fraser; batizado com esse nome pelos ingleses, mas conhecido pelos escoceses como o Vale das Colinas Errantes. Montanhas inóspitas durante o inverno, mas floridas e acolhedoras ao longo de toda a primavera e verão.

Samuel Mcausten, o patriarca da família e chefe do clã havia sido durante toda a sua vida um homem bondoso, honesto e correto, casado com a bela Diana. Porém, uma fatalidade havia tirado sua vida. Samuel, como a maioria dos escoceses de sua época era contra o reinado de Jacob I, soberano da Inglattera da dinastia Littleton, que assumira o trono da Escócia mandando assassinar o rei Desmond I. Por causa disso, Samuel Mcausten acabou se envolvendo no movimento revolucionário a favor da reconquista do trono da Escócia para os escoceses. Desmond I tivera um filho, a quem todos acreditavam estar também morto junto com sua mãe, Aurora. No entanto, Samuel era um dos poucos que acreditavam na lenda que dizia que Aurora tinha conseguido fugir do castelo com a criança antes que os guardas de Jacob a pegassem e tido de tempo de entregar o menino à uma família adotiva para que fosse criado escondido até o dia em que poderia assumir seu lugar de direito no trono da Escócia.

No entanto, Macausten não pôde ir muito longe com a revolução. Ele e seu melhor amigo, Anthony Mcford foram traídos por um espião dentro de seu próprio grupo. Presos e exilados em Londres, acabaram ambos morrendo na Inglaterra.

O clã dos Macausten foi desmembrado. Lady Diana refugiou-se na casa dos pais em Flandres na Itália e sua única filha, Katherine Ann foi mandada para estudar em um convento francês junto com os meio-irmãos Paulo e Ana-Lucia, ambos filhos do primeiro casamento de Samuel com uma linda bela cigana espanhola chamada Esmeralda que morrera precocemente ao dar à luz a Ana-Lucia.

Os três Austen passaram anos escondidos no convento até que chegou o dia do primeiro deles sair. Paulo Mcausten atingiu a maioridade e sendo o irmão mais velho assumiu o clã voltando a morar na Escócia no castelo de Isenwood junto com sua mãe ; suas irmãs permaneceram no convento por mais alguns anos. Com o castelo de Isenwood cheio de dívidas e apesar do respeito que todas as famílias das Terras Altas tinham pela sua, Paulo foi obrigado a aceitar ajuda financeira de um conde inglês chamado Benjamin Linus. Em troca, Benjamin o fez prometer que entregaria a mão em casamento de uma de suas irmãs. Ana-Lucia sendo a mais velha foi a escolhida.

Assim como o pai, Paulo também não tolerava a presença dos ingleses na Escócia. E logo se viu envolvido no movimento rebelde como ele. Fez amizade com o filho do melhor amigo de seu pai, James Sawyer, o único herdeiro do castelo de Butterfly. Mas ao contrário de Paulo, Sawyer, como era mais bem conhecido, não possuía nenhuma irmã para oferecer em casamento a algum nobre para recuperar seus bens confiscados pelo governo inglês durante o exílio de seu pai e mesmo que tivesse não faria isso, não desejava nem um vintém dos britânicos, odiava-os.

O conde Benjamin Linus havia sido o responsável pelo confisco dos bens da família Sawyer e com a morte de seu pai no exílio, Sawyer não teve outro remédio a não ser ir viver com sua mãe Lady Maryan em Paris, na casa de parentes.

Após concluir a faculdade de Artes e Literatura na Universidade de Paris, James Sawyer ouviu rumores sobre a organização de um novo grupo rebelde contrário aos ingleses e resolveu retornar à Escócia mesmo sob os protestos de sua mãe. Quando lá chegou, tratou de arrendar junto à Paulo Mcausten, um antigo castelo em ruínas pertencente ao clã do amigo no alto de uma colina no Vale das Colinas Errantes. O castelo conhecido como "O Cisne" por causa do formato de seus jardins era considerado mal-assombrado mas Sawyer não tinha medo de fantasmas.

Uma vez de volta à Escócia, foi um pulo para que se alistasse na causa rebelde. Fez uma amizade sólida com Paulo Mcausten e junto com outros moradores da região como Bernard Murray, criaram um grupo rebelde que costumava roubar gado, tecidos e especiarias dos nobres ingleses, entregando tudo para as famílias pobres escocesas. Além disso, destruíam as estradas e boicotavam toda e qualquer tentativa dos britânicos em se expandir pelas Colinas Errantes e até agora estavam se saindo muito bem.

O chefe em exercício do exército inglês, um jovem capitão médico chamado Jack Shephard nem desconfiava que a família Mcausten e a família Mcford estivessem envolvidas no movimento rebelde escocês. Por causa dos atos dos rebeldes, as coisas progrediam e a Escócia começava a deixar o passado nebuloso para trás, passando a crescer diante dos esforços dos revolucionários.

Paulo estava muito animado com tudo isso e diante dessas circunstâncias, ao receber mais uma carta da irmã Katherine, implorando para que pudesse voltar ao castelo de Isenwood, mandou-lhe uma carta em resposta autorizando que viesse.

A carta chegou logo cedo ao convento e a Irmã Beatriz correu para entregá-la, pois sabia o quanto Kate estava ansiosa por notícias do irmão. Naquela manhã, ela e sua irmã Ana-Lucia bordavam ao pé da janela quando a freira entrou no aposento segurando a carta.

- Bom dia, donzelas!- saudou com um sorriso.

- Bom dia, Irmã!- responderam as duas, muito educadas.

- Aqui está Lady Katherine, a carta de seu irmão que tanto esperava.

- Oh Irmã Beatriz, por que não dissestes logo?- ela indagou sem conter a própria felicidade.

A Irmã entregou a carta nas mãos de Kate e saiu. Esta voltou a sentar-se ao pé da janela e rasgou o envelope timbrado com o símbolo do governo inglês rapidamente.

- Por que não me contou que estava esperando carta de nosso irmão?- perguntou Ana-Lucia desviando a atenção do bordado.

- Porque tu não me perguntastes.- Kate respondeu.

Ana-Lucia franziu o cenho: - Tudo bem, eu te perdoo. Agora vamos, leia o que diz a carta.

Kate pôs-se a ler:

"Escócia, 15 de março de 1766

Queridas irmãs,

venho por meio desta dizer-lhes que me encontro-me bem, nossa mãe também apesar de um resfriado a ter incomodado nas últimas duas semanas, mas agora já está bem melhor, asseguro-lhes. Aqui no castelo tudo corre bem, tenho conseguido tomar conta das coisas como devem ser, fiz muitas amizades por aqui, com outros clãs escoceses poderosos.

Tem muita coisa acontecendo. As Terras Altas estão descontentes com o governo inglês e tenho conversado muito com a comunidade sobre isso. Mas o teor de nossas conversas não pode ser revelado nesta carta, conversarei com vocês sobre isso quando o momento for mais oportuno. Por ora, espero que as duas estejam passando muito bem e aprendendo muitas coisas no convento.

Kate, minha querida irmã endiabrada...".- à essa altura, Kate interrompeu a leitura e deu um risinho, Ana-Lucia a acompanhou. Paulo havia posto esse apelido nela devido ao seu temperamento forte e insistente. Ela voltou a ler: " Em resposta ao seu pedido desesperado de retornar à Escócia, digo-lhe que eu e nossa mãe fazemos muito gosto. Se desejas vir logo, mande-nos uma carta avisando para que preparemos tudo e a enviaremos ao nosso primo Charlie Mcpace para que ele possa escoltá-la...quanto à Ana, se quiseres vir, tu também sersá muito bem-vinda. Mas se quiser continuar no convento por mais tempo, a decisão será tua, pois se retornares agora teremos que realizar o noivado comLord Linus e peço a ela queperdoe-me porque sabe que não tive escolha, ou fazia essa promessa ao lorde ou então nossa família teria ficado de vez em ruínas.

No mais, aguardo ansioso por notícias das duas. Fiquem bem, as amo muito.

Seu devotado irmão,

Paulo Mcausten"

Quando terminou de ler a carta, Kate tinha um sorriso de orelha a orelha nos lábios, feliz da vida por seu irmão ter aceitado que ela retornasse à Escócia. Ana-Lucia, ao contrário dela não parecia muito feliz com as notícias.

- Sei porque ficou assim.- comentou Kate dobrando a carta. Ana ficou em silêncio, Kate continuou: - Está assim porque Paulo entregou tua mão para Lorde Linus.

- Impressão sua Kate, não tenho nada, eu estou bem. Já disse que desde que nosso irmão comunicou-me que prometera minha mão para Lorde Linus, eu aceitei de bom grado. O bom nome de nossa família depende disso e eu tenho obrigação como integrante do clã em fazer a minha parte.

Kate ergueu uma sobrancelha, numa clara expressão contrariada:

- Ora Ana, se nosso irmão tivesse prometido a minha mão a Lorde Linus eu simplesmente recusaria. Para mim existem outras formas de recuperar a fortuna e o prestígio de nosso clã sem termos que nos enlaçar com algum nobre.

- Ah é mesmo?- provocou Ana-Lucia. – E como tu, minha irmã, faria isso?

- Simples, eu me alistaria na causa rebelde.

Ana-Lucia deu uma gostosa risada, mas Kate fez sinal para que ela se calasse, afinal não era de bom tom moças bem educadas ficarem rindo com tanto entusiasmo.

- Desculpe.- disse ela se contendo.

Kate sorriu: - Estou falando sério. Adoraria participar da causa rebelde e contribuir para a libertação da Escócia.

Ana-Lucia balançou a cabeça negativamente e voltou a se concentrar no bordado. Kate a interrompeu, tirando-lhe o bastidor e a agulha das mãos.

- Ana, será que tu não vês?- insistiu. – Nossa liberdade está na Escócia e não aqui na França onde não podemos rir, nem correr pelos campos verdejantes e nem dançar ou tomar uísque!

- Kate, não devemos ingerir álcool!- ralhou Ana à menção da irmã sobre a tradicional bebida escocesa.

- Mas que bobagem minha irmã, quem disse? As freiras?-Kate falou num tom mais baixo. – À exceção de Irmã Beatriz, eu odeio tudo o que existe neste lugar.

- Oh Deus, Kate! Então blasfemas? È mesmo a Endiabrada, como diz nosso irmão.- Ana falava aquilo com preocupação, as mãos no peito.

- Se ser Endiabrada significa almejar liberdade, então pode estar certa de que sou.

- E amor? Não o almejas?- indagou Ana-Lucia com ar sonhador.

- Amor?- retrucou Kate. – Não, que esse belo sentimento fique longe de mim para que nunca me aprisione mais do que me sinto aprisionada. Mas vejo que tu irmã, o anseias muito mais do que eu a liberdade.

- Oh, não sejas tola. Como posso ansiar pelo amor se já fui prometida a um homem que não amo?

- Será que um dia não poderás amá-lo?

- Não creio em tal coisa.- respondeu Ana-Lucia. – Agora me devolve meu bordado e deixemos dessa tagarelice inútil! Preciso terminar de bordar as roupinhas dos pequenos órfãos já que tu nunca as termina.

Kate se sentou aos pés da irmã no tapete de lã felpudo do quarto de costura e tomou as mãos dela entre as suas.

- Mas e a lenda do colar de tua mãe?

Instintivamente, Ana tocou o pingente verde esmeralda da corrente de prata que trazia ao pescoço. Essa joia pertencera à sua mãe e a usava desde que completara doze anos.

- Lendas são bobagens, blasfêmias pagãs!

- Talvez não sejam Ana-Lucia, tua mãe encontrou o verdadeiro amor com meu pai. Ela possuía o encanto das antigas fadas ancestrais refletidos na pedra esmeralda desse colar.

- Tem razão, mas veja onde isso a levou.- Ana-Lucia deu um suspiro triste. – Mamãe morreu para me trazer ao mundo sem poder desfrutar durante muito tempo de seu grande amor.

- Mas morreu com a certeza de tê-lo conhecido.- afirmou Kate.

- Que seja!- falou Ana-Lucia, ríspida, retomando seu bordado de volta. – Isso nunca vai acontecer comigo, quando chegar a hora me casarei com Lorde Linus e cumprirei meu destino, assim como minha mãe cumpriu o dela.

Kate respirou fundo: - Certo, esqueça tudo o que eu falei. Não há cristão que lhe convença mesmo. Não sei como consegue viver assim, sem sonhos ou emoções. Eu, quando retornar à Escócia vou viver todas as aventuras que sempre sonhei ao lado dos rebeldes. Agora, com licença, querida irmã, vou até a cozinha ver se a alguma das freiras precisa de ajuda.

E com o farfalhar característico de suas saias cheias de enfeites, Kate deixou o quarto de costura. Assim que ela saiu, Ana-Lucia largou o bordado e voltou a tocar a pedra esmeralda de seu pescoço. Segundo a lenda cigana, no dia em que ela encontrasse seu grande amor a pedra brilharia refletindo todos os seus desejos mais profundos, avisando-a de que seguia pelo caminho certo mesmo que encontrasse adversidades. Ana-Lucia desejava muito acreditar nisso, mas como podia num mundo dominado pelos homens onde apenas eles tinham oportunidades?

Irritada, levantou-se da cadeira e soltou os longos cabelos negros do coque formal que os prendia, deixando pender sobre os ombros a cascata de cachos escuros. Afrouxou o laço dos vestidos e ergueu as saias tão farfalhantes quando as da irmã. Retirou os sapatos elegantes de bico fino, as meias de seda e ficou descalça, soltando um pequeno murmúrio ao sentir a frieza do assoalho debaixo de seus pés.

Ergueu os braços para cima e pôs-se a rodar e remexer os quadris ao som de uma música gravada em sua mente. A música de seu povo que nunca a deixava mesmo tendo sido criada em um convento francês. Sua babá, de origem cigana como sua mãe, a ensinara os passos da dança sensual e mais antiga de seu povo ainda na infância e quando estava muito triste ou irritada costumava dançar descalça, com os cabelos soltos, lembrando a si mesma de que ainda dispunha de um pouco de liberdade. Se sua irmã não acreditava que ela fosse capaz de sentir emoções fortes ou ansiar por liberdade estava enganada. Ana-Lucia apenas prendia dentro de si todos os seus sentimentos, assim ficava mais fácil aceitar a sociedade aprisionadora e patriarcal em que vivia.

Continua...