08. Amor de ratos

- Ai Merlin, eu acho que vou vomitar.

Draco nem se deu ao trabalho de girar os olhos na direção da Weasley. Continuou focado na mistura, avaliando a textura e coloração, imaginando se verde-musgo seria mesmo o tom apropriado. O aroma era extremamente forte, mas ainda assim não parecia estar em seu ápice. Havia ainda alguma melhoria a ser providenciada.

- Eu te falei para não ficar perto.

Disse com a voz baixa e de forma pausada, tentando manter a concentração como se fosse um equilibrista. Não sabia dizer ao certo se era apenas manha da Weasley ou se a poção estava realmente tão fedida assim. Pelo sim, pelo não, decidiu seguir apenas a própria intuição. E faltava um pouquinho de escama de dragão...

- Não posso deixar você aqui, sozinho. Você ainda é um paciente e eu não tenho certeza de que poderíamos estar aqui...

- Eu pensei que você estivesse de folga hoje.

Decidiu refutar logo, enquanto procurava nos frascos um pouquinho de escama de dragão. Ergueu os olhos na direção da ruiva rápido o suficiente para vê-la olhando para o lado, meio encabulada.

Por mais que estivessem no porão do hospital, ela ainda parecia estranhamente desconfortável e ansiosa, como se não tivesse certeza de que ninguém viria. E saber disso não deixava Draco muito feliz, especialmente por que o cheiro de mofo presente no local poderia confundi-lo e acabar fazendo com que se equivocasse em alguma medida da poção. Já que estava lá, que fosse ao menos garantido, certo? E nem isso...

Mas entendia, porém, que era o máximo que a Weasley poderia lhe arranjar. E se divertia um pouco ao vê-la ali, reticente sobre sua permanência no porão. Era estranhamente agradável sua aparência sem o uniforme do hospital. Com os cabelos vermelhos soltos, usando uma camiseta branca e uma calça jeans azul, parecendo nada mais que uma garota. Os olhos castanhos oscilando entre a poção e a porta de saída.

- E eu estou.

Draco parou de observá-la e voltou sua atenção à poção, salpicando um pouco de escama de dragão e misturando na sequência, notando que, conforme o esperado, o odor ficava mais acentuado. Anotou isso no pergaminho que a Weasley lhe arranjara junto ao kit de poções, certo de que, se fizesse alguma besteira no meio do caminho, não teria que recomeçar do zero.

- Então eu não sou seu paciente hoje, eu sou só eu e você é só você. Então pode ir para casa, se quiser, eu assumo a responsabilidade.

E isso era bem verdade. Por mais que apreciasse a companhia dela, não queria fazê-la perder o emprego. Quer dizer, levando em consideração seu histórico de pobreza, talvez ela acabasse se tornando uma mendiga e Merlin o livrasse de tamanha responsabilidade. Pensar que estava se preocupando com a ruiva em algum nível o fez se sentir incomodado, pois não era exatamente de seu feitio ficar calculando as coisas em prol do bem alheio.

O olhar duvidoso que ela lhe lançou o fez dar um sorriso de lado, ainda sem tirar sua atenção da poção.

- Todo mundo já está acostumado com a minha fama de lobo mau, você é só a chapeuzinho vermelho.

Gostava de provoca-la um pouquinho, fazendo aqueles grandes olhos castanhos ficarem pequeninos, bem fuziladinhos em sua direção. Ficou se perguntando se ela seria capaz de lhe jogar algum objeto na cabeça, caso não estivessem dentro do hospital. Pelo sim, pelo não, não era exatamente uma coisa que precisava saber, certo? Era melhor tomar cuidado, caso algum dia fosse atiça-la e não estivesse em um lugar seguro.

- Você ainda é meu paciente, Draco. E eu...

- Eu sou paciente do hospital, Weasley. E quem te autorizou a me chamar de Draco?

Aquilo pareceu pegá-la de surpresa. Não foi exatamente maldoso, mas Draco supôs que seria o suficiente para deixa-la bem nervosinha. Ao menos, pelo pouco que sabia da Weasley, ela não era do tipo que levava qualquer desaforo para casa, por menor que fosse.

- Eu posso te chamar de comensal, se você quiser.

Seu sorrisinho cínico morreu no mesmo instante, exatamente quando o dela tomou espaço no rosto. Deu-lhe uma olhada de reprovação e voltou sua atenção para a poção, adicionando uma pena de hipogrifo no caldeirão e observando-a se desmanchar, como se fosse um papel. Isso era um bom sinal.

- Dementador falido...

Não pôde evitar suspirar ao ouvi-la falar, mas continuou com suas anotações e observações sobre a poção. A essa altura, ela já deveria estar homogênea, mas estava começando a empelotar, o que poderia significar que faltava um pouco de acidez... quem sabe umas gotinhas de limão.

- Lacaio de Voldemort...

Não, não devia ser limão. O cheiro é muito forte e poderia ajudar a cobrir o aroma delicioso de podridão. Tinha que ser alguma coisa mais discreta, quem sabe um pouquinho, só uma gotinha bem pequenininha de óleo de...

- Doninha trevosa...

- Draco está ótimo, Weasley! Ótimo!

Ela cruzou os braços contra o peito, sentindo-se vitoriosa. Draco não sabia como ainda se surpreendia com as capacidades de tirá-lo do sério que a Weasley possuía. Era como um dom natural e aquela maldita sabia muito bem como se munir disso para liquidar sua já-quase-inexistente paciência. Porém, para não deixar aquela batalha no um a zero, ele decidiu alfinetá-la.

- Só não espere que eu vá te chamar pelo primeiro nome também.

Olhou-a rapidamente, em tempo de ver suas sobrancelhas se arquearem, como se tivesse sido atingida por um balaço bem no meio da cara. Draco teve de prender muito bem o riso enquanto misturava a poção e tentava colocar um pouquinho de pelo de unicórnio na composição.

- Posso saber o motivo?

Ainda sem virar os olhos em sua direção, ele continuou observando as pequenas alterações na poção conforme misturava de forma delicada, notando que, satisfatoriamente, estava deixando aquilo homogêneo.

- Ginevra...

Ele disse uma vez, meio reticente, como se estivesse pensando nisso pela primeira vez. A verdade é que vinha repetindo mentalmente o nome dela, ultimamente, a fim de não se esquecer nunca mais. Até por que não seria um palpite fácil, caso fugisse de sua mente novamente. Entretanto, sua próxima frase era realmente verdade:

- É tão esquisito, você não tem cara de Ginevra.

- É por isso que todo mundo me chama de Gina.

"É por isso que tidi mindi mi chimi di giniiii" ele debochou mentalmente, sem conseguir segurar uma risada curta. Ás vezes, somente às vezes, a Weasley deixava escapar um tom tão infantil e inocente em suas frases que o fazia achar graça, não de uma maneira maldosa, mas por soar realmente como uma criança.

- Tampouco. Gina é um apelido péssimo para Ginevra. Gina... Gina...

Ficou repetindo com desdém seu apelido. Provavelmente aqueles cabeçudos dos irmãos dela e o testa rachada a chamavam assim, desse jeitinho super chinfrim, que não tinha absolutamente nada a ver com aquela garota tão... Bom, era melhor voltar a prestar atenção na poção.

- Deixe-me adivinhar. Eu tenho cara de Weasley.

Draco ergueu os olhos na direção do rosto dela, observando-a com o nariz torcido, pensando que aquele sobrenome horripilante era destinado àquele rosto de bochechas salientes e sardentas, capaz de ficar atraente e charmosa até mesmo sob o uniforme ultrapassado do St. Mungus.

- Olhe, Weasley, para sua surpresa, não.

E baixou a cabeça novamente, percebendo que a poção estava pronta. Apanhou mais uma pena de hipogrifo, decidido a fazer um último teste, ao mesmo tempo em que o restante de sua frase saía, meio sem pensar, enquanto ele observava o que aconteceria no caldeirão.

- Seus irmãos têm cara de Weasley. Você merecia um nome mais bonito.

E a Weasley ficou em silêncio pela primeira vez aquele dia. Os olhos do Malfoy se arregalaram um pouquinho e ele mordeu os lábios ao perceber o que havia dito. Mas como era irritante essa mania de língua-solta dos infernos! Como não podia simplesmente puxar as palavras de volta e as engolir, Draco apenas pigarreou.

- Hum, eu acho que chegamos a algum lugar aqui.

Ela pareceu se animar subitamente e aproximou-se com certa euforia, como se também houvesse optado por desconsiderar o que Draco havia dito. E isso foi o suficiente para criar um pequeno nó em seu cérebro: afinal de contas, era um bom ou mau sinal? Ele jamais saberia dizer, até por que não sabia exatamente o que seria considerável como "bom", visto que tudo dependia do objetivo que tivesse para com a Weasley, e, para isso, ele ainda não tinha uma resposta.

- O que você conseguiu?

Olhando ali, para aquele liquido nojento no caldeirão, parecia tão inofensivo que Draco mal podia acreditar na trabalheira que fora para chegar à uma fórmula. No entanto, ali estava. Bastava agora verificar se o efeito seria semelhante ao que fora causado em seu corpo e no de Zabini.

- Bom, foi difícil, mas eu acredito que podemos quebrar alguns ossos com isso.

- O quê?! Você quer testar em alguém? Está maluco?

O olhar aterrorizado da Weasley o fez rir. Gargalhar, na verdade. Draco pensou que poderia desfrutar da diversão daqueles semblantes assustados por qualquer coisa para sempre, por que era, realmente, incansável. Ele sacudiu a cabeça negativamente e disse, como se não fosse óbvio:

- Eu imaginei que houvesse algum osso de esqueleto no hospital, mas nós podemos testar no Zabini, se você preferir.


Aquela talvez fosse sua coisa favorita no mundo mágico.

As formas como as coisas simplesmente aconteciam, rapidamente.

Tão logo ele aplicou a poção e os ossos que a Weasley lhe entregou para experimento se racharam. Alguns até alavancaram com a fratura, representando a forma que as perfurações dos órgãos poderiam ter ocorrido e isso os fez ficar em silêncio por alguns minutos, apenas contemplando a eficiência da substancia.

Draco mal pôde evitar seu ego de aumentar de forma galopante. Não era todo dia que uma poção dava tão certo logo de primeira. No entanto, não podia simplesmente ignorar toda a pesquisa que havia feito na última semana. Foi montando algo que combatesse aqueles efeitos incríveis (e mortíferos) que ele acabou chegando à composição original. Não era esse o caminho usual, mas acabou dando certo desta vez.

- Incrível. Como você conseguiu fazer isso?

A ruiva disse sem desgrudar os olhos dos ossos quebrados. Mantinha-se debruçada sobre o balcão, aparentemente tentada a colocar a mão no experimento. Draco a fitou de soslaio e aumentou um pouco seu sorriso orgulhoso. Debruçou-se ao seu lado, ficando perigosamente próximo, mas agiu como se não houvesse notado.

- Simples. Zabini me disse que sentiu cheiro de podridão.

Ela virou os olhos chocolate em sua direção e sorriu de maneira debochada.

- Isso deveria significar algo para mim?

Aquilo foi como um balde de água fria. Draco rolou os olhos nas órbitas e recuou um passo, ficando de pé e encarando o teto, pedindo força aos ancestrais. Para ele era praticamente um ultraje que um aluno de Hogwarts não dominasse a matéria de poções (ou, ao menos, herbologia), por mais que fosse uma das mais complexas do currículo escolar. Por Merlin, até o idiota do Longbotton devia saber aquela!

- Você tem certeza que se formou? Eu quero ver seu diploma.

Aquilo não pareceu ser suficiente para transmitir à Weasley a falha grave que ela havia cometido ao não compreender as mecânicas envolvidas na criação daquela poção. A ruiva apenas rodou os olhos, sem sequer perder o sorriso e voltou a observar a pilha de ossos quebrados, como se nada estivesse acontecendo. Na certa já estava se acostumando com ele e Draco não soube exatamente o que sentir diante disso, perdendo um pouquinho a intensidade de sua reclamação.

- Podridão, Weasley! Visco do diabo!

Novamente a atenção dela voltou-se para Draco. Dando-se por vencido, ele voltou a se debruçar ao lado dela, por mais que ainda estivesse inconformado com seus conhecimentos de poções e herbologia.

- Visco do diabo?

- Sim, é um dos ingredientes mais fedidos após fervidos para fazer uma poção. Acredite, se eu não fosse tão incrível, você poderia estar com a faixa de interdição do hospital agora, por que seria realmente insuportável.

Aquela explicação, no entanto, não pareceu ser suficiente para a Weasley. Ela aproximou a mão dos ossos quebrados lhe olhando fixamente, como se perguntasse se estaria tudo bem tocá-los, ao que Draco apenas assentiu.

- Existe uma infinidade de plantas que cheiram mal quando fervidas para fazer poção.

- Mas só o visco do diabo tem efeito prático na quebra de ossos. Ou de qualquer coisa, na verdade.

As sobrancelhas ruivas se arquearam em tom de compreensão, como se finalmente aceitasse aquele resultado. Por fim, abandonou o osso quebrado na mesa e sorriu de uma forma meio misteriosa.

- Bom, acho que tudo que você fez, foi... seguir seu nariz, certo?

E Draco assentiu, meio surpreso por aquele raciocínio esquisito.

- O do Zabini, na verdade.

Sentiu o antebraço dela se encostar ao dele e, logo em seguida, a ponta dos dedos finos de unhas curtas tocou-lhe o pulso, como se fosse um gesto habitual. A mão da Weasley era quentinha, especialmente para o ambiente gelado do laboratório. Entendeu que aquilo, aquele pequeno contato era uma forma de dizer-lhe que havia feito um bom trabalho.

Não que precisasse que ela lhe dissesse qualquer coisa, pois estava plenamente convencido de suas capacidades, mas era confortável ter algum reconhecimento.

- Na noite em que você chegou aqui, eu segurei sua mão a noite toda, sabia?

Os dedos dela foram se enroscando aos dele sutilmente, encaixando-se como se pertencessem ali. Seus olhos cinzentos mantiveram-se presos a eles, avaliando a complexidade daquele gesto. Será que ela fazia isso com todos os pacientes? Era bem provável que não...

- É verdade?

A ruiva assentiu suavemente. Os olhos chocolate lhe fitando de uma forma mansa, mais que o usual, como se estivesse vendo nele alguma coisa que a agradava, em algum nível, ainda que Draco não soubesse dizer exatamente o que.

Desde que pusera os olhos nela, Ginevra Weasley rondava seus sonhos e pensamentos. Sempre com aquele jeito irritante e adorável de fazê-lo pensar sob óticas e perspectivas que jamais imaginaria sozinho. Ao mesmo tempo em que sabia como tirá-lo do sério, ela lhe trazia uma paz e calmaria tão grandes que o faziam simplesmente esquecer um pouco o mundo exterior que os cercava.

Dentro das paredes do St. Mungus havia um mundo particular para eles, uma espécie de território neutro, onde não importava muito o sobrenome, a casa de Hogwarts, posição social ou qualquer uma daquelas coisas que certamente os aguardaria do lado de fora.

Não, ali ela era somente uma enfermeira e ele, um paciente. Eventualmente, eram adversários em uma partida de xadrez, mas, na maioria do tempo, pouco a pouco, tornavam-se meio que amigos, talvez. Uma amizade bem particular, verdade, mas ainda assim soava incrivelmente verdadeira na cabeça do Malfoy.

Era de seu costume duvidar de qualquer gesto de gentileza. Tudo que a Weasley lhe dissesse ali, qualquer coisa, poderia somente ser parte de um plano para influenciá-lo a tomar um lado que ela julgasse como correto. No entanto, aquela mão quente em volta da sua e aqueles olhos chocolate brilhando para ele não pareciam nada além disso. Um simples gesto de carinho.

- Sim. Você estava tendo pesadelos, eu achei melhor fazer isto para que não se mexesse demais e acabasse perfurando mais algum órgão.

Sentiu sua mão se apertar sobre a dela ao ouvi-la falar, num gesto esporádico. Daquela proximidade, dava para sentir o cheiro do perfume de baunilha que a impregnava. Se atreveu a se aproximar um pouquinho mais, quase encostando a bochecha na testa da ruiva. Ela parecia especialmente magnética aquele dia, lhe atraindo mais do que o usual e muito mais do que deveria ser permitido.

- Bom, quando eu criar a contra poção, não vai ter mais esse tipo de preocupação com seus pacientes.

O polegar da Weasley se movimentou suavemente, fazendo uma espécie de carinho em sua mão, deixando-o um pouco mais confortável a ponto de encostar, de fato, o rosto no topo da cabeça dela. O cheiro de baunilha lhe inebriando, fazendo com que esquecesse um pouco aquela voz fininha que gritava bem no fundo de seu cérebro que aquilo era uma má ideia. Não havia sinais de resistência nela, parecia tão confortável quanto ele com aquela proximidade, o que lhe encorajou a permanecer e fechar os olhos um instante.

Será que as coisas poderiam, somente desta vez, ser simples?

- Acha mesmo que consegue criar uma contra poção?

Ele assentiu suavemente, roçando a bochecha nos cabelos dela e desejando poder viver naquele instante onde tudo estava bem, por mais que não fosse a exata realidade. Se fosse ser sincero, Draco diria que já havia montado uma fórmula. Basicamente aquela, que o fizera chegar no resultado da poção. Tinha cerca de cinquenta por cento de certeza de que estava perfeitamente composta, mas gostaria de testá-la antes de dizer alguma coisa para a Weasley. Não queria que ela se enchesse de expectativas, por mais que o cenário fosse bem positivo. Talvez devesse conversar com Blaise, mais tarde, para pedir uma segunda opinião...

- Claro que sim. Acabo antes da minha alta.

Alta. A palavra o fez subitamente se lembrar de que estavam em um hospital, num laboratório, e que certamente não deveria estar tão próximo assim daquela que era sua enfermeira. Num impulso, acabou recuando um passo, afastando-se do balcão, dos ossos e da Weasley. Ela, no entanto, não se moveu. Apenas virou os olhos castanhos em sua direção como se já imaginasse o motivo de seu distanciamento e, até mesmo, lamentasse.

Um pouco sem graça, Draco coçou a nuca e pigarreou, sem conseguir olhá-la nos olhos por um momento.

- Á propósito, quando você pretende me libertar do meu cárcere privado?

O olhar de desapontamento da Weasley permaneceu sobre ele enquanto ela o fitava em silêncio por alguns segundos. Respirou fundo e suspirou baixinho, afastando-se, por fim, do balcão e da pilha de ossos. Vê-la assim o fez sentir uma pontada no peito, achando-se um idiota por não ter permanecido ali, junto dela, como estavam um minuto atrás. "Lá vai você, Draco, arruinando tudo, como sempre", pensou.

- Em breve.

A voz da Weasley não parecia mais tão divertida e ela continuava lhe observando, com o maxilar apertado, como se estivesse tentando decidir alguma coisa.

Ele jamais saberia o quê.


- Então, deixe-me ver se entendi.

Ainda que Blaise estivesse falando, Draco sentia-se perfeitamente incomodado em estar ali. Se soubesse que Luna Lovegood era uma perfeita desocupada que passava o dia inteiro no hospital grudada no Zabini, certamente teria enviado uma coruja com a pergunta. No entanto, ali estava ele, diante daquela cena patética da loira terminando de alimentá-lo.

Aquela lembrança seria suficiente para deixa-lo sem apetite por um mês.

- Você conseguiu criar uma poção que quebra os ossos e, agora, acha que fez uma que remenda os ossos, é isso?

- De forma bem resumida, sim.

Blaise assentiu enquanto a Lovegood recolhia o prato do almoço na bandeja e colocava sobre a cômoda. Ao menos aquela torturante sessão de "comidinha" finalmente chegava ao fim. O que ainda o motivava a ficar no quarto era a curiosidade de Zabini, que parecia extremamente interessado na poção. Talvez ele compreendesse sua vontade de desvendar e solucionar aquela porcaria como uma espécie de vingança por ter levado uma garrafada na cabeça.

- E você já testou?

Draco maneou a cabeça negativamente, torcendo um pouco o nariz ao revelar seu processo de criação. Não se orgulhava muito dessa parte por não ser exatamente convencional, mas sabia que era a única forma.

- O processo de criação dessas poções foi bem confuso e nada comum. Eu inventei uma poção que curava os ossos para, em cima dela, montar uma com o efeito oposto. O que me faz ter confiança é que a de quebrar ossos funcionou perfeitamente...

- Mas...?

- Eu não sei, Zabini, acho que ela ainda é meio fraca, mas também receio fortifica-la e ver, na prática, que ela teria o mesmo efeito brusco e prejudicial do feitiço, entende?

Por um instante, Zabini pareceu ponderar. Os olhos castanhos fitando o nada, como se estivesse calculando alguma coisa. Draco apenas aguardou em silêncio, intrigado com as considerações que viriam. A Lovegood os observava, escorada à cômoda, no mais perfeito silêncio, sem demonstrar muito interesse no assunto. Ele mal podia dizer, na verdade, se ela estava mesmo prestando atenção. Mas entendia um pouco Blaise se relacionar com ela ao observá-la com mais atenção.

Por mais que suas habilidades mentais fossem questionáveis para Draco, ela era, de fato, muito bonita. Óbvio que seria muito mais se as bochechas fossem salientes e houvessem sardas salpicadas por sua pele, mas, ainda assim, era inegável que tinha lá seu charme. Com aqueles olhos azuis, tão cristalinos quanto o mar, e os cabelos loiros cacheados, indo quase até a cintura, por mais que não estivessem exatamente bem cuidados...

A moda, no entanto, era um quesito a parte. Draco não se julgava um entendido do assunto, mas tinha certeza que o estilo dela era demasiado extravagante para seu gosto. Agora, por exemplo, tinha tudo para estar ótimo. O cabelo estava preso, usava botas até que comuns, de camurça, mas tinha que cometer a loucura de colocar um vestido roxo de mangas curtas bufantes com uma blusa preta de mangas compridas por baixo e, a cereja do bolo, era a calça jeans azul anil que usava sob o vestido. E não era uma jeans qualquer, não, longe disso, havia até umas correntinhas penduradas na altura da coxa.

Isso sem falar das miçangas que delineavam seu pulso e seu pescoço.

Novamente, ela não poderia jamais ser dita como feia, mas era demasiado... excêntrica. Para seu gosto, ao menos. Lhe surpreendia, realmente, que Blaise (que costumava ser até mais aristocrático que ele) visse ali uma margem para uma possível união. Entretanto, como ultimamente até o uniforme do St. Mungus andava charmoso sob seu ponto de vista, decidiu tirar essas ideias da cabeça.

- E você quer um efeito imediato?

A voz de Blaise lhe tirou dos devaneios e ele apenas assentiu.

- Bom, se for para demorar, nós já temos a opção da internação aqui, certo?

- Por que você não experimenta óleo de dragão?

Lovegood perguntou como se não fosse a coisa mais óbvia do mundo, sentando-se na maca, ao lado de Blaise e se acomodando no ombro dele, de uma forma incrivelmente natural. Draco apertou os olhos e inclinou o rosto sem saber ao certo se isso era algo real ou só mais uma das maluquices daquela garota.

- Óleo de dragão?

- É, a Gina não comentou com você?

Draco piscou os olhos várias vezes sendo bombardeado pelo próprio cérebro com dezenas de más-respostas que poderia dar àquela pergunta. No entanto, Blaise lhe lançou um olhar atravessado e moveu os lábios lentamente, fomentando cada sílaba.

"Não se atreva"

Diante disto, o Malfoy só conseguiu ficar em silêncio, pois tinha certeza absoluta de que qualquer coisa (absolutamente qualquer coisa) que saísse por sua boca agora, seria cruel.

Sem obter nenhuma resposta, a loira apenas girou os olhos nas órbitas e se aproximou dele, sentando-se direito na maca e mantendo uma postura quase perfeita. Aqueles olhos azuis, tão parecidos e ao mesmo tempo tão diferentes dos teus, lhe encaravam com uma esperança até então desconhecida. E Draco duvidou que aquilo se tratasse somente da poção.

- Olhe, quando eu estava na Romênia, nós estávamos estudando as propriedades do óleo de dragão. E ele tem efeitos muito interessantes no que se trata de ossos, já que é repleto de cálcio.

"Que ótima informação inútil", Draco pensou ao considerar todos os contratempos que uma ida à Romênia poderia lhe causar. Respirou fundo, tentando engolir os comentários mais cruéis que lhe surgiam de imediato, somente por consideração à Blaise e, também, pela boa vontade da Lovegood em lhe ajudar sem sequer ter pedido. A voz da Weasley dizendo-lhe que ele não levava jeito para interações humanas soava em sua cabeça como o tilintar de um sino.

- Parece ótimo, desconsiderando o fato de que eu jamais conseguiria ter acesso a isso.

E a Lovegood sorriu.

- Você quer? Eu posso te trazer amanhã. Eu tenho uns frascos em casa que trouxemos para análise, o Blaise estava indo levar à um especialista, em Hogsmeade, quando foi atacado.

O sorriso de Draco e os olhos arregalados de Blaise se instalaram no mesmo segundo. Ele fitou o sonserino, que parecia levemente inconformado com a língua solta da namorada. Lembrava-se perfeitamente do quão evasivo o Zabini havia sido quando questionado sobre o que diabos estava fazendo em Hogsmeade e agora, finalmente, ele obtinha sua resposta sem sequer perguntar.

Este era um dos lados positivos de se conversar com Luna Lovegood, ele supôs.

- Muito obrigado, Lovegood. Foi muito esclarecedor.

- Disponha.


- Eu espero que você tenha mesmo um bom motivo para não querer ver o Bob hoje.

Desde a última semana, após o incidente no laboratório, a Weasley parecia um pouco mais distante do que o habitual.

Ainda parecia prestativa e gentil, mas havia uma restrição nova em seu olhar e Draco tinha certeza que era culpa sua. Se não fosse o idiota de sempre e houvesse apenas aproveitado o contato com ela, quem sabe o que poderia estar fazendo agora?

Mas não, ali estavam os dois com uma parede de vidro recém-inaugurada entre eles, mas tão forte quanto diamante.

Foi particularmente difícil convencê-la a ir até um quarto vazio, onde pudessem ter alguma privacidade, sem especificar o motivo. Ainda mais por que hoje era dia de se encontrar com Bob e ela detestava quando calhava de algo atrapalhar esse contato entre Draco e o cachorro.

Por isso, ao entrarem no quarto, ela permaneceu de braços cruzados, com aquela cara de emburrada que não combinava muito com o uniforme de enfermeira. Escorou-se à parede logo ao lado da porta e fitou Draco com certa impaciência.

- Diga, o que você quer?

Então, sem mais rodeios, Draco disse:

- Eu consegui.

Por mais que estivesse sorrindo, cheio de empolgação, a Weasley não pareceu se contagiar. Aquilo aparentemente não quis dizer nada para a ruiva, que ficou parada exatamente da mesma forma, observando-o sem esboçar reação. Então arqueou as sobrancelhas, cobrando dele uma explicação.

- Conseguiu o quê?

- Consegui a contra poção!

Respondeu, como se não fosse óbvio. Os braços da ruiva se descruzaram e ela franziu a testa, um tanto desacreditada.

- Como assim?

Draco suspirou. Não sabia ao certo o que dizer ou como explicar, até por que ela certamente não entenderia bulhufas. Então decidiu que o melhor a fazer seria lhe mostrar o incrível efeito reparador da poção, que fazia os ossos se reconectarem de uma forma quase magnética, mas sem perfurar órgãos para isso.

- Não vou ficar aqui te passando a lista de composição pois, pelo que pude ver, seria demais para sua cabeça de Weasley.

- Ah, obrigada pelo desmerecimento.

Por mais que ela ainda soasse levemente zangada, Draco sabia que estava mais disposta a brincadeiras do que um segundo atrás. Então tomou a liberdade de colocar a mão sobre a dela, tentando uma aproximação, por menor que fosse. Os olhos castanhos caíram na direção de seus dedos e ele torceu para que a Weasley entendesse que era uma tentativa de se redimir, de alguma forma.

- Nós podemos ir ao laboratório e testar para você ver. Acredite, Weasley, nem mesmo um profissional faria melhor.

E deu uma apertadinha em sua mão, como se tentando persuadi-la. A ruiva, no entanto, ainda estava hesitante, meio incerta, olhando-o com uma expressão de quem quer, mas está com medo. Chegou a mordiscar o lábio inferior, tamanho receio.

- Não sei não, Draco...

Deslizou suavemente os dedos por sua mão até o pulso, tentando algo próximo de um carinho. Sentiu-se meio patético, imaginando que esse tipo de gesto não combinava muito com ele, mas quando a sentiu retribuir o afago com o polegar, deixou o pensamento de lado. Finalmente conseguia reparar algo de errado ao invés de arruinar logo tudo.

- É sério. Já ouviu falar em óleo de dragão?

A Weasley deixou o queixo cair e os olhos se arregalarem. Ficou atônita durante alguns segundos e Draco temeu ter dito algo de errado, quando ela exclamou em voz alta:

- Você esteve com a Luna?!

No entanto, subitamente a porta do quarto se abriu fazendo um barulho alto ao bater diretamente na parede. Os dois viraram-se na direção da entrada e Draco surpreendeu-se de verdade ao ver a cabeça da Granger surgir.

- Gina! Rápido, você tem que ver isso!

Ela estava terrivelmente ofegante, com o rosto vermelho, típico de quem estava chorando. As roupas sujas de lama e, provavelmente, sangue. Os cabelos mais desgrenhados que o normal e um belo corte no supercílio. Draco concluiu que, o que quer que houvesse ocorrido com a Granger, boa coisa não era.

- Hermione! O que houve?!

A Weasley perguntou, igualmente surpresa. Ela apoiou as mãos nos ombros da Granger, tentando acalmá-la, visto que mal podia falar, tamanha afobação. Sacudia as mãos, aflita, tentando demonstrar a urgência da situação e Draco deduziu que deveria ser algo referente aos irmãos da ruiva, para tamanha impaciência.

- É o Harry. Gina, ele foi atingido.

Bom, esse não era exatamente irmão dela, mas Draco considerou seu palpite bem certeiro mesmo assim.

- Como assim?! Por quem?

Perguntou um pouco exaltada, como se compreendesse agora a gravidade da situação. A Granger começou a puxá-la pelo antebraço porta a fora e ele as seguiu, apanhando um pequeno frasco com a contra poção e avaliando rapidamente os riscos de sugerir o uso daquilo.

- Ele estava seguindo alguns suspeitos... eu o vi ser atingido, eles são muitos, Gina...

A voz da morena soava longe, conforme ia caminhando à frente com a Weasley, que tentava inutilmente freá-la, fazendo fricção com os pés. Ela chegava a dizer coisas do tipo "Se acalme, Mione", mas nada disso parecia sequer chegar aos ouvidos da outra, que continuava com o modo desespero ativado.

- Eu não tenho autorização de entrar, mas você tem. Por favor, Gina, por favor, salve-o.

Ela deu uma empurrada na ruiva, direcionando-a para a porta da enfermaria, praticamente coagindo-a a entrar. No entanto, contrariando as expectativas da amiga, a Weasley conseguiu se virar de frente e a segurou pelos ombros, olhando fixamente em seus olhos. Draco ficou apenas observando, caminhando calmamente na direção delas com o frasquinho nas mãos.

Teve vontade de mandar Granger calar a boca, mas achou que seria mais divertido vê-las em pânico, como estavam, sendo que a solução estava ali, bem na palma de sua mão.

- Olhe, Hermione, eu não sei se...

O olhar preocupado da Weasley pareceu finalmente tê-lo encontrado no corredor. Draco apenas sacudiu o fraco com a contra poção de uma forma que sabia que iria tirá-la do sério. O semblante dela até endureceu, parecendo querer alertá-lo de um perigo iminente e, mesmo que estivesse falando com a Granger, as palavras certamente foram direcionadas para ele.

- Eu definitivamente não acho que seria uma boa ideia...

Era tão engraçado vê-la daquela forma! Draco sacudiu novamente o vidrinho, prendendo ao máximo o riso, enquanto os olhos castanhos oscilavam entre ele e a Granger. A enfermeira parecia presa em um dilema e não sabia se consolava a amiga ou o impedia de fazer algo que ela considerava uma besteira. E quis ver, então, até onde aquilo iria.

- ... Criar expectativas. Deu tudo certo com o Malfoy e com o Zabini, eu tenho certeza que Harry...

Foi se aproximando perigosamente da porta da enfermaria, bem ao lado dela. E a Weasley tremeu, pois sabia que, ao contrário da Granger, Draco certamente não hesitaria em invadir o local e jogar o que fosse na cara do Potter. Inclusive, sendo bem sincero, o Malfoy estava feliz com essa possibilidade. Faria questão de arremessar o frasco, para que o Cicatriz tivesse a mesma sensação deliciosa de tomar uma garrafada na cabeça.

Sem parecer mais conseguir se conter, a Weasley se desvencilhou da Granger e apoiou as duas mãos no peito de Draco, empurrando-o sutilmente para trás.

- Me desculpe.

Foi caminhando meio descoordenada e empurrando Draco pelo peito até uns três metros atrás da amiga. Então cruzou os braços contra o peito novamente e assumiu aquele semblante raivoso de quem está prestes a explodir. O Malfoy, no entanto, permaneceu sorrindo, ansioso com a possibilidade de testar sua mais nova poção.

- Em que diabos você está pensando?!

- O que foi, Weasley? Você não quer ver se funciona?

Ela praticamente tomou o frasco de poção de suas mãos e enfiou no bolso do avental, como se estivesse escondendo alguma droga ou substância ilícita. Vê-la assim, toda nervosinha, era como uma recompensa para Draco, que tentou deixa-la desta forma incansavelmente durante os primeiros dias no hospital e falhou miseravelmente. Agora era só alegria.

- Eu pensei que ainda faltasse alguma coisa. Você me disse que acabaria antes da sua alta, lembra? Bom, sua alta não é hoje.

- Exatamente. Tecnicamente, estamos antes da minha alta.

A enfermeira ficou com a boca aberta alguns segundos, como se esperasse as palavras magicamente saírem, o que não aconteceu. Por fim, suspirou e apontou para o próprio bolso, onde havia guardado o frasco com a poção.

- Eu não te vi testar isso. Como posso ter certeza de que não vai piorar as coisas?

Draco se aproximou um pouquinho mais dela para que pudesse falar baixinho, e disse bem perto, quase rente ao ouvido, num sussurro.

- Você acha que eu seria capaz de te entregar algo que pudesse prejudicar a vida do Potter?

Silêncio.

A Weasley começou a gesticular, olhando fixamente para Draco com um semblante parecido ao do tédio enquanto ele sorria, irônico.

- É uma pergunta retórica? Por que eu realmente acho que...

- Nós não temos tempo para isso. Só confie em mim, Weasley.

Foi a vez dele segurá-la pelos ombros e virá-la de frente para a enfermaria. Ainda se atreveu e deu-lhe um tapinha nas costas, como se estivesse indicando que devia seguir a diante. A ruiva voltou-se novamente para Draco e perguntou, apreensiva, meio que ignorando seu gesto anterior.

- Quantos por cento?

- Oitenta e cinco...

- Só isso?!

Suas mãos começaram a massagear as têmporas enquanto ela suspirava e parecia raciocinar. Draco decidiu ficar em silêncio, pois, por mais que estivesse bem confiante da poção que criara, no fim das contas era a Weasley quem devia decidir se arriscaria ou não a utilizar. E não dava para ter a menor ideia do que se passava naquela cabecinha, pois os olhos castanhos dançavam de um lado para o outro, completamente alucinados.

- Além da vida de Harry, é meu emprego que está em risco aqui, Draco. E se eu perder tudo?

- Só confie em mim.

Eles então trocaram um olhar.

Draco não soube dizer se foi por ter parado de brincar ou se ela realmente conseguiu ver alguma coisa no fundo de seus olhos. O fato é que, após alguns segundos de silêncio, a Weasley bateu com força o pé esquerdo no chão e grunhiu.

- Eu odeio você.

Virou-se de costas e saiu marchando rumo à maca do Potter sem dizer sequer mais uma palavra, mas aquele pequeno ataque de raiva já confirmava que ela ia, ao menos, tentar. Então o sorriso largo voltou aos lábios do Malfoy, que caminhou satisfeito até a janelinha da enfermaria, parando bem ao lado de uma Granger aflita, que torcia os dedos sujos de lama.

- Eu sempre soube que você era macabro, mas sorrir nessa situação é esquisito até mesmo para você.

A voz da Granger embargada pelo choro fez seu sorriso aumentar. Girou os olhos cinzentos em sua direção por alguns segundos, pensando em quantos anos havia que não trocava sequer uma palavra com aquela ratinha. Então, virou-se novamente para a visão da enfermaria e pôde ver Gina derramando a poção sobre o tórax do Potter.

- Oras, Granger... eu preciso de alguma diversão em minha vida. Até por que, infelizmente, não há de durar muito.

"Ao menos, se tudo correr conforme o esperado", ele concluiu mentalmente. Dava para ver a equipe médica circulando ao redor da maca de Potter, mas não demorou nem cinco minutos para que um sorriso esperançoso surgisse nos lábios da Weasley, o que, por si só, já era um bom sinal.

As outras enfermeiras começaram a fazer anotações e a Granger, apreensiva, apoiou uma das mãos sujas no vidro, como se quisesse se manter o mais próxima possível do pobre e moribundo Harry Potter. Os olhos castanhos e brilhantes da ruiva lhe procuraram no vidro e ela deixou seu sorriso crescer ainda mais.

Deu para ver os olhos do Potter se abrindo antes que a equipe médica fechasse a cortina em volta de sua maca. As lágrimas caiam facilmente pelo rosto vermelho da Granger e ela correu até a porta da enfermaria quando viu que a ruiva se aproximava.

- Deu certo!

Gina exclamou assim que abriu a porta, olhando somente para ele, como se a Granger fosse até invisível. Draco sorriu, orgulhoso, e colocou as mãos nos bolsos. "Merlin, ainda bem" agradeceu fechando brevemente os olhos. "Tenho certeza que professor Snape deve estar orgulhoso, onde quer que esteja... Se é que está em algum lugar", concluiu voltando sua atenção para as duas garotas, que comemoravam juntas.

- Está funcionando! Está realmente funcionando!

- Eu posso entrar?!

- Claro, Hermione, só não...

Mas a Granger rompeu como um raio para dentro da enfermaria, sem que a enfermeira tivesse a oportunidade de concluir sua frase. Em menos de meio segundo, ela já estava debruçada na maca, agarrando a mão de Potter como se fosse feita de ouro.

- Não se aproxime da maca.

A Weasley murmurou, sacudindo a cabeça negativamente e colocando as mãos na cintura. Draco foi se aproximando aos pouquinhos, contemplando a cena poética, típica de um romance clichê em que se transformara a enfermaria do St. Mungus.

- Harry, por favor, não me assuste desta forma! Por favor!

Disse apertando os dedos em volta da mão do Potter, como se o coitado não houvesse acabado de ser todo fraturado e remendado por dentro. Ele sorriu, meio abatido, e ela murmurou com aquela voz embargada de uma forma tão atordoada que todo mundo pôde ouvi-la choramingando.

- Eu te amo.

E simplesmente o beijou. Ali, no meio da enfermaria, com metade do corpo médico de plateia, cheiro de sangue e lama para todo lado. Draco rolou os olhos nas órbitas, cansado com todo aquele sentimentalismo patético e escorou-se à parede, bem ao lado da ruiva.

- Você poderia tê-lo deixado sofrer mais um pouco.

Murmurou de uma forma que só ela conseguisse ouvir. A Weasley se virou para ele quase automaticamente, com seus olhos entusiasmados de quem acaba de participar de algo extremamente importante. No entanto, pareceu conter-se e apenas recuou um passo, ficando mais próxima do Malfoy.

- Você adora esse tipo de cena, não é?

- Ah, claro que sim. Nada melhor que ver nascer esse amor de ratos.

Draco resmungou enquanto coçava a nuca. Para sua surpresa, a Weasley riu. Apenas sacudiu a cabeça negativamente e ergueu os ombros, como se não soubesse bem o que dizer.

- Eu acho muito romântico.

Confessou. E Draco teve de lutar um pouquinho para entender onde estava, exatamente, o romance em toda aquela cena atrapalhada. Em sua tentativa de compreender, ao fitar Potter, notou que ele o observava de volta e fez um aceno com a cabeça, como se o agradecesse. O Malfoy apertou os lábios em algo que jamais seria um sorriso, mas passava a mensagem clara de um frio e distante "de nada".

Certamente que a Weasley, com aquele bocão, devia ter lhe dito que, se ele morresse, o responsável a ser procurado era Draco Malfoy.

- Parabéns pela poção. Ela teve um efeito incrível. O que utilizou na composição, além de óleo de dragão?

Ela ergueu os olhos para fita-lo e Draco baixou os seus, cinzentos. Decidiu provoca-la um pouquinho por toda aquela indecisão sobre o uso da poção, mas sabia que, de verdade, estava muito feliz pela confiança. Sabia que a Weasley tinha muito a perder e compreendia que era mesmo uma decisão difícil, ainda que colocasse em debate suas habilidades em poções e pudesse ferir um pouquinho seu ego.

Só um pouquinho.

- Quem sabe eu lhe conte um dia, quando você confiar mais em mim... Ginevra.

Seus dedos tocaram suavemente a ponta dos dedos dela, de uma maneira tão discreta que ninguém poderia notar. Ginevra lhe sorriu de uma maneira tão aberta e satisfeita que o fez ter vontade de jogá-la sobre seu ombro e carrega-la para fora daquele maldito hospital.

No entanto, antes que pudesse ter tempo de fazer qualquer coisa, a porta da enfermaria se abria novamente, e de uma maneira não tão amistosa dessa vez.

Lá estava o ministro da magia.


N/A: Gente, voltei.

Vamos lá, para um pequeno update hahahaha

Não sei se vocês lembram da minha saga épica até chegar neste apartamento que eu moro agora, mas eu estava com uma audiência para ocorrer agora, em Maio. Pois é, gente, deu tudo certo! Depois de um longo e tenebroso inverno, finalmente as coisas estão bem Hhahahaha Inclusive, eu tenho até medo quando as coisas ficam tão bem do jeito que estão.

Mas enfim, o que isso significa para vocês?

EXATAMENTE, GENTE! ESSE FINAL VEM! HAHAHAHAHA

Eu já esquematizei também todo o próximo capítulo, com todos os diálogos e até o nome do capítulo. Vou tentar escrever tudo essa semana, aproveitando essa minha fase criativa.

Agora vamos lá, sobre este capítulo:

Como o anterior (dividido em 2) foi da Gina, esse é do Draco (como vem ocorrendo na fanfic toda). E eu gosto muito de escrever com ele, pqp. Meninas que se identificam com o Draco me add hahahahah

E aí, gostaram da interação deles? Fala se essa não é a melhor parte de qualquer relacionamento? Esse comecinho, essa insegurança, borboletas no estomago... Ah, que coisa deliciosa!

Já revelei para vocês o que o Blaise fazia em Hogsmeade e, de quebra, temos uma contra poção! Agora vai, Brasiiiiil!

Que tipo de casal representa mais vocês, eim? Harry e Hermione (romanticão mesmo, com cena de novela) ou Draco em Gina (tudo disfarçadinho, só que tá no relacionamento sabe)? Me contem aí! Eu sou muito Draco e Gina (já falei pra vocês que eu namorei escondido? Pois é hahaha)

Eu programei 10 capítulos para essa fanfic + o epílogo. Então estamos realmente na reta final desta fanfic que definitivamente já devia estar concluída, pois é bem curtinha (fanfic de 48 capítulos nunca mais!)

Então me digam aí o que não pode faltar nessa fase, que personagens vocês querem rever e que resposta vocês PRECISAM que eu traga, pois pode ser que eu esqueça de responder alguma coisa e aí vocês vão me odiar para sempre hehehehe

Vejo vocês em breve, meninas! Muito obrigada pelo carinho, por acompanharem e comentarem sempre, se fazendo presentes e não me permitindo desestimular ou desistir de escrever. Todo o carinho do mundo para vocês!

Se cuidem!

Beijos!