09. O Autoproclamado Melhor Aluno em Poções que Hogwarts Já Viu

- Granger, relatório.

Quando Kingsley Shacklebolt falou, todos pareceram prender o ar.

O atual ministro da magia entrou na enfermaria como se aquele lugar lhe pertencesse. Ao lado dele, meia dúzia de pessoas que deviam trabalhar no ministério, mas eram rostos desconhecidos para Gina. Hermione, no entanto, pareceu reconhece-los imediatamente e levou cerca de alguns segundos com os olhos pulando entre eles e a boca aberta, completamente sem reação, tentando bolar alguma coisa que fizesse o menor sentido.

- Am... o senhor Potter estava em uma missão de busca e eu...

Seus olhos viraram-se na direção de Harry como se pedisse socorro. A verdade (que era dizer que o estava seguindo) não pareceu apropriada o suficiente e, aparentemente, nada de muito convincente estava circulando pela cabeça da Granger naquele momento. Foi quando o moreno pigarreou e se sentou na maca, munindo-se de forçar para falar.

Ainda que a poção tivesse aquele incrível efeito rápido e eficaz, não era fácil para o corpo simplesmente esquecer o trauma recém-superado. Gina virou seus olhos na direção de Draco, que se mantinha tão calado quanto ela, e se perguntou se ele estaria também absorvendo os resultados da substância que criara.

- Hermione estava andando mais para trás por que imaginávamos que encontraríamos o inimigo e decidimos tentar uma armadilha.

Kingsley não disse sequer uma palavra. Ficou parado exatamente no mesmo ponto, com os braços cruzados à frente do corpo, demonstrando uma espécie de insatisfação que Gina não sabia dizer o motivo. Contudo, havia alguma complacência no olhar que ele lançava à Harry, meio piedoso devido ao estado deplorável do rapaz, provavelmente.

E, mesmo sem dizer uma palavra, era incrível como todos o respeitavam e permaneciam com a postura ereta e os lábios silenciados.

- Mas eles utilizaram o mesmo recurso que tentaram em Malfoy e Zabini. Atualmente, nós já sabemos que se trata de uma poção, senhor.

Quando Harry parou de falar, o ministro assentiu suavemente e virou-se para Hermione em um tom um pouco menos paciente, como se ela tivesse feito algo errado.

- E posso saber o motivo desta informação não constar em nenhum dos relatórios sobre o caso?

Ela chegou a umedecer os lábios para responder, mas foi Harry quem interveio por ela novamente.

- Claro, Draco Malfoy acaba de desenvolver a poção reversa.

Os olhos castanhos do ministro se expandiram sutilmente e ele virou-se na direção de Draco como se só o tivesse notado ali naquele instante. Gina não pôde evitar de prender o ar em seus pulmões, pois sabia perfeitamente que o Malfoy não era exatamente bom com as palavras ou simpático em algum nível, o que poderia coloca-la em maus lençóis.

Ele permaneceu calado e parado ao seu lado, apenas observando o ministro, que deu um passo em sua direção e observou de uma forma meio irônica, meio zangada e que Gina não conseguia compreender muito bem.

A única coisa que lhe vinha à mente é que o ministro certamente gostaria de vê-lo em Azkaban, e não ali, parado, vivendo tranquilamente no hospital enquanto seus amigos próximos causavam o maior tumulto em Londres.

- Draco Malfoy.

"Meu Merlin, segure a língua dele" Gina pediu em pensamento, girando os olhos na direção de Draco. Ele arqueou as sobrancelhas e acenou de maneira irônica.

- Oi.

Ela teria batido na própria testa, se pudesse. Até um simples "oi" deste dissimulado era irritante. Draco definitivamente não tinha a menor chance de sair ileso daquela situação. Sua ironia não passou desapercebida pelo ministro, que colocou uma das mãos em seu ombro e o mediu dos pés à cabeça.

- Você parece bem. Algum encarregado pode me mostrar o prontuário?

Gina assentiu suavemente antes de se direcionar toda apressada até o balcão da enfermaria. Dedilhou suavemente por todas as fichas, sem desgrudar os olhos daquela cena estranha que se passava. Preocupava-se, porém, quando o ministro lesse e tivesse, enfim, a comprovação do estado de saúde do Malfoy. O que lhe aliviava, porém, era saber que ele não tinha conhecimentos avançados em medicina e isso (talvez) pudesse lhe ajudar a não abrir mão da permanência de Draco no St. Mungus.

Ao menos por um tempo.

Ela retornou com a ficha nas mãos meio contrariada, mas mais receosa que qualquer outra coisa. Entregou o prontuário nas mãos do ministro e ele automaticamente repassou o papel para uma das pessoas que o acompanhava.

- Layla, você pode avaliar isto?

A mulher de olhos negros como a noite para quem o ministro direcionou a ficha não hesitou em apanhar o papel. Seus cabelos castanhos e lisos eram compridos, mas estavam presos em um rabo-de-cavalo que batia em suas costas. Era particularmente magra, dando para ver os ossos de seus ombros bem desenhados sob a camisa de seda azul. Analisava através dos óculos exageradamente grandes que equilibrava em seu nariz fino e pontudo. Tudo nela parecia perfeitamente alinhado e só essa sua essência fez Gina concluir que ela leria com perfeição aquele maldito prontuário.

Trocou o peso do corpo de uma perna para a outra enquanto lia e a Weasley percebeu o belo par de sapatos de salto que ela usava. Tão brilhosos e perfeitamente abotoados, como se fosse até uma espécie de boneca em exposição. A saia de linho excepcionalmente reta contornava seus quadris bem definidos e lhe desenhava o corpo de uma forma discreta e cheia de uma classe que Gina tinha certeza que jamais teria. Agradeceu mentalmente, inclusive, por estar bem ajeitadinha sob o uniforme do St. Mungus e não com um suéter e jeans, que era como se vestia em seus dias de folga.

Por fim, Layla pareceu concluir sua leitura e seus olhos negros viraram-se na direção do Malfoy sem qualquer expressão.

- Acredito que ele esteja apto à alta, senhor.

- Claro que está. Já viu algum doente desenvolver poções, Layla?

Draco arqueou as sobrancelhas subitamente, como se houvesse acabado de tomar um choque no nariz. Seus olhos cinzentos piscaram algumas vezes, sentindo o impacto do golpe e ele não pareceu ter tempo de pensar em alguma resposta à altura. Na verdade, nem pareceu compreender muito bem do que o estavam acusando.

- Como é?

- Se o senhor está apto para criar poções, senhor Malfoy, assumo que esteja em condições de dar andamento ao seu processo e não mais utilizar o St. Mungus como uma pousada.

Dito isso, como se estivesse apenas esperando por essa oportunidade, o ministro tirou do bolso um envelope e entregou a Draco, que deixou os olhos caírem sob o papel e ficou inexpressivo em seguida, parecendo ser sugado para uma realidade a qual não pertencia mais.

- Nos vemos na sua audiência, Sr. Malfoy.

A satisfação na voz de Kingsley fez com que Gina franzisse a testa. Tudo bem que Draco não era exatamente um santo injustiçado ou Joana D'Arc pós-moderna, mas aquilo não lhe pareceu nada correto. Ele havia sofrido bastante com os efeitos da poção e era um milagre que ainda estivesse vivo, quem melhor que ela, a enfermeira responsável pelo caso desde o primeiro momento, para dizer o tempo preciso de permanência no hospital? Imediatamente umedeceu os lábios e começou a expor seu parecer.

- Com licença, senhor. Nós nunca tivemos casos como os de Malfoy e Zabini. O tempo de observação pós-sintoma é maior que o usual pois não temos certeza dos efeitos retardatários que podem ocorrer em decorrência da substância...

- Você é a enfermeira responsável pelo caso?

A forma abrupta com que o ministro a interrompeu fez Gina hesitar. No entanto, assentiu.

- Sim.

- Você é filha do Arthur, irmã do Ronald?

- Sim.

- Você está demitida.

- O que?!

Seus olhos castanhos se arregalaram e Gina o fitou com incredibilidade. Não era possível que Kingsley estivesse lhe demitindo. Aquilo devia ser uma piada, e de muito mal gosto! O ministro continuou de forma natural, sem elevar sequer um décimo seu tom de voz, como se fizesse aquilo todo dia.

- O St. Mungus não é nenhum laboratório, Srta. Weasley. Se era a encarregada pelo caso, a responsabilidade pelo paciente era sua.

A mão de Draco se ergueu na mesma hora e ele parecia um pouco menos amigável que cinco minutos trás. A testa franzida e os olhos endurecidos fitavam o ministro como se ele fosse alguma espécie de maluco (e era exatamente isso que parecia, mesmo).

- Espere um minuto, não pode demiti-la por algo que eu fiz! Ela não é minha babá ou algo do tipo.

- Ela é uma funcionária do hospital e tem total ciência das regras de conduta.

Então a voz rouca de Harry soou novamente, em meio a um pigarro.

- Eu acredito que tenha ouvido quando dissemos que foi graças à essa poção que estou aqui, falando, agora mesmo.

Kingsley virou sua atenção para Harry e Gina apenas ouviu, ainda abalada pela notícia de que estava desempregada. Seus olhos dançavam entre os rostos e não sabia ao certo em quê focar. No semblante aterrorizado de Hermione, nos lábios apertados de Draco, nas sobrancelhas curvadas de Harry...

- Senhor Potter, nós temos uma equipe altamente capacitada no ministério para a criação de poções e antídotos.

Então a mão de Kingsley se ergueu aberta, indicando Draco num gesto amplo, como se ele sequer estivesse ali. Suas sobrancelhas loiras se curvaram e ele continuou assistindo a cena da maneira mais controlada que parecia ser possível. Gina sabia que, quando o Malfoy se irritasse de verdade, interromperia o ministro e falaria mais do que deveria. Então torceu os dedos, apreensiva de que as coisas pudessem ficar ainda piores.

- Não me parece uma atitude inteligente permitir que um de nossos procurados desenvolva uma poção para restabelecer a integridade de nossos aurores.

O ministro continuou. Desta vez, pareceu ser o suficiente para Draco. Ele pigarreou, chamando o olhar de Kingsley em sua direção.

- Eu não sou procurado, eu sou um suspeito. E, até onde eu saiba, não há nenhuma evidência concreta contra mim.

Ainda que ele houvesse sido educado, Draco tinha um total de zero carisma. Era natural como ele se expressava de uma forma que fazia com que parecesse que ele se achava muito superior – o que, provavelmente, era bem verdade. Os olhos do ministro brilharam de uma forma meio maligna e que fez Harry se mexer na maca, parecendo notar o perigo que se instaurava.

- Nós possuímos uma enciclopédia de evidências contra sua família, Sr. Malfoy.

- Se for para pagar pelos crimes da minha família, eu deveria ter ido para Azkaban desde que nasci.

Então Kingsley torceu o nariz e o fitou como se fosse insignificante.

- Não teria sido uma má ideia. Veja o problemão que teríamos evitado.

Novamente, Harry pigarreou e tentou chamar a atenção para si, tirando o foco da situação incomoda que se instalava entre Draco e o ministro. O que, no ponto de vista de Gina, era impossível. Fazia sentido, parando para pensar, que fosse realmente difícil, após tudo que aconteceu, ainda depositarem alguma credibilidade em um Malfoy. E apenas ela o conhecia além de seu sobrenome, o que lhe permitia ser mais complacente com as falas ásperas e os trejeitos irônicos. Para os outros, ele era somente um comensal.

- Senhor, sem querer lhe faltar com o respeito, mas nenhum membro da equipe capacitada conseguiu elaborar uma contra poção, pois eles faziam questão de uma amostra para análise.

Com um gesto da cabeça, Harry a indicou, fazendo o ministro virar os olhos em sua direção quase que automaticamente. Teria ficado vermelha em outra ocasião, por ser o centro das atenções, mas ali, daquela forma, parecia apenas o mínimo após tanto esforço e dedicação em resolver aquela porcaria. Certamente Gina não esperava que fosse receber uma estátua ou medalha de honra ao mérito por desvendar o modus operandi dos comensais, mas definitivamente não imaginou que correria o risco de perder seu emprego. Temia ser pega fazendo experimentos, óbvio, mas após ter o resultado? Tinha certeza que, caso conseguisse, realmente, a solução daquele problema, só sairia do St. Mungus se quisesse. E agora, entretanto, ali estava, dependendo das considerações do amigo para ter algum reconhecimento.

- Ginevra Weasley foi a inteligência médica que conseguiu diagnosticar que se tratava de uma poção. Além disso, por ter sido atingido, assim como eu, Draco Malfoy tinha certeza do que era e não pediu a ela nenhuma evidência para poder desenvolver uma substância.

Harry esfregou a mão nos olhos por um momento, antes de sacudir a cabeça e voltar a falar. Dava para ver que estava bem cansado e precisando de tempo para se recuperar, mas ela sabia que enquanto não estivesse tudo acertado, ele não dormiria.

- Até onde eu sei, essa contra poção foi desenvolvida apenas com a informação de um odor que Blaise Zabini sentiu e considerando os efeitos da poção original. E por pura liberalidade do Malfoy, pois não era obrigação dele. Na verdade, não era obrigação de Gina também.

As pessoas permaneceram em silêncio, inclusive o ministro, que agora oscilava o olhar entre Gina e Draco, parecendo procurar neles as coisas que Harry pontuava.

- E, como pode ver, a poção funciona. E funciona muito bem, diga-se de passagem. Então não compreendo a necessidade de toda essa repressão quando, no final, o que temos aqui é algo extremamente produtivo.

Foi quando Draco aproveitou para se aproximar do ministro e entregar a ele um vidrinho com liquido dentro. Um sorrisinho sarcástico brotou nos lábios do Malfoy, que disse o que lhe veio na telha, sem qualquer preocupação.

- Se está desconfiado das capacidades da contra poção, leve uma amostra para sua equipe capacitada avaliar.

Munindo-se de ar com uma longa respiração, o ministro pareceu se forçar a ignorar essa pequena gracinha de Draco e tornou a olhar para Harry. Gina aproveitou e deu uma cotovelada no braço do Malfoy, deixando clara sua reprovação. Ele, no entanto, pareceu pouco se importar.

- Potter, você tem dois dias para acabar de uma vez por todas com esse caso. Pode solicitar quantos aurores você julgar necessário, desde que termine com isso.

Dito isso, o ministro virou-se de costas para Harry, indicando que aquela conversa havia acabado. Olhou bem para Draco e bateu sua mão no ombro do loiro, que acompanhou com um olhar não muito amistoso.

- E leve este aqui com você. Não haverá nenhum problema com nossos aurores, senhor Malfoy, desde que a contra poção funcione conforme o esperado.

Kingsley girou os olhos para Gina e, embora parecesse meio contrariado, ele decidiu.

- Seu emprego se mantém por hora, srta. Weasley.

Foi saindo da enfermaria sem se despedir, dizendo quando chegou na soleira da porta:

- Quero você no meu escritório em uma hora, Granger.

E Hermione engoliu seco, sem desgrudar os olhos da porta durante alguns segundos, como alguém que está calculando a hora da própria morte.

Foi com violência que Gina empurrou a porta de um dos quartos privativos do hospital. Ela passou pisando com passos duros e Draco em seu encalço. O loiro fechou a porta de uma maneira mais usual, escorando-se à parede logo em seguida, enquanto a Weasley arrancava o véu e jogava sobre uma das camas. Os cabelos vermelhos estavam presos num coque, mas alguns fios ficaram bagunçados pela violência com que foram soltos.

Ela podia ficar sem o véu? Não. Mas o fez mesmo assim, como se isto fosse fazê-la se sentir melhor de alguma forma.

- Com que autoridade esse escroto chega aqui e dá ordens, como se fosse o dono do hospital?!

- Ele é o ministro da magia, Ginevra.

Draco teve de prender uma risada quando a ouviu grunhir em resposta. Estava muito engraçada ali, sentada na cama de uma maneira infantil e desolada, observando com os olhos castanhos como se houvesse perdido a guerra. Após alguns segundos em silêncio, voltou a falar com a indignação ainda presente em sua voz.

- O ministério não tem nada que intervir no meu trabalho. Por acaso você me vê lá, infernizando a vida de alguém, monitorando os memorandos e coordenando o corujal?

- Isso seria interessante.

Inclinou suavemente o rosto observando-a e sorriu, mas isso não foi suficiente para acalmá-la. Gina bufou e foi arrancando os sapatos, jogando cada um num canto, sem muita preocupação com a organização. Ele não tinha certeza do nível de represália que aqueles atos poderiam causar, mas imaginou que era bobagem colocar a carreira em risco por causa de uma coisa que nem tinha nada a ver com o hospital...

- E aquela mulher? Eim? O que diabos aquela mulher sabe sobre os meus pacientes?!

A Weasley bufou e se largou de costas na cama. No impacto, os cabelos se soltaram do coque e se esparramaram no lençol branco de uma forma que fez Draco rir enquanto se aproximava, como se achasse aquela reação exagerada. Gina, por outro lado, achava que estava pegando muito leve. Fora uma situação ridícula e tensa, mas, acima de tudo, desnecessária.

Se dedicava àquela porcaria de hospital dia e noite, lendo e se esforçando para dar sempre o seu melhor e o que ganhava em troca? Desdém. Nem uma gota de reconhecimento vinda de órgãos superiores, como se estivesse brincando ali o dia inteiro e não trabalhando. Isso a deixava tão irritada que sentia até os olhos lacrimejarem de raiva, mas sabia que era bobagem chorar por causa de um perfeito escroto como Kingsley.

- Weasley, a mulher só escreveu o que é óbvio: você fez um ótimo trabalho. Estou curado. Meus dias de comida sem tempero estão acabados.

Sentiu o colchão de mover um pouquinho quando Draco se sentou ao lado dela. Gina virou seus olhos castanhos para ele e o observou. Não parecia que havia acabado de sair da mesma enfermaria em que estivera, naquela situação tensa e ridícula. Não, na verdade estava tão tranquilo e conformado que lhe fez estranhar e franzir as sobrancelhas ruivas. Será que aquele idiota tinha entendido o que tinha acontecido? Por que não parecia...

- Mas eu não te dei alta! Ela quer saber mais do que eu, que acompanhei seu caso desde o primeiro minuto?

A mão dele tocou seu ombro com delicadeza, como se quisesse puxar sua atenção de volta. Os olhos acinzentados lhe observando de uma maneira persuasiva, querendo reafirmar que, o que quer que tivesse acontecido, já havia acabado.

- Quer fazer o favor de se acalmar? O quarteirão inteiro deve estar te ouvindo.

Mesmo contrariada, Gina cedeu e apenas baixou os olhos, murmurando em seguida.

- Não gosto nada disso.

Talvez tenha sido seu tom de voz melancólico, ou a forma infantil com que baixara os olhos, mas Draco sorriu e a enlaçou em um meio abraço, puxando-a mais para perto e apoiando o rosto no topo de sua cabeça. Por algum motivo, ele realmente apreciava muito ficar ali, cheirando seus cabelos, e Gina tinha de admitir que não era nada mau.

- Eu sempre odiei esse pessoal do ministério. Sou suspeito em dizer qualquer coisa.

Seus dedos acarinharam suavemente o antebraço de Gina durante o abraço. E por mais que odiasse admitir, aquilo realmente lhe fazia sentir mais calma. Não era muito habitual que ela e Draco ficassem se acarinhando ou se abraçando (o que era uma pena), especialmente por que as coisas estavam começando a ficar meio esquisitas entre eles, com todos aqueles contatos sutis que queriam e não queriam dizer alguma coisa ao mesmo tempo. O efeito das carícias era, no entanto, realmente muito bom.

Porém, só de se lembrar de tudo, uma indignação pulsava dentro de si que a fazia querer gritar. Por isso, apenas apertou os lábios e continuou falando, meio que resmungando.

- Um bando de hipócritas. Não sei que merda de autoridade eles pensam que têm aqui dentro.

O Malfoy riu novamente e beijou-lhe a testa duma forma natural e, ao mesmo tempo, extraordinária. Era um gesto simples, comum e que certamente faria parte do cotidiano deles, caso tivessem alguma intimidade (ou será que já tinham? Gina não sabia dizer ao certo) contudo, devido às circunstâncias, era realmente impressionante ganhar este carinho tão gratuito de alguém com quem (ainda) não possuía nenhum vínculo amoroso. Ficou tão atordoada com o gesto que quase não prestou atenção ao que ele disse em seguida, enquanto desfazia o abraço e se levantava.

- Bom, eu espero encontrar você em um melhor humor quando retornar.

Retornar.

Retornar implicava ter de sair antes, ir a algum lugar, para então voltar.

E onde aquele atrevido beijador de testa pensava que iria sem falar com ela?

Gina só percebeu que devia estar lhe fuzilando com os olhos quando Draco começou a se explicar na sequência.

- O Potter me ofereceu uma estadia naquela espelunca da Ordem por esta noite, até que possamos partir amanhã.

- O que?! Você está realmente pensando em cumprir com isso?

Mesmo com o tom de repreensão evidente em sua voz, Draco não pareceu se abalar ou reconsiderar nem por um segundo o que havia acabado de dizer. Na verdade, pareceu um tanto surpreso ao perceber que ela não pensava da mesma forma, como se esperasse que sua reação devesse ser um tanto mais compreensiva ou que essa explicação pudesse lhe amenizar os ânimos.

- Claro que estou. Quem você pensa que eu sou? Algum traidor de sangue que ajuda amantes de trouxa?

E deu aquele sorrisinho cínico que lhe fizera rir tantas vezes durante o período de internação. Agora, não foi suficiente para lhe fazer sequer sorrir. A preocupação que crescia dentro de Gina não dava espaço para humor ou qualquer artimanha que Draco pudesse pensar em utilizar para lhe convencer de que era realmente a melhor ideia simplesmente ir para a batalha ao lado de Harry. A Weasley manteve-se no mais perfeito silêncio, pois não sabia nem o que responder.

Ao observar que sua tentativa de não fazer um grande caso daquela situação estava fracassando, Draco sentou-se ao lado de Gina novamente, mas um pouco menos próximo que anteriormente. Sua mão tocou o joelho da ruiva, num gesto apaziguador, de quem não quer discutir.

- Olhe, eu realmente preciso ir. Isso pode me ajudar na audiência, ao menos eu espero que sim. Não torne as coisas em uma tempestade, está bem? E, por Merlin, aplique a poção em Blaise, assim que possível...

- Você não pode estar falando sério.

Gina nem pestanejou em interromper aquele pequeno discurso que certamente fora ensaiado com antecedência. Ficou olhando para Draco com os lábios entreabertos, sem acreditar no que estava ouvindo. Aquilo lhe pegara de surpresa e nem que convivesse com ele por vinte anos esperaria algum interesse vindo do Malfoy em participar ativamente de uma batalha contra os comensais, dando a cara a tapa depois de passar semanas internado por culpa deles.

Então ele vinha agora com esse discurso de meia-tigela preparado e ensaiado e para si cabia apenas o papel de aceitar? Simplesmente aceitar que Draco agora estava coleguinha de Harry Potter e iriam até fazer uma festinha do pijama juntos pré-batalha? E tinha que aceitar facilmente, ainda por cima, sem causar uma "tempestade", como ele dizia. Oras, que aquele Malfoy se preparasse (e muito bem) pois haveria agora um verdadeiro furacão!

- Não sou eu que estou tornando as coisas em uma tempestade. E quando foi que você começou a falar com o Harry? Eu preferia quando não falava e não me sugeria essas idiotices.

Estava tão energizada que cruzou e descruzou os braços umas três vezes enquanto falava. Draco mantinha-se em silêncio, com os lábios comprimidos, apenas lhe observando de forma ilegível. Ainda assim, Gina sentia-se indignada o suficiente para continuar falando e expondo seu ponto de vista.

- E por que?! Você não se importava com nada disso, você só queria fugir para a Grécia.

Ele fechou os olhos e suspirou, parecendo buscar calma e paciência em algum lugar muito profundo de seu íntimo. Sua mão, no entanto, ainda repousava serena sobre o joelho de Gina, que o olhava de forma incisiva, esperando por uma resposta plausível. Ficaram assim por alguns segundos, enquanto Draco pensava e parecia assimilar tudo que ela havia dito. Quando ele voltou a fita-la, disse de imediato:

- Você sabe o que eu estava fazendo no Beco, aquela noite?

Era uma inesperada mudança de assunto, mas Gina decidiu deixa-lo terminar o raciocínio por não conseguir prever os rumos que aquela justificativa tomaria. Ele moveu suavemente o polegar em seu joelho, lhe acariciando, tentando ameniza-la daquela forma que ele já devia ter notado ser eficiente.

- Eu estava indo encontrar com um suposto vendedor de passagens. Eu ia para a Grécia, mesmo.

Não parecia ser mentira ou só um argumento para lhe convencer. Aquela era a resposta de uma das perguntas que Draco se recusara a responder desde o primeiro dia e provavelmente uma das únicas que mantivera em segredo até aquele momento. Talvez fosse por saber o impacto que aquela novidade poderia trazer à Gina, que dimensionava de uma maneira totalmente diferente agora as intenções do Malfoy. Uma coisa era querer ir para a Grécia, fantasiar, sonhar com isso, mas outra coisa bem diferente era ir comprar as passagens.

Isso significava que ele estava realmente convicto, que iria mesmo fazer isso e só não o fez por ter sido uma emboscada. Não era para ela e Draco terem convivido no hospital e se conectado. Era para ele estar na Grécia, bem longe, vivendo a vida dele sem sequer ter ciência de sua existência. E provavelmente era este o plano dele para o futuro, um em que Gina não caberia.

- Mas estou feliz que meu plano tenha ido, realmente, para a lama, junto comigo, aquela noite.

Ele disse parecendo adivinhar a linha de raciocínio que dominava Gina naquele instante. Como se quisesse tirar essas ideias de sua cabeça, mas a dúvida ainda pairava nela. Não tinha possibilidade de seguirem juntos se um estivesse na Grécia e outro em Londres... Mas eles estavam juntos? Tudo que aconteceu foram alguns carinhos, alguns sorrisos, será que seria o suficiente para significar alguma coisa?

E, mesmo que significasse alguma coisa, será que Gina queria mesmo esse papel de ser a causa do Malfoy desistir de seus planos e continuar acorrentado à uma cidade que ele abominava? Não seria isso muito responsabilidade? Mas também... não seria pior ficar sem ele? Sem suas ironias, suas risadas e aquele olhos azuis que a faziam quase gritar...

- Muita coisa mudou desde então. E nada disso teria acontecido...

- Eu estou te pedindo que fique aqui, comigo!

Gina o abraçou de forma abrupta, apertando os braços finos em volta dos ombros de Draco, trazendo-o para perto, como se isso pudesse impedi-lo de partir para a batalha, para a Grécia e para qualquer lugar que ele pensasse ir sem ela. Seus lábios se apertaram por um momento e a ruiva engoliu seco, tentando fazer aquela súbita vontade de chorar se afastar de seus pensamentos. Uma das mãos do Malfoy segurou-lhe a nuca e começou a lhe acariciar, trazendo aquela mesma mensagem apaziguadora de que estava tudo bem, o que não foi nada convincente para as inquietações da Weasley.

- Fique comigo. Você não precisa participar mais dessa guerra.

- Preciso, sim. Ginevra, no instante em que eu te pedi o kit de poções, eu já estava participando.

Ainda abraçada a ele, Gina suspirou. Seus olhos se fecharam com pesar enquanto tentava encontrar alguma lógica naquilo. Francamente, por que diabos Draco iria para o lugar onde o queriam morto? Desde quando ele possuía essa noção de responsabilidade ou qualquer que fosse a desculpa que ele usava?

Se tinha alguém que Gina nunca pensou que iria preocupa-la por simplesmente correr na direção do perigo, esse alguém era o Malfoy. Idealizando uma vida na Grécia, elogiando a que ele pensava ter sido a grande escapada de Blaise Zabini, alguém que sempre pareceu astuto e egoísta o suficiente para se afastar de atos heroicos e agora ali estava ele, disposto a obedecer ao ministro e trabalhar com Harry! E tudo isso pela incerteza de sua sentença num julgamento que poderia nem acontecer. Não fazia o menor sentido para ela...

- Por que está fazendo isto? Está tentando me punir? Está tentando me machucar?

Assim que disse isso, Gina sentiu Draco ficar inquieto no abraço. Ele a segurou pelos ombros e a afastou, querendo fita-la nos olhos. Sentiu-se como se fosse uma criança que fala uma bobagem e é corrigida logo em seguida, mas a ideia ainda lhe soava muito verossímil.

- Machucar você? É o que você espera que eu faça?

"Não", Gina pensou meio envergonhada, desviando o olhar de Draco. Não gostaria que ele imaginasse coisas sobre a forma com que ela o via, porém não estava disposta a deixa-lo ir. Por isso apenas sacudiu a cabeça negativamente e continuou falando.

- Você sempre disse que não havia mais nada em Londres! Você sempre disse que Zabini era esperto por ter fugido, que não havia mais nada para você aqui...

- Eu estava errado, Weasley. É isso que você queria ouvir?

Tudo que conseguiu fazer foi ficar em silêncio, observando-o. Draco, por outro lado, pareceu ficar inquieto e se soltou dela, colocando-se de pé logo em seguida. Passou os dedos pelos cabelos loiros, jogando-os para trás, como se realmente o incomodasse admitir aquilo. E, conhecendo-o, Gina presumiu que deveria incomodar, mesmo. Admitir erros não era lá o forte da família Malfoy.

O viu suspirar e virar-se de frente novamente para ela, como se buscasse no ar alguma forma ou a coragem de expressar o que sentia. Por um momento, ponderou se havia sido mesmo sua melhor estratégia fazê-lo enxergar nela seus argumentos antigos. Ao mesmo tempo em que achava prudente confrontá-lo, Gina sabia que deveria estar ocorrendo alguma espécie de batalha na mente de Draco, tanto que dava para sentir nele a inquietação. Mas antes que pudesse dizer qualquer coisa, ele continuou:

- Ainda existe algo em Londres. Eu segui seu conselho e criei uma amarra. Uma bem vermelha.

Os dedos do Malfoy tocaram as pontas de seu cabelo vermelho bagunçado e na mesma hora Gina sentiu-se inundada por uma emoção que não soube descrever em palavras. Talvez por ainda não existir no dicionário algo que traduzisse aquele misto de alegria, paixão e tristeza que gritava enquanto aquele simples toque se prolongava.

Finalmente tinha certeza de que Draco não a desprezaria. Não somente isso, mas sabia que a queria, que se sentia conectado a ela de alguma forma, como haviam conversado tempos atrás. E isso a fez ficar aliviada, como se finalmente se permitisse ter certeza daquele sentimento de carinho que crescia dentro de si durante as últimas semanas. Sentiu os olhos marejarem, pois por mais que houvesse sonhado com aquele momento, jamais imaginaria que seria numa despedida.

E ele percebeu. Tinha certeza que Draco sabia perfeitamente que estava dando-se por vencida para aquele sentimento e que se entristecia profundamente ao mesmo tempo que se inundava de alegria por tê-lo ali, por se ver refletida no puro azul daqueles olhos acinzentados que tanto vira e aprendera a gostar. Tão perfeitamente alocada sobre sua íris, como se pudesse mesmo ser o centro de seu universo, a única coisa que tomaria conta de seu olhar.

Ah, como seria bom se fosse assim! Gina ocupou-se tanto pensando nas impossibilidades e nos desafios, mas em seu íntimo podia sentir como seria tranquilo tê-lo ao seu lado numa tarde de domingo, durante uma partida de xadrez, ou quem sabe rir com ele de algo que acontecera no trabalho, irem juntos ao parque, à Grécia ou para onde quer que aquele homem quisesse ir, estaria ao seu lado. E não era somente isso que importava? O que sentiam um pelo outro?

Draco sentou-se novamente ao seu lado e seus dedos correram até o rosto de Gina, alisando-a na bochecha como se fosse feita de porcelana. Deixou a cabeça pesar e encostou sua testa na dela, fechando os olhos em seguida, como se aquilo o confortasse de alguma forma. E aquela proximidade que há poucos dias era desconhecida, fazia-se agora tão natural e urgente, como o simples ato de respirar.

Ficaram em silêncio durante um tempo, cada um degustando à sua maneira das palavras e dos gestos que faziam, como se coordenados em uma dança. Os dedos de Gina subiram para os cabelos de Draco, como se aquilo pudesse preserva-lo ali, com ela, onde sabia que estava seguro. Naquele pequeno universo que construíram, escondido entre as paredes do St. Mungus.

Foi ele quem quebrou o silêncio.

- Eu tenho que fazer isso, Ginevra. Que tipo de idiota eu seria se simplesmente desperdiçasse a chance de lutar por um futuro melhor, um futuro... com você.

As mãos de Gina correram até a dele, que ainda estava em sua bochecha. Enroscou seus dedos nos dele e apertou com força, tentando algo que ela ainda não havia feito antes. Por mais que amasse ou quisesse algo, não era do feitio da Weasley pedir e implorar por nada. Agora, ali estava ela, com lágrimas nos olhos e as mãos fechadas em volta daquele que mais lhe trouxera alegria e vida nos últimos tempos.

Se tinha que pedir por alguma coisa na vida, Gina sabia que era por isto. E tinha passado a vida toda esperando por algo que valesse a pena implorar.

- Você não precisa lutar por isto, Draco. Eu estou bem aqui. Não quero ficar sem você...

- E então o que? Vamos viver neste mundo do jeito que está? Vamos fugir? É isto que você quer?

Foi quando as lágrimas, que insistiam em encher seus olhos, caíram. Trilharam rapidamente um caminho por suas bochechas, fazendo Gina enxuga-las quase imediatamente, ainda que soubesse que o Malfoy já as havia notado. Não gostava de chorar, de se sentir fragilizada, mas sabia que, naquela situação, aquilo pouco importava.

O que Draco dizia era verdade e ela não tinha como negar. Não poderia fugir com ele e também não gostaria de vê-lo fugir. Do jeito que as coisas estavam, era perigoso demais para qualquer bruxo circular por Londres, ainda mais para um Malfoy. Embora o loiro tivesse um ótimo argumento, não seria o bastante para fazê-la simplesmente ceder. Então, por falta do que dizer, apenas apertou os lábios e suspirou. Foi a deixa que ele esperava para continuar falando.

- Além disso, eu realmente posso acabar passando umas férias em Azkaban, sabia? Ao menos, de maneira provisória...

Outra verdade. Por mais que duvidasse de que a audiência fosse realmente acontecer, era algo que provavelmente pairava nos pensamentos do Malfoy. E seria igualmente desagradável imaginá-lo em Azkaban, pagando como o comensal que ele decidiu não ser. Gina engoliu seu choro, buscando forças para falar sem soar engasgada e sem deixar escapar algum soluço teimoso.

- E se você não voltar? Já pensou nisso? O que eu vou fazer?

Ele voltou a lhe beijar a testa, como fizera antes, mas deixou-se permanecer junto dela por mais tempo, como se estivesse desfrutando daquele momento. Gina imaginava que partilhassem da mesma sensação agridoce daqueles segundos de despedida, enquanto chegavam a níveis de proximidade desconhecidos. Era uma empolgante e melancólica novidade para os dois. Por mais que estivesse preocupada e triste, senti-lo ali, tão próximo, fazia seu coração bater pesado no peito.

O ouviu suspirar, antes de romper aquela proximidade, e o viu sorrir, mesmo que não fosse de forma genuína.

- Vai fazer o que vem fazendo a vida toda, oras. Seguir seu nariz.

- O que diabos isso quer dizer?!

A pergunta de Gina saiu abrupta, mas ela simplesmente não podia esperar. Imediatamente lembrou-se daquele maldito sonho maluco que teve na casa da Luna e a memória a fez sentir agoniada, buscando uma resposta do que aquela maldita frase poderia significar. Tinha ficado satisfeita ao pensar que se tratava do cheiro de podridão, quando Draco compusera a poção.

No entanto, agora vinha ele, trazendo um significado diferente para aquele mistério que julgava estar mais que resolvido. Seus olhos buscaram pelo semblante do Malfoy alguma pista e ele pareceu notar sua angustia, pois voltou a passar a mão por seus cabelos, como se quisesse acalmá-la.

- Nunca ouviu isso antes? Eu vi você me dizer algo parecido quando estava preparando a poção... Bem, quer dizer que vai seguir em frente. Seu nariz aponta sempre a diante, certo? É só uma forma boba de dizer que se deve continuar seguindo.

Gina agradeceu mentalmente por estar sentada, pois tinha certeza que cairia, se estivesse de pé. Suas pernas e braços pareceram tremer e as lágrimas que caíram por sua bochecha aumentaram, fazendo-a sentir o rosto esquentar e o nariz entupir. Tudo que conseguia pensar era no sonho, em quantas vezes ouvira essa frase antes que tudo começasse a dar errado e era impossível não associar com a situação atual.

- Você não vai voltar.

Disse com a voz embargada, colocando a mão sobre a boca ao sentir o peso das palavras e baixando a cabeça em seguida, se entregando ao choro por um momento. Teve certeza dentro de si que era uma mensagem para continuar seguindo em frente, mesmo diante das adversidades. Mesmo que perdesse aquilo que, agora, era o que mais lhe motivava. E tudo fazia sentido, pois era agora, justamente agora, que ele deixava de lado seus conceitos, sua riqueza, ou, como sonhara, "os diamantes".

Sim, só podia ser isso. Agora que Draco abandonava os diamantes, restava à Gina seguir seu nariz.

Tudo isso fez sua cabeça rodar e um soluço escapou por dentre o choro. Não estava pronta para deixa-lo ir, não queria estar pronta nunca. E Draco agoniou-se ao vê-la daquela forma, puxando-a para si e abraçando forte, forçando-a contra o peito como se esse conforto pudesse fazê-la parar.

- Ginevra...

A voz dele soou tão reconfortante e gentil que a fez desejar ouvi-la assim o tempo todo. Na verdade, foi a primeira vez que Gina percebeu que amava ouvi-lo dizer seu nome. Suas lágrimas umedeceram o tecido da blusa do Malfoy, mas ele não pareceu se importar com isso.

Gina não soube dizer por quanto tempo ficaram ali, grudados um no outro. Mas foi o suficiente para fazê-la conseguir conter o choro. Meio sem pensar, começou a mexer na gola da camisa dele com a pontinha dos dedos, movimentando-a para cima e para baixo. Draco ainda lhe acariciava os cabelos em silêncio, e era quase impossível dizer como ele deveria se sentir sobre tudo aquilo.

Foi erguendo o rosto para ele, que se afastou um pouquinho para poder olhá-la nos olhos.

- Como eu supostamente devo conviver com a culpa de colocá-lo nisto se você não voltar?

Seus olhos castanhos observavam o semblante de Draco, mas ele mantinha-se ilegível. Apenas lhe acariciava os cabelos e a fitava em silêncio, analisando seu rosto e tirando conclusões impossíveis de prever. Gina ergueu sua mão e tocou-o na bochecha, passando os dedos sobre a pele e alguns pequenos indícios de uma barba rala e falha, quase imperceptível ao olhar.

- E ainda sabendo que é por minha culpa, eu devo ficar o quê? Feliz por te empurrar diretamente para a morte?

Então os olhos azuis se fecharam para ela, aproveitando de seu carinho. Gina não sabia ao certo qual era a relação do Malfoy com carícias, mas ao vê-lo da forma que ficava quando se tocavam, parecia ser ainda mais desesperado para os toques do que ela, ainda que não demonstrasse muito no restante do tempo. Ele suspirou e seus lábios se contraíram num pequeno sorriso, conforme ela falava.

- "Empurrar para a morte"... Você realmente me subestima, sabia?

Gina rolou os olhos nas órbitas e parou de lhe acariciar o rosto.

- Eu não estou brincando, Draco.

Quase automaticamente, ele abriu os olhos e voltou a fita-la.

- Se for para morrer, eu não quero ir com essa lembrança esquisita de você completamente fora de seu juízo, me pedindo para ficar. É descabido isso, Weasley. E você é tão maldita que você sabe que eu tenho razão!

Novamente ela suspirou, desviando o olhar do dele. Lhe chateava ter de admitir que Draco tinha razão sobre absolutamente tudo. E doía constatar que não havia nada que pudesse fazer ou dizer que o impedisse de partir. Começava a aceitar, dentro de si, que as coisas seguiriam aquele rumo e que não lhe restava outra saída além de torcer para que estivesse enganada quanto ao significado do sonho, por mais que tivesse certeza de que não estava.

- Esse plano idiota do cicatriz vai dar certo, a contra poção funciona e em menos de vinte e quatro horas eu provavelmente irei entrar por aquela porta.

Draco apontou mesmo para a porta do quarto e Gina voltou a observá-lo, meio incerta, mas um pouco mais disposta a ceder. Sabia que ele não iria sozinho e que isso aumentava potencialmente a chance de sobrevivência, certo? Ao menos, ela esperava que sim...

- Você promete?

- Claro. Até por que, que eu saiba, os mortos também acabam vindo para cá para a autopsia, não é?

Não pôde evitar e deu-lhe um tapa no ombro, fazendo-o sorrir daquela forma de sempre. Sentiu os braços de Draco se apertarem um pouco mais em volta de si e o viu apertar-se em seu corpo de uma forma diferente, um pouco menos urgente, ainda que pudesse ver interesse nos olhos azuis. Foi se aproximando devagarzinho, afastando seu cabelo ruivo do rosto e colando a testa na dela.

- Agora, eu sei que não é de seu feitio ficar calada, mas será que poderíamos...

Não restava mais dúvidas do motivo daquela aproximação. A ruiva prendeu o ar ao constatar que estava prestes a beijar Draco Malfoy e sorriu suavemente ao vê-lo se esticando em sua direção. Chegou até a encostar suavemente os lábios finos nos de Gina por um segundo, antes que ela recuasse e virasse o rosto na direção contrária subitamente, fazendo com que o nariz dele acabasse tocando sua bochecha.

- Não. Se eu não te beijar, talvez você fique com medo e não vá.

Aquilo o fez soltar uma risada curta, mas a proximidade continuou e os lábios atrevidos do Malfoy buscaram a pele de seu pescoço num beijo demorado, que teria lhe feito suspirar em outra ocasião. Na sequência, ele passou a ponta do nariz em sua bochecha, como se a convidasse a virar-se de frente mais uma vez.

- Se não me beijar e eu morrer, você vai ficar com um baita peso na consciência.

Então ela se virou, observando-o com apreensão e apoiando os dedos em sua nuca, ainda meio incerta do que fazer. Draco voltou a fechar os olhos e beijou-lhe sutilmente o cantinho da boca, como se esperasse por mais. E o calor que cresceu dentro de Gina também queria, implorava por ele. Foi quando os lábios dele lhe alcançaram o pé do ouvido, sussurrando baixinho, como se num pedido.

- Vamos, eu estive esperando por isso.

Num suspiro, Gina fechou os olhos e o beijou com aflição. Como se não pudesse esperar mais para aquilo, assim como o próprio Malfoy, que apertou os dedos em volta dela, clamando-a para si. Suas mãos percorreram pelo cabelo loiro dele, sentindo-o entre os dedos e desejando que aquele momento nunca acabasse. Parecia tão entregue e intenso que quase a fazia esquecer de onde estavam e dos perigos que os rondavam naquele exato momento. Só o que queria era ele, aquele cheiro, aqueles cabelos e mãos que a tocavam e empurravam sutilmente, fazendo-a deitar de costas sobre a cama.

Draco colocou-se sobre ela, começando a beijar-lhe o pescoço enquanto puxava a gola do uniforme para baixo, revelando os ombros sardentos de Gina. Por um momento, ela fechou os olhos e o deixou beijá-la da forma que quisesse, pois não desejava nada mais do que aquilo. E sentiu com desejo e excitação os beijos que foram descendo suavemente por seus ombros, colo e seios.

Suspirou, ainda envolvida no momento e com uma pressão em seu ventre, desejando que aquele caminho de beijos descesse ainda um pouco mais. Foi quando abriu os olhos para vê-lo e deu por si. Ainda estavam no hospital, ainda estavam se despedindo e certamente teriam problemas se fossem pegos ali.

Só de pensar em ser pega, Gina ofegou. Não podia de forma alguma colocar em risco tudo que conseguira até ali. Seus estudos e sua carreira foram tão trabalhosos que, por mais que quisesse continuar aquele momento, não poderia simplesmente arriscar tudo. Sentou-se subitamente na cama e o afastou suavemente, sentindo-se ofegante. Não foi necessário dizer nada, pois Draco pareceu sair do transe, assim como ela, e sentou-se na cama imediatamente, passando as mãos pelo rosto, meio atordoado.

Antes que ele pudesse dizer alguma coisa, Gina debruçou-se sobre ele e deu-lhe um selinho, estupidamente rápido, mas o suficiente para fazê-lo entender de que não estava magoada de qualquer forma. Quando seus olhares se cruzaram, ela deu um meio sorriso.

- Eu não vou te perdoar se você não voltar.

Draco suspirou e assentiu, observando-a daquela forma ilegível.

- Nem eu.

Não havia sequer uma nuvem no céu de Londres aquela noite. As estrelas cintilavam no azul escuro do infinito e a brisa suave que soprava seus cabelos começava a ficar mais fria do que ele considerava agradável.

Ali, deitado sobre o telhado, com as mãos na nuca e um dos joelhos dobrados, Draco parecia finalmente ter encontrado um pouco de paz desde o momento que saíra do St. Mungus à tarde. A verdade era que o mundo parecia muito esquisito agora, depois de tanto tempo que passara no hospital. Até mesmo um ato simples como sentir a brisa de outro ponto que não fosse o terraço, soava meio esquisito, desconexo de uma realidade que ele agora abandonava.

A Ordem não era e jamais seria um de seus lugares favoritos no mundo. A experiência de caminhar por ali tendo Potter e Granger como seus anfitriões era extremamente esquisita. Especialmente ao reparar que todos os demais lhe observavam com dúvida e desprezo, como sempre. De toda forma, não esperava que pudesse ser diferente, ainda que o testa rachada tivesse feito o favor de contar que sua poção funcionava.

Felizmente, no entanto, embora fosse uma presença para lá de inusitada na Ordem, Draco pôde perceber que não era o assunto principal. Ao menos, Ronald Weasley pareceu menos infeliz ao vê-lo do que ao ver Granger e Potter de mãos dadas, caminhando pela casa como se fosse deles – E devia ser, tanto faz. Agora mesmo ele os deixara discutindo acaloradamente sobre esse novo relacionamento e se retirara da forma mais discreta possível para não participar daquele bate boca.

Queria muito que Gina estivesse ali. E Bob. Gostaria de tê-los ao seu lado e não somente ali, mas em qualquer lugar. Ela certamente estaria falando sobre alguma coisa ou sobre nada, visto sua capacidade extraordinária de desenvolver os mais diversos assuntos com maestria. E o cachorro estaria caminhando sob as telhas, o que certamente seria meio perigoso e provavelmente fosse ocupar seus pensamentos.

Se olhasse para o lado, conseguia até mesmo ver Gina ali. Sentada, com seus cabelos vermelhos esvoaçantes e aquele belo sorriso de menina. O nariz sardento e os olhos castanhos apertadinhos pelo sorriso. Usaria uma daquelas blusas horríveis que a mãe dela tricotava e sentiria frio, se achegando dele para se esquentar, como deveria ser. E lhe contaria histórias sobre os irmãos, as estrelas ou qualquer coisa que lhe viesse à mente.

Da mesma forma que a imagem dela vinha fácil, também sumia. E Draco temia que ela estivesse mesmo certa e que não se vissem mais. Pareceu convicta no que dizia e, embora estivesse emocionada, Gina não fazia o tipo que se preocupava à toa. Lembrava-se de que as coisas começaram a ficar dramáticas quando a disse para seguir o próprio nariz, mas não conseguia compreender em que nível aquilo soava desesperador, a ponde de fazê-la chorar tanto.

E ficava linda chorando, com o rosto vermelho, quase no mesmo tom dos cabelos. Ficava linda de qualquer forma, na verdade. E que beijo! A única parte boa de sua saída foi poder abraçá-la e beijá-la daquela forma. Não tinha certeza se o teria feito, caso fosse permanecer no hospital, e como estava feliz por ser correspondido.

Uma parte sua percebia sutilmente os olhares e sorrisos de Ginevra Weasley, mas outra parte duvidava das próprias conclusões. Afinal de contas, aquele jeito com que ela o tratava, poderia ser a forma como tratava a todas as pessoas, certo? E agora não. Tinha certeza de que era algo diferente que havia entre eles.

E só de pensar naquele beijo, seu coração acelerava. Ela era tão delicada e suave ao toque, com cheiro de baunilha e aquele gosto delicioso de sua boca... Se não estivessem no hospital, Draco sabia que teria ido até o fim. Não haveria nada que o fizesse parar se houvesse a certeza de um lugar a prova de interrupções.

No entanto, agora não sabia se haveria lá uma próxima vez. Tudo dependia de seu desempenho junto ao Potter na missão do dia seguinte e, embora tentasse soar otimista, tinha lá suas incertezas. Especialmente por conhecer muito bem os comensais e ter ciência de seus planos e o modo de lidar com as adversidades. Por que uma coisa era não se aliar a eles e outra coisa bem diferente era ser aliado da Ordem.

Foi quando ouviu o barulho da madeira da janela por onde pulara estalando. Girou os olhos e viu o Potter , agora equilibrando-se no telhado e caminhando até seu lado. Não pôde evitar de revirar os olhos, por que sabia que isso significava que sua paz havia acabado. Lá vinha aquele insuportável grifinório lhe tirar o pouco de paciência que tinha.

Preferiu ficar calado e voltar a encarar o céu. Por mais que aquele fosse um alvo fácil, Draco não estava com muita vontade de começar uma discussão. Pelo contrário, se pudesse, ficaria no mais pleno silêncio até a hora de precisarem sair. Sabia que o Potter não era lá tão falante quando seria a Granger, por exemplo, e tentou animar-se um pouco com a ideia de ficarem quietos.

- Como o mundo parece, do seu ponto de vista?

E lá se ia sua esperança de silêncio.

Draco voltou o olhar na direção de Harry, que se sentava à sua direita com um semblante tão cansado que nem mesmo a noite podia esconder. Ainda parecia o mesmo petulante de Hogwarts, se fosse para ser bem sincero, mas algo nele parecia mais perto de desistir do que antes. Como se também não suportasse mais o pesado fardo de lutar contra os bruxos das trevas. E foi essa pequena identificação que fez com que o Malfoy se esforçasse um pouco para ser minimamente sociável. Além disso, imaginava que o clima lá dentro não fosse dos melhores, para que o Potter preferisse se sentar ali do que com o Weasley ou a Granger.

- Se realmente quer saber, Potter, eu preferiria passar o resto dos meus dias escondido por trás das paredes do St. Mungus a ter que ver este mundo.

Não era mentira. Era a maior verdade que poderia dizer naquele momento. Se fechasse os olhos, Draco sabia que se imaginaria facilmente na Grécia ao lado de Gina e Bob, brincando na areia, na água e levando uma vida simples, sem a necessidade de todos os luxos que seus galeões poderiam proporcionar. Só eles em um dia de sol vivendo na praia e não sobrevivendo, como estavam, no frio de Londres.

- Contudo...?

- Contudo, é mais provável que eu acabe vendo este mundo por trás das barras de Azkaban.

Virou rapidamente os olhos na direção do Potter, que apenas assentiu. Não havia mesmo muito o que dizer, por que ambos sabiam que essa era uma possibilidade muito provável. E só de se imaginar naquele lugar por um milésimo de segundo, Draco sacudiu a cabeça negativamente e voltou a falar.

- E eu não vou aceitar este destino. Eu prefiro voltar morto para o St. Mungus.

Aquilo pareceu fazer algum sentido para o Potter, pois ele voltou a assentir. Foi esticando as pernas no telhado, ficando meio largado, como se estivesse muito cansado para ficar sentado. Draco imaginou que, mesmo com a poção, o cansaço devia permanecer, assim como a necessidade de repouso, mas não se atreveu a comentar nada, guardando suas próprias conclusões para si. Quando menos esperava, Harry voltou a falar dentre um bocejo.

- Gina me disse que você cooperou bastante. Ainda tem o lance da poção. Quem sabe isso não te ajude, em algum nível?

E Draco soltou uma exclamação, sacudindo a cabeça negativamente.

- Eu duvido. Alguém tem que pagar por tudo que está acontecendo e, como você já sabe, a corda sempre arrebenta para o lado mais fraco. Além disso, suponho que meus galeões não sejam suficientes para me tirar desta situação.

O suspiro que Harry soltou foi alto o suficiente para fazer Draco girar os olhos na direção dele novamente. Tinha um sorrisinho meio irritante nos lábios e olhava para o Malfoy de uma maneira irônica que ele não soube dizer ao certo aonde chegaria. Talvez fosse falar alguma coisa sobre sua família ou sobre a origem duvidosa de sua pequena fortuna.

- E, mesmo assim, aqui está você.

Ele disse.

- E, mesmo assim, aqui estou eu.

Draco respondeu.

- É por causa da Gina, não é?

A risada do Malfoy foi espontânea. Não que o Potter estivesse errado, longe disso, mas era engraçado que lhe dissesse aquilo, especialmente nas circunstâncias atuais, com alguma crença absurda de que Draco fosse agora simplesmente sentar e contar-lhe detalhes de sua vida amorosa. Era, realmente, muito engraçado. O próprio Harry chegou a rir em retorno, diante da reação do loiro.

- Me desculpe, Potter, eu não sabia que meu interrogatório já havia começado.

- É só uma pergunta.

Naturalmente, Draco teria dito a Harry para que cuidasse dos próprios assuntos e o deixasse em paz. Na verdade, estava já com as palavras na ponta da língua, quando decidiu ponderar sobre o assunto. Seria bem conveniente se o Potter ficasse sabendo de seu interesse pela Weasley, sobretudo agora, que já tinha certeza dos sentimentos dela. Lembrava-se de vê-los juntos em Hogwarts e sabia da amizade que eles nutriam desde então. Não gostava de se considerar um homem ciumento, mas achou aquela uma ótima oportunidade de deixar claro que Gina estava fora do mercado.

- Talvez seja por causa dela.

Assim que admitiu, fez questão de olhar para Harry. Este, apenas assentiu e se apoiou nos cotovelos, olhando para Draco da mesma maneira irritante e sugestiva, como se nada que pudesse sair da boca do loiro pudesse surpreendê-lo.

- Sabe, poderia ajudar se você me contasse o que sabe sobre... você sabe, as pessoas que vamos enfrentar amanhã.

Foi a vez de Draco sorrir. Se tinha uma coisa que ainda podia fazer, era ironizar o Potter. Certamente aquilo tiraria da cara do grifinório aquele sorriso presunçoso num só instante. Ao menos, costumava dar certo quando implicavam um com o outro, na infância.

- Eu assumo que você não esteja falando do romance entre Parkinson e Nott, está?

E lá se foi o sorriso do Potter, dando lugar para uma longa rolada de olhos.

- Não, não estou.

- Ou, então, de que Emília Bulstrode começou a fumar, semestre passado.

Ainda que Harry permanecesse em silêncio, Draco não pararia de falar. Na verdade, aquela cara de poucos amigos que se instalara na face do Potter o estimulava a continuar. Com um sorriso cínico ele prosseguiu, ilustrando com um gesto displicente da mão suas impressões sobre o cigarro.

- Pense sobre isto um instante, Potter, eles estão lutando pelo "sangue puro" enquanto fumam cigarros trouxas.

- Alguma coisa relevante, Malfoy!

Se não estivesse tão cansado, Draco duvidava que Potter teria o dado o gosto de vê-lo impaciente tão rápido. Talvez fosse algum plano da própria Ordem o de tirar dele algumas informações antes da ação do próximo dia, e certamente que seria ideia da Granger, a única que ainda tinha um cérebro operante naquela espelunca.

Talvez estivesse cansado também, por que a ideia de simplesmente dizer o que sabia e acabar logo com aquilo lhe soou muito agradável. Em outra ocasião, talvez se estendesse mais falando sobre futilidades dos comensais, mas desejava mesmo ficar em silêncio, lidando com suas questões interiores e revisitando os doces momentos que passara com Ginevra nos últimos dias.

- Eles querem o que sempre quiseram: poder. Não sei mais o que eu possa lhe dizer.

Deu para ver Harry se mexendo ao seu lado, sentando-se, como se tivesse ficado subitamente interessado no assunto. Draco apenas virou o rosto na direção dele, analisando-o. Aparentemente finalmente o tema importante da noite havia chegado para o Potter.

- Quantos eles são?

Isso era uma questão complicada. O fluxo de membros era bem... rotativo. Então não dava para dar um número muito certeiro, ainda que quisesse ajudar. Considerando todas as mortes que poderiam ou não ter ocorrido e os membros que poderiam ou não terem entrado para o clubinho das trevas, qualquer quantidade era arriscada.

- Eu não faço a mais remota ideia... por volta de trinta, talvez.

Potter arqueou as sobrancelhas sem esconder a surpresa pelo número. Certamente que esperava algo em torno de dez ou quinze, nada chegando a mais de duas dúzias de pessoas. E Draco sabia que essa era uma quantidade de pessoas bem otimista, pois se eles tivessem realmente chegado a fechar todos os acordos necessários para iniciar uma guerra, o número facilmente passaria de cem.

- Acho que vamos precisar de reforços.

"Que exagero", Draco pensou girando os olhos e bufando na sequência, fazendo pouco caso. Não que a quantidade fosse insignificante, mas comensais não eram muito populares por aí por serem fiéis, leais e dedicados à causa. No primeiro contratempo, sempre viravam as costas e se distanciavam, por que colocavam as próprias vidas acima da causa – e talvez esse fosse o motivo de tantas derrotas ao longo dos anos.

- Eles não são exatamente incríveis. Nós teríamos problemas se minha tia ainda estivesse viva, mas eles... nah. Acho que cinco estudantes bem treinados do primeiro ano da sonserina são capazes de contê-los.

Por algum motivo, Harry riu. Mas não foi o suficiente para fazer Draco acompanha-lo. Na verdade, decidiu sentar-se para continuar conversando sem que o sono batesse. Já devia ser por volta de dez ou onze horas e sabia que, em breve, começaria a bocejar.

- Então você é o último Malfoy?

A pergunta o pegou de surpresa. Não tinha parado para pensar ainda que a linhagem dos Malfoy acabava nele e que não havia ninguém no mundo com quem compartilhar aquele peso que era carregar este sobrenome que ele considerava amaldiçoado. Sorriu meio triste, voltando a olhar para o céu, lembrando-se do pai por um momento.

- Sou? Eu nunca parei para pensar nisso. Eu acho que sou, sim.

Lucius Malfoy lhe ensinou muitas coisas, mas nunca lhe falou sobre ser o último Malfoy. Talvez ele e Narcisa tivessem esperanças de ter mais um filho em algum momento, ou talvez só não tivesse lhe ocorrido que o filho era o responsável pela continuidade da família. E Draco tinha certeza que ele não hesitaria em colocar uma carga dessas sobre seus ombros, caso tivesse a oportunidade.

E, para ser sincero, isso o fazia querer não ter filhos nunca, para parar de disseminar aquele sangue maldito pelo mundo. Certamente que o planeta não precisava de mais uma ou duas cabeças loiras perdidas e descompensadas, circulando por aí, como ele mesmo fazia agora.

- E sobre Voldemort?

- O que? Ele não era um Malfoy.

Harry suspirou.

- Não, ele está morto, certo?

Draco quase riu ao perceber a confusão. Definitivamente estava começando a ficar com sono. Apenas passou a mão no rosto, tentando se livrar dos pensamentos sobre o pai e voltou-se de frente para o Potter.

- Ah, sim. Ao menos estava, até onde eu sei, e não há ainda algo que possa ressuscitá-lo, nem mesmo as relíquias da morte seriam suficientes.

- Não seriam?

E o Malfoy negou mais uma vez, sacudindo a cabeça negativamente. Se havia algo que o fazia agradecer a uma força divina todos os dias, era que Voldemort não teria jamais poder para voltar ou ser trazido de volta à vida. Aquele problema tinha se encerrado e jamais retornaria. Lidar com seus seguidores, por mais complicado que fosse, não se comparava à dificuldade que era se opor ao Lorde das Trevas.

- Não. Um dos contratempos de se fazer horcruxes, creio eu.

Enquanto ouvia, Harry coçou a cabeça e bocejou mais uma vez. Logo em seguida, piscou algumas vezes, tentando afastar o sono, e esfregou os olhos. Draco não soube dizer o que o fazia lutar tão bravamente para ficar acordado. O assunto era tão interessante assim ou o Potter simplesmente não queria voltar para a Ordem? Foi quando ele questionou:

- Se não é para revivê-lo, qual o motivo então? Por qual motivo se reuniriam novamente e tentariam voltar com essa insensatez? Por quê?

- Pelo mesmo motivo que as pessoas fazem tudo, Potter.

E ergueu os ombros, como se a resposta fosse óbvia.

- É simplesmente assim que eles são. Eles realmente acreditam que isso fará do mundo um lugar melhor. O intuito ali não é fazer pirraça, é melhorar o mundo. E eles acham que assim, vão chegar lá.

O Potter se agitou no telhado, como se isso o houvesse energizado de alguma forma. Parecia inconformado com a resposta e com tudo que ela significava. E também dava para ver que realmente despendera algum tempo pensando sobre o assunto, realmente tentando compreender, o que era uma surpresa para Draco, que sempre o imaginava atirando dardos contra o retrato de Voldemort nas horas vagas. Jamais cogitaria que Harry se preocupava em tentar encontrar alguma lógica nos comensais e isso o fez considera-lo um pouco mais.

Nada que ele fosse verbalizar algum dia, é claro.

- Mas é um pensamento burro, Malfoy! Você esteve lá, você sabe do que estou falando!

E gesticulou de forma incisiva enquanto falava. Draco apenas assentiu, erguendo os ombros novamente, pois sabia que não havia nada que pudesse ser feito a esse respeito. Quer dizer, não se pode ajudar quem não quer ajuda, certo? Nem todos teriam a dedicação de Ginevra Weasley, para simplesmente obrigar a ajuda, empurrando-a pela goela de quem quer que fosse junto de alguns comprimidos.

- Eu sei. Eu penso assim também, Potter. Do contrário, estaria lá agora e não aqui, neste telhado imundo, fofocando com você e fazendo poções para combatê-los.

Ao dizer em voz alta, os olhos de Draco se perderam um pouco no ar, como se finalmente percebesse o que estava fazendo. Então ele arquejou e suspirou logo em seguida, sacudindo a cabeça negativamente e levando uma das mãos à testa, massageando as têmporas. Era esquisito assimilar que aquela era sua realidade agora e pior: estava satisfeito com isso. Só de imaginar o que sua mãe diria, sentia até um calafrio.

- Estou feliz que meus pais estejam mortos, pois seria realmente difícil explicar o que está acontecendo agora.

E suspirou, passando os dedos pelos cabelos e pensando no que acabara de dizer. Estava feliz pela morte dos pais? Claro que não. Bem, talvez tivesse ficado um pouco feliz quando Lucius morreu, mas, mesmo assim, não fora o sentimento predominante, com certeza. Mas realmente era um certo alívio não os ter mais, ainda que isso soasse cruel. Com os pais, uma grande parte de si morrera. Uma parte que ele preferia esquecer.

- Como você conseguiu fazer a poção?

A voz de Harry o tirou dos devaneios e ele assentiu, ainda meio desconexo.

- Não foi tão difícil quanto você imagina.

Se Harry tivesse dito alguma coisa, talvez não houvesse dado o tempo que Draco precisou para pensar em uma resposta um pouco mais ácida, que ele nem hesitou em dizer, como se completasse sua frase anterior.

- Se quer mesmo saber, eu sempre fui muito bom em poções. Muito melhor que você e até a Granger.

Uma risada fraca escapou pelos lábios de Harry e ele sacudiu a cabeça negativamente, como se estivesse ouvindo um grande absurdo.

- Eu não posso concordar com isso.

- Eu não preciso da sua autorização para me autoproclamar o melhor aluno em poções que Hogwarts já viu. Talvez, apenas depois do professor Snape. E somente talvez.

Não pôde evitar e bocejou, sentindo que a hora de dormir se aproximava cada vez mais. E Draco não tinha a menor intenção de ficar lutando contra o sono, quando este chegasse, como Potter vinha fazendo. Na verdade, esperava mesmo dormir logo (e muito) para que o dia seguinte chegasse logo e tudo se resolvesse o mais rápido possível.

- Enfim, eu detesto dizer isto, mas tive ajuda no processo. Blaise me falou do cheiro, Lovegood me trouxe óleo de dragão e Ginevra me proporcionou um porão fedido para fazer alguns experimentos.

Harry assentiu, parecendo já saber dessa informação do porão. Será que havia alguma coisa que Gina e sua boca enorme não contassem a ele? Será que já havia mencionado suas conversas? Não, as conversas não. Eram pessoais demais. Mas, talvez, as outras coisas ela tivesse contado. Tinha certeza sobre as partidas de xadrez, afinal de contas até Zabini já sabia delas, o Potter devia estar ciente também...

- Ela estava tentando decifrar essa poção há semanas.

- Ginevra é muito ruim nisto. Me lembro de quando ela veio sugestivamente conversar comigo sobre o assunto, na noite em que Blaise deu entrada no hospital.

- E foi por isso que decidiu ajuda-la?

Já imaginava onde aquela conversa chegaria. Talvez Gina não houvesse contado tudo, afinal de contas. Certamente que o Potter tinha lá suas desconfianças sobre as coisas que ela dissera, mas por algum motivo não se atrevia a questionar a própria Weasley. E Draco não tirava a razão dele, pois sabia que ela podia ser bem nervosinha, especialmente se contrariada. No entanto, resolveu não dar o braço a torcer e sacudiu a cabeça em negativa.

- Você é um tolo se está pensando que me tornei uma pessoa altruísta e cheia de princípios, como você ou ela. É só que ninguém dá uma garrafada na cabeça de Draco Malfoy e segue impune.

E lá estava, novamente, o sorrisinho irritante.

- Amor é, realmente, algo complicado.

"Mas que inferno", Draco pensou revirando os olhos e bufando.

- Eu não consigo nem escolher uma grosseria para te dizer agora, Potter, juro por Merlin.

Por mais que não quisesse o alcoviteiro do Potter se metendo nos assuntos dele e de Ginevra, Draco não conseguia negar. Desconversava, respondia coisas diferentes, mas não dava simplesmente para levantar-se e dizer que não sentia nada pela Weasley. Era dolorido pensar em fazer isso e, honestamente, não queria. Não tinha um motivo sequer para esconder e certamente que não o faria somente por orgulho.

No entanto, conforme o costume, rapidamente desviou o foco para outra coisa. Uma que o deixara relativamente curioso no começo da noite.

- Mas vou te poupar do meu julgamento, uma vez que você já parece estar pagando bem caro pelo relacionamento com a Granger.

Definitivamente o Potter não estava esperando por aquilo. Arqueou as sobrancelhas e começou a coar o braço, completamente incomodado, o que fez Draco se sentir meio vingado. Ficou apenas observando em silêncio, tentando estudar a próxima manobra de Harry, que ficou alguns segundos sem saber muito bem o que dizer.

- O nome disso é arcar com suas escolhas.

- Exatamente.

Draco assentiu prontamente, como se fosse dar o assunto por encerrado. No entanto, Harry insistiu.

- Você vai arcar com as suas?

E ele ergueu os ombros.

- Eu estou aqui, não estou?

"Nesta cidade de merda, desfrutando da sua companhia de merda", Draco completou em pensamento. Para Harry, aquilo pareceu ser o bastante, mas desta vez o Malfoy resolveu insistir. Ao pensar novamente em Londres e em todo o desgosto que lhe trazia permanecer naquele lugar, ele apontou acusadoramente para o Potter e prosseguiu.

- Sabe, Potter, eu tenho que admitir, eu admiro uma coisa em você.

Ao ver que Harry ficou surpreso com sua frase, Draco pareceu ainda mais munido de vontade de prosseguir com seu raciocínio. Tinha certeza que se Gina estivesse ali, provavelmente fosse alertar o Potter da ironia que estava por vir e colocaria fim ao seu pequeno divertimento.

- É verdade, sim. Eu admiro sua habilidade de ver beleza neste lixo que se tornou Londres.

Harry desviou o olhar, parecendo ainda meio surpreso, mas mais melancólico. Ficou assentindo lentamente, conforme Draco ia falando e exemplificando sobre os desgostos de permanecer na Inglaterra, fosse no mundo bruxo ou trouxa, não importava. Tudo parecia apático e repetitivo, sem qualquer paixão ou empolgação e não havia nada que pudesse fazer contra essa verdade.

- Olhe bem para isto. Olhe bem. Olhe todas essas luzes, essas pessoas tão mecânicas quanto os elfos de Gringotes...

- Andando em círculos, sem saber de nada que acontece.

Quando ouviu Potter completar sua frase, Draco chegou a se calar por um momento, tamanha surpresa. Então, logo na sequência, agitou a mão no ar, empolgado com a constatação de que havia encontrado alguém que concordava com ele.

- Exatamente!

Ao que Harry assentiu, antes de dar uma olhada na cidade, que cintilava sob as estrelas. Suspirou, como se nada ali lhe interessasse, por mais que soubesse, em algum lugar dentro dele, que Londres era sim, muito bonita. Só não para ele.

- Eu não vejo a menor beleza em Londres, Malfoy.

Por notar que Draco concordava, Harry assentiu suavemente, parecendo determinado a convencê-lo de que pensava da mesma forma. E pareceu aliviado de verdade em falar sobre isto, como se não houvesse outra pessoa com quem pudesse compartilhar este tipo de pensamentos.

- Se eu pudesse, eu me mudaria para algum lugar bem, bem longe. Algum lugar na Irlanda, talvez, longe da cidade, onde eu possa ver o céu sem todos estes prédios.

Seus olhos chegaram a se iluminar um pouco, parecendo realmente visualizar o cenário que descrevia, como se já o tivesse visitado tantas vezes em pensamento que se tornara uma fácil viagem para seu imaginário. Notando ainda a expressão de surpresa no rosto de Draco, ele reafirmou.

- É verdade, eu costumava falar sobre isso com Sirius...

- Pode-se saber o motivo de você manter esta maldita Ordem, então? Eu pensava que era para a segurança de Londres.

Draco nem hesitou em interromper. Sempre que o assunto era Harry Potter ou a Ordem e seus membros, sempre os imaginava ridiculamente fiéis a Londres, Voldemort, Hogwarts e quaisquer outros cenários idiotas que julgassem perfeitos, como se fossem estúpidos demais para conseguir enxergar a deterioração que dominava todo aquele pedaço do mundo. De um mundo tão grande e cheio de possibilidades. Era até um crime ficar aprisionado ali, com tantas coisas a se fazer e descobrir.

- Estamos combatendo comensais, Malfoy. Nós precisamos...

- Ah para cima de mim, Potter?

O Malfoy bufou e apertou os olhos, demonstrando uma impaciência para aquelas desculpas esfarrapadas. Aquilo poderia até fazer sentido para mentes mais simplórias, como a do Weasley, mas se o Potter realmente quisesse convence-lo sobre permanecer em Londres, teria de se empenhar mais do que aquilo.

- Vamos, tenha alguma honra, sim? Me diga a verdade.

Diante do silencio de Harry, ele continuou.

- Você já é auror. Seus amigos são, vocês poderiam fazer tudo isto sem manter a sede de uma organização que o próprio ministério considera extinta.

Então sacudiu a cabeça negativamente, como se reprovasse cada vez mais as respostas de Harry, que permanecia em silencio, apenas observando-o de uma forma meio acanhada, como se houvesse sido pego na mentira. O que, de fato, fora.

- Eu posso listar outros vinte motivos pelos quais você está simplesmente insultando a minha inteligência e mentindo para mim agora.

- Está bem! É por causa dela.

Harry exclamou, parecendo farto de ouvir as explicações de Draco e dando-se por vencido. O loiro cruzou os braços contra o peito e deu um sorriso vencedor, considerando-se uma das criaturas mais sagazes do planeta.

- É por causa dela. Eu adoraria já ter sumido daqui, por mais que eu saiba que vou sentir falta dos meus amigos, eu gostaria de ir para algum lugar novo, ao menos por um tempo.

Novamente, aquilo soava muito como um desabafo. Algo que ele talvez não tivesse coragem de dizer nem mesmo para a própria Granger, por mais que devesse. E Ginevra ainda tinha a audácia de dizer que Draco tinha problemas em se comunicar com humanos. Se ela visse os avanços que fizera com Potter esta noite, certamente o daria uma medalha de Mestre da Comunicação.

- Mas não me adiantaria muito ir sozinho, certo? Quer dizer, qual o sentido de estar lá e saber que falta uma parte importante?

Aquele era um questionamento que também o assombrava. Pensava na mesma coisa sobre Gina e a Grécia. Sabia que Londres havia perdido a graça, mas também não queria partir e viver sem a Weasley. Era, realmente, um dilema. No entanto, Draco decidiu fazer por Potter algo que sua mãe, uma vez, lhe dissera ser uma atitude nobre. Dar a alguém o conselho que você mesmo precisa ouvir.

- Olhe, Potter, por mais chocante que isso possa ser, você sabe que os nascidos trouxas andam de avião, certo? Foram eles que inventaram esta porcaria, eu pensei que você soubesse.

Harry franziu as sobrancelhas e tirou os óculos, em seguida, para esfregar os olhos novamente.

- O que quer dizer com isso?

- Quero dizer que a Granger, por mais esquisita que possa ser, não fincou raízes no solo, como uma árvore. O que significa que você poderia levá-la.

Assim que terminou de falar, Draco bocejou mais uma vez, desta vez um pouco mais lento, já se sentindo mais abatido que antes. Voltou seu olhar para o Potter, que parecia tão ou mais cansado que ele e decidiu que aquela conversa havia chegado ao fim.

- Francamente, e você conseguiu se tornar auror...

Foi colocando-se de pé e se espreguiçando, percebendo que não teria como vencer a batalha contra o sono. Na verdade, deveria mesmo estar bem descansado para o dia seguinte e se Potter não se importava em lutar bem para sobreviver, bom, ele se importava.

- É o que pretende fazer sobre Gina? Vai leva-la? Duvido que a faça subir num avião e largar tudo aqui.

Foi caminhando pelo telhado, tentando não se desequilibrar enquanto rumava na direção da janela. Apenas negou com um gesto do indicador, até que apoiasse as mãos no parapeito. Ginevra podia até perdoá-lo por morrer em combate, mas sabia que jamais ia deixa-lo descansar em paz se a causa do óbito fosse a queda do telhado.

- Eu não pretendo exatamente fazê-la subir num avião e largar as coisas dela.

Então foi passando as pernas pela janela, voltando para dentro da Ordem. Harry não fez qualquer menção de se mover e ele compreendeu que o Potter ainda lutaria contra o sono um pouco mais. Apenas para finalizar, debruçou-se na janela e disse:

- Ela irá comigo, mas só se ela quiser. Ginevra sempre soube voar muito melhor do que eu ou você, certo?

Não havia como negar aquilo.

- Certo.

N/A: Gente, que difícil foi fazer esse capítulo.

Embora eu já faça isso há mais de quinze anos (vocês acreditam nisso? Eu acho que escrevo fanfics desde 2006! Jesus!) fazer Draco e Gina é um desafio do cacete.

Ás vezes eu leio e gosto, ás vezes eu acho que eles JAMAIS se comportariam da forma que eu estou moldando e penso que tá tudo horrível, tipo agora. Tô com um sentimento esquisito, de meio que "ter perdido a mão", sabe? Esquisitíssimo,

Bom, vamos falar sobre este capítulo agora.

Eu reli a fanfic todinha para ver se havia algum furo ou alguma coisa que estivesse faltando e vou prestar algumas explicações agora.

1 – Eu tentei deixar de forma implícita que seriam os seguidores do tio Voldie tentando retomar o poder (até por isso eles estão criando poções, pq Voldemort não precisava disso, ele se garantia no duelo que nem um filho da puta), mas acho que falhei miseravelmente hahahaha. Então fiz questão de deixar mais claro que ele MORREU BEM MORTO, MATADO, ENTERRADO, NÃO VOLTA MAIS. Me desculpem se não é tão grandioso quanto vocês esperavam, mas eu não queria outra Conluio na minha vida. Ao menos, não agora. Essa fanfic aqui foi imaginada pequenininha mesmo, com 10 capítulos, no máximo, então não teria espaço para uma trama tão bem elaborada. Me desculpem se desapontei vocês =(

2 – Eu não citei o Dumbledore, mas ele morreu também. Tudo segue na mesma até a batalha de Hogwarts. De lá pra frente é que as coisas mudaram (O Jorge morreu, Luna e Blaise se conheceram, Harry e Gina terminam, Mione e Rony tbm, etc, etc, etc). Ah, o Snape morreu também! Eu citei a morte dele no capítulo "Amor de ratos", quando o Draco agradece mentalmente a poção ter funcionado e cita o professor.

3 – Tive que dividir esse capítulo em duas narrações por causa dessa parte do Draco com o Harry. Nem estava programada essa interação deles, mas eu achei que vocês sentiriam falta. Assim como a relação do Draco com a Gina, acho que ele já é bem grandinho para conseguir trocar meia dúzia de palavras com qualquer pessoa sem manda-la para o inferno (por mais que ele pense a respeito). E eu gosto de vê-los juntos. Acho que os dois assim, interagindo, exemplificam melhor as diferenças entre eles e formam uma boa equipe justamente por um conseguir ver algo que o outro não enxerga.

4 – A Gina poderia ter ido à noite na Ordem ver o Draco mais uma vez, mas o encerramento deles no hospital é muito simbólico para mim. Foi ali que eles começaram, é ali que eles se despedem. Quando sai de lá, o Draco volta para a realidade e a Gina ainda não é parte desta realidade. Por isso, eles se separam ali.

5 – Eu acabei de acabar esse capítulo e nem revisei o coitado. Se vocês acharem erros, me desculpem! Mas achei que era melhor não enrolar mais e postar de uma vez hehehehe.

Gente, se vocês tiverem mais dúvidas, por favorzinho, me mandem logo. Só falta o último capítulo e o epílogo agora... Beijos e muito obrigada!