CAPÍTULO 16 - MAGIA

" - Por que a Selina?

- Por que eu queria feri-lo da pior forma possível. Sei o que aquela vagabunda de rua significa pra você... mesmo que negue para si mesmo. Pouco importa com quem você namore... diplomata, socialite ou aberração heroica... Há apenas uma mulher que realmente detém o seu coração."

Batman – O coração do Silêncio, Paul Gini

/

Bruce releu uma dezena de vezes o bilhete que estava sobre o travesseiro junto com anel de noivado que fora de sua mãe.

morcego,

Você disse que somos iguais. Se somos iguais, sei que você não permitiria me perder ou perder Helena. Então eu não também não me permito perder vocês.

Preciso acabar com essa ameaça de uma vez por todas.

Por favor, não me procure. E cuide de Helena.

Sempre sua,

gata

Quando Bruce acordou o sol já tinha se posto novamente e já era noite em Gotham. Dormira a noite e o dia inteiros. Percebeu de imediato que Selina o dopara, provavelmente ela colocara algo em sua bebida.

Enquanto vestia-se, Bruce se culpava por aquilo. Ele nunca baixava a guarda. Nunca. Estava sempre preparado pra tudo. Somente Selina tinha esse poder de fazê-lo baixar a guarda, de deixá-lo despreparado.

Ela estava sempre um segundo de distância a frente de suas mãos.

/

Desceu direto para a caverna, àquela altura descobrira o alarme da garagem desligado e que um de seus carros havia sumido e encontrava-se estacionado em um beco de Metrópolis.

Parando apenas para entrar em contato com Clark e para explicar de forma breve o que acontecera a Alfred, ele saiu da caverna com destino a Metrópolis, mas não foi como Bruce Wayne. Aquela noite ele era o morcego.

/

Selina conseguira entrar na cobertura da Luthor Corp pouco antes do dia amanhecer.

Quando esteve na mansão, Ivy lhe dera orientações sobre o lugar que Luthor dormia, na cobertura do prédio principal da Luthor Corp. A ex-amiga havia explicado a Selina sobre o sistema de segurança do luxuoso apartamento e o resto a ladra descobriu sozinha. Ivy havia dito a Selina que atacasse Luthor enquanto ele dormia, pois era o único momento que o homem estava vulnerável, pois Luthor tinha insônia e tomava fortes drogas para conseguir dormir. E embora ela quisesse ver o medo nos olhos do crápula que lhe baleou, ela aceitou a sugestão de Ivy e optou pela opção mais segura.

Selina andou pelo apartamento a procura do dormitório principal e estava eufórica com a facilidade que conseguira acessar o lugar pelo elevador principal.

Parecia fácil demais.

E talvez seus instintos estivessem um pouco enferrujados, pois ela só percebera tarde demais. Só percebera que era uma cilada, quando sentira o braço possessivo de Luthor agarrar-lhe e prender-lhe com um golpe mata-leão.

- Eu gostei da roupa de gata... – Ele disse em seu ouvido. – Eu já desconfiava que a ladra de Gotham era você... Selina Kyle.

Antes que Selina pudesse feri-lo com suas garras afiadas, Luthor aumentara a pressão em seu pescoço. Em segundos ela caíra na inconsciência, ainda pensando na armadilha que Ivy lhe tinha aprontado.

/

- Por que ainda não me matou, Lex? – Selina perguntou quando acordou e Luthor estava de pé a frente dela. Ela sentou-se no catre onde fora deixada e observou que estava em uma pequena cela de paredes cinzas.

- Sabe Selina, você poderia ter sido a dona disso tudo... – Luthor falou casualmente.

- Ou eu poderia ter acabado numa vala sem identificação como várias ex- amantes suas. – respondeu petulante.

- Talvez não, você tinha potencial. – Luthor disse se aproximando. - Você tem todo esse lado egoísta que me atrai... Uma legítima criminosa... como eu. Junto, nós poderíamos ter sido grandes. Você é o tipo de mulher que está por trás de um homem como eu...

- Se você acha que eu sou o tipo de mulher que fica por trás de um homem, está muito enganado...

- Ah, pois me diga uma coisa que eu não entendo... – Luthor disse pegando o maxilar de Selina com uma mão, fazendo-a encará-lo. - Você nunca me quis, mas fica de quatro pra aquele playboy almofadinhas do Wayne... o que ele tem? Um pau do tamanho de um braço?

- Pode não ser do tamanho de um braço, mas é bem maior que o seu... – Selina disse com satisfação, cuspindo no rosto de Luthor.

Ela caiu sentada sobre a cama da cela com o soco que ele lhe dera. Seu lábio sangrava. Aquela velha insanidade que ela conhecia, voltara aos olhos de Luthor.

- Por que não me matou ainda? – Selina repetiu, limpando o sangue que escorria do corte na boca.

- Eu não vou te matar, Selina. - Ele disse parecendo satisfeito. - Não... isso é muito simples, é um prêmio... Eu vou quebrar você. – disse apontando-lhe um dedo. - Eu vou ver você chorar sobre o cadáver daquele playboy inútil e daquela linda garotinha que vocês fizeram.

- Você não pode fazer isso, Bruce é um homem poderoso. – Selina disse descrente. - Você não pode simplesmente matá-lo.

- Até os poderosos sofrem acidentes, gatinha. Um jatinho pode cair, uma Ferrari pode perder os freios, uma mansão pode explodir... Ah isso já aconteceu com a dele, não é? – disse satisfeito ao ver o medo se instalar nos olhos da mulher. - Até um maluco pode invadir a mansão e balear todo mundo. Isso acontece todo dia em Gotham...

Selina engoliu em seco.

- Você já tem a mim. – Ela falou levantando-se, aproximando-se de Luthor e passando a mão por suas costas. – Eu não ligo pro playboy, estava com ele pelo dinheiro e porque a menina queria ficar perto do pai. Se poupá-los, eu posso ser todinha sua... – sussurrou ao ouvido dele.

Luthor pareceu considerar.

No momento seguinte ele a empurrou com violência, Selina caiu sentada após bater as costas numa parede.

- Você já é toda minha. – Luthor deu alguns passos na direção dela, a malícia em seus olhos.

Ele foi interrompido antes de tocá-la novamente.

Uma bela mulher de cabelos negros, vestindo um tailleur preto adentrou a cela.

- Senhor Luthor, a reunião com a diretoria da Luthor Corps começa em cinco minutos. – falou de forma impessoal, sem olhar para Selina.

- Nos divertimos mais tarde, gatinha. – Luthor disse já saindo da cela, a mulher de terninho seguiu atrás dele. Antes de sair, a mulher lançou um rápido olhar para Selina.

A gata achou que tinha batido a cabeça forte demais, pois, por um segundo, ela viu os olhos daquela mulher.

E parecia que estavam brilhando.

/

Era noite quando Selina escutou passos se aproximando de sua cela. Passara o dia inteiro imaginando formas de atacar Luthor quando ele voltasse, mas na cela não havia absolutamente nada que pudesse usar como arma. Os seguranças que a vigiavam eram meticulosos. Até sua roupa de gata fora tirada e deixaram-na vestindo apenas uma simples regata e uma calcinha. Ela sentia frio e tinha certeza que os seguranças vinham a cela constantemente, não só para vigiá-la, mas para a olhá-la e isso a enojava. Embora usassem capuz, ela sabia que aquele olhar predador devia estar em seus olhos.

Selina sabia que Luthor viria aquela noite e ficava nauseada somente em pensar que ele poderia tocá-la. Não saber como pará-lo a deixava doente.

Naquela cela vazia ela sentia novamente aquela sensação que odiava. Sentia-se vulnerável. Fora tola de acreditar em Ivy, tola em achar que conseguiria deter Luthor apenas invadindo seu apartamento e o matando enquanto dormia. Agora estava prestes a ser abusada novamente por aquele monstro, talvez morta e ainda colocara Helena e Bruce em perigo.

Quando os passos ficaram pertos o suficiente, ela se levantou.

Selina Kyle não ia cair sem lutar.

Mas não foi Luthor quem apareceu. Era a mulher de tailleur e cabelos negros. Vinha acompanhada de outros dois seguranças que também usavam capuzes e eram tão grandes quanto os que vigiavam sua cela.

- O senhor Luthor a espera em seus aposentos. – a mulher falou mecanicamente.

Selina avaliou se conseguiria lidar com os dois seguranças que pareciam muito fortes, mas percebeu que teria mais chances se ficasse a sós com Luthor, por isso manteve-se quieta. Deixou que os dois a segurassem e a fizessem andar.

Entraram em um elevador que subiu por muito tempo. Selina sentia frio. Estava descalça e quase nua. Os seguranças estavam a seu lado e a mulher a sua frente. O elevador só estancou quando chegaram a cobertura.

No instante seguinte estavam na bela e grande sala de estar da cobertura. Lex preparava uma bebida no pequeno bar que ficava em uma extremidade da sala.

Ele virou-se para encarar o grupo que chegava. Segurava um copo de bebida e afrouxava a gravata com outra mão. Abriu um sorriso cínico quando viu Selina.

- Acho que teremos uma noite muito divertida. – falou olhando Selina de cima a baixo, devorando-a. – Senhorita Sindella, pode levar os rapazes. Deixem-me a sós com a bela senhorita Kyle. – pediu para assistente, estalando a língua após tomar outro gole de sua bebida.

Enquanto Selina esquadrinhava a sala a procura de algo com o que pudesse ferir Luthor quando estivessem sozinhos, ela viu a mulher de tailleur dar um passo à frente.

- Sinto informar, mas creio que o senhor não ficará sozinho com a senhorita Kyle...

- O que quer dizer, mulher? – Luthor indagou irritado.

- Ela quer dizer, que pegamos você, Luthor.

Um dos seguranças encapuzados foi até Luthor numa velocidade espantosa e o prendeu torcendo seus braços em suas costas, fazendo o copo de bebida cair no chão e espatifar-se.

Sem entender o que acontecia, Selina tentou aproveitar o momento para fugir, mas foi detida pelo outro segurança que permanecia ao seu lado.

- Fique onde está, gata...

Selina olhou para o mascarado.

- Você...

- Eu te disse que tinha um plano...

Ela ia responder, mas sua atenção foi tomada pela mulher de terninho que, em um passe de mágica, se transformou na sua frente. E naquele momento Selina lembrou dela. Era a mulher, a morena que estivera no restaurante com Bruce.

- Selina, essa é Zatanna. – Bruce falou ao colocar uma mão sobre o ombro de Selina. - E ela vai nos ajudar a resolver as coisas com Luthor.

- Quando você quiser, Wayne. – A mulher estava de braços cruzados, como se esperasse a ordem.

- Um momento, por favor. – Bruce pediu a mulher e caminhou até onde um Clark mascarado segurava Luthor que se debatia em vão. Selina não se moveu.

- Você é um crápula, Luthor. – Bruce disse encarando-o ao tirar a máscara. – Um dia eu vou te ver na prisão.

- Quem diria que o playboy de Gotham tem culhões? – Luthor sorriu meio insano, ainda surpreso com toda a cena. – Tudo isso por um lixo das ruas, Wayne?

Bruce agarrou-o pelo paletó e deu-lhe um soco na boca.

Quando sorriu, os dentes de Luthor estavam vermelhos, como os de Selina estiveram mais cedo.

– Eu sinto que estou em desvantagem aqui. – Luthor admitiu. - Que tal um acordo de cavalheiros? Pode levar a mulher. Prometo que não faço mais nada com ela ou com a pequena vagabunda.

Luthor levou outro soco, esse quebrou-lhe o nariz.

- Eu não acredito nisso. – Bruce falou ao dar um terceiro soco em Luthor, dessa vez no estômago. – Você nunca vai nos deixar em paz.

- Não conhecia esse seu lado psicótico. – Luthor disse ao recuperar o fôlego. - Vai me matar, Wayne? Quer dizer que eu não sou o único bilionário assassino por aqui...

Bruce não respondeu. Apenas deu as costas para Luthor e foi até Selina que continuava parada próximo ao elevador.

- Quer dizer alguma coisa a ele? – Bruce indagou levando uma mão ao lábio machucado de Selina.

- É tentador. - Selina falou olhando Luthor. – Mas, eu prefiro ficar longe. Só ponho as mãos nele se for para matá-lo.

- Isso não será necessário.

- Mas Bruce, ele vai vir atrás de nós... – Selina disse com um certo desespero.

- Selina, confie em mim. – ele pediu segurando uma mão dela. - Uma vez na vida.

Ela ponderou. Estava dividida pela vontade de atacar Luthor, mas acabou cedendo.

- Tudo bem.

- Obrigada. – Bruce disse baixinho, beijando-a de leve nos lábios.

Depois voltou-se para Zatanna e fez um gesto autorizando-a. Clark soltou Luthor e antes que o bilionário pudesse fazer qualquer coisa, Zatanna gritou palavras que Selina não entendeu.

Um grande clarão se abriu na sala e no momento seguinte, tudo ficou frio.

Muito frio.

/

O vento frio cortava sua pele exposta e seus pés descalços queimavam no gelo. Ela demorou alguns segundos para entender a noite escura, o barulho dos trens ao longe, a grande ponte atrás deles cruzando o rio congelado.

Ela e Bruce estavam sozinhos nas margens de um rio de Metrópolis.

- Vamos sair daqui, você está congelando. – Bruce falou ao pegá-la nos braços, ele a levou até o imponente carro do morcego que estava estacionado em uma rua escura próxima ao rio.

Selina estava em um estado de torpor e atordoamento. Só conseguiu articular palavras quando Bruce a colocara sentada no carro.

- O que... o que aconteceu? – ela perguntou ainda tremendo enquanto ele fechava as portas do carro e um calor reconfortante tomou conta do veículo.

- Acabou.

- Aquela mulher... ela matou Luthor?

- Não. Ela apagou as memórias dele. – Bruce explicou. - Ele não lembra mais de você ou de Helena ou de mim. Ele não lembra de nada do que aconteceu entre vocês e ele nunca vai lembrar.

Ainda atordoada, tentando processar tudo, Selina observou que Bruce vestia a armadura de morcego, mas estava sem o capuz.

- Então esse era seu plano. – Ela suspirou se sentindo burra e sentindo-se irritada com ele. – Por que não me falou antes?

- Zatanna me pediu. Ela disse que você estaria mais segura assim. Luthor é muito esperto, não podíamos nos arriscar. Ela se infiltrou como assistente pessoal de Luthor após enfeitiçá-lo para contratá-la. Estava com ele há semanas. Vigiando-o.

- E por que ela não apagou a memória dele antes?

- Ela ainda não tinha o feitiço certo.

- Uma feiticeira! – Selina riu nervosa. - Por essa eu não esperava. E quem era o mascarado que segurou Luthor?

- Clark.

- Inacreditável, Bruce. – Selina falou agora com raiva. – Eu me arrisquei à toa... você podia ter me contado!

- Eu pedi pra você confiar em mim. – ele disse sério. - Você tem que deixar as pessoas cuidarem de você as vezes, Selina. Você não está mais sozinha...

Selina sentiu a raiva se esvair e seu peito se encher de um sentimento que ela quase nunca sentia. Ela sentiu gratidão. E sentiu uma vontade imensa de beijar o homem do seu lado. Então ela o beijou, um beijo leve, carregado de agradecimento que ela não era capaz de verbalizar.

Mas Bruce entendeu, ele leu nos olhos dela quando se separaram, e então ligou o veículo.

- Vamos pra casa, - Bruce disse em seguida, recolocando o capuz de morcego. – Você sempre quis andar nesse carro, não é? – ele falou acelerando o veículo.

- Meninos e seus brinquedos... – Selina disse espreguiçando no banco do passageiro quando partiram pela escuridão da noite.

Não queria mais pensar em Luthor, não queria mais pensar no passado. Só queria ouvir o barulho excitante do motor daquele carro e segurar a mão de Bruce. Ele estava ao seu lado, e ela podia confiar nele.

E agora eles tinham uma casa e uma família para onde voltar.

Isso bastava.

NOTAS FINAIS

A ideia de inserir Zatana nessa história surgiu quando li "O coração do silêncio" de Paul Dini. Nessa história, Zatana incentiva Selina a dizer a Bruce tudo que sente por ele, pois Bruce está namorando sério com Jezebel Jet, mas Silêncio captura Selina antes disso e rouba seu coração. Batman precisa correr contra o tempo para salvar a mulher que sempre amou. No final, Zatana dá uma forcinha para Selina se recuperar. É uma história que vale a pena, eu adoro. Também li em algum lugar que Zatana é o personagem mágico mais poderoso da DC, então seria a pessoa ideal para ajudar Bruce a resolver o problema com Luthor.

O papel de Selina na resolução do problema com Luthor não foi tão grande e isso foi proposital. Ela precisava entender que podia confiar em Bruce e que não precisa resolver tudo sozinha.

Obrigada pelo seu tempo, até o próximo ^^